sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Lutador de Rua – Um Pungente Retrato da Depressão Americana.


Um eloquente perfil da América da Depressão da década de 1930. Assim se trata a obra de Walter Hill Lutador de Rua (Hard Times), produzida em 1975 e estrelada por Charles Bronson (1921-2003), que aos 54 anos, esbanja plena forma física (e também uma ótima atuação) na pele Chaney, um dos tantos desafortunados que embarcam num trem para Nova Orleans. Lá, no lado mais pobre da cidade, ele tenta ganhar dinheiro rápido da única maneira que conhece, com os seus punhos demolidores. Chaney se aproxima de um empresário fracassado, Speed (James Coburn, 1928-2002) e o convence que pode ganhar um bom dinheiro para ambos.

Charles Bronson é Chaney, o Lutador
A Depressão construiu um país de homens desempregados (havia nos Estados Unidos mais 16 milhões de desempregados só em 1933, 27% de toda força de trabalho do país). A América do Norte, a então conhecida "Terra da Oportunidade", era um lugar de ilusões perdidas e sonhos impossíveis. Para sobreviver, era preciso ser cínico e verdadeiramente pessimista, recorrendo às malandragens e ao cambalacho para tirar vantagem dos indigentes e fracassados.

Chaney (Bronson) e seu empresário Speed (James Coburn)
Chaney pronto para a luta!
O cineasta Walter Hill estreou na direção desta fita que retrata um país com clima de impiedade e desencanto de uma nação, sem ideais ou esperanças. Logo, cada homem deveria sobreviver a sua maneira, e se debruçar sobre as mais primitivas formas de lutar pela vida, uma luta desesperada ante a violação dos direitos humanos por uma engrenagem social aviltante (Paulo Perdigão, sobre o filme em sua coluna para a Revista da Tv, em 19/12/1982).


O cenário do filme é a América decadente, e o local, os cortiços imundos onde se apresentavam os "lutadores de rua", produto de uma sociedade sem expectativa, com homens fracassados e derrotados que pelo meio se convertiam em heróis, e na maioria das vezes, sem saber fazer qualquer outra coisa na vida, executavam as maiores façanhas, que eram atos vãos aos olhos dos espectadores e admiradores do pugilato. Aliás, estes, recorriam às apostas, e como num verdadeiro circo romano, pediam ação e sangue.

Speed, um empresário inescrupuloso e apostador

Eram combates aparentemente gratuitos e carregados de violência e sadismo que assumiam proporções homéricas. Entretanto, é desta pungente ação que vem a nascerem os heróis sem compostura, que não ligam para o bem ou o mal, o certo e o errado, e que tudo que tiver que acontecer, aconteceu e pronto. Não creem em nada, e só o que basta é viver o presente. Heróis como Chaney, vivido energicamente por Bronson, que conseguem proferir palavras desiludidas e cometem atitudes desacerbadas, onde é arrancado um sopro de odisseia sombria e de realismo profundamente trágico.


Chaney, e seus punhos demolidores.
"Não há razão para isso, é apenas dinheiro!" - diz Chaney, um lutador de meia idade vivido por Charles Bronson com seu peculiar semblante monolítico. Aliás, o ator esta perfeito no papel principal, graças a sua fama de taciturno e vigorosa presença, que foi desenvolvendo em diversos thrilers dirigidos por Michael Winner (Renegado Impiedoso, 1971; Assassino a Preço Fixo, 1972; Jogo Sujo, 1973; Desejo de Matar, 1974).

Arquétipo do herói americano por excelência é um solitário sem raízes e sem rumo, errando de cidade em cidade em busca de empresários que queiram testar seus punhos de aço.

O empresário "de luxo" Gandil (Michael McGuire) e seu lutador, o Homem Macaco Jim Henry (Robert Tessier)
O "bom vigarista" Poe (Strother Martin), um "médico sem diploma"
O diretor Walter Hill havia sido roteirista, e desenvolveu um drama de magnífica densidade e rigorosa simetria, e Chaney chega a Nova Orleans com toda garra afirmando ser o maioral, convencendo Spencer "Speed" Weed (Coburn), seu empresário, que é imbatível. Speed é acessorado por um "médico sem diploma", Poe (Strother Martin, 1919-1980), que passa a arranjar lutas para Chaney. Mas Gandil(Michael McGuire), poderoso empresário, que administra Jim Henry (Robert Tessier, 1934-1990), campeão local, exige três mil dólares em aposta de Speed para que Chaney enfrente Henry na arena, disputando o título.

Chaney num combate romano contra Jim Henry. Chaney é o vencedor.
Entretanto, Speed, um apostador nato, vai comprometer seriamente sua própria vida, ao recorrer à ajuda do gangster Le Beau (Felice Orlandi, 1924-2003), que lhe empresta dinheiro para que Speed aposte contra Gandil.


A última luta, contra Street (Nick Dimitri), para salvar Speed
Quando chega a noite do grande espetáculo, Chaney parte com tudo para cima do musculoso Jim Henry, sem a técnica e a agilidade do maduro pugilista, que derrota o campeão local. A contragosto, Gandil paga a Speed a aposta. Entretanto, este se dedica a gastar em mesas de jogos os dólares produzidos pela invencibilidade de Chaney, e a máfia liderada por Le Beau começa a perseguir o empresário. Mas no fim, caberá a Chaney decidir pela salvação de Speed, numa ação extrema, quando tem de lutar pela última vez com Street (Nick Dimitri) , um homem de extrema força em uma luta sem regras ou juiz.


Em situação paralela, corre uma efêmera ligação amorosa entre monossilábico e saudoso Bronson (que ganhou um milhão de dólares por sete semanas de filmagem, e preparação física para o papel em cinco meses) e sua mulher na vida real, Jill Ireland (1936-1990)no papel de uma mulher solitária e sem afeto, Lucy Simpson. Originariamente em Panavision.


FICHA TÉCNICA
LUTADOR DE RUA
Titulo Original: Hard Times
Gênero: Ação / Drama
Ano/Pais: 1975 / USA
Duração: 88 Minutos
Direção: Walter Hill 
Elenco:
Charles Bronson ... Chaney
James Coburn ... Speed
Jill Ireland ... Lucy Simpson
Strother Martin ... Poe
Margaret Blye ... Gayleen Schoonover (as Maggie Blye)
Michael McGuire ... Gandil
Felice Orlandi ... Le Beau
Edward Walsh ... Pettibon
Bruce Glover ... Doty
Robert Tessier ... Jim Henry
Nick Dimitri ... Street
Frank McRae ... Hammerman
Maurice Kowaleski ... Caesare (as Maurice Kowalewski)
Naomi Stevens ... Madam
Lyla Hay Owen ... Waitress

Produção e pesquisa: paulo telles

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Em tempo
In memorian
 
ODETE LARA
(1929-2015)

Morreu no Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro, aos 85 anos, a atriz Odete Lara. Musa do cinema novo, Odete trabalhou em dezenas de filmes, além de lançar um disco com músicas de Vinicius de Moraes e três livros autobiográficos. Filha de imigrantes italianos, a atriz nasceu em São Paulo, em 1929, como Odete Righ, herdando o sobrenome da mãe, devido ao fato de seu pai já ser casado.


Odete também foi escritora, tendo publicado três livros autobiográficos, Eu Nua, Minha jornada interior e Meus passos na busca da paz, além de haver traduzido várias obras do budismo.

Foi também atriz de teatro, iniciando no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), mas dizia não gostar do teatro por não suportar sua timidez. Estreou nos palcos com Santa Marta Febril S/A, contracenando com Walmor Chagas.


Se no teatro Odete não se dava, nos cinemas ela se destacou. Fez 32 filmes entre 1956 e 1979. Estreou ao lado de Mazzaropi até se tornar musa do cinema novo, com destaque para o polêmico Noite vazia (1964), de Walter Hugo Khouri, e o premiado O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), de Glauber Rocha. Odete foi premiada no Festival de Gramado por sua contribuição ao desenvolvimento do cinema brasileiro e ganhou o prêmio APCA em 1975 pelo conjunto da obra.



Ela estava no auge da carreira cinematográfica quando decidiu abandoná-la protagonizando o movimento que sentiu ser vitima durante sua vida. Exilou-se em Nova Friburgo, onde passou a se dedicar ao budismo, ocupando seu tempo com meditação, ioga, leituras, tradução de livros e escrita. Seu último longa-metragem, em 1979, foi O principio do prazer.




LIZABETH SCOTT
(1922-2015)
  
Com Humphrey Bogart: CONFISSÃO (1947)

Morreu a atriz Lizabeth Scott, uma das mais perigosas femme fatales do cinema noir, estrela de clássicos do gênero como “Confissão” (1947), “Estranha Fascinação” (1948) e “Cidade Negra” (1950). Ela morreu de insuficiência cardíaca em 31 de janeiro, aos 92 anos em Los Angeles.


Lizabeth Scott nasceu em 29 de setembro de 1922, na cidade de Scranton, Pensilvânia, com o nome de batismo Emma Matzo. Ela estudou atuação na escola Alvienne School of Drama em Nova York, mesmo contra a vontade dos pais. A jovem escolheu o nome artístico Elizabeth Scott e logo depois tirou a letra “E”, para ter um nome mais distinto em meio a tantas atrizes que tentavam a sorte como ela. A sua beleza chamava atenção. Loira, com sobrancelhas escuras, feições compenetradas e voz rouca, Scott lembrava uma combinação de duas divas do cinema noir, a provocante Lauren Bacall (“À Beira do Abismo”) e a loiraça Veronica Lake (“A Dália Azul”). Sua carreira foi marcada por essa comparação, arrastando-a para as sombras do gênero, vivendo mulheres perigosas demais para si mesmas.

Com Robert Mitchum: A ESTRADA DOS HOMENS SEM LEI
Em “Confissão” (Dead Reckoning, 1947), a atriz trabalhou com o maior nome do noir, o astro Humphrey Bogart, marido de Bacall. Na trama, ele interpreta um militar veterano que investiga a morte de um amigo e acaba se envolvendo com a amante do falecido (Scott). Numa reviravolta, ela se prova mais fatal que a encomenda, tentando matá-lo num final trágico.

Com Charlton Heston e Dean Jagger: CIDADE NEGRA
Entre Van Heflin, Barbara Stanwyck e Kirk Douglas: O TEMPO NÃO APAGA.
Lizabeth era considerada uma das musas do cinema noir, dos anos de 1940 e 1950, onde atuou em clássicos como O Tempo Não Apaga (The Strange Love of Martha Ivers, 1946), ao lado de Barbara Stanwyck , Kirk Douglas (em seu primeiro filme) e Van Heflin , onde viveu uma mulher sedutora presa por engano. Ainda atuou nas obras A Filha da Pecadora (Desert Fury, 1947), ao lado de Mary Astor e Burt Lancaster; Tormento de uma Glória (Easy Living, 1949), onde fez uma “maria chuteira” que abusava de seu marido Victor Mature; Cidade Negra (Dark City, 1951), onde foi registrado o primeiro filme de Charlton Heston. A Estrada dos Homens Sem Lei (The Racket, 1951), onde ela interpretou uma cantora que enfrenta o chefe do crime organizado vivido por Robert Ryan, ao lado de Robert Mitchum.

Com Elvis Presley: A MULHER QUE AMO 
Nos demais gêneros, Lizabett atuou no Western O Último Caudilho (Red Mountain, 1951), ao lado de Alan Ladd; na comédia Morrendo de Medo (Scared Stiff, 1953) que foi um dos filmes que mais gostou de fazer, ao lado da dupla Dean Martin & Jerry Lewis; novamente com Charlton Heston em Ambição que Mata (Bad for Each Other, 1953), como uma milionária divorciada que deixava os homens sem direção; e até um filme com Elvis Presley, o clássico A Mulher que amo (Loving You, 1957), dirigido por Michael Curtiz, ao lado de Wendell Corey e Dolores Hart, onde Lizabeth era a empresária do novato cantor vivido por Elvis e que também o amava.

Lizabeth Scott em 2011, aos 89 anos.

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8 comentários:

  1. Escrevi sobre este filme no mês passado.

    É um filme duro, quase seco, sendo um dos melhores trabalhos de Charles Bronson, que não demonstrava os cinquenta e poucos anos que tinha na época.

    Abraço

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    1. É verdade Hugo. Um retrato pungente da depressão dos anos 1930.

      Abraço do editor.

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  2. Preciso ver esse filme. Gosto do James Coburn.

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  3. Mais um grande trabalho, meu nobre amigo!
    Nada a acrescentar, pois quando assisti, na época do seu lançamento, no Cine Ipiranga, eu não gostei. Talvez porque eu esperasse mais. Vou assistir novamente para melhor reavaliar. Quem sabe eu mude de ideia.

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  4. Telles,

    Não vou aqui falar mal do Bronson ou do Hill, pois sei que são amados por muitos seguidores, além de em algum momento de suas vidas terem construido alguma coisa que ficou. Exemplo: Sete Homens e Um Destino/60 para o Bronson e Cavalgada dos Proscritos/80, para o Hill.

    Não conheço este filme do Bronson que, apesar de não ser muito amante de seu trabalho, assisti a mais de 70% do que fez.

    Porém, de fato, e coisa que não se pode esquecer, foram aqueles anos nos EUA.
    Eles foram verdadeiramente anos muito dificeis e que sua população fazia o possivel e o impossivel para sobreviver, o que é o caso da trama central desta fita com o Bronson.

    No entanto, assisti a um outro filme dentro do mesmo gênero, embora não me recorde se o mesmo se passou dentro do mesmo período do filme do Hill, com o Eastwood, intitulado Punhos de Aço/80, do Van Horn, e que adorei, por toda movimentação da fita e pelo carisma eterno do Clint.

    Uma verdade, naturalmente que sem o desejo de critica-lo profundamente, é que o Hill nunca foi um diretor de se sobressair por qualidades outras em seus filmes senão por um diretor que sempre fazia fitas de ação e até agradáveis de ver. Mas, jamais foi um diretor de grande destaque no mundo cinematográfico.

    O Bronson aquela paradeira de sempre. O homem parecia que não tinha movimentos senão quando o diretor dizia "ação" e então ele se despojava de sua natural inércia e fazia alguma coisa.

    Mas nunca foi este um astro verdadeiramente dito, um ator de primeira ou até de segunda linha.
    Não. Não era talentoso, não escolhia seus trabalhos (claro, porque não tinha qualidade para isso) fazendo o que lhe caía nas mãos.

    Algumas vezes pegou um outro diretor de renome e fez alguma coisa aproveitavel.
    Entretanto, na maioria das vezes era um astro sem luz, sem percepção do que é ser um ator, coisa que, de fato lamento expor, jamais o foi.

    Os amantes do cinema gostam de seus filmes. Principalmente pelo fato de serem sempre filme de ação, genero mais apreciado pela maioria.
    Porém, em termos de uma cinematografia propriamente dita, jamais o Bronson foi chamado para interpretar um papel de poder.

    Isto porque não apenas a critica o conhece como um profissional sem muitos recursos, como também os grandes profissionais da arte de criar cinema.

    Lamentar aqui, novamente, a viagem da adorável e muito querida, por mim, Odete Lara, com a qual vi filmes demais, e fitas onde ela mostrava que tinha talento e que lhe aproveitavam sempre muito bem.

    Quanto à Lizabeth Scott, que apenas conheci de nome, fica também o meu lamento e dor por nos deixar.
    Mas estes instantes fazem parte da vida e o temos de aceitar, gostemos ou não da ocasião.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Estranho como vc e nosso querido amigo José Eugenio ainda não assistiram a este filme, que realmente, não é nada otimista. Charles Bronson conseguiu o seu status de astro de cinema só ao fim da década de 1960, após filmar com Leone ERA UMA VEZ NO OESTE. Isto porque em terras europeias Bronson conseguiu mais popularidade do que nos Estados Unidos e era tido como um ícone e uma referência de astro de ação, a partir do PASSAGEIRO DA CHUVA, em 1969. Quando voltou para os EUA, a carreira de Bronson já estava alavancada, que durou quase até o fim de sua vida. De fato, ele tinha um modo de interpretação, não era um bom ator aos moldes de Burt Lancaster, que esbanjava versatilidade em qualquer papel que pegasse, mas Bronson só conseguiu mesmo ser associado apenas a uma característica: a de um homem lacônico, durão, taciturno, e que só fazia justiça à bala, como o vimos em toda série DESEJO DE MATAR, iniciada por Michael Winner em 1974. Não diria que os amantes do cinema que gostam de seus filmes, mas com certeza os amantes dos filmes de ação o prestigiam.

      O filme PUNHOS DE AÇO, estrelado por Clint Eastwood em 1980 é sequência de DOIDO PARA BRIGAR, LOUCO PARA AMAR, de 1978, e já se trata de uma comédia de aventuras, onde Clint fazia até mesmo uma alusão a Tarzan, pois vivia andando com um orangotango que nos dois filmes estava desempenhando a função da Chita (risos).

      Abraços do editor

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  5. Grande Postagem.
    Parabéns pelo trabalho.

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    Respostas
    1. Obrigado pela visita, parceiro Sanches, do blog BANG BANG A ITALIANA NO BRASIL. Abraços deste editor.

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