domingo, 4 de maio de 2014

Montgomery Clift, o Ídolo Torturado.


Astro cadente no mundo estrelar de Holywood, Montgomery Clift (1920-1966) é um ator inesquecível: o Cowboy de Rio Vermelho e a represália que se pode justificar, o caça-dote de Tarde Demais, a vítima do segredo da confissão de A Tortura do Silêncio, O Medíocre arrivista de Um Lugar ao Sol, o soldado leal e amigo vítima da perseguição de A Um Passo da Eternidade, o desequilibrado de Os Desajustados...ente tantos. Sempre fazendo heróis vulneráveis e frágeis, ambíguos.

Teve um belo rosto (muito parecido com Tom Cruise, ou podemos dizer que Tom Cruise se parece com ele), belo rosto este que foi parcialmente desfigurado por um acidente automobilístico, aparentemente intencional, desfiguração esta que parece ter não atingido apenas seu rosto, mas também a sua alma, pois nunca mais foi o mesmo. Tornou-se desequilibrado, com mania de perseguição, e se tornava chato com frequência. Assim era Edward Montgomery Clift (seu verdadeiro nome), que apesar de todos os desajustes e problemas que enfrentou, era na realidade um homem sensível, versado em brincadeiras com seus amigos e colegas de profissão (como Elizabeth Taylor e Kevin McCarthy), e, sobretudo, um brilhante ator que deixou uma indelével marca na Sétima Arte.


Nascido a 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, EUA, seus pais, William Brooks, um renomado banqueiro, e Ethel “Sunny” Clift, já tinham um filho de 18 meses. Clift era gêmeo de Roberta (depois chamada Ethel), que nascera horas antes dele. Podemos dizer que Montgomery Clift nasceu em berço de ouro e numa família abastada, e seu primeiro nome foi em homenagem ao seu bisavô paterno, que se chamava Montgomery Blair. Em maio de 1928, Monty (como era chamado), com a mãe, os irmãos e a governanta, viajou para a Europa, a bordo do IIe France. Brincando na piscina do navio, outro garoto o manteve por longo tempo sob a água e quase o afogou. Seriamente afetado pela brincadeira de mau gosto, a mãe o levou a um especialista que havia tratado o Kaiser, em Munique. Submetido a demorada e difícil operação, obteve sucesso, mas a cirurgia lhe deixou com enorme cicatriz, bem visível no lado direito do pescoço, nunca percebida nos filmes graças aos recursos dos maquiadores.


Com a queda da Bolsa de Valores do ano seguinte (1929), a situação da família e do seu patriarca, William Brooks, ficou muito abalada, mas a mãe de Monty estava decidida a fazer outra viagem pela Europa, e conseguiu meios de poder realizar, desta vez para a França e Alemanha, onde ficaram de junho a novembro de 1930. Antes de terminar 1931, o pai de Monty estava completamente falido e sem emprego, e foi obrigado a vender até sua casa em Highland Park e a maioria dos móveis que a guarneciam. E a família for morar num quarto mobiliado em Greenwich Village, tendo a mãe que trabalhar em dois empregos para sustento dela e dos filhos. Quando William finalmente encontrou emprego, era tarde: a família estava desagregada, morando na Flórida, onde a vida era mais barata. Moraram em Sarasota até 1933.

O NOVO TUTOR dos meninos, Walter Hayward, lhes ensinara a recitar Shakespeare. Amigo de um produtor teatral local, Hayward soube que ele estava procurando um menino de 12 anos para um papel em As Husbands GO. Pensando que Monty poderia gostar de fazer a parte, falou com Sunny sobre a peça. Ele aprovou a idéia e o adolescente se iniciou como ator profissional. Adorou trabalhar no palco, mas Ethel, a mãe, não estava bem segura acerca de uma carreira profissional para o filho, pois parecia ser pouco digno ser ator. Mas no ano seguinte, ela mudou de opinião. Em outubro de 1935, aos 15 anos, Monty conseguiu ser escalado como o Príncipe Peter, no musical Jubilee, de Cole Porter (1891-1964), que ainda é lembrado principalmente porque o score musical incuía “Begin the Beguine” e “Just One of Those Things”. Entre elogios e reparos, entre sucessos e fracassos, a carreira nos palcos durou até 1945, fazendo com que ele se impusesse como nome respeitável numa nova geração de atores. Muitos poucos sabem, mas Monty Clift também era fascinado pela Medicina. Anos mais tarde, um médico em Hollywood, Rex Kennamer, declarou sobre o ator: “ Tinha enorme conhecimento de Medicina. Com Monty, isso parecia uma extraordinária preocupação, pois tinha maiores conhecimentos de medicações, usos e efeitos do que qualquer pessoa que não fosse médico que jamais conheci”.


HOLLYWOOD estava de olho em Montgomery Clift desde 1941, e o belíssimo filme da Metro Goldwyn Mayer, com Greer Garson, Walter Pidgeon e Teresa Wright, sob inspirada direção do sempre competente William Wyler (1902-1981), Rosa da Esperança (Mrs. Miniver), poderia ter marcado sua estréia cinematográfica. Durante uma excursão de Monty com uma de suas peças teatrais, Louis B. Mayer (1884-1957) lhe ofereceu um papel no filme prestes a entrar em produção. Ele teria aceitado, se Mayer não insistisse no então contrato-padrão de sete anos. Receberia, a princípio, 750 dólares por semana, com aumentos progressivos automáticos. O pai de Monty quis se meter na negociação, insistindo que o filho assinasse o contrato, dizendo: “Você nunca mais terá outra oportunidade como esta”. Mas sabiamente, Monty acreditava que tudo era uma simples questão de tempo os estúdios lhe darem o que desejava. E o papel em Mrs. Miniver foi confiado a Richard Ney. Seu agente, Leland Hayward (1902-1971), sempre dizia que Clift era orgulhoso demais para ficar em Hollywood nas condições que ele queria. Hayward lhe pediu que ficassem em Los Angeles por alguns meses a fim de ter encontros com os chefões dos grandes estúdios. Com muita astúcia, lhe conseguiu um contrato de 6 meses com a MGM, apenas para que permanecesse na Califórnia. Os Big Bosses não podiam entender o desejo de Monty em manter sua independência, avisando-o que poderia “cometer enganos” se o fizesse. Monty respondia a eles: “Vocês não entendem. Quero ser livre para fazer isso”.


RIO VERMELHO (RED RIVER, 1947)

Para o público, o début cinematográfico de Montgomery Clift ocorreu com Perdidos na Tormenta, feito em 1948. Em 1947, porém, convidado por Howard Hawks (1896-1977), fez o papel do impetuoso jovem Matthew Garth, filho adotivo de Thomas Dunson (John Wayne, 1907-1979), em Rio Vermelho, seu primeiro filme, e terminado no mesmo ano.

Ao iniciar a produção do filme, Hawks assinara contrato de distribuição com a United Artist. Com o orçamento estourado em mais de um milhão de dólares, o diretor-produtor preocupou-se com as possíveis rendas do filme, e atrasou o lançamento por quase um ano, na esperança de conseguir outro distribuidor que pudesse lhe dar as garantias de rendas compensadoras. Conseguiu, mas a United recusou-se a liberar o contrato, certa de que poderia trabalhar o filme de maneira satisfatória para Hawks, e lançado somente em 1948, depois de Perdidos na Tormenta- os lucros internos de quatro milhões de dólares provaram que ela estava certa.
 


RED RIVER foi o único Western na filmografia de Clift, e ele atuou como um veterano no gênero, ao lado de “cobras” como John Wayne, Walter Brennan (1894-1974), John Ireland (1914-1992), e Harry Carey (1878-1947). Clift teve cenas espetaculares com o “Duke”, em especial a cena em que se enfrentam, em uma luta violenta usando braços e pernas. E Poética e romântica a cena de amor do filme, quando ele passa a noite com Tess Miller (Joanne Dru, 1922-1996), ao relento, sob uma árvore, com a chuva caindo impertinente.

