sábado, 24 de julho de 2021

Josey Wales – O Fora da Lei (1976): Influenciado Por Sergio Leone, Clint Eastwood Infunde e Aperfeiçoa seu Personagem ao Dimensionamento Humano.


Desde 1964 que Clint Eastwood, como ator, vinha protagonizando uma linhagem de heróis monossilábicos e lacônicos ao definir a configuração física do homem sem nome nos três trabalhos que fez para os faroestes do diretor Sergio Leone - Por Um Punhado de Dólares (1964), Por Uns Dólares a Mais (1965), Três Homens em Conflito (1966) – coisa que se estenderia nos demais westerns estrelados pelo astro e que viria tempos depois com Os Imperdoáveis em 1992, obra que lhe deu reconhecimento de causa entre os grandes cineastas de Hollywood, detentora de nove Oscars da Academia.

O diretor e astro do filme Clint Eastwood
Contudo, se William Munny, personagem vivido por Clint em Os Imperdoáveis era um pistoleiro regenerado que volta a empunhar armas pela necessidade do dinheiro, em JOSEY WALES – O FORA DA LEI (Outlaw Josey Wales, 1976), faroeste que o ator dirigira e estrelara em 1976, a figura central era um homem pacato que empunhava armas pela vingança. Ao contrário de William Munny de Os Imperdoáveis, que era abatido pelo xerife corrupto vivido por Gene Hackman, Josey Wales era um soturno imbatível com uma fumegante automática de seis tiros em cada mão, tendo nas veias o sangue e no corpo fechado a mística postura dos personagens vividos por Clint nos westerns de Sergio Leone. Mas com uma inovação única, a abonançar seu tradicional jogo de retesada imobilidade rompida por crises de violência espasmódicas, emergindo um tique escatológico de galhofeiros propósitos: a perícia de Wales em fulminar seus desafetos com certeiras doses de humor segregado pelas glândulas bucais. Numa cena, tão ousado cuspinhador, recebe justo epiteto: “Você parece ter sido criado num chiqueiro!”. Ao longo da projeção, veremos um herói não somente a dar tiros e eliminar seus inimigos, mas a mastigar tabaco e cuspir o tempo todo, como nenhum outro personagem dos filmes de cowboy. 

Clint Eastwood é Josey Wales
Em JOSEY WALES – O FORA DA LEI, quinto filme com Clint Eastwood na direção, é abordado o período que se segue a Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1861-1865), aproximando-se ao máximo da realidade possível dos costumes e acontecimentos ao invocar o Velho Oeste sujo e decadente, uma terra de ninguém povoada por uma seleta e anti-higiênica alcateia, similar ao que já fora traçado por Robert Altman em Quando os Homens São Homens (1971). Em Josey Wales, os infortúnios padecidos pelo herói buscam refletir a horda de brutalidade, boçalidade e insensatez que varreu os Estados Unidos durante sua Guerra Civil, e ao longo de seus 134 minutos de narração, chegam-se ao alarmante índice de mortalidade de uma vítima a cada 90 segundos. E algumas (ou muitas delas) vítimas inteiramente inocentes que não estariam de nenhum dos lados do confronto. É o caso do próprio Wales, de início um pacato fazendeiro, e sua família. 

Após ter esposa e filho assassinados durante a Guerra Civil Americana, Wales parte para vingança, cujo seu maior alvo é...

... o desprezível Capitão Terrill, vivido por Bill McKinney.
A mulher de Wales e seu filho pequeno são mortos quando uma horda de selvagens nortistas invade sua modesta fazenda no Missouri, deixando um rastro de sangue e escombros. Josey nada pôde fazer contra os selvagens liderados pelo Capitão Terrill (Bill McKinney, 1931-2011), sendo abatido por um de seus homens. Ao se restabelecer, Wales abandona o arado, parte em sua montaria e executa a mesma missão de outros justiceiros, a exemplo de Ben Brigade, personagem vivido por Randolph Scott em O Homem Que Luta Só (1959) de Budd Boeticher, que não descansaram antes de lavar a alma ao termo de fatigantes jornadas por horizontes crepusculares em busca de justiça e vingança. Josey Wales se torna uma assombração ambulante, desencadeando terror e reverência em suas cavalgadas pelo Oeste decrépito e sem glória.

John Vernon é o Capitão Fletcher, líder sulista outrora apoiador de Wales, mas com o fim da guerra, busca sua cabeça a prêmio.

Josey Wales: Um soturno imbatível com uma fumegante automática de seis tiros em cada mão.
Buscando vingança, Wales alia-se aos guerrilheiros sulistas do Capitão Fletcher (John Vernon, 1932-2005), mas finda a guerra, os confederados se rendem a União, enquanto que Wales, rebelando-se contra os nortistas, inicia sozinho uma longa e acidentada jornada, matando soldados, caçadores de recompensa e renegados. Acaba fazendo amizade com um velho índio cherokee, Lone Watie (Chief Dan George, 1899-1981) no rumo da fronteira mexicana, e ambos salvam uma jovem pele vermelha, Litltle Monlight (Geraldine Keams), de ser violentada por sulistas renegados.

Eventualmente, Wales conhece o índio cherokee Lone Watie. Apesar da cena, os dois acabam se tornando amigos e companheiros de jornada.

