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domingo, 4 de maio de 2014

Montgomery Clift, o Ídolo Torturado.


Astro cadente no mundo estrelar de Holywood, Montgomery Clift (1920-1966) é um ator inesquecível: o Cowboy de Rio Vermelho e a represália que se pode justificar, o caça-dote de Tarde Demais, a vítima do segredo da confissão de A Tortura do Silêncio, O Medíocre arrivista de Um Lugar ao Sol, o soldado leal e amigo vítima da perseguição de A Um Passo da Eternidade, o desequilibrado de Os Desajustados...ente tantos. Sempre fazendo heróis vulneráveis e frágeis, ambíguos.

Teve um belo rosto (muito parecido com Tom Cruise, ou podemos dizer que Tom Cruise se parece com ele), belo rosto este que foi parcialmente desfigurado por um acidente automobilístico, aparentemente intencional, desfiguração esta que parece ter não atingido apenas seu rosto, mas também a sua alma, pois nunca mais foi o mesmo. Tornou-se desequilibrado, com mania de perseguição, e se tornava chato com frequência. Assim era Edward Montgomery Clift (seu verdadeiro nome), que apesar de todos os desajustes e problemas que enfrentou, era na realidade um homem sensível, versado em brincadeiras com seus amigos e colegas de profissão (como Elizabeth Taylor e Kevin McCarthy), e, sobretudo, um brilhante ator que deixou uma indelével marca na Sétima Arte.


Nascido a 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, EUA, seus pais, William Brooks, um renomado banqueiro, e Ethel “Sunny” Clift, já tinham um filho de 18 meses. Clift era gêmeo de Roberta (depois chamada Ethel), que nascera horas antes dele. Podemos dizer que Montgomery Clift nasceu em berço de ouro e numa família abastada, e seu primeiro nome foi em homenagem ao seu bisavô paterno, que se chamava Montgomery Blair. Em maio de 1928, Monty (como era chamado), com a mãe, os irmãos e a governanta, viajou para a Europa, a bordo do IIe France. Brincando na piscina do navio, outro garoto o manteve por longo tempo sob a água e quase o afogou. Seriamente afetado pela brincadeira de mau gosto, a mãe o levou a um especialista que havia tratado o Kaiser, em Munique. Submetido a demorada e difícil operação, obteve sucesso, mas a cirurgia lhe deixou com enorme cicatriz, bem visível no lado direito do pescoço, nunca percebida nos filmes graças aos recursos dos maquiadores.


Com a queda da Bolsa de Valores do ano seguinte (1929), a situação da família e do seu patriarca, William Brooks, ficou muito abalada, mas a mãe de Monty estava decidida a fazer outra viagem pela Europa, e conseguiu meios de poder realizar, desta vez para a França e Alemanha, onde ficaram de junho a novembro de 1930. Antes de terminar 1931, o pai de Monty estava completamente falido e sem emprego, e foi obrigado a vender até sua casa em Highland Park e a maioria dos móveis que a guarneciam. E a família for morar num quarto mobiliado em Greenwich Village, tendo a mãe que trabalhar em dois empregos para sustento dela e dos filhos. Quando William finalmente encontrou emprego, era tarde: a família estava desagregada, morando na Flórida, onde a vida era mais barata. Moraram em Sarasota até 1933.

O NOVO TUTOR dos meninos, Walter Hayward, lhes ensinara a recitar Shakespeare. Amigo de um produtor teatral local, Hayward soube que ele estava procurando um menino de 12 anos para um papel em As Husbands GO. Pensando que Monty poderia gostar de fazer a parte, falou com Sunny sobre a peça. Ele aprovou a idéia e o adolescente se iniciou como ator profissional. Adorou trabalhar no palco, mas Ethel, a mãe, não estava bem segura acerca de uma carreira profissional para o filho, pois parecia ser pouco digno ser ator. Mas no ano seguinte, ela mudou de opinião. Em outubro de 1935, aos 15 anos, Monty conseguiu ser escalado como o Príncipe Peter, no musical Jubilee, de Cole Porter (1891-1964), que ainda é lembrado principalmente porque o score musical incuía “Begin the Beguine” e “Just One of Those Things”. Entre elogios e reparos, entre sucessos e fracassos, a carreira nos palcos durou até 1945, fazendo com que ele se impusesse como nome respeitável numa nova geração de atores. Muitos poucos sabem, mas Monty Clift também era fascinado pela Medicina. Anos mais tarde, um médico em Hollywood, Rex Kennamer, declarou sobre o ator: “ Tinha enorme conhecimento de Medicina. Com Monty, isso parecia uma extraordinária preocupação, pois tinha maiores conhecimentos de medicações, usos e efeitos do que qualquer pessoa que não fosse médico que jamais conheci”.


HOLLYWOOD estava de olho em Montgomery Clift desde 1941, e o belíssimo filme da Metro Goldwyn Mayer, com Greer Garson, Walter Pidgeon e Teresa Wright, sob inspirada direção do sempre competente William Wyler (1902-1981), Rosa da Esperança (Mrs. Miniver), poderia ter marcado sua estréia cinematográfica. Durante uma excursão de Monty com uma de suas peças teatrais, Louis B. Mayer (1884-1957) lhe ofereceu um papel no filme prestes a entrar em produção. Ele teria aceitado, se Mayer não insistisse no então contrato-padrão de sete anos. Receberia, a princípio, 750 dólares por semana, com aumentos progressivos automáticos. O pai de Monty quis se meter na negociação, insistindo que o filho assinasse o contrato, dizendo: “Você nunca mais terá outra oportunidade como esta”. Mas sabiamente, Monty acreditava que tudo era uma simples questão de tempo os estúdios lhe darem o que desejava. E o papel em Mrs. Miniver foi confiado a Richard Ney. Seu agente, Leland Hayward (1902-1971), sempre dizia que Clift era orgulhoso demais para ficar em Hollywood nas condições que ele queria. Hayward lhe pediu que ficassem em Los Angeles por alguns meses a fim de ter encontros com os chefões dos grandes estúdios. Com muita astúcia, lhe conseguiu um contrato de 6 meses com a MGM, apenas para que permanecesse na Califórnia. Os Big Bosses não podiam entender o desejo de Monty em manter sua independência, avisando-o que poderia “cometer enganos” se o fizesse. Monty respondia a eles: “Vocês não entendem. Quero ser livre para fazer isso”.


RIO VERMELHO (RED RIVER, 1947)

Para o público, o début cinematográfico de Montgomery Clift ocorreu com Perdidos na Tormenta, feito em 1948. Em 1947, porém, convidado por Howard Hawks (1896-1977), fez o papel do impetuoso jovem Matthew Garth, filho adotivo de Thomas Dunson (John Wayne, 1907-1979), em Rio Vermelho, seu primeiro filme, e terminado no mesmo ano.

Ao iniciar a produção do filme, Hawks assinara contrato de distribuição com a United Artist. Com o orçamento estourado em mais de um milhão de dólares, o diretor-produtor preocupou-se com as possíveis rendas do filme, e atrasou o lançamento por quase um ano, na esperança de conseguir outro distribuidor que pudesse lhe dar as garantias de rendas compensadoras. Conseguiu, mas a United recusou-se a liberar o contrato, certa de que poderia trabalhar o filme de maneira satisfatória para Hawks, e lançado somente em 1948, depois de Perdidos na Tormenta- os lucros internos de quatro milhões de dólares provaram que ela estava certa.
 


RED RIVER foi o único Western na filmografia de Clift, e ele atuou como um veterano no gênero, ao lado de “cobras” como John Wayne, Walter Brennan (1894-1974), John Ireland (1914-1992), e Harry Carey (1878-1947). Clift teve cenas espetaculares com o “Duke”, em especial a cena em que se enfrentam, em uma luta violenta usando braços e pernas. E Poética e romântica a cena de amor do filme, quando ele passa a noite com Tess Miller (Joanne Dru, 1922-1996), ao relento, sob uma árvore, com a chuva caindo impertinente.