 

PERDIDOS NA TORMENTA (THE SEARCH, 1948)

Fred Zinnemann (1907-1997) falou-lhe sobre The Search- que veríamos com o título de Perdidos na Tormenta- quando ele ainda estava filmando Red River, e prometeu-lhe, desde que pudesse fazê-lo, 75 mil dólares pelo filme todo, trabalho planejado para seis semanas em locações na Alemanha e na Suíça. Lazar Wechsler (1896-1971), o produtor, lhe deu consentimento verbal para proceder a alteração nos próprios diálogos. Monty preparou-se maravilhosamente para o papel do engenheiro militar Ralph Stevenson, que serve na zona de ocupação americana, na Alemanha do pós-guerra. Ele encontra um menos abandonado, faminto e andrajoso, perambulando por uma Alemanha em ruínas. Karel Malik (Ivan Jandi, 1937-1987), a quem socorre, leva para casa e passa a tratar como filho.

A interpretação que Montgomery Clift deu ao personagem foi extremamente sincera e feliz, valendo-lhe a primeira indicação para o prêmio da Academia, na categoria de melhor ator. E Ivan Jandi (que faleceu em 1987, aos 50 anos, por complicações do diabete) ganhou um Oscar na categoria especial de ator juvenil, pela destacada performance que teve no filme.


TARDE DEMAIS (THE HEIRESS, 1949)

Unanimemente considerado como a mais nova sensação masculina das telas, Monty foi escolhido por William Wyler, em 1949, para a parte de Morris Townsend, o namorado sem escrúpulos da rica herdeira Catharine Sioper (Olivia de Havilland), na adaptação cinematográfica da peça de Ruth e Augustos Goetz The Heiress, baseado no romance Washington Square, de Henry James- que no Brasil se chamou Tarde Demais. E ele foi um convincente caça dotes, um jovem charmoso e irresistível que subjuga a herdeira tímida, recatada e reprimida.

No ano seguinte, Clift quase que repete praticamente o mesmo papel que fizera de Tarde Damais, pois ele foi seriamente indicado para interpretar Joe Gillis em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), mas acabou indo para William Holden (1918-1981), que declarou: “Não consegui o papel pelo fato de Billy Wilder estar louco de que eu trabalhasse no filme. Consegui porque Montgomery o recusou”.

Billy Wilder (1906-2002) recordou anos depois certos fatos sobre Montgomery Clift e sua recusa de estrelar Sunset Boulevard: “A Parte do roteirista Joe Gillis, que se torna gigolô, foi escrita para Montgomery Clift. Duas semanas antes do início das filmagens, nos chega o agente de Monty, nos informando que não faria o filme, com receio do que poderia pensar suas fãs se ele tivesse um caso com uma mulher com duas vezes a idade dele? Bom, eu esperava isso de um ator de Hollywood, mas não de um ator sério que julguei acreditar. Diante disso, William Holden foi escolhido, e ele teve sua primeira indicação pela Academia como melhor ator”.



UM LUGAR AO SOL (AN AMERICAN TRAGEDY, 1951)

Baseado na obra prima de Theodore Dreiser (1871-1945), An American Tragedy – que já havia sido filmado em 1931 pela mesma Paramount, e dirigido por Josef Von Sternberg (que substituiu Sergei Eisenstein), com Sylvia Sidney, Phillip Holmes e Frances Dee e quando lançado no Brasil recebeu o título literal de Uma Tragédia Americana.

Um Lugar ao Sol foi dirigido pelo grandioso George Stevens (1904-1975), e é um dos dois filmes definitivos de Montgomery Clift, junto com A Um Passo da Eternidade.

George Eastman (Clift) nega-se a oportunidade da escolha. Ele é impelido pela sociedade, pelo materialismo americano, pelas mulheres, e por quaisquer outras razões. Ambicioso e impulsivo, é este impulso que o encoraja, até que sua namorada grávida (Shelley Winters, 1920-2006) morre, e perde para sempre a mulher que verdadeiramente ama (Elizabeth Taylor, 1932-2011), acabando penalizado pela lei.

Mas George age por motivos que ele mesmo próprio não compreende. Durante o julgamento, tenta justificar seus atos, mas é tarde demais. Simpático, gentil, enigmático- como se desejável por essas razões, como Ângela Vickers (Elizabeth Taylor) o é por sua beleza e riqueza- chega as raias de incorporar a personalidade cinematográfica de Clift.

UM LUGAR AO SOL ganhou 6 prêmios da Academia, mas Montgomery Clift, na categoria de melhor ator, não ganhou o Oscar, perdendo para Humphrey Bogart (1899-1957) por Uma Aventura na África/The África Queen. Segundo palavras de Charlie Chaplin (1889-1977), Um Lugar ao Sol é "o melhor filme jamais saído de Hollywood". Este filme inspirou a novelista brasileira Janete Clair (1925-1983) a escrever SELVA DE PEDRA, lançado em 1972 na TV brasileira, onde o personagem de Francisco Cuoco, Cristiano Vilhena, era um facsimile  do personagem feito por Monty.


A TORTURA DO SILÊNCIO (I Confess, 1953)


MONTGOMERY CLIFT foi uma escolha perfeita de Alfred Hitchcock (1899-1980) para o papel do Padre Michael William Logan em I Confess, roteiro de George Tabori e William Archbald, baseado na peça Nos Deux Consciences, escrita em 1902.

Otto Keller (O.E. Hasse, 1903-1978) confessa ao Padre Logan (Clift) que havia cometido um homicídio, na pessoa do advogado corrupto Villete (Ovila Legare, 1901-1978). Para praticar o crime, Keller tinha usado uma batina, obtida na igreja do Padre Logan, em Quebeck, onde ele era sacristão. Logan e uma mulher casada, Ruth Grandfort (Anne Baxter, 1923-1985), tiveram um love affair antes de ele ter se ordenado padre e estavam sendo chantageados pela vítima do crime, que sabia do caso. Por isso, recaíram sobre ele a suspeita e a acusação da autoria do crime.

O segredo da confissão não lhe permitia revelar o nome do verdadeiro assassino, nem mesmo ao seu advogado. Mas tarde, a esposa de Keller, o verdadeiro assassino, acaba denunciando o marido. A Polícia o persegue e Keller é baleado ao tentar fugir. Caído na rua, moribundo e cercado por curiosos, faz a confissão final ao Padre Logan, que lhe dá a extrema unção e ele morre em seus braços.


A UM PASSO DA ETERNIDADE (From Here to Eternity, 1952)


Pelos direitos de filmagem do Best Seller de James Jones (1921-1977), sobre a vida na base militar em Pearl Harbor às vésperas da entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, Harry Cohn (1891-1958) pagou 82.000 dólares, sabendo que resultaria num grande filme para a sua Colúmbia Pictures. Mas ele não tinha idéias dos problemas terríveis que enfrentaria para levar adiante seu projeto de levá-lo as Telas. O livro de Jones se estendia pelas 860 páginas, e adaptá-lo sem ferir o espírito da obra não era tarefa nada fácil. Além disso, o romance de Jones guarda elementos quase impossíveis de serem filmados, sem ofender os brios do Exército ou ferir o vigente hiper Código de Produção de Hollywood, o famoso Código Hays, ainda bem vigente em 1952.

Finalmente, quando Daniel Taradash (1913-2003) o presenteou com um roteiro, Cohn sentiu que não era só exeqüível como também fiel ao espírito do romance From Here to Eternity.

Para o papel do soldado Robert Lee Prewitt, um corneteiro que é boxeador, o big shot da Colúmbia queria John Derek ou Aldo Ray, ambos contratados pelo estúdio. Mas Fred Zinnemann queria Montgomery Clift, que foi contratado por 150.000 dólares.

Eli Wallach originalmente foi escolhido para ser o tenaz e sofrido Ângelo Maggio, mas devido a outros compromissos assumidos na Broadway, ele acabou desistindo. Frank Sinatra (1915-1998), com a carreira em declínio, se interessou pelo papel, e embora endividado, ofereceu-se em fazer, trabalhando praticamente de graça. De início, Cohn nem queria saber dele, nem mesmo com uma falada interferência da Cosa Nostra. Somente depois, que Ava Gardner (1922-1990), então mulher de Sinatra, fez uma súplica pessoal por ele que o relutante magnata acabou concordando em testar o ídolo romântico de outros tempos e ex-astro da Metro.O teste impressionou Zinnemann, e a carreira de Sinatra, então em declínio, voltou a espeta, recuperada por menos de 8.000 dólares. E de quebra, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo seu papel.

