quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Quo Vadis (1951): O Colossal Épico da Marca do Leão.


QUO VADIS (Quo Vadis), de 1951, dirigido por Mervyn LeRoy (1905-1987) iniciou um rosário de épicos religiosos que percorreria quase que toda década de 1950 até meados da década seguinte, produtos como "O Manto Sagrado" (1953), e sua seqüência "Demétrius e os Gladiadores" (1954); "O Cálice Sagrado"(1954), que foi a estréia de Paul Newman, que considerava um "Lixo"; "David e Bethsabé" (1951); "O Filho Pródigo"(1955), estrelado por Lana Turner; "Os Dez Mandamentos"(1956), de Cecil B. DeMille; "Ben-Hur"(1959) de William Wyler, campeão absoluto dos Oscars até empatar com Titanic, em 1999; "Rei dos Reis"(1961), belíssimo filme sobre a Vida de Jesus Cristo dirigido por Nicholas Ray; e entre outros, "Barrabás"(1962), com Anthony Quinn numa impressionante interpretação.



QUO VADIS foi um estrondoso sucesso de bilheteria. No Brasil então, principalmente no Rio de Janeiro, invadiu as salas dos saudosos Cine-Metro durante meses, onde estreou em grande circuito a 25 de fevereiro de 1952. Uma superprodução realizada pouco depois do surgimento da Televisão nos EUA (que ameaçava às salas de cinema e que só veio a ser amenizada com a criação da técnica Cinemascope, para não perder a concorrência).

Henryk Sienkiewicz (1846-1916), o autor da obra literária
Poster da versão de 1924, com Emil Jannings como Nero


Extraído da obra literária publicada em 1897 pelo polonês Henryk Sienkiewicz (1846-1916), prêmio Nobel de Literatura em 1905, e anteriormente levada às telas três vezes na era do cinema mudo, sendo a mais famosa a de 1924, estrelado por Emil Jannings (1884-1950), como Nero. A primeira versão data de 1902, de Ferdinand Zecca (1864-1947), o mesmo pioneiro que dirigiu, em 1905, La vie et la passion de Jésus Christ, mas hoje a película esta perdida e não há maiores informações. A Segunda versão cinematográfica do romance de Sienkiewicz é de 1912.



Peter Ustinov. como o obscuro Nero, numa brilhante
performance do ator na versão de 1951.
Peter Ustinov como Nero (sentado), e seu conselheiro Petronius
(Leo Genn), e o comandante da Guarda Pretoriana Tigelino.
(Ralph Truman)
Na versão de Mervyn Leroy, Nero é interpretado de forma soberba por Sir Peter Ustinov (1921-2004), que foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante junto com Leo Genn (1905-1978), que faz a parte de Petronius, seu conselheiro e autor da Obra Satyricon (não mencionada nesta versão a autoria da obra pelo personagem, mas abordado por Federico Fellini num filme homônimo).


Robert Taylor é o comandante e tribuno Marcus Vinicius
Marcus Vinicius (Robert Taylor) e sua amada Ligia (Deborah Kerr)
Na Roma do Século I, o oficial Marcus Vinicius (Robert Taylor, 1911-1969), sobrinho de Petronius (Leo Genn, 1905-1978), conselheiro de Nero (esplêndida performance de Ustinov), apaixona-se por uma ex-escrava cristã, Lygia (Deborah Kerr, 1921-2007), filha adotiva de um general e adepta do cristianismo emergente. Através dela, Marcus acata aos poucos a fé religiosa e indispõe-se com o regime de Nero e o paganismo romano. Sobre os detalhes técnicos, podem parecer muito pueris para os padrões cinematográficos de hoje as seqüências do martírio dos cristãos sendo devorados pelas feras no circo romano, devidamente mal feitas, mas o filme em si ainda consegue prender o espectador se souber também dar asas a sua imaginação, e sem contar aqueles que poderão também assisti-lo sob a ótica religiosa, e se emocionar pelo olhar da fé.


Marcus e Ligia presos nos ergástulos do circo de Nero
Trata-se, antes de qualquer coisa, de uma história de Amor, Intriga, Poder, Loucura, e é claro, Fé e Religião. O Incêndio de Roma e a loucura de Nero são retratados de forma convincente, e é impressionante a Marcha Triunfal do Palácio do Imperador, uma multidão de figurantes e extras bem organizados sob a supervisão dos diretores de Segunda Unidade (que controlavam tudo com tiros de pistola), pois não se sonhava sequer em computação gráfica ou coisas deste tipo que hoje proporcionam truques simples e menos custosos (mas não menos eficientes).

Ursus (Buddy Baer) luta com o touro para salvar sua
ama Ligia.
Destaque também para a luta do Gigante Cristão Ursus (interpretado pelo Lutador Buddy Baer, 1915-1986) contra um touro no Circo romano, para salvar Lygia, sua protegida, amarrada num tronco . Embora fascinante luta entre o gigante e o animal, esta versão de Quo Vadis foi a única a não respeitar o romance de Sienkiewicz, no tocante à cena em que Ursus enfrenta o touro na arena do circo de Roma.

Ligia (Deborah Kerr) em perigo
Ursus (Buddy Baer) preparado para confrontar o touro
na arena de Nero.

Na obra de Sienkiewicz, a amada de Vinícius é amarrada ao corpo do animal, completamente despida. Para defendê-la, Ursus teria que lutar com o touro mas, ao fazê-lo, colocaria em risco a integridade física de sua protegida, o que tornava sua tarefa ainda mais difícil. Aliás, era essa a intenção de Popeia, esposa de Nero (no filme, interpretada pela exuberante inglesa Patricia Laffan) ao planejar o cruel espetáculo.

Nero (Peter Ustinov) e a imperatriz Poppea (Patricia Laffan)
A Imperatriz Poppea (Patricia Laffan)
Todas as demais versões cinematográficas respeitaram esse detalhe (salvo quanto à nudez da personagem, que nem mesmo a versão polonêsa de 2001 ousou adotar), menos a de Mervyn LeRoy, que preferiu colocar Lígia (convenientemente trajada) atada a um tronco fincado na arena, assistindo Ursus enfrentar o touro.


Os Apóstolos Pedro (Finlay Currie) e Paulo (Abraham Sofaer),
realizando uma missa nos arredores do Coliseu.

São Pedro (Finlay Currie) e sua benção urbi et orbi

A expressão Quo Vadis? é latina, e significa uma pergunta: “Aonde Vais?". Quando estavam na Via Appia (principal via de acesso a Roma) já fora da cidade, São Pedro (no filme de LeRoy, interpretado pelo irlandês Finlay Currie, 1878-1968) que estava com seu jovem discípulo Nazarius, avistou um homem que vinha em sentido contrário. Quando este se aproximou, Pedro reconheceu que era Jesus (segundo a tradição, apenas Pedro o viu), e perguntou para Jesus: “Dominus quo vadis”, que quer dizer: “Para onde vais, Senhor?”. Jesus respondeu que estava voltando para Roma para morrer com seu povo e ser crucificado pela segunda vez.

São Pedro (Finlay Currie) abençoa a união de Ligia (Deborah
Kerr) e Vinicius (Robert Taylor), que acaba se convertendo a
fé de Cristo.
Quando Pedro ouviu o que Jesus disse, entendeu que precisava voltar para Roma. Mesmo contrariando a vontade de seus amigos e seguidores, era mais importante atender a vontade do Senhor. Logo depois deste fato, Pedro foi capturado e morto, crucificado de cabeça para baixo na Colina Vaticana. Por curiosidade, esta passagem da visão de Jesus para Pedro se encontra no Evangelho apócrifo “Atos de Pedro”, que é um texto não oficial da Igreja, mas que serviu de base para Henryk Sienkiewicz compor sua obra literária.


Petronio (Leo Genn) exige de Nero que este assine seu
decreto contra os cristão para perpetuar na História.
Destaque também para a cena do incêndio em Roma que não deixa a desejar. Anthony Mann (1906-1967) dirigiu parcialmente esta sequência, infelizmente sem os créditos que lhe eram devidos.


Leo Genn, como o inesquecível Petronius.
Leo Genn dá vida a Petronius (ou Petrônio), em verdade um personagem histórico (Marcus Vinicius e Lygia são fictícios). Seu nome verdadeiro era Caius Petronius, e tinha o título dado pela corte imperial como o “Árbitro da Elegância”, devido ao seus modos refinados e educação esmerada. Petronius era um dos conselheiros do Imperador Nero, mas não nutria de amores pelo tirano.
Petronius e sua amada escrava Eunice (Marina Berti)
Nascido de uma família aristocrática e abastada, mostrou toda sua competência política ao ocupar os cargos de governador e depois o de cônsul da Bitínia, na atual Turquia. Depois ocupou o cargo de conselheiro de Nero, sendo nomeado arbiter elegantiae (árbitro da elegância), em 63. Dois anos mais tarde, acusado de participar na conspiração contra o imperador e caindo em desfavor, acabou com sua estranha vida, uma mistura de atividade e de libertinagem, no ano de 66 d.C., cometendo um lento e relaxado suicídio, abrindo e fechando as veias, enquanto discursava sobre temas joviais, mandando para Nero um documento no qual detalhava seus abomináveis passatempos.
A bela atriz italiana Marina Berti como Eunice
Henryk Sienkiewicz deu a Petronius uma legenda romântica em sua obra. Para ainda mais humaniza-lo, criou uma personagem fictícia, uma escrava das províncias da Espanha chamada Eunice, que no filme de 1951 foi interpretada pela bela atriz italiana Marina Berti (1924-2002), por quem o conselheiro imperial se apaixona. Tanto no romance de Sienkiewicz quanto nas versões cinematográficas da obra, ela comete suicídio junto com seu amado amo e senhor.


Eunice e Petronius, um amor que vai além da vida.
Sobre Petronius, na famosa obra Anais, o historiador Tácito (55 – 120 d.C) traçou uma imagem viva, que vale a pena ser lembrada e transcrita:



Petrônio consagrava o dia ao sono, e a noite aos deveres e aos prazeres. Se outros chegam à fama pelo trabalho, ele adquiriu-a pela sua vida descuidada.



Não tinha a reputação de dissoluto ou de pródigo, como a maioria dos dissipadores, mas a de um voluptuoso refinado em sua arte. A própria incúria, o abandono que se notava nas suas ações e nas suas palavras, davam-lhe um ar de simplicidade, emprestando-lhe um valor novo.



Contudo, procônsul na Bitinia e depois cônsul, deu prova de vigor e de capacidade. Voltando aos seus vícios ou à imitação calculada dos vícios, foi admitido entre os poucos íntimos de Nero e tornou-se na corte o árbitro do bom gosto: nada mais delicado, nada mais agradável do que aquilo que o sufrágio de Petrônio recomendava ao príncipe, sempre embaraçado na escolha.


Nero e sua corte, com uma maquete da "nova Roma".

Nasceu daí a inveja de Tigelino, o prefeito do pretório e poderoso conselheiro de Nero, que receava um concorrente mais hábil do que ele na ciência da volúpia. Conhecendo a crueldade do imperador, sua qualidade dominante, insinuou que Petrônio era amigo do conjurado Flávio Scevino; em seguida comprou um delator entre os escravos do acusado, sendo-lhe vedada qualquer defesa e mandando prender membros da sua família. O imperador encontrava-se então na Campânia e Petrônio tinha-o acompanhado até Cumes, onde recebeu ordem de ficar.



Ele, sabendo que o seu destino já estava marcado, repeliu tanto o temor quanto a esperança, mas não quis se afastar bruscamente da vida. Abriu as veias, fechou-as depois, abrindo-as novamente ao sabor da sua fantasia, falando aos amigos e ouvindo por sua vez, mas nada havia de grave nas suas palavras, nenhuma ostentação de coragem; não quis ouvir reflexões sobre a imortalidade da alma, nem sobre as máximas dos filósofos: pediu que lhe lessem somente versos zombeteiros e poesias ligeiras. Recompensou alguns escravos e mandou castigar outros; chegou a passear, entregou-se ao sono a fim de que sua morte, ainda que provocada, parecesse natural.


Não adulou no seu testamento Nero ou Tigelino ou qualquer outro poderoso do dia, como fazia a maioria dos que pereciam. Mas, em nome de jovens impudicos ou de mulheres perdidas, narrou as davassidões do príncipe e os seus refinamentos; mandou o escrito a Nero, fechado, imprimindo-lhe o sinete de seu anel, que destruiu a fim de que não fizesse vítimas mais tarde.”

Era esse o ambiente da corte de Nero. Porém havia nela um personagem desse mundo cheio de contrastes – Petrônio. A maioria de seus críticos admite que foi ele o “arbiter elegantiarum” da época, o autor do “Satiricon”.



E entre os muitos estudiosos interessados no assunto houve inclusive opiniões divergentes, mas o parecer mais acertado parece ter sido o do estudioso italiano Marchesi: “Petrônio, nos últimos momentos da vida, teria acrescentado alguma página ao seu romance, enviando-a ao imperador, feroz e desequilibrado, como presente de uma vítima aristocrática e refinada.

O filósofo Sêneca enviou alguma página de moral; Petrônio, a pintura e a descrição daquele mundo terrivelmente corrupto”. O Satiricon não nos chegou íntegro e sim fragmentário. Mesmo assim, o que ficou do mesmo basta para considerar as páginas de Petrônio como um monumento literário de incomparável beleza artística e de inestimável valor para a reconstrução da vida particular da antiga Roma.


Elizabeth Taylor chegou a ser Ligia nos primeiros takes de John Huston.
Gregory Peck, já escalado por John Huston, seria Marcus Vinicius.
Rodado nos estúdios de Cinecittá (o primeiro filme colorido saído desse estúdio), em Roma, pela Metro Goldwyn Mayer, então a mais poderosa Empresa de Cinema de Hollywood e a sua “Marca do Leão”, a versão cinematográfica de 1951 levou 12 anos em preparativos e começou a ser filmado em 1949, sob direção de John Huston, e os astros principais eram Gregory Peck (como Marcus Vinicius) e Elizabeth Taylor (como Lygia). Custou no total sete milhões de dólares, o mais caro filme produzido até então (E O Vento Levou, também da MGM, custou 4,5 milhões de dólares em 1939).  Porém, o Chefão da Metro, Louis B. Mayer (1884-1957), não gostou do roteiro, que queria um épico religioso aos moldes de Cecil B. DeMille, e não um tratamento moderno, no então momento, para Nero, assemelhando-o a Adolf Hitler em sua obstinada perseguição aos Cristãos, seu protótipo parceiro de loucura.


O lendário Louis B. Mayer, o chefão da MGM
B.Mayer chamou Huston à casa dele para uma reunião no café da manhã, e já que costumava buscar todos os argumentos nos bons tempos passados, começou a contar a Huston como tinha ensinado a fabulosa atriz e cantora Jeannete MacDonald a cantar “Oh, Sweet Mystery of Life” cantando “Eli, Eli” para ela. Em hebraico. Ela chorou. Mayer entoou aquela triste canção para o cineasta. Mais tarde, John Huston contou que Mayer havia dito que se ele pudesse dirigir Quo Vadis daquela maneira, que ele viria rastejando de joelhos e beijar suas mãos. Huston abandonou a direção, após uma série de diferenças com Louis B. Mayer, e gastos em Roma começaram a ficar dispendiosos (cerca de 2 milhões de dólares já haviam sido gastos e nada). Logo, Gregory Peck também abandonou o barco (acabou contraindo uma infecção nos olhos) e Liz Taylor (que alegou outros projetos mas acabou numa ponta de multidão no filme, com outra atriz que se tornaria famosa, Sophia Loren).


Nero mata sua esposa Poppea
As cenas principais foram todas rodadas em 1950, já com outros atores e diretor (Mervyn LeRoy), entretanto sequências adicionais e a montagem final retardaram a estreia nos cinemas americanos até novembro de 1951. Só Peter Ustinov e seu Nero foram mantidos. Mudados roteiro, diretor e atores centrais, a produção seguiu seu curso em Cinecittá durante 7 meses. 

O Diretor Mervyn LeRoy.
Assumindo Mervyn LeRoy a direção, este contratou 60 mil figurantes e os dirigiu com tiros de pistola, do alto de um guindaste sobre os estúdios de Cinecittá. Arranjou mais de 50 leões, todos que o pessoal da MGM conseguiu nos circos da Europa. LeRoy era um cineasta competente e admirado por Louis B. Mayer, que tinha supervisionado sucessos bem cuidados, como Alma do Lodo (Little Caesar), em 1931, o filme que decolou Edward G. Robinson ao estrelato.


Marcus Vinicius (Robert Taylor) alerta para o povo sobre
a corrupção de Nero.
Os Cristãos na arena, prontos para os leões.
Voltando a parte técnica da produção, foi dito que os efeitos da ação na sequência do martírio dos cristãos na arena sendo devorados pelos leões não é considerada das mais bem realizadas, o que é bem compreensível. O próprio diretor LeRoy, anos mais tarde, admitiu esta falha. Ele não conseguia fazer com que os leões simulassem a carnificina esperada, logo, ele teve que recorrer às mais antigas tradições de tapeação de Hollywood. Assim ele disse: “Enrolei, mandando os homens da equipe rechearem roupas com carne crua, de maneira que parecessem cristãos caídos no chão, então trouxemos os leões à força e eles comeram aqueles ‘corpos’. Reforcei com close-ups falsos de leões, feitos pelos técnicos, pulando sobre as pessoas de verdade. Funcionou, embora eu nunca tenha conseguido a cena exatamente como queria”.

Papa Pio XII
Mervyn LeRoy visitou o Papa Pio XII(1876-1958) e chegou a pedir para que benzesse o roteiro de Quo Vadis, que foi escrito por John Lee Mahin (1902-1984), S. N Behrman (1893-1973), e Sonya Levien (1888-1960)- e que por acaso, tinha levado consigo, e o papa pôs suas mãos sobre o script, murmurou algumas palavras em latim e disse em inglês: “Que seu filme tenha muito sucesso”. E foi profética tal afirmação do Papa.


Ligia (Deborah Kerr), com Ursus (Buddy Baer), Nazarius (Peter
Milles), e sua mãe Miriam (Elspeth March).
Mesmo sendo um tanto opressor para conquistar Ligia, esta ama
Marcus Vinicius.
Um superespetáculo produzido por Sam Zimbalist (1904-1958), que produziria também 8 anos depois outro retumbante épico, Ben-Hur, produção definitiva esta que o talentoso Sam não pôde acompanhar o sucesso e a glória de seus louros, pois pouco antes de terminadas as filmagens do monumental épico de William Wyler (1902-1981) e estrelada por Charlton Heston, Zimbalist teve um fulminante ataque do coração, vindo a falecer, em Roma, a 4 de novembro de 1958.


O Apóstolo Paulo (Abraham Sofaer) e Marcus Vinicius (Robert
Taylor).
Marcus e Ligia: Um amor a desafiar todo o Império Romano.
Peter Ustinov, numa performance imortal como Nero.


A partitura musical célebre de Miklos Rozsa (1907-1995) foi a primeira trilha sonora do cinema que obteve grande vendagem de discos, inclusive no Brasil, e ajudou a garantir a extraordinária popularidade desta refilmagem para o cinema contemporâneo.

QUO VADIS em grande circuito nos cinemas METROS do Rio
de janeiro em 1954.
Indicado para os Oscars de melhor fotografia, figurino, direção de arte, ator coadjuvante (para dois, Leo Genn e Peter Ustinov), montagem, e filme. O Romance ainda seria levado a tela por mais duas vezes. Em 1985, para a RAI, a Tv Italiana, em forma de minissérie, dirigido por Franco Rossi, tendo Klaus Maria Brandauer como o Imperador Nero, e Francesco Quinn, filho do ator Anthony Quinn, como Marcus Vinicius; e em 2001, na Polônia, terra natal do autor da obra literária, numa superprodução cinematográfica dirigida Jerzy Kawalerowicz e fidelíssimo ao livro, com 274 minutos de duração e exibida especialmente para o Papa João Paulo II e sua comitiva quando visitou a Polônia no mesmo ano.




A opulência deste superespetáculo reflete a qualidade do cinema hollywoodiano em seu período de ouro, contendo uma das mais grandiloquentes passagens já  registradas em filme épico, com a marcha triunfal das legiões romanas, os mártires cristãos do circo de Nero (baseado no Coliseu, onde Cinecittá reconstituiu com capacidade para 30.000 extras), e o incêndio de Roma.


FICHA TÉCNICA

QUO VADIS

(Quo Vadis)

País – Estados Unidos (filmado nos estúdios de Cinecittá, em Roma).

Ano: 1951

Gênero - Épico/Religioso

Direção: Mervyn Leroy, Anthony Mann (não creditado)

Produção: Sam Zimbalist, para a Metro Goldwyn Mayer.

Roteiro: John Lee Mahin, Sonya Levien, e S.N. Behrman, com base no romance de Henry Sienkiewicz.

Música: Miklos Rozsa

Fotografia: Robert Surtees, William V. Skall, em cores

Metragem: 168 minutos.

ELENCO:

Robert Taylor – Comandante Marcus Vinicius
Deborah Kerr – Ligia
Leo Genn –Petronius
Peter Ustinov – Nero, o Imperador
Patricia Laffan – Poppea
Finlay Currie – Apóstolo Pedro
Abraham Sofaer – Apóstolo Paulo
Marina Berti – Eunice
Buddy Baer – Ursus
Felix Aylmer – Plautius
Nora Swinburne – Pomponia
Ralph Truman – Tigelinio
Norman Wooland – Nerva
Peter Miles – Nazarius
Nicholas Hannen- Seneca
Rosalie Crutchley – Acte
Arthur Valge – Croton
Elspeth March – Miriam
Pietro Tordi – Galba
Walter Pidgeon – Narrador.

PRODUÇÃO E PESQUISA DE
PAULO TELLES
Matéria atualizada em 11 de fevereiro de 2017.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

FITAS & FATOS: Wyatt Earp - Ficção e Realidade.

Há poucos dias, comentei um artigo no site “Histórias de Cinema”, do respeitado jornalista e escritor sobre o assunto, Professor A. C Gomes de Mattos, em um de seus posts intitulado” Western: Fantasia e Realidade”, onde expressei as linhas diferenciais que existem entre os filmes que Hollywood, durante muito tempo, promoveu em relação ao mitos do Velho Oeste Americano.

Antes mesmo do surgimento do cinema, tais personagens já eram laureados da legenda romântica de seus feitos por escritores bem parecidos com os nossos, que aqui chamamos de cordéis. Verdade que eles tinham capacidade de aumentar feitos (ou mesmo de inventar), e talvez alguns, deturpar os acontecimentos.

Quem nunca ouviu falar destes personagens reais do Velho Oeste, que se não fosse Hollywood ao longo de seus anos, não fez do que cultivá-los perante as plateias do mundo inteiro? Jesse James, Bat Masterson, Jane Calamity (Jane Calamidade), Wild Bill Hickcok, Buffalo Bill, e tantos outros, cujos os registros de seus feitos verdadeiros somente os historiadores conhecem, distante de toda legenda áurea que o cinema ilusionou. Contudo, sempre por traz dos mitos, há verdades bem distanciadas, e algumas vezes, nada heroicas.

Isto me fez refletir em postar alguns artigos que ao longo do tempo, farei. A partir deste momento, estou inaugurando FITAS & FATOS, onde além de comentar determinado filme ou evento histórico, traçarei também algumas comparações com a realidade segundo historiadores.

E nesta primeira sessão de artigos, o primeiro personagem que analisaremos será Wyatt Earp, um dos grandes mitos do Western, levado as telas do cinema inúmeras vezes, e que já foi encarnado por Randolph Scott, Henry Fonda, Burt Lancaster, James Garner, Kurt Russell, e Kevin Costner, e isto sem contar outros coadjuvantes que o interpretaram, como Will Geer em “Winchester 73”, de Anthony Mann.


O VERDADEIRO WYATT EARP

O Nome de Wyatt Earp (1848-1929) tornou-se popular da noite para o dia, no ano de 1931, quando o escritor Stuart Lake (1889-1964) publicou o livro “Wyatt Earp, Frontier Marshall” (Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira), narrando as façanhas do então desconhecido Earp, que havia apenas dois anos, morrera de velhice. Diferente de outros mitos do oeste americano, cuja fama já havia alcançado ainda em vida, com Earp não assim se sucedeu.

O livro por ser quase inteiramente escrito na 1ª pessoa, fez crer a todos que se tratava de uma verdadeira autobiografia. Stuart Lake assegurava aos seus leitores ter transcrito para o papel as palavras que ouvira do próprio Wyatt. Sobre si mesmo e sobre os acontecimentos. Mas anos depois, enquanto o livro atingira seu sucesso editorial, Lake declarou que tudo que havia escrito era de sua autoria e de sua inteira responsabilidade. Desmentia sua afirmação anterior, revelando que Wyatt não lhe havia fornecido dado algum e que o livro divulgava apenas boatos. Wyatt Earp morreu em 1929, e obviamente, não pôde se defender.

Mas o que teria provocado tamanha atitude por parte de Stuart Lake? Simples. Alguém lhe havia informado que era falsa aquela narrativa de façanhas, que Wyatt Earp não havia sido o defensor da lei que fulminava os criminosos, implacável com os “Bad Man”, e nem o cavaleiro sem mácula isento dos mínimos defeitos humanos, como o livro levava a crer. E esta pessoa nada mais era que a própria cunhada do biografado, Allie Earp, mulher do irmão de Wyatt, Virgil, Xerife de Tombstone à época do famoso tiroteio (famoso graças aos filmes que Hollywood tanto produziu ao longo dos anos).

Allie Earp confiara a Frank Waters, um escritor que desencadeava velhas histórias do Oeste no início dos anos 30 - a versão fiel da vida dos Earp, de como eles eram em família, longe das luzes do mito. Da sua narrativa, crível como um livro de pequenos contos domésticos, vinha à tona não apenas que Wyatt não era o defensor implacável do livro de Stuart Lake, mas que devia ser o gênio mal da família, a ruína de seus irmãos, meros instrumentos de suas ambições. Muito mais de vilão do que de mocinho.

No entanto, muito poucos acreditaram nessa desmitificação. Na época, o cinema ainda estava a procura de heróis, não de personagens freudianos ( o que viria acontecer tempos depois), e já havia levado à glória a legenda de Wyatt Earp.

O Memorial de Allie Earp, desenterrado após mais de vinte anos dos arquivos do Arizona State Historical Association, estimulou a pesquisa de outros historiadores, dentre os quais deve ser destacado o nome do escritor Ed Bartholomew, que condensou em dois volumes os resultados dos vários anos destinados a essa pesquisa: “Wyatt Earp, The Untold Story” (A História de Wyatt Earp não contada), e Wyatt Earp, the Mann and the Myth (Wyatt Earp, o Homem e o Mito).

Surge então, a esquálida figura de um jogador inveterado, privado de escrúpulos, megalomaníaco, sedento de glória e poder, que tomava para si qualquer sombra de mérito que coubesse a seus irmãos.

Wyatt Earp não seria assim o legendário herói de filmes como Frontier Marshal (estrelado por Randolph Scott), ou Paixão dos fortes, de John Ford (protagonizado por Henry Fonda), ou ainda “Sem Lei e Sem Alma” (talvez aqui a personificação mais romântica de Earp feita por Burt Lancaster), mas o homem derrotado, envenenado pela frustração, capaz de matar quem se metesse em seu caminho, sob a máscara da lei, ou para se livrar de testemunhas perigosas, e quem sabe, para mostrar ao mundo que era alguém.


WYATT EARP E O MITO NO CINEMA

Do Earp mítico baseado na legenda romântica de Stuart Lake a um estudo aprofundado e freudiano que veríamos anos depois, eis alguns dos mais importantes filmes sobre o Marshall, e que o tem tanto como protagonista.

A Lei da Fronteira/ Frontier Marshall / 1939 (Randolph Scott), Horas de Perigo / Tombstone, The Town Too Tough to Die / 1942 (Richard Dix), Paixão dos Fortes / My Darling Clementine / 1946 (Henry Fonda), Winchester 73 / Winchester 73 / 1950 (Will Geer), Duelo de Morte / Law and Order / 1953 (Ronald Reagan), De Homem Para Homem / Gun Belt / 1953 (James Millican), Ases do Gatilho / Masterson of Kansas / 1954 (Bruce Cowling), Sem Lei e Sem Alma / Gunfight at O.K. Corral / 1957 (Burt Lancaster), A Morte a Cada Passo / Badman’s Country / 1958 (Buster Crabbe), Valentão é Apelido / Alias Jesse James / 1959 (Hugh O’Brian), Crepúsculo de uma Raça / Cheyenne Autumn / 1964 (James Stewart), Os Reis do Faroeste / The Outlaw is Coming / 1964 (Bill Canfield), A Hora da Pistola / Hour of the Gun / 1967 (James Garner), Tombstone, A Justiça Está Chegando / Tombstone / 1993 (Kurt Russell), Wyatt Earp / Wyatt Earp / 1994 (Kevin Costner), sem que a verdade completa sobre sua vida fosse abordada, ainda assim, mantendo a áurea romântica do personagem promovida desde o início de suas produções cinematográficas. Listarei aqui os seis principais em que Earp tem o papel definitivo principal.


1- A LEI DA FRONTEIRA (Frontier Marshall) -1939

Na realidade, existem duas versões deste filme realizadas num curto espaço de tempo de cinco anos. A primeira versão data de 1934, e estrelado por George O’ Brien (1899-1985), interpretando Michael Wyatt, e Alan Edwards (1892-1954) como Doc Warren (em vez de Doc Holliday).


Foi em realidade a primeira película a registrar as “façanhas” da dupla Earp/Hollyday, contudo sem fazer menções de seus verdadeiros nomes. Em 1939, usufruindo de seus verdadeiros nomes, Wyatt Earp foi interpretado pelo querido Randolph Scott (1898-1987) e Doc Holliday por Cesar Romero (1908-1994), que anos depois seria o "Coringa" da série de TV Batman (1966-1968).

Realizada justamente no décimo ano de aniversário da morte de Wyatt, o filme celebrou como um dos primeiros westerns a romancear de modos bem exagerados as aventuras dos “heróis” de Tombstone. O filme foi dirigido por Allan Dwan.


2- PAIXÃO DOS FORTES (My Darling Clementine)- 1946.

Obra prima do Mestre John Ford (1895-1973), que segue ipisis literis a sua própria afirmação: Publique-se a lenda, pois é ela mais forte que os fatos.

Aqui, vemos Henry Fonda (1905-1982) personificando Earp como um homem rude, porém dentro da lei e sonhando pela justiça dentro de uma comunidade onde impera a violência e o jogo. Novamente, as figuras centrais se concentram em Doc e Wyatt. O cinema foi propagando a “amizade” entre estes dois ícones, quando na realidade ambos só tinham o gosto pelo jogo, mas eram bem diferentes. Contudo, se tornou um dos grandes westerns do Mestre Ford, devido a sua simplicidade, poesia, e grandes interpretações, com destaque maior para Fonda.

Doc Holliday foi interpretado por Victor Mature (1913-1999), que aqui, em vez de ser um dentista (como era de fato), é um médico. Outra coisa a fugir dos eventos realísticos é o fato de Holliday nesta obra de Ford morrer no confronto de Tombstone, quando na realidade, o verdadeiro Holliday sobreviveu e só veio a falecer seis anos depois, em um sanatório, a 8 de novembro de 1887, de tuberculose.

3-SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight the Ok Corral) 1956

Talvez a personificação mais santificável de Wyatt Earp esteja nesta obra de John Sturges (1910-1992), com um desempenho de primeira grandeza por parte de Burt Lancaster (1913-1994) e onde Kirk Douglas interpreta com estilo Doc Holliday. Ao contrário do verdadeiro Wyatt Earp, o Wyatt de Burt odeia jogo e é o “cara mais certinho do mundo”, o típico “Senhor Virtude”, como ironiza Kate Fischer (Jo Van Fleet, 1914–1996) ao seu companheiro Doc Holliday (Douglas). Outra "fantasia" a fugir da verdade sobre Wyatt é o fato dele ser um tremendo solteirão neste filme, para justificar sua relação amorosa com uma jogadora profissional, Laura Denbow, personagem fictícia interpretada pela bela Rhonda Fleming. Wyatt Earp é, aqui, um homem correto da lei, sensível e romântico, sem as rudezas da personificação de Henry Fonda em My Darling Clementine. Um cavaleiro romântico e do bem, que quer as coisas dentro da lei e da ordem do primitivo oeste, o oposto do verdadeiro personagem.

Destaque para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin (1894-1979) e a canção “Gunfight of The Ok Corral” cantada pelo fenomenal Frankie Laine (1913-2007), famoso cantor de boas baladas ao estilo do Velho Oeste. Certamente, Sem Lei e Sem Alma é um dos grandes westerns Classe A de todos os tempos.

4-A HORA DA PISTOLA (Hour of Gun) – 1966

Dez anos depois, o cineasta John Sturges resolveu dirigir uma nova versão do célebre tiroteio e da vida de Holliday e Earp, intitulado “A Hora da Pistola”. Dessa vez, Wyatt é interpretado por James Garner (fisicamente o que se aproximou da aparência física real do personagem).

Sturges, diferentemente com que havia feito dez anos antes em sua obra Sem lei e Sem alma, optou em substituir a legenda romântica pelo realismo dos eventos. Wyatt ainda era o correto homem da lei, contudo mais rude e amargo do que Burt Lancaster. Sua amizade com Doc Holliday (Jason Robards, 1922-2000) é evidentemente contrastante neste filme. Doc que na realidade incentiva Wyatt a matar Ike Clanton (Robert Ryan, 1909-1973) e seus asseclas. Ryan desempenha Clanton de maneira refinada e cínica, ao contrário de Walter Brennan de Paixão dos Fortes, rústico selvagem e traiçoeiro.


Wyatt Earp e seu amigo Doc estão dispostos a realizarem a vingança após os conflitos que acabaram com O. K. Corral, já que os familiares de Earp foram assassinados pelos perigosos irmãos Clanton. Porém, seu principal alvo (que é Ike) ainda está vivo e pronto para atacar. Talvez tenha sido a primeira vez no cinema que ousou a apresentar a vida de Wyatt e o célebre tiroteio um pouco mais fidedigno aos fatos. A magnífica Trilha Sonora de Jerry Goldsmith (1929-2004) garantiu também a popularidade deste western.

Há críticos que afirmam que A Hora da Pistola é uma continuação de Sem Lei e Sem Alma por se tratar do mesmo cineasta que realizou ambos os westerns, entretanto isto não é verdade já que as duas versões diferenciam bastante, bem com o as interpretações e a situação dos roteiros, uma vez que na versão estrelada por Burt Lancaster e Kirk Douglas, ao fim, tudo indicava que tinham resolvido a parada de vez, já que Ike e seus homens foram mortos no duelo (e ambos se despedem, para talvez não mais se verem), enquanto que a versão de Garner e Robards parte do ponto inicial do duelo, e ao longo da obra vão atrás de Clanton e seus capangas a todo custo, sedentos de vingança.


Em 1987, 21 anos depois, Garner voltaria a interpretar Earp, no fictício Assassinato em Hollywood, contracenando com Bruce Willis que desempenha o famoso ator de westerns mudos Tom Mix (1880-1940), onde os dois se unem numa história detetivesca de ação e mistério, dirigido por Blake Edwards (1922-2010), que resultou um dos poucos fracassos de bilheteria do renomado diretor.

5- TOMBSTONE, A JUSTIÇA ESTA CHEGANDO (Tombstone) – 1994

Após o lançamento de Os Imperdoáveis de Clint Eastwood, em 1992 que se tornou um grande sucesso de crítica e público (além de ter ganhado o Oscar de melhor filme), houve em Hollywood uma empolgação de se produzir mais westerns, já que o gênero estava praticamente extinto havia alguns anos, desencadeando uma volta triunfal ao velho estilo cinematográfico. Só em 1994, houve duas tremendas superproduções a contar só a vida de Wyatt Earp, e uma delas foi Tombstone, a Justiça esta chegando.

O cinema, em realidade, não tem pretensão de desmistificar, pois antes de tudo é uma máquina de sonhos. Esta regra se seguiu quando mesmo os avanços da História e das informações confirmaram que os míticos eventos não eram, em absoluto, acontecimentos reais. No entanto, a personificação de Earp aqui se seguiu aos mesmos moldes de Fonda em Paixão dos Fortes e de James Garner em Hora da Pistola.

Kurt Russel faz aqui uma interpretação bastante sóbria (ainda que um pouco infidedigna) de Earp, mas o destaque principal esta em Val Kilmer como Doc Holiday, numa narrativa ágil e uma trilha sonora empolgante, além a belíssima narração em off de Robert Mitchum (1917-1997), e com a participação do bom e velho Charlton Heston, como um rancheiro que recebe os irmãos Earp em sua casa. A Direção a cargo de George Pan Cosmatos.

6-WYATT EARP (Idem) – 1994

Um verdadeiro épico em superprodução contando a saga do marshal com quase 4 horas de duração (talvez o western mais longo do cinema), desde sua adolescência do Missouri, até suas atividades como delegado federal no Arizona. Produção de 50 milhões de dólares, fracassou na bilheteria nos EUA, e foi o início da bancarrota para Kevin Costner, que no ano seguinte declinaria de vez com o absurdo Waterworld - O segredo das águas.

Costner, além de desempenhar o próprio Earp, também produziu o filme. Na época do lançamento, ouviu-se dizer que ele empenhou-se muito em pesquisas em várias bibliotecas do Oeste e em outros registros históricos sobre Wyatt. Imaginamos, então, que ele tenha também tido acesso aos documentos da cunhada de Wyatt, Allie Earp.

O que aconteceu que Costner, amante de filmes clássicos e admirador de outras versões sobre a vida do famoso delegado, tentou unir a característica quase imaculada de Earp das antigas produções hollywoodianas com os eventos reais conforme sua real biografia. Infelizmente, resultou um filme pesado, lento, e cansativo, e se tornou bem inferior a Tombstone, a Justiça esta chegando, lançado no mesmo ano de 1994. No destaque, Dennis Quaid no papel de Doc Holliday. Direção de Lawrence Kasdan (de Silverado, outro faroeste com Costner, bem melhor sucedido).


WYATT EARP: A SÉRIE DE TV COM HUGH O’ BRIAN


Estreando em 6 de setembro de 1955, The Life and Legend of Wyatt Earp (no Brasil, Wyatt Earp) foi a primeira série de western adulta na história da televisão americana (lembremos anteriormente das infantis, como Rin Tin Tin, The Lone Ranger, e Cisco Kid, devidamente destinado para o público infantil). Chegou a bater na audiência de Gunsmoke, estrelado por James Arness (1923-2011) por quatro dias.

A série, como não podia deixar de mostrar, tinha o célebre delegado de Dodge City e de Tombstone que foi aqui vivido por Hugh O’ Brian (ainda vivo, hoje com 86 anos), domando os desordeiros e implantando a lei e a ordem. A produção esforçou-se para recriar vestuários e cenários iguais aos autênticos, chegando a minúcias como a de fabricar uma arma idêntica à que Wyatt usava: a Buntiline Special. A série durou seis temporadas (1955 a 1961) num total de 226 episódios, todos em preto & branco.

Hugh O`Brian, nasceu em 19 de abril de 1925, em Rochester, Nova York. Foi descoberto para a televisão pela atriz e diretora Ida Lupino (1918-1995), que lhe abriu as portas para um contrato com a Universal Studios, mas ficando restrito a papéis secundários em filmes como Red Ball Express”, Son of Ali Baba e “Seminole. Ao término do contrato com a Universal, em 1955, estabeleceu um grande sucesso na televisão com a série de TV Wyatt Earp por um período de seis anos. Direcionou seus talentos como cantor e atuou em espetáculos da Broadway. Permaneceu como astro nas décadas de 1960 a 1970, com muitos trabalhos no teatro e na televisão. Um solteiro convicto, casou-se em 2006, aos 81 anos, com Virginia Barber, companheira de um relacionamento de 18 anos.

Mas em 1994 (mesmo ano das duas produções mais recentes do personagem lançados no cinema, com Kurt Russell e Kevin Costner), O’ Brian retornou ao papel na Tv que o tanto afamou num longa especial chamado Wyatt Earp, retorno a Tombstone, onde já velho e aposentado retorna para enfrentar um antigo inimigo, e recorda fatos do passado, em flashbacks dos episódios antigos da série.


OUTROS FATOS REAIS E A “AMIZADE” ENTRE DOC E WYATT.

Wyatt Earp não foi o destemido Henry Fonda, e tampouco o galante e correto Burt Lancaster nos filmes como já foi aqui falado. Ate mesmo “amizade” entre Wyatt Earp e Doc Holliday é discutida, pois ambos eram muito diferentes, em diversos aspectos, sobretudo de berço que cada um teve: Wyatt era filho de rudes camponeses pioneiros e John Holliday provinha de uma conhecida família de elite da Georgia.


Dentista diplomado, mas tuberculoso, Doc partiu para Dallas, em 1872, para mudar de ares. Todavia as pessoas temiam ser tratadas por mãos de quem tossia e cuspia sangue e, assim, John perdeu seus clientes e acabou entregando-se no jogo.

Naquele mundo de violência, onde a troca de tiros era a regra e quem fossem o mais rápido no gatilho imperava, Doc, débil como uma criança e atormentado pelo medo mórbido de ser espancado, pôde contar somente, com o seu revólver para se defender.

Considerando-se já um homem morto, agia friamente diante do perigo. Não respeitava a própria vida e bebia muito. Estranhamente, embora o destruindo mais depressa, o álcool lhe infundia energia e confiança, e isso era a mais absoluta verdade.

Wyatt o conheceu em Fort Griffin, talvez numa mesa de jogo, não se sabe ao certo. Depois disso, Doc foi preso por homicídio. Wyatt o reencontrou em Dodge e se uniram graças à paixão que ambos sentiam pelo jogo.

Na única vez em que tentaram conversar, em 1882, descobriram tantas divergências entre si, que preferiram não se falar mais. Logo, o que os dois tinham, de fato em comum, era o amor ao jogo e a bebida.

OS ÚLTIMOS ANOS DE WYATT, SEUS IRMÃOS & FAMÍLIA

A realidade dos fatos, é que não houve, sem dúvida, nenhum evento heroico quanto ao tiroteio/massacre do “duelo” de OK Corral, ocorrido em 26 de outubro de 1881. Wyatt Earp e Doc Holliday foram presos, e os irmãos de Wyatt, Virgil e Morgan foram feridos, e ficaram sob os cuidados de Allie Earp, esposa de Virgil.

De Tombstone, Wyatt e sua família terminaram a suas aventuras no Arizona. Solto, Wyatt atravessou a fronteira do colorado. A vida de Wyatt se reduziu a vagabundagem dos jogadores profissionais. Certa vez, um homem chamado Bob Paul chegou de Denver com o pedido de extradição de Wyatt, Warren (irmão de Wyatt) e Doc Holliday, que foram acusados de triplo homicídio. Entretanto, o Governador Pitkin, talvez influenciado por altos expoentes da maçonaria que protegiam Wyatt (que aliás, Wyatt fazia parte), não quis aceita-lo.

Em novembro de 1887, Doc Holliday morreu de tuberculose num sanatório de Glenwood Spiring, no Colorado. E os Earp prosseguiram longe de Wyatt. Virgil reconstruiu uma vida respeitável ao lado de Allie, vindo a falecer de pneumonia em 1905, em Goldfield (Nevada). A pequena e fiel Allie ainda lhe sobreviveu até o ano de 1947.

Jim Earp, o irmão mais velho de Wyatt, morreu em Los Angeles, em 1926. Warren, por sua vez, voltou para o Arizona e entregou-se à bebida, vindo a morrer em 1900, assassinado por um cowboy chamado Johnny Boyet, que costumava procura-lo sempre que estava bêbado.


E WYATT?

Em 1882, ao chegar em São Francisco, se casou com sua ex-amante de Tombstone, Sadie, cujo verdadeiro nome era Josephine Sarah Marcus. Após três anos de vagabundagem, publicou a sua fantasiosa autobiografia no jornal Weekly Examiner, de São Francisco, que lhe proporcionou, por algum tempo, aquela popularidade que sempre buscou em vida. Detalhe: Wyatt se casou com Sadie sem obter o divórcio de sua primeira esposa.

Em 2 de dezembro de 1896, em São Francisco, deu-se o famoso encontro entre os boxeadores Tom Sharkey e Bob Fitzsimmons. O árbitro foi Wyatt Earp, que foi multado em 50 dólares por ter conduzido a luta com sua Buntline especial no coldre. Os dois lutadores trocaram golpes irregulares, sem que Wyatt intervisse.

No oitavo round, quando Sharkey foi derrubado, Wyatt interrompeu a luta, desqualificando Fitzsimmons por desfechar um suposto golpe baixo. Obviamente, foi o fim-do-mundo. Dizem que Wyatt apostara uma boa soma em Sharkey e fizera com que seus amigos também apostassem nele. A verdade é que os 10.000 dólares do prêmio não foram entregues ao vencedor, e o caso foi parar no Tribunal.

Dizia a notícia do jornal Chronicler de 9 de dezembro do corrente ano: “Crescem as dificuldades do Terror de Tombstone”. As dificuldades em questão eram duas denúncias por dívidas não pagas. Wyatt sempre se declarava assim em sua defesa: “Possuo apenas a roupa que estou usando”.



No ano seguinte, em 1897, Wyatt e sua segunda mulher, Sadie, se transferiram para Nome, no Alaska, onde abriram o Dexter Saloon. Certa noite, depois de ter bebido além da conta, Wyatt resolveu mostrar aos clientes por que ficara famoso no Arizona, com sua Buntline Especial. O Marshal Federal Albert Lowe arrancou-lhe a arma e o esbofeteou. O “Terror de Tombstone” não reagiu.

Em 1900, o jornal Arizona Daily Citizen noticiou o fato de que Wyatt, no hipódromo de San Francisco, chegou às vias de fato com um famoso dono de cavalos, Tom Mulqueen, e como foi logo derrubado, voltando Wyatt, assim, para casa com os dois olhos roxos.

Em 26 de julho de 1911, o Arizona Star noticiou de Los Angeles que, Wyatt Earp, o famoso pistoleiro, e outros dois, Walter Scott e Edward Dean, haviam sido presoso por uma tentativa de fraude de 25.000 dólares contra J. W. Patterson. Contra ele pesava ainda acusação de vagabundagem. Não se sabe como terminou o caso.


E QUANTO A MATTIE EARP, A PRIMEIRA ESPOSA???

Mattie, a primeira e abandonada esposa de Wyatt (cujo verdadeiro nome era Celia Ann "Mattie" Earp), nunca mais tornou a vê-lo. De Colton, para onde Wyatt a “despachou” sem meios, após a morte de Morgan, Mattie voltou para o Arizona mais precisamente para Globe, onde Kate “nariguda”, a “viúva” de Doc Holliday, dirigia uma pensão.

Mattie parecia um fantasma...Wyatt a havia destruído.


Depois disso, Kate fechou a pensão e se mudou para o pequeno centro de minério de Pinal, onde começou a descer, um por um, todos os degraus da degradação humana.
Atingindo o auge do desespero, Mattie se suicidou em 7 de julho de 1888, ingerindo uma dose forte de láudano. Talvez de todos os crimes cometidos por Wyatt Earp, este seja, sem dúvida, o mais cruel.

Wyatt Earp morreu de morte natural em 1929, pouco antes que Stuart Lake, o escritor, publicasse a falsa biografia que o celebrizaria e que faria de Wyatt o protótipo do herói do Oeste, que o cinema promoveu através de inúmeros westerns. Tanto a Sétima Arte quanto a televisão lhe ergueram um monumento que o mundo admira. Mas, lamentavelmente, a História registrou no seu pedestal as palavras que um certo juiz escreveu ao fim do inquérito sobre a morte de Mattie Earp aos pais desta, ao lhes informar do ocorrido: WYATT EARP...BÍGAMO, TRAPACEIRO E VELHACO.

CONCLUSÃO: Apesar de todas estas desmistificações, é imperativo dizer que o cinema, antes de tudo, é uma máquina de sonhos. Os westerns foram avançando, evoluindo de acordo com o tempo e com o grau de desenvolvimento do público, que vinha exigindo mais realismo no Gênero. Mas ainda assim, os faroestes a moda de John Wayne, Randolph Scott, Audie Murphy, Joel McCrea, entre tantos outros, continuam a ser os mais badalados por todos os fãs do Western.

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES


Fontes de Referência e Pesquisa- Bibliografia
“O Homem do O.K Corral”, de Rino Albertarelli- Editora Ebal (1974)