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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O Manto Sagrado (1953) : O Primeiro Sucesso em Cinemascope.


Um dos primeiros filmes rodados no processo Cinemascope surgiu para botar a televisão para escanteio. Tudo porque este então novo veículo de comunicação ameaçava o cinema, e as salas de exibição tornavam-se cada vez mais vazias.O conforto de se ver televisão em casa provocava medo na industria de filmes, e donos de estúdios, produtores, cineastas, e artistas, se mobilizavam para não perderem concorrência com a telinha.



Parecia que a Sétima Arte estavam com seus dias contados. Os recursos que os grandes produtores encontraram para evitar a extinção do cinema e perder a concorrência com a TV foi expandir o formato de seus filmes. Devemos lembrar que, após o Cinemascope, ainda surgiram os processos Vistavision e Panavision (Câmera de 65mm, como foi rodado Ben-Hur), e ainda o Techinirama 70mm, ambos os formatos visavam transformar grandes produções em mega-espetáculos, e nada como filmes com temáticas históricas ou grandes épicos para fazer a alegria do público. Sem essas técnicas, jamais existiria o formato Widescreen, que percorre hoje a grande maioria dos DVDS lançados no Mercado.
Henri Chrétien, inventor do "Sistema Hypergonar", que daria origem 30 anos depois ao surgimento do CINEMASCOPE.

O curioso que o Cinemascope já era um processo antigo antes de seu lançamento oficial nos anos de 1950. Brilhantemente, Darryl F. Zanuck (1902-1979), o chefão da 20ª Century Fox, encontrou a solução para sobrepujar a concorrência com a telinha, quando se lembrou do invento do francês Henri Chrétien (1879-1956), patenteado em 1927, com o nome de Sistema Hypergonar, que consistia basicamente numa câmara de lente anamórfica, capaz de criar imagens destinadas a uma tela duas vezes maior que a tradicional. Aperfeiçoando e "estereofonizado", o processo criado por Chrétien ressurgiu com o nome de Cinemascope, e rendendo uma fortuna aos cofres da Fox.


Com esta vitória da Indústria Cinematográfica Hollywoodiana, que conseguiu com isto promover a volta do público para as grandes salas, O Manto Sagrado/The Robe ficou na história como o primeiro filme a ser lançado no formato Cinemascope, levando plateias no mundo inteiro aos cinemas, e um dos filmes mais exibidos nos feriados de Páscoa em muitos cinemas do Brasil (em alguns lugares, ficou em cartaz por quase 10 anos)- e também era filme garantido de toda Sexta-Feira Santa nas antigas "Sessão da Tarde" da televisão . No entanto, é justamente no televisor que o filme perde impacto visual, pois a telinha deforma o Cinemascope, perdendo os enquadramentos originais.

Richard Burton como o tribuno romano Marcellus Gallio.
Nos últimos anos do reinado de Tibério (Ernest Thesiger, 1879-1961), quando Roma era a "dona do mundo", Marcellus Gallio (Richard Burton, 1925-1984) é um tribuno que está sempre envolvido com jogos ou mulheres.

Além disto tem uma rixa pessoal com Calígula (Jay Robinson, 1930-2013), o herdeiro do trono. A situação se complica quando Marcellus oferece, em um leilão de escravos, a absurda quantia de três mil moedas de ouro por Demétrio (Victor Mature, 1913-1999), que também estava sendo disputado por Calígula.

Victor Mature como o escravo Demétrius de Corinto.
Jay Robinson como o insano imperador Calígula

Ao se ver derrotado por Marcellus, Calígula encara isto como uma afronta pessoal e então manda o tribuno ir servir imediatamente em Jerusalém, na Palestina, considerado o pior lugar do império. Entretanto, devido a motivos políticos, após pouco tempo em Jerusalém o tribuno é chamado de volta por Tibério. 