O resultado de todo o trabalho de produção, o restante do elenco- Burt Lancaster (1913-1994) no papel do complacente Sargento Milton Warden; Ernest Borgnine (1917-2012) como o sádico sargento “Fatso” Judson, que fez do pobre Ângelo Maggio como vítima de sua perversidade; Deborah Kerr (1921-2007), na pele da pouco recatada esposa do comandante da base, Karen Holmes (papel que estava destinado para Rita Hayworth, que recusou, seguida de Joan Crawford) cujo aparente frescor e serena delicadeza britânica intensificaram a colisão das ondas que se encresparam pelas telas dos cinemas do mundo, quando ela e Lancaster usam a praia para uma das mais famosas cenas de amor jamais vistas num filme, ousadíssima para época;

E Donna Reed (1921-1985), no papel da prostituta Alma Lorene, interesse amoroso de Prewitt (Clift), que apesar de não ter sido a primeira escolha de Zinnemann (que queria Julie Harris, mas Harry Cohn achou a aparência da atriz muito “Família” para um papel que exigia muita sensualidade) é uma das grandes responsáveis pelo sucesso do filme que vem atravessando décadas, ganhando 8 Oscars - todo elenco, todos os atores desempenhando muito bem seus papéis.

Mas...e Montgomery Clift?

Mais uma vez, como tantas e tantas outras (e sempre será, afinal, nada é perfeito), a Academia falhou em não premiar Monty como melhor ator, na sua terceira indicação, e talvez, pela melhor performance de esta carreira.


O ACIDENTE
Hoje, sabe-se que Montgomery Clift era homossexual. Talvez para preservar sua imagem de galã, muitos de seus primeiros biógrafos afirmavam que o grande amor de sua vida fosse Elizabeth Taylor (1932-2011). Esta, sempre soube da orientação sexual de Clift, mas as barreiras e empecilhos da época- e fora a Indústria Cinematográfica que não aceitava que seus astros fossem “gays”, algo inaceitável e imperdoável tanto para o público que ia aos cinemas quanto para os padrões e sistema da época- impedia que ele assumisse sua condição.

Monty e Liz ficaram muito amigos, e durante as filmagens de Um Lugar ao Sol, Monty sempre desabafava com Liz. Houve sempre entre os dois uma amizade mútua, baseado sobretudo na confiança.

Na noite de 12 de maio de 1956, Liz, então casada com o ator Michael Wilding (1912-1979), seu segundo marido, ligou para Monty, que morava bem próximo a casa dela, a fim de convidá-lo para jantar. Kevin McCarthy (1914-2010) estaria presente, assim como Rock Hudson (1925-1985- outro homossexual muito amigo de Liz, amizade esta que durou até a morte do ator), e secretária Phyllis Gates.

Monty aceitou o convite. Ele havia tomado decisão de não dirigir mais carro, pois ele ficava amedrontado no volante, e por isto, tinha contratado um motorista particular. Nesta noite, ele estava tão cansado que decidira ficar em casa, dando noite livre para o motorista. Não dirigia a meses, mas, assim mesmo, pegou o carro e tomou o rumo da casa de Liz, aonde chegaria em 4 a 5 minutos.

Durante o jantar, apenas tomou um pouco de vinho e nada mais bebeu durante toda noite. Por volta da meia noite e meia, despediu-se e saiu com McCarthy, deixando a luxuosa mansão, localizada bem do alto de uma colina, com a expressa recomendação de Liz para que seguisse de perto o carro de Kevin, para sua maior segurança. E ele prometeu que assim ele faria, para ela não se preocupar.

De repente, ouvi um terrível estrondo”, contou Kevin (foto). “Parei meu carro e dei marcha a ré dentro da noite, para encontrar o dele, destruído contra um posto telefônico. Senti cheiro de gasolina e procurei desligar a ignição, mas estava tãoescuro que não podia ver nada, nem mesmo Monty. Aterrorizado, voltei rápido para a casa dos Wildings, batendo forte na porta e gritando para que chamassem uma ambulância, sem saber se Monty estava vivo ou morto”.

Tanto Kevin como Michael tentaram impedir Elizabeth Taylor de descer a colina e ir até o local do acidente em eles, mas, como acrescentou Kevin: “Ela estava desesperada, ela lutou conosco como um tigre e desceu correndo a colina”.

E LIZ TAYLOR diria: “O rosto de Monty escorria sangue e mal podia vê-lo. Mas me arrastei para dentro do carro e coloquei-lhe a cabeça no meu colo. Finalmente, ele voltou a si e começou a tentar puxar um dente solto. E Pediu-me para puxar outro e eu o atendi. Tive que me controlar para não passar mal”.

Chega o Dr. Rex Kennamer, que auxiliado por Rock Hudson, consegue retirá-lo do carro. Liz entrou na ambulância com ele, e chegaram ao Hospital Cedros do Líbano. Quando Clift foi levado para a sala de operações, Liz entou em forte crise de histerismo.

O Dr. Kennamer detalhou os estragos na face e no corpo de Monty: lacerações no lado esquerdo da face, com um nervo cortado, deixando aquele lado entesado e a boca torta; nariz quebrado e esmagamento da cavidade óssea; ambos os lados do maxilar quebrados, três dentes frontais perdidos; grave concussão cerebral; deslocamento do pescoço.

Clift recuperou-se por algum tempo no hospital, onde depois de três semanas, os médicos descobriram que um lado do maxilar havia sido engastado incorretamente. Tiveram de quebrá-lo e reengastá-lo.

Com o rosto sensivelmente desfigurado, evitaram de lhe dar papéis que pediam rostos bonitos e perfeitos, e desde aquele momento ele passou a fazer personagens sofridos, que iam de acordo com seus novos traços faciais, seu novo visual. Montgomery Clift, que já tinha tendências depressivas, nunca mais foi o mesmo. A alma também fora profundamente atingida e ele se transformou num homem amargurado e triste. Um homem torturado.




A ÁRVORE DA VIDA (Raintree County, 1957)

Em abril de 1956, a MGM havia iniciado a produção de A Árvore da Vida, com status de superprodução, tendo como principais destaques do enorme elenco Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, e Eva Marie Saint. Preocupado de Clift estar bebendo exageradamente (mesmo antes do acidente), o produtor (e depois chefe da MGM) Dore Schary (1905-1980) fez um seguro do filme, o que nunca havia acontecido antes por 500.000 dólares, para cobrir qualquer problema que pudesse ocorrer durante a produção. Estavam as filmagens em meio quando aconteceu o acidente com o carro do ator, e elas foram interrompidas por nove semanas.

Recebendo alta dos médicos, Clift apresentou-se prontamente aos estúdios para o reinício das filmagens. Em dores constantes e tomando regularmente codeína e um sortimento de pílulas que trazia numa sacola. Clift sentia que devia aos colegas e ao estúdio a imediata volta ao trabalho. Era cedo ainda, mas os sensos de responsabilidade e coleguismo prevaleceram. O rosto ainda estava inflamado. O perfil direito foi menos danificado e, assim, ele foi mais fotografado por este ângulo, com mais freqüência. Os olhos- sempre o melhor de sua imagem- nem sempre estavam claros e limpos. Mesmo com o uso contínuo de colírios, mostravam-se muito irritados e vermelhos, redobrando os cuidados de Robert Surtees (1906-1985), diretor de fotografia (Ben-Hur).


Pela extrema dedicação de Monty e seu amor ao filme, Edward Dmytryk (1908-1999) conseguiu terminá-lo; o lançamento ocorreu a 4 de outubro de 1957, com 165 minutos de projeção condensando o massudo romance de Ross Lockridge Jr (1914-1948), que são de 1.066 páginas. Com o roteiro de Millard Kaufman (1917-2009), seguindo muito perto a obra em que se baseia, acontecimentos históricos e personagens matizados, cujos diálogos dão vida a trama que se inicia em 1859, quando o “Professor” Jerusalém Webster Stilles (Nigel Patrick, 1913-1981) fala aos alunos John Wicklift Shawnessy (Clift) e Nell Gaither (Eva Marie Saint), formandos em curso secundário, em Fairhaven, Indiana, da existência de uma árvore dourada, que representa a verdade e a realização, oculta em algum lugar do condado- e eles logo se põem a procurá-la.

Embora Nell e John sejam namorados, ele se casa com a bela Susanna Drake (Liz Taylor), quando ela lhe revela esperar um filho dele. Susanna mentia para forçá-lo ao casamento. Em visita ao Sul, John fica sabendo do confuso estado mental de Susanna, envolvendo temores de miscigenação e um mistério cercando a morte dos pais num incêndio. Nasce um filho do casal. Irrompe a Guerra Civil Americana (1861-1865), e John fica em casa, dando aulas e cuidando de seu filho Jimmy e de sua esposa cada vez mais perturbada.

Um dia Susanna foge de casa com o menino e John se alista no Exército da União para tentar encontrar vestígios deles. Acaba por descobrir Jimmy abrigado por antigos escravos de Susanna e o leva consigo. Terminada a Guerra, localiza Susanna num hospício e volta para Indiana.

Aparentemente recuperada, mas acreditando que seu comportamento vem impedindo John de buscar a árvore fabulosa, Susanna foge uma noite à procura dela, sendo seguida por Johnny, que dera sua falta. No dia seguinte, é encontrada morta no pântano, e John e Nell, reunidos finalmente, encontram Jimmy (Mickey Maga) ao sopé de uma árvore dourada.


ÚLTIMOS FILMES

Entre 1958 e 1966, fez seus últimos seis filmes. Os Deuses Vencidos, como o insignificante e odiado soldado judeu Noah Ackerman. Em Paris, onde o filme estava prestes a ser rodado, Monty desapareceu, prejudicando toda equipe e atrasando as filmagens. Foi descoberto muitos dias depois, no Sul da Itália, em um bordel imundo.

De 1959, Por um pouco de Amor, fazendo um colunista sentimental, contracenando com Robert Ryan (1909-1973), a veteraníssima Myrna Loy (1905-1993, em 115º filme) e Dolores Hart. De Repente no Último Verão, baseado na peça de Tennessee Williams (1911-1993), roteiro de Gore Vidal e do próprio Williams, pela terceira e última vez contracenando com sua grande amiga Elizabeth Taylor, e pela primeira (e única) vez com a Diva Katharine Hepburn (1907-2003). 1960, um encontro com Elia Kazan (1909-2003) em Rio Violento, que dirigiu Clift em um drama estranhamente perturbador, contracenando com Lee Remick (1935-1991), Albert Salmi (1928-1990), e Jo Van Fleet (1914-1996).

No mesmo ano, John Huston (1906-1987) dirigiu Clift e um elenco all star no que é considerado um de seus piores filmes- Os Desajustados. Só elenco era de primeira, trazendo Clark Gable em seu último filme (ele morreria em novembro de 1960), e Marilyn Monroe (1926-1962), que como Clift, também andava dando problemas durante as filmagens, e como Gable, também se despediu das telas com este filme.

Julgamento em Nuremberg, como o esterilizado deficiente mental Rudolf Petersen, papel de 7 minutos. Stanley Kramer ofereceu 50.000 dólares (pelo filme Os Desajustados, Clift recebeu 200.000), mas os agentes do ator aconselharam a não aceitar, para não abrir um precedente, mas Kramer insistiu pessoalmente com ele e o contrato foi assinado por uma quantia mínima, a título simbólico, mas despesas. Pelos 7 minutos de presença na tela, teve pela quarta e última vez o nome indicado pela Academia para suas premiações anuais, desta vez como melhor ator coadjuvante. Dele disse Stanley Kramer (1913-2001): “Clift é um dos três ou quatro maiores atores que existem".

Voltou a ser dirigido por John Huston em Freud, além da Alma, filme difícil, de cujo elenco também participou Susannah York, Larry Parks (1914-1975), Susan Kohner e David McCalum. Do seu trabalho, Huston se recordaria: “Ao fim, penso que ele deu uma interpretação extraordinária. Freud era um homem torturado. Ao menos, conseguiu um ator torturado.”

Em outubro de 1965, foi recomendado pelo escritor Salka Viertel ao produtor-diretor Raoul Lévi (1922-1966) para fazer o papel principal de um thriller de espionagem que ele havia escrito com base num romance de Paul Thomas – The Defector. Inteiramente filmado em locações na Alemanha, o filme foi lançado em 1966 e marcou a despedida de Clift das telas.

As condições de saúde de Montgomery Clift se deterioravam ano após ano. Em janeiro de 1962, foi operado de uma hérnia e veias varicosas. Em dezembro do mesmo ano, à primeira de duas operações de catarata. O trabalho no Cinema, cada vez mais escasso, e com problemas de saúde e de bebida, tornou-se um ator pouco confiável. A memória, sempre considerada excelente, já não era a mesma.

Na manhã de 23 de junho de 1966, Montgomery Clift foi encontrado morto, às 6 horas da manha, por um amigo que cuidava dele em seus últimos anos. Levado para o necrotério da cidade, o legista fez a necropsia, e declarou que o ator tinha morrido de explosão da artéria coronariana. O ator esta sepultado em um cemitério Quaker, em Broklyn, Nova York(foto).


O TEATRO E O CINEMA- DECLARAÇÕES DE MONTGOMERY CLIFT


Não tenho medo de ser estereotipado. O maior perigo é demonstrar segurança, ser digno de confiança. A Mais forte motivação, em um ator é a prova, o experimento. Tudo o que nos desenvolve é digno de ser interpretado, mesmo se for um fracasso.”

Em muitos aspectos, a tela é um meio mais satisfatório do que o palco. A sinceridade chega melhor ao ator e há mais oportunidade para sutilezas, porque a câmara nos esta em cima o tempo todo”.

E SE CONTRADIZ:
O desafio de interpretar nos palcos é maior no que nos filmes. Não há policiamento diante de uma personalidade isolada. Se você tem um papel extenso, tem que agüentá-lo, e bem.

Criticado pela escassez do guarda-roupa, disse: “Tenho um terno de que gosto muito e pretendo mantê-lo enquanto as boas traças o pouparem”.

Reprodução de uma matéria de 17 de outubro de 2010, mais atualizada, com base em artigo de João Lepiane, da Revista Cinemim nº 82- março/abril de 1993.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES.
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domingo, 27 de abril de 2014

O Cinema Religioso Cristão – Parte Final



Por Paulo Telles

Continuando o artigo referente ao cinema religioso cristão, onde abordaremos sobre os filmes com temáticas bíblicas e religiosas, além de dramas de cunho religioso, onde não necessariamente sejam mensagens do Evangelho, mas podendo se tratar de maneira soberana a humanidade dos seus personagens dentro do  pano da fé.


A SEGUNDA PARTE DESTA MATÉRIA




IV-JOHN FORD E A PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS NOS TEMPOS MODERNOS.

John Ford (1895-1973) realizou uma de suas obras mais culturais (talvez a maior delas), para um cineasta que visava em não ser um intelectual, mas sim um rico contador de histórias, o que ele fez com tamanha maestria em toda sua carreira. Mas Domínio de Bárbaros (The Fugitive), de 1947,  infelizmente hoje é uma das fitas pouco lembradas do diretor, que ficou marcado como o “Mestre dos Westerns”, e principalmente, pela sua parceria com John Wayne, seu astro principal em inúmeros de seus clássicos, e seu compadre.



A história, baseada em livro de Graham Greene (1904-1991), baseada em fatos verídicos, se passa no México, no Estado de Tabasco. O governo é violentamente contra a religião católica; a religião foi proibida, diversos padres foram mortos ou obrigados a abandonar o sacerdócio. A obra conta a história de um padre (Henry Fonda, 1905-1982), sem nenhuma identidade, alcunhado de “Fugitivo.” Nesse cenário hostil, este padre tenta fugir em direção aos Estados Unidos, contando com a ajuda de uma índia (Dolores Del Rio, 1904-1982) e de um paroquiano fiel.  



Contudo, as coisas não dão certo para o religioso, que é perseguido e capturado, e como muitos que deram seu sangue pela fé, ele acaba sendo sacrificado. Os bárbaros na fita são as autoridades policiais, que caçam até as últimas consequências os religiosos que querem abraçar a fé em Cristo. Pedro Armendáriz (1912-1963) é o tenente da polícia mexicana; J. Carrol Naish (1896–1973) é o informante da polícia; Leo Carrilo (1881-1961) é o Chefe de Polícia; e Ward Bond (1903-1960) ainda desponta no elenco de tão fascinante obra fordiana.

Com deslumbrante fotografia expressionista de Gabriel Figueroa (1907-1997), Domínio de Bárbaros é uma obra de impressionante beleza, lirismo e religiosidade, e John Ford costumava dizer que era um de seus trabalhos favoritos.


V-A SANTIDADE NO CINEMA INGLÊS.

