quinta-feira, 5 de maio de 2016

Pânico na Multidão (1976) – Heston & Cassavetes na Mira da Morte em um Thriller com Dois Formatos.


O cenário, o estádio Coliseum Memorial de Los Angeles, palco das olimpíadas de 1932. Abrigado na torre do placar eletrônico, um franco-atirador ameaça disparar seu fuzil de mira telescópica sobre um alvo de gigantescas e trágicas proporções: 91 mil espectadores, onde são inclusos políticos e demais autoridades dos Estados Unidos, que estão assistindo uma acalorada partida de futebol americano numa tarde ensolarada de Domingo. Imperceptível para a câmera, o matador tanto pode se tratar de um psicopata, como na obra de Peter Bogdanovich em Na Mira da Morte, de 1968, ou mesmo um estudante como o que retratado pelo jovem Kurt Russell no telefilme A Torre da Morte, em 1975, baseada em fatos reais. Ou ainda, será que o franco-atirador pode ser um terrorista a ponto de tentar assassinar o Presidente dos Estados Unidos como fez o personagem de Frank Sinatra em Meu Ofício é Matar, de 1954? Tal enigma nunca era desvendado em sua versão lançada originalmente nos cinemas. A obra aqui retratada sofreria algumas mudanças como veremos a seguir.


Pânico na Multidão (Two-Minute Warning), cuja meta almejada por este Thriller que se tornou um dos campeões de bilheteria de Hollywood em 1976 é eriçar o potencial de angustia e tensão que penetra em cada um dos personagens, espectadores da partida ou não. Os que assistem ao aguardado jogo formam um turbilhão de hecatombes que fez moda no cinema nos anos de 1970. Dirigido por Larry Pearce, o mesmo cineasta que em 1967 filmou O Incidente, onde contava a história de 14 passageiros de um metrô nova-iorquino que eram espezinhados por dois delinquentes furiosos. Em Pânico na Multidão, Pearce volta a invocar sua vocação para intimidar o populacho.

Charlton Heston é o Capitão Peter Holly, da Polícia de Los Angeles.
Holly entre o Sargento Chris Button (John Cassavetes) da SWAT, e o Inspetor Sam McKeever (Martin Balsam)
Mas a direção de Pearce e a temática terrorista não são as únicas surpresas. Algo então inédito, PÂNICO NA MULTIDÃO se tornou o primeiro caso nas relações entre duas mídias conflituosas, o Cinema e a TV. Pela primeira vez, um filme mudou ao passar de um para outro veículo. Exibido nos cinemas cariocas em abril de 1977, tal como foi lançado em grande circuito nos EUA, tinha no elenco Charlton Heston, Martin Balsam, John Cassavetes, Beau Bridges, David Janssen, Gena Rowlands, Jack Klugman, e Walter Pidgeon. 

Charlton Heston, o "derradeiro guardião da espécie humana", dessa vez não pode agir sozinho.
Capitão Holly conta com a ajuda do Sargento Button da SWAT para dominar o franco-atirador.
Mas em 1980, ao adquirir da CIC (Cinema International Corporation) os direitos de transmissão, a cadeia de TV NBC tomou uma iniciativa inédita: aparentemente insatisfeita com o rendimento da fita nas bilheterias (ainda que fosse um dos grandes êxitos de 1976, mais de cinco milhões de dólares arrecadados), a rede televisiva suprimiu boa parte da obra original, e gastou ela própria 500 mil dólares para filmar novas cenas, inserindo novos personagens e novos atores, para dar poder paralela a trama. Mas a emissora julgou que o conteúdo era muito violento e pesado para a televisão: os executivos da NBC não só ficaram chocados com a morte de vários personagens simpáticos, mas também pelo fato das ações do atirador nunca serem justificados. Por isso, eles negociaram com o estúdio responsável pela produção, a Universal, uma reedição completa, eliminando muitas cenas e incluindo outras que justificariam a ação do sniper.

