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sábado, 13 de dezembro de 2014

E o Vento Levou – Revisitando uma obra prima do Cinema.


“O Filme mais famoso e mais visto na História do cinema.  Foi assim que a Rede Globo exibiu na TV, em 1983, um especial as vésperas de seu lançamento pela televisão intitulado A História de E O VENTO LEVOU. Sem dúvida, sua estreia na TV brasileira (em duas partes) foi um evento inédito por aqui, mas não para aqueles que assistiram a este grande alicerce do cinema na grande tela, visto que este ano, esta grande obra prima da Sétima Arte completou em dezembro de 2013 seus 75 anos de lançamento, em Atlanta, Estados Unidos. Uma retrospectiva deste espetáculo se faz necessária, visto ser um dos mais esplendorosos e importantes filmes de todos os tempos, cuja saga de sua realização é tão épica quanto à própria fita.

Por Paulo Telles.


E O VENTO LEVOU(Gone With The Wind, 1939), superprodução de David O’ Selznick (1902-1965), continua sendo até hoje um dos maiores campeões de bilheteria de todos os tempos. Desde 1939, o ano de seu lançamento, segundo cálculos à base do chamado Dólar Constante (que é corrigido monetariamente), a película já arrecadou o equivalente a 321 milhões de dólares, enquanto que Guerra nas Estrelas, o segundo colocado, aparece abaixo, com 272 milhões, pelo menos até 1983. Provavelmente hoje estes números estão defasados.

David O' Selznick
Ao ser transmitido pela primeira vez na TV americana, pela cadeia NBC de televisão, em 7 e 8 de novembro de 1976, tornou-se também o filme de maior audiência já registrada até então pela TV dos Estados Unidos: 47.7 pontos de rating, o ibope americano.



Ao ser lançado, há 75 anos, era a produção mais cara de sua época (4 milhões e 250 mil dólares) e também o filme mais longo do cinema até aquele momento, com suas 3 horas e 43 minutos de projeção.

MARGARET MITCHELL, a autora do Best Seller E O VENTO LEVOU
Vivien Leigh e Hattie McDaniel, numa cena de E O VENTO LEVOU
HATTIE McDANIEL, a primeira atriz negra indicada e premiada pela Academia de Hollywood.
Arquitetado a partir do estrondoso best seller  de Margaret Mitchell (1900-1949), lançado a 30 de junho de 1936, e vendeu até hoje 28 mil exemplares, sendo traduzido em 28 línguas (o romance foi escrito entre os anos de 1926 a 1929), E O VENTO LEVOU bateu ainda o recorde de Oscars conquistados, no total de oito: melhor filme, melhor atriz (Vivien Leigh, 1913-1967), melhor diretor (Victor Fleming, 1889-1949, sendo o único cineasta creditado, embora tenha dirigido apenas 45%¨das cenas. Os demais que também dirigiram mas não tiveram os créditos devidos foram Sam Wood, George Cukor, e William Cameron Menzies, além também do próprio David O’ Selznick), melhor roteiro adaptado (Sidney Howard, que morreu quatro meses antes do lançamento do filme, sendo o único creditado entre doze roteiristas, entre os quais incluíam F. Scott Fitzgerald), foto a cores, atriz coadjuvante (Hattie McDaniel, 1895-1952, a primeira atriz negra a ser indicada e a receber um premio da Academia de Cinema), melhor cenografia e melhor montagem.


E O VENTO LEVOU ainda ganhou três prêmios da Academia de Hollywood: O prêmio Irving Thalberg Memorial para David O’ Selznick, por sua coordenação para a produção dado a sua empresa, Selznick Internacional; e um premio especial a William Cameron Menzies (1896-1957) pelos desenhos de produção, e um prêmio especial para a britânica Vivien Leigh, recebendo ainda mais um prêmio de melhor atriz pela crítica de Nova York.


Sidney Howard
David O’ Selznick contratou o consagrado escritor Sidney Howard (1891-1939) para condensar as 1.037 páginas do estrondoso livro (precisando da colaboração de outros onze roteiristas), já que o romance é detentor do Prêmio Pulitzer de 1937. Outros membros vieram a compor a equipe: George Cukor, amigo pessoal de Selznick e o desenhista de produção William Cameron Menzies

A ESCOLHA DO ELENCO E A BUSCA PELA SCARLETT



Sellznick já estava martelando as ideias para saber quem poderia interpretar os papéis centrais. Para Rhett Butler, o personagem viril que arrebatava os corações femininos das moças do Sul, ele pensou inicialmente em Gary Cooper, Ronald Colman e Errol Flynn,  enquanto Basil Rathbone era o preferido da autora do livro, Margaret Mitchell. Contudo o escolhido pelo público foi Clark Gable (1901-1960). De fato, nenhum outro ator de sua época se encaixaria melhor do que ele como o cínico aventureiro Rhett Butler, amoral e sedutor, mas que ao mesmo tempo demonstrava humanidade.