Em 1964 e 1966, o cinema inglês levou as telas duas biografias de santos católicos ingleses: São Thomas Becket (1118-1170), e São Thomas More (1478-1535). Os filmes, eram, respectivamente, Becket, o Favorito do Rei (1964) e O Homem Que Não Vendeu Sua Alma (1966).


O primeiro, dirigido pelo inglês Peter Glenville (1913–1996), também ator, conta sobre a vida de São Thomas Becket (Richard Burton, 1925-1984), mártir, que foi assassinado por seguidores do Rei Henrique II (Peter O’ Toole, 1932-2013) na Catedral de Cantuária. Tudo começa quando o monarca da Inglaterra vive em choque com a Igreja. Quando o Arcebispo de Canterbury (Felix Aylmer, 1889-1979) morre, ele tem uma ideia genial, que consiste em não nomear nenhum religioso para o cargo e sim Thomas Becket, um grande amigo de muitas farras e copos, que o apoiaria e ficaria contra a Igreja.



Henrique II desejava ser senhor absoluto dos seus domínios, tanto da Igreja como do Estado, e conseguiu encontrar um precedente nas tradições do reino para retirar privilégios especiais ao clero inglês, que ele considerava como empecilhos à sua autoridade.

Enquanto chanceler, Becket cobrou um imposto de proteção do reino contra invasores, uma tradição medieval cobrada de todos os proprietários de terras, incluindo igrejas e bispados, o que lhe criou dificuldades e ressentimentos do clero inglês. Becket aumentou ainda mais a sua imagem de homem secular ao tornar-se um cortesão bem sucedido e extravagante, e um alegre companheiro dos prazeres do rei. O jovem Thomas era dedicado aos interesses do seu soberano, de um modo tão firme apesar de diplomático, que quase ninguém duvidava da sua lealdade à coroa inglesa.


Em 1162, Henrique II recompensou Becket fazendo-o arcebispo de Cantuária. A escolha teria sido olhada com desconfiança pelo clero inglês, e Thomas só conseguiu o cargo vários meses após a morte do anterior arcebispo, Teobaldo. O rei tencionava aumentar a sua influência ditando as ações do seu fiel e nomeado vassalo, e diminuir a independência e a influência da Igreja na Inglaterra.


Mas o caráter de Becket pareceu modificar-se imediatamente. Passou a viver uma vida de simplicidade e pobreza e, apesar de anteriormente ter ajudado Henrique a diminuir o poder dos bispos, passou a defender ativamente os direitos da Igreja. Thomas, repentinamente, encara a nova função com seriedade, se opondo mais ao rei que seus predecessores, e isto faz com que os dois outrora amigos entrem em choque. Becket se torna mais popular que o Rei, o que não demora em que Henrique arme uma conspiração contra o agora seu inimigo.

A maioria dos historiadores parece concordar que o rei não pretendia realmente assassinar Thomas Becket, apesar das suas duras palavras. Seja como for, quatro dos cavaleiros do monarca (Reginald Fitzurse, Hugh de Moreville, William de Traci e Richard le Breton) partiram para a Cantuária. Em 29 de Dezembro de 1170, entraram na catedral e assassinaram Becket, subindo alguns nos degraus do altar, quando os monges cantavam as vésperas do ano vindouro.


Depois do assassinato, descobriu-se que Becket usava um cilício (neste contexto uma camisa de tecido grosso e desconfortável) por baixo das suas vestes de arcebispo. Em pouco tempo, fiéis por toda a Europa começaram a venerar Thomas Becket como mártir, e em 1173, cerca de três anos após a sua morte, foi canonizado pelo papa Alexandre III na Igreja de São Pedro, em Segni

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O Homem Que Não Vendeu Sua Alma foi, em 1966, a nova incursão do cineasta Fred Zinnemann (1907-1997) pelo terreno da consciência atormentada através da fé (como retratado pelo diretor em Uma Cruz a Beira do Abismo 8 anos antes), com base na famosa peça de Robert Bold (1924-1995) que foi estrondoso sucesso nos palcos londrinos em 1960, e que também abordou o script. A trama versa sobre as relações de Sir Thomas More (Paul Scofield, 1922-2008) e o Rei Henrique VIII (Robert Shaw, 1927-1978). More, um dos mais respeitados católicos da Europa de então, em 1528, na sua recusa em aceitar o casamento do monarca com Ana Bolena (Vanessa Redgrave), sofre todo tipo de pressão para renegar seus princípios, defendida até a morte, por decapitação.


A sua cabeça foi exposta na ponte de Londres durante um mês, foi posteriormente recolhida por sua filha, Margaret Roper. A execução de Thomas More na Torre de Londres, no dia 6 de julho de 1535 "antes das nove horas", ordenada por Henrique VIII, foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, consequência de uma atitude despótica e de vingança pessoal de um monarca. Devido à sua retidão e exemplo de vida cristã, foi reconhecido como mártir, declarado beato em 29 de dezembro de 1886 por decreto do Papa Leão XIII e canonizado, conjuntamente com São John Fisher a 19 de maio de 1935 pelo Papa Pio XI. O seu dia festivo é 22 de Junho.


Um homem para todas as épocas, conforme palavras do próprio cineasta, que foi um diretor para todos os filmes.  O roteiro se preocupa em não ter palavras recitadas, mas sim em mostrar o que os personagens sentem e o que pensam. Zinnemann ainda evitou que o esplendor adquirisse precedência sobre o drama. Isto não impede que, junto à angustia de More, transmitida com absoluta limpidez graças as cenas plasticamente rebuscadas, graças a excelente fotografia de Ted Moore (1914-1987), pois as imagens do Tâmisa, onde a fita fora rodada em especial não fogem da memória do espectador.



Tudo neste drama religioso sobre a vida de um santo inglês funciona em perfeita sintonia, graças à bem aventurada escolha do elenco, além dos mencionados Shaw e Scofield, temos Wendy Hiler (1912-2003) no papel de Alice, esposa de More; Orson Welles (1915-1985) como o Cardeal Wolsey; Leo Mckern (1922-2002); John Hurt como Richard Rich, o falso acusador de Thomas More; Nigel Davenport (1928-2013) como o Duque de Norfolk; A fascinante Vanessa Redgrave, já apontada, como Ana Bolena; e Susannah York (1939–2011) como Margareth, a filha de Thomas More.   O Homem Que Não Vendeu Sua Alma surpreendeu ante a entusiástica receptividade, ganhando os principais prêmios nos Estados Unidos e na Inglaterra, incluindo Oscar de melhor filme de 1966 e melhor diretor para Fred Zinnemann, assegurando lucro polpudo nas bilheterias mundiais.


VI-A FACE DO REDENTOR NA VISÃO DE CINCO CINEASTAS

São incontáveis as montagens cinematográficas sobre a vida e paixão de Jesus Cristo. Sabemos que desde os primórdios da Sétima Arte, os pioneiros investiram em diversas adaptações dos Evangelhos. Acredita-se que mais de duas mil versões foram realizadas sobre a vida do homem que dividiu a História antes e depois del. Logo, seria impossível enumerar todas as películas feitas sobre a vida do Redentor. Contudo, enumeraremos aqui a passagem dos evangelhos sob a ótica de cinco grandes diretores: Julien Duvivier, Nicholas Ray, Pier Paolo Pasolini, George Stevens, e Franco Zeffirelli.

As Sagradas Escrituras inspiraram tanto respeito que o cinema durante muitos anos não ousava mostrar sequer o rosto de Cristo. A presença de Jesus era anunciada por gestos de sua mão, ou mostrado de costas para o público, sua voz fora de cena, ou ainda efeitos avassaladores, tais como imensos raios solares. Afinal, uma imagem ausente da figura redentora poderia causar impacto mais poderoso pelo próprio mistério que encerra. Contudo, nem todos os cineastas concordavam com este ponto de vista, e ousaram confeccionar a imagem de Jesus aos moldes dos pintores da renascença, ou mesmo, pelo imaginário popular cristão.


Muito embora a figura pictórica do personagem não seja a verdadeira, foi a imaginação dos pintores que vieram a influenciar muitos dos cineastas que ousaram filmar a vida de Jesus. Entretanto, para corporificar Jesus nas telas de cinema, o cinema adotou, na maior parte dos casos, o conceito europocêntrico: Jesus seria alto ou ruivo, louro e de olhos azuis.


