quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Marca da Maldade: Orson Welles e o Último dos Clássicos "Noir" do Cinema.


Um magnífico estudo acurado sobre a natureza perversa do ser humano. Orson Welles (1915-1985) realiza de forma inteligente uma palestra em seus 106 minutos de projeção (versão remontada) na obra A Marca da Maldade (Touch of Evil) de 1958. Aliás, atuando também como ator no papel de Hank Quinlan, um policial pungente e corrupto que ele interpreta de forma soberba, traduzindo um resumo de tudo que Welles tem a pretensão de sugerir ao espectador, mais especificamente em relação às incoerências, hipocrisias, e contradições, que envolvem a natureza humana. Também assinala o retorno deste big cineasta a Hollywood após nove anos de ausência. A fita teve cenas acrescentadas e montagem adulterada pela Universal à revelia do diretor.

Em 1999, foi realizada uma remontagem segundo as intenções do cineasta (que falecera em 1985) e deixadas para herdeira do diretor, Rebecca Welles*1. Charlton Heston e Janet Leigh (na foto acima) estiveram presentes na cerimônia de lançamento que foi exibida especialmente por ocasião dos 40 anos da estréia da obra. Foi o próprio astro de Ben-Hur e Os Dez Mandamentos, quem sugeriu a Universal Pictures para que Welles assumisse a direção (anteriormente, Welles só atuaria como ator)*2. Em verdade, o estúdio teve medo, mas Welles cumpriu o tratado e realizou a obra no tempo certo dentro do orçamento estabelecido. Mas mesmo assim, a Universal mexeu no filme. Amigos de longa data de Welles participam da fita, alguns até não creditados. Participam Zsa Zsa Gabor como a dona do bordel, Keenan Wynn, Jospeph Cotten, e despontando Dennis Weaver (1924-2006) improvisadamente por instigação de Charlton Heston, no papel do atrapalhado e bitolado empregado do hotel.

Welles tinha apenas 41 anos quando desempenhou o papel do obeso policial Hank Quillan, e como se não bastasse, ainda usou uma maquiagem bem pesada. Numa das ultimas cenas, justamente em que seu personagem morre, Welles sofre um real acidente ao cair do rio e fraturar o braço. Janet Leigh também não teve tanta sorte, pois filmou Touch of Evil quando havia quebrado o braço esquerdo durante um programa de TV e passou grande parte da filmagem escondendo o problema.


Numa pequena cidade de fronteira mexicana, um vulto coloca uma bomba-relógio na mala de um conversível, fugindo em seguida. Um insuspeito e rico americano, Rudi Linnekar, e sua namorada, uma dançarina de strip-tease, entram no conversível e se dirigem à fronteira com os EUA.

Quando o conversível para no Posto de Fiscalização, chega também, a pé, Ramon Miguel 'Mike' Vargas (Charlton Heston), um honrado e incorruptível investigador mexicano do Departamento de Narcóticos, em companhia de sua bela mulher americana, Susan Vargas (Janet Leigh, 1927-2004), casados há poucos dias, que estão naquele momento curtindo a lua de mel.

Pouco depois de entrar em território americano, o conversível explode, matando seus ocupantes. Mike, Susan e outras testemunhas correm, juntamente com a polícia, até o local da explosão. O promotor Adair (Ray Collins,1899-1965) também chega naquele momento, criticando o fato de Hank Quinlan (Welles, sempre magistral!), um gordo policial malquisto da corporação e considerado um corrupto capitão de polícia texana, não ter aparecido. Vargas pede à esposa que para o hotel, e oferece seu apoio não oficial ao caso, como testemunha. Assim, planeja ir à Cidade do México como testemunha de acusação no julgamento de Grandi, um traficante de drogas que ajudara a colocar na prisão.


Enquanto isso, Susan é abordada por Pancho (Valentim de Vargas), um criminoso que a leva à presença do irmão de Grandi, “Tio” Joe Grandi (Akim Tamiroff, 1899–1972). Este a ameaça, com uma arma e um charuto aceso que quase a queima na boca, dizendo-lhe que o marido tem que ficar de fora do julgamento do irmão. Ela o lembra que, a essa altura, seu marido já deve estar à sua procura.

