sábado, 23 de fevereiro de 2019

Sublime Tentação (1956): Singeleza Quase Pueril de Gary Cooper em Conto Pastoral dirigido por William Wyler.



SUBLIME TENTAÇÃO (Friendly Persuasion, 1956) é uma produção hollywoodiana premiada em 1957 com a Palma de Ouro no Festival Cinematográfico de Cannes, sob a direção sublime de William Wyler (1902-1981), que tantos sucessos possuem em sua vasta filmografia. Sem a existência cruel ou a importância amarga de algumas realizações anteriores, Sublime Tentação é como um conto pastoral, um poema de simplicidade e ternura, de dedicação e nobreza humana, graças à suavidade de sua história, sendo um dos trabalhos mais inspiradores e menos teatrais do cineasta de Jezebel (1938), Chaga de Fogo (1951), e Ben-Hur (1959). Wyler concorreu com outros diretores em Cannes, como Ingmar Bergman (O Sétimo Selo), Robert Bresson (Um Condenado a Morte Escapou), e Federico Fellini (As Noites de Cabiria).

O cineasta William Wyler.
A escritora Jessamyn West, autora do romance SUBLIME TENTAÇÃO, publicado em 1945.
O roteirista Michael Wilson.

Com reminiscências de Sargento York (1941) dirigido por  Howard Hawks,
SUBLIME TENTAÇÃO combina lirismo e canto pastoral, mas os críticos americanos na época antipatizaram com a obra de Wyler, que não se deixou levar pelas opiniões e fez impor seu filme como uma de suas realizações mais criativas e marcantes. Extraída de livro publicado em 1945 pela escritora Jessamyn West (1902-1984), foi adaptada para o cinema por Michael Wilson (1914-1978), que não recebeu os créditos devidos, pois sua produtora, a Allied Artists (Um pequeno estúdio criado em 1946 e que esteve ativo até 1980, quando foi vendido para a Lorimar Poductions), negou-se a reconhecer um nome na lista negra do Macarthismo. Somente anos depois, Quando Sublime Tentação foi lançado em DVD, Wilson teve seu nome inserido nos créditos, forma de reparar uma das maiores injustiças cometidas por Hollywood. A própria autora do livro serviu de consultora para o roteiro de Wilson.


A Família Birdwell: O patriarca Jess (Gary Cooper), a esposa Eliza (Dorothy McGuire), e os filhos Josh (Anthony Perkins), Mattie (Phyllis Love) e o caçula, o pequeno Jess (Richard Eyer)
Os Birdwell e um amigo da família, o Tenente Gard Jordan (Peter Mark Richman), interesse amoroso de Mattie (Phyllis Love)
SUBLIME TENTAÇÃO conta-nos sobre uma família Quaker (movimentação religiosa protestante de origem britânica surgida no século XVII, também conhecida como a “Sociedade dos Amigos” que prega a paz e se opõem ao uso da violência) numa fazenda do interior de Vernom, Indiana, em 1862, durante a Guerra Civil Americana. Jess Birdwell (Gary Cooper, 1901-1961), agricultor e comerciante, sua esposa Eliza (Dorothy McGuire, 1916-2001), e seus filhos: Josh (Anthony Perkins, 1932-1992), Mattie (Phyllis Love, 1925-2011), e o caçula Pequeno Jess (Richard Eyer). Toda a família vive dos princípios rígidos de sua religião que não admite que seus fiéis tenham pensamentos hostis para com o próximo. Por seguir esta linha de pensamento, é que os Birdwell nem imaginam como poderão sofrer quando o conflito chegar aos seus domínios. 

O Pequeno Jess em "perigo" com a ganso Samantha, um dos pontos cômicos de SUBLIME TENTAÇÃO (1956)

Uma das rotinas da Família Birdwell é ir nos cultos aos domingos...
...bem como ir ao parque nas tardes dos fins de semana, onde Jess sempre encontra seu amigo Sam Jordan (Robert Middleton).

