domingo, 28 de maio de 2017

Alcatraz, Fuga Impossível (1979): Clint Eastwood e Um Acurado Estudo Sobre O Sistema Penitenciário Americano, Dirigido por Don Siegel.


Esta é a história real de Frank Morris (1926-1962?), que chegou a Prisão de Alcatraz (na ilha de mesmo nome, próximo à baia de São Francisco) a 18 de janeiro de 1960, condenado como ladrão de bancos. Morris foi criado em orfanatos e aos 14 anos cometeu seus primeiros delitos, incluindo porte de entorpecentes e assalto com arma de fogo. Possuidor de uma inteligência acima da média (tinha Q.I. de 133) foi condenado à prisão, e depois de passar por várias prisões federais dos Estados Unidos, terminou em Alcatraz, cuja fama era de ser uma penitenciária "impossível" de se escapar.

O verdadeiro Frank Morris
Clint Eastwood no papel de Frank Morris
A Ilha de Alcatraz e seu famoso presídio

A ação de
ALCATRAZ, FUGA IMPOSSÍVEL (Escape From Alcatraz) começa justamente com a chegada de Morris (Clint Eastwood), depois de sentenciado à prisão perpétua.  Realizado em 1979 e dirigido por Don Siegel (1912-1991), o filme também é baseado no livro de J. Campbell Bruce (1906-1996), escritor e pesquisador que durante anos estudou sobre a Prisão de Alcatraz, que segundo ele, houve 14 tentativas de fuga durante os 20 anos de existência do presídio. Dos 39 prisioneiros que escaparam, 26 foram recapturados, sete baleados, três morreram afogados – e os três restantes (entre eles o próprio Morris), simplesmente desapareceram.  Não se sabe, até hoje, se foram tragados pelo mar, ou se realmente conseguiram recuperar a liberdade.

A chegada de Frank Morris à Alcatraz


Frank Morris não é um preso comum, e não demora ele se tornará líder de uma fuga ousada.
A verdade é que a obra de Siegel, mais do que um filme de ação protagonizado por um ícone do gênero, é um estudo sobre a condição dos detentos e o conceito de aprisionamento. Com bem afirmou um crítico, “é menos um filme sobre prisão do que a ideia de estar preso”.  A trama do filme é a seguinte. Em 1960, condenado à prisão perpétua, Morris (Eastwood) é transferido de Atlanta para Alcatraz, sendo vigiado pelo diretor do presídio, o cínico e frio Warden (Patrick McGoohan, 1928-2009), que em sua gestão se orgulha de seus métodos e se vangloria de nunca ter havido uma fuga em Alcatraz. Warden acredita que enquanto for diretor do presídio, jamais se registrará uma fuga bem sucedida. 

Morris tem atrito com um dos presos, Wolf, o que o leva a ficar confinado em uma solitária por algum tempo.
Quando sai da solitária, Morris começa a armar um plano de fuga, tendo como aliados e amigos Litmus (Frank Ronzio)...
...e o pintor Doc (Roberts Blossom)
Mas as coisas para Morris não são fáceis. Após uma briga com Mastodonte Wolf (Bruce M. Fischer), que tenta submete-lo a seus desejos sexuais, Morris é confinado numa solitária escura. De volta à cela, trava contato com outros presos já adaptados ao regime. São eles: Litmus (Frank Ronzio, 1920-1989), que possui um camundongo de estimação; Chester 'Doc' Dalton (Roberts Blossom, 1924-2011), que dispõe do privilégio de pintar; e o negro English (Paul Benjamin), sentenciado a 99 anos de prisão. Com a chegada de dois ex-companheiros de Atlanta, os irmãos John (Fred Ward) e Clarence Anglin (Jack Thibeau), Morris começa a elaborar um plano de fuga.

Morris tem no negro English (Paul Benjamin) uma espécie de conselheiro.
Morris e outro presidiário, o ingênuo Charley Butts (Larry Hankin) 
Butts, Morris, e Litmus

Embora a ação esteja centrada na longa e detalhada operação chefiada por Frank Morris, o script (de Richard Tuggle), sem perder de vista este foco, denuncia a crueldade do sistema penitenciário, sem, entretanto perder o vigor cinematográfico de outras fitas do gênero. ALCATRAZ, FUGA IMPOSSÍVEL, embora um ótimo filme, não oferece maiores novidades. Não possui, por exemplo, o impacto de uma rebelião, como aquela que demonstrada por Jules Dassin em Brutalidade, obra prima do diretor realizada em 1947 e estrelada por Burt Lancaster.  Mas apesar desta falha, ALCATRAZ, FUGA IMPOSSÍVEL consegue, sem sombras de dúvidas, manter de pé o interesse do espectador. 