Durante a partida, na arquibancada, o vigarista (Jack Klugman) confidencia seus problemas a um padre, vivido por Mitchell Ryan.
Steve (David Janssen) e Janet (Gena Rowlands), um casal em crise que não percebe o eminente perigo.
Mike Ramsey (Beau Bridges) e sua mulher Pamela (Pamela Belwood), indo para o estádio.
Daí integrou Joanna Pettet, Rossano Brazzi, James Olson, e Paul Shenar, em um subenredo que corre paralelo ao roteiro original, contudo sem muita harmonia, onde sofreu também drásticas alterações, inclusive em sua metragem, que de seus 115 minutos originais para o cinema se converteram em 147 minutos para a televisão. Francesca Turner foi a responsável pela remontagem televisiva, tirando 45 minutos do filme original e acrescentando meia hora de novas cenas, numa versão reprovada pelo diretor Peerce (que usou o pseudônimo "Gene Palmer" nessa reedição).  Alguns anos depois, a mesma Francesca Turner foi responsável pelos remendos e pela remontagem da versão para a TV de Duna, de David Lynch, bem mais longa que o original e também reprovada pelo seu diretor.

O Sniper, fazendo mira do alto do placar eletrônico.
e consegue seu intento.
O Capitão Holly e o Sargento Button da SWAT, na mira da morte.
Em primeiro plano, Charlton Heston, o “derradeiro guardião da espécie humana”, como o foi em Planeta dos Macacos e A Última Esperança da Terra, novamente reluz como o mais abnegado herói do cinema de catástrofe, título este conferido ao ator desde seu desempenho em Voo 502 em Perigo, No Mundo de 2020, e Terremoto. Heston interpreta um chefe de Polícia, Capitão Peter Holly, da Polícia de Los Angeles. Mas ao contrário dos personagens anteriores,que encaravam o perigo solitariamente, aqui ele não pode agir só. Quando sua guarnição esta sem efetivo de homens o suficiente para encarar a missão, Holly recorre à SWAT, o celebrado esquadrão tão afamado graças a uma memorável série de TV produzida na mesma época que esta produção. Sob o comando do Sargento Chris Button (John Cassavetes, 1929-1989), sua SWAT ostenta sua tão contumaz tática de abordar cidadãos ainda que sejam inocentes.

Steve e Janet sendo importunados por um curioso.
91 mil espectadores, imperceptíveis ao perigo.
O Sargento Button, da SWAT, traçando planos com o Capitão Holly, para capturar o atirador.
Talvez um dos piores problemas com o filme seja sua edição, com uma montagem tão crispada que não permite a cada imagem mais do que cinco segundos de permanência na tela. Mesmo assim, seus editores, Emil Newman e Walter Hannemann, concorreram ao Oscar de 1976 para melhor montagem, por estafante e estonteante trabalho.  Em seus 115 minutos de projeção para o cinema, ficam difíceis para a plateia respirar ou refletir de tão estrondoso espetáculo de atropelos e tiroteios. Como em todo flagelo cinematográfico que se preze, a câmera arvorada como “Deus”, distribui a guisa de uma demiúrgica ordem divina de castigos de variável intensidade conforme os pecados de cada um. No corre –corre, são punidos com a pena capital os vigaristas endividados, como Jack Klugman (1922-2012), os modestos batedores de carteira como Walter Pidegon (1897-1984), ou mesmo os casais avessos ao sagrado e santo matrimônio, aqui vividos por David Janssen (1930-1980) e Gena Rowlands (esposa do ator John Cassavetes). Contudo, todos estes permanecem alheio ao perigo que os cerca, menos o jovem Mike Ramsey (Beau Bridges), que percebe a presença do atirador e tenta advertir aos policiais.

Divulgação da NBC do filme, em seu formato televisivo.
Por ironia, cabe ao próprio assassino aplicar com seus tiros certeiros a justiça emanada dos céus, o que pode ser considerado uma heresia, ainda mais se considerando a SWAT, panteão de implacáveis arcanjos da lei, o filme dedica as graças do paraíso. A audiência, todavia, não se dá conta das mensagens subjacentes ao arsenal de truques de suspense disparado com inegável competência do diretor Pearce.


Na versão para a TV, o thriller tem outro formato: uma quadrilha planeja o roubo de uma coleção de quadros em exposição, tendo por cumplice a secretária (Joanna Pettet) do proprietário da galeria (Rossano Brazzi, 1916-1994), amante de um dos assaltantes – e apenas para desviar a atenção da policia , contrata um atirador para postar-se na torre do estádio vizinho, com ordens de não matar. Ao contrário do que aconteceu com a versão lançada nos cinemas, ele dispara seu fuzil em “spots” de iluminação e cadeiras desocupadas.