Para o papel de Ashley Wilkes, Selznick tinha apenas um ator em mente, Leslie Howard (1893-1943). Howard só aceitou a parte quando lhe foi assegurada uma participação como produtor associado em Intermezzo, uma História de Amor / Intermezzo, a Love Story / 1939. A contratação de uma atriz para Melanie não tardou, pois Olívia de Havilland (a única ainda viva do cast principal) logo ganhou o papel, sucedendo a Maureen O’ Sullivan, Janet Gaynor, Marsha Hunt, Geraldine Fitzgerald, Priscilla Lane, Dorothy Jordan, Frances Dee, Ann Shirley, e a irmã de Olívia, Joan Fontaine, na lista de candidatas.


Faltava apenas escolher a intérprete de Scarlett O’ Hara. A primeira cogitada, Norma Shearer, recusou o convite. A seguir, uma constelação de estrelas (Bette Davis, Tallulah Bankhead, Miriam Hopkins, Joan Crawford, Claudette Colbert, Margaret Sullavan, Carole Lombard, Jean Arthur, Loretta Young, Katharine Hepburn, Ann Sheridan Joan Bennett, e Paulette Goddard, esta quase escolhida), algumas novatas, como Lucille Ball e Doris Davenport, fizeram testes para o papel da indomável personagem.



A fim de conseguir Clark Gable, Selznick teve de entrar em acordo como seu então sogro, Louis B. Mayer. A Metro cederia o seu astro, entraria com uma participação no valor da metade dos dois milhões e 250 mil dólares e, em troca, seria responsável pela distribuição e receberia 50% dos lucros. Em 1944, a marca do leão adquiriu direitos totais sobre o filme.





Para a trilha sonora de E O VENTO LEVOU, Selznick recorreu ao compositor vienense Max Steiner (1888-1971), verdadeiro precursor da utilização de partituras sinfônicas como acompanhamento de diálogos e a ele confiou o departamento musical do seu estúdio. O ano de 1939 foi o mais ativo da carreira de Steiner, pois ele criou nada menos que doze partituras para filmes, inclusive a de…E O Vento Levou, uma das mais longas já concebidas para uma película (apenas 30 dos 222 minutos não possuem comentário musical). Cada personagem mereceu um tema, o mesmo acontecendo com os três relacionamentos amorosos. Algumas canções sulistas e hinos patrióticos foram adicionados mas, predominante, é o “Tema de Tara”, motivo central da trama.



As filmagens começaram bastante tumultuadas a 10 de dezembro de 1938, nos velhos estúdios da RKO-Pathé, em Culver City, mas não havia ainda a atriz para Scarlett O’ Hara. Sob a direção de William Cameron Menzies, encenou-se diante das câmeras Technicolor a sequência do incêndio de Atlanta, com a utilização de antigos cenários (de King Kong / King Kong / 1933, Jardim de Alá / Garden of Allah / 1936, etc.), disfarçados com falsas fachadas. Sete câmeras Technicolor fotografaram os dublês dos personagens de Rhett e Scarlett em planos médio e geral com o fogo ao fundo. Foi necessário filmar esta cena antes do verdadeiro início da produção, a fim de limpar a área para a construção do cenário de Tara, partes de Atlanta e vários outros exteriores.




David O' Selznick, em reunião com Leslie Howard, Vivien Leigh, e Olivia De Havilland
A imprensa e a sociedade local estavam presentes e Selznick aguardava ansioso a vinda do irmão Myron, que chegou acompanhado do ator Laurence Olivier e sua namorada Vivien Leigh, uma jovem e promissora atriz inglesa. A apresentação de Vivien por Myron tornou-se célebre: “Quero que conheça Scarlett O’Hara”. A busca por Scarlett O’ Hara chegara ao fim.




A escolha de Vivien Leigh para o papel não podia ser mais certeira; Scarlett se tornou inesquecível. arrogante, fútil, vaidosa, mas também era uma mulher de uma força inquebrantável, capaz de tudo, até enfrentar soldados inimigos para defender sua família e sua casa da fazenda Tara. Tão corajosa até mesmo de se casar três vezes sem amor. Mas, mesmo sendo tão esperta, chega a ser burra, não sendo capaz de reconhecer e conservar o verdadeiro amor de sua vida, Rhett Butler.

O INÍCIO DAS FILMAGENS
George Cukor
As filmagens propriamente ditas após a escolha da atriz principal começaram a 26 de janeiro de 1939. George Cukor (1900-1983) deu início às filmagens, mas foi dispensado a pedido de Clark Gable, que teria se incomodado com o fato de Cukor ser homossexual e ser conhecido como grande diretor de mulheres, contudo o cineasta continuou assessorando Vivien e Olivia secretamente.