Estreado no Brasil com o subtítulo de O Grande Drama da Humanidade, e baseado no romance O Mártir do Gólgota, de Enrique Perez Escrich (1829- 1897), Golghota foi produzido na França em 1935 e dirigido por Julien Duvivier (1896-1967). Além de obter aplausos de grandes críticos da época, foi rotulado pelo jornal francês Le Salut Public, como “a melhor construção da Antiguidade até agora conseguida”. Esta obra de Duvivier foi reprisada nos cinemas do Rio de janeiro na década de 1950, sob o título original do romance de Escrich.


A fita comprova a qualidade do intérprete de Cristo, Robert Le Vigan (1900-1972), sério, veemente, distanciado da linha do Cristo apostólico romano. Um Cristo quase hierárquico, cujo roteiro tem um diálogo fiel ao espírito do Evangelho, dito por astros como Harry Baur (1880-1943) como Herodes Antipas; Jean Gabin (1904-1976, foto acima), como Pilatos; Edwige Feuillère (1907–1998), como Prócula, esposa de Pilatos; e Lucas Gridoux (1896–1952), como Judas.


Robert Le Vigan, o intérprete de Cristo, após a conclusão desta magnífica obra de Duvivier (uma das melhores sobre a vida de Jesus), se tornou popular e bastante requisitado por muitos diretores franceses, mas quando a França foi invadida pelos alemães durante a II Guerra, tornou-se um membro radical do “Parti Populiste Français", um direitista partido pró-fascista, e não escondeu seu apoio ao antissemitismo, além de colaborar com as autoridades nazistas. Mais tarde foi preso e julgado, e mesmo tempos depois em liberdade condicional, sua carreira já tinha sido destruída e seus bens confiscados. Morreu pobre, esquecido, e louco na Argentina, em 1972.


Em 1961, Nicholas Ray (1911-1979) juntamente com o produtor Samuel Bronston (1908-1994) realizou uma das obras mais importantes da vida de Jesus Cristo, um tributo à iconografia cristã, estabelecida desde que Lumiere realizou sua La Passion em 1897:              Rei dos Reis.



A obra sacra de Ray, a penúltima em sua primorosa filmografia, foi rodada na Espanha, acarretando divisão de opiniões, tanto por parte da crítica, do público, e de líderes religiosos cristãos. Não contente de apenas se inspirar nas pesquisas dos maiores estudiosos sobre o tema, Ray, juntamente com o produtor Bronston, teve uma audiência com o Papa João XXIII (1881-1963), ao qual pediram sugestões para a coordenação e distribuição de cenas. Ray escalou seu colaborador e amigo de anos, o competente e ganhador do Oscar pelo roteiro de A Lança Partida, Philip Yordan (1913-2004), para confeccionar o script, que enfileira os principais episódios do Evangelho em seus 168 minutos de projeção, segundo uma postura cênica, hierática, e comovedora.



Dificilmente, algum maquiador faria o mesmo com o rosto de Jeffrey Hunter (1925-1969), o intérprete de Cristo. A apolínea beleza do ator de olhos azuis e um triste destino (Hunter morreu aos 43 anos, em 1969, ao cair de uma escada em sua casa).  Com a escolha de Hunter, decerto o mais belo Cristo idealizado nas telas, e o roteiro inteligente de Yordan, que ajustou com perfeição a imagem de Jesus Cristo ao seu verdadeiro ambiente, respeitando acontecimentos históricos daqueles tempos agitados, Rei dos Reis se tornou um espetáculo tradicional e um dos preferidos em reprises da Semana Santa pela TV por assinatura hoje. A fita, motivada pelo script de Yordan, alivia até mesmo a culpabilidade pela morte de Jesus pelos judeus, dando a entender que foi uma conspiração do Império Romano, que durante três anos vinha investigando os passos do Nazareno e de seus discípulos.



Jeffrey Hunter atua como Jesus com inigualável carisma a altura do personagem. Sereno, sublime, humano, mas, ao mesmo tempo, colocado acima dos mortais. Ele declarou a uma revista americana, em março de 1962, um ano depois do lançamento do filme, a respeito de seu desempenho como Cristo:

 Não compreendi totalmente minha responsabilidade até achar-me nas vestes de Jesus, subindo a montanha para a cena do sermão das bem-aventuranças. Para minha surpresa, muitos habitantes do vilarejo caíram de joelhos enquanto eu passava. Eles sabiam muito bem que eu era um mero ator, porém sentiram que, de alguma forma, eu era uma representação viva de uma figura que lhes era sagrada desde a infância. Eu não sabia o que fazer... foi aí que me conscientizei do que aceitara representar.




Senti minha responsabilidade crescer à medida que o filme prosseguia, e sinto-a ainda mesmo que o filme tenha terminado. Não creio, entretanto, que sou maior conhecedor de Cristo do que qualquer outra pessoa. Minha educação religiosa foi como a de qualquer criança americana. Conhecia a Bíblia, é claro, a história de Jesus era sagrada, mas nunca havia pensado muito sobre ele como Pessoa, de carne e sangue, como um Homem que viveu neste mundo como nós vivemos, entre pessoas e em um tempo não diferente dos atuais. Ao estudar o script, e enquanto prosseguia minha pesquisa, comecei a compreender pela primeira vez o significado de Sua vida e o que os Seus ensinamentos trouxeram ao mundo.





No elenco, grande maioria de atores não muito notórios, mas que dão grande suporte à trama bíblica: a irlandesa Siobhán McKenna (1923-1986) como Maria; o ator alemão muito conceituado na Europa Gerard Tichy (1920-1992) como José;  Hurd Hatfield (1917-1998) como Pôncio Pilatos;  Rip Torn é Judas; Rita Gam é Herodiades; Carmen Sevilla como Maria Madalena; Antonio Mayans como o jovem discípulo João; Ron Randell (1918-2005) é o Centurião Lucios; Royal Dano (1922-1994) é Simão Pedro; Viveca Lindfors (1920-1995) é Prócula, esposa de Pilatos; Harry Guardino (1925-1995) como Barrabás; Brigid Bazlen (1944-1989) é Salomé; e Robert Ryan (1909-1973) o mais famoso do cast cujo nome era sinônimo de talento, é João Batista.



O Climax Maximus do filme é o Sermão da Montanha, onde foi utilizado 7.000 figurantes, mais do que na cena da crucificação, possivelmente, uma grande falha da produção, entretanto, não deixa de ser um espetáculo religioso dos mais belos vistos na Sétima Arte. Na descida da montanha, a equipe de operadores teve de construir cerca de 60 metros de trilhos ao longo das encostas. Na trilha sonora, a música marcante de Miklos Rozsa (1907-1995).



Rei dos Reis é um monumento esplendoroso, incapaz de arranhar o fervor das grandes plateias a santificada imagem de Cristo. Mesmo que, na época de seu lançamento, críticos arredios ao cinema de Nicholas Ray - um dos mais competentes cineastas do Século XX que foi um caloroso defensor da juventude desajustada- tivessem maldosamente crismado o filme como I Was a Teenage Jesus (Eu fui um Jesus adolescente), comparando talvez Jeffrey Hunter ao rebelde sem causa de James Dean, em Juventude Transviada (1955), outra obra do diretor. A narração, em off, é de Orson Welles, que não foi creditado.


Mas nem todas as visões de Cristo no cinema ofereceram uma iconografia santificada aos moldes do imaginário cristão. Em 1964, Pier Paolo Pasolini (1922-1975), marxista e ateu, lança O Evangelho Segundo São Mateus, a versão mais polêmica (ao lado de A Última Tentação de Cristo, de 1988, de Martin Scorsese) da vida de Cristo. Sem a aura de santidade expressa em Rei dos Reis (1961) de Nicholas Ray, A Maior História de Todos os Tempos (1965) de George Stevens, e Jesus de Nazaré (1977) de Franco Zeffirelli, mas também sem recair no exotismo das óperas rock contidas em Jesus Cristo Superstar e Godspell, a esperança, o Cristo vivido pelo estudante espanhol Enrique Irazoque é um Messias bárbaro, um agitador das massas que usa seus sermões em defesa dos oprimidos, com o intuito de transformar um mundo socialmente injusto. Segundo cineasta, ele encontrou em Irazoqui um rosto belo e fero, humano e destacado dos Cristos pintados por El Greco. “Eu vim trazer a espada e não a paz”, declarou Pasolini e Mateus em seu Evangelho.