Por enquanto, a vida para eles decorre num bucolismo rústico acolhedor, em que certos incidentes do cotidiano servem para quebrar a possível monotonia, como Jess a competir com seu amigo metodista Sam Jordan (Robert Middleton, 1911-1977) para ver qual cavalo dos dois é o mais veloz – ou mesmo o patriarca a discutir com a esposa Eliza por causa de um órgão, inadmissível para os Quakers, já que a crença não permite sequer ouvir ou tocar músicas sacras nas reuniões. Mas sem dúvida, a perseguição do filho mais novo dos Birdwell, o Pequeno Jess a uma ganso “inofensiva” de nome Samantha garante risadas e bom humor numa trama que direcionará brevemente ao drama.


Peter Mark Richman é o Tenente da União Gard Jordan...

...amigo da família que alerta da chegada das tropas sulistas a Vernon. Com isso...
...Josh, o filho mais velho dos Birdwell, toma iniciativa em pegar em armas para defender a propriedade da família, para a infelicidade dos pais, que conforme as convicções religiosas são contra a violência.
A paz não dura muito tempo, pois as tropas confederadas estão a caminho de Vernon. Josh, o filho mais velho dos Birdwell, influenciado por Gard Jordan (Peter Mark Richman), enamorado de Mattie e que serve como tenente para as tropas da União, decide pegar em armas para defender sua comunidade contra as forças sulistas, decisão esta não bem recepcionada por seus pais. O pacifismo de Jess e Eliza contrasta com a decisão de Josh, mas os pais nada podem fazer. Josh parte para o conflito, onde é ferido. Jess, ao perceber que também não pode ficar de braços cruzados esperando pelos acontecimentos, trata de ir ao front tentar salvar a vida do filho, enquanto Eliza e o pequeno Jess enfrentam um grupo de soldados sulistas que invadem sua propriedade, quando ela não hesita nem em dar "vassouradas" em um dos rebeldes.

Gary Cooper como Jess Birdwell. Uma singeleza quase pueril, que parece retomar aos antigos personagens de Frank Capra.
O diretor Wyler (de óculos escuros) supervisionando uma cena com Cooper em SUBLIME TENTAÇÃO (1956)


William Wyler e Gary Cooper.

SUBLIME TENTAÇÃO é um espetáculo de emoções sutis e harmonizadas – drama e poesia, sentimentalismo e humor feérico – que recria um segmento da história americana, com honesta afeição e sensibilidade. Se as características formais  com que William Wyler narra a trama são daquelas dignas de um grande cineasta, não se pode cometer injustiças quando se disser que o desempenho do elenco é um dos pontos mais vitais e magistrais da película. Gary Cooper, irrepreensível como o patriarca Jess Birdwell, retoma a candura e singeleza quase pueril de um Longfellow Deeds ou John Doe, personagens marcantes do ator nos clássicos O Galante Mr Deeds (1936) e Adorável Vagabundo (1941), ambos de Frank Capra.  O diretor Wyler, a princípio, pensou em Bing Crosby para interpretar o chefe da família Quaker. Crosby não se interessou e Wyler foi atrás de Gary Cooper que também não se interessou pelo papel, até que em 1956 o astro finalmente aceitou o trabalho, com a condição de ter Ingrid Bergman para a parte de Eliza, esposa de Jess. Devido a seus compromissos com as filmagens de Anastácia, a Rainha Esquecida (1956), a atriz sueca teve que recusar, sendo então outras atrizes convidadas para a parte, como Katharine Hepburn, Jane Wyman, Vivien Leigh, Eleanor Parker e Maureen O’Hara. Nenhumas delas acertaram para o papel, até que Dorothy McGuire foi contratada para personificar Eliza Birdwell. 

Para salvar o filho no front, Jess terá que enfrentar o inimigo. Será que ele liquidará este confederado?
Anthony Perkins estreando em um papel importante, como Josh Birdwell, um jovem sensível que mesmo contrário a guerra não hesitará em lutar pela segurança de sua família.
Eliza se comove com a decisão do filho mais velho de partir para o conflito na Guerra Civil Americana.
Consta que Cooper, insatisfeito com o que viu nas diversas etapas de filmagem, se desinteressou de tal forma pelo filme que nunca o assistiu. Decerto não passa de um exagero a autocrítica do astro achando que não tenha se saído bem como o cético e por vezes sarcástico Jess Birdwell. Mas é graças a atuação do veterano ator que SUBLIME TENTAÇÃO deve muito de sua graça e emoção e esta é uma de suas excelentes interpretações.  A interação de Wyler com o resto do elenco pode ser medido com o desempenho dos atores coadjuvantes, onde entre eles merece destaque o ganso “Samantha”, que chega a ser sem dúvida notável. O filme também introduziu o então iniciante Anthony Perkins, ainda não marcado pelo papel mais famoso de sua carreira, o psicopata Norman Bates no clássico Psicose (1960) de Alfred Hitchcock.