O colecionador de quadros informa à secretária que passou as obras de arte para seu nome e ela tenta avisar ao seu amante, mas já era tarde, pois o roubo foi executado. Na fuga, os assaltantes acabam se misturando a multidão em pânico. Na versão televisiva, vários personagens da versão cinematográfica surgem e desaparecem sem maiores explicações, mas em contrapartida, são dadas ao atirador uma identidade e um objetivo para sua ação, que anteriormente, permanecia invisível o tempo todo para a câmera, podendo ser um psicopata ou um terrorista político. O que era enigma na versão lançada nos cinemas se dissipou, a tensão original afrouxou, a história ficou arrastada e diferente. Advertidos, aqueles que assistiram ao filme nos cinemas ficaram induzidos a uma brincadeira: apostar no que mudou e não mudou entre a versão original nos cinemas e a versão para a televisão.  Mesmo assim, é um espetáculo inebriante e de efeito hipnótico para os olhos e ouvidos. 

FICHA TÉCNICA
PANICO NA MULTIDAO
ANO DE PRODUÇÃO – 1976
PAÍS – ESTADOS UNIDOS
GÊNERO – SUSPENSE/POLICIAL
DIREÇÃO – LARRY PEARCE
DURAÇÃO – 115 MINUTOS (Para o Cinema)/147 minutos (Para TV)
ESTÚDIO - UNIVERSAL
ELENCO
CHARLTON HESTON – CAPITÃO PETER HOLLY
JOHN CASSAVETES – SARGENTO BUTTON
MARTIN BALSAM – SAM McKEEVER
BEAU BRIDGES – MIKE RAMSEY
DAVID JANSSEN – STEVE
JACK KLUGMAN – O VIGARISTA
GENA ROWLANDS – JANET
WALTER PIDGEON – BATEDOR DE CARTEIRAS
BROCK PETERS – PAUL
MITCHELL RYAN – PADRE
PAMELA BELLWOOD – PEGGY RAMSEY
E AINDA
JOANNA PETTET – SECRETARIA DA GALERIA DE ARTES (Somente na versão para TV)
ROSSANO BRASSI – DONO DA GALERIA (Somente na versão para TV)
JAMES OLSON – LADRÃO (Somente na versão para TV)
PAUL SHENAR – SEGUNDO LADRÃO (Somente na versão para TV)

Produção e Pesquisa:
PAULO TELLES
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quarta-feira, 30 de março de 2016

A Maior História de Todos os Tempos (1965): A Versão Cinematográfica do Evangelho Segundo George Stevens, e um grande elenco de Hollywood.


Em 1961, quando Nicholas Ray lançou Rei dos Reis, uma das mais famosas versões cinematográficas sobre a vida de Jesus, e estrelado por Jeffrey Hunter como o Cristo, o cineasta George Stevens (1904-1975) já estava anunciando que iria também rodar sua versão baseada nos textos sacros, com um grande elenco e com um grande título, quase que proporcional a sua metragem: A Maior História de Todos os Tempos (The Greatest Story Ever Told),lançado em 1965, e que segundo ele, seria a versão definitiva da vida de Jesus de Nazaré. 


O Cineasta George Stevens, uma legenda da Sétima Arte
STEVENS, E A DIFICULDADE EM LEVAR AS TELAS O PROJETO. 

O cineasta responsável por clássicos como Gunga Din, Um Lugar ao Sol, Os Brutos Também Amam, e Assim Caminha a Humanidade- manifestou interesse em filmar a vida de Jesus Cristo de forma que pudesse ser a “versão definitiva”. Para isso, Stevens consumiu cinco anos de produção e fez reunir um grande elenco, com 117 papéis dialogados, com atores famosos, muitos destes em pequenas pontas.


A Beleza pictórica e o panorama em forma de cartão postal, um dos grandes tributos do filme
Stevens se baseou no romance homônimo do mesmo título, de autoria de Fulton Oursler (1893–1952), além dos textos do Novo Testamento, e sua intenção era contar a vida do grande líder da Cristandade com um elenco All-Star, rodada mesmo nos Estados Unidos, em locações do Arizona, Utha, Nevada, e em estúdios da MGM em Culver City. As locações vieram a fornecer um panorama ao estilo Cartão Postal, com narrativa hiper- acadêmica, com conceituação medievo-renascentista. Mas para isso, durante cinco anos, o diretor tentou obter financiamento para projetar o espetáculo.

