sábado, 25 de janeiro de 2020

Uma Aventura na África (1951): John Huston e sua Exaltação aos Valores Humanos, em uma História de Amor e Aventura.



Em 1950, o cineasta John Huston (1906-1988) planejou a adaptação do livro The African Queen, do escritor C.S Forester (1899-1966). Para isso, o diretor teve a brilhante e oportuna ideia de chamar o romancista e crítico James Agee (1909-1955). Agee havia comentado sobre um trabalho de Huston, o documentário The Battle of San Pietro para a revista Time. Huston mandou-lhe um bilhete de agradecimento, e, mais tarde, Agee dedicou ao diretor um penetrante artigo na revista Life.


C. S. Forester: O autor do romance que originou o filme 
UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951)
James Agee, um dos roteiristas de UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951).
De início, o livro de Forester fora adquirido pela Columbia Pictures, que pretendia filma-lo com Charles Laughton e Elsa Lanchester. Depois a Warner comprou o material de veículo para Bette Davis e Humphrey Bogart. Finalmente, Huston e Sam Spiegel (1901-1985) pagaram 50.000 dólares, obtendo os direitos para a Horizon. Assim, UMA AVENTURA NA ÁFRICA (The African Queen, 1951) reverteu numa obra deliciosa cheia de espírito sardônico, mas, ao mesmo tempo, de contagiante alegria, fé, e otimismo.

Humphrey Bogart, um dos astros principais, e o diretor John Huston.
A saúde precária de Agee o impediu de ir a África e Huston solicitou Peter Viertel (1920-2007) ajuda para o roteiro final. Tempos depois, o cineasta declarou:

- C.S Forester disse-me que nunca ficou satisfeito com o final de sua novela. Ele escreveu dois finais: um sudado na edição americana; o outro, na inglesa. Nenhum dos dois lhe agradou plenamente. Achei que o filme deveria ter um final feliz. Viertel e eu escrevemos juntos o meu final, que acabamos filmando.

Viertel escreveu um livro sobre os bastidores de UMA AVENTURA NA ÁFRICA, que inspirou Clint Eastwood a dirigir e estrelar em 1990 o filme CORAÇÃO DE CAÇADOR (White Hunter Black Heart), interpretando o cineasta John Huston, intitulado na fita como John Wilson.

A história começa quando Rose (Katharine Hepburn) perde seu irmão, o missionário Samuel Sayer (Robert Morley), morto pelos alemães durante a I Guerra Mundial.
Com a morte do irmão, Rose une-se ao aventureiro Charlie Allnut (Humphrey Bogart). Mas os dois descobrem entre si muitas diferenças.
Em Setembro de 1914, no raiar da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), alemães dizimam uma aldeia africana e matam o missionário inglês protestante Samuel Sayer (Robert Morley, 1908-1992), cuja irmã, a solteirona Rose (Katharine Hepburn, 1907-2003), foge com o aventureiro canadense Charlie Allnut (Humphrey Bogart, 1899-1957) em seu barco, The African Queen. 

Charlie e Rose precisarão superar suas diferenças, se quiserem sobreviver a perigosa África.
O casal de heróis, apesar de suas inúmeras diferenças de opinião sobre os valores, enfrentam corajosamente o sol e a chuva, a fadiga, mosquitos, cascatas, corredeiras, o perigo de jacarés, e claro, o ataque do famigerado exército alemão. É nessa convivência tumultuada que os dois descobrem o significado da amizade e do amor. De formação autoritária e puritana, Rose manifesta, inicialmente, certa discriminação pelos modos rústicos e vulgares do canadense Charlie. Indiferente aos seus problemas e sentimentos, procura impor seus projetos e pontos de vista ao companheiro de viagem. Este, por sua vez, se sente cada vez mais deprimido e solitário, o que faz com que ele recorra a bebida com intuito de afogar suas frustrações.

E a aventura só está apenas começando!
Enquanto Rose, com um comportamento insensível e recatado, controla de forma rígida suas manifestações de feminilidade, Charlie por sua vez mostra pouco apreço por sua dignidade pessoal. A inglesa almeja uma conduta angelicalmente superior; o canadense, por sua vez, deprecia seus valores humanos. Entretanto, na convivência do dia a dia, Rose vai aprendendo a respeitar o homem que se empenhara em auxiliá-la, dispondo-se a dividir com ele todas as tarefas, mesmo as mais rudes. Por seu turno, a constante presença feminina funciona como um estímulo para que Charlie recupere progressivamente a autoestima e passe a ter um comportamento mais digno.

Mas mesmo com as dificuldades, os dois superam suas diferenças.
Estimulado pela companheira Rose, ele enfrenta com coragem os riscos e encontra os meios adequados para vencer todas as dificuldades. Os dois acabam sendo beneficiados por esta convivência diária. O encontro acidental, resultantes de circunstâncias adversas, vai transformando a viagem numa experiência e compreensão cada vez mais profunda para ambos.

Por fim, Charlie e Rose se apaixonam, e pelo amor, os dois conseguem sobrepujar todos os obstáculos.
Ao longo de toda a odisseia, os dois vão se sentindo estimulados a lutarem juntos pela sobrevivência, confiantes no amparo recíproco e confortados pelos laços de amizade plena e mútua. Por isso, UMA AVENTURA NA ÁFRICA faz um convite à reflexão, através de uma exaltação aos valores humanos de solidariedade, apreço, respeito, e amor recíproco.

Durante as filmagens, John Huston explica como usar um rifle, observado por Humphrey Bogart e sua esposa Lauren Bacall.
Luz, Câmera, Ação! Bogart e Katie Hepburn prontos para mais um Take.
UMA AVENTURA NA ÁFRICA foi rodado em árduas condições no rio Ruky, no Congo Belga, e na Uganda Inglesa, descrevendo com cativante senso de humor a acidentada jornada dos dois protagonistas por rios perigosos, enfrentando malárias, corredeiras, insetos e sanguessugas até o objetivo final, que é por a pique um navio alemão com dois torpedos improvisados.  Essa apaixonante história de aventura e amor conta com a belíssima fotografia de Jack Cardiff (1914-2009), que tão bem consegue captar as belezas naturais do continente africano, tanto fauna quanto flora.  A música de Allan Gray (1904-1973) é outro ponto alto do filme.

Bogart e Huston
Bogart, Huston, Bacall, e o restante da equipe técnica: UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951).

Vale ainda destacar que UMA AVENTURA NA ÁFRICA foi o primeiro filme a cores de Katharine Hepburn. Este grande clássico do cinema de aventura, já imortalizado em listas e antologias como “um dos melhores de todos os tempos”, proporcionou ao mito Bogart o seu único Oscar como Melhor Ator. Até seu falecimento em 1988, o cineasta John Huston costumava declarar que de todos os filmes que realizou, UMA AVENTURA NA ÁFRICA era seu favorito, embora tenha realizado obras de mesmo porte, como O Tesouro de Sierra Madre (1948), Relíquia Macabra (1941), e O Segredo das Joias (1950).


FICHA TÉCNICA
Uma Aventura Na África

(The African Queen)

País Estados Unidos/Inglaterra
Ano de Produção – 1951
Gênero – Aventura
Direção – John Huston
Produção – Sam Spiegel, para a Horizon Pictures, e distribuição pela United Artists (mais tarde para Columbia Pictures)
Música – Alan Gray
Fotografia – Jack Cardiff, em Cores
Metragem – 105 minutos.

ELENCO
Humphrey Bogart – Charlie Allnut
Katharine Hepburn – Rose Sayer
Robert Morley – Reverendo Samuel Sayer
Peter Bull – Capitão do “Louise”
Theodore Bikel – Primeiro Ofical
Walter Gottel – Segundo Oficial
Peter Swanwick – Primeiro oficial do “Shona”
Richard Marner – Segundo oficial do “Shona”

Produção e Pesquisa
Paulo Telles


As Maiores Trilhas Sonoras da Sétima Arte, e em todos os tempos! Só no 

CINE VINTAGE.

EM MARÇO, 3ª TEMPORADA! AGUARDEM!!!