 

PERDIDOS NA TORMENTA (THE SEARCH, 1948)

Fred Zinnemann (1907-1997) falou-lhe sobre The Search- que veríamos com o título de Perdidos na Tormenta- quando ele ainda estava filmando Red River, e prometeu-lhe, desde que pudesse fazê-lo, 75 mil dólares pelo filme todo, trabalho planejado para seis semanas em locações na Alemanha e na Suíça. Lazar Wechsler (1896-1971), o produtor, lhe deu consentimento verbal para proceder a alteração nos próprios diálogos. Monty preparou-se maravilhosamente para o papel do engenheiro militar Ralph Stevenson, que serve na zona de ocupação americana, na Alemanha do pós-guerra. Ele encontra um menos abandonado, faminto e andrajoso, perambulando por uma Alemanha em ruínas. Karel Malik (Ivan Jandi, 1937-1987), a quem socorre, leva para casa e passa a tratar como filho.

A interpretação que Montgomery Clift deu ao personagem foi extremamente sincera e feliz, valendo-lhe a primeira indicação para o prêmio da Academia, na categoria de melhor ator. E Ivan Jandi (que faleceu em 1987, aos 50 anos, por complicações do diabete) ganhou um Oscar na categoria especial de ator juvenil, pela destacada performance que teve no filme.


TARDE DEMAIS (THE HEIRESS, 1949)

Unanimemente considerado como a mais nova sensação masculina das telas, Monty foi escolhido por William Wyler, em 1949, para a parte de Morris Townsend, o namorado sem escrúpulos da rica herdeira Catharine Sioper (Olivia de Havilland), na adaptação cinematográfica da peça de Ruth e Augustos Goetz The Heiress, baseado no romance Washington Square, de Henry James- que no Brasil se chamou Tarde Demais. E ele foi um convincente caça dotes, um jovem charmoso e irresistível que subjuga a herdeira tímida, recatada e reprimida.

No ano seguinte, Clift quase que repete praticamente o mesmo papel que fizera de Tarde Damais, pois ele foi seriamente indicado para interpretar Joe Gillis em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), mas acabou indo para William Holden (1918-1981), que declarou: “Não consegui o papel pelo fato de Billy Wilder estar louco de que eu trabalhasse no filme. Consegui porque Montgomery o recusou”.

Billy Wilder (1906-2002) recordou anos depois certos fatos sobre Montgomery Clift e sua recusa de estrelar Sunset Boulevard: “A Parte do roteirista Joe Gillis, que se torna gigolô, foi escrita para Montgomery Clift. Duas semanas antes do início das filmagens, nos chega o agente de Monty, nos informando que não faria o filme, com receio do que poderia pensar suas fãs se ele tivesse um caso com uma mulher com duas vezes a idade dele? Bom, eu esperava isso de um ator de Hollywood, mas não de um ator sério que julguei acreditar. Diante disso, William Holden foi escolhido, e ele teve sua primeira indicação pela Academia como melhor ator”.



UM LUGAR AO SOL (AN AMERICAN TRAGEDY, 1951)

Baseado na obra prima de Theodore Dreiser (1871-1945), An American Tragedy – que já havia sido filmado em 1931 pela mesma Paramount, e dirigido por Josef Von Sternberg (que substituiu Sergei Eisenstein), com Sylvia Sidney, Phillip Holmes e Frances Dee e quando lançado no Brasil recebeu o título literal de Uma Tragédia Americana.

Um Lugar ao Sol foi dirigido pelo grandioso George Stevens (1904-1975), e é um dos dois filmes definitivos de Montgomery Clift, junto com A Um Passo da Eternidade.

George Eastman (Clift) nega-se a oportunidade da escolha. Ele é impelido pela sociedade, pelo materialismo americano, pelas mulheres, e por quaisquer outras razões. Ambicioso e impulsivo, é este impulso que o encoraja, até que sua namorada grávida (Shelley Winters, 1920-2006) morre, e perde para sempre a mulher que verdadeiramente ama (Elizabeth Taylor, 1932-2011), acabando penalizado pela lei.

Mas George age por motivos que ele mesmo próprio não compreende. Durante o julgamento, tenta justificar seus atos, mas é tarde demais. Simpático, gentil, enigmático- como se desejável por essas razões, como Ângela Vickers (Elizabeth Taylor) o é por sua beleza e riqueza- chega as raias de incorporar a personalidade cinematográfica de Clift.

UM LUGAR AO SOL ganhou 6 prêmios da Academia, mas Montgomery Clift, na categoria de melhor ator, não ganhou o Oscar, perdendo para Humphrey Bogart (1899-1957) por Uma Aventura na África/The África Queen. Segundo palavras de Charlie Chaplin (1889-1977), Um Lugar ao Sol é "o melhor filme jamais saído de Hollywood". Este filme inspirou a novelista brasileira Janete Clair (1925-1983) a escrever SELVA DE PEDRA, lançado em 1972 na TV brasileira, onde o personagem de Francisco Cuoco, Cristiano Vilhena, era um facsimile  do personagem feito por Monty.


A TORTURA DO SILÊNCIO (I Confess, 1953)


MONTGOMERY CLIFT foi uma escolha perfeita de Alfred Hitchcock (1899-1980) para o papel do Padre Michael William Logan em I Confess, roteiro de George Tabori e William Archbald, baseado na peça Nos Deux Consciences, escrita em 1902.

Otto Keller (O.E. Hasse, 1903-1978) confessa ao Padre Logan (Clift) que havia cometido um homicídio, na pessoa do advogado corrupto Villete (Ovila Legare, 1901-1978). Para praticar o crime, Keller tinha usado uma batina, obtida na igreja do Padre Logan, em Quebeck, onde ele era sacristão. Logan e uma mulher casada, Ruth Grandfort (Anne Baxter, 1923-1985), tiveram um love affair antes de ele ter se ordenado padre e estavam sendo chantageados pela vítima do crime, que sabia do caso. Por isso, recaíram sobre ele a suspeita e a acusação da autoria do crime.

O segredo da confissão não lhe permitia revelar o nome do verdadeiro assassino, nem mesmo ao seu advogado. Mas tarde, a esposa de Keller, o verdadeiro assassino, acaba denunciando o marido. A Polícia o persegue e Keller é baleado ao tentar fugir. Caído na rua, moribundo e cercado por curiosos, faz a confissão final ao Padre Logan, que lhe dá a extrema unção e ele morre em seus braços.


A UM PASSO DA ETERNIDADE (From Here to Eternity, 1952)


Pelos direitos de filmagem do Best Seller de James Jones (1921-1977), sobre a vida na base militar em Pearl Harbor às vésperas da entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, Harry Cohn (1891-1958) pagou 82.000 dólares, sabendo que resultaria num grande filme para a sua Colúmbia Pictures. Mas ele não tinha idéias dos problemas terríveis que enfrentaria para levar adiante seu projeto de levá-lo as Telas. O livro de Jones se estendia pelas 860 páginas, e adaptá-lo sem ferir o espírito da obra não era tarefa nada fácil. Além disso, o romance de Jones guarda elementos quase impossíveis de serem filmados, sem ofender os brios do Exército ou ferir o vigente hiper Código de Produção de Hollywood, o famoso Código Hays, ainda bem vigente em 1952.

Finalmente, quando Daniel Taradash (1913-2003) o presenteou com um roteiro, Cohn sentiu que não era só exeqüível como também fiel ao espírito do romance From Here to Eternity.

Para o papel do soldado Robert Lee Prewitt, um corneteiro que é boxeador, o big shot da Colúmbia queria John Derek ou Aldo Ray, ambos contratados pelo estúdio. Mas Fred Zinnemann queria Montgomery Clift, que foi contratado por 150.000 dólares.

Eli Wallach originalmente foi escolhido para ser o tenaz e sofrido Ângelo Maggio, mas devido a outros compromissos assumidos na Broadway, ele acabou desistindo. Frank Sinatra (1915-1998), com a carreira em declínio, se interessou pelo papel, e embora endividado, ofereceu-se em fazer, trabalhando praticamente de graça. De início, Cohn nem queria saber dele, nem mesmo com uma falada interferência da Cosa Nostra. Somente depois, que Ava Gardner (1922-1990), então mulher de Sinatra, fez uma súplica pessoal por ele que o relutante magnata acabou concordando em testar o ídolo romântico de outros tempos e ex-astro da Metro.O teste impressionou Zinnemann, e a carreira de Sinatra, então em declínio, voltou a espeta, recuperada por menos de 8.000 dólares. E de quebra, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo seu papel.

O resultado de todo o trabalho de produção, o restante do elenco- Burt Lancaster (1913-1994) no papel do complacente Sargento Milton Warden; Ernest Borgnine (1917-2012) como o sádico sargento “Fatso” Judson, que fez do pobre Ângelo Maggio como vítima de sua perversidade; Deborah Kerr (1921-2007), na pele da pouco recatada esposa do comandante da base, Karen Holmes (papel que estava destinado para Rita Hayworth, que recusou, seguida de Joan Crawford) cujo aparente frescor e serena delicadeza britânica intensificaram a colisão das ondas que se encresparam pelas telas dos cinemas do mundo, quando ela e Lancaster usam a praia para uma das mais famosas cenas de amor jamais vistas num filme, ousadíssima para época;

E Donna Reed (1921-1985), no papel da prostituta Alma Lorene, interesse amoroso de Prewitt (Clift), que apesar de não ter sido a primeira escolha de Zinnemann (que queria Julie Harris, mas Harry Cohn achou a aparência da atriz muito “Família” para um papel que exigia muita sensualidade) é uma das grandes responsáveis pelo sucesso do filme que vem atravessando décadas, ganhando 8 Oscars - todo elenco, todos os atores desempenhando muito bem seus papéis.

Mas...e Montgomery Clift?

Mais uma vez, como tantas e tantas outras (e sempre será, afinal, nada é perfeito), a Academia falhou em não premiar Monty como melhor ator, na sua terceira indicação, e talvez, pela melhor performance de esta carreira.


O ACIDENTE
Hoje, sabe-se que Montgomery Clift era homossexual. Talvez para preservar sua imagem de galã, muitos de seus primeiros biógrafos afirmavam que o grande amor de sua vida fosse Elizabeth Taylor (1932-2011). Esta, sempre soube da orientação sexual de Clift, mas as barreiras e empecilhos da época- e fora a Indústria Cinematográfica que não aceitava que seus astros fossem “gays”, algo inaceitável e imperdoável tanto para o público que ia aos cinemas quanto para os padrões e sistema da época- impedia que ele assumisse sua condição.

Monty e Liz ficaram muito amigos, e durante as filmagens de Um Lugar ao Sol, Monty sempre desabafava com Liz. Houve sempre entre os dois uma amizade mútua, baseado sobretudo na confiança.

Na noite de 12 de maio de 1956, Liz, então casada com o ator Michael Wilding (1912-1979), seu segundo marido, ligou para Monty, que morava bem próximo a casa dela, a fim de convidá-lo para jantar. Kevin McCarthy (1914-2010) estaria presente, assim como Rock Hudson (1925-1985- outro homossexual muito amigo de Liz, amizade esta que durou até a morte do ator), e secretária Phyllis Gates.

Monty aceitou o convite. Ele havia tomado decisão de não dirigir mais carro, pois ele ficava amedrontado no volante, e por isto, tinha contratado um motorista particular. Nesta noite, ele estava tão cansado que decidira ficar em casa, dando noite livre para o motorista. Não dirigia a meses, mas, assim mesmo, pegou o carro e tomou o rumo da casa de Liz, aonde chegaria em 4 a 5 minutos.

Durante o jantar, apenas tomou um pouco de vinho e nada mais bebeu durante toda noite. Por volta da meia noite e meia, despediu-se e saiu com McCarthy, deixando a luxuosa mansão, localizada bem do alto de uma colina, com a expressa recomendação de Liz para que seguisse de perto o carro de Kevin, para sua maior segurança. E ele prometeu que assim ele faria, para ela não se preocupar.

De repente, ouvi um terrível estrondo”, contou Kevin (foto). “Parei meu carro e dei marcha a ré dentro da noite, para encontrar o dele, destruído contra um posto telefônico. Senti cheiro de gasolina e procurei desligar a ignição, mas estava tãoescuro que não podia ver nada, nem mesmo Monty. Aterrorizado, voltei rápido para a casa dos Wildings, batendo forte na porta e gritando para que chamassem uma ambulância, sem saber se Monty estava vivo ou morto”.

Tanto Kevin como Michael tentaram impedir Elizabeth Taylor de descer a colina e ir até o local do acidente em eles, mas, como acrescentou Kevin: “Ela estava desesperada, ela lutou conosco como um tigre e desceu correndo a colina”.

E LIZ TAYLOR diria: “O rosto de Monty escorria sangue e mal podia vê-lo. Mas me arrastei para dentro do carro e coloquei-lhe a cabeça no meu colo. Finalmente, ele voltou a si e começou a tentar puxar um dente solto. E Pediu-me para puxar outro e eu o atendi. Tive que me controlar para não passar mal”.

Chega o Dr. Rex Kennamer, que auxiliado por Rock Hudson, consegue retirá-lo do carro. Liz entrou na ambulância com ele, e chegaram ao Hospital Cedros do Líbano. Quando Clift foi levado para a sala de operações, Liz entou em forte crise de histerismo.

O Dr. Kennamer detalhou os estragos na face e no corpo de Monty: lacerações no lado esquerdo da face, com um nervo cortado, deixando aquele lado entesado e a boca torta; nariz quebrado e esmagamento da cavidade óssea; ambos os lados do maxilar quebrados, três dentes frontais perdidos; grave concussão cerebral; deslocamento do pescoço.

Clift recuperou-se por algum tempo no hospital, onde depois de três semanas, os médicos descobriram que um lado do maxilar havia sido engastado incorretamente. Tiveram de quebrá-lo e reengastá-lo.

Com o rosto sensivelmente desfigurado, evitaram de lhe dar papéis que pediam rostos bonitos e perfeitos, e desde aquele momento ele passou a fazer personagens sofridos, que iam de acordo com seus novos traços faciais, seu novo visual. Montgomery Clift, que já tinha tendências depressivas, nunca mais foi o mesmo. A alma também fora profundamente atingida e ele se transformou num homem amargurado e triste. Um homem torturado.




A ÁRVORE DA VIDA (Raintree County, 1957)

Em abril de 1956, a MGM havia iniciado a produção de A Árvore da Vida, com status de superprodução, tendo como principais destaques do enorme elenco Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, e Eva Marie Saint. Preocupado de Clift estar bebendo exageradamente (mesmo antes do acidente), o produtor (e depois chefe da MGM) Dore Schary (1905-1980) fez um seguro do filme, o que nunca havia acontecido antes por 500.000 dólares, para cobrir qualquer problema que pudesse ocorrer durante a produção. Estavam as filmagens em meio quando aconteceu o acidente com o carro do ator, e elas foram interrompidas por nove semanas.

Recebendo alta dos médicos, Clift apresentou-se prontamente aos estúdios para o reinício das filmagens. Em dores constantes e tomando regularmente codeína e um sortimento de pílulas que trazia numa sacola. Clift sentia que devia aos colegas e ao estúdio a imediata volta ao trabalho. Era cedo ainda, mas os sensos de responsabilidade e coleguismo prevaleceram. O rosto ainda estava inflamado. O perfil direito foi menos danificado e, assim, ele foi mais fotografado por este ângulo, com mais freqüência. Os olhos- sempre o melhor de sua imagem- nem sempre estavam claros e limpos. Mesmo com o uso contínuo de colírios, mostravam-se muito irritados e vermelhos, redobrando os cuidados de Robert Surtees (1906-1985), diretor de fotografia (Ben-Hur).


Pela extrema dedicação de Monty e seu amor ao filme, Edward Dmytryk (1908-1999) conseguiu terminá-lo; o lançamento ocorreu a 4 de outubro de 1957, com 165 minutos de projeção condensando o massudo romance de Ross Lockridge Jr (1914-1948), que são de 1.066 páginas. Com o roteiro de Millard Kaufman (1917-2009), seguindo muito perto a obra em que se baseia, acontecimentos históricos e personagens matizados, cujos diálogos dão vida a trama que se inicia em 1859, quando o “Professor” Jerusalém Webster Stilles (Nigel Patrick, 1913-1981) fala aos alunos John Wicklift Shawnessy (Clift) e Nell Gaither (Eva Marie Saint), formandos em curso secundário, em Fairhaven, Indiana, da existência de uma árvore dourada, que representa a verdade e a realização, oculta em algum lugar do condado- e eles logo se põem a procurá-la.

Embora Nell e John sejam namorados, ele se casa com a bela Susanna Drake (Liz Taylor), quando ela lhe revela esperar um filho dele. Susanna mentia para forçá-lo ao casamento. Em visita ao Sul, John fica sabendo do confuso estado mental de Susanna, envolvendo temores de miscigenação e um mistério cercando a morte dos pais num incêndio. Nasce um filho do casal. Irrompe a Guerra Civil Americana (1861-1865), e John fica em casa, dando aulas e cuidando de seu filho Jimmy e de sua esposa cada vez mais perturbada.

Um dia Susanna foge de casa com o menino e John se alista no Exército da União para tentar encontrar vestígios deles. Acaba por descobrir Jimmy abrigado por antigos escravos de Susanna e o leva consigo. Terminada a Guerra, localiza Susanna num hospício e volta para Indiana.

Aparentemente recuperada, mas acreditando que seu comportamento vem impedindo John de buscar a árvore fabulosa, Susanna foge uma noite à procura dela, sendo seguida por Johnny, que dera sua falta. No dia seguinte, é encontrada morta no pântano, e John e Nell, reunidos finalmente, encontram Jimmy (Mickey Maga) ao sopé de uma árvore dourada.


ÚLTIMOS FILMES

Entre 1958 e 1966, fez seus últimos seis filmes. Os Deuses Vencidos, como o insignificante e odiado soldado judeu Noah Ackerman. Em Paris, onde o filme estava prestes a ser rodado, Monty desapareceu, prejudicando toda equipe e atrasando as filmagens. Foi descoberto muitos dias depois, no Sul da Itália, em um bordel imundo.

De 1959, Por um pouco de Amor, fazendo um colunista sentimental, contracenando com Robert Ryan (1909-1973), a veteraníssima Myrna Loy (1905-1993, em 115º filme) e Dolores Hart. De Repente no Último Verão, baseado na peça de Tennessee Williams (1911-1993), roteiro de Gore Vidal e do próprio Williams, pela terceira e última vez contracenando com sua grande amiga Elizabeth Taylor, e pela primeira (e única) vez com a Diva Katharine Hepburn (1907-2003). 1960, um encontro com Elia Kazan (1909-2003) em Rio Violento, que dirigiu Clift em um drama estranhamente perturbador, contracenando com Lee Remick (1935-1991), Albert Salmi (1928-1990), e Jo Van Fleet (1914-1996).

No mesmo ano, John Huston (1906-1987) dirigiu Clift e um elenco all star no que é considerado um de seus piores filmes- Os Desajustados. Só elenco era de primeira, trazendo Clark Gable em seu último filme (ele morreria em novembro de 1960), e Marilyn Monroe (1926-1962), que como Clift, também andava dando problemas durante as filmagens, e como Gable, também se despediu das telas com este filme.

Julgamento em Nuremberg, como o esterilizado deficiente mental Rudolf Petersen, papel de 7 minutos. Stanley Kramer ofereceu 50.000 dólares (pelo filme Os Desajustados, Clift recebeu 200.000), mas os agentes do ator aconselharam a não aceitar, para não abrir um precedente, mas Kramer insistiu pessoalmente com ele e o contrato foi assinado por uma quantia mínima, a título simbólico, mas despesas. Pelos 7 minutos de presença na tela, teve pela quarta e última vez o nome indicado pela Academia para suas premiações anuais, desta vez como melhor ator coadjuvante. Dele disse Stanley Kramer (1913-2001): “Clift é um dos três ou quatro maiores atores que existem".

Voltou a ser dirigido por John Huston em Freud, além da Alma, filme difícil, de cujo elenco também participou Susannah York, Larry Parks (1914-1975), Susan Kohner e David McCalum. Do seu trabalho, Huston se recordaria: “Ao fim, penso que ele deu uma interpretação extraordinária. Freud era um homem torturado. Ao menos, conseguiu um ator torturado.”

Em outubro de 1965, foi recomendado pelo escritor Salka Viertel ao produtor-diretor Raoul Lévi (1922-1966) para fazer o papel principal de um thriller de espionagem que ele havia escrito com base num romance de Paul Thomas – The Defector. Inteiramente filmado em locações na Alemanha, o filme foi lançado em 1966 e marcou a despedida de Clift das telas.

As condições de saúde de Montgomery Clift se deterioravam ano após ano. Em janeiro de 1962, foi operado de uma hérnia e veias varicosas. Em dezembro do mesmo ano, à primeira de duas operações de catarata. O trabalho no Cinema, cada vez mais escasso, e com problemas de saúde e de bebida, tornou-se um ator pouco confiável. A memória, sempre considerada excelente, já não era a mesma.

Na manhã de 23 de junho de 1966, Montgomery Clift foi encontrado morto, às 6 horas da manha, por um amigo que cuidava dele em seus últimos anos. Levado para o necrotério da cidade, o legista fez a necropsia, e declarou que o ator tinha morrido de explosão da artéria coronariana. O ator esta sepultado em um cemitério Quaker, em Broklyn, Nova York(foto).


O TEATRO E O CINEMA- DECLARAÇÕES DE MONTGOMERY CLIFT


Não tenho medo de ser estereotipado. O maior perigo é demonstrar segurança, ser digno de confiança. A Mais forte motivação, em um ator é a prova, o experimento. Tudo o que nos desenvolve é digno de ser interpretado, mesmo se for um fracasso.”

Em muitos aspectos, a tela é um meio mais satisfatório do que o palco. A sinceridade chega melhor ao ator e há mais oportunidade para sutilezas, porque a câmara nos esta em cima o tempo todo”.

E SE CONTRADIZ:
O desafio de interpretar nos palcos é maior no que nos filmes. Não há policiamento diante de uma personalidade isolada. Se você tem um papel extenso, tem que agüentá-lo, e bem.

Criticado pela escassez do guarda-roupa, disse: “Tenho um terno de que gosto muito e pretendo mantê-lo enquanto as boas traças o pouparem”.

Reprodução de uma matéria de 17 de outubro de 2010, mais atualizada, com base em artigo de João Lepiane, da Revista Cinemim nº 82- março/abril de 1993.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Cinema Religioso Cristão – Parte 2


Por Paulo Telles

Continuando o artigo referente ao cinema religioso cristão, onde abordaremos sobre os filmes com temáticas bíblicas e religiosas, além de dramas de cunho religioso, onde não necessariamente sejam mensagens do Evangelho, mas podendo se tratar de maneira soberana a humanidade dos seus personagens dentro do pano da fé. 





A FÉ CATÓLICA SOB O PRISMA DO CINEMA – CONTINUAÇÃO


Embora não seja um drama religioso, mas sim um suspense psicológico dirigido pelo Mestre Alfred Hitchcock (1899 – 1980), A Tortura do Silêncio, de 1953, trata o drama humano vivido por um padre, encarnado aqui por Montgomery Clift (1920-1966). Clift foi uma escolha perfeita de Hitchcock para o papel do torturado Padre Michael William Logan.  I Confess, com roteiro de George Tabori e William Archbald, foi baseado na peça Nos Deux Consciences, escrita em 1902.


Otto Keller (O.E. Hasse, 1903-1978) confessa ao Padre Logan (Clift) que havia cometido um homicídio, na pessoa do advogado corrupto Villete (Ovila Legare, 1901-1978). Para praticar o crime, Keller tinha usado uma batina, obtida na igreja do Padre Logan, em Quebeck, onde ele era sacristão. Logan e uma mulher casada, Ruth Grandfort (Anne Baxter, 1923-1985), tiveram um love affair antes de ele ter se ordenado padre e estavam sendo chantageados pela vítima do crime, que sabia do caso. Por isso, recaíram sobre ele a suspeita e a acusação da autoria do crime.


O segredo da confissão não lhe permitia revelar o nome do verdadeiro assassino, nem mesmo ao seu advogado. Mas tarde, a esposa de Keller, o verdadeiro assassino, acaba denunciando o marido. A Polícia o persegue e Keller é baleado ao tentar fugir. Caído na rua, moribundo e cercado por curiosos, faz a confissão final ao Padre Logan, que lhe dá a extrema unção e ele morre em seus braços. Um estudo acurado analisado pela ótica de Hitch (que era ateu) sobre a ética de um sacerdote, que não abre a mão de suas convicções e de sua tarefa, mesmo que isto possa prejudicar o trabalho da lei em cumprir o seu dever.


 A Warner divulgou Uma Cruz a Beira do Abismo, uma das obras mais rigorosas de Fred Zinnemann (1907-1997) a respeito da fé e da abnegação. Ao ler o Best Seller de Kathryn C. Hulme (1900-1981), inspirado em fatos reais que envolveram a filha de um respeitado cirurgião belga, Gabrielle Van Der Mal, a partir de sua entrada para um convento, trabalhando como enfermeira no Congo até sua decisão de abandonar os votos, Zinnemann desejou ardentemente filma-lo. Nenhum estúdio se interessou por tema considerado pouco comercial, até Audrey Hepburn (1929-1992) manifestar interesse em interpretar a religiosa, a Irmã Luke.


Zinnemann, um judeu, efetuou com respeito, veracidade e gosto documental um acurado estudo da disciplina católica. Confessando-se profundamente tocado pelo que reproduzia, o cineasta exigiu que sua equipe técnica, assim como os atores, exercesse o máximo de fidelidade em seus trabalhos. Entre a elaboração e a produção um ano e meio, e Miss Hepburn passou meses visitando hospitais e convivendo com freiras, para compor em detalhes seu personagem.


Em 1930, a jovem Gabrielle Van der Mal (Audrey Hepburn), filha de um famoso cirurgião, decide largar tudo e se tornar freira, fazendo votos de pobreza, obediência e castidade. Ela tem dificuldades para se adaptar as novas regras, mas se dedica ao máximo nos seus estudos de medicina. Seu maior desejo é ir trabalhar como enfermeira no Congo Belga, mas após a primeira prova é enviada a enfermaria de um sanatório. Depois de alguns anos lá, ela finalmente consegue ir para a África, onde conhece o cínico, ateu e brilhante médico Fortunati (Peter Finch, 1916-1977).



Outra produção, desta vez realizada na Europa, veio a mexer os alicerces da Igreja Católica, mas que acabou sendo uma das fitas selecionadas entre os cem melhores filmes de acordo com o Vaticano, na categoria de Religião.  Trata-se de Nazarin, de 1959, obra prima de Luis Buñuel (1900 - 1983), que conta a história de um humilde padre privado de sua paróquia por uma hierarquia arrogante. Visto como louco perigoso, Nazarín sabe que sua loucura consiste na imitação de Cristo, e Buñuel o lança num fascinante "road movie". No caminho, em diversos momentos, a vontade cristã de Nazarín encontra apenas desprezo, enganação e violência. Sua fé no ideal cristão (a vida de Jesus) é comparável à fé de Dom Quixote no ideal cavalheiresco.



Antes de pôr sua fé à prova, Nazarín sabe que Cristo individualiza a salvação, pondo ao alcance de todos. Mas, depois de sua via-crúcis, o sacerdote ganha a consciência de que a imitação de Cristo significa escândalo, desordem, águas revoltas, e seus ideais, em deveras, o transforma num inimigo da ordem, tal como Jesus foi em seu próprio tempo. O padre, vivido pelo galã espanhol Francisco Rabal (1926-2001), um ótimo ator, é um dos grandes méritos deste filme.


O Cardeal, dirigido por Otto Preminger (1905-1986) é uma adaptação do romance de Henry Morton Robinson (1898-1961) e relata a vida do jovem Stephen Fermoyle (Tom Tryon, 1926-1991), um padre irlandês-americano que está para se tornar Cardeal. A longo de seus 175 minutos de projeção, acompanhamos as lembranças de Fermoyle, cujo forte compromisso com as questões sociais irão levá-lo através de um labirinto de política e preconceitos da igreja católica. Mas jornada Fermoyle terá de passar por varias provas que irão botar sua fé à prova.


Duas passagens do filme retratam bem essas situações: na primeira, uma série de ações dele termina por levar a irmã ao suicídio após engravidar; na outra, acaba espancado ao ajudar um padre negro no sul dos EUA. Tom Tryon, que era um ator limitadíssimo, não leva as plateias a se identificar com o personagem. Tryon seria mais bem sucedido como escritor tempos depois.


O diretor John Huston (1906-1987) brilha no papel do sarcástico Cardeal Glennon, e isto é constatado em uma frase dele na fita:  Nos nunca tivemos um padre que trabalhava com a máfia antes. Mas suponho que você fez alguns contatos interessantes em Roma”. Este papel deu a Huston o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante bem como uma indicação ao Oscar.

III-A ERA DAS SUPERPRODUÇÕES RETUMBANTES.


No início dos anos de 1950, a televisão já era um veículo cada vez mais acessível para os lares americanos, e novamente, os “fazedores de filmes” e os donos das salas exibidoras enfrentavam o fantasma da ausência de plateias nos cinemas. Parecia que o cinema, tanto como arte como entretenimento estava com seus dias contados, graças à nova e pequena mídia que estava tomando conta na vida dos americanos.

Além disso, o início dos anos de 1950 também marcou na vida dos americanos, no seu panorama político, em especial em Hollywood, a promoção da discórdia em que certo Senador Joseph McCarthy (1908-1957) resolveu difundir uma perseguição aos “comunistas” nos EUA, o chamado Caça as Bruxas, onde a liberdade de expressão dos artistas e de inúmeros profissionais da esfera cinematográfica (atores, diretores, roteiristas, técnicos) foi ceifada, incentivando mesmo que artistas integrantes do Partido Republicano denunciassem seus colegas de profissão de ideologia oposta, deixando eles sem emprego e sem identidade, já que como exemplo, muitos roteiristas não puderam sequer assinar seus nomes nos seus scripts, deixando muitos destes profissionais na Lista Negra de Joseph McCarthy.


Mesmo nesta época de medo e de listas negras, o cinema americano começou a produzir épicos religiosos piedosos, e de preferência, com orçamentos faraônicos, onde eram produzidos fora dos States.  Um belo e espetacular exemplo, foi o Colossal Quo Vadis, produzido em 1951 por Sam Zimbalist, e rodado nos estúdios de Cinecittá, em Roma, a Hollywood italiana.


Extraído da obra literária publicada em 1897 pelo polonês Henryk Sienkiewicz (1846-1916), prêmio Nobel de Literatura em 1905, e anteriormente levada às telas em três ocasiões na era do cinema mudo, sendo a mais famosa a versão de 1924, estrelado por Emil Jannings (1884-1950), como Nero. A primeira versão data de 1902, de Ferdinand Zecca (1864-1947), o mesmo pioneiro que dirigiu, em 1905, La vie et la passion de Jésus Christ, mas hoje a película esta perdida e não há maiores informações. A Segunda versão cinematográfica do romance de Sienkiewicz é de 1912.


A versão de 1951 levou 12 anos em preparativos e começou a ser filmado em 1949, sob direção de John Huston, e os astros principais eram Gregory Peck (como Marcus Vinicius) e Elizabeth Taylor (como Lygia). Porém, o Chefão da Metro, Louis B. Mayer (1884-1957), não gostou do script, que queria um épico religioso aos moldes de Cecil B. DeMille, e não um tratamento moderno, no então momento, dado a Nero, assemelhando-o a Adolf Hitler em sua obstinada perseguição aos Cristãos, seu protótipo parceiro de loucura. Afinal, não fazia muito tempo que a II Guerra havia acabado.


Dirigido por Mervyn Leroy (1900-1987), Nero é interpretado de forma soberba e espetacular por Sir Peter Ustinov (1921-2004), que foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante junto com Leo Genn, que faz a parte de Petronius, seu conselheiro.



Na Roma do Século I, o oficial Marcus Vinicius (Robert Taylor, 1911-1969), sobrinho de Petronius (Leo Genn, 1905-1978), conselheiro de Nero (Ustinov), apaixona-se por uma ex escrava cristã, Lygia (Deborah Kerr, 1921-2007), filha adotiva de um general e adepta do cristianismo emergente. Através dela, Marcus acata aos poucos a fé religiosa e indispõe-se com o regime de Nero e o paganismo romano.  Um opulento espetáculo, contendo alguma das mais grandiloquentes sequências do cinema épico: a marcha triunfal das legiões romanas, o sacrifício dos cristãos, a loucura de Nero, e o incêndio de Roma. A partitura musical célebre de Miklos Rozsa (1907-1995) foi a primeira trilha sonora do cinema que obteve grande vendagem de discos, inclusive no Brasil, e ajudou a garantir a extraordinária popularidade desta refilmagem para o cinema contemporâneo.




Destaque também para a luta do Gigante Cristão Ursus (interpretado pelo Lutador Buddy Baer, 1915-1986) contra um touro no Circo romano, para salvar Lygia, sua protegida, amarrada num tronco . Embora fascinante luta entre o gigante e o animal, esta versão de Quo Vadis foi a única a não respeitar o romance de Sienkiewicz, no tocante à cena em que Ursus enfrenta o touro na arena do circo de Roma. Baer foi dublado pelo toureiro português Nuno Salvação Barreto nas cenas em que o gigante tinha que segurar o touro.


 Mesmo depois do estrondoso sucesso de Quo Vadis, as salas de cinema perdiam concorrência com os televisores de casa, e para isso, os produtores e engenheiros precisaram inovar para vencer a concorrência com a TV. Era necessário expandir o formato de tela. O Cinemascope já era um processo antigo antes de seu lançamento oficial nos anos de 1950. Brilhantemente, Darryl F. Zanuck (1902-1979), o chefão da 20ª Century Fox, encontrou a solução para sobrepujar a concorrência com a telinha, quando se lembrou do invento do francês Henry Chrétien, patenteado em 1927, com o nome de Sistema Hypergonar, que consistia basicamente numa câmara de lente anamórfica, capaz de criar imagens destinadas a uma tela duas vezes maior que a tradicional. Aperfeiçoando e "estereofonizado", o processo criado por Chrétien ressurgiu com o nome de Cinemascope, e rendendo uma fortuna aos cofres da Fox.



Com esta vitória da Indústria Cinematográfica Hollywoodiana, que conseguiu com isto promover a volta do público para as grandes salas, O Manto Sagrado/The Robe ficou na história como o primeiro filme a ser lançado no formato Cinemascope, levando plateias no mundo inteiro aos cinemas, e um dos filmes mais exibidos nos feriados de Páscoa em muitos cinemas do Brasil (em alguns lugares, ficou em cartaz por quase 10 anos).




Em Roma, durante o reinado de Calígula (Jay Robinson, 1930-2013), o tribuno Marcellus Gallio (Richard Burton, 1925-1984) vai à Jerusalém crucificar Jesus Cristo e é enfeitiçado pelo manto de Cristo, que havia ganhado no jogo de dados.  Mais tarde, volta a Palestina em busca do manto, e converte-se a fé cristã, ao lado de seu escravo Demétrius (Victor Mature, 1913-1999) e sua amada Diana (Jean Simmons, 1928-2010), e São Pedro (Michael Rennie, 1909-1971). Superprodução de Frank Ross (1904-1990) e dirigida por Henry Koster (1905-1988) , extraída do Best Seller escrito em 1942 por Lloyd C. Douglas (1877-1951).  A trilha sonora foi encarregada por Alfred Newman (1901-1971), de A Canção de Bernadete. O direito do romance chegou a ser comprado pela RKO, que no início dos anos de 1950, vendeu para 20ª Century Fox, como veículo para Tyrone Power, mas este não se interessou.


 O Manto Sagrado foi um estrondoso sucesso e foi ocasião ímpar em toda História da Cinematografia, pois todas as salas de cinema tiveram que ser reformadas para recepcionar o lançamento deste êxito das telas.  A Fox, que detinha os direitos do livro de Douglas, não sabia o que fazer com as demais 200 páginas do romance, e aproveitando o embalo do sucesso de The Robe, o estúdio resolveu fazer uma sequência da obra, em 1954. The Robe ainda conquistou o Oscar de melhor cenografia a cores e um Oscar especial pela novidade técnica que viria a revolucionar esteticamente todo o cinema.



No ano seguinte a Fox lança Demétrius e os Gladiadores (lançado aqui no Brasil e exibido algum tempo na TV brasileira como Demétrius, o Gladiador), continuação da saga de O Manto Sagrado. Sob a direção de Delmer Daves (1904-1977) especialista em dramas e westerns (Galante e sanguinário), e repetindo Mature (Demetrius), Michael Rennie (São Pedro) e Jay Robinson (Calígula) nos seus respectivos papéis em The Robe. Produzida por Frank Ross, que havia também produzido a obra anterior, realizou juntamente com o diretor Delmer Daves uma fita superior, porque substituiu a religiosidade melodramática de O Manto Sagrado por exuberante ação física e estimulantes aspectos aventurescos, em detrimento da atmosfera de melodrama religioso do filme anterior.




Escrito por Philip Dunne (1908-1992) com base nos personagens de Lloyd C Douglas, Demétrius e os Gladiadores transcorre após a morte de Marcellus (Richard Burton) e Diana (Jean Simmons), ocorrida no desfecho de O Manto sagrado. O cristão Demétrius, perseguido pelo imperador por ter escondido o Manto de Cristo, é preso e feito gladiador na arena, comandada por Strabo (Ernest Borgnine, 1917-2012). Quando sua amada Lucia (Debra Paget) entra em estado de choque ao risco de ser violentada por um dos gladiadores, Dardanius (Richard Egan, 1921-1987), Demetrius perde a fé e sucumbe aos encantos de Messalina (Susan Hayward, 1918-1975). Trilha sonora de Franz Waxman (1906-1967), com base no repertório de Alfred Newman. As sequencias de treinamento na arena são excelentes e o espetáculo se impõe pelo nível de presença, constituindo um dos melhores exemplares realizados no cinema épico e religioso. 

Mas as superproduções épicas religiosas foram investimentos de outros estúdios, como a Colúmbia. Após a conversa em que o presidente da empresa Harry Cohn teve com seu irmão Jack, sobre produzirem um filme bíblico (que originou até mesmo uma aposta para saber se um sabia rezar o Pai Nosso, como vimos no prólogo da primeira parte deste artigo), este enfim concordou em produzir Salomé.




 Harry escolheu William Dieterle (1893-1972) para dirigir Salomé em 1953, épico bíblico em que retomava a personagem vivida anteriormente por Theda Bara (em 1918) e Nazimova (em 1922). Mesmo com constantes atritos entre Harry Cohn e a estrela principal contratada do estúdio, Rita Hayworth (1918-1987), esta aos 35 anos e executando a célebre dança dos sete véus, a trama  se direciona na história da Princesa Salomé (Hayworth) filha da rainha Herodiade (Dama Judith Anderson, 1897-1992),  que pede para que a filha volte de Roma, onde fora educada longe do padrasto, o rei Herodes (Charles Laughton, 1899-1962).




Deixando em Roma o seu amante, Marcellus (Rex Reason), filho do imperador Tibério (Cedric Hardwicke, 1893-1964), Salomé vem a conhecer o comandante Claudio (Stewart Granger, 1913-1993), por quem se apaixona. Na Galiléia, vem a encontrar o profeta João Batista (Alan Badel, 1923-1982), que é preso e jogado aos ergástulos do palácio de Herodes, e que para salvar a vida do profeta, Salomé terá que dançar num banquete oferecido pelo monarca. Escrito por Jesse Lasky Jr (1910-1988) e Harry Kleiner (1916–2007), o roteiro foge do que rezam as Escrituras, pois Salomé como recompensa pela dança pediu a cabeça de São João Batista. Como ocorria de praxe em muitas produções ao estilo, a figura de Cristo aparece também, mas não o seu rosto e sim pelo gesto de suas mãos através de seus milagres ou mesmo pela sua silhueta.


Outro estúdio a investir no cinema épico bíblico foi a Warner, ao lançar, em 1954, O Cálice Sagrado, que tentou ser uma resposta ao clássico O Manto Sagrado, lançado no ano anterior pela Fox. Também baseado em romance de autoria de Thomas B. Costain (1885-1965), e dirigido pelo veterano Victor Saville (1895–1979), a fita foi a estreia de Paul Newman (1925-2008) nas telas.


Apesar de um grande elenco reunindo nomes como Jack Palance (1919-2006), Pier Angeli (1932-1971), Virginia Mayo (1920-2005), Joseph Wiseman (1918-2009) e o futuro astro da série de TV Bonanza, Lorne Greene (1915-1987, que interpreta São Pedro), o filme não emplacou bem nas bilheterias, talvez porque tivesse se preocupado mais em tratar a religiosidade do que a ação. Os cenários (muito artificiais), e também a fotografia em WarnerColor, foram itens que não ajudaram muito no êxito da película. Paul Newman sempre declarou em vida não gostar do filme, achando um “lixo”.



No século l d.C., Basílio (Paul Newman), um escultor grego, é vendido como escravo por seu vil tio. Logo, ele é de novo comprado por pessoas que sabem do seu grande talento como escultor para fazer um trabalho único: usando o cálice que Jesus usou na ultima ceia , fazer uma peça de prata na qual estariam esculpidas os rostos dos discípulos e do próprio Jesus.




Basílio então viaja para Jerusalém. Paralelamente um sórdido mágico, Simão (Jack Palance, em uma atuação esplendida e soberba), tenta convencer a multidão que é um novo messias, usando truques baratos. Basílio se casa com a judia Débora (Pier Angeli), mas sente-se fortemente atraído por Helena (Virginia Mayo), que é amante de Simão. Repentinamente o cálice é roubado pelos sicários para favorecer Simão, que quer irritar Pedro (Lorne Greene), ostentando o cálice em Roma, mas o cálice é recuperado. No entanto um futuro obscuro esta reservado para magnífica peça.


Em 1955, a Metro lançaria O Filho Pródigo também em Cinemascope, escrito por Joseph Breen (1918–1984), roteirista, ator e diretor (que dirigiria em 1959 o filme espanhol Os Mistérios do Rosário, uma versão da Vida de Jesus).  Baseado na parábola de Jesus do Novo Testamento, adaptado por Breen e Samuel James Larsen ,a trajetória do filho egoísta que deixa sua família em busca de riquezas.

Dirigido por outro veterano, Richard Thorpe (1896-1991), e com trilha sonora de Bronislau Kaper (1902–1983), o drama religioso também apresenta Edmund Purdom (1924-2009) no papel do jovem Micah, que abandona sua família e sua casa para viver em aventuras em país estrangeiro. Apaixona-se pela sacerdotisa pagã Samara (Lana Turner, 1921-1995), que o leva a ruína e ainda terá que enfrentar inimigos, como o sacerdote Nahreeb (Louis Calhern, 1895-1956) e seu guarda costas, Rhakim (Neville Brand, 1920-1991). Após a morte de Samara e dos inimigos em uma revolta armada, Micah volta a casa de seu pai Eli (Walter Hampden, 1879–1955), onde suplica para que fique em troca de escravidão, mas como reza a parábola, o pai o perdoa, mesmo sob censura do irmão mais velho (John Dehner, 1915-1992), que também o acaba perdoando.


 Como se pode perceber, as produções bíblicas no cinema estavam em alta roda, principalmente depois do sucesso de Os Dez Mandamentos, em 1956, dirigido por Cecil B.DeMille (1881-1959), que levou multidões as salas de cinema de todo mundo. Anos atrás, o próprio cineasta havia previsto o milagre da multiplicação de renda através das superproduções baseadas na Bíblia Sagrada, e isso veio a se solidar quando o cinema conseguiu ampliar suas técnicas visuais, pois não era só o Cinemascope que veio a mudar esteticamente todo o cinema para evitar perder para a televisão, pois vieram outros formatos como o processo VistaVision, lançado pela Paramount, a Câmera 65 (que viria se tornar Panavision), e o Techinirama 70mm, entre outros. Toda estas inovações cabiam bem melhor em altas superproduções.

Em 1958 a Metro se encontrava em grave situação financeira, a ponto de declarar falência. A empresa queria relançar um de seus grandes sucessos, o clássico religioso Ben-Hur, de 1925, estrelado por Ramon Novarro (1899-1968) e dirigido por Fred Niblo (1874-1948), mas desta vez com outros atores e em superprodução de Sam Zimbalist (1904-1958), que pretendia rodar em Roma, nos estúdios de Cinecittá (o mesmo estúdio onde sete anos antes havia produzido o monumental Quo Vadis), e também em Anzio e no Egito.



A história, baseada no dramático Best Seller escrito em 1880 pelo general Lew Wallace (1827-1905), herói da Guerra Civil Americana (1861-1865), e traduzido para vários idiomas, poderia voltar a ser um sucesso de público e crítica, mas o projeto parecia ser muito arriscado para a quase falida Metro.  Para dirigir, um Mestre responsável pelos maiores clássicos do cinema americano: William Wyler (1902-1981).



O papel principal foi oferecido primeiramente a Burt Lancaster (1913-1994), que recusou. Depois ofereceram para Marlon Brando (1924-2004), que também recusou, até oferecerem a Rock Hudson (1925-1985), que quase aceitou, mas numa última hora teve que declinar do convite, já que estava preso a um contrato com outro estúdio, a Universal. Finalmente, o papel foi oferecido a Charlton Heston, que já estava cotado para ser o vilão Messala, com Rock Hudson no papel principal.


Robert Ryan (1909-1973) estava cogitado para ser Messala ao lado de Heston, mas um problema o impediu de aceitar, e logo, o irlandês Stephen Boyd (1928-1977) ganhou o papel de um dos mais famigerados vilões do cinema. A sugestão do papel principal para Heston foi dada por Cecil B. DeMille a Wyler, já que o cineasta de Os Dez Mandamentos havia dirigido o ator neste estrondoso clássico religioso, e em suas memórias, traçou muitos elogios ao jovem astro de 35 anos.


Poucos acreditavam que William Wyler seria o nome mais indicado para levantar e controlar um projeto tão faraônico. Sua carreira confirmava seu talento em obras íntimas e diferentes, nas quais dirigiu talentos como Bette Davis, Olivia de Havilland , Montgomery Clift, Laurence Olivier, entre outros.

Disse ele numa entrevista pouco antes de sua morte, em 1981:

Me pediram para que me encarregasse do filme. Não era o estilo cinematográfico que vinha fazendo, mas senti curiosidade para ver se era capaz de fazer algo ao estilo de Cecil B. DeMille", disse o cineasta, em alusão ao filme como Os Dez Mandamentos. "Além disso, pensei que este filme faria muito dinheiro e que eu poderia ficar com algo", acrescentou Wyler, que cobrou US$ 1 milhão para dirigir o filme.


A Saga do Príncipe judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston), que vive na Jerusalém ocupada pelos romanos. Um dia, ele é injustamente acusado de atentado contra a vida do novo procurador de Roma, Valerius Gratus (Mino Doro, 1903-2006) por um amigo de infância, o segundo em comando e Tribuno Messala (Stephen Boyd).



Separado de sua família, de sua mãe Miriam (Martha Scott, 1912-2003) e de sua irmã caçula Tirzah (Cathy O’ Donnell, 1923-1970), os legionários conduzem Ben-Hur com outros condenados pelo deserto em direção as galés. Durante o caminho, os soldados romanos param para se abastecer no pequeno vilarejo de Nazaré, e saciar a sede dos condenados, exceto a Judah, que por ter atentado contra a vida de uma autoridade, mereceria morrer de sede. Mas um carpinteiro da aldeia lhe dá água e este homem era Jesus de Nazaré (Claude Heather). Aqui novamente, a figura de Cristo é misteriosa, sua face não é apresentada ao espectador, apenas sua silhueta ou normalmente de costas.




Condenado as galés na tropa de Quintus Arrius (Jack Hawkins, 1910-1973), no Mar Vermelho, enquanto seus bens são confiscados e sua mãe e irmã encarceradas, Ben-Hur salva o comandante de um naufrágio e com isso reconquista sua liberdade, sendo adotado por Arrius como filho e herdeiro. Mais tarde, Judah volta a sua terra natal, encontra a mãe e a irmã no reduto de leprosos e busca se vingar de Messala, numa espetacular corrida de quadrigas, o Climax Maximus da História do Cinema, como anunciado pela própria Metro. Mas o filme também reflete sobre o termo da Redenção, já que Ben-Hur é testemunha ocular da Paixão de Cristo, depois que sua mãe e sua irmã são milagrosamente curadas.




Produzido por 12,5 milhões de dólares por Sam Zimbalist, este morreu de um ataque cardíaco fulminante pouco antes de encerrar as filmagens em Cinecittá, Egito e Anzio.  Ben-Hur recuperou a Metro da bancarrota e até hoje rendeu no mercado norte-americano 38,9 milhões de dólares, além de conquistar 11 Oscars, recorde este (ao lado de Titanic, em 1998) jamais superado, incluindo melhor diretor para William Wyler, melhor ator para Charlton Heston, melhor ator coadjuvante para Hugh Griffith (1912-1980) - que interpretou o Xeique Ilderim-  e melhor trilha sonora, de Miklos Rozsa (1907-1995). Este clássico absoluto do cine-épico-religioso esta listado entre os cem melhores filmes de acordo com o Vaticano, na categoria de Religião, juntamente com Nazarin, de Buñuel.

TYRONE POWER, durante uma filmagem de SALOMÃO E A RAINHA DE SABÁ
Com o êxito do épico de Wyler, que se tornou um retumbante sucesso de crítica e público, a United produziu em 1959  Salomão e a Rainha de Sabá, que foi  rodado com a exuberante estrela italiana Gina Lollobrigida e o galã Tyrone Power (1913-1958), que contava então com 44 anos. Ty chegou a rodar mais da metade das cenas de seu personagem, mas sofreu um colapso cardíaco em meio à realização de uma cena de duelo com George Sanders, vindo a falecer poucos dias depois, interrompendo as filmagens, que foram realizadas em Madri. Após o sepultamento do galã, nos Estados Unidos, cujo funeral foi acompanhado por mais de 1.500 pessoas no Hollywood Forever Cemetery, a equipe voltou para Espanha, e Yul Brynner (1920-1985) foi então contratado em seu lugar, tendo que refilmar todas as cenas já rodadas por Power.




Produzido com um orçamento de US$ 5 milhões e dirigido por King Vidor (1894-1982), Salomão e a Rainha de Sabá retoma a um assunto já tratado em outros dois filmes anteriores: The Queen of Sheba, de 1921, com Betty Blythe (1893–1972) no papel da Rainha de Sabá, e A Rainha de Sabá, produção italiana de 1952, estrelada por Leonora Ruffo (1935-2007) como a amante do Rei Salomão, enquanto Gino Cervi (1901-1974) vivia este. Este último trabalho de Vidor lembrava, de certa forma, os primeiros trabalho de DeMille no gênero épico bíblico, pois além de religião quis dar uma dosagem de erotismo a trama.



Com a morte do rei David (Finlay Currie, 1878-1968), o trono passa a ser ocupado por Salomão (Yul Brynner), a contragosto do irmão rival, Adonijah (George Sanders, 1906-1972). O povo de Israel prospera e fortalece tanto que os egípcios, seus inimigos, resolvem mandar ao local a rainha de Sabá (Gina Lollobrigida), para descobrir os pontos fracos de Salomão e assim poder derrotá-lo.


Mas ao contrario de Ben-Hur, a fita não teve boa recepção de público e crítica, talvez por não tratar de nenhuma novidade, e o desgaste das produções ao estilo. Segundo King Vidor, Tyrone Power no papel principal teria sido um filme mais interessante, que certamente agradaria as plateias, e o próprio astro substituto, Yul Brynner, concordou com a opinião do cineasta.


Em 1961, Dino de Laurentiis (1919-2010) produziu Barrabás, rodado em locações autênticas, e trilha marcante de Mario Nascimbene (1913-2002) que combina orquestração sinfônica e efeitos eletrônicos, e que também compôs Salomão e a Rainha de Sabá. A partir das escassas informações bíblicas sobre o personagem, o escritor sueco Pär Lagerkvist (1891 - 1974) concebeu uma obra de ficção na qual se baseia o filme, o que acabou se tornando um Best Seller,  publicado em mais de dez idiomas. Por sua obra, o escritor recebeu o Prêmio Nobel de 1950.


Barrabás, aqui num desempenho magnífico de Anthony Quinn (1915-2001) é um personagem misterioso, citado breve e exclusivamente no Novo Testamento, no contexto do julgamento de Jesus. Ele seria um criminoso condenado à morte pela justiça romana, que acaba libertado por vontade do povo judeu, posto a escolher entre ele e o Nazareno. Tanto a obra literária de Lagerkvist quanto a versão cinematográfica (aliás, a segunda, pois também existe um filme homônimo baseado na mesma obra produzida em 1953, na Suécia) expressa com bastante precisão à atitude do personagem diante dos mistérios da vida e da morte. Como em outras obras sacras, O Manto Sagrado, Salomé, Quo Vadis, e Ben-Hur, a face de Jesus Cristo nunca é mostrada (aqui, Cristo é interpretado por Roy Mangano, irmão de Silvana Mangano).





O protagonista passa por várias situações críticas: desde tentar se vingar dos sumos sacerdotes judeus pela morte de sua mulher, Raquel (Silvana Mangano, 1930-1989), que havia aderido ao Cristianismo, sendo novamente preso e enviado as minas como escravo, até se tornar, em idade avançada, um gladiador em plena capital do Império Romano. E, em todas elas, a lembrança de Jesus parece persegui-lo através de outros personagens, como o seu companheiro de infortúnio, o cristão Sahak (Vittorio Gassman, 1922-2000), o campeão dos gladiadores, o arrogante Torvald (Jack Palance, 1919-2006),  e um líder cristão discriminador, Lucius (Ernest Borgnine, 1917-2012)




Por força disso, Barrabás quase se torna cristão e é nesse estado que ele interpreta o incêndio de Roma, ocorrido no reinado de Nero, como um prenúncio do advento de uma nova era, prometida pelo Cristo. De qualquer foma, Barrabás, finalmente, parece encontrar sua redenção, pois acaba sendo crucificado e dando sua vida, ainda que de forma confusa, em defesa da fé. O destaque do filme também fica por conta da sequência da crucificação de Jesus, filmado durante um verdadeiro eclipse solar.Dirigido por Richard Fleischer (1916-2006), Barrabás é um estudo acurado sobre a fé e o ceticismo.



O mesmo produtor italiano De Laurentiis lançou em 1966 uma das últimas superproduções da era de retumbância dos grandes épicos: A Bíblia, onde foi reconstituído os primeiros 22 capítulos do Gênesis, desde a criação até o sacrifício de Isaac, passando por Caim e Abel, Noé e a Arca, o Dilúvio, a Torre de Babel, Abraão, e Sodoma e Gomorra.




Em 1962, Laurentiis já anunciava um espetáculo de 12 horas, com episódios dirigidos por Bresson, Fellini, Orson Welles, e Luchino Visconti, mas o projeto acabou nas mãos de John Huston (1906-1987), que também interpretou Noé, e sua projeção foi reduzida para 175 minutos (No Brasil, foi lançado na TV com 157 minutos e foi exibido nos nossos cinemas com o título de A Bíblia...no princípio). Um elenco Mega Star  onde reuniu além de Huston, George C Scott (1927-1999, como Abraão), Ava Gardner (1924-1990, como Sara, esposa de Abraão), Richard Harris (1930-2002, como Caim), Franco Nero (como Abel), Stephen Boyd (1928-1977, como Nimrod) e Peter O’ Toole (1928-2013), este em triplo papel, os três anjos.


PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES


Próxima Semana  
Parte 3 e conclusão.