O "Mar da Galileia" na visão de George Stevens.
Primeiramente, Stevens recorreu a 20th Century Fox, que ofereceu ao cineasta três milhões de dólares para financiar o filme, mas como o diretor ainda não tinha iniciado as filmagens, o estúdio resolveu cortar suas despesas e se retirar da produção. Mas isso não perturbou Stevens, que resolveu levantar dinheiro com investidores. Logo, a United Artist, conhecendo a reputação de George Stevens como grande cineasta, resolveu investir pesadamente no seu novo projeto sem receios.

Lobby Card americano do filme
Como ele anunciara, Stevens escalou um elenco milionário para sua superprodução bíblica, movendo o cast e toda a equipe técnica para os desertos do oeste americano, o que causou um grande problema, pois, além disso, vários animais que foram precisos para rodar a película tiveram que ser transportados da África, o que fez aumentar o orçamento estipulado pela United Artist. O curioso é ver um filme em superprodução contando a vida e a paixão de Jesus inteiramente rodada em locações que foram cenários para inúmeros westerns, que serviu para muitas cavalgadas e tiroteios. Um crítico americano chegou a ironizar, pois quem pode prever o “Príncipe da Paz” e seus discípulos se depararem com malfeitores em qualquer parada onde The Lone Ranger (O Cavaleiro Solitário/Zorro) e Tonto também já cavalgaram?



A FIGURA MÍTICA DO REDENTOR ATRAVÉS DE UM COWBOY.

Por incrível que pareça, o fato que um dos trabalhos mais edificantes do diretor George Stevens, Shane (Os Brutos Também Amam, 1952), além de um clássico do cinema de Western, também é uma parábola sobre a luta do bem contra o mal. O pistoleiro vivido por Alan Ladd é um ser solitário, de origem desconhecida, chega a uma cidade e liberta uma família de fazendeiros da opressão pecuarista. Nesta obra, a figura mítica do Messias se expressa no ato salvador e heroico de Shane, que após se redimir de seu passado lutando contra e vencendo os opressores daquele local, segue seu destino solitário de uma maneira melancólica, mas conseguindo operar uma transformação nas pessoas, de uma forma redentorista. Logo, a figura de Shane já seria considerada uma pré-idealização do cineasta na concepção de seu Cristo em A Maior História de Todos os Tempos.



Segundo o diretor, a história de Jesus é toda concentrada no conflito entre o bem com o mal, onde o Filho de Deus enfrentou solitariamente seus inimigos, e por isso, acabou sendo crucificado porque resolveu desafiar o sistema opressor, promovido pelos romanos e judeus coniventes com a tirania.

Os discípulos caminhando pelo deserto. 
O EXCESSO DE PERFECCIONISMO DO DIRETOR.
Não teve como George Stevens passar do orçamento de um milhão de dólares para recriar a cidade de Jerusalém. Além disso, empregou centenas de figurantes e técnicos, e casas pré-fabricadas tiveram que ser construídas para eles nos arredores das locações. Figurinistas tiveram que trabalhar correndo contra o tempo, com o relógio a vista de todos, para vestirem grande parte do elenco que viveria os discípulos e os demais seguidores do Nazareno, segundo um crítico maldoso, “todos de branco como se fossem adeptos da Ku Klux Klan em uma reunião de domingo”.  


A "Cidade de Jerusalém" - um cenário suntuoso.
Todos estes problemas fizeram com que o filme saísse em atraso, devido a excesso de zelo e perfeccionismo de Stevens, que analisava detalhe por detalhe, todo o aspecto da produção – desde o script, que teve apoio de diversos roteiristas, entre os quais o poeta e escritor Carl Sandburg (1878-1967), redigindo várias vezes, até os desenhos dos figurinos, que ele mesmo elaborava com todo o primor. Entretanto, todos estes cuidados, mesmo que impecáveis do cineasta,  incomodava o elenco e atrasava o andamento das filmagens.

OS DISCÍPULOS: David McCallum (Judas Iscariotes), João (John Considine), Michael Anderson Jr, e Gary Raymond
O cast se queixava do estilo lento e trabalhoso de filmar cena após cena do diretor, até que ele achasse que a perfeição tivesse sido alcançada. Os atores começaram a sofrer queimaduras pelo sol forte do deserto de Utah, e em uma manhã, uma nevasca atingiu o set de filmagem, deixando Stevens de dirigir uma das cenas que se passaria na cidade de Jerusalém, onde já haviam erguido uma cidade cenográfica. Apesar de toda a equipe pegar pá e retirar a neve no local, foi impossível evitar uma segunda nevasca, ocasionando um atraso ainda maior nas filmagens.