De volta ao hotel, Vargas encontra Susan, que acabara de chegar de seu encontro com “Tio” Grandi. Por questões de segurança, sugere que ela siga logo para a Cidade do México, onde ficará a aguardar pelo marido. Ao sair do hotel, Vargas é atacado por um jovem da gangue de “Tio” Grandi, que tenta lhe jogar ácido no rosto, mas Vargas se defende e sai ileso.


Quinlan e seu parceiro “sócio”, o Sargento Pete Menzies (Joseph Calleia, 1897–1975), juntamente com outros policiais, sob o pretexto de investigarem a explosão, vão até o Clube de Strip-Tease, onde conversam com a proprietária. Ao sair de lá, Quinlan vai ao bordel de Tanya (Marlene Dietrich, 1901-1992), sua antiga amante, onde lhe pergunta se ouviu alguma coisa a respeito do atentado à bomba, prometendo-lhe voltar mais tarde.

Na manhã seguinte, “Tio” Grandi planeja envolver Susan num crime de sexo e drogas, a fim de forçar Vargas a desistir de testemunhar contra seu irmão preso. Quinlan sugere a investigador mexicano que Susan estará mais segura no Motel Mirador, no México. Logo, Vargas aceita a sugestão sem saber que o Motel é de propriedade de Grandi.

Juntamente com Vargas, Quinlan procura Manolo Sanchez (Victor Millan, 1920-2009), um antigo empregado de Linnekar e amante da filha deste, Marcia (Joanna Moore, 1934-1997). Quinlan diz que Sanchez tinha motivos para acabar com a vida de Linnekar. Assim, Vargas sai por um instante, a fim de telefonar para Susan e, ao voltar, percebe que Quinlan forjou evidências que podem incriminar Sanchez.


Ao verificar que Vargas percebeu que as evidências foram forjadas, Quinlan procura “Tio” Grandi, já que ambos querem vê-lo longe do caso.

Enviados por “Tio”Grandi e sob a orientação de Quinlan, Pancho e seu grupo chegam ao Motel para aterrorizar Susan. Depois de cortarem sua linha telefônica, uma das líderes do grupo (Mercedes McCambridge, numa participação não creditada, no papel de lésbica) ameaça abrir a porta com uma chave-mestra para uma noite de orgias com drogas.



Vargas começa, por conta própria, a investigar Hank Quinlan, determinado a mostrar que ele forjou evidências contra Sanchez. Menzies procura Quinlan para lhe falar das intenções do investigador mexicano. Com isso, Quinlan corre até o hotel onde Vargas conversa com o promotor, e ao chegar lá, zomba do investigador mexicano, ao mesmo tempo em que o promotor, possivelmente com medo e ponta de puxa-saquismo, diz ter certeza de que Quinlan é um policial correto.

No Motel, Susan é drogada. Como parte do plano de “Tio” Grandi, ela é raptada e levada inconsciente para um apartamento do Hotel Ritz, de sua propriedade, onde é deixada semi-nua numa cama, ao lado dos restos de entorpecentes. Quinlan força “Tio” Grandi a telefonar para a polícia e dizer a Menzies que as autoridades podem encontrar Susan, a esposa do honesto policial Ramon Vargas, drogada no Hotel Ritz, com intenção de desmoralizar tanto a conduta do investigador mexicano quanto a integridade moral de sua esposa. Em seguida, o corrupto Quinlan mata o asqueroso “Tio” Grandi.


Al Schwartz (Mort Mills, 1919-2003) avisa Vargas que sua esposa encontra-se presa, acusada de envolvimento com drogas e de ter cometido um assassinato. Por outro lado, convencido de que Hank Quinlan tem a ver com o ocorrido, Menzies alia-se a Vargas para desmascará-lo.

O plano de Vargas consiste em Menzies usar um microfone escondido para gravar uma conversa com Quinlan que possa definitivamente incriminá-lo. Menzies consegue gravar a conversa, como planejado, mas é descoberto por Quinlan, que até aquele momento havia sido seu melhor amigo, e é morto por ele.


Vargas que vinha seguindo os dois, aparece de repente para capturar o gordo Quinlan, mas este aponta a arma em direção ao investigador mexicano, mas, embora mortalmente ferido, o ex "sócio" Menzies consegue matar o capitão de polícia corrupto. Schwartz chega com Susan num carro e corre para o local onde se acham Menzies e Quinlan, já jazigos ao chão. Vargas abraça sua mulher dizendo-lhe que, afinal, está tudo acabado. No último momento, chega ao local também Tanya, que já pressentindo o final de seu ex-amante, de certa forma vem a lamentar seu fim ao promotor Schwartz.