Cukor só dirigiu cerca de 5% do filme, incluindo as seguintes cenas: a de abertura com Scarlett e os gêmeos Tarleton (um deles vivido por George Reeves, o futuro Superman da TV dos anos 50); Mammy amarrando o espartilho de Scarlett antes do churrasco; Rhett visitando Scarlett com o chapéu parisiense; Scarlett ajudando o parto de Melanie; Scarlett enfrentando o desertor nortista; Scarlett sentada na escada ao lado de soldados sulistas sobreviventes dos campos de batalha.
Victor Fleming
Vivien Leigh, Clark Gable, e Victor Fleming
Com a finalidade de agradar Clark Gable, Selznick forneceu-lhe uma lista de nomes de diretores disponíveis para ocupar o lugar de Cukor: King Vidor, Jack Conway, Robert Z. Leonard e Victor Fleming. Sem vacilar, o astro da Metro optou por Fleming, que estava ocupado com O Mágico de Oz / The Wizard of Oz / 1939 e teve de deixar as últimas duas semanas de trabalho aos cuidados de King Vidor, responsável pela sequência de Judy Garland cantando Over the Rainbow.

Sam Wood
Fleming teve um colapso nervoso durante as filmagens e foi substituído por Sam Wood (1883-1949), que assumiu a direção a 1º de maio, iniciando seus 15% de participação no filme. Quando Victor Fleming recuperou-se e voltou, os dois diretores continuaram na direção, mas em horas e sets diferentes.



Somente Fleming recebeu crédito pela direção o que, curiosamente, acarretou-lhe certa antipatia, sobretudo por ter aceitado substituir Cukor.  O roteirista John L. Mahin, um dos colaboradores do Script, desmentiu que eles não se dessem bem, lembrando que ouvira Fleming dizer várias vezes: “George poderia ter realizado um trabalho tão bom quanto o meu. Ele provavelmente faria melhor as cenas intimistas. Acho que me dei bastante bem com o material mais espetaculoso”.




As filmagens terminaram a 1º de julho de 1939, e Selznick tinha diante de si uma montanha de celulóide revelado – cerca de 60.000 metros de filme, equivalente a 28 horas de projeção. Trancado dia e noite com o editor Hal C. Kern e seu assistente James Newcom, o produtor montou o filme sem consultar nenhum dos diretores que nela tomaram parte e ordenou a filmagem de cenas adicionais, como aquela em que Scarlett se esconde debaixo da ponte numa tempestade, enquanto uma tropa da União passa sobre a mesma. Sob o comando de Victor Fleming, a cena de abertura foi mais uma vez encenada. A montagem final redundou em 4 horas e 25 minutos de projeção. Efetuaram-se novos cortes e o filme terminou com a duração de 3 horas e 43 minutos.



Em novembro do mesmo ano, Selznick convenceu o chefe da censura, Will Hays, a deixar passar a famosa frase final de Rhett Butler (“Frankly, my dear, I don’t give a damn” – Francamente querida, eu pouco me importo”). A palavra damn era considerada pesada na época, mas o produtor conseguiu sua liberação.


A Noite de Gala de E O VENTO LEVOU, em sua première a 15 de dezembro de 1939, em Atlanta.

Vivien Leigh, Clark Gable, Margaret Mitchell (autora do romance), David O' Selznick e Olivia De Havilland.
A première teve lugar em Atlanta na noite de 15 de dezembro de 1939, com a frente do cinema Lowe’s Grand decorada como a mansão de Twelve Oaks. O Governador da Geórgia, E. D. Rivers, decretou feriado estadual em virtude do lançamento de um filme. Para não ficar atrás, o Prefeito de Atlanta, William B. Hartsfield, programou três dias de festividades, substancialmente patrocinadas pela Metro. A imprensa estimou em um milhão o número de pessoas aglomeradas na cidade – então habitada por 500 mil cidadãos – no dia da estreia de…E O Vento Levou.



Clark Gable chega a estreia em Atlanta acompanhado por sua bela esposa, a atriz Carole Lombard
Ronald Colman e senhora, acompanhados por Vivien Leigh e seu marido Laurence Olivier.

Clark Gable, Margaret Mitchell (autora do Best Seller) e Vivien Leigh na noite de gala de estreia do grande épico, a 15 de dezembro de 1939.