Joseph Schildkraut como Nicodemus, entre Victor Buono e Abraham Sofaer
Por isso, Stevens, incapaz de dirigir na locação, moveu a produção para seus estúdios, onde algumas construções enormemente caras foram construídas para compensar a incapacidade de trabalhar no local. Nesse tempo, teve que lidar com duas grandes perdas: a de seu diretor de fotografia, William C. Mellor (1903–1963), que morreu de um ataque do coração fulminante durante as filmagens (seu trabalho foi terminado por Loyal Griggs, 1906-1978, antigo colaborador do cineasta em Shane); e a morte do ator vienense Joseph Schildkraut (1896-1964), que atuava como Nicodemos na produção (em 1926, havia vivido Judas Iscariotes no clássico SilentO Rei dos Reis”, de Cecil B. DeMille). Ambas estas perdas ajudaram a agravar ainda mais o estado de saúde do diretor, que já sofria de úlcera.


Finalmente, a fita foi concluída, não sem uma pressão vinda da United. O resultado final foi fortemente promovido como um espetáculo grandioso e de bom gosto, visualmente bem requintado. Destaque para a beleza pictórica (consultoria a cores do mestre Eliot Elisofon) e o esplendor lírico e dramático de uma encenação suntuosa, ao custo geral de US$ 20 milhões de dólares – uma quantia exorbitante na época – e recebendo cinco indicações ao Oscar em 1965. Mas isso não bastou para que o filme se consagrasse como um dos melhores trabalhos de George Stevens, e muito menos, que viesse a ser a versão definitiva da Vida e da Paixão de Jesus Cristo segundo os propósitos do cineasta.



O ELENCO
Stevens não poupou esforços para requisitar um grande elenco para contar A Maior História de Todos os Tempos. O sueco Mas Von Sydow, um dos atores favoritos de Ingmar Bergman e até então pouco conhecido nos Estados Unidos, estava fazendo sua estreia em Hollywood como Jesus. 

O sueco Max Von Sydow estreando em Hollywood como Jesus Cristo



Embora um ótimo ator e prestigiado internacionalmente, não teve carisma necessário para o personagem. A pergunta que se fazia entre os espectadores nas salas de cinema é como que os discípulos seguiriam um líder gélido como um viking através do deserto? Para Von Sydow, é impossível fazer um filme sobre Jesus:

-Como interpretar uma figura que desperta tantos sentimentos apaixonados, muitas vezes contraditórios, de ódio, amor, fé, e esperança? – Declarou Von Sydow, que continuou – Naturalmente é uma história impossível de se contar em um filme. E se deseja conta-la, não deve agradar a ninguém, exceto a si mesmo. Basta decidir qual a sua visão pessoal e tentar traduzir para um filme – disse anos depois o ator Max Von Sydow.


Mas outras escolhas de elenco vão desde o sublime ao ridículo. A fim de aumentar o apelo de bilheteria, Stevens cometeu o erro em escalar muitos atores famosos para papéis cameos (passageiros ou curtos). A ideia do diretor era causar impacto nas cenas mais importantes do filme, encenada por atores que certamente as plateias reconheceriam de imediatas. O dispositivo de Stevens para isso foi usar muitos destes famosos em cenas de multidão, fossem nos milagres de Jesus, ou na crucificação.

A Crucificação
A entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos
O cineasta esperava fielmente um retorno, e a reação do público desta forma: "Não é Sidney Poitier no meio da multidão? E ao lado dele, não é Carroll Baker? Ou é o Pat Boone? " A cena torna-se uma espécie de "Jesus no barco do amor", com todas as celebridades envolvidas na multidão para acompanhar o Redentor em sua jornada.

A Última Ceia
Janet Margolin e Ina Balin são as irmãs de Lázaro
Richard Conte é Barrabás
Em destaque, a sequência da ressurreição de Lázaro (Michael Tolan, 1925-2011) ao som de Aleluia de Handel, que é um dos grandes momentos do filme. Ainda no elenco, nomes importantes como: Carroll Baker, como Verônica, a mulher que enxuga o rosto de Jesus a caminho do Calvário; Richard Conte (1910-1975) aparece numa única cena como Barrabás na prisão; Jose Ferrer (1912-1992) como Herodes Antipas;  Ina Balin (1937-1990) e Janet Margolin (1943-1993) são respectivamente Marta e Maria de Betânia, irmãs de Lázaro.

