quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Os 50 anos de “Spartacus” com Kirk Douglas

No dia 6 de Outubro de 1960, em Nova York, se deu a pré-estréia de “Spartacus”, a superprodução dirigida por Stanley Kubrick (1928-1999) e estrelado por Kirk Douglas, ganhadora de 4 Oscars: melhor ator coadjuvante (Peter Ustinov, 1921-2004), melhor direção de arte colorida, melhor fotografia colorida e melhor figurino colorido. Portanto, há 50 anos, estreava um dos maiores épicos da História do Cinema (No dia 7 de outubro de 1960, pré estréia em Los Angeles. No Brasil, sua estréia foi a 17 de novembro de 1960).
Entretanto, é bem difícil explicar a saga de todo o projeto que levou a materializar, mas reza a lenda em Hollywood que Kirk Douglas, empolgado com o sucesso de Ben-Hur, de William Wyler (1902-1981), realizado no ano anterior, queria também produzir um épico aos moldes do diretor. Bem verdade que Kirk queria o papel principal de Ben-Hur no filme de Wyler, mas este já havia preterido a Charlton Heston, e ofereceu a Douglas o segundo papel principal, do infame vilão Messala (que havia sido recusado por Robert Ryan), mas Kirk não aceitou, sendo este papel aceito depois por Stephen Boyd.




Recusando o papel de coadjuvante no épico de Wyler, Douglas, sob a égide de sua produtora, a Bryna Production Company, quis dar uma resposta ao então campeão absoluto dos Oscars (até 1998, quando Titanic empatou), e resolveu produzir um épico bem diferente dos que vinham sendo produzidos naquela época. Grande parte dos épicos que vinha sendo lançados ao longo dos anos de 1950 era, geralmente, de teor bíblico. Mas Kirk queria realizar algo que não tivesse tom religioso.


Sendo assim, Douglas negociou os direitos da controversa história da obra literária lançada em 1952, escrita por Howard Fast (1914-2003- foto), que tornou-se uma leitura popular nos meios comunistas.


Aliás, a história de Spartacus já havia sido filmada na Europa, em 1953, sob o mesmo título (nos EUA, como “Sins of Rome”), e com a direção de Riccardo Freda (1909-1999), estrelado pelo astro italiano Massimo Girotti (1918-2003) no papel do herói-escravo, e a bela deusa francesa Ludmilla Tchérina (1924-2004) desempenhando Varínia, mulher de Spartacus.


Para adaptar o romance de Fast, Kirk contratou Dalton Trumbo (1905-1976), um dos DEZ DE HOLLYWOOD, que havia sido preso por se recusar a cooperar para o Comitê de Atividades Antiamericanas e teve que escrever roteiros sob pseudônimos por mais de uma década. Logo, Kirk Douglas também entrou para a história por ajudar a destruir a lista negra ao permitir que um dos perseguidos pelo "Caça as Bruxas" usasse seu próprio nome nos créditos de Spartacus.


Em verdade, Trumbo colocou uma sutil referência aos espiões da era McCarthy. Perto ao final do filme, após a revolta ser esmagada, o tirânico general Marcus Licínio Crassus (Laurence Olivier, 1907-1989, foto) anuncia ameaçadoramente: “Em cada cidade e província, lista de desleais foram compiladas”.


A colunista Hedda Hopper e ex-atriz (1885-1966 - foto) denunciou Kirk Douglas por contratar Trumbo e a Legião Americana fez piquete na pré-estréia em Los Angeles, no dia 7 de outubro de 1960. O Bom Douglas não se deixou intimidar, e mandou uma resposta para Hedda e seus aliados, contratando Dalton Trumbo para escrever o roteiro de mais dois filmes para ele.