E O VENTO LEVOU NO BRASIL

Segundo informações do notável Mestre A. C Gomes de Mattos em seu blog HISTÓRIAS DE CINEMA, E O VENTO LEVOU estreou na Cidade Maravilhosa a 12 de setembro de 1940, às 20h45m, no Cine Metro do Rio de Janeiro (na ocasião só existia o da Rua do Passeio), numa avant-première de gala, sob o patrocínio da Sra. Darcy Vargas, em benefício da Cidade das Meninas.

Divulgação de um jornal na época de sua estreia no Brasil.
Com os 1.400 lugares inteiramente ocupados, no único intervalo da sessão, às 23 horas, o príncipe D. João de Orleans e Bragança, auxiliado pelas Srtas. Perla Lucena e Maria da Penha Affonseca e pelo Sr. Carlos de Laet, coordenou o leilão de exemplares da obra de Margareth Mitchell, autografados pelos astros principais e em rica encadernação oferecida pela Casa Vallele.

Na plateia, conforme um jornal da época, “a mais brilhante representação do nosso oficialíssimo Corpo Diplomtático e a elite patriota”, além do galã John Boles que, de passagem pela cidade, fez questão de participar da festa. No mesmo dia, diretamente de Hollywood, numa transmissão da A Hora do Brasil, servindo de locutor Luis Jatobá, Clark Gable, Vivien Leigh, e o produtor Selznick saudaram D. Darcy e contaram alguns detalhes da filmagem.


Relançamento do filme em São Paulo, nos anos de 1970

E O VENTO LEVOU ainda foi levado em cartaz as salas de exibição por quase 40 anos em reprises nos extintos cinemas de rua em todo Brasil, numa época em que ainda não tinhamos videocassetes (ou pelo menos muitos ainda não tinham acesso), locadoras de vídeo, DVDS ou TVS por assinatura.



Sem dúvida, E O VENTO LEVOU É um clássico imortal da antiga Hollywood, o filme mais famoso e o mais popular da história do cinema, símbolo da usina de sonhos em seus dias de fausto e glória, a maior prova viva do poder mágico da Sétima Arte, capaz mesmo de arrebatar multidões até os dias de hoje, conquistando cinéfilos da nova geração. Enfim, uma turbulenta história de amor que enferveceu e vem enfervecendo plateias de todo mundo.


FICHA TÉCNICA
E O VENTO LEVOU-
GONE WITH THE WIND
Pais:  Estados Unidos
Ano: 1939
Gênero: Romance, Guerra Civil
Direção: Victor Fleming
Roteiro: Sidney Howard
Produção:   David O. Selznick
Design Produção: William Cameron Menzies
Música Original:   Max Steiner
Fotografia:  Ernest Haller, Ray Rennahan
Edição: James E. Newcom, Hal C. Kern
Direção de Arte:   Lyle R. Wheeler
Figurino: Walter Plunkett
Guarda-Roupa: Edward P. Lambert, Michi Okubo, Edward Maeder
Maquiagem: Sydney Guilaroff, Monte Westmore
Efeitos Sonoros:   Fred Albin , Arthur Johns, Thomas T. Moulton e outros
Efeitos Especiais: Jack Cosgrove, Lee Zavitz
Efeitos Visuais: Haller Belt, Jack Shaw, Clarence Slifer e outros


ELENCO
Clark Gable- Rhett Butler
Vivien Leigh-Scarlett O'Hara
Olivia de Havilland -Melanie Hamilton
Hattie McDaniel- Mammy
Thomas Mitchell- Gerald O'Hara
Leslie Howard- Ashley Wilkes
Evelyn Keyes - Suellen O'Hara
Jane Darwell -Sra. Dolly Merriwether
Barbara O'Neil- Ellen O'Hara
Ward Bond -Tom, Capitão ianque
Ann Rutherford-Carreen O'Hara
Harry Davenport   Dr. Meade
Victor Jory-  Jonas Wilkerson, o capataz
Lillian Kemble Cooper- Cathleen Calvert
Laura Hope Crews -Tia Pittypat Hamilton
George Reeves- Stuart Tarleton
Ona Munson- Belle Watling
Mary Anderson- Maybelle Merriwether
Leona Roberts- Sra. Meade
Mickey Kuhn- Beau Wilkes
Butterfly McQueen- Prissy
Howard C. Hickman- John Wilkes
Alicia Rhett- India Wilkes
Rand Brooks- Charles Hamilton
Carroll Nye- Frank Kennedy
Cammie King- Bonnie Blue Butler
Fred Crane- Brent Tarleton
Oscar Polk- Pork
Eddie Anderson- Tio Peter
Robert Elliott-Major ianque.

DISTRIBUÍDO PELA METRO GOLDWYN MAYER

Produção e Pesquisa de PAULO TELLES

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Vivien Leigh: A Vida e a Obra de uma Diva da Sétima Arte.