Chief Dan George, autêntico índio aborígene australiano
Ao rebelar-se contra os vencedores da Guerra e pactuar com os Peles Vermelhas, Wales passa a seguir os passos do desconsolado sulista vivido por Rod Steiger em Renegando meu Sangue (1957), western de curiosos eflúvios políticos dirigido por Samuel Fuller. Muito embora o diretor Eastwood evoque reminiscências ou comparações com outros personagens ou mesmo situações já abordadas em outros westerns americanos, ele preferiu remoer modismos, aderindo herança dos faroestes italianos que estrelou como ator e desconversar sobre a essência do gênero. Para arrematar a extensa e olvidável cavalgada, Eastwood providencia o encontro de Wales com a paz na terra prometida, um amor lírico com Laura Lee (Sondra Locke, 1944-2018), moça prestes a ser violentada e morta pelos comancheros e que salvara a vida, e a misericórdia trégua com os inimigos. Em face deste lenitivo conformismo, conclui-se mais uma vez que a inércia silenciosa com que Eastwood traja seus personagens não representa necessariamente um abrigo para densas reflexões, mas apenas um toque de estilo, o bastante para os admiradores do astro e diretor. 

Sondra Locke é Laura Lee, uma jovem prestes a ser violentada pelos comancheros, mas salva por Josey Wales.

Laura e Josey se envolvem num amor lírico

Sondra Locke e Clint Eastwood

Segundo o crítico Guido Bilharinho em seu livro O Filme de Faroeste (Instituto Triangulino de Cultura, Uberaba, 2001), incidem e subsistem duas orientações antagônicas, por contraditório e paradoxal que pode parecer, visto que irreconciliáveis e não misturáveis como água e óleo. Mas são justamente essas propriedades e possibilidades de convivência inassimiláveis que singularizam a obra de Clint Eastwood. De um lado, é espetaculoso, maniqueísta e repleto de estereótipos e clichês, e pelo outro se caracteriza naturalista ou mimético. 

Wales faz tratado de paz com o líder dos Corvos, Chefe Dez Ursus (Will Sampson). 

Wales e Lonie Watie em mais uma cavalgada olvidável
Ainda muito influenciado pelos faroestes italianos (o bang bang a italiana ou Western Spaghetti)  aos os quais estrelou para Sergio Leone, Eastwood se baseia num enredo (ou a simplifica)  em que os atos criminosos mais nefandos estão desvinculados de qualquer de qualquer casualidade ensejadora e impulsionadora, não se justificando, objetivamente no filme, por sua inutilidade ou necessidade, os crimes que se cometem. Circunscrevem-se ou esgotam em si próprios, deixando certo travo de gratuidade, quando não de espetaculosidade e pretexto para composição da trama.



O confronto final entre Wales e o Capitão Terrill
Segundo o crítico Bilharinho, é imperativo destacar os perfis dos personagens índios, feitos pelos atores Chief Dan George e Geraldine Keams, e a idosa mulher branca que, mesmo atuando pouco, resta perfeitamente caracterizada, não se podendo notar o viés racista de índio com índia e branco com branca, quando o dado inicial do encontro da indígena com o herói propiciaria desenvolvimento diverso do adotado se não fosse sua depreciação humana.

Sondra Locke e Clint Eastwood em intervalo de filmagem.

Chief Dan George, Sondra Locke e Clint Eastwood num encontro descontraído depois das filmagens.
JOSEY WALES – O FORA DA LEI apresenta-se autoral a partir do momento em que promove linha diretiva comum a outros trabalhos do ator e diretor Clint Eastwood na construção do cowboy solitário, vingador e justiceiro, implacável e eficaz no seu propósito, sendo gizado conforme os protótipos dos personagens que idealizou para o gênero, tal qual em O Estranho Sem Nome (1972), O Cavaleiro Solitário (1985), e finalmente em Os Imperdoáveis (1992), herança direta recebida por Clint pelo mestre Leone dos heróis espetaculosos do faroeste europeu, mas que o cineasta/ator aperfeiçoa e infunde dimensionamento humano.

JOSEY WALES, O FORA DA LEI rendeu nas bilheterias americanas nada menos que 13 milhões e meio de dólares, e ao estrear na TV americana alcançou o índice de 25.7 de audiência. No Brasil, o filme chegou as nossas salas em março de 1977.

Divulgação do filme de um grande jornal do Rio de Janeiro, em exibição pelas suas salas em março de 1977.

Ficha Tecnica

JOSEY WALES

O FORA DA LEI

(THE OUTLAW JOSEY WALES)

Ano – 1976

País – Estados Unidos

Gênero – Western

Direção – Clint Eastwood

Produção – Robert Dale, James Fargo e John G. Wilson, em produção e distribuição para Warner

Roteiro – Forrest Carter (livro “Gone To Texas”), Philip Kaufman e Sonia Chernus

Música – Jerry Fielding

Fotografia – Bruce Surtees

Edição – Ferris Webster

Metragem – 134 minutos


ELENCO

Clint Eastwood – Josey Wales

Chief Dan George – Lone Watie

Sondra Locke – Laura Lee

Bill McKinney – Capitão Terrill

John Vernon – Capitão Fletcher

Paula Trueman – Grandma Sarah

Sam Bottoms – Jamie

Geraldine Keams – Litle Monlight

Woodrow Parfrey – Carpinteiro

Joyce Jameson – Rosa

Sheb Wooley – Travis Cobb

Royal Dano – Ten Spot

Matt Clark – Kelly

Will Sampson – Dez Ursus

John Quade – Comanchero

Dough McGrath – Lige

John Russell – Bloody Bill Anderson

Charles Tyner – Zukie Limmer

John Mitchum – Al

John Davis Chandler – Caçador de Recompensa

PAULO TELLES

Produção e Pesquisa


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