Com seus 12 milhões de dólares, Spartacus foi um dos mais custosos filmes daquele então período. O orçamento começou a subir quando o diretor Anthony Mann (1906-1967), o realizador de El-Cid de 1961, foi despedido depois das filmagens já iniciadas, após longa discussão com Kirk Douglas. Logo, Mann foi substituído por Stanley Kubrick, que havia dirigido Douglas em Glória feita de Sangue dois anos antes. Kubrick foi contratado apenas para dirigir, e não ser o “autor”, mas mostrou seu talento em um grande número de inventivas seqüências. As lutas de Gladiadores, algumas vezes de chocante violência, têm uma vívida proximidade e a climática batalha entre escravos e as legiões romanas- com mais de dez mil extras na cena- tem uma grandeza de tirar o fôlego.


Kubrick trabalhou com um elenco all-star, e, sobretudo, a vitalidade real do filme vem dos atores ingleses- Laurence Olivier, Charles Laughton (1899-1962), e Peter Ustinov- interpretando personagens muito além do nobre Spartacus. A bela e talentosa Jean Simmons (1929-2010), interpretando a mulher do herói, Varínia. Aliás, sobre esta personagem, uma história curiosa: a própria Simmons, além de Ingrid Bergman, Jeanne Moreau, e Elsa Martinelli, haviam recusado o papel, sendo escolhida uma atriz alemã, Sabine Bethmann, mas quando Stanley Kubrick tomou as rédeas da direção, não gostou de sua atuação, e resolveu novamente oferecer o papel a Simmons, que por fim aceitou.

Peter Ustinov recebeu um Oscar de ator coadjuvante por seu retrato refinado do servil, astuto, e covarde negociante de escravos Lentulos Batiatus (no livro de Fast, Batiatus é rude, violento e grosseiro. Ustinov já havia sido indicado ao Oscar da mesma categoria em 1951, pela sua atuação inesquecível do Imperador Nero em Quo Vadis e ganharia mais um prêmio na mesma categoria pelo papel de vigarista na comédia Topkapi, em 1964 ), mas é equiparado por Olivier como o arrogante Crassus, e Charles Laughton dá um show de interpretação como o pragmático senador da república Gracchus.

A TRILHA SONORA ficou a encargo de Alex North, que também era versado em compor músicas para filmes de época (Cleópatra, Crepúsculo de uma Raça, Agonia e Êxtase). North, que morreu em 1991, foi contratado por Kirk Douglas para escrever a trilha sonora de Spartacus. “O que eu tentei fazer no filme foi capturar o sentimento da Roma pré-cristã, usando técnicas musicais contemporâneas. Isso pode parecer estranho, mas há uma boa razão. A Luta pela liberdade e dignidade humana, o tema de Spartacus, é pertinente no mundo de hoje”- declarou North, em uma entrevista pouco depois do lançamento do filme em 1960.


Tudo parecia estar em ordem, mas até chegar ao seu molde definitivo, a produção sofreu sérias alterações. Além da mudança de direção, o roteiro teve que sofrer algumas mudanças. Uma série de cenas tiveram que ser reescritas por Peter Ustinov, pois Charles Laughton (foto) havia rejeitado o script original.


Draba- personagem interpretado por Woody Strode (1914-1994), por sinal um excelente ator negro que além de filmes para o cinema, também fez vários trabalhos competentes na TV- é morto na arena depois de atacar Crassus, que assistia ao combate entre ele e Spartacus. Seu corpo está pendurado de cabeça para baixo para que seja visto pelos demais gladiadores como um aviso para que não ousem enfrentar Roma. Originalmente, seria colocado um boneco que serviria como réplica de Strode, mas quando viram que o efeito não foi satisfatório, ele mesmo ficou pendurado de cabeça para baixo, e cordas amarradas nos tornozelos, tudo sem dublê. Como os gladiadores lentamente desfilam para ver seu corpo balançar, Strode não se mexe ou se contraí. De acordo com o filho do finado ator, Kalai Strode, a réplica não utilizada ficou pendurada na entrada de uma das salas da Universal Studios durante vários anos.


A Versão original da película incluía uma cena em que Crassus (Laurence Olivier) tenta seduzir Antoninus (o já saudoso Tony Curtis) quando este lhe banha. Mas, evidentemente e como se poderia mesmo esperar, o Código de produção (muito embora o Código Hays- vide artigo sobre o assunto em http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/2010/06/o-codigo-hays.html -já demonstrasse certa fragilidade) e a Liga da Decência se opuseram. Em um ponto os censores sugeriram que seria bom se a referência na cena de uma preferência por "ostras e caracóis" fosse alterado para "trufas e alcachofras". A cena foi cortada para o primeiro lançamento em 1960, sendo recuperada e adicionada na versão restaurada em 1991, com 13 minutos a mais. No entanto, o som tinha sido perdido com o tempo e o diálogo tinha de ser dublado. Tony Curtis foi capaz de refazer o seu papel, mas Olivier tinha morrido em 1989. Logo, Anthony Hopkins foi escolhido para ocupar o papel de Olivier na dublagem.


Dos 167 dias que Stanley Kubrick rodou para filmar este grandioso épico, seis semanas foram gastas para dirigir uma seqüência elaborada da batalha em que 8.500 figurantes recriaram o confronto entre as tropas romanas e o exército de escravos de Spartacus. Várias cenas da batalha provocou a ira da Legião da Decência, e tiveram de ser cortadas (se perderam, não foram encontradas para a restauração de 1991). Estes incluem cenas de homens sendo desmembrados (anões com torsos falso e um ator com apenas um braço)
Enfim, os cinéfilos de todo mundo devem festejar o cinqüentenário de uma das grandes relíquias da Sétima Arte, que apesar de todas as suas dificuldades na produção, se tornou um marco na cinematografia mundial. Parabéns, e vida longa a Spartacus!!!!



Produção e pesquisa de Paulo Telles

10 comentários:

  1. Realmente é um épico diferente de outros clássicos e da filmografia de Kubrick.

    O elenco é magnífico, a trilha sonora e a história também são ótimas, porém a longa duração cansa em algumas passagens, como no excesso de cenas e discussões no Senado Romano e nas cenas românticas entre Kirk Douglas e a bela Jean Simmons.

    No geral é um filme que merece ser conhecido por todo cinéfilo.

    Abraço

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  2. É Verdade Hugo, é um filme que merece todo o reconhecimento, não somente pela superprodução em si, como também pelos aspectos e todas dificuldades em todo o seu projeto.

    Grande Abraço, Saúde e Paz

    Paulo Néry

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  3. Grande épico que ficou na história do cinema. A direção de Kubrick é magistral. O elenco é maravilhoso. O filme flui muito bem.

    Abraços

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  4. Bom dia Paulo.
    Um exelente blog.
    Espártacus, um dos melhores filmes que já vi. Não visitei todo teu blog, mas imagino as reliquias que deve conter.
    Obrigado por visitar meu blog.
    Um abraço.

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  5. Olá Dan, obrigado pelo comentário.Abraço

    Ao Jorge: Amigo vc sempre será bem vindo ao meu blog, e já coloquei seu link com um de seus desenhos (o do John Wayne, um dos meus astros prediletos) entre os espaços indicados por mim.

    Saúde e paz, e não deixe de voltar.

    Abraço

    Paulo Néry

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  6. Olá. Obrigada pelo ótimo comentário no meu blog. Passei aqui para retribuir a visita e simplesmente fiquei fascinada com seu blog. Amei tudo, o texto, os temas. Já coloquei um link do seu blog no meu. Nós amantes do cinema temos muitas ideias para trocar! Parabéns! Abs!

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  7. Deixei um selo pra vc lá no meu blog.
    Abraços.

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  8. Olá Taís

    Eu que agradeço de imenso sua visita e seus comentários. Somos agora parceiros. Abs.

    Jenifer, deixei no seu blog meu comentário, mas desde já agradeço pelo selo. Abs.

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