No dia 5 de novembro de 2013, o mundo celebrou o centenário de uma das grandes atrizes e deusas do cinema, Vivien Leigh (1913-1967), que se tornou um símbolo da mulher ousada e independente, através de seu mais famoso personagem, a Scarlet O’ Hara de E O VENTO LEVOU, de 1939. Há quem diga que as duas mulheres se confundem por suas personalidades, mas Vivien era mais frágil. Memorável artista que brilhou nas telas de cinema e também no teatro, o FILMES ANTIGOS CLUB presta uma homenagem a esta diva da Sétima Arte.


Vivien Leigh, cujo verdadeiro nome era Vivian Mary Hartley, nasceu a 5 de novembro de 1913, na cidade de Darjeeling, à sombra do Monte Everest, na Índia (quando o páis fazia parte do Império Britânico).

Vivian chegara no final da era de ouro do Império Britânico. Vinda de uma família burguesa inglesa, seu pai, Ernest Hartley, era agente de câmbio e, paralelamente, atuava no teatro amador. No fim da Primeira Guerra Mundial, ele levou a família de volta à Inglaterra.


Aos 6 anos de idade, sua mãe, Gertrude, decidiu interná-la no Convento do Sagrado Coração, ainda que ela fosse dois anos mais nova que qualquer outra aluna. O único conforto para a criança solitária era um gato que vagava pelo pátio do convento, e que as freiras a deixaram levar para o dormitório.

Sua primeira e melhor amiga na escola era uma menina de 8 anos, que mais tarde também se tornaria estrela em Hollywood: Maureen O'Sullivan (1911-1998), que viera da Irlanda, e que seria a Jane mais famosa dos filmes de Tarzan, protagonizados por Johnny Weissmuller (1904-1984). Na quietude do convento, as duas brincavam de recriar os lugares que haviam deixado, e imaginavam como seriam os que desejavam visitar. Lá, ela se destacou na dança, no violoncelo e nas peças de final de ano.


De 1927 a 1932, ela se juntou aos pais na Europa. Os Hartley haviam deixado definitivamente a Índia, onde Vivian nascera. Ela aprendeu a falar fluentemente o francês e o alemão, além de fazer um curso de dicção. Em 1932, aos 18 anos, entrou na Academia Real de Artes Dramáticas de Londres.

Surpreendentemente, no entanto, ela saiu no outono do mesmo ano, quando decidiu se casar. Vivian conhecera e se apaixonara pelo jovem advogado Hebert Leigh Holman, de 31 anos, e os dois se casaram em 20 de dezembro de 1932. Logo em seguida, em 1933, nasceu Suzanne Holman, a filha do casal. Depois, retornou à Academia Real de Artes Dramáticas de Londres para concluir seus estudos e se tornar uma atriz.


Primeiros trabalhos no cinema e teatro

Vivian fez teste e foi escolhida para um pequeno papel num filme chamado Things Are Looking Up (1935). Embora o papel fosse pequeno, chamou a atenção de um empresário, John Glidden, do qual ela se tornou cliente. Depois, no mesmo ano, veio um filme barato: The Village Squire. John Glidden também criou um nome artístico para Vivian, usando o primeiro nome dela e um sobrenome do marido. Pouco depois, o produtor Sidney Carroll sugeriu que a letra "a", nome Vivian, fosse substituído por uma letra "e", para dar mais feminilidade.

Vivien Leigh estreou nos palcos de Londres interpretando a esposa namoradeira em The Green Sash. A carreira dela deu uma guinada quando ela protagonizou a produção de Sidney Carroll da peça The Mask Of Virtue. A peça, que estreou em 15 de maio de 1935 foi um estrondoso sucesso e, quase da noite para o dia, Viv se tornou o assunto de Londres.




Começo do Sucesso

Os elogios da crítica a Viv, unidos a sua incomparável beleza, chamaram a atenção do produtor Alexander Korda, que a contratou por 5 anos. Antes de filmar o primeiro filme do contrato, Viv conseguiu aparecer em mais três peças.

Em 1937, Korda estava preparado para trabalhar com sua revelação no filme Fogo sobre a Inglaterra, um filme sobre a rainha Elizabeth I na época da Armada Espanhola. Viv estava entusiasmada com o filme e especialmente contente porque iria trabalhar com Laurence Olivier (1907-1989), um ator que ela e seu marido conheciam socialmente. Laurence Olivier e Vivien Leigh ficaram íntimos demais durante a filmagem, e restava pouca dúvida de que os dois estavam apaixonados.