Edição americana do livro SUBLIME TENTAÇÃO, de Jessamyn West, lançada originalmente em 1945.
LP original do filme SUBLIME TENTAÇÃO editado nos Estados Unidos, com a canção interpretada por Pat Boone.

Dorothy McGuire e Gary Cooper, o casal maduro de SUBLIME TENTAÇÃO (1956).
SUBLIME TENTAÇÃO concorreu aos Oscars de Melhor Filme, Direção (William Wyler), Roteiro Adaptado (Michael Wilson), Ator Coadjuvante (Anthony Perkins), e Canção (a famosa I Thee I Love, interpretada por Pat Boone). Destaque para o comovente score musical do Mestre Dimitri Tiomkin (1899-1979), e a foto a cores de Ellsworth Fredericks (1904-1993). 

SUBLIME TENTAÇÃO chegou com empolgação nas salas do Rio de Janeiro em 1957, motivado pela premiação do filme no Festival de Cannes. Notem o nome de Anthony Perkins como uma das grandes promessas do cinema americano. 
Sem dúvida, SUBLIME TENTAÇÃO é um filme esplendido, onde um cineasta de talento recriou com habilidade e afeto um dos pontos mais dramáticos da história dos Estados Unidos, a Guerra Civil Americana (1861-1865), aliás, as cenas de confronto são as melhores já vistas no cinema desde A Glória de Um Covarde, de John Huston, realizado em 1951. Um dos grandes clássicos do cinema que merece ser visto, sem reservas, por ambos os públicos e por todas as gerações.



FICHA TÉCNICA
SUBLIME TENTACAO
Friendly Persuasion
Nacionalidade: EUA
Ano de Produção: 1956
Gênero: Drama
Direção: William Wyler
Produção: Robert Wyler e William Wyler, para a Allied Artists, em distribuição.
Roteiro: Michael Wilson, baseado no romance de Jessamyn West.
Fotografia: Ellsworth Fredericks (em cores)
Música: Dimitri Tiomkin, com a canção I Thee I Love, Interpretada por Pat Boone.


Metragem: 136 minutos.
ELENCO PRINCIPAL
Gary Cooper – Jess Birdwell
Dorothy McGuire – Eliza Birdwell
Anthony Perkins – Josh Birdwell
Robert Middleton – Sam Jordan
Phyllis Love – Mattie Birdwell
Richard Eyer - Pequeno Jess Birdwell
Peter Mark Richman – Gard Jordan
Walter Catlett – Professor Quigley
Richard Hale – Purdy
Joel Fluellen – Enoch
Theodore Newton – Major Harvey
John Smith – Caleb Cope
Edna Skkiner – Opal Hudspeth
Marjoire Durant – Pearl Hudspeth
Frances Farwell – Ruby Hudspeth
Marjoire Main – A Viúva Hudspeth


Samantha, a ganso – ela mesma. 

Paulo Telles
Produção e Pesquisa.


A Magnífica música interpretada por Pat Boone, "Sublime Tentação".

6 comentários:

  1. Olá, Paulo. 'Sublime Tentação' (nossa que título mais errado)foi um dos filmes de Gary Cooper que marcou minha adolescência. Assim como: 'Sargento York', 'Legião de Heróis', 'Heróis de Barro', 'Vera Cruz', 'Matar ou Morrer' e 'Homem do Oeste'. Gary Cooper era o ator mais apropriado para o pai da família em 'Sublime Tentação'. Foi nesse filme que passei a conhecer os Quakers. Um grande e imperdível filme do mestre Wyler.

