sábado, 18 de maio de 2019

Lex Barker: Vida e Carreira do Mais Belo Tarzan das Telas.


Neste corrente ano de 2019, o ator Lex Barker (1919-1973) estaria completando seu centésimo aniversário. Alto, bonito, culto, e fluente em quatro idiomas, Barker foi também o protagonista de um dos escândalos mais famosos de Hollywood, envolvendo a atriz Lana Turner (1921-1995), sua então esposa, e a filha dela. Até hoje, não se sabe o que verdadeiramente aconteceu, pois os relatos biográficos são muito controversos. Mas certamente, é mais lembrado como um dos mais famosos e queridos intérpretes de TARZAN no cinema, e por muitas fãs, como o mais belo. Vamos relembrar um pouco da vida e da carreira de Lex Barker em Hollywood e também no cinema europeu. 

Por Paulo Telles.



Lex Barker aos 8 anos de idade. 
Lex Barker nasceu Alexander Crichlow Barker Jr em 8 de maio de 1919, em Rye, Nova York. Vindo de uma família abastada e proeminente, Barker era descendente direto do fundador de Rhode Island - o Cônsul Roger Williams. Lex foi excepcional nos esportes tais como o Futebol e Atletismo quando ainda cursava o ensino secundário e, posteriormente, a Universidade de Phillips-Exeter, em Fessenden. Foi a Princeton com a intenção de tornar-se ator, a contragosto de seus pais que o queriam nos negócios da família. Descoberto por um agente de talentos, este o convidou para ir a Hollywood fazer um teste na 20th Century Fox. A família não aprovou e acabou deserdando-o quando deixou bem claro suas pretensões na vida. 

O jovem Lex Barker.
Para bancar seus sustentos sem o apoio familiar, Barker trabalhava numa fábrica de aço de dia e a noite estudava engenharia. Realizado os testes na Fox, Lex atuou em pontas sem créditos. Em fevereiro de 1941, quase um ano antes do ataque japonês a Pearl Harbor, Barker adiou seus projetos como ator e se alistou no Exército dos Estados Unidos. Lutou na Sicília, onde foi ferido na cabeça e na perna. Tempos depois, foi promovido a Major de Infantaria. 

Voltando para os Estados Unidos, Barker recuperou-se em um hospital militar no Arkansas. Ao entrar para reserva, ele viajou para Los Angeles. Conseguiu ponta no filme Sonhos de Uma Estrela (Doll Face, 1945) musical de Lewis Seiler, com Vivian Blaine e Carmen Miranda. Não recebendo muitas propostas no estúdio da raposa, tentou melhor sorte na RKO


INTRODUÇÃO AO CINEMA
Barker malhando para encarar as câmeras, em seu papel mais famoso.
No novo estúdio, Barker teve mais oportunidades, mesmo ganhando papéis pequenos. Foi o que ocorreu em Ambiciosa (The Farmer's Daughter, 1947) de C. H. Porter, com Loretta Young e Joseph Cotten, e Rancor (Crossfire, 1947) de Edward Dmytryk, com Robert Mitchum e Robert Ryan. Em 1948, foi notado no faroeste A Volta dos Homens Maus (Return of the Bad Men, 1948) de Ray Enright, com Randolph Scott.
TARZAN


Com a saída de Johnny Weissmuller (1904-1984) no papel de Tarzan, o produtor Sol Lesser (1890-1980) acionou o diretor Lee Sholem (1913-2000) para promover um teste na busca pelo próximo Homem Macaco. Para isso, Sholem convocou uma reunião com agentes cinematográficos e introduziu dentro dos estúdios da RKO uma sala para a realização de testes com possíveis candidatos. Ele chegou a entrevistar cerca de cem atores e atletas para o papel, mas nenhum atendeu as expectativas. 



Barker entra em ação como o Rei das Selvas.
Os testes já estavam no fim quando Lex Barker, então com 28 anos e aspirante a ator na RKO, foi reparado pelo diretor em um dos corredores da companhia. Sholem o convidou para ir a seu escritório e logo foi perguntando:
- Onde você esteve todo este tempo, rapaz? Você é bem alto.

Barker prontamente respondeu:
- Tenho 1m93.