Vivien, ao lado do seu segundo marido, LAURENCE OLIVIER
No mesmo ano, ao atuarem juntos na peça Hamlet, no Castelo de Elseneur, local da tragédia de Shakespeare, o sucesso foi enorme, a ponto do príncipe da Dinamarca vir vê-los. Depois disso, os jovens amantes perceberam que havia chegado a hora de falar a seus respectivos consortes do seu amor, e que queriam se divorciar para se casar. Viv deixou definitivamente seu marido e foi morar com Olivier, deixando a educação de sua filha, Suzanne, por conta de sua mãe.

Robert Taylor, entre Maureen O' Sullivan e Vivien Leigh: UM IANQUE EM OXFORD.
Em seguida, eles filmaram Três Semanas de Loucura, mas o filme foi considerado bobo e nem chegou a ser lançado (só o foi em 1940, quando ambos se tornaram estrelas).

Para o próximo filme, Alexander Korda emprestou Vivien a MGM (Metro Goldwin Mayer) para estrelar a produção inglesa Um Ianque em Oxford (1938), com Robert Taylor (1911-1969), então no auge da popularidade. O entusiasmo inicial de Viv tornou-se decepção quando ela soube que não interpretaria a protagonista, que acabou ficando para Maureen O'Sullivan, sua ex-coleguinha de escola.


SURGE A SCARLET O’ HARA – O AUGE

Em 1938, Laurence Olivier foi contratado para interpretar Heathcliff na produção de Samuel Goldwyn (1879-1974),  O Morro dos Ventos Uivantes (1939). Ele desejava que Viv interpretasse seu par-romântico no filme, que acabou com Merle Oberon (1911-1979). Mais tarde, Viv decidiu que precisava vê-lo, e partiu a bordo do Queen Mary. Dizem que, durante a viagem, ela ficava na cabine, lendo o livro E o Vento Levou, de Margareth Mitchell (1900-1949). Viv não só estava ansiosa para rever seu amado Olivier, mas também planejava conquistar o papel de Scarlett O'Hara, a protagonista do romance E o Vento Levou, de 1939.


Pelo que se sabe, Vivien Leigh queria interpretar Scarlett havia muito tempo. Segundo o livro de Hugo Vickers, Vivien Leigh publicado em 1988, fala do que houve durante a produção de um filme na Inglaterra, em 1937: "Alguém disse a Laurence Olivier: 'Larry, você daria um ótimo Rhett Butler'. Ele apenas riu, mas a discussão sobre o elenco prosseguiu, e Vivien causou um silêncio repentino ao dizer: 'Larry não será Rhett Butler, mas eu serei Scarlett O'Hara. Esperem e verão' ."

Isso era, no mínimo, muito curioso, uma vez que ela era uma total desconhecida na América e na época, havia muita divergência sobre quem deveria interpretar Scarlett. A escolha de sua intérprete de fascinou o mundo. Centenas de mulheres fizeram testes, algumas desconhecidas e amadoras, de setembro de 1936 até dezembro de 1938, entre elas Tallulah Bankhead, Jean Arthur, Joan Bennett, Lana Turner, Susan Hayward, e Paulette Goddard, esta quase escolhida.


Vivien tinha tanta certeza que seria Scarlett, papel que valeu seu primeiro Oscar, que no início de sua aventura americana se recusou a ficar à disposição de Cecil B. de Mille para o monumental western Aliança de Aço e também a um contrato com a Paramount para quatro filmes, apenas para estar disponível para Gone With the Wind. O mesmo empenho pôs a jovem e casada Vivien em perseguir Laurence Olivier, convencida que o ator era o grande amor de sua vida. Ele também era casado quando a então promissora atriz se apresentou de surpresa, simulando um encontro casual, no mesmo hotel de Capri onde ele passava uns dias de férias com sua esposa.

O produtor do filme, David O. Selznick (1902-1965), sempre preferia achar uma atriz novata, algum rosto novo que não fosse identificado por papéis anteriores. Atrizes bastante famosas que estiveram cotadas, mas que por várias razões não fizeram o teste, incluem estrelas da época, como Margaret Sullavan, Miriam Hopkins, Joan Crawford, Norma Shearer, Loretta Young, Bette Davis e Katharine Hepburn.


Viv dizia que o livro era maravilhoso e que daria um ótimo filme. Ouviram-na até dizendo: "Eu me escolhi como Scarlett O'Hara. O que acha?". Está claro que Viv falava tanto de Scarlett na esperança que alguém da Selznick International Pictures registrasse seu interesse e investigasse o caso. Em seu livro de 1989, Vivien a love affair in câmera, o famoso fotógrafo Angus McBean escreveu sobre ela, quem fotografara em inúmeras ocasiões, durante 30 anos. McBean relatou que em 1936 ele foi convidado a levar umas fotos até a casa dela em Londres. Nesse trecho, ela diz: "São maravilhosas (as fotos), Angus, querido. Como eu queria (interpretar Scarlett). Você leu o livro? 'Que livro?' E O VENTO LEVOU, claro. É a minha Bíblia. E vou interpretar Scarlett nem que seja a última coisa que eu faça. Você não leu? Precisa ler." E ela lhe deu uma cópia do livro, com esta dedicatória: "Ao querido Angus, com amor. Scarlett O'Hara".