Morris começar a armar o plano da fuga...
...mas todo o cuidado é pouco, pois os guardas de Alcatraz estão em severa vigilância.
O maior mérito do filme advém diretamente de sua direção, promovida por um artesão ultra - experiente e de comprovada eficiência artesanal como Don Siegel, que mesmo sem perder o brilho evidenciado em outros trabalhos, consegue neutralizar as limitações geográficas e psicológicas da história. Siegel ainda reservou talvez uma das cenas mais violentas da película e difícil de esquecer: a de um dos prisioneiros, Doc (Roberts Blossom) cortar seus próprios dedos com uma machadinha, por lhe ter sido revogada a licença de pintar pelo diretor de Alcatraz. Quanto a Clint Eastwood, o ator se limitou a executar o que o papel lhe exigia no plano da ação exterior, contudo com seu estilo inconfundível que o viria a caracterizar como um dos grandes durões das telas. 

Morris começa a fazer sua parte na elaboração da fuga
O cruel e desumano diretor do presídio, Warden, vivido por Patrick McGoohan.

Foto da verdadeira cela onde Morris ficou preso, e as evidências de sua fuga espetacular.
Os três homens que conseguiram fugir de Alcatraz em 11 de junho de 1962, e certamente comprometeram a reputação de Alcatraz como a prisão “impossível de escapar". Morris e seus dois comparsas cavaram túneis em suas celas e navegaram até a costa em uma balsa feita com capas de chuva roubadas. Para enganar os guardas, fizeram cabeças em tamanho real de papier-mâché e colocaram nas camas, como se desse a impressão de estarem dormindo.

Mas em 1963, um ano depois da escapada espetacular de Morris, o governo federal resolveu fechar o presídio, que hoje é um dos pontos de atração turística do Estado da Califórnia. Os corpos de Morris e dos irmãos Anglin nunca foram localizados. Somente algumas provas foram encontradas, e elas levam a crer que os prisioneiros morreram, mas, oficialmente, ainda estão listados como desaparecidos e provavelmente afogados. No filme de Siegel, encampa (de certo modo) a tese de que os fugitivos lograram escapar com vida, tese esta nem comprovada e nem desmentida pelo FBI. Em outubro de 2015, um documentário do canal "History" foi divulgado, onde foram apresentadas novas evidências que indicam que os irmãos Anglin não somente sobreviveram, como mantiveram contato com sua família e teriam fugido para o Brasil.

O diretor Don Siegel e Clint Eastwood nos bastidores das filmagens.
Modelo de cabeça feita pelo próprio Morris, de acordo com suas semelhanças físicas, que fez enganar os guardas de Alcatraz durante a fuga.

Divulgação do filme pelos jornais cariocas, em setembro de 1979.
ALCATRAZ, FUGA IMPOSSÍVEL, em seus 112 minutos de projeção, estreou nas salas de cinema do Rio de Janeiro, em grande circuito, em setembro de 1979. A fotografia é de Bruce Surtess (1937-2012), e trilha sonora de Jerry “Meu ódio Será Sua Herança” Fielding (1922-1980). 



 FICHA TÉCNICA
ALCATRAZ – FUGA IMPOSSIVEL
(ESCAPE FROM ALCATRAZ)

Ano de Produção: 1979
País: Estados Unidos
Gênero: Drama/Criminal
Direção: Don Siegel
Produção: Don Siegel, Robert Daley, e Fritz Manes, para Malpaso, distribuído pela Paramount
Roteiro: Richard Tuggle e  J. Campbell Bruce (com base em seu livro)
Fotografia: Bruce Surtees, em cores
Música: Jerry Fielding
Metragem: 112 minutos


Elenco
Clint Eastwood – Frank Morris
Patrick McGoohan – Warden, diretor de Alcatraz
Roberts Blossom - Chester 'Doc' Dalton
Jack Thibeau - Clarence Anglin
Fred Ward - John Anglin
Paul Benjamin – English
Larry Hankin – Charley Butts
Bruce M. Fischer – Mastodonte Wolf
Frank Ronzio – Litmus
Fred Stuthman – Johnson
David Cryer – Wagner
Regina Balf – Lucy
Madison Arnold – Zimmerman
Denis Berkfeldt – Guarda
Jim Haynie – Guarda 2
Lloyd Nelson – Guarda 3
        Danny Glover – Detento
Candace Bowen – Filha de English

PAULO TELLES
Produção e Pesquisa. 