Sholem não perdeu tempo e foi logo objetivo:
- Você gostaria de ser Tarzan? Um corpo atlético é que não lhe falta.
- Gostaria sim – respondeu Barker.
-Ótimo! – Exclamou felicíssimo Sholem – O papel é seu.


Brenda Joyce (em seu último papel como Jane), a macaca Chita, e Barker, em foto publicitária para
TARZAN E A FONTE MÁGICA (1949) - O primeiro filme de Lex Barker como Tarzan.
Barker e o escritor Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan.
O diretor tratou de ligar rapidamente para Lesser, comunicando que a busca pelo novo Tarzan havia chegado ao fim na descoberta por Lex Barker. Quando o produtor viu o jovem ator, concordou prontamente com a escolha de Sholem, e Barker foi contratado após os devidos testes. Como Tarzan, seu primeiro trabalho foi em Tarzan e a Montanha Secreta (Tarzan's Magic Fountain, 1949), com Lee Sholem na direção e roteiro de Curt Siodmak (1902-2000) e Harry Chandlee (1882-1956). Como nas produções anteriores, os roteiristas procuraram usar algumas peculiaridades dos livros de Edgar Rice Burroughs (1875-1950). Avaliado por alguns críticos como jovem demais para viver o Homem Macaco, Barker chegou a declarar: Se meus músculos aguentarem, e minha cintura estiver baixa, eu posso interpretar Tarzan até aos 50 anos.


Poster de TARZAN E A MONTANHA SECRETA (1949)
Cartaz de TARZAN NA TERRA SELVAGEM (1952), levado na TV
brasileira como TARZAN EM PERIGO.
Lançado em janeiro de 1949, Tarzan e a Montanha Secreta foi bem recepcionado. O The Hollywood Reporter escreveu: A história poderia reivindicar uma substância dramática mais completa, mas suas deficiências são amplamente compensadas em fundos de produção e em imagens de animais em cenas surpreendentes.  E Lex Barker recebeu críticas positivas: Quanto ao Tarzan de Barker, é igual a qualquer um dentro da memória deste crítico, e temos medo de que o personagem volte para Elmo Lincoln. O belo físico de Barker se encaixa na descrição de Burroughs, e ele é ator suficiente para tornar o Homem da Selva mais animado do que ele já foi.


Poster de TARZAN E A MULHER DIABO (1953)
Com Denise Darcel, em TARZAN E AS ESCRAVAS (1950)
Entre 1950 a 1953, Barker ainda atuou em mais 4 (quatro) produções como Tarzan: Tarzan e a Escrava/ Tarzan and the Slave Girl (1950, direção de Lee Sholem); Tarzan na Terra Selvagem / Tarzan's Peril (1951, direção de Byron Haskin): Tarzan e a Fúria Selvagem/ Tarzan's Savage Fury (1952, direção de Cy Endfield); Tarzan e a Mulher Diabo/ Tarzan and the She-Devil (1953, direção de Kurt Neumann).


DEPOIS DE TARZAN, NOVOS PAPÉIS

Após cinco filmes estrelando como o personagem de Edgar Rice Burroughs, Barker desfez contrato com Sol Lesser e partiu para outros trabalhos em diversas companhias cinematográficas, realizando uma variedade de papéis heroicos, principalmente em faroestes, como Torrentes de Vingança (Thunder Over the Plains, 1953) de Andre De Toth, onde o astro briga com Randolph Scott pelo amor de Phyllis Kirk. A seguir vieram também O Morro da Traição (The Yellow Mountain, 1954) de Jesse Hibbs, A Caravana da Morte (The Man from Bitter Ridge, 1954) de Jack Arnold, e A Mestiça do Mississipi (Duel on the Mississippi, 1955) de William Castle - todos do gênero Western.


Barker com Jeff Chandler, durante um intervalo de
BARCOS AO MAR (1956)

Encarando Randolph Scott, e Phyllis Kirk:
TORRENTES DA VINGANÇA (1953)
Em 1956, elencou no clássico bélico Barcos ao Mar (Away All Boats, 1956) de Joseph Pevney, contracenando com Jeff Chandler, Julie Adams, George Nader, Richard Boone, e Jock Mahoney, que mais tarde também seria um famoso intérprete de Tarzan.


A VIDA PESSOAL E UM ESCÂNDALO. 

Lex Barker foi casado cinco vezes, sendo duas com as atrizes Arlene Dahl (que mais tarde se casaria com o ator Fernando Lamas) e Lana Turner (1921-1995). Ficou também casado por sete anos com a atriz espanhola Carmen Cervera, que fora Miss Espanha e de quem se divorciou em 1973. Lex teve dois filhos do primeiro casamento com Constanze Thurlow, e outro de sua união com Irene Labhart, que morreu em 1962. Irene descobriu que tinha Leucemia, e veio a falecer. Com todos os cuidados, Barker demonstrou ser um marido dedicado e esteve com ela até o seu fim.


Com Lana Turner, uma de suas cinco esposas.
A relação com sua terceira esposa, Lana Turner, foi polêmica e até hoje é controversa. De acordo com alegações detalhadas em um livro escrito pela filha da atriz, Cheryl Crane, publicado quinze anos depois da morte de Barker, Lana ordenou que o ator saísse de sua casa com uma arma apontada para ele. Cheryl, que tinha apenas 13 anos na época, acusou Lex de molesta-la sexualmente durante três anos. O divórcio entre Lana e Barker seguiu rapidamente, e muito embora a acusação de assédio não tenha sido arquivada, o registro de divórcio (ocorrido em 1957) não alude à alegação.


Com a atriz espanhola Carmen Cervera, outra de suas esposas.
Muitas biografias são controversas quando se trata de Lana Turner. Linda e talentosa, Lana também era uma mulher que encontrava nos romances proibidos uma excitante emoção. Ela mesma admitia que não conseguisse viver para um só homem. Todavia, também foi criticada por suas escolhas, que incluíam até mesmo Lex Barker.

CARREIRA NA EUROPA E BRASIL
A partir de 1957, a carreira de Barker em Hollywood ficou abalada. Sendo fluente em quatro idiomas (francês, espanhol, italiano e alemão), e com dezesseis trabalhos em seu currículo, o ator mudou-se para a Europa, onde por lá encontrou enorme popularidade, estrelando mais de 40 filmes europeus.


Como o ciumento marido de Anita Ekberg em A DOCE VIDA (1962).
obra de Federico Fellini.
Com a recém falecida Chelo Alonso, em A ESPADA DO SARRACENO (1959).
Na Itália, ele teve um papel curto, mas convincente como o noivo ciumento de Anita Ekberg na obra prima de Federico Fellini (1920-1993) A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960). Curiosamente, Barker interpreta um personagem que parece fazer alusão a ele, pois no momento em que os paparazzi estão a postos para presenciar algum rompante entre ele e a noiva, um deles dispara um comentário dirigido ao personagem de Lex:

- ... E pensar que já foi Tarzan!

Nos estúdios de Cinecittà, Lex protagonizou aventuras Capa & Espada, como A Espada do Sarraceno (La Scimitarra del Sarraceno, 1959) de Piero Pierotti, Os Piratas da Costa (I Pirati della Costa, 1960) de Domenico Paolella, e Robin Hood e os Piratas (Robin Hood e i Pirati, 1960) de Giorgio Simonelli.       

ROBIN HOOD E OS PIRATAS (1960)
O INVISÍVEL DR. MABUSE (1962).
Entretanto, foi na Alemanha que ele obteve maior sucesso, estrelando dois filmes com base nas histórias do Dr. Mabuse (anteriormente filmadas por Fritz Lang): Nas Garras do Dr. Mabuse (Im Stahlnetz des Dr. Mabuse, 1961) e O Invisível Dr. Mabuse (Die unsichtbaren Krallen des Dr. Mabuse, 1962), ambos de Harald Reinl (1908-1986).


Como Old Shatterhand, ao lado do índio Winnetou (Pierre Brice):
A LEI DOS APACHES (1963), uma das sete aventuras em série em
que participou, rodadas na Alemanha.
Barker, implacável como Old Shatterhand, com base nos romances
de Karl May.
Ainda na Alemanha, estrelou uma série treze filmes ao lado do francês Pierre Brice (1929-2015) com base nos romances do escritor alemão Karl May (1842-1912), com as aventuras do índio Winnetou e seu amigo Old Shatterhand, que fez muito sucesso ao longo da década de 1960. Filmou no Brasil Folia de Assassinos (Gern hab' ich die Frauen gekillt, 1966), de Alberto Cardone e Robert Lynn, uma trama de espionagem com vários episódios onde Barker é um agente americano que investiga um crime no Rio de Janeiro em pleno carnaval carioca.


Registro de Lex Barker no Rio de janeiro, onde filmou FOLIA DE ASSASSINOS (1966),
passeando pelo Aterro do Flamengo de carro e encontrando com Klaus Kinski no Pão de Açúcar.
Em 1966, Lex recebeu o Prêmio Bambi como “Melhor Ator Estrangeiro” na Alemanha. Ele voltava aos Estados Unidos de vez em quando e fazia participações especiais pela TV, como nas séries O Rei dos Ladrões (It Takes a Thief, 1968-1970) com Robert Wagner, e F.B.I (1965-1974) com Efrem Zimbalist Jr. Mas a Europa, especialmente a Alemanha, foi seu lar profissional  e artístico pelo resto da vida. Entretanto, voltou a fixar moradia nos Estados Unidos em 1972. 

INFARTO: THE END.
Com a noiva Karen Kondazian, poucos dias antes de sua morte.

Em 11 de maio de 1973, três dias depois de seu 54º aniversário, Lex Barker morreu de um ataque cardíaco fulminante enquanto caminhava por uma rua de Nova York. O ator estava indo se encontrar com a jovem atriz Karen Kondazian, de quem estava noivo e tinha planos para casar. Seu funeral foi restrito para família e amigos mais chegados. Lex Barker foi o décimo ator oficial a caracterizar Tarzan nas telas, e sua bela aparência e físico ajudaram a torna-lo como um dos mais populares intérpretes do herói na Sétima Arte.



Filmografia Parcial
Ambiciosa (1947)
Dick Tracy versus Gruezone (1947)
Lar, Meu Tormento (1947)
Rancor (1947)
Tarzan e a fonte mágica (1949)
Tarzan e as escravas (1951)
Tarzan em perigo (1952)
Tarzan e a fúria selvagem (1952)
Tarzan e a mulher diabo (1953)
O morro da traição (1953)
A Mestiça do Mississipi (1953)
Tambores chamam para a guerra (1957)
A garota das meias pretas (1958)
La dolce vita (1960)
Piratas das Costas (1960)
O Terror do Máscara Vermelha (1961)
Robin Hood e o pirata (1961)
O invisível Dr. Mabuse (1962)
A Lei dos Apaches (1963)
Old Shatterhand (1963)
Winnetou (1964)
O Tesouro dos Renegados (1964)
Winnetou e a Mestiça (1965)
Aoom (1970)


Paulo Telles

Produção e Pesquisa.



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domingo, 17 de março de 2019

Jock Mahoney: Vida e Obra de um Astro-Cowboy e Stuntman.




Jock Mahoney (1919-1989) não foi destes astros de primeira grandeza em Hollywood, mas se notabilizou por duas coisas – era um experiente dublê e um fabuloso astro-cowboy nas telas. Atuou em diversos seriados, séries de TV e longas para o cinema, e chegou a ser um dos intérpretes de Tarzan, o imortal personagem criado pelo escritor Edgar Rice Burroughs (1875-1950). Em muitos trabalhos, ele mesmo fez suas cenas de ação e perigo. Celebrando seu centenário de nascimento, ocorrido em fevereiro deste ano, vamos relembrar vários pontos principais de sua vida e carreira. 
A vida e a Obra de JOCK MAHONEY.



Jock Mahoney, cujo verdadeiro nome era Jacques O’ Mahoney, era de origem francesa e irlandesa, embora tivesse um pouco de sangue indio “Cherokee”. Nascido em Chicago, Illinois, a 7 de fevereiro de 1919, Mahoney antes de iniciar em Hollywood estudou na Universidade de Iowa, onde se tornou um proeminente atleta na natação, no basketball, e no football. Alto (1m93), se tornou bastante popular graças aos seus dotes esportivos. Quando os Estados Unidos entrou na II Guerra Mundial, o jovem Mahoney alistou-se como piloto e instrutor de natação para Homens Rãs. Com o fim da Guerra, foi para Hollywood, onde conseguiu, graças as suas notáveis performances atléticas, o emprego de dublê.



Mahoney sabia cavalgar, laçar, e tinha experiência técnica em lutas, principalmente em judô e boxe. Realizou notáveis cenas de perigo para muitos astros, como Errol Flynn, John Wayne , Randolph Scott, e Gregory Peck.  O diretor Vincent Sherman (1906-2006) lembrou das filmagens do seu clássico de 1948 As Aventuras de Don Juan , ao encontrar apenas um dublê de Hollywood que estava disposto a pular de uma escada alta para uma cena de luta, e que dublaria para, Errol Flynn (1909-1959), o astro do filme. O escolhido foi Jock Mahoney, que exigiu e recebeu US $ 1.000 para desempenhar a cena de perigo, aliás, uma das mais brilhantes e arriscadas do cinema.

Jock Mahoney com Charles Starett e o resto do cast, num filme do DURANGO KID,

Creditado em seu início de carreira com o nome artístico de Jacques O'Mahoney no final de 1940, ele atuou em várias produções, além de curtas e seriados para a Columbia Pictures . Ele conseguiu notoriedade como Stuntman de Charles Starrett (1904-1986) para a série Durango Kid,  que usava sempre uma máscara em volta do nariz e da boca, o que permitiu Mahoney substituir Starrett seguramente nas cenas de ação. As acrobacias usadas por Mahoney na série fez parecer que com que o próprio Starrett mesmo as executasse, já que era tão atlético quanto seu dublê.

Jock com os TRÊS PATETAS: Moe, Larry e Shemp (que substituiu Curly, que havia falecido).
Como muitos contratados da Columbia, Mahoney atuou no estúdio em filmes de curta-metragem. No Início de 1947, o roteirista e diretor Edward Bernds (1905-2000) convidou Mahoney para integrar em comédias pastelão estrelada pelos Três Patetas. Foi a primeira vez que Mahoney teve papéis com falas, e muitas vezes atuando em cenas hilárias, fazendo o público rir. Foi estranho e, ao mesmo tempo, diferente em ver até então um destemido astro-cowboy, com porte heroico, atuar repentinamente em atitudes desajeitadas, tropeçando em algo ou se alastrar em quedas (que fazia ele mesmo com muita propriedade e competência). A Columbia tinha bem notado as habilidades de Mahoney, e deu-lhe papéis em seriados de aventura (os fabulosos seriados de cinema das matinês), iniciando esta fase em 1950.

Com Dickie Moore, no seriado O CORREIO DAS PLANÍCIES (1950)
Foi Gene Autry (1907-1998), famoso cowboy-cantor do cinema, que deu seu nome artístico, inicialmente, para Jack O’ Mahoney. Quando se tornou dublê de Charles Starrett , Mahoney passou também a atuar como ator na mesma série de filmes do personagem, sendo creditado com o nome artístico dado por Autry. Ele ainda teve seu nome artístico mudado por pelo menos três ou quatro vezes, até finalmente decidir por JOCK MAHONEY, em meados dos anos de 1950.

Jock Mahoney como "The Range Rider", ou TIM RELÂMPAGO no Brasil. Série de TV

Como o TIM RELÂMPAGO das histórias em quadrinhos, ao lado do parceiro Dick Jones.

Em 1953, foi astro da série televisiva The Range Rider (inédito no Brasil, mas conhecido por fãs brasileiros através das Histórias em Quadrinhos publicadas na revista “Aí Mocinho”, editada pela  Editora Brasil-América/EBAL, com o nome de Tim Relâmpago). A série teve 79 episódios rodados de meia hora cada, entre temporadas de 1951 a 1953, e depois em 1959 (um episódio perdido mostrado seis anos após a série cancelada) que foi produzida pela empresa de Gene Autry. Mahoney foi creditado como Jack Mahoney.  Jock teve na série como co-astro o ator Dick Jones (1927-2014) , no papel de Dick West, seu jovem parceiro de aventuras.

Poster de CAVALGADA PARA O INFERNO

Poster de A DESFORRA DO ESTRANHO
No cinema, a Partir de 1955 Mahoney atuou em muitos faroestes de baixo orçamento e em cores, se firmando como um dos grandes mocinhos do gênero. São desta fase os ótimos O Covil da Desordem (Showdown at Abilene), de Charles Hass; Domingo Sangrento (Day of Fury), de 1956, direção de Harmon Jones; A Desforra do Estranho (Joe Dakota), de 1957, sob a direção de Richard Bartlett, e uma sequência impressionante de luta entre Mahoney e Charles McGraw (1914-1980) dentro de um reservatório de petróleo.

Com Linda Cristal e Lorne Greene, em CAVALGADA PARA O INFERNO
Em 1958, Falta um para Vingar (Women and Guns), com Mahoney como o mocinho e par romântico de Kim Hunter (1922-2002). No mesmo ano, Cavalgada para o Inferno (The Last of the Fast Guns), com Mahoney contracenando com três ícones sagrados do Far-West americano: Lorne Greene (1915-1987), o futuro Ben Cartwright da série Bonanza; Gilbert Roland (1905-1994) ; e a bela Linda Cristal, que atuaria em duas obras importantíssimas: O Álamo, dirigido e estrelado por John Wayne em 1960, e Terra Bruta (Two Rode Together), em 1961, sob a direção de John Ford, atuando com James Stewart (1908-1997). Em 1967, faria maior sucesso pela TV, com a série Chaparral, ao lado de Cameron Mitchell (1919-1994) e Leif Erickson (1904-1986). 

Jock na Ficção A TERRA DESCONHECIDA.
BARCOS AO MAR: Com Lex Barker e Jeff Chandler
Mahoney ainda atuou, nesta época, em diversas produções fora do gênero Western, mas na maioria como coadjuvante. Como ator principal, atuou em filmes B de ficção, como A Terra Desconhecida (The Land Unknown), em 1957, e sob a direção de Virgil W. Voge.; e uma produção Classe A de guerra, Barcos ao Mar (Away All Boats), realizada em 1956, e estrelada por Jeff Chandler (1918-1961) e Lex Barker (1919-1973), com Mahoney  no papel de um marinheiro, como um dos subordinados de Barker.




Em 1948, Jock Mahoney foi testado pela RKO para substituir Johnny Weissmuller (1904-1984), que após 15 anos e 12 filmes vivendo o herói das selvas criado por Edgar Rice Burroughs (1875-1950) estava se retirando do papel. Contudo, Mahoney perdeu a vaga para Lex Barker, mas como stuntman, foi escalado para dubla-lo nas cenas que exigiam mais riscos e ação. Anos mais tarde, Jock fez uma declaração sobre o fato de ter perdido o papel em 1948:Perdi o papel para Lex Barker, mas tive mais sorte pois ele teve que trabalhar com chimpanzé, e quanto a mim não haveria Chita nem Jane. Fiquei feliz que o chimpanzé não estivesse no roteiro, pois são os animais mais malvados e sujos para trabalhar”, 


Jock como vilão em TARZAN, O MAGNÍFICO - Com Gordon Scott
Poster de TARZAN, O MAGNÍFICO

Em 1960, ele apareceu como o vilão Coy Banton em Tarzan, o Magnífico , estrelado por Gordon Scott (1926-2007). Scott, em seu último filme como o personagem, atuou com Mahoney nas cenas realísticas de ação e combate em plena selva da África. 

Jock com Betta St. John: TARZAN, O MAGNÍFICO (1960)
Jock em luta com Gordon Scott: TARZAN, O MAGNÍFICO.

A determinação de Jock levou o produtor Sy Weintraub (1923-2000) a notar sua exuberante presença física e porte atlético, pois apesar de não ser tão musculoso como Scott, demonstrava mais agilidade. Sabendo da experiência de Mahoney como dublê, Weintraub resolveu empregá-lo para o lugar de Scott como Tarzan, já que queria mostrar ao público uma nova visão do herói, uma releitura que precisava ser apresentada as plateias mundiais, apresentando o Homem Macaco como um ser inteligente e articulado, conforme os romances originais de Edgar Rice Burroughs. Este reboot do herói  seguiria adiante com os sucessores de Mahoney para o papel, que foram Mike Henry, e Ron Ely na TV.

Já como o Homem-Macaco, em TARZAN VAI A INDIA (1962)

Em 1962, Mahoney tornou-se o décimo terceiro ator a interpretar Tarzan quando ele apareceu em Tarzan vai à India , rodado em locações na Índia. Um ano depois, novamente ele desempenhou o papel em Três Desafios de Tarzan, filmado na Tailândia.

TARZAN VAI A INDIA (1962)

Descontraindo-se com Woody Strode, num descanso das filmagens de
OS TRÊS DESAFIOS DE TARZAN (1963)

A força de Tarzan através de Jock Mahoney.

Quando Tarzan Vai a Índia foi lançado, Mahoney tinha 44 anos, tornando-se o ator mais velho a interpretar o Rei da Selva, um recorde que continua de pé. Entretanto, o ator não teve sorte, pois durante a produção contraiu disenteria e febre alta, o que atormentou o então atlético ator. Durante as filmagens nas selvas da Tailândia, ele chegou a perder quase 30 quilos. Levou um ano e meio para recuperar a saúde.





Devido a seus problemas de saúde e o fato de que o produtor Weintraub optou por escolher um ator mais jovem para Tarzan, seu contrato, que seria para mais três filmes como o personagem, foi dissolvido através de um acordo mútuo. 

Como o "Coronel", no episódio duplo O SILÊNCIO MORTAL, da série TARZAN, com Ron Ely
Poster de O SILÊNCIO MORTAL
Atuou em três episódios da série de TV estrelada por Ron Ely entre 1966 e 1967, sendo que O Silêncio Mortal figura entre os melhores, onde Jock interpreta um sádico e violento Coronel que quer dominar e espalhar o terror pela selva, tendo como ajudante um sargento negro interpretado por Woody Strode (1914-1994), com quem havia atuado em Os Três Desafios de Tarzan. Este episódio distribuído em duas partes acabou sendo também exibido nos cinemas brasileiros como um longa-metragem.

Mahoney com Johnny Weissmuller, Ron Ely, e James Pierce, num evento promocional para a série de TV.


Nesta época, foi realizado um evento para promover a série televisiva com Ron Ely. Participaram, além de Jock, Johhny Weissmuller e James Pierce (Tarzan no tempo do cinema mudo). Um segundo evento foi realizado em 1975, para celebrar o centenário de Edgar Rice Burroughs, reunindo Weissmuller, Mahoney, Pierce, Gordon Scott, Buster Crabbe, e Denny Miller (última foto).

OUTROS TRABALHOS E VIDA PESSOAL


Jock Mahoney casou-se três vezes: Sua primeira esposa foi Lorena O’ Donnell, com quem teve dois filhos. Divorciado, em 1952, casou-se com a atriz Margareth Field (1922-2011), que já era mãe de uma menina, a futura atriz Sally Field. Desta união nasceu Princess O’Mahoney, que também viria a ser atriz e diretora de TV. Em 1965, Mahoney e Margareth se divorciaram. Finalmente, em 1969, Jock casou –se com Autumn Mahoney Russell, com quem viveu até o fim de sua vida.


Mahoney na série de TV BATMAN, em 1966.
Com Pernell Roberts em episódio de HAVAI 5-0
Após um período para recuperação da saúde Jock retornou ao trabalho, inclusive na Televisão, participando das séries Batman, Havaí 5-0 , Daniel Boone, entre outras


A carreira de Jock Mahoney foi interrompida em 1973 ao sofrer um colapso cardíaco enquanto filmava um dos episódios da série de TV Kung Fu, com David Carradine (1937-2009). Recuperado, voltou a trabalhar, mas em menor ritmo.  Seu último trabalho para o cinema foi contracenando com sua ex-enteada Sally Field, em 1978, em Se Não Mato, Morro, dirigido e estrelado por Burt Reynolds (1936-2018).

Em 1981, Jock foi o coordenador dos dublês para o filme Tarzan, o Homem Macaco, estrelado por Bo Derek e Richard Harris (1930-2002), dirigido por John Derek (1924-1998). Ainda participou, no início da década de 1980, de outras séries televisivas, como As Aventuras de BJ e Duro na Queda, esta estrelada por Lee Majors.

Durante os últimos anos de sua vida Mahoney era um convidado popular nas convenções de filmes e shows de autógrafos.


Jock Mahoney morreu em Bremerton, Washington, a 14 de dezembro de 1989, aos 70 anos, vítima de acidente vascular cerebral. Tinha sido hospitalizado após acidente de carro dois dias antes. Deixou a esposa Autumn Russell e a filha Princess O’ Mahoney ( de sua união com Margareth Field), e também um filho do primeiro casamento, Jim. O corpo do ator foi cremado e suas cinzas lançadas ao Oceano Pacífico. 




Uma homenagem a Mahoney, intitulada Coming Home é encontrada na Internet no site do falecido colecionador Joe Bowman, de Houston, Texas, um amigo próximo de Mahoney. Em 06 de fevereiro de 1990, o poema foi lido em tributo ao finado ator no memorial Mahoney realizada no Centro de Desportistas em Studio City , Califórnia. Mais de 350 pessoas, entre amigos e fãs, participaram, incluído Bowman. A leitura foi realizada pela viúva de Mahoney.


Eis o poema traduzido para português:


Para Jock O'Mahoney
07 de fevereiro de 1919 - 15 de dezembro de 1989

Estou voltando para casa
Estive longe por muito tempo.
Uma fogueira no deserto solitário;
O cheiro de sálvia, e distribuição de café;
Diamantes cintilantes em um céu de veludo preto,
Chamando-me para casa.
Eu estive aqui por muito tempo, eu paguei minhas dívidas.
Eu gastei meu tempo.
Eu estive dando meu amor
Eu não feri ninguém, ou coisas por vaidade.
Eu dei uma mão amiga, e recebi uma.
Eu conheci o frio, a fome, e a abundância.
Agora eu sinto as estrelas me chamando para casa.
Eu não sei como cheguei aqui.
Não me lembro de onde.
Mas em casa eu vou saber, quando eu vê-lo.
Eu sei que quando eu estou lá.
Minha mente está pronta.
Eu não tenho nada para se preparar.
O corpo é deste mundo, assim que eu deixá-lo.
Eu nada tomo para mim, para mudar meu destino.
O Senhor é meu pastor, me levando em casa.
As estrelas estão me chamando, me chamando para casa.

Site do original deste poema: http://www.joebowman.com/mahoneytribute.html


FILMOGRAFIA PARCIAL


A Sangue e Espada/ Son of the Guardsman (seriado, 1946)
Bandidos de El-Dorado / Bandits of El Dorado (1949)
Os Cavaleiros da Serra / Horseman of sierras (1949)
A Lei É Implacável / The Doolins of Oklahoma (1949)
Ferradura Acusadora / Punchy Cowpunchers (1950)
O Tesouro do Bandoleiro / The Nevadan (1950)
Santa Fé / Santa Fe (1951)
Trilhos da Morte/ Roar of the Iron Horse (1951)
O Correio das Planícies / Cody of the Pony Express (seriado, 1950)
Tim Relâmpago/The Range Ryder- Série de TV (1953)
O Sinal do Cavalo Branco/ Gunfighters of the Northwest (seriado, 1954)
A Desforra do Estranho / Joe Dakota (1957)
O Covil da Desordem / Showdown at Abilene (1956)
Barcos ao Mar/All The Boats (1956)
Domingo Sangrento / A Day of Fury (1957)
Cavalgada para o Inferno / The Last of the Fast Guns (1958)
Falta um para Vingar / Money, Women and Guns (1958)
Yancy Derringer – Série de TV (1958)
Tarzan, o Magnífico / Tarzan the Magnificent (1960)
Tarzan Vai à India / Tarzan Goes to India (1962)
Califórnia / California (1962)
Os Três Desafios de Tarzan / Tarzan’s Three Challenges (1963)
Muralhas do Inferno/ Intramuros (1964)
O Preço de um Covarde / Bandolero! (1968)
Tarzan e o Silêncio Mortal (TV) / Tarzan’s Deadly Silence (1970)
The Bad Bunch(1975)

Se Não Mato, Morro/The End (1978)


COMO CONVIDADO EM SÉRIES DE TV

COURO CRU/Rawhide (2 episódios, 1960 e 1961)
LARAMIE/Laramie (2 episódios, 1961)
BATMAN/Batman (2 episódios, 1966)
TARZAN/Tarzan (4 episódios, 1966 a 1967)
DANIEL BOONE/Daniel Boone (1 episódio, 1967)
HAVAI 5-0/Hawai 5-0 (2 episódios, 1971)
SÃO FRANCISCO URGENTE/ The Streets of San Francisco (2 episódios, 1973)
KUNG FU/Kung Fu (1 episódio, 1973)
AS AVENTURAS DE BJ/BJ and the Bear (5 episódios, 1979 a 1981)

DURO NA QUEDA/The Fall Guy (4 episódios, 1982-1984)

Produção e pesquisa de Paulo Telles