Em 1941 David O. Selznick (o produtor de E o vento levou) escreveu um artigo para uma revista, que dizia: "Antes que meu irmão, Myron Selznick, o maior empresário de Hollywood, levasse Laurence Olivier e Vivien Leigh para ver a cena do incêndio de Atlanta, eu nunca vira Vivien. Quando Myron nos apresentou, as chamas iluminavam o rosto dela, e ele disse: 'Quero apresentar Scarlett O'Hara'. Naquele momento, tive certeza de que era a atriz perfeita, pelo menos fisicamente". Mais tarde, os testes, feitos sob a brilhante direção de George Cukor, mostraram que ela também "estraçalhava" no papel. Mas não demorou muito, Cukor foi despedido pelo astro do filme, Clark Gable (1901-1960), por ele ser gay e que o diretor afetava a sua masculinidade nas telas. A obra teve outros cineastas, mas só Victor Fleming (1889-1949) foi creditado.


Embora houvesse química perante as plateias entre Clark e Viv, esta nunca suportou o ator americano, assim como este nunca gostou da atriz britânica, tanto que ele fazia questão de comer cebolas pouco antes de rodas as cenas de amor, o que ocasionou declarações de Vivien sobre o ator ter mau hálito.


Depois de várias pré-estreias de gala em dezembro de 1939, E O Vento Levou tornou-se o filme mais famoso, mais assistido e mais aclamado da História, e Vivien Leigh, interpretando Scarlett, foi força motriz dele. O clássico ganhou o impressionante número de 10 prêmios Oscar (incluindo o de melhor filme e, também, o primeiro Oscar dado a uma atriz afro-americana, Hattie McDaniel).  Viv ganhou o primeiro de seus dois Oscars de melhor atriz.


A Segunda Guerra

Depois do estrondoso sucesso de E o Vento Levou, Viv protagonizou A Ponte de Waterloo (1940), da MGM, ao lado de Robert Taylor. No mesmo ano, ela e Laurence Olivier fizeram Lady Hamilton, a Divina Dama , o filme preferido do famoso primeiro-ministro Winston Churchill. Durante essa filmagem, souberam que seus respectivos divórcios tinham saído, mas o ex-marido de Viv ficou com a guarda da filha, Suzanne. Com isso, ela e Laurence finalmente casaram-se numa cerimônia íntima em Santa Barbara, no dia 31 de agosto de 1940.


Depois de aparecer numa montagem de The Doctor's Dilemma, Viv fez turnê pelo norte da África para animar as tropas na Segunda Guerra. Ela e Olivier montaram em Londres The Skin Of Our Teeth, de Thornton Wilder, dirigida por Olivier e estrelada por Leigh. A peça foi um estrondoso sucesso mas, três meses após a estreia, Leigh recebeu um diagnóstico de tuberculose e foi obrigada a parar o trabalho e ficar convalescente por oito meses. A saúde de Leigh, sempre frágil, continuou pior nos anos seguintes.


 Em 1947, Laurence Olivier foi sagrado cavaleiro e o casal passou a ser Sir e Lady Olivier; os dois tornam-se o casal mais popular da Grã Bretanha, depois dos Windsors.


Em 1949, Viv obteve o papel que só ficaria atrás de Scarlett: o de Blanche DuBois na montagem londrina de Uma Rua Chamada Pecado, de Tennessee Williams. A peça foi dirigida por Laurence Olivier, e Vivien Leigh foi coberta de elogios por seu desempenho como a frágil bela do sul.



Blanche DuBois

Quando, em 1951, a Warner anunciou a versão cinematográfica de Uma Rua Chamada Pecado, E pensou-se em Olivia de Havilland (com quem Vivien havia contracenado em E o Vento Levou) para o papel principal. Mas ofereceram o papel para Viv, que recebeu cem mil dólares, tornando-se a atriz inglesa mais bem-paga da época. Contracenou ao lado de outro poderoso das telas, Marlon Brando (1924-2004).


Viv e Laurence não iam a Hollywood há quase dez anos, e a chegada deles no outono de 1950 despertou entusiasmo no ramo. Ele também ia fazer um filme lá: Perdição por Amor, de William Wyler, que já o dirigira antes em O Morro dos Ventos Uivantes.