    Sugestão para o próximo ou futuro tópico: 'O Homem do Terno Cinzento", uma grande incursão do famoso roteirista na direção: Nunnaly Johnson.

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  2. Olá Valdemir! Sabe como nossos títulos nacionais pecam quanto o título original e ao enredo da trama. Gary Cooper foi minha primeira referência de herói cinematográfico desde que passei admirar cinema clássico. Sem dúvida SUBLIME TENTAÇÃO deveu-se muito ao desempenho de Cooper e sinceramente não vejo outro ator que poderia dar tanta singeleza e, ao mesmo tempo, autoridade com Jess Birdwell, o patriarca Quaker.

    Quanto ao O HOMEM DO TERNO CINZENTO em verdade é uma boa pedida sim. Está na fila.

    Grande abraço!

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  3. Sublime Tentação foi um premio doado por Wyller e aquele monstruoso elenco aos amantes do Bom Cinema. Um presente perfeito e inesquecivel, uma obra tão Sublime quanto o seu titulo.

    Olhem para o quadro onde Cooper parece não concordar com a decisão do Perkins em ir à luta e percebam a fisionomia de Dorothy. Um quadro, ou uma foto, tão significativa quanto o valor de seus interpretes, como à poesia que o mestre William Wyler nos oferta. Cena que pode passar desapercebida por outros, mas que não posso fazer o mesmo. Ela é a cara da fita, de seu desenrolar, de seus costumes, do modo de viver em eterna paz daquela bela familia comandada pelo doce Cooper e sua companheira totalmente doada ao lar e aos costumes de sua religião.

    Muitas coisas ou passagens que desconhecia, como a Ótima Criadora da Obra, como o Roteirista e sua exclusão dos credito, da preferencia do Cooper pela Bergman (todos os filmes citados da época eu os assisti, como Anastácia), as outras interpretes que não puderam fazer o papel por seus compromissos, dentre outros bons detalhes que passei a saber.

    No entanto, a unica coisa que não creio ser Cooper não ter visto um dos seus melhores trabalhos, já que ele andou fazendo outros pueris papeis em outras peliculas e que garando que ele viu todos e gostou. É possivel, porém deixo de lado este tópico porque, pela boa época em que haviam muitos atores que poderiam fazer muito bem aquele papel ( Expl. Spencer Tracy, James Stewart e até mesmo o Lancaster (que se empolgou com o trabalho de Cooper em Vera Cruz e refez diversas cenas de suas palhaçadas, poderiam fazer o papel que o Cooper interpretou).

    Mas o velho Cooper está magnifico. Tinha até direito a um outro Oscar dois anos após Matar ou Morrer, assim como o Wyller com sua marcante e delicada tonalidade que envergou à linda fita.

    Ainda ontem andei conversando com um amigo sobre cinema, um que sempre vem aqui em casa e com quem dialogo à vontade e com agrado porque ele é um maniaco como eu.

    E o titulo The Big Country saiu na conversa e foi que disse a ele, que também ama demais a esta fita. Falei para ele ler a filmografia do Wyller e tentar achar algo desagradável que o Homem fez. Não tem. Até o melhor, digo, um dos melhores policiais que eu vi foi dele, cito até nesta reportargem que foi Chagas de Fogo/51.

    No mais, amigo, tu já disse demais e até alem do que muitos sabiam deste fita e o que eu falar por aqui será repetição.

    Só acrescento que Sublime Tentação, com seu belo ganso/a Samanta e aquelas cenas deliciosas com o Eyer, a presença otima do estreante Perkins, a perfeição da esposa Dorothy e o comando da familia pelo magistral trabalho do Cooper, é uma fita que ainda hoje se assiste com a mais Sublime Satisfação.

    jurandir_lima@bol.com.br


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  4. Nada a acrescentar quanto a sua "SUBLIME DISSERTAÇÃO" meu amigo baiano Jurandir, quanto a esta obra prima de Wyler. Disse tudo e ainda um pouco mais. Ótimo observador que é você. Um grande abraço!

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  5. Maravilhoso!!!!! Estou aprendendo com você!

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    1. Aprendemos sempre uns com os outros Luciana! Grande abraço e obrigado pelo comentário.

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