sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Flash Gordon e os Seriados do Cinema (1936 a 1940): Uma Sessão de Nostalgia com Buster Crabbe.



Personagem criado em 1934 pelo desenhista Alex Raymond (1909-1956), FLASH GORDON cativou a imaginação de crianças e adultos ao terem suas aventuras publicadas em quadrinhos nas tiras dominicais dos grandes jornais americanos, e aqui no Brasil não foi diferente. Entretanto, o sucesso do herói chegou ao auge quando finalmente ele saiu das tirinhas para as telas de cinema em 1936, com o seriado de cinema Flash Gordon no Planeta Mongo (Flash Gordon), dirigido por Frederick Stephani (1903–1962). O êxito deste primeiro filme do herói (talvez um dos primeiros da Ficção-Científica) foi tão retumbante que a Universal, produtora do seriado, investiu em mais duas fitas em série com o personagem: Flash Gordon no Planeta Marte (Flash Gordon's Trip to Mars, 1938) – dirigido por Ford Beebe (1888–1978) e Robert F. Hill (1886–1966) - e Flash Gordon Conquista o Universo (Flash Gordon Conquers The Universe, 1940), dirigido por Ford Beebe e Ray Taylor (1888-1952), este último considerado o melhor de toda a série. 

Alex Raymond, o desenhista que criou
FLASH GORDON.
FLASH GORDON se tornou de imediato
grande sucesso nos quadrinhos.
Flash com seu parceiro de aventuras, o Dr.
Alexis Zarkov.
Todos os três filmes em série foram estrelados por Larry “Buster” Crabbe, ou se preferir, Buster Crabbe (1908-1983). Crabbe foi o maior astro dos seriados de cinema nos anos de 1930 e 1940, e sua popularidade se deveu ao desempenho fantástico nos esportes, principalmente quando ganhou Medalha de Ouro na natação, ao conseguir a marca nos 400 metros estilo livre, nos Jogos Olímpicos de Verão de 1932, em Los Angeles. Foi o segundo astro de Hollywood proveniente da glória dos esportes a fazer carreira no cinema. O primeiro foi Johnny Weissmuller (1904-1984), que se tornou o mais mitológico de todos os Tarzans da Sétima Arte. 


Larry "Buster" Crabbe: das quadras da piscina para o estrelato nos seriados em Hollywood.
Buster Crabbe e Johnny Weissmuller: rivais na
piscina e também pelo papel de Tarzan.
O curioso, é que Crabbe fez testes na Metro Goldwyn Mayer para o papel de Tarzan, mas não foi aprovado, e desta forma, os produtores preferiram Weissmuller, que faria sucessivos filmes estrelando como o personagem. Então,  surgiu um produtor independente chamado Sol Lesser (1890-1980) que resolveu produzir um filme de Tarzan desvinculado dos filmes da Metro e protagonizados por Weissmuller.  Assim veio Tarzan, o Destemido (Tarzan the Fearless), realizado em 1933, sob direção de Robert F. Hill, que trouxe Crabbe para o papel do Homem-Macaco por sugestão do próprio Sol Lesser. A ideia de Lesser era colocar Buster em rivalidade com Weissmuller pelo título de melhor Tarzan, já que ambos os atores, outrora atletas e nadadores, já haviam sido rivais nas piscinas olímpicas.

Buster Crabbe e Weissmuller disputando um "Braço de Ferro" para fins de publicidade.
Buster Crabbe, o eterno Flash Gordon.
Mas o público gostou muito mais de Johnny Weissmuller, que prontamente o outorgou como o único e verdadeiro Tarzan das telas. Se Buster não agradou como o herói criado por Edgar Rice Burroughs, certamente agradaria como o herói de Alex Raymond. Sendo um dos Reis dos Seriados da Universal, Crabbe também foi requisitado para ser Buck Rogers (outro herói da Ficção Científica), Kaspa, o Homem Leão (uma cópia descarada de Tarzan), e Red Barry, personagens que tiveram, assim como Flash Gordon, suas origens nos quadrinhos. Mas foi decididamente FLASH GORDON que deu mais notoriedade ao ator. 

O Flash Gordon dos quadrinhos de acordo com seu criador, Alex Raymond, e o Flash dos seriados da Universal, estrelado por Buster Crabbe.
Mas para interpretar esse herói, Crabbe precisou tingir seus cabelos de louro para ficar mais parecido com os traços do personagem de acordo com os gibis. Isso criou de certa forma um constrangimento para o ator, que precisava manter seu chapéu em público para evitar algum tipo de gracejo. 


Os seriados do cinema

FLASH GORDON NO PLANETA MONGO
(FLASH GORDON, 1936)

O povo da Terra esta sofrendo uma epidemia mortal conhecida por todos como a “Praga da Morte Vermelha”. O jovem universitário de Yale Flash Gordon (Buster Crabbe), juntamente com o Dr.Alexis Zarkov (Frank Shannon, 1874-1959), e sua namorada Dale Arden (Jean Rogers, 1916-1991), partem rumo à estratosfera no velocíssimo foguete do Doutor para pouco depois descobrirem o autor desta epidemia: O Imperador Ming (Charles Middleton, 1874-1949, numa soberba interpretação), um cruel ditador do Planeta Mongo. Seu plano para conquistar o Universo consiste em derramar um pó mortífero sobre a atmosfera da Terra.



Flash Gordon (Buster Crabbe) e sua amada Dale Arden (Jean Rogers)
A Princesa Aura (Priscilla Lawson), filha do abominável Imperador Ming, é uma das amigas de Flash Gordon.
Assim, o herói parte para Mongo, onde com a ajuda de seus aliados, a Princesa Aura (Priscilla Lawson, 1914-1958), filha do ditador Ming (que não apoia as atrocidades do pai), e do Príncipe Barin (Richard Alexander, 1902-1989), Flash Gordon consegue destruir parte das máquinas diabólicas criadas pelo gênio de Ming, entretanto a luta de Flash não para por aí, se fazendo necessária uma viagem urgente às terras geladas de Frígia, onde é conhecido o único antídoto para a “Praga da Morte Vermelha”.  O Imperador Ming, embora parcialmente derrotado, não se entrega e faz com que suas espaçonaves controladas ataquem Flash Gordon e seus amigos, mas graças a presença de espírito do herói, as fortificações do terrível ditador são aniquiladas e o cruel Ming vê seus planos diabólicos irem por terra. 

O cruel e impiedoso Imperador Ming, vivido de forma soberba pelo maravilhoso Charles Middleton.
Flash Gordon (Crabbe) domina Ming (Middleton).

Flash Gordon lutando para salvar sua vida contra os Homens-Feras de Mongo.
Flash Gordon no Planeta Mongo foi destinado a reconquistar um público adulto para os seriados e foi exibido nos cinemas de alta rotatividade nas grandes cidades dos Estados Unidos. Muitos jornais, inclusive alguns que não se dedicavam aos quadrinhos do personagem, apresentavam histórias de três quartos de página em suas colunas de entretenimento, com desenhos de Alex Raymond e fotos do seriado. Além disso, o seriado foi produzido com total fidelidade aos quadrinhos, preservando a magia do Planeta Mongo e o erotismo bem caracterizado de Raymond, com lindas mulheres de roupas bem insinuantes. Só para esta primeira aventura do herói foram gastos um milhão de dólares, uma fortuna para um seriado de cinema, ainda que de proporções bem épicas.

O Príncipe Barin (Richard Alexander) e a Princesa Aura (Priscilla Lawson) são os aliados fiéis de Flash Gordon contra Ming.
Dale Arden (Jean Rogers) intercedendo a Ming pela vida de Flash Gordon.


Flash Gordon no Planeta Mongo (1936). Direção: Frederick Stephani. Elenco: Buster Crabbe (Flash Gordon), Jean Rogers (Dale Arden), Charles Middleton (Imperador Ming), Priscilla Lawson (Princesa Aura), Frank Shannon (Dr. Alexis Zarkov), Richard Alexander (Principe Barin), Jack 'Tiny' Lipson (Rei Vultan), Richard Tucker (Professor Gordon), James Pierce (Principe Thun). Metragem: 245 minutos (13 capítulos). Fotografia: Em Preto & Branco. Produção da Universal.

O Rei Vultan (Jack "Tiny" Lipson): de inimigo de Flash a aliado e amigo.

FLASH GORDON NO PLANETA MARTE
(FLASH GORDON’S TRIP TO MARS, 1938)


Segundo dos três seriados feitos com o personagem . Foram mantidos os atores principais do seriado anterior nos mesmos papeis: Buster Crabbe como Flash Gordon, Jean Rogers como Dale Arden, Frank Shannon como Dr. Alexis Zarkov,  e Charles  Middleton, magnífico como o cruel Ming.


O Dr. Zarkov (Frank Shannon), Dale Arden (Jean Rogers), e Flash Gordon (Buster Crabbe) em mais uma eletrizante aventura, desta vez em Marte.
Flash e Dale desta vez não contavam com a presença de Happy Hapgood (Donald Keer), um repórter bisbilhoteiro que acabou caindo na nave da tripulação.
Novamente o perverso Ming (Charles Middleton) querendo destruir a Terra.
Um elemento químico chamado Nitron está desaparecendo da atmosfera terrestre, o que vem causando ciclones tropicais e outros desastres meteorológicos. Dr. Zarkov (Frank Shannon) e Flash (Crabbe) descobrem que um raio de Marte é a fonte do esgotamento de Nitron. Um repórter de jornal, Happy Hapgood (Donald Kerr, 1891-1977), está dentro do foguete da tripulação quando Flash, Zarkov e Dale Arden (Jean Rogers) partem para Marte rumo à investigação. .


Em Marte, a tripulação de Flash se depara com humanoides Homens de Argila.
Flash em conferência com Azura (Beatrice Roberts), Rainha de Marte, aliada de Ming.
Flash, o Principe Barin, Zarkov, e Hapgood, lutam contra seres primitivos enviados por Azura.
Lá, eles descobrem que Azura (Beatrice Roberts, 1905-1970), Rainha de Marte, está associada à Ming, O Impiedoso (Charles Middleton), para conquistar a terra. Todos os marcianos que se opõem a sua parceria com Ming foram transformados em humanoides de argila, forçados a viver sob a superfície de Marte. Os quatro terráqueos refugiam-se em uma dessas cavernas e juntam-se ao Rei Clay (C. Montague Shaw, 1882-1968) para destruir a lâmpada Nitron que está drenando a atmosfera da Terra. Concordam, também, em ajudar a restaurar o povo de argila para sua forma humana para, juntos, derrotarem Azura e Ming.


Flash lutando implacavelmente contra os policiais de Ming.
Na presença de Azura, Flash Gordon derrota Ming.
Flash Gordon no Planeta Marte foi baseado em um Big Little Book de 1936, adaptação dos quadrinhos Flash Gordon and the Witch Queen of Mongo. A ambientação foi mudada para Marte em função do sucesso de The War of the Worlds (a Guerra dos Mundos), obra de H. G. Wells apresentado por Orson Welles em seu programa de rádio, lançado sete meses após o seriado ser levado aos cinemas. Isso fez a Universal lançar às pressas uma versão editada, com 68 minutos, sob o título Mars Attacks the World, para capitalizar a publicidade. O filme foi um sucesso de bilheteria. Flash Gordon's Trip to Mars foi mais cara do que a produção do primeiro seriado.

Flash Gordon, o Conquistador e Herói do Universo.

Flash Gordon no Planeta Marte (1938). Direção: Ford Beebe, Robert F. Hill. Elenco: Buster Crabbe (Flash Gordon), Jean Rogers (Dale Arden), Charles Middleton (Imperador Ming), Frank Shannon (Dr. Alexis Zarkov), Beatrice Roberts (Rainha Azura), Donald Kerr (Happy Hapgood), Richard Alexander (Principe Barin), C. Montague Shaw (Rei Clay), Wheeler Oakman (Tarnak). Metragem: 299 minutos (15 capítulos). Fotografia: Em Preto & Branco. Produção da Universal. 



FLASH GORDON CONQUISTA O UNIVERSO
(FLASH GORDON’S CONQUERS THE UNIVERSE, 1940)


Foi o terceiro e último dos três seriados feitos com o personagem.  Aqui foram mantidos apenas três dos atores principais dos seriados anteriores:  Buster Crabbe como Flash Gordon, Frank Shannon como o Dr. Alexis Zarkov, e Charles Middleton como Ming, o Impiedoso. Jean Rogers saiu da Universal para assinar contrato com a 20ª Century Fox, e em seu lugar entrou Carol Hughes (1910-1995) para viver Dale Arden. Outras duas mudanças a se reparar: Roland Drew (1900-1988) substituiu Richard Alexander no papel do Príncipe Barin, e Shirley Deane (1913–1983) a interpretar a Princesa Aura, personagem vivida por Priscilla Lawson no primeiro seriado de 1936. 



Flash Gordon (Crabbe) e Dale Arden, agora interpretada por Carol Hughes.
Flash e seus aliados: Principe Barin (Roland Drew), Dr. Zarkov (Frank Shannon) e Dale Arden (Carol Hughes).
A Princesa Aura (agora vivida por Shirley Deane) com o pai, Ming - O Cruel.
Uma epidemia mortal devasta a terra, conhecida como a “Morte Púrpura”, deixando muitas vítimas. Ming, o Impiedoso (Charles Middleton), é suspeito de estar por trás da praga e se descobre que suas naves espaciais têm deixado cair a “Poeira da Morte” na atmosfera da terra. Flash Gordon (Buster Crabbe), juntamente com Dr. Alexis Zarkov (Frank Shannon) e Dale Arden (Carol Hughes), é enviado para o Planeta Mongo, para encontrar uma possível cura para a epidemia.



Flash e Dale em busca de um antídoto para salvar a Terra.

O Imperador Ming (Charles Middleton) não desiste em tentar destruir o Universo.
Eles encontram o antídoto, denominado polarite, no Reino de Frigia. Flash e Zarkov distribuem o antídoto através do mesmo caminho onde foi distribuída a Poeira da Morte. Ming envia um exército de robôs-bombas, e consegue capturar Zarkov por um curto período de tempo antes de Flash conseguir libertá-lo. O trio continua a batalha contra Ming e seus aliados. Capitão Torch (Don Rowan, 1905-1966) é o vilão principal deste último seriado de cinema de Flash Gordon, sendo ele o responsável por parar os terráqueos. Ming é preso em uma torre, e um foguete carregado com polarite atômica é enviado contra ele. Príncipe Barin toma seu lugar de direito como governante de Mongo. As últimas palavras de Ming são: "I am the universe!" (Eu sou o Universo!). Zarkov anuncia, então, que Flash Gordon conquistou definitivamente o universo.


Flash Gordon Conquista o Universo (1940). Direção: Ford Beebe, Robert F. Hill. Elenco: Buster Crabbe (Flash Gordon), Carol Hughes (Dale Arden), Charles Middleton (Imperador Ming), Frank Shannon (Dr. Alexis Zarkov), Roland Drew (Principe Barin), Shirley Deane (Princesa Aura), Lee Powell (Roka, Don Rowan (Capitão Torch). Metragem: 220 minutos (12 capítulos). Fotografia: Em Preto & Branco. Produção da Universal.


SUCESSO NA TV


Na década de 1950, os três seriados de Flash Gordon foram transmitidos pela televisão americana. Para evitar confusão com a série de TV levada ao ar com o personagem veiculada na mesma época (entre 1954 a 1955, com Steve Holland no papel de Flash Gordon), os seriados receberam novos títulos, respectivamente Space Soldiers, Space Soldiers' Trip to Mars e Space Soldiers Conquer the Universe (Soldado Universal, Soldado Universal vai para Marte, Soldado Universal conquista o Universo). Na metade da década de 1970, foram reexibidos em diversas estações nos Estados Unidos, trazendo Flash Gordon para uma nova geração, exatamente dois anos antes de Star Wars reacender  no público o interesse pela ficção científica.Todos os três seriados do herói nos dias de hoje figuram entre os mais reprisados e exibidos  pelos cineclubes de diversos países do mundo, sempre promovido por colecionadores dispostos a apresentar para seus associados tamanhas relíquias em compenetrada sessão regada a muito entretenimento e nostalgia.  

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES

As Maiores Trilhas Sonoras da Sétima Arte, e em todos os tempos!
Você somente encontra no 
CINE  VINTAGE..
Todos os domingos, às 22 horas.
SINTONIZE A WEB RÁDIO VINTAGE: 
REPRISE DO PROGRAMA NAS
QUINTAS FEIRAS (22 horas)
SÁBADOS (17 HORAS)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Maior Espetáculo da Terra (1952): A Arte Cinematográfica e o Espetáculo de Cecil B. DeMille.


O nome de Cecil B. DeMille (1881-1959) ficou para sempre associado às superproduções da Sétima Arte, sendo sinônimo de suntuosidade quando se trata de grandes espetáculos. Entretanto, até 1952, quando dirigiu e produziu O Maior Espetáculo da Terra (The Great Show On Earth), este foi o filme que mais lhe rendeu honras, tanto por parte da crítica quanto da opinião pública. De forma grandiosa e impressionante, foi até aquele momento o maior êxito comercial do veterano cineasta em toda sua longa carreira, arrecadando só no mercado norte-americano 14 milhões de dólares, conquistando o Oscar de melhor filme e argumento de 1952, e ainda o Prêmio Irving Thalberg para DeMille. 



O Lendário Diretor Cecil B. DeMille 
O diretor iniciando o preparo das filmagens
Foi o penúltimo título da filmografia deste grande diretor, iniciada na fase ainda silenciosa do cinema, em 1913, e terminada em 1956, quando dirigiu outro grande espetáculo, Os Dez Mandamentos. Mas para poder realizar a proeza de dirigir tamanha obra a altura do seu título original, a Paramount pagou aos empresários John Ringling North (1903-1985) e Henry Ringling North (1909-1993), os donos do famoso Ringling Brothers & Barnum & Bailey, considerado então o mais famoso circo do mundo, a quantia de 250 mil dólares pelo uso da marca e pela cessão de artistas.


DeMille em seu escritório, entre projetos e
roteiros.

DeMille e alguns artistas do Ringling Brothers
e Barnum & Bailey.
Cecil e sua estrela Betty Hutton.
O filme pode ser espalhafatoso, como a maioria dos épicos de DeMille, mas aqui tudo funciona. Mas o que é o circo a não ser uma combinação de luzes, fantasias, e cores? Naturalmente, alguns críticos não foram tão clementes para com o cineasta. Segundo a revista Time Magazine, DeMille reforça sua reivindicação para outra distinção: "A Grande amostra da Terra provavelmente será vender mais pipocas do que qualquer filme feito". Outros críticos acharam que o filme era banal e com uma estúpida história de amor. O New York Times respondeu a favor do veterano diretor: "A história romântica é reflexo do romance diário da realidade do circo".

Charlton Heston e Cecil B. DeMille.
Brad (Heston), Holly (Betty Hutton) e Sebastian (Cornel Wilde):
Um provável triangulo amoroso.

Charlton Heston e um dos empresários
do Ringling Brothers, John Ringling North.
O filme poderia se sair melhor sem o apelo romântico do diretor para com os personagens de Charlton Heston e Betty Hutton, e o tendencioso triângulo amoroso entre os dois com Cornel Wilde, e isto sendo opinião de outros críticos, que acham que o circo não passa de uma meretriz um tanto conveniente para os personagens. DeMille não concordou com essa visão, mas tinha razão numa coisa: transformar sua fita numa novela de dimensões teatrais era tarefa para atrair o público para os cinemas, e foi isso que aconteceu, quando O Maior Espetáculo da Terra bateu recorde nas bilheterias.

Ramon Gomez de La Serna, o "primeiro"
Crítico de Circo.
James Stewart como o carismático
palhaço Buttons

Com toda a certeza, quem poderia nos falar da poesia do circo (sim, o circo não é só um espetáculo de entretenimento, mas como o cinema, também é uma arte) seria Ramon Gomez de La Serna (1888-1963), famoso escritor espanhol, inventor das famosas greguerias, uma espécie de varieté do humor, e que foi também o “primeiro” cronista de circo (e de certo, o único). Quando assistimos a O Maior Espetáculo da Terra, se reflete que só mesmo o espanhol La Serna poderia fazer uma crônica do jeito que o filme mereceria, afinal, toda a atmosfera do circo impregna inteiramente na fita, nos transbordando para o mundo maravilhoso e fascinante do circo, nos impedindo ao mesmo tempo de falar sobre ele com nossa prosa cotidiana, e muitas vezes, banal. 

Brad Braden (Charton Heston) e o
palhaço Buttons (James Stewart).
Além do Oscar conquistado por melhor filme de 1952, Cecil B. DeMille recebe das mãos do ator Henry Wilcoxon (que com o diretor também produziu o filme) o prêmio Irving Thalberg.
Uma obra prima de proporções à altura de seu diretor, vista por todos os ângulos em que se queira apreciar a este celuloide de sucesso, vindo de um cineasta experiente, o Mestre do Espetacular.  Com O Maior Espetáculo da Terra, o bom e velho DeMille chegou ao apogeu de sua carreira e de sua arte. Pode ser verdade que o venerando cineasta tenha sempre preferido o cinema mais como diversão do que propriamente arte, ou melhor dizendo, que tenha condicionado sempre ao longo de sua prolífica carreira a arte cinematográfica ao primado do divertimento.  

Jimmy Stewart (o palhaço Buttons) e o
palhaço mais aplaudido da América,
Emmett Kelly.
Na Plateia, Bob Hope e Bing Crosby.
Dorothy Lamour e Gloria Grahame,
"artistas" do Ringling Brothers.
Cecil pode ter cometido erros (e quem não os comete?), ter se enganado duas, dez vezes, através de sua copiosa obra de cinema. Contudo, tudo isto é perdoado e deixado de lado quando um diretor de idade provecta e que poderia estar aposentado (e que levaria sua função quase até as ultimas consequências, quando em 1956, ao dirigir Os Dez Mandamentos, DeMille, aos 77 anos, sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens no Monte Sinai, mas se recuperou e voltou à ativa) consegue realizar uma película como O Maior Espetáculo da Terra, onde a técnica, a arte, e os valores humanos se combinam na mais perfeita química. 


A atriz Helen Hayes visitou o set
durante as filmagens.
Betty Hutton e Gloria Grahame,
que disputam o afeto do patrão Brad.
Gloria Grahame é Angel, uma
domadora de elefantes.
Isso sem perder de vista o espetacular, nem o sentido de evasão do cotidiano que o cineasta imprime em todos os seus filmes, certo de que a multidão ingresse nas salas de cinema para fugir a realidade do ambiente, sem esquecer o toque poético no lirismo que transborda no próprio assunto: o circo – esta, por si mesma, a poesia do encanto e do mistério, e acima de todos os valores, nota-se a atmosfera, através de seus artistas humanos e sublimemente poéticos. A partir daí, o diretor nos transporta ao ambiente e passamos a viver em pleno circo.  É através desse clima que todo espectador ao assistir a este penúltimo trabalho de Cecil B. DeMille se torna também participante da obra, tal como os espectadores dos atos a que vamos assistindo ao longo da fita (que tem 152 minutos de projeção) e que é a anteface do outro espetáculo, aquele que não se desenrola no picadeiro, mas na existência dos artistas do circo, dos palhaços, dos trapezistas, da moça do elefante, do domador de leões, enfim. 



A atlética Betty Hutton treinou muito
no trapézio para viver Holly
Se DeMille conseguiu o máximo da manipulação de seus efeitos, um dinamismo plástico extraordinário, que segue num ritmo ágil e vibrante, e que por toda a fita, em perfeita harmonia, conduz como ninguém suas grandes manobras com multidões (sim, DeMille era craque em dirigir cenas de multidão), por outro lado seu sentimento épico, tanto linear e profundo tirou de seu elenco all-star um rendimento efetivo dos mais convincentes.


Brad Braden (Charlton Heston) e sua
namorada, a trapezista Holly (Betty Hutton)
Holly implora ao namorado e patrão Brad para ser a estrela do picadeiro central. Mas para segurança e investimento do espetáculo, Brad contrata o "Grande Sebastian" (Cornel Wilde).
A domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame) tem uma queda pelo patrão Brad (Charlton Heston).
A trama da obra se concentra num dos maiores circos do mundo, o Ringling Brothers –Barnum & Bailey. Seu gerente é o jovem Brad Braden (Charlton Heston), que anda cheio de problemas. O negócio anda fraco, e para piorar, um empresário inescrupuloso e meio gangster, Mr.Henderson (Lawrence Tierney, 1919-2002) quer comprar o circo abaixo do preço. A namorada de Brad, a trapezista Holly (Betty Hutton, 1921-2007), entende que a preocupação dele é fazer o espetáculo continuar e se consagrar exclusivamente para o trabalho. Entretanto, quando Brad resolve contratar outro trapezista, o astro francês “O Grande Sebastian” (Cornel Wilde, 1915-1989) para substituir Holly no picadeiro central, esta não aceita. 

O ousado e arrogante trapezista Sebastian...
Que sofre uma queda quase fatal, que o deixa com o braço paralisado, acudido por Brad e Buttons.
Angel e o domador Klaus, que tem pela
artista uma paixão não correspondida.
Arrogante e ousado, Sebastian acaba sofrendo uma dramática queda, e Holly fica a balançar o coração por ele e Brad. Toda essa atuação é explorada pela domadora de elefantes Angel (Gloria Grahame, 1924-1981, em papel destinado a Lucille Ball, que desistiu porque engravidou), que também cobiça Brad. Isso vem a provocar ciúmes no treinador Klaus (Lyle Bettger, 1915-2003).  Este acaba sendo demitido por Brad. Outra trama paralela envolve o palhaço Buttons (James Stewart, 1908-1997), na realidade, um médico que nunca tira sua maquiagem, pois é procurado por um agente do FBI (Henry Wilcoxon, 1905-1984) pelo crime de eutanásia (matou a própria mulher que sofria de uma doença incurável).  


Holly se sente atraída por Sebastian,
mesmo amando Brad.
O terrível desastre de trem onde viajavam
todos os artistas do circo.

Entre os feridos, Brad se encontra em estado
mais grave, e precisará de uma transfusão
de sangue.
Ambas as tramas paralelas tem um fim em comum: um espetacular desastre de trem, justamente o trem que conduz o circo, desastre este provocado pelo ex-adestrador de elefantes Klaus, que tem morte trágica. Este acidente vem a provocar a descoberta da verdadeira identidade do palhaço Buttons, quando se percebe que ele é o único médico para atender os feridos, entre os quais se encontra Brad. 

Sabendo do passado de Buttons, um outrora
médico que matou a esposa por eutanásia e
que esta sendo procurado pelo FBI, Holly
implora ao amigo que salve a vida de Brad.
Na metade da década de 1960, James Stewart voltou a se maquiar como Buttons, em um evento beneficente. Notem atrás do ator o poster do filme A História de Dr. Wassell, filme dirigido por Cecil B.DeMille.


Esta obra de Cecil B.DeMille apresentou um dos grandes desastres de trem em toda a história das telas, somente equiparado à outra superprodução, A Conquista do Oeste (How The West Was Won), em 1962. Embora o Western dirigido por John Ford, Henry Hathaway, e George Marshall, usou trens reais para as cenas de ação, O Maior Espetáculo da Terra usou de modelos de miniaturas pertencentes ao diretor, hoje um tanto ineficaz, mas para a época foi de impressionar. Como em todos os filmes do diretor, não é a história que conta e sim o espetáculo, e o cineasta conseguiu construir um em 2 horas e 32 minutos de duração, bem ao gosto da típica família americana dos anos de 1950 (o espectador de hoje deve assistir como se transportasse para este tempo. Muitos padrões de moralidade e conduta vieram a desabar, e o público era outro).
O Famoso palhaço norte-americano Emmett Kelly.
Os palhaços Buttons e Emmett.
Buttons fazendo a alegria da criançada.
Foi o último filme que DeMille fez em três tiras de Technicolor. No entanto, em termos de realidade cinematográfica, é uma impressionante nota de rodapé. Uma câmera dirigível de DeMille era do tamanho de uma mesa. O “garoto” Charlton Heston, como era carinhosamente chamado pelo diretor, lembrou o que certa vez DeMille lhe disse: "Você estará realmente empreendendo algo se você fizer um take de rastreamento com um daqueles bebês (as câmeras)".A película é recheada de grandes astros e com artistas de circo de verdade, como o maior palhaço americano Emmett Kelly (1898-1979), e entre os espectadores do circo estão Bing Crosby (1904-1977) e Bob Hope (1903-2003), e no picadeiro, o cowboy Hopalong Cassidy, vivido por William Boyd (1895-1972), amigo pessoal de DeMille.  Enfim, todo o filme é perfeito, graças à direção e a atuação dos atores, principalmente Jimmy Stewart, que como o dramático palhaço faz lembrar uma pintura viva de aquarela, que aparece sempre como uma pincelada de vermelho. 

DeMille e William Boyd, o famoso Hopalong
Cassidy, que aceitou o convite para uma
pequena participação.
O filme em divulgação nas grandes salas
do Rio de Janeiro, na metade dos anos de
1950.



E certamente, DeMille nos legou uma grande obra, um filme sensacional que veio a marcar não somente sua carreira, mas que com o Oscar conquistado por melhor filme, marcou no cineasta uma vitória extraordinária em sua vida. O Maior Espetáculo da Terra pode assim ser definido como arte cinematográfica e como espetáculo. Música de Victor Young (1900-1956). 

FICHA TÉCNICA

O MAIOR ESPETACULO DA TERRA

(THE GREATEST SHOW ON THE EARTH)

Ano de Produção: 1952

País: Estados Unidos

Direção: Cecil B. DeMille

Produção: Cecil B. DeMille e Henry Wilcoxon, para a Paramount.

Argumento: Fredric M. Frank, Theodore St. John, Frank Cavett.

Roteiro: Fredric M. Frank, Barré Lyndon, Theodore St. John.

Fotografia: George Barnes – em Cores

Montagem: Anne Bauchens

Direção de Arte: Hal Pereira e Walter H. Tyler

Figurinos: Edith Head, Dorothy Jeakins, e Miles White

Música: Victor Young

Metragem: 152 minutos

ELENCO

Betty Hutton – Holly

Cornel Wilde – O Grande Sebastian

Charlton Heston – Brad Braden

James Stewart – Palhaço Buttons

Dorothy Lamour – Phyllis

Gloria Grahame – Angel

Henry Wilcoxon – Agente Gregory, FBI

Lyle Bettger – Klaus

Lawrence Tierney – Mr. Henderson

Emmett Kelly – ele mesmo.

John Kellogg – Harry

Frank Wilcox – Médico da trupe

Lillian Albertson – Mãe de Buttons

Julia Faye – Birdie

PARTICIPACOES ESPECIAIS

Bing Crosby, Bob Hope, William Boyd (Hopalong Cassidy), e CECIL B.DeMILLE como narrador.

PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES
As Maiores Trilhas Sonoras da Sétima Arte, e em todos os tempos!
Você somente encontra no 
CINE  VINTAGE..
Todos os domingos, às 22 horas.
SINTONIZE A WEB RÁDIO VINTAGE: 
REPRISE DO PROGRAMA NAS
QUINTAS FEIRAS (22 horas)
SÁBADOS (17 HORAS)