Van Heflin, Ed Wynn, e Sal Mineo, são os seguidores de Jesus de Nazaré
Martin Landau como o Sumo Sacerdote Caifás
Jesus (Max Von Sidow) salva Maria Madalena (Joanna Dunham) do apedrejamento
O excelente Van Heflin (1910-1971) como Bar Armand, um personagem retirado do livro de Oursler; Martin Landau vive o Sumo Sacerdote Caifás; assim como Neremiah Persoff a viver outro Sumo Sacerdote; Shelley Winters (1922-2006) numa passageira aparição como a mulher curada por Jesus na multidão;  a inglesa Joanna Dunham (1936-2014) é Maria Madalena.

A inglesa Joanna Dunham como Maria Madalena
Donald Pleseance é o "Demônio"
Satã atiçando o povo a crucificar Jesus de Nazaré.
Donald Pleasence (1919-1995) vive Satã, que tenta  Jesus no meio da noite, em seus 40 dias pelo deserto e que o perseguiria até o seu julgamento. Pleasence ainda faria parte de outra obra cinematográfica retirada dos textos sacros segundo a hagiologia  cristã, a obra de Franco Zeffirelli Jesus de Nazaré, de 1977, onde personificou um dos Reis Magos, Melchior.

Charlton Heston é João Batista
Charlton Heston, o maior destaque entre todas as atuações

Charlton Heston, o ícone do cinema épico, como João Batista, sendo o maior destaque de todas as interpretações, embora não supere a atuação feita por Robert Ryan em Rei dos Reis, de Nick Ray e realizado quatro anos antes.

Jose Ferrer é Herodes Antipas
Telly Savalas como Poncio Pilatos
Roddy McDowall é Mateus.
Telly Savalas (1922-1994) que raspou definitivamente o resto de seus poucos cabelos para viver Pôncio Pilatos; David McCallum, esta sensacional como Judas; a carismática e talentosa Dorothy McGuire (1916–2001), como Maria, mãe do Redentor; Roddy McDowall (1928-1998) interpreta o apóstolo e futuro evangelista Mateus; Victor Buon_____________________________________________________________________________________________________________________o (1938-1982) como Sorak.

Dorothy McGuire como a Virgem Maria
O fabuloso Claude Rains em seu último trabalho no cinema, como o Rei Herodes.
Sidney Poitier como Simão Cirineu
Angela Lansbury  aparece pouco (ou quase nada) como Prócula, esposa de Pilatos; Claude Rains (1889-1967) se despedia das telas de cinema aqui nesta obra, como o Rei Herodes o Grande; o querido Sidney Poitier interpreta Simão Cireneu; O ídolo da juventude  Pat Boone como o Anjo da Ressurreição, assim como Sal Mineo (1939-1976) a viver um seguidor de Jesus.

Cirineu (Poitier) ajudando Jesus (Von Sydow) a carregar a cruz.

David Hedison é o apóstolo Felipe
Vale a pena destacar as presenças de David Hedison (sim,o Capitão Crane da série de TV Viagem ao Fundo do Mar) a interpretar um dos discípulos de Jesus, Felipe; Michael Ansara (1922-2013), que já vivera Judas em O Manto Sagrado em 1953, era agora o Comandante das Guardas de Antipas (José Ferrer), assim como Rodolfo Acosta (1920-1974) a viver o capitão dos lanceiros do Rei Herodes (Claude Rains); Robert Blake é Simão Zelotes; Robert Loggia (1930-2015) é São José; Mark Lenard (1924-1996), Frank Silvera (1914-1970), e Cyril Delevanti (1897-1975) são os Três Reis Magos; Tom Reese é Tomás, o apóstolo; Gary Raymond (de El Cid) como Simão Pedro.

Gary Raymond é Simão Pedro
Marian Seldes como Herodiades
Marian Seldies (1928-2014) é Herodiades, esposa de Antipas; Michael Anderson Jr (filho do cineasta Michael Anderson), na pele do jovem Jaime; Abraham Sofaer (1896-1988) que já vivera Paulo de Tarso em Quo Vadis em 1951, aqui interpreta José de Arimatéia; E Ed Wynn (1886-1966) vivendo o velho Arão.