No entanto, o leitor poderá perguntar do por que um ateu se interessar em filmar a vida de Jesus Cristo. Muito simples: a figura de Cristo exercia nele uma fascinação não religiosa, mas poética e política. E em Cristo ele admirava sua poesia, força, e carisma. Apenas não aceitava Jesus conforme a Igreja Católica e a teologia, mas acreditava que a mensagem de Jesus conforme o Evangelho de Mateus era revolucionária, ao passo que, para o cineasta italiano, Cristo era uma personalidade corajosa, rebelde, e revolucionária tal qual sua mensagem. Era o Cristo que ia salvar o povo não das penas do inferno, mas da própria ignorância do ser humano.


A Igreja e os fiéis censuraram Pasolini pela falta de doçura do intérprete de Jesus, no entanto era um Cristo destinado a ser um nativo rebelde à prepotência colonialista profeta apocalíptico da riqueza ilícita, de açoite em punho fazendo a reforma agrária para perplexidade e horror dos falsos pregadores e beatos apegados à propriedade privada, que certamente, não leram a encíclica Populorum Progressio, e vieram a combater o Concílio Vaticano II, iniciado por João XXIII e só terminado na gestão de Paulo VI.


Como não deixara de ser, houve protestos violentos contra o filme, e a extrema direita jogou ovos podres no Palácio do Festival de Veneza durante seu lançamento, que, paradoxalmente, acabou ganhando o prêmio do Escritório Católico Internacional de Cinema, e cuja obra foi dedicada à memória de João XXIII, por Pasolini considera-lo o papa mais próximo das ideias progressistas do evangelista Mateus, que procurou mostrar Jesus Cristo para os judeus como o Messias esperado, o Messias das profecias, enfim, o Messias do povo. O filme foi rodado em austeros cenários da Calábria e obedece o tom sublimis et humilis do texto bíblico, numa linguagem despojada e naturalista que a muitos críticos recordou o estilo ascético de Dreyer (A Paixão de Joana D’Arc) e Rossellini (Francisco, arauto de Deus), sublinhando a longa narrativa de 138 minutos de projeção, e uma partitura musical com temas de Bach, Mozart, Prokofiev, “negro spiritual” e música sacra congolesa.


Em 1995, quando o cinema completou 100 anos de existência, esta obra de Pasolini foi inclusa entre os 100 melhores filmes de acordo com o Vaticano, que elaborou uma intensa lista, na categoria de Religião, ao lado de obras como A Vida e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (1905) de Ferdinand Zecca, Nazarin (1959) de Luis Buñuel, e Ben-Hur (1959) de William Wyler.


Após o lançamento de Rei dos Reis, em 1961, de Nicholas Ray, George Stevens (1904-1975), responsável por clássicos como Gunga Din, Os Brutos Também Amam, e Assim Caminha a Humanidade- manifestou interesse em filmar a vida de Jesus Cristo de forma que pudesse ser a versão definitiva. Para isso, o cineasta consumiu seis anos de produção e fez reunir um grande elenco, com 117 papéis dialogados, com atores famosos, muitos destes em pequenas pontas.


Stevens se baseou num romance chamado A Maior História de Todos os Tempos (The Greatest Storie Ever Told), de Fulton Oursler (1893–1952), além dos textos do Novo Testamento, e sua intenção era contar a vida do grande líder da Cristandade com um elenco All-Star, rodada mesmo nos Estados Unidos, em locações do Arizona, Utha, Nevada, e em estúdios da MGM em Culver City- mas que veio a fornecer um panorama ao estilo Cartão Postal, com narrativa hiper- acadêmica, com conceituação medievo-renascentista.


Narrado de forma majestosa e clássico rigor estilístico a Vida de Cristo, a obra sacra de Stevens teve apoio de diversos roteiristas, como o poeta Carl Sandburg (1878-1967), este foi o penúltimo filme do cineasta, rendendo um espetáculo grandioso. A Maior História de Todos os Tempos foi originalmente lançada com 225 minutos de duração (exibida no Brasil com 10 minutos a menos, a versão hoje a disposição em DVD), mas a metragem original seria de 260. Em alguns países, foi lançado com 141 minutos, inclusive na época do Vídeo Home System (VHS), foi esta a duração lançada no mercado de vídeo.


Destaque para a beleza pictórica (consultoria a cores do mestre Eliot Elisofon) e o esplendor lírico e dramático de uma encenação suntuosa. Em especial realce, a sequência da ressurreição de Lázaro (Michael Tolan, 1925-2011) ao som de Aleluia de Handel, que é um dos grandes momentos do filme. Elenco vigoroso: Carroll Baker, como Verônica; Richard Conte (1910-1975), como Barrabás; Jose Ferrer (1912-1992) como Herodes Antipas;  Ina Balin (1937-1990) como Martha de Betânia; Van Heflin (1910-1971) como Bar Armand; Martin Landau, como Caifás; Sal Mineo (1939-1976); Neremiah Persoff;


Telly Savalas (1922-1994) que raspou definitivamente o resto de seu cabelo para viver Pôncio Pilatos; David McCallum como Judas; a carismática e talentosa Dorothy McGuire (1916–2001), como Maria; Angela Lansbury como Prócula; Claude Rains (1889-1967) como Herodes o Grande; Sidney Poitier como Simão de Cireneu;  Pat Boone como o anjo da Ressurreição; Sal Mineo (1939-1976) como Uriah;



Charlton Heston, o ícone do cinema épico bíblico, como João Batista, o maior destaque de todas as interpretações, embora não supere a atuação de Robert Ryan em Rei dos Reis, realizado quatro anos antes; John Wayne (1907-1979) numa curta aparição como o soldado que conduz Cristo até ao Calvário e perante a cruz recita: “este homem era realmente o Filho de Deus”.


E um dos atores favoritos de Bergman, Max Von Sydow, ainda um ator bem ativo e de prestigiado sucesso, como Jesus. Entretanto, não deu ao personagem um ar caloroso e doce, e não comoveu. Apesar de um trabalho primoroso por parte de George Stevens, o filme não teve o retorno tão esperado pelo diretor, prejudicado pela alta metragem e excesso de personagens, além do desgaste das superproduções bíblicas. A Música também é outro ponto culminante, uma das últimas composições de Alfred Newman (1901-1970), o mesmo compositor de A Canção de Bernadette e O Manto Sagrado,  para o cinema.



Embora uma requintada produção feita para a TV italiana, Jesus de Nazaré, de 1977, dirigido por Franco Zeffirelli, foi exibido nas nossas salas de cinema e em grande parte do mundo em duas partes, totalizando 6 horas de projeção.  Na TV brasileira, estreou na Rede Globo em 1981, como minisérie em capítulos. Jesus Cristo volta aqui a sua moda tradicional, mas o sensível cineasta de Romeu e Julieta (1968) não satisfeito consultou católicos, protestantes, judeus, e até islamitas. Filmado na Tunísia, Itália e na Inglaterra, mesmo com toda reverência excessiva a figura de Jesus, acarretou protestos e o filme acusado de herético por alguns fanáticos católicos, por apresentar Maria (interpretada por Olivia Hussey) gemendo as dores do parto.


Com dramaticidade de uma grande telenovela, José (Yorgo Voyagis) é aconselhado pelo rabino Yehuda (Cyril Cusack, 1910-1993) a continuar com sua mulher grávida por obra do Espírito Santo.


A trilha sonora de Maurice Jarre (1924-2009) é um dos mais marcantes comentários musicais entre todas as trilhas sonoras em filmes do estilo. Zeffirelli eliminou a tentação de Jesus pelo demônio no deserto e o Sermão da Montanha na edição, assim como fizera Pasolini. O inglês Robert Powell, com a fisionomia de judeu pálido e esquálido, conforme as concepções de Lucas Cranach, El Greco, e Andréa del Castagno, é um dos grandes intérpretes de Cristo em todos os tempos.




Elenco All-Star reunindo Anne Bancroft (1931-2005), como Madalena; Ernest Borgnine (1917-2012), o Bom Centurião, James Farentino (1938-2012), como Simão Pedro; Rod Steiger (1925-2002), como Pôncio Pilatos; James Mason (1909-1984) como José de Arimatéia; Sir Laurence Olivier (1907-1989) como Nicodemus; Christopher Plummer como Herodes Antipas;



Stacy Keach como Barrabás; Claudia Cardinale, a Mulher Adúltera; Anthony Quinn (1915-2001) como Caifás; Peter Ustinov (1921-2004) fabuloso como Herodes o Grande; Ian McShane como Judas (ótima interpretação); e Michael York, como João Batista. Um elenco de estrelas internacionais contando a trajetória do fundador do Cristianismo, desde o nascimento até sua ressurreição, com os habituais requintes deste grande cineasta italiano.