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IN MEMORIAN


SIR ROGER MOORE (1927-2017)


O Blog não poderia deixar de prestar uma singela lembrança a um astro que nos proporcionou grande entretenimento. Na última terça feira, dia 23, morreu na Suíça o ator Roger Moore, aos 89 anos, em decorrência de um câncer contra o qual o ator lutava havia poucos anos. A informação foi confirmada por familiares em um comunicado oficial divulgado nas redes sociais do artista. Moore teve um funeral privado em Mônaco.Roger Moore ficou internacionalmente conhecido por ser um dos intérpretes mais populares do agente James Bond, papel que assumiu após a saída de Sean Connery da franquia. Ele foi o terceiro ator a dar vida ao personagem e também o que mais vezes representou o agente britânico. 

Roger Moore, um dos mais famosos intérpretes do agente 007-James Bond


Com Christopher Lee em duelo em 007, O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO (1974)
Moore atuou nos filmes Com 007 Viva E Deixe Morrer (1973), 007 Contra O Homem Com A Pistola De Ouro (1974), 007 – O Espião Que Me Amava (1977), 007 Contra O Foguete Da Morte (1979), 007 – Somente Para Seus Olhos (1981), 007 Contra Octopussy (1983), 007 – Na Mira Dos Assassinos (1985). Em 007 Contra O Foguete da Morte, mostrou o espião no Brasil, travando uma luta espetacular em cima do bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, contra o vilão Jaws, O Dente de Aço (vivido pelo já falecido Richard Kiel).

Com as Bond Girls Maud Adams e Britt Ekland
Com Carroll Baker em O MILAGRE (1959)
IVANHOÉ (série de TV, 1958-1959)
Embora tenha feito diversos trabalhos no cinema e na TV, Moore nunca conseguiu se desvencilhar da sua imagem como 007. No cinema, atuou marcantemente em clássicos como O Milagre (The Miracle), de Irving Rapper em 1959, onde foi o galã de Carroll Baker. Em 1978, já consagrado como 007, Moore atou ao lado de dois grandes astros, os já falecidos Richard Burton e Richard Harris, no espetáculo de ação Selvagens Cães de Guerra (The Wild Geese), de Andrew V. McLaglen. Na TV, estreou como o herói épico na série Ivanhoé (1958-1959), revivendo o personagem já interpretado por Robert Taylor no cinema em filme homônimo de 1953. Integrou o elenco de Maverick (1959-1961), interpretando o primo inglês do personagem principal vivido pelo saudoso James Garner. 

Com James Garner, em MAVERICK (1959-1961)
Como Simon Templar em O SANTO (1962-1969)
Com Richard Harris, no espetacular SELVAGENS CÃES DE GUERRA (1978)
Mas a partir de 1962, Roger Moore foi o astro da série de TV O Santo, onde viveu o astuto espião Simon Templar, personagem já vivido no cinema nos anos de 1940 por George Sanders, e em um remake de 1997 por Val Kilmer. O programa deixou Moore ocupado demais até 1969 quando a série saiu do ar, tendo que recusar inúmeros convites para o cinema – inclusive deixando de aceitar a oferta de viver, na ocasião, o agente James Bond. Com a recusa inicial de Moore, Sean Connery foi o beneficiado, entrando para a história como o primeiro intérprete do espião britânico nas telas de cinema.

Com Richard Kiley, em foto publicitária para 007 CONTRA O FOGUETE DA MORTE (1979)
Com Tony Curtis, na série de TV THE PERSUADERS (1971-1972)


Antes de encarnar o agente mais famoso do cinema a partir de 1973, Moore ainda realizou mais uma série televisiva entre 1971 e 1972, The Persuaders, show muito popular onde o ator dividiu o estrelato ao lado de outro astro de cinema, Tony Curtis. The Persuaders fez enorme sucesso, mas os altos custos da produção fizeram que o programa fosse logo cancelado, não passando de uma primeira temporada.

007 com Roger Moore em ação.
Roger Moore, com seu charuto, e Barbara Bach durante premiere de 007, O ESPIÃO QUE ME AMAVA (1976)
Roger e sua esposa Kristina, em trabalho na UNICEF em 2005.


Roger Moore casou-se quatro vezes e teve três filhos. Aos 85 anos descobriu um câncer de próstata e vivia em Mônaco com sua esposa, a socialite dinamarquesa Kristina Tholstrup, com quem estava junto desde 2002. Na vida pessoal, Moore dedicou boa parte de seu tempo à carreira de embaixador do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Em 1999, por seu trabalho na ONU, o ator foi condecorado pela rainha Elizabeth II como Cavaleiro do Império Britânico. 

Roger Moore em seus últimos anos

PAULO TELLES - EDITOR

Próxima semana - Uma Retrospectiva dos filmes de 007 estrelados por Roger Moore.


domingo, 21 de maio de 2017

Os Canhões de Navarone (1961): Uma Missão Suicida e Quase Impossível, em Fita de Aventura Bélica Dirigida Pelo Injustiçado J. Lee Thompson.



Em 1943, os nazistas ocuparam a Ilha de Navarone, localizado no Mar Egeu, com o intuito de bloquear as forças inglesas infiltradas em Kheros, perto da Turquia. Na Ilha de Navarone, foi instalado, em alto penhasco, dois potentes canhões para destruir os navios aliados. Sob o comando do Major inglês Roy “Lucky” Franklin (Anthony Quayle, 1913-1989), forma-se uma unidade de sabotagem encarregada de penetrar na ilha e arrasar a fortaleza inimiga. 


Gregory Peck é o Capitão Keith Mallory, um ex- alpinista.
Peck como Mallory, e seus colegas Brown (Stanley Baker) e Miller (David Niven)

Anthony Quinn como Andrea Starvos, membro da Resistência Grega, ótimo matador.
Além do inglês Franklin, participam da arriscada missão o ex-alpinista americano, Capitão Keith Mallory (Gregory Peck, 1916-2003); um membro da Resistência Grega, Andrea Starvos (Anthony Quinn, 1915-2001); um especialista em explosivos, o cabo inglês Miller (David Niven, 1910-1983); o telegrafista e atirador de elite Brown (Stanley Baker, 1928-1977); e um jovem grego perito em matar, o soldado Spyros Pappadimos (James Darren, o Tony Newman da série de TV O Túnel do Tempo). Ao longo do caminho, juntam-se ao grupo, Maria Pappadimos (Irene Papas), irmã mais velha do soldado Spyros, e Anna (Gia Scala, 1934-1972), uma jovem grega torturada pelos nazistas.  Quando o major Franklin é ferido, o capitão Mallory assume o comando, surgindo tensões entre este e o cabo Miller, especialmente quando tomam conhecimento de que há um traidor entre eles.


Stanley Baker é Brown, telegrafista do grupo e matador de elite.
James Darren é o soldado Spyrus Pappadimus, um perito em matar.
Irene Papas é Maria Pappadimus, que pertence a Resistência Grega.
Assim inicia a energética aventura de OS CANHÕES DE NAVARONE (The Guns of Navarone, 1961), uma das mais populares ações de guerra já realizadas para o cinema, com merecidos 13 milhões de dólares arrecadados só no mercado norte-americano desde sua estreia, em 1961. Os Canhões de Navarone mostra o cotidiano de um grupo de seis oficiais e soldados aliados que recebem uma missão tida por todos como impossível e suicida: chegar a ilha grega de Navarone dominada pelos nazistas, e destruir os poderosíssimos, moderníssimos, gigantescos canhões que dominam toda uma área do Mar Egeu e não permitem a passagem por ali dos navios aliados. O Comando tem prazo curtíssimo para executar a tarefa: dentro de seis dias, os nazistas invadirão outra ilha da região onde há dois mil soldados ingleses; para que eles possam ser retirados de lá dentro do prazo, Os Canhões de Navarone terão que ser destruídos antes do sexto dia.


O Produtor e Roteirista Carl Foreman, dialogando com o diretor J. Lee Thompson e o ator David Niven. 
Brown (Stanley Baker), Spyrus (James Darren) e Miller (David Niven)
Anna (Gia Scala), que pertence a Resistência, sentada à mesa com Spyrus (James Darren), Miller (David Niven) e Mallory (Gregory Peck)
Escrito e produzido por Carl Foreman (1914-1984), o célebre roteirista de Matar ou Morrer (1952) e A Ponte do Rio Kwai (1957), o espetáculo dirigido por J. Lee Thompson (1914-2002) foi rodado nas locações da Ilha de Rhodes, na Grécia, concorrendo para o Oscar (inclusive de melhor filme), mas acabou arrebatando a estatueta de melhores efeitos especiais. Em realidade, uma premiação muito justa, tendo em vista a estrepitosa galeria de cenas de combate e explosões (efeitos, para sua época, muito impressionantes). Mas para isso, foram necessários dois anos de filmagem para levar para as telas o magnífico Best Seller (publicado em 1957) do consagrado Alistair MacLean (1922-1987), o mesmo autor de O Desafio das Águias e Estação Polar Zebra, dois de seus romances que também viraram filmes. MacLean ainda daria uma sequencia literária para a saga de Navarone, Comando 10 de Navarone (Force 10 to Navarone), publicado em 1968 e que somente dez anos depois seria trasladado para o cinema, sob direção de Guy Hamilton, com Robert Shaw no papel de Mallory e Harrison Ford como Barnsby.


Anthony Quinn em um show de interpretação, como Andrea Starvos, prestes a dar um bote contra os nazistas.
O Cabo Miller (David Niven), o Capitão Mallory (Gregory Peck) e o aventureiro grego Andrea Starvos (Anthony Quinn): Uma missão suicida. 
Os aventureiros sabotadores, com a missão de destruir OS CANHÕES DE NAVARONE (1961)
O elogio maior que se pode e deve fazer para OS CANHÕES DE NAVARONE é o espectador não sentir sua longa projeção (155 minutos), onde acompanha com atenção e interesse todo o desenvolvimento da trama. Por natureza, pode ocorrer como em tantas obras primas do cinema, algum tipo de deficiência em sua realização, o que não impede que ele constitua num entretenimento válido para aqueles que apreciam as dramáticas aventuras sobre a II Guerra Mundial. Narrando uma história que em realidade acaba cedendo à ficção, esta é suplantada com frequência inverossímil e fantasiosa, fazendo com que o espectador aceite o comportamento dos personagens como eles são narrados e apresentados para o agrado do público. 


Os canhões que precisam ser destruídos.
O Cabo Miller (David Niven) descobre um traidor no grupo. Quem será?
Com a missão cumprida, Mallory (Peck) e Miller (Niven), enfim, resgatados no mar.
Tudo porque os efeitos especiais que causaram tanta sensação em sua época hoje estão óbvios e obsoletos. Fica difícil o público de hoje não achar meio ridícula as cenas com miniaturas, com efeitos artificiais, cenas pintadas que eram colocadas em cima de outras, realmente fotografadas, e alguns cenários obviamente feitos em estúdio. Por outro lado, grandes estruturas como o próprio canhão tiveram que ser realmente construídas, que se realizados hoje, seriam feitos por meio de computação digital. Algumas cenas foram realmente perigosas, como a tempestade no mar, que foi feita em estúdio, mas as ondas eram tão fortes que David Niven quase morreu afogado, ou feitas em locação, como a escalada do penhasco, realizada em parte por estúdio e em locação. O curioso é que não chovia quando rodaram. A chuva foi colocada depois com uso de truques.


O grupo chega à Grécia.
Jensen (James Robertson Justice), representante do Governo Britânico, o Major Franklin (Anthony Quayle), comandante oficial da missão, e Mallory (Gregory Peck). James Robertson Justice também foi o responsável pela narração inicial.



Contudo, apesar de ser uma história fascinante, não se trata de um evento real. Não existe a Ilha de Navarone, nem a história é baseada em fatos verossímeis, mas sim de um dado real. A Inglaterra realmente trabalhou com pequenos comandos, grupos treinados para missões especificas, realmente houve uma resistência grega formada por guerrilheiros, mas eram divididos entre os comunistas e os de Direita, que nunca se entenderam. A Grécia antes da Guerra era uma ditadura, até a Itália resolver invadi-la. Foi apenas vagamente inspirado numa batalha famosa que foi a de Leros. Mas, de resto, é ficção. É a primeira das grandes aventuras bélicas com elenco internacional. Carl Foreman, pela sua própria formação, não era capaz de escrever uma mera aventura sem trazer uma mensagem, uma moral. Na época de seu lançamento, foi criticado por apresentar recados contra a guerra (que curiosamente hoje mantém o filme atual e superior a outros). Fala da futilidade da guerra, de como os dois lados sempre perdem, discute a necessidade ou validade dos delatores e a traição (um tema importante para Foreman, já que ele foi delatado como comunista nos inquéritos do governo durante a época do Caça às Bruxas). O que poucos percebem, entretanto, é a pretensão do roteiro de ser uma versão moderna da história mitológica de Jasão e os Argonautas (Os Canhões em si equivalentes ao mito do Minotauro), e com toques de Édipo, pretenciosamente chamada de A Lenda de Navarone.

O diretor J. Lee Thompson. Um cineasta injustiçado.


A atriz inglesa de origem italiana Gia Scala, que morreu prematuramente em 1972.
Foi o chefe da Columbia na época, Mike Frankovich (1909-1992), que  encaminhou para Carl Foreman o projeto. Foreman, a princípio, contratou o diretor inglês de comédias Alexander MacKendrick para dirigir o filme. Mas os atores não o aceitaram e MacKendrick foi mandado embora. Gregory Peck tinha direito a aprovar o diretor que quisesse e acabou selecionando outro britânico, J. Lee Thompson, achando que este mostrava sensibilidade e capacidade para cenas de ação (como o fez em Sangue Sobre a Índia, com Lauren Bacall). De fato, Lee Thompson é subestimado até hoje e não figura entre os grandes diretores do século XX. Em todas as entrevistas e documentários a respeito do filme, o elenco é unânime em elogiar a competência do cineasta, habilidade em conduzir atores, e seu método de ensaiar de manhã durante umas três horas, fazendo as marcações e explicando tudo para os astros.



James Darren, David Niven, Gia Scala
Gregory Peck e Anthony Quayle
Irene Papas
No elenco, vale mencionar a participação breve de Richard Harris (1930-2002) como Barnsby, um oficial aliado, personagem que teria maior destaque na sequencia da aventura em Comando 10 de Navarone, aqui vivido por Harrison Ford. A grega Irene Papas e a inglesa de origem italiana Gia Scala (atriz prematuramente falecida em 1972) participam de um elenco quase todo masculino, como duas integrantes da resistência que colaboraram com os aventureiros sabotadores. Em destaque, além da fotografia do especialista Oswald Morris (1915-2014), ainda tem o marcante comentário musical do Mestre Dimitri Tiomkin (1899-1979), o mesmo compositor de Matar ou Morrer a quem Carl Foreman confiou um de seus scores mais elaborados e criativos. Os Canhões de Navarone estreou nas salas cariocas em setembro de 1962, e até os dias de hoje, apesar dos efeitos especiais já estarem ultrapassados, é graças a seu enredo de exuberante aventura que a obra de J. Lee Thompson figura entre um dos maiores espetáculos de ação já produzidos sobre a II Guerra Mundial, a exemplo de Os Doze Condenados (1967) e O Desafio das Águias (1968).  


Richard Harris, em breve participação
Gregory Peck e David Niven

O Fotógrafo Oswald Morris (de óculos), acompanhando os ângulos para as filmagens, com o diretor J. Lee Thompson e Gregory Peck.
A divulgação do filme nos jornais cariocas. OS CANHÕES DE NAVARONE estreou nos cinemas do Rio de Janeiro em 7 de Setembro de 1962.
FICHA TÉCNICA
OS CANHÕES DE NAVARONE
(THE GUNS OF NAVARONE)

País – Estados Unidos/Inglaterra
Gênero – Aventura/Guerra
Ano de Produção – 1961
Direção: J. Lee Thompson
Produção: Carl Foreman, Leon Becker, e Cecil Ford, para a Colúmbia Pictures.
Roteiro: Carl Foreman, baseado no livro de Alistair MacLean.
Fotografia- Oswald Morris, em Cores
Música- Dimitri Tiomkin
Metragem – 155 minutos


Gregory Peck – Capitão Keith Mallory
David Niven – Cabo Miller
Anthony Quinn – Andrea Starvos
Stanley Baker – Brown
Anthony Quayle – Major Roy “Lucky” Franklin
James Darren – Soldado Pappadimos
Irene Papas – Maria Pappadimos
Gia Scala – Anna
James Robertson Justice – Jensen/Narrador
Richard Harris – Barnsby
Bryan Foris – Corby
Allan Cuthbertson – Baker
Percy Herbert – Sargento Grogan
Walter Gotell – Muesel
Tutte Lemkow – Nicolai
       Albert Lieven – Comandante
Norman Wooland – Capitão do Grupo
Victor Beaumont – Oficial Alemão
Wolf Frees – Rádio Operador
Bob Simmons – Soldado Alemão em Navarone

PESQUISA E PRODUCAO DE
PAULO TELLES
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