A Agonia do Cristo 
Como pode se perceber, um grande elenco foi escolhido para contar a maior de todas as histórias jamais apresentada em uma superprodução da Sétima Arte, onde Hollywood não voltaria por muito tempo a apostar as fichas em Jesus e investi-lo em altas somas de dinheiro, até o ano de 2004, quando Mel Gibson investiu na Paixão de Cristo, e o cinema americano voltou seu interesse, na forma tradicional, para o mais famoso personagem de todos os tempos.


JOHN WAYNE E O SEU DIÁLOGO PERANTE A CRUZ.

É justamente na cena da crucificação que John Wayne (1907-1979) faz sua “impiedosa” aparição. Ele é o centurião romano que supervisiona a crucificação de Cristo desde o caminho da Via Dolorosa até o Calvário.Parece que ele não tinha aprendido com sua experiência prévia em Sangue de Bárbaros, realizado em 1956, quando ele cometeu o erro em fazer o papel de Genghis Khan para depois se arrepender. A visão de Ethan Edwards em empurrar o Príncipe da Paz para seu destino é mais do que uma promoção para arrecadar na bilheteria e chamar a atenção das plateias.

A Via Dolorosa - Jesus cumprindo seu destino, e atrás, supervisionado pelo centurião romano vivido por quem?
Sim! John Wayne - um marketing para fins divulgação. Uma tentativa em faturar nas bilheterias, e criar o milagre da "arrecadação". Em vão.
Mas para mostrar como o bom e velho Duke é um “sádico com uma alma de ouro”, finalmente estamos dispostos a assistir Wayne em um de seus inesquecíveis monólogos na tela em The Greatest Story Ever Told, onde ele tem uma única fala e recita Mateus (Capítulo 27 versículo 54) perante o Cristo crucificado: “Em Verdade, este Homem era mesmo o Filho de Deus”.

Mesmo assim, John Wayne nunca perdeu o humor, onde aqui o vemos conversando com Sidney Poitier num intervalo das filmagens.
Anos mais tarde, o crítico John Simon mencionou a recitação inepta de Wayne, de uma única fala, como prova de que um ator não deve tal agir se não se sente apto para o papel. Contudo, o “diálogo” de Wayne na obra sacra de Stevens serviu até mesmo para algumas anedotas em Hollywood. Supõe-se que o cineasta havia instruído o Duke para repetir sua fala com um tom de reverência e respeito.

John Wayne, numa atuação "inepta" segundo a crítica
Contudo, não deixa de ser interessante em ver o ícone dos Westerns e legítimo representante da macheza americana, e ídolo de muitos dos amantes do cinema, em uma ponta diferenciada, afinal, John Wayne, é sempre John Wayne.



OUTROS DETALHES
Jesus (Max Von Sydow) no horto do Getsemani.
-Não se trata de um simples espetáculo bíblico ou variante de interpretação do Livro Sagrado, mas de um novo enfoque de uma antiga história.

Assim explicou George Stevens sobre A Maior História de Todos os Tempos. O cineasta e produtor além de se servir do famoso poeta, escritor, e historiador Carl Sandburg para a elaboração do roteiro, ele examinou mais de 30 diferentes edições da Bíblia, consultando líderes religiosos católicos, protestantes, judaicos, e até budistas.

Jesus prega para o povo
Stevens ainda teve como colaboradores na direção os cineastas David Lean (1908-1991) e Jean Negulesco (1900-1993) em algumas cenas, mas estes não obtiveram crédito. A Música também é outro ponto culminante, uma das últimas composições de Alfred Newman (1901-1970), o mesmo compositor de A Canção de Bernadette e O Manto Sagrado, para o cinema.

Pilatos (Telly Savalas) se reunindo com os membros do Sinédrio.
A Maior História de Todos os Tempos foi originalmente lançada com 225 minutos de duração (exibida no Brasil com 10 minutos a menos, a versão hoje a disposição em DVD), mas a metragem original seria de 260, onde se precisaram fazer alguns cortes. Em alguns países, foi lançado com 141 minutos, inclusive na época do Vídeo Home System (VHS), foi esta a duração lançada no mercado de vídeo.

Jesus e seu julgamento perante Pilatos
Apesar de toda sua beleza visual e da tentativa de mostrar uma veracidade histórica que outros filmes sobre “a Paixão” não haviam mostrado, acabou sendo prejudicado pelo excesso de personagens e pelo exacerbado perfeccionismo do diretor, e a película não comoveu e nem foi bem sucedida comercialmente. Este foi o penúltimo trabalho do cineasta George Stevens, que encerraria sua primorosa filmografia apenas com mais um filme, em 1970, com Jogo de Paixões (The Only Game in Town).


Contudo, a carreira deste cineasta foi uma das mais prolificas da Sétima Arte, e que não teve que se envergonhar deste trabalho que sem dúvida foi singelo e bem intencionado, em face das brilhantes obras que soube previamente conduzir com maestria para as telas, e que hoje são referências cult na cinematografia mundial, e seus trabalhos na direção são o legado único e perpétuo de um grande cineasta, que fez História.

FICHA TÉCNICA
A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS
(THE GREATEST STORY EVER TOLD, 1965)

ANO DE PRODUÇÃO: 1965.
PAÍS: ESTADOS UNIDOS
DIREÇÃO: GEORGE STEVENS
FOTOGRAFIA: LOYAL GRIGGS E WILLIAM C. MELLOR (EM CORES)
ROTEIRO: GEORGE STEVENS, JAMES L. BARRETT, E CARL SANDBURG, baseado nos Evangelhos e no livro homônimo de Furlton Oursler.
TEMPO DE DURAÇÃO: 199 MINUTOS (LANÇADO ORIGINALMENTE EM 220 NOS ESTADOS UNIDOS)
DISTRIBUIÇÃO: UNITED ARTIST

ELENCO
MAX VON SYDOW ______JESUS DE NAZARÉ
CHARLTON HESTON_____JOÃO BATISTA
CARROLL BAKER___VERONICA
MICHAEL ANDERSON JR___JOVEM JAIME
INA BALIN_________MARTHA DE BETÂNIA
VICTOR BUONO__________SORAK
RICAHRD CONTE_________BARRABÁS
JOANNA DUMHAN_____MARIA MADALENA
JOHN CONSIDINE – APÓSTOLO JOÃO
JOSÉ FERRER______HERODES ANTIPAS
VAN HEFLIN_______BAR ARMAND
MARTIN LANDAU______CAIFÁS
ANGELA LANSBURRY_______PRÓCULA
PAT BOONE__________O ANJO DA RESSURREIÇÃO
JANET MARGOLIN_________MARIA DE BETÂNIA
DAVID McCALLUM______JUDAS ISCARIOTES
DOROTHY McGUIRE____MARIA, MÃE DE JESUS
SAL MINEO____URIAH
NEREMIAH PERSOFF____ SUMO SACERDOTE
DONALD PLEASENCE______SATÃ
SIDNEY POITIER_______SIMÃO CIRINEU
CLAUDE RAINS______ REI HERODES
GARY RAYMOND______PEDRO
TELLY SAVALAS_____ PILATOS
JOSEPH SCHILDKRAUT_____NICODEMOS
JOHN WAYNE ___O CENTURIÃO DA CRUCIFICAÇÃO

SHELLEY WINTERS______A MULHER CURADA

E ainda

ED WYNN – O VELHO ARÃO
JOHN ABBOTT – ABBEN
RODOLFO ACOSTA – CAPITÃO DOS LANCEIROS
MICHAEL ANSARA – COMANDANTE DE HERODES ANTIPAS
ROBERT BLAKE – SIMÃO SELOTES
JAMIE FARR – JUDAS TADEU
DAVID HEDISON – FELIPE
MARK LENARD – MAGO BALTHAZAR
ROBERT LOGGIA – JOSÉ
TOM REESE – TOMÁS
MARIAN SELDES – HERODIADES
FRANK SILVERA – MAGO GASPAR
CYRIL DELEVANTI – MAGO MELCHIOR
ABRAHAM SOFAER – JOSÉ DE ARIMATÉIA
HAROLD J. STONE – GENERAL VARUS
MICHAEL TOLAN – LÁZARO

Divulgação do lançamento do filme em um jornal carioca, setembro de 1966.

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES
As Maiores Trilhas Sonoras da Sétima Arte, e em todos os tempos!
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Todos os domingos, às 22 horas.
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QUINTAS FEIRAS (22 horas)
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