Num primeiro plano, o filme parece seguir algumas das mais básicas características dos filmes policiais noir da RKO: fotografia com ampla definição de claro e escuro; um crime como ponto de partida o desenrolar da trama e as investigações que se desenvolvem acerca delas; ambientes decadentes e imundos; imoralidade e corrupção; e cenas preferencialmente noturnas, permeiam toda a composição estética da obra.

Mas contrapondo entre outros clássicos noir, esta magnífica obra de Welles tem como protagonista um policial mexicano honesto que coloca a lei acima de tudo e interpretado muito bem por Charlton Heston, contudo um herói clássico que inexiste em outras produções ao estilo onde os “mocinhos” interpretados por Robert Mitchum, Humphrey Bogart, ou Robert Ryan, eram heróis atormentados que ainda assim desafiavam o sistema. Outro detalhe muito interessante de praxe nas fitas policiais noir são as femme fatale, a mulher que acaba seduzindo e atrapalhando a vida do personagem principal, onde aqui em A Marca da Maldade não existe. Mesmo assim, é considerado o último dos clássicos noir de Hollywood.


A Trilha Sonora de Henry Mancini (1924-1994) que veio até a se tornar um referencial ao estilo dos velhos filmes policiais, tem papel fundamental, uma vez que ela molda algumas cenas, participando delas ativamente, atuando como uma importante ferramenta de continuidade que claramente situa o espectador na trama.

Um filme sem dúvida com diálogo inovador para o público do final da década de 1950, que eram consideradas até então um tabu para o cinema norte-americano, mesmo com o Código Hayes estando já naquele tempo perdendo sua eficácia. Vemos palavras como baseado, entorpecentes, picada, entre outras que fazem parte do vocabulário dos viciados.

A versão proposta por Welles talvez seja um pouco mais direta e clara (onde não contava a trilha de Henry Mancini, introduzida pelo estúdio, que não sai nada mal), além da fotografia claro-escuro quase expressionista, os cortes abruptos, e o uso de câmera na mão. Com todos estes recursos dentro do baixo orçamento previsto para produção, Welles oferece ao mundo uma obra B de primeira (B = baixo orçamento) com requintes de produção Classe A, que se tornou uma das películas mais admiradas e assistidas em todos os tempos ao longo de mais de 50 anos de seu lançamento, com um tema bem pertinente ainda nos dias de hoje. Uma fita de referencia até mesmos para cineastas e críticos modernos, que consideram A MARCA DA MALDADE como um dos melhores trabalhos de Orson Welles, que se impõe como uma de suas obras de impacto técnico estarrecedor, reveladora de rara volúpia criativa em seus efeitos de câmera, som, e edição. Sem dúvida, um dos filmes capitais da moderna linguagem do cinema.



*1-No canal Telecine Cult foi exibida o Making Of do filme, ao contrário do lançamento em DVD, que foi proibido pela filha de Welles, Rebecca (com Rita Hayworth), herdeira do cineasta.
*2- Segundo site IMDB

A MARCA DA MALDADE – FICHA TÉCNICA
Título original: (Touch of Evil)
Lançamento: 1958 (EUA)
Direção: Orson Welles
Elenco
Orson Welles .... Capitão Hank Quinlan
Charlton Heston .... Ramon Miguel Vargas
Janet Leigh .... Susan Vargas
Joseph Calleia .... Sargento Pete Menzies
Akim Tamiroff .... "Uncle Joe" Grandi
Joanna Cook Moore .... Marcia Linnekar
Marlene Dietrich .... Tanya
Victor Millan .... Manelo Sanchez.
Duração: 95 min (lançamento em 1958)- 106 minutos (versão do diretor lançado em 1999 e lançado em DVD)
Gênero: Policial/Noir

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Polêmica Visita de Ava Gardner ao Rio de Janeiro, em 1954

Já se passaram mais de 50 anos quando o “animal mais belo do mundo” de acordo com as palavras de Jean Cocteau (1889-1963), poeta e cineasta francês, a diva eterna Ava Gardner (1922-1990) passou um período aqui na cidade em que vivo. Claro que eu ainda não viera ao mundo, no entanto, tal passagem deixou registros muito importantes, que nem mesma a atriz descartou em sua autobiografia Ava-My Story, que foi aqui lançada no Brasil pela Editora L&PM, um ano depois da morte de Ava, em 25 de janeiro de 1990.

Entretanto muitos registros da passagem da atriz na cidade maravilhosa ainda são controversos. De um lado, histórias populares do julgo dos cariocas e artistas que testemunharam os rompantes da diva. De outro, de comentários a respeito que levam a um cantor brasileiro e famoso na época, que teria “negado fogo” à estrela. E de outro, a própria Ava a declarar o que ocorreu propriamente, em sua estadia aqui em 1954, de acordo com sua autobiografia publicada pouco depois de sua morte.

Ava Gardner, considerada a mais espetacular estrela de Hollywood daquela época, havia chegado ao Rio da Janeiro em 1954 trazida pela United Artist, para divulgar seu filme mais recente, A Condessa Descalça (The Barefoot Contessa), de Joseph L. Mankiewicz (1909-1993). Ava no esplendor dos seus 34 anos, já havia cunhado o epíteto promovido por Jean Cocteau, que a perseguiria pelo resto de sua tumultuada vida.


Foi pouco depois do suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto do mesmo ano e os agentes da atriz até temiam que uma revolução pudesse eclodir em nosso país. Entretanto, o tumulto que de fato ocorreu foi de outra ordem. Quando Ava chegou ao aeroporto do Rio, a multidão que a aguardava quebrou a barreira policial e invadiu a pista. A passagem de Ava Gardner pelo Rio de Janeiro foi muito tumultuada, ela reclamou das "mãos-bobas" no Galeão. Quando a atriz finalmente conseguiu chegar a um táxi, o carro não conseguiu partir, então ela teria batido na cabeça do motorista com seu sapato.

Evidentemente, e como não pôde deixar de ser, houve muitas euforias por parte do público masculino. Muito dona de si, a estrela detestava o elogio, clichê constante nos textos dos jornalistas pouco informados e menos criativos. Mas o Rio de janeiro, que até hoje, de forma provinciana recebe artistas menores como deusas estava literalmente aos pés da grande e verdadeira estrela do cinema internacional.


Conta-se que o Hotel que ela ficaria hospedada e a qual haviam os agentes reservado para atriz, o Hotel Glória, na região que saí do Centro da Cidade Maravilhosa em direção á Zona Sul, Ava não teria gostado das instalações, e imediatamente, exigiu ser hospedada no famoso Copacabana Palace.

Numa discussão com o gerente do primeiro hotel, bebidas foram atiradas ao chão, e segundo o que se chegou à imprensa, ela teria quebrado objetos no hotel. Ava, como toda prima dona, era realmente temperamental, acabando por ser a protagonista de um fantástico barraco no famoso Hotel Glória ou porque bebeu demais, ou porque não gostou da suíte que recebeu, ou mais provavelmente pelos dois motivos. Seja como for, foi o que se divulgou durante muito tempo, com ares de boatos, dúvidas, e incertezas, mesmo considerando o temperamento forte da atriz.


Mudando para o Copacabana Palace, onde o playboy Jorginho Guinle (1916-2004), um dos donos do hotel, que costumava receber com todas as mordomias as estrelas do cinema americano com o intuito de levá-las para a cama, mais pelo desfrute da fama do que pelo sexo. Durante toda sua vida, Guinle declarava que fez amor com todas elas. Lá também, encontrou celebridades de nossa cultura, como José Lewgoy (1920-2003). No entanto, apesar da “mudança de ares”, nem por isso Ava se livrou de confusões.

No Copacabana, Ava, após um de seus muitos pileques, resolveu meter-se (no sentido literal) com o crooner da orquestra do maestro Copinha, de nome Carlos Augusto. Este, descoberto por Ary Barroso, não demorou muito para chegar ao estrelato. Passou pelas mãos de Almirante, Paulo Gracindo, selando seu sucesso ao lado de Emilinha Borba em tourné pelo norte do país.


O crooner da orquestra do maestro Copinha, chegou a ter um caso amoroso com a atriz. Entretanto, quando Ava o chamou para sua suíte, parece que o cantor se intimidou com aquela beleza deusesca, monumento de desejo que até o mais simples dos mortais sempre desejou...pelo menos, em sonhos. Reza à lenda, o cantor “negou fogo” à atriz, talvez achando que ela fosse muita areia para o seu caminhãozinho. Até me fez lembrar uma cena de A Condessa Descalça, onde Maria Vargas (Gardner) esta num veleiro, e com um maiô bem sensual, aos olhos dos frequentadores. Todos ficam à babar, mas ninguém leva, com certeza por pura timidez.

Carlos Augusto (já falecido), tinha fama de conquistador, mas se intimidou quando viu aquele mulherão, e para “vergonha nacional”, brochou, e conforme o dito popular, irremediavelmente. Assim foi rotulado aos ares o pobre cantor. Carlos foi expulso por Ava da suíte, mas como ela estava um tanto agitada, não desistiu e desceu para o bar, pedindo mais um Martini. Anselmo Duarte (1920-2009), mais bem apanhado e mais bonito que Carlos Augusto, se insinuava para Ava, mas esta não deu a mínima bola ao nosso galã dos antigos clássicos da Atlântida.

Impressionou a todos com a quantidade de bebida que consumia, a ponto de um jornal publicar uma charge onde havia um copo com as medidas “para mulheres”, “para homens”, “para cavalos” e a máxima, “para Ava”. No fim, ficou trancada em sua suíte o tempo todo, encurtou sua visita, mas dizem que saiu na última madrugada aqui para conhecer a Cidade Maravilhosa.


Concedendo uma entrevista, declarou que o filme da sensação do momento, A Condessa Descalça era seu filme favorito e que estava no Brasil divulgando um esplendoroso trabalho, seguido de Mogambo, realizado por John Ford no ano anterior (em sua autobiografia, Ava declara Ford como um “Cavalo” de estúpido, mas que de certa maneira ela agradece ao Mestre, pelo ótimo desempenho que obteve, pois no fim, o prestigia) e disse que Os Cavaleiros da Távola Redonda era o seu pior filme. Ava não gostava de épicos.

Mas apesar dos dissabores aqui vividos, certamente existem fãs brasileiros, que além de não só admirar sua beleza, que sem dúvida é um marco na cinematografia, a admiram também como grande atriz. O legado de Ava Gardner é uma marca registrada de um período de ouro do cinema, período este de saudosas constelações, com seus eternos astros e estrelas do passado.


AVA CONTA SUA VISITA AO RIO DE JANEIRO


Em sua autobiografia, Ava dedicou algumas linhas à sua passagem pelo Rio de Janeiro. Não citou um nome sequer nem se referiu a nenhum caso amoroso. Vamos ao texto abaixo:

A United Artists não tinha nos colocado no hotel que eu havia pedido, mas sim numa espelunca que cheirava a fumaça e tinha mais queimaduras de cigarro do que a Carolina do Norte inteira. Por isso me mudei calmamente para o hotel que eu queria. Na manhã seguinte, no entanto, os jornais contaram uma história completamente diferente. Eu tinha chegado bêbada, fazendo confusões, descalça (era verdade que eu tinha chegado descalça, pois o salto do meu sapato quebrara quando fui amassada por uma multidão no aeroporto). Eu destruíra meu quarto, e a gerência do hotel, para provar a coisa, logo chamou fotógrafos, sem ter outra opção a não ser me expulsar.
O que realmente aconteceu foi que o hotel, numa espécie de vingança por eu ter decidido me mudar, contratou um verdadeiro exército destruidor menos de uma hora depois que saí. Quebraram todos os espelhos, atiraram garrafas de uísque por toda parte, destruíram a mobília, arrasaram literalmente com tudo.
Nem vamos considerar que eu não teria conseguido fazer todo aquele estrago mesmo com machados e uma semana para trabalhar. Todos acreditaram nas manchetes. Nem uma entrevista à imprensa e nem uma desculpa do governo brasileiro fizeram com que a verdade vencesse a mentira nos jornais do mundo inteiro.

Ava Lavinia Gardner – AVA, MY STORY, Capítulo XXII, Página 221.

NOTA DO EDITOR: Por mais de dois anos, Ava Gardner esquadrinhou sua memória, preenchendo noventa fitas cassetes com reminiscências de sua vida, desde sua infância de filha de agricultores até sua transformação numa legendária estrela da tela. Ela gravou a última fita poucos meses antes de sua morte repentina, em janeiro de 1990.

Produção e pesquisa de Paulo Telles