Vivien Leigh teve um desempenho magnífico em Uma Rua Chamada Pecado e, por isso, foi recompensada com seu segundo Oscar de melhor atriz, mas seu trunfo teve um preço alto; ela diria depois: "Blanche DuBois é uma mulher da qual tudo foi arrancado, uma figura trágica e eu a entendo, mas interpretá-la me fez mergulhar na loucura."


Problemas de Saúde.

Vivien Leigh e Laurence Olivier trabalharam nas peças César e Cleópatra e Antônio e Cleópatra em noites alternadas, para o Festival da Grã Bretanha de 1951. Naquela época, a vida de Vivien estava mudando. Ela, que sofria de tuberculose, também sofreu dois abortos, e foi diagnosticada como maníaco-depressiva. Contudo, o público ainda a amava. Como o ritmo alucinado de trabalho era excessivo, Viv começou a cair em longos períodos de depressão. De fato, ela teve de se afastar do trabalho durante boa parte de 1952. Sua volta ao trabalho, no filme No Caminho dos Elefantes (1953), só piorou as coisas: Viv teve um colapso no set, e precisou ser substituída por Elizabeth Taylor. Em seguida, começaram os boatos sobre a situação de seu casamento com Olivier.


A Década de 1960 e o fim dos anos.

Em 1960 os boatos sobre o fim do casamento de Vivien Leigh e Laurence Olivier se confirmaram, quando ele a abandonou para ficar com a comediante Joan Plowright, 22 anos mais nova do que ele. Ela pediu o divórcio por adultério, que foi concedido a 2 de dezembro de 1960. Depois disso, nunca mais se casou.


Em 1961, ela rodou Em Roma na Primavera, dirigido por Jose Quintero (1924-1999), com Warren Beatty, baseado em peça de Tennessee Williams. Apesar de seu grande desempenho, foi acometida, novamente, de outro colapso nervoso durante as filmagens, a pior de todas que havia sofrido. Hoje, se tem conhecimento que a diva sofria de distúrbio bipolar. Em 1962, Viv excursionou com a célebre companhia Old Vic, inclusive chegando ao Brasil.


Em 1963, Viv ganhou um Tony por seu desempenho na comédia musical Tovarich. E fato é que a intérprete de olhos azuis e vidrados nunca abandonou o teatro, sua paixão desde criança. A recompensa chegou, embora tardia, na forma de um Tony de melhor atriz, apesar de seu estado de saúde já estar muito delicado e ter chegado a desmaiar no palco.

Em outubro de 1964, ela retornou pela primeira vez à Índia, desde que saíra ainda criança. Ela visitou sua filha, Suzanne.No ano seguinte, ela voltou a Hollywood para viver outra sulista no filme A Nau dos Insensatos (1965).


Vivien Leigh ensaiava A Delicate Balance, de Edward Albee, em Londres, quando teve uma recaída (causada pela tuberculose que a atormentava havia décadas) e morreu, em 7 de julho de 1967, aos 53 anos quando, além de sua filha, ainda viviam sua mãe e avó. Na época, ela estava morando com o ator John Merivale. Seu corpo foi cremado e suas cinzas espalhadas no Lago no moinho Tickerage, perto de Blackboys, Sussex na Inglaterra.


Lembrada como a hostess perfeita, Vivien lutou a vida inteira para ter seu talento reconhecido acima de sua beleza. A maravilhosa história de Scarlett é impactante por si, mas é a fantástica interpretação de Vivien Leigh que nos faz lembrar da personagem como uma força dinâmica e viva. É virtualmente impossível imaginar outra pessoa nesse papel, e este é o legado dessa grande artista, que parece ter nascida para ser Scarlett O’ Hara.

Produção e Pesquisa: Paulo Telles
Atualizado em 5 de novembro de 2016


Filmografia (em ordem decrescente)

Ship of Fools - A Nau dos Insensatos (1965)
The Roman Spring of Mrs. Stone - Em Roma na Primavera (1961)
The Deep Blue Sea - Profundo como o Mar (1955)
A Streetcar Named Desire - Um Bonde Chamado Desejo (1951)
Anna Karenina (1948)

Com Stewart Granger: CÉSAR E CLEÓPATRA (1945)
Caesar and Cleopatra - César e Cleópatra (1945)
That Hamilton Woman - Lady Hamilton, a Divina Dama (1941)
Waterloo Bridge - A Ponte de Waterloo (1940)
21 Days - Três semanas de loucura (1940)
Gone with the Wind - E o Vento Levou (1939)
Sidewalks of London (1938)
A Yank at Oxford - Um ianque em Oxford (1938)
Storm in a Teacup - Tempestade em copo d'água (1937)
Dark Journey (1937)
Fire Over England - Fogo sobre a Inglaterra (1937)
The Village Squire (1935)
Gentlemen's Agreement (1935)
Things Are Looking Up (1935)
Look Up and Laugh (1935)