Richard Boone como Pôncio Pilatos
Mas, antes de partir, recebe de Pôncio Pilatos (Richard Boone, 1917-1981) a missão de supervisionar a execução de uma sentença: a crucificação de Jesus Cristo. Finda a tarefa, ele e outros soldados disputam em um jogo de dados próximo à cruz a posse do manto vermelho usado pelo mártir. Marcellus vence mas o manto fica com Demetrius, pois quando Gallio tentou usar o manto algo o afligiu de forma indescritível. Demétrius, que já tinha se tornado um cristão, lhe tirou o manto e disse que jamais o serviria novamente, pois ele tinha crucificado seu mestre. Em seu retorno Gallio fala frases sem sentido, como se algo muito forte o atormentasse.

Jean Simmons como Diana, a amada de Marcellus.

Já em Capri, onde estava o imperador e Diana (Jean Simmons, 1929-2010), que Gallio ama e é correspondido, alguns membros da corte e o próprio Tibério, vendo que Gallio se portava de modo estranho, ouvem por horas o que aconteceu com o tribuno em Jerusalém. Tibério acha que o tribuno pode ter perdido a razão, mas quando Gallio atribui que a aflição que sente só aconteceu após se cobrir com o manto de Jesus, então o adivinho da côrte conclui que o manto estava enfeitiçado e precisa ser destruído. Isto parece lógico tanto para Tibério como para Marcellus, então o tribuno irá retornar à Palestina para destruir o manto e descobrir os nomes dos cristãos, mas esta viagem irá afetar profundamente sua vida.

Burton e Michael Rennie como São Pedro.
Pedro (Michael Rennie), o "Grande Pescador" e líder da Igreja, recebe Marcellus, ao lado de Justus (Dean Jagger)

Uma vez lá, em sua procura pelo manto, Marcellus vai ter à pequena vila de Caná, onde conhece Justus (Dean Jagger, 1903-1991) e Miriam (Betta St John), dois exemplos de vida cristã.  Embora não acredite em algumas coisas que lhe falam, como a ressurreição de Cristo, o tribuno começa a ter dúvidas sobre suas crenças.  Justus lhe diz que conhece sua identidade e lhe informa que todos já o perdoaram, assim como Jesus o perdoou.  Logo depois, ao tentar convencer Marcellus do amor de Jesus, Miriam lhe diz que um dos seus discípulos, Simão Pedro (Michael Rennie, 1909-1971), conhecido como “O Grande Pescador”, acaba de chegar em companhia de seu companheiro grego.


Ao pedir o manto para ser queimado, Marcellus ouve de Demetrius que o problema dele não está no manto e sim em sua consciência, em seu coração, por ter crucificado o Messias.  Receoso, em princípio, mas encorajado por Demetrius, o tribuno termina abraçando o manto sagrado e se livrando de todas as suas angústias.

Diana e Marcellus
Em seguida, Marcellus é levado à presença de Pedro e termina convertendo-se ao cristianismo, passando a seguir o apóstolo.  Tempos de depois, Pedro e seus seguidores chegam à Roma e passam a viver nas catacumbas.  Com a morte de Tiberius, Caligula é o novo imperador e inicia uma perseguição implacável aos cristãos.  Quando Demetrius é preso e torturado, Marcellus decide libertá-lo, o que consegue com a ajuda de um grupo de homens.  Entretanto, durante a fuga, eles são perseguidos e, em benefício da liberdade do grupo, Marcellus atrai seus perseguidores, a quem se entrega. Demetrius, que estava alquebrado e prestes a morrer devido as consequências da tortura, é curado por São Pedro.

Demetrius (Victor Mature) se apossa do Manto Sagrado e se torna seu guardião...
...a ponto de quase sacrificar sua vida, mas é curado milagrosamente por Pedro (Michael Rennie).
Depois que Marcellus é capturado, Diana o visita em sua cela e lhe implora para que renegue Jesus, a fim de salvar a si próprio, mas ele fala pra ela sobre o povo de Caná, que nunca renegou Jesus, apesar do perigo de ser seu seguidor.


Marcellus e Diana na côrte de Calígula (Jay Robinson).
Marcellus jura lealdade ao Império Romano, mas não abjuga Cristo
Marcellus é então levado a julgamento por traição, oportunidade em que confessa ser um cristão. Calígula ridiculariza as afirmações do tribuno de que o seu rei é o Rei do Céu, que acredita em amor, compaixão e caridade acima de tudo. Irritado por que Diana ainda prefere Marcellus a ele, Calígula faz com que a assembléia exija a morte do tribuno.

Marcellus e Diana levados para o pátio dos arqueiros, onde serão martirizados (cena deletada).
Marcellus e Diana, a caminho da Eternidade.
Diana, movida pela crença apaixonada de Marcellus e repugnada pela tirania de Calígula, escolhe morrer com o homem que realmente ama. Enquanto eles caminham juntos, Marcellus é reconhecido por seu pai, arrependido, e Diana entrega o manto ao empregado de Marcellus, a quem pede para levá-lo até Pedro. Em seguida, continuam a caminhada em direção...a vida eterna.

O Manto Sagrado foi indicado para cinco categorias do prêmio Oscar em 1953, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Richard Burton, e permanece um dos maiores épicos religiosos de todos os tempos, ao lado de Quo Vadis e Ben-Hur.

LLOYD C. DOUGLAS, autor do romance que originou o filme
A fita, dirigida por Henry Koster (1905-1988) , foi baseada no romance escrito em 1942 por Lloyd C. Douglas (no Brasil, o romance foi publicado com o título de O Manto de Cristo).  A trilha sonora foi encarregada por Alfred Newman (1901-1971), de A Canção de Bernadete.Os direitos do romance, publicado em 1942, chegou a ser comprado pela RKO, que no início dos anos de 1950, vendeu para 20ª Century Fox, como veículo para Tyrone Power que interpretaria Marcellus, mas ele recusou o papel.

Victor Mature e Mae Marsh.

O Filme foi um estrondoso sucesso e foi ocasião ímpar em toda História da Cinematografia, pois todas as salas de cinema tiveram que ser reformadas para recepcionar o lançamento deste êxito das telas.  A Fox, que detinha os direitos do livro de Douglas, não sabia o que fazer com as demais 200 páginas do romance, e aproveitando o embalo do sucesso de The Robe, o estúdio resolveu fazer uma sequência da obra, em 1954. 

DEMÉTRIUS E OS GLADIADORES

Victor Mature repete o papel de Demetrius em DEMETRIUS E OS GLADIADORES. Aqui com Ernest Borgnine.

Sob a direção de Delmer Daves (1904-1977) especialista em dramas e westerns (Galante e sanguinário), e repetindo Mature (Demetrius), Michael Rennie (São Pedro) e Jay Robinson (Calígula) nos seus respectivos papéis em O Manto Sagrado. Produzida por Frank Ross (1904-1990), que havia também produzido a obra anterior, realizou juntamente com o diretor Delmer Daves uma fita superior, porque substituiu a religiosidade melodramática de The Robe por exuberante ação física e estimulantes aspectos aventurescos.



Susan Hayward como Messalina. Na foto, com Mickey Simpson.
Michael Rennie volta a interpretar São Pedro em DEMETRIUS E OS GLADIADORES (1954).

Escrito por Philip Dunne (1908-1992) com base nos personagens de Lloyd C Douglas, o filme transcorre após o martírio de Marcellus (Richard Burton) e Diana (Jean Simmons), ocorrida no desfecho de O Manto sagrado. O cristão Demétrius, perseguido pelo imperador por ter escondido o Manto de Cristo, é preso e feito gladiador na arena, comandada por Strabo (Ernest Borgnine, 1917-2012).

Demetrius perde a fé cristã e se submete aos caprichos de Messalina.
Demetrius e sua amada Lucia (Debra Paget).
Quando sua amada Lucia (Debra Paget) entra em estado de choque ao risco de ser violentada por um dos gladiadores, Dardanius (Richard Egan, 1921-1987), Demetrius perde a fé e sucumbe aos encantos de Messalina (Susan Hayward, 1918-1975). Trilha sonora de Franz Waxman (1906-1967), com base no repertório de Alfred Newman.

O LANÇAMENTO DE “O MANTO SAGRADO” NO RIO DE JANEIRO

O MANTO SAGRADO foi lançado nos Estados Unidos em 24 de setembro de 1953, no Chinese Theatre, em Hollywood, inaugurando definitivamente o Cinemascope. Não demorou muito, a novidade chegou ao Brasil, repetindo o mesmo sucesso de Los Angeles. Não diferente também como ocorrido nas salas de cinema nos EUA, algumas salas aqui tiveram também que ser adaptadas para  a estreia de The Robe no Brasil, inclusive no Rio de Janeiro, a então Cidade Maravilhosa, que recebeu de braços abertos, tal qual o Cristo Redentor, a sacra película estrelada por Richard Burton, Jean Simmons, Victor Mature, e Michael Rennie.

O MANTO SAGRADO - OCASIÃO DE GALA TAMBÉM NO RIO DE JANEIRO,
CONFORME ANÚNCIO  NOS JORNAIS DA ÉPOCA DE SEU LANÇAMENTO
NAS SALAS CARIOCAS


O CINE-PALÁCIO no Centro do Rio de janeiro, teve suas instalações alteradas para a estreia, e finalmente, a 15 de abril de 1954, estreou O MANTO SAGRADO nas salas cariocas.



FICHA TÉCNICA
O MANTO SAGRADO
(The Robe)

País – Estados Unidos

Ano – 1953

Gênero – Épico/Religioso

Direção – Henry Koster

Produção – Frank Ross, para a 20th Century Fox

Roteiro – Phillip Dunne e Gina Kaus (adaptação), com base no livro de Lloyd C. Douglas.

Música – Alfred Newman

Fotografia – Leon Shamroy, em Cores

Metragem – 135 minutos


elenco

RICHARD BURTON – Tribuno Marcellus Galio

JEAN SIMMONS – Diana

VICTOR MATURE – Demetrius de Corinto, o escravo

MICHAEL RENNIE – São Pedro, o “Grande Pescador”

JAY ROBINSON – Calígula

TORIN THATCHER – Senador Galio

DEAN JAGGER – Justus

RICHARD BOONE – Pôncio Pilatos.

BETTA St. JOHN – Miriam

JEFF MORROW – Paullus, o centurião

ERNEST THESIGER – Imperador Tibério

DAWN ADDAMS – Junia

LEON ASKIN – Abidou

MICHAEL ANSARA – Judas Iscariotes

FRANK DeCOVA – Escravo

JOHN DOUCETTE – Soldado da esquadra

SAM GILMAN – Capitão da esquadra

MAE MARSH – Mulher idosa de Jerusalém que ajuda Demetrius

JAY NOVELLO – Tiro

HAYDEN RORKE – Callus, licitante do leilão de escravos.

HARRY SHEARER – o pequeno Davi

PERCY HELTON – Caleb, o mercador de vinhos.

DONALD  C. KLUTE – Jesus Cristo

SALLY CORNER – Cornelia, mãe de Marcellus

PAMELA ROBINSON – Irmã de Marcellus

ROSALIND IVAN – Julia, esposa de Tibério

E
CAMERON MITCHELL – A Voz de Jesus no Calvário.

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES
Matéria revista em 28/09/2018

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Os 50 anos de “Spartacus” com Kirk Douglas

No dia 6 de Outubro de 1960, em Nova York, se deu a pré-estréia de “Spartacus”, a superprodução dirigida por Stanley Kubrick (1928-1999) e estrelado por Kirk Douglas, ganhadora de 4 Oscars: melhor ator coadjuvante (Peter Ustinov, 1921-2004), melhor direção de arte colorida, melhor fotografia colorida e melhor figurino colorido. Portanto, há 50 anos, estreava um dos maiores épicos da História do Cinema (No dia 7 de outubro de 1960, pré estréia em Los Angeles. No Brasil, sua estréia foi a 17 de novembro de 1960).
Entretanto, é bem difícil explicar a saga de todo o projeto que levou a materializar, mas reza a lenda em Hollywood que Kirk Douglas, empolgado com o sucesso de Ben-Hur, de William Wyler (1902-1981), realizado no ano anterior, queria também produzir um épico aos moldes do diretor. Bem verdade que Kirk queria o papel principal de Ben-Hur no filme de Wyler, mas este já havia preterido a Charlton Heston, e ofereceu a Douglas o segundo papel principal, do infame vilão Messala (que havia sido recusado por Robert Ryan), mas Kirk não aceitou, sendo este papel aceito depois por Stephen Boyd.




Recusando o papel de coadjuvante no épico de Wyler, Douglas, sob a égide de sua produtora, a Bryna Production Company, quis dar uma resposta ao então campeão absoluto dos Oscars (até 1998, quando Titanic empatou), e resolveu produzir um épico bem diferente dos que vinham sendo produzidos naquela época. Grande parte dos épicos que vinha sendo lançados ao longo dos anos de 1950 era, geralmente, de teor bíblico. Mas Kirk queria realizar algo que não tivesse tom religioso.


Sendo assim, Douglas negociou os direitos da controversa história da obra literária lançada em 1952, escrita por Howard Fast (1914-2003- foto), que tornou-se uma leitura popular nos meios comunistas.


Aliás, a história de Spartacus já havia sido filmada na Europa, em 1953, sob o mesmo título (nos EUA, como “Sins of Rome”), e com a direção de Riccardo Freda (1909-1999), estrelado pelo astro italiano Massimo Girotti (1918-2003) no papel do herói-escravo, e a bela deusa francesa Ludmilla Tchérina (1924-2004) desempenhando Varínia, mulher de Spartacus.


Para adaptar o romance de Fast, Kirk contratou Dalton Trumbo (1905-1976), um dos DEZ DE HOLLYWOOD, que havia sido preso por se recusar a cooperar para o Comitê de Atividades Antiamericanas e teve que escrever roteiros sob pseudônimos por mais de uma década. Logo, Kirk Douglas também entrou para a história por ajudar a destruir a lista negra ao permitir que um dos perseguidos pelo "Caça as Bruxas" usasse seu próprio nome nos créditos de Spartacus.


Em verdade, Trumbo colocou uma sutil referência aos espiões da era McCarthy. Perto ao final do filme, após a revolta ser esmagada, o tirânico general Marcus Licínio Crassus (Laurence Olivier, 1907-1989, foto) anuncia ameaçadoramente: “Em cada cidade e província, lista de desleais foram compiladas”.


A colunista Hedda Hopper e ex-atriz (1885-1966 - foto) denunciou Kirk Douglas por contratar Trumbo e a Legião Americana fez piquete na pré-estréia em Los Angeles, no dia 7 de outubro de 1960. O Bom Douglas não se deixou intimidar, e mandou uma resposta para Hedda e seus aliados, contratando Dalton Trumbo para escrever o roteiro de mais dois filmes para ele.


Com seus 12 milhões de dólares, Spartacus foi um dos mais custosos filmes daquele então período. O orçamento começou a subir quando o diretor Anthony Mann (1906-1967), o realizador de El-Cid de 1961, foi despedido depois das filmagens já iniciadas, após longa discussão com Kirk Douglas. Logo, Mann foi substituído por Stanley Kubrick, que havia dirigido Douglas em Glória feita de Sangue dois anos antes. Kubrick foi contratado apenas para dirigir, e não ser o “autor”, mas mostrou seu talento em um grande número de inventivas seqüências. As lutas de Gladiadores, algumas vezes de chocante violência, têm uma vívida proximidade e a climática batalha entre escravos e as legiões romanas- com mais de dez mil extras na cena- tem uma grandeza de tirar o fôlego.


Kubrick trabalhou com um elenco all-star, e, sobretudo, a vitalidade real do filme vem dos atores ingleses- Laurence Olivier, Charles Laughton (1899-1962), e Peter Ustinov- interpretando personagens muito além do nobre Spartacus. A bela e talentosa Jean Simmons (1929-2010), interpretando a mulher do herói, Varínia. Aliás, sobre esta personagem, uma história curiosa: a própria Simmons, além de Ingrid Bergman, Jeanne Moreau, e Elsa Martinelli, haviam recusado o papel, sendo escolhida uma atriz alemã, Sabine Bethmann, mas quando Stanley Kubrick tomou as rédeas da direção, não gostou de sua atuação, e resolveu novamente oferecer o papel a Simmons, que por fim aceitou.

Peter Ustinov recebeu um Oscar de ator coadjuvante por seu retrato refinado do servil, astuto, e covarde negociante de escravos Lentulos Batiatus (no livro de Fast, Batiatus é rude, violento e grosseiro. Ustinov já havia sido indicado ao Oscar da mesma categoria em 1951, pela sua atuação inesquecível do Imperador Nero em Quo Vadis e ganharia mais um prêmio na mesma categoria pelo papel de vigarista na comédia Topkapi, em 1964 ), mas é equiparado por Olivier como o arrogante Crassus, e Charles Laughton dá um show de interpretação como o pragmático senador da república Gracchus.

A TRILHA SONORA ficou a encargo de Alex North, que também era versado em compor músicas para filmes de época (Cleópatra, Crepúsculo de uma Raça, Agonia e Êxtase). North, que morreu em 1991, foi contratado por Kirk Douglas para escrever a trilha sonora de Spartacus. “O que eu tentei fazer no filme foi capturar o sentimento da Roma pré-cristã, usando técnicas musicais contemporâneas. Isso pode parecer estranho, mas há uma boa razão. A Luta pela liberdade e dignidade humana, o tema de Spartacus, é pertinente no mundo de hoje”- declarou North, em uma entrevista pouco depois do lançamento do filme em 1960.


Tudo parecia estar em ordem, mas até chegar ao seu molde definitivo, a produção sofreu sérias alterações. Além da mudança de direção, o roteiro teve que sofrer algumas mudanças. Uma série de cenas tiveram que ser reescritas por Peter Ustinov, pois Charles Laughton (foto) havia rejeitado o script original.


Draba- personagem interpretado por Woody Strode (1914-1994), por sinal um excelente ator negro que além de filmes para o cinema, também fez vários trabalhos competentes na TV- é morto na arena depois de atacar Crassus, que assistia ao combate entre ele e Spartacus. Seu corpo está pendurado de cabeça para baixo para que seja visto pelos demais gladiadores como um aviso para que não ousem enfrentar Roma. Originalmente, seria colocado um boneco que serviria como réplica de Strode, mas quando viram que o efeito não foi satisfatório, ele mesmo ficou pendurado de cabeça para baixo, e cordas amarradas nos tornozelos, tudo sem dublê. Como os gladiadores lentamente desfilam para ver seu corpo balançar, Strode não se mexe ou se contraí. De acordo com o filho do finado ator, Kalai Strode, a réplica não utilizada ficou pendurada na entrada de uma das salas da Universal Studios durante vários anos.


A Versão original da película incluía uma cena em que Crassus (Laurence Olivier) tenta seduzir Antoninus (o já saudoso Tony Curtis) quando este lhe banha. Mas, evidentemente e como se poderia mesmo esperar, o Código de produção (muito embora o Código Hays- vide artigo sobre o assunto em http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/2010/06/o-codigo-hays.html -já demonstrasse certa fragilidade) e a Liga da Decência se opuseram. Em um ponto os censores sugeriram que seria bom se a referência na cena de uma preferência por "ostras e caracóis" fosse alterado para "trufas e alcachofras". A cena foi cortada para o primeiro lançamento em 1960, sendo recuperada e adicionada na versão restaurada em 1991, com 13 minutos a mais. No entanto, o som tinha sido perdido com o tempo e o diálogo tinha de ser dublado. Tony Curtis foi capaz de refazer o seu papel, mas Olivier tinha morrido em 1989. Logo, Anthony Hopkins foi escolhido para ocupar o papel de Olivier na dublagem.


Dos 167 dias que Stanley Kubrick rodou para filmar este grandioso épico, seis semanas foram gastas para dirigir uma seqüência elaborada da batalha em que 8.500 figurantes recriaram o confronto entre as tropas romanas e o exército de escravos de Spartacus. Várias cenas da batalha provocou a ira da Legião da Decência, e tiveram de ser cortadas (se perderam, não foram encontradas para a restauração de 1991). Estes incluem cenas de homens sendo desmembrados (anões com torsos falso e um ator com apenas um braço)
Enfim, os cinéfilos de todo mundo devem festejar o cinqüentenário de uma das grandes relíquias da Sétima Arte, que apesar de todas as suas dificuldades na produção, se tornou um marco na cinematografia mundial. Parabéns, e vida longa a Spartacus!!!!



Produção e pesquisa de Paulo Telles