domingo, 14 de fevereiro de 2021

Johnny Guitar (1954): Poesia e Tragédia em Western Clássico de Nicholas Ray.


O cineasta Nicholas Ray (1911-1979) tinha profundo apreço por uma de suas mais famosas e admiradas realizações, o western JOHNNY GUITAR (Johnny Guitar, 1954). Ray talvez antevisse que seu faroeste não seria simplesmente um bang bang, e mesmo porque o gênero ao longo da década seguinte sofreria mudanças por conta dos westerns italianos, através de diretores como Sergio Leone e Sergio Corbucci. Sem dúvida, JOHNNY GUITAR é um dos westerns mais estilizados de todos os tempos. Influenciado por outro clássico do gênero, Os Brutos Também Amam (Shane, 1953), realizado por George Stevens no ano anterior, JOHNNY GUITAR teve script de Philip Yordan (1914-2003), que conferiu a seu roteiro diálogos extraordinários de imensa grandeza poética e dramática.

O Cineasta Nicholas Ray.
Em verdade, tanto Johnny Guitar quanto Shane são os heróis clássicos do faroeste americano por excelência. Ambos apresentam indisfarçadamente linha de similitude psíquica, o que leva o espectador a estabelecer certo paralelismo entre os dois, afinal, uma comparação um tanto inútil e perigosa, visto que os dois têm trajetórias bem diferentes.

Nicholas Ray e o produtor associado Herbet J. Yates acompanhando com a estrela Joan Crawford a leitura do script.
Nicholas Ray soube dar ritmo intenso a narrativa, impregnando-a de interesse e suspense crescente. A história, que a julgar pelo próprio diretor, foi extraída de um conto original de Roy Chanslor (1899-1964), coloca a oposição entre a justiça e o arbítrio, centrado no comportamento de duas mulheres, que ao fim, de acordo com o modelo clássico do western, terão que se defrontar uma contra a outra. 

Joan Crawford é Vienna, uma mulher de temperamento forte, uma heroína.
Uma dessas mulheres é Vienna – vivida por Joan Crawford (1904-1977) – mulher de temperamento forte, dona de um Saloon no Arizona, com a qual ela espera enriquecer logo que a Estrada de Ferro chegue pela região, o que contraria os interesses de sua arqui-inimiga, Emma Small (Mercedes McCambridge, 1916-2004), que se coloca a frente da lei, representada pelo delegado Williams (Frank Ferguson 1906-1978), e dos grandes proprietários de terra, que tem como porta voz John McIvers (Ward Bond, 1903-1960), que não querem ver atingidos seus privilégios com a chegada de forasteiros, a disputar-lhe os domínios das terras.

Mercedes McCambridge é Emma Small, arqui-inimiga de Vienna. Uma mulher frustrada, paranoica, que para destruir Vienna...

... usa ilicitamente da autoridade do delegado Williams (Frank Ferguson) e dos donos de terra, liderados por John McIvers (Ward Bond).

Emma merece um estudo acurado. Ela é uma mulher madura e solteirona, que culpa Vienna pela morte do irmão mais novo. Mas o motivo é bem outro, pois em verdade ela é apaixonada pelo bandido Dancin Kid (Scott Brady, 1924-1985), amante de Vienna. Uma paixão não correspondida que faz de Emma uma mulher frustrada, que vê no mundanismo e na feminilidade da inimiga uma agressão ao sentido de sua existência condicionada em meio ao ambiente rude e violento. Ray sempre confessou que gostaria de ter aprimorado mais a personagem de Mercedes McCambridge, que a compreendeu muito bem pelo quadro da ação como uma fera pronta para o ataque. 

Vienna é protegida pelo violeiro Johnny Guitar (Sterling Hayden), antigo amor do passado...

... e pelo atual amante, Dancin Kid (Scott Brady). Contudo, Vienna ama Guitar.

Vienna, já à contrária de Emma, é segura e vigilante, e muito embora se relacione com Dancin Kid, ela não é apaixonada por ele, mas sim por Johnny Guitar (Sterling Hayden, 1916-1986), um amor do passado que chega ao Arizona já dizendo para que veio: proteger a vida da amada e seu estabelecimento de jogo. Guitar, que na localidade assume o nome de Logan, é um violeiro, mas Vienna conhece muito bem seu passado de pistoleiro e rápido no gatilho, e ela acaba contatando-o como seu segurança. 

Dancin Kid lidera um pequeno bando, onde despontam o grosseiro Bart Lornegan (Ernest Borgnine), o adolescente Turkey Ralston (Ben Cooper), ...

... e o tuberculoso Corey, vivido pelo excelente Royal Dano.

Bart logo percebe que não deve provocar Johnny Guitar depois de perder uma briga.
Em realidade, Dancin Kid e seu bando de ladrões de banco, compostos por Bart Lornegan (Ernest Borgnine, 1917-2012), o tuberculoso Corey (Royal Dano, 1922-1994), e o jovem Turkey Ralston (Ben Cooper, 1933-2020) são bandidos nada comparados à turma de boçais de Emma Small, homens autointitulados da lei, em prol da moralidade e bons costumes, que usam de tais subterfúgios para usar a autoridade em suas próprias mãos para interesses pessoais. Muito embora um dos homens de Kid, Bart, dê trabalho para o grupo, Kid, assim como Johnny Guitar, quer preservar Vienna dos agressores instigados pela rival. 

Johnny Guitar enfrenta McIvers, observado por Vienna e Dancin Kid.

Johnny Guitar é o herói calmo e de sangue frio, ativo, ágil e violento, cuja personalidade vigorosa é destacada por Sterling Hayden.
Johnny Guitar ao longo da trama se apresenta calmo e friamente para o espectador, mas como todos os membros masculinos da história, ele surge como ponto agudo da violência em permanente estado de ebulição. Ele é tão ativo, ágil e violento como alguns personagens de Ray, que, incompreendido, torna-se amargo e solitário. Sterling Hayden é o grande herói do filme, não por desempenhar o papel-título, mas porque dá ao personagem uma personalidade vigorosa.


Dancin Kid e Bart Lornegan.
Com Dancin Kid e o adolescente Turkey, o diretor Ray aprofunda a sua sensibilidade dramática no sentido moral de toda perspectiva de sua obra, que é caracteristicamente, a de um não conformista, fato evidente em outras realizações do cineasta, até mesmo em seu evangelho cinematográfico Rei dos Reis (King Of Kings, 1961), que teve também a colaboração do roteirista Philip Yordan. 


Em sua última entrevista, concedida a Kathryn Bigelow e Sarah Fatima Parsons, na Cinematographe Magazine, realizada em maio de 1979, mas publicada em julho de 1979, um mês depois de sua morte, Nicholas Ray foi questionado por uma das jornalistas:

Durante as filmagens de Johnny Guitar, eu li que você trazia flores para Mercedes McCambridge, mas não para Joan Crawford, ou vice-versa, apenas para criar uma tensão entre elas. É verdade?

O cineasta respondeu:

Uma noite, Joan Crawford ficou bêbada e jogou as roupas de Mercedes McCambridge na estrada. Ela era uma ótima atriz, mas às vezes a raiva tomava conta de seu temperamento. Elas eram muito diferentes e Crawford odiava McCambridge.

Joan Crawford e Nicholas Ray.

No catálogo da mostra O Cinema é Nicholas Ray (CCBB; pg. 34), há uma nota do crítico de cinema Ely Azeredo que acompanha a republicação de sua crítica de Johnny Guitar, na qual diz que as “correntes de sexualidade e política”, contidas no filme, “passaram praticamente despercebidas na época do lançamento”. O crítico observa:

A alegada bissexualidade de Ray facilitaria – driblando as censuras – que o ângulo histérico da trama fluísse a partir da tensão sexual entre Vienna e Emma. Apesar da sinalização heterossexual entre elas e “seus” pistoleiros, a libido não se esconde no conflito de poder entre as duas personagens.

Na mesma nota, Azeredo traz uma informação interessante:

Na época [do lançamento do filme, em 1955] não se sabia que a história chegou às mãos de Nicholas Ray depois de comprada por Joan Crawford; nem que os dois haviam sido amantes.

Em sua crítica na Tribuna da Imprensa, em agosto de 1955, Azeredo diz que Crawford “é apenas uma charge, sem espírito, de seus grandes dias”. Já para o crítico e cineasta François Truffaut, em Os Filmes da Minha Vida (Editora Nova Fronteira; pg. 179), sobre a atriz:

Está fora dos limites da beleza. Tornou-se irreal, como o fantasma de si própria. O branco invadiu seus olhos, os músculos seu rosto. Vontade de ferro, rosto de aço. Ela é um fenômeno. Viriliza-se ao envelhecer. Sua interpretação crispada, tensa, levada ao paroxismo por Nicholas Ray, é por si só um estranho e fascinante espetáculo.

Capa da edição em VHS lançada no Brasil em 1989, pelo selo Republic - Paris Vídeo. Acervo do Redator.

O saudoso crítico Rubens Ewald Filho (1945-2019), em sua resenha sobre JOHNNY GUITAR para o site UOL Cinema, aponta que Nicholas Ray sempre declarou que o sub-texto era lésbico, que Emma e Vienna haviam sido amantes e agora se enfrentavam como inimigas. Até porque na vida real, as duas estrelas, Crawford e McCambridge eram realmente inimigas e, ambas, alcoólatras. 


O confronto final entre Emma e Vienna.
O tiroteio final entre as duas rivais foi o tipo de subversão de convenções que levou alguns críticos a declarar JOHNNY GUITAR um filme feminista, e tal como Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, foi interpretado como uma alegoria anti-McCarthy, contra a histeria coletiva e a favor daqueles que defendem seus princípios. Seja qual for seu significado, o filme foi financiado pela Republic, uma produtora menor, sendo corajosamente barroca no uso que faz das cores (fotografia de Harry Stradling, 1901-1970) e na beleza da inesquecível canção tema, composta pelo mestre Victor Young (1900-1956) e interpretada por Peggy Lee (1920-2002).

JOHNNY GUITAR, em divulgação nos jornais em início de 1970 no Rio de Janeiro, em reprise nas três salas do Art Palácio, então existentes. Bons Tempos!

JOHNNY GUITAR é um western que não se deixa levar aos clichês do gênero, sendo concebido por um sentido exótico, poético, sofisticado e por uma fixação intelectual evidente em tão requintado roteiro de Philip Yordan, que nos remete a tragédia. Sem dúvida, merece integrar entre os críticos e cinéfilos como um dos dez maiores westerns do cinema, sendo um dos filmes mais idolatrados pelos críticos franceses e pelos cineastas da “nouvelle vague”, e um dos trabalhos mais notáveis e admiráveis do cineasta Nicholas Ray. 

O Mestre Victor Young compôs a trilha sonora.
A cantora Peggy Lee quem interpretou a canção-tema. 

FICHA TECNICA

JOHNNY GUITAR

(Johnny Guitar)

Ano – 1954

País – Estados Unidos

Direção – Nicholas Ray

Produção – Nicholas Ray para Herbert J. Yates e Republic Pictures Produções.

Roteiro – Philip Yordan, com base no romance de Roy Chanslor.

Fotografia - Harry Stradling, em cores.

Montagem - Richard L. Van Enger.

Música – Victor Young, com interpretação de Peggy Lee.

Metragem – 110 minutos

Ward Bond e Mercedes McCambridge.

ELENCO

Joan Crawford – Vienna

Sterling Hayden – Johnny “Guitar” Logan

Mercedes McCambridge – Emma Small

Scott Brady – Dancin Kid

Ward Bond – John McIvers

Ben Cooper – Turkey Ralston

Ernest Borgnine – Bart Lonergan

Royal Dano – Corey

John Carradine – Old Tom

Paul Fix – Eddie

Frank Ferguson – Delegado Williams

Rhys Williams – Sr. Andrews

Ian MacDonald – Peter

Trevor Bardette – Jenkins

Denver Pyle – Posseman

Will Wright - Ned

Paulo tellEs

Redação




segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Redator do Blog Lança Seu Mais Recente Livro: “Tarzan Vai ao Cinema” (Editora Estrada de Papel, 2021, 118 Páginas).


   Matéria Extraordinária

Saudações Leitores e seguidores do blog FILMES ANTIGOS CLUB – A NOSTALGIA DO CINEMA. É com imensa satisfação que, finalmente, chega em 1ª edição o livro TARZAN VAI AO CINEMA, o mais recente livro do redator deste espaço, Paulo Telles, em co-autoria com o escritor catarinense Saulo Adami.  TARZAN VAI AO CINEMA foi publicado pela Editora Estrada de Papel, pertencente ao próprio Saulo em parceria com a esposa, a psicóloga Jeanine Wandratsch Adami.

Paulo Telles, redator do blog Filmes Antigos Club, com o escritor catarinense Saulo Adami, Rio de Janeiro em 2019. São os Autores de TARZAN VAI AO CINEMA (Ed. Estrada de Papel, 2021).

Paulo Telles e Saulo Adami lançaram em 2018 o livro PALADINO DO OESTE (Ed. Estronho, 2018)

Não é o primeiro encontro do redator deste blog com o escritor Adami em parceria literária. Em 2018, ambos lançaram PALADINO DO OESTE (Editora Estronho, 2018), item pertencente a coleção de fã para fã (antiga TV Estronho), acervo que procura resgatar a memória das mais fascinantes séries da TV mundial (como é o caso do Paladino do Oeste/Have Gun Will Travel) e publicado pela Editora Estronho, de propriedade do editor Marcelo Amado. Agora chegou a vez de TARZAN VAI AO CINEMA, cujo trabalho de pesquisa e estudo remonta desde 2017, colhendo informações imprescindíveis sobre a elaboração do Homem Macaco ao longo de cem anos de trajetória, desde sua criação em 1912 através de folhetins (e depois em livros), atravessando o cinema (primeiro filme em 1918 e Elmo Lincoln como o primeiro intérprete, ainda na fase do silent movie), a televisão e as histórias em quadrinhos.

Johnny Weissmuller: Um mito entre os intérpretes de Tarzan no cinema.
Tarzan foi durante muito tempo o personagem que mais instigou a imaginação de leitores e cinéfilos, muito embora seu perfil original esteja bem distante daquele exibido no cinema ou na televisão. Diferente do herói vivido nas telas por Johnny Weissmuller (1904-1984), o Tarzan criado por Edgar Rice Burroughs (1875-1950) e publicado originalmente em folhetim, a partir de 1912, é um homem sensível, inteligente e articulado, um autodidata.

Até 2016, 23 atores viveram o Homem Macaco na Sétima Arte e na TV.

Até 2016, um total de 23 atores viveu o personagem em mais de 50 filmes e séries de cinema e TV (os mais populares depois do mito Weissmuller foram Lex Barker, Gordon Scott e Ron Ely na TV). Profissionais e suas produções estão presentes neste livro, que Paulo Telles e Saulo Adami escreveram com os olhos voltados para o futuro deste personagem que ainda permanece vivo no imaginário popular. Por isso mesmo que Tarzan garantiu sua imortalidade, sendo o modelo perfeito da natureza indomável do ser humano.

Poster do primeiro filme estrelado por Weissmuller como Tarzan: TARZAN, O HOMEM MACACO (1932). 

TARZAN VAI AO CINEMA - Novo livro de Paulo Telles. Editora Estrada de Papel, 118 páginas.  

Interessados que quiserem adquirir o livro TARZAN VAI AO CINEMA (Editora Estrada de Papel, 2021, 118 páginas. Ilustração de capa do artista inglês Graham Hill) devem se dirigir a um destes canais:

Whatsapp – Paulo Telles (21) 98805-6817

Ou email: paulotelles2016@bol.com.br

Mais informações acessem a esta página do blog: http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/p/livro-paladino-do-oeste-paulo-telles.html


25 de janeiro de 2021

Paulo Telles – Redator do Blog Filmes Antigos Club – A Nostalgia do Cinema – Radialista (DRT 21959/RJ).

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O Último Hurrah (1958): Os Bastidores da Política Narrada de forma Lírica, Humorada e Sentimental Pelo Mestre John Ford.

Tudo já foi dito sobre John Ford (1895-1973), um dos diretores mais versáteis da história da Sétima Arte. Um cineasta legítimo que colecionou grande admiração do público e influenciou outros diretores. Suas realizações apresentaram extraordinária dinâmica cinematográfica, possuindo sensibilidade contagiante e comovedora autenticidade humana. Ford conseguiu unir “gregos e troianos”, isto é, conseguiu atrair a públicos diferentes, pois vários personagens de suas obras não devem ser entendidos a luz de inteligência ou razão, mas simplesmente entendidos através do coração. E é sobre um dos seus grandes trabalhos a refletir sobre tamanha temática aqui anunciada no presente artigo: O ÚLTIMO HURRAH (The Last Hurrah), filme realizado pelo diretor em 1958.

O Cineasta John Ford

John Ford produz e dirige O ÚLTIMO HURRAH (1958)

O Último Hurrah pertence a categoria de realizações mais afeiçoadas pelo diretor Ford e com os quais o cineasta presta homenagem a pessoas ou grupos humanos que consegue algum tipo de destaque. Estas obras são ditadas pelo coração, por isso mesmo possuindo deficiências comuns nas obras mais puras do cineasta (O Sol Brilha Na Imensidade, O Delator, Depois do Vendaval, entre diversos), talvez por culpa de uma dose maior de sentimentalismo. Em O Último Hurrah ele homenageia seus patrícios irlandeses que conseguiram subir do nada até influir e comandar a vida pública da Nova Inglaterra, onde se passa toda narrativa. 

O jornalista e escritor Edwin O' Connor, que escreveu o romance O ÚLTIMO HURRAH, publicado em 1956.
O astro Spencer Tracy e o diretor John Ford
Não obstante a intolerância dos descendestes diretos dos primeiros colonizadores, Ford faz um alerta ao preconceito e a hipocrisia dos poderosos que usurpam esperanças e progresso dos menos afortunados. Para a realização do filme, o diretor leu o romance original (publicado em 1956) do jornalista Edwin O'Connor (1918-1968) e se entusiasmou com o livro, chegando a propor para a Columbia Pictures produzir e dirigir mesmo sem receber salário. Ford se identificou logo de cara com a figura do político democrata Frank Skeffington (que O’Connor se inspirou num político real, James Michael Curley, que foi prefeito de Boston, EUA, conhecido tanto por suas benfeitorias quanto pelo modo implacável de lidar com adversários políticos).  Diferentemente do livro, Ford utilizou Frank Skeffington de modo mais sentimental, sugerindo que ele, mesmo com sua benevolência e humanidade, era capaz de praticar métodos menos recomendáveis para atingir seus objetivos, traçado por um roteiro magnífico de Frank S. Nugent (1908–1965), colaborador de Ford em Depois do Vendaval e Rastros de ódio.

Spencer Tracy é Frank Skeffington, prefeito de um território da Nova Inglaterra que tenta mais uma reeleição...

... acompanhado por velhos amigos e fiéis partidários.

Frank Skeffington é interpretado magistralmente por Spencer Tracy (1900-1967), em uma atuação segura e eficiente. Sendo protagonista de astuciosa e refinada crônica nos bastidores eleitorais de um vilarejo da Nova Inglaterra. Skeffington, de truculento sangue irlandês e há doze anos no cargo de prefeito, controla a máquina eleitoral através de suborno e “caridade”. Durante sua quarta e última campanha eleitoral para prefeito, representantes dos meios financeiros, da Igreja Católica e da Imprensa, aliam forças para enfrentar seus métodos que já lhe renderam várias reeleições. 


Os fiéis partidários de Skeffington: John Gorman (Pat O' Brien), Sam Weinberg (Ricardo Cortez), "Ditto" Boland (Edward Brophy) e "Cuke" Gillen (James Gleason)
Cercado por fiéis partidários que estão com ele por mais de 30 anos, Skeffington tenta se reeleger em um mundo que anda em transições. Skeffignton tem um dom surpreendente. O único político que é verdadeiramente capaz de manipular os poderosos para defender os oprimidos. Ele é o líder indiscutível da cidade, ele controla a cidade com punho de ferro, mas ele sabe que seu show está quase no fim. O dia de compromissos em almoços e comícios políticos está dando lugar à televisão, que faz a máquina política de Frank parecer obsoleta. 

Mesmo com todo apoio de partidários, Skeffington conta com ajuda de Adam Caulfied (Jeffrey Hunter), jornalista que trabalha para o jornal de...

...Amos Force (John Carradine), inimigo declarado de Skeffington, que apoia o candidato republicano Kevin McClurskey (Charles B. Fitzsimons)

A televisão, sendo um veículo de comunicação emergente, começa desempenhar um papel importante na política. Para assessorá-lo nessa transição a época da TV, surge Adam Caulfield (Jeffrey Hunter, 1926-1969), seu sobrinho e jornalista esportivo de um grande jornal comandado por Amos Force (John Carradine, 1906-1988), inimigo figadal de Skeffington e republicano fanático.  Ao visitar o tio, Adam fica sabendo dos sérios motivos que levam Amos a odiar Skeffignton, quando o pai de Amos, um burguês autoritário, na verdade humilhou publicamente a mãe do político, que era sua empregada doméstica, pelo fato dela pegar sobras de comida, acusando-a de ladra. Caulfield abandona o jornal de Amos e resolve ajudar o tio em sua campanha. 

Adam é casado com Maeve (Dianne Foster), também apoiadora de Skeffington.


Skeffington enfrentando seus opositores.

Os inimigos políticos de Frank Skeffington não param por ai. Seu sobrinho Adam é casado com Maeve (Dianne Foster, 1928-2019), filha de Roger Sugrue (Willis Bouchey, 1907-1977) que também detesta Skeffignton, e começa a ter diversos atritos com o genro, contudo sem abalar a relação em seu casamento, já que Mave também simpatiza com os ideais de Frank. Skeffington é o tipo de político que realmente se preocupa com seus eleitores, mesmo que seus métodos sejam um tanto ilícitos. Muitas vezes ajuda-os pessoalmente (como na cena de um enterro, em que uma de suas eleitoras não tinha dinheiro para enterrar seu marido, e Frank pressiona o dono da funerária, ligado ao Partido Republicano, a fazer o enterro de graça). Mas há alguns problemas com a regra de Skeffington. Primeiro de tudo, ele muitas vezes muda vários negócios, obrigando mesmo aqueles que trabalham para ele a ter salários reduzidos para ajudar os eleitores. Skeffington e seus aliados, muitas vezes, transformam os funerais em reuniões políticas. Skeffington não é nenhum santo, mas em nome de seus ideais vale quase tudo, até mesmo mexer com os alicerces da Igreja Católica. Mesmo sendo um católico devotado, entra em atrito com a ideologia da Igreja, muito embora o Arcebispo da cidade, Cardeal Burke Martin (Donald Crisp, 1882-1974) simpatize com Frank. Na vida particular, Skeffignton tem problemas de relacionamento com o filho único, Júnior (Arthur Walsh, 1923-1995), um jovem imaturo e irresponsável que só pensa em mulheres e badalações, ignorando por completo as idealizações do pai.

Para angariar simpatias e votos, Skeffignton apela para atos de "caridade", como ao ajudar uma viúva (Anna Lee) que não tem dinheiro para enterrar seu marido...

... mas Frank apela para a "boa vontade cristã" do agente funerário para que faça o enterro de graça. 


Frank Skeffignton candidato para mais uma reeleição na prefeitura da Nova Inglaterra, em um de seus comícios. 
Frank surpreende a todos ao anunciar que pretende concorrer para outro mandato para prefeito. O corpo principal do filme dá uma visão detalhada e criteriosa da política urbana, e o controle de Skeffington e de seu sobrinho Adam através de rodadas de aparições nas campanhas e eventos. Kevin McCluskey (Charles B. Fitzsimons,1924-2001), um jovem candidato com um rosto bonito e os “bons costumes norte-americanos”, com excelente ficha e registro da II Guerra Mundial, mas sem experiência política e nenhuma habilidade real para governo, acaba derrotando Skeffington nas eleições. Um dos amigos de Adam, John Gorman (Pat O’ Brian, 1899-1983) explica que a eleição foi "um último hurrah" para a ultrapassada máquina política de Frank Skeffington. As mudanças na face da política norte-americana foram tão exorbitantes que Skeffington já não pode sobreviver. Imediatamente após sua derrota, Skeffington sofre um ataque cardíaco. Quando ele morre, ele deixa para trás uma cidade de luto por uma figura crucial na sua história, mas uma cidade que não tem mais espaço para ele ou o seu tipo.

OS VETERANOS Spencer Tracy e Pat O' Brien, amigos também na vida real.


Adam (Jeffrey Hunter) e Sam Weinberg (Ricardo Cortez) acompanham a apuração da eleição...

...culminando com a derrota de Skeffingnton, que não perde o bom humor e anuncia sua próxima candidatura.

O ÚLTIMO HURRAH está cheio de grandes momentos cinematográficos e de esplendidos tipos fordianos. A sequência do magnifico funeral do marido da eleitora; o passeio do candidato derrotado pelo parque deserto enquanto a passeata do candidato vitorioso serve como pano de fundo; e o gesto silente com que Skeffington se dirige a fotografia da finada esposa da sua incompreensão diante dos acontecimentos. Entre os tipos humanos apresentados por Ford, vale destacar a velha tagarela presente no funeral (Jane Darwell, 1879-1967); O auxiliar ingênuo Ditto (Edward Brophy, 1895-1960), e Hannessey (Wallace Ford, 1898-1966), o eterno candidato. 

O passeio solitário de Skeffington após a derrota, tendo como fundo a passeata do candidato vitorioso, e...

...o gesto silente de Skeffington ao se dirigir ao retrato da esposa falecida - dois grandes momentos cinematográficos e esplendidos no verdadeiro estilo fordiano.

O ÚLTIMO HURRAH é narrado por John Ford de forma lírica, intimista, bem humorado, sentimental e generoso, apresentando Spencer Tracy em uma de suas mais memoráveis performances do cinema, onde todos se destacam com suas participações, desde o falecido Jeffrey Hunter (em uma atuação segura), aos veteranos Basil Rathbone (1892-1967), Donald Crisp, Edward Brophy,  Pat O'Brien, Willis Bouchey e Wallace Ford, irmão do cineasta.

Divulgação do filme pelos jornais do Rio de Janeiro, em 1959 ou 60.

FICHA TÉCNICA



O ÚLTIMO HURRAH

(The Last Hurrah)

Nacionalidade – Estados Unidos

Ano de Produção – 1958

Gênero - Drama

Direção – John Ford

Produção – John Ford para Columbia Pictures

Roteiro - Frank S. Nugent, baseado no livro de Edwin O' Connor.

Fotografia - Charles Lawton Jr. – em Preto & Branco

Música – George Dunning, Paul Sawtell e Cyril J. Mockridge (não creditados)

Metragem – 122 minutos

     ELENCO
                     Spencer Tracy – Frank Skeffington
                     Jeffrey Hunter – Adam Caulfield

Dianne Foster – Maeve Caulfield

Pat O’ Brien – John Gorman

Donald Crisp – Cardeal Martin Burke

James Gleason – “Cuke” Gillen

Edward Brophy – “Ditto” Boland

John Carradine – Amos Force

Willis Bouchey -  Roger Sugrue

Basil Ruysdael – Bispo Gardner

Ricardo Cortez - Sam Weinberg

Wallace Ford - Charles J. Hennessey

       Frank McHugh – Festus Garvey

Carleton Young – Winslow

Anna Lee - Gert Minihan

Ken Curtis – Monsenhor Killan

Jane Darwell -    Delia Boylan, a velha do funeral

O.Z. Whitehead - Norman Cass, Jr.

Charles B. Fitzsimons - Kevin McCluskey

Arthur Walsh – Frank Skeffington Jr.

PAULO TELLES

Redação