VII-OUTROS FILMES BÍBLICOS- FOCO GERAL

Conforme vimos até aqui, o cinema explorou das mais variadas formas a religião e a fé em todas as suas esferas. Como também foi visto a década de 1950 e metade dos anos de 1960 foram produtivas na confecção de filmes épicos com contos bíblicos.



Hollywood explorou com constância histórias do Velho Testamento, sempre em concorrência com outro filme similar, como foi o caso de David e Betsabá, de 1951, que foi uma resposta de Darryl F Zanuck (1902-1979), chefão da Fox, ao êxito de Sansão e Dalila, estreado dois anos antes, dirigido por Cecil B DeMille e produzido pela Paramount. David e Betsabá, com roteiro de Philip Dunne, conta a história do Rei Davi (Gregory Peck, 1916-2003), o Leão de Judá, que se apaixona por Betsabá (Susan Hayward, 1918-1975), mulher de seu comandante, o leal Urias (Kieron Moore, 1924-2007). Para se livrar deste, o rei o envia a uma batalha suicida.


Após a morte de Urias, Davi passa a sofrer crises de consciência e se submete a duras penitências, durante os quais recorda sua antiga fé, e sua luta contra o gigante Golias quando menino. A paixão proibida quase compele Davi a perder o trono. Produção que se impôs como dos mais respeitáveis no gênero devido aos aparatos da produção, dirigido por Henry King (1886-1982) e música de Alfred Newman.



Em 1953, a Colúmbia após a produção de Salomé estreada por Rita Hayworth produziu em baixo orçamento uma aventura bíblica Escravos da Babilônia, dirigida por William Castle (1914-1977), que ficaria mais tarde notório por seus filmes Trilhers de horror B. Estrelado por Richard Conte (1914-1975) no papel de um pastor judeu, Nahum, que no Século V a.C, organiza um exército para combater o tirânico rei da Babilônia  Nabucodonosor (Leslie Bradley, 1907-1974), que conquistou Jerusalém em 597 a.C, e submeteu milhares de judeus a escravidão. Linda Christian (1923–2011), na época casada com Tyrone Power, é o interesse romântico de Nahum. Ainda no elenco Michael Ansara (1922-2013) e Julie Newmar, a futura Mulher Gato da série de TV Batman (1966-68).



Em 1958, outra produção baseada no Novo Testamento foi o italiano A Cruz e a Espada, dirigido por Carlo Ludovico Bragaglia (1894-1998) e estrelado pela norte americana Yvonne De Carlo (1922-2007).  A trama se concentra quando Roma, para investigar os passos do Procurador Poncio Pilatos (Philippe Hersent, 1912–1982), envia o agente Caio Marcellus (Jorge Mistral, ator que se suicidou em 1972 aos 51 anos de idade). Pelo mesmo navio que viaja Caio em direção a Judéia, viaja Maria Madalena (De Carlo), irmã de Lázaro (Terence Hill) e concubina de Anan (Massimo Serato, 1916-1989), que vive protegendo o bando criminoso de Barrabás. A palavra de Cristo impressiona muito a Maria Madalena e, quando Cristo ressuscita dos mortos seu irmão Lázaro, resolve seguir Jesus. No elenco ainda, Rossana Podestá (1934-2013).


No mesmo ano, outra produção europeia com tema bíblico e histórico: Herodes, o Grande, dirigido por Viktor Tourjansky (1891–1976) e estrelado por Edmund Purdom (1924-2009) que interpreta Herodes, rei da Judéia, aceito tal pelos dominadores romanos, que reina despoticamente sobre os judeus, e também sonha com o domínio do Oriente Médio.  O imperador romano desconfia de Herodes, e este lhe propõe um pacto. Manda seu filho Aron (Alberto Lupo, 1924–1984) matar a sua esposa, Miriam (Sylvia Lopez, 1933–1959), caso Herodes não volte deste pacto. As intrigas palacianas, sobretudo a mãe de Herodes, fazem crer que o rei foi assassinado pelos romanos. Aron não tem coragem de matar Miriam e foge com ela para o deserto. Herodes retorna e começam os ciúmes, as represálias e os assassinatos. Em seus últimos momentos de vida e motivado pela loucura, sob o peso de muitos crimes e atrocidades cometidas, ele ouve falar do Messias e de um novo rei que estaria a governar a Judéia.


A História de Ruth, de 1960, outro drama bíblico da Fox que remete ao Antigo Testamento, rodado pelo mesmo diretor de O Manto Sagrado, Henry Koster (1905-1988) e filmado nos cenários de Viagem ao Centro da Terra. Ruth (a israelense Elana Eden, que só realizou mais três trabalhos depois desse, entre os quais Missão Secreta no Cairo, estrelado por Audie Murphy) – Ruth, quando criança, fora vendida para servir ao deus Chemosh dos Moabitas, povo vizinho e inimigo dos judeus.


O israelita Mahlon (Tom Tryon, 1926-1991), condenado a prisão perpétua por pregar o monoteísmo, foge com Ruth e, gravemente ferido, casa-se com ela antes de morrer. Em companhia da sogra, Naomi (Peggy Wood, 1892-1978), Ruth vai aos campos de Boaz (Stuart Whitman) e Tob (Jeff Morrow, 1907-1993), onde passará a trabalhar e desperta o interesse dos dois homens. Trilha sonora de Franz Waxman (1906-1967).


A Lenda de Davi embora seja um filme feito para a TV, de 1960, foi exibido nos nossos cinemas brasileiros (sob o título de Davi e o Rei Saul) e exibido na nossa telinha diversas vezes (a última vez na extinta TV Manchete), e foi rodada em Israel. O guerreiro Davi, interpretado por Jeff Chandler (1918-1961) em um de seus últimos trabalhos, vence os palestinos e é aclamado por seu povo, provocando a inveja do rei Saul (Basil Sydney, 1894-1968). Instigado por um conselheiro, Doeg (Peter Arne, 1920-1983), e supondo que Davi deseja usurpar o trono, Saul tenta destruir o guerreiro, mas Davi é auxiliado pelo próprio filho do monarca, Jonatas (David Knight).



Esther e o Rei foi à incursão do lendário diretor Raoul Walsh (1887-1980) pelo cinema épico bíblico, em 1960, e rodado na Itália, onde remete outra passagem dos textos bíblicos. No Século IV a.C, depois de renegar sua esposa adúltera, o rei Assuero da Pérsia (Richard Egan, 1921-1987), consente em escolher uma nova esposa: Esther (Joan Collins), incluída à força entre as candidatas. Ester, cuja origem judia o rei desconhece, logo lhe oferece sua afeição, tentando ao mesmo tempo libertar o povo judeu e humanizar o governo de Assuero, afastando os traidores do trono.


Davi e Golias trouxe Orson Welles (1915-1985) numa produção italiana de 1960, onde viveu o Rei Saul, em uma adaptação da história do Velho Testamento. Os filisteus declaram guerra aos israelitas. Saul, rei de Israel, decide ouvir as palavras dos profetas que avisam que seu sucessor será um jovem pastor chamado Davi (Ivica Pajer, 1934-2006). Após isso, o pastor terá que enfrentar o inimigo que vem na forma do gigante Golias (Aldo Pedinotti). Welles também ajudou a dirigir esta fita, junto com Ferdinando Baldi (1917–2007).



O Velho Testamento, 1963, é um  outro exemplar de épico bíblico a italiana baseado em dois livros apócrifos contidos no Antigo Testamento, em parte inspirado em textos de Jasão de Cyrene, historiador judeu helenista que viveu por volta do ano 100 a.C. Descreve a Revolta dos Macabeus, quando o patriarca Matatias (Carlo Tamberlani, 1899–1980) e seus cinco filhos conhecidos como os Macabeus expulsaram os pagãos do templo e inspiraram e restabeleceram a unidade do povo hebreu, dois séculos antes de Cristo. O relato começa com a invasão de Jerusalém por Apolonius (Jacques Berthier, 1916–2008), governador enviado pela Síria para destruir a cidade e apoderar-se do templo sagrado. Após a morte do irmão, Simão Macabeu (Brad Harris) se torna um dos líderes do povo israelita que enfrenta as tropas inimigas em defesa do templo.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES