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terça-feira, 8 de abril de 2014

Cecil B. DeMille e a Lux Radio Theatre




Por quase dez anos, o cineasta Cecil B. DeMille (1881-1959) foi o produtor, anfitrião, e diretor de um dos maiores e mais populares programas semanais da história do Rádio americano: O LUX RADIO THEATRE.


O programa, criado em Nova Iorque por Anthony Stanford, com uma hora de duração, apresentava grandes nomes da Broadway em versões radiofonizadas de famosas peças teatrais.
Contudo, em 1936, os patrocinadores do programa, os Irmãos Lever, decidiram modificar o esquema da programação, e passaram a transmiti-lo diretamente de Hollywood, pela Columbia Broadway System, a CBS, com adaptações para o Rádio de filmes de sucesso, às vezes mesmo com o mesmo elenco que neles apareceram nas telas de cinema, e outras vezes com artistas diferentes nos papéis principais.

CECIL B DEMILLE supervisiona GARY COOPER no LUX RADIO THEATRE

JACK BENNY e MARY LINVISGTONE com DEMILLE
CECIL B DE MILLE entre ROBERT TAYLOR e JEAN HARLOW durante uma das transmissões

Foi assim, por exemplo, que Clark Gable substituiu Gary Cooper e Marlene Dietrich repetiu seu papel em Marrocos/Moroco/1930 (Paramount), direção de Joseph Von Sterberg;  Barbara Stanwyck, Errol Flynn e Mary Astor fizeram os papéis vividos por Merle Oberon, Joel McCrea e Miriam Hopkins em Infâmia/These Three/1936 (Goldwyn-United Artist), direção de William Wyler; Edward G Robinson, Gail Patrick e Laird Cregar tomaram os lugares de de Humphrey Bogart, Mary Astor e Sidney Greenstreet em Relíquia Macabra/The Maltese Falcon/1941 (Warner) direção de John Huston; Roy Rogers, Martha Scott e Albert Decker fizeram os mesmos papéis respectivos de James Cagney, Rosemary Lane e Humphrey Bogart em A Lei do Mais Forte/The Oklahoma Kid/1939 (Warner), direção de Lloyd Bacon; Gary Cooper e Fay Wray ficaram com as partes feitas respectivamente nas telas de cinema por Warner Baxter e Gloria Stuart em O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões/The Prisioner of Shark Island/1936, direção de John Ford; e Hedy Lamarr, John Loder e Alan Ladd fizeram no rádio o que Ingrid Bergman, Humphrey Bogart e Paul Henreid haviam feito no cinema em Casablanca/ Casablanca/1943, direção de Michael Curtiz.

KATE SMITH cumprimenta o notável EDWARD G. ROBINSON
FREDRIC MARCH e FLORENCE ELDRIDGE em ação!
DEMILLE supervisionando SPENCER TRACY e FAY WRAY
DE MILLE dando instruções a CHARLES BOYER, e ao lado do cineasta, de preto, ALEXIS SMITH

George Marion fez o mais importante papel secundário em ambas as versões de Anna Christie/Anna Christie/1929 (MGM), direção de Clarence Brown, enquanto Joan Crawford e Marjoire Rambeau ficaram com os papéis de Greta Garbo e Marie Dressler no cinema, e Spencer Tracy substituiu Charles Bickford.

ERROL FLYNN e BARBARA STANWYCK em uma das transmissões.
A NOTÁVEL BETTE DAVIS em Ação!
LAUREN BACALL e HUMPHREY BOGART
Barbara Stanwyck, John Boles e Anne Shirley tiveram no Lux Radio Theatre os mesmos papéis que haviam tido no cinema em Stella Dallas, a Mãe Redentora/Stella Dalas/1937 (Goldwyn/United Artist), o mesmo acontecendo com Irene Dunne e Charles Boyer em Duas Vidas/Love Affair/1939 (RKO Radio) direção de Leo McCarey.


DeMille manteve o programa no ar de 19 de junho de 1936 a 22 de janeiro de 1945, com uma única interrupção a 17 de janeiro de 1945, quando o show radiofônico foi transferido para segunda feira seguinte por ter sido a emissora requisitada pelo Governo naquela data.


Cecil Blount DeMille, conhecido como o “Pai das Superproduções”, tem sua trajetória a se confundir com a própria origem do cinema americano. Filho de um sacerdote dramaturgo e de uma atriz de companhia itinerante, ainda jovem, estudou na Academia de Artes dramáticas de Nova York, e com 19 anos, estreou na Broadway como ator, ofício que exerceu por muitos anos, enquanto gerenciava a companhia teatral da mãe.


Em 1913, o empresário de musicais da Broadway Jesse Lasky (1880-1958)  lhe ofereceu sociedade, juntamente com Samuel Goldfich, um outrora vendedor de luvas (conhecido, mais tarde, como Samuel Goldwyn, 1879-1974), numa nova companhia cinematográfica, que mais tarde, com a junção da empresa de Adolph Zuckor(1883-1976), seria formada a Paramount Pictures, estúdio que DeMille trabalharia por toda vida.



Foi o primeiro cineasta a utilizar a Sétima Arte como um Mega Espetáculo de grandes proporções, podendo mesmo dizer que foi o “fundador” das superproduções. Muito embora que para os padrões de hoje DeMille seja um cineasta artificial conforme críticos modernos, ele tinha um talento bem peculiar que muitos diretores depois dele não tiveram: Cecil sabia conduzir como ninguém cenas de multidão, e foram poucas as vezes que o cineasta precisasse de um diretor de segunda unidade para assessora-lo, e tudo sem artifício (a não ser com um tiro de pistola de festim, que o cineasta de vez em quando usava para comandar tais cenas). Entre as superproduções deste notável diretor estão clássicos como O Rei dos Reis (1927), O Sinal da Cruz (1932), As Cruzadas (1935), Sansão e Dalila (1949), e Os Dez Mandamentos (1956), que foi seu último filme, um Remake do tema que o próprio cineasta dirigira em 1923. Jamais ganhou um Oscar de melhor diretor, mas em 1949, recebeu o Oscar especial pelos 37 anos de dedicação ao Cinema, e em 1952, o prêmio Irving Thalberg. Seu penúltimo trabalho como diretor, O Maior Espetáculo da Terra, ganhou o Oscar de melhor filme em 1952. 



BASIL RATHBONE em ação!

DeMille ficou ao leme do Lux Radio Theatre, e nas noites de segunda feira tinha uma audiência fantástica – 40.000.000 de ouvintes! Em 1945, como o produtor-anfitrião-diretor, o seu salário anual chegava a US$ 100.000. Ocasionalmente, o programa tinha um diretor convidado que conduzia o trabalho sob supervisão direta de DeMille.

Contudo, DeMille deixou a direção do Lux Radio Theatre por se recusar a pagar a soma de US$ 1,00 (sim, um dólar!), conforme fora aprovado pela diretoria da seção de Los Angeles da Federação Americana de Artistas de Rádio, com a finalidade de acumular fundo de oposição à Proposição 12, nas eleições gerais de novembro de 1944, que aboliria as entidades fechadas na Califórnia e daria a cada californiano, sem considerar sua filiação ou não com qualquer sindicato, o direito de obter e de se manter em qualquer emprego. Sendo uma unidade fechada, a Federação exigiu a contribuição de um dólar de cada um de seus associados, a ser pago até o dia 1º de setembro de 1944. Se esta quantia um tanto irrisória não fosse paga, isso significaria automaticamente suspensão, proibindo de fazer qualquer trabalho no Rádio.

JAMES STEWART
BARBARA STANWYCK
ALAN LADD
VINCENT PRICE
Cecil B DeMille que havia apoiado a tal Proposição 12 e votado por ela, endureceu e recusou-se a pagar a contribuição exigida, sob o fundamento de que isso seria o mesmo que anular-lhe o voto, além de não acreditar que nenhum sindicato ou organização tivesse o direito de impor aos seus sócios uma contribuição compulsória política. Complementando a recusa, DeMille declarou terminantemente que não permitiria que qualquer outra pessoa ou organização, incluindo os Irmãos Lever (antigos patrocinadores do Lux Radio Theatre) pagasse aquele dólar por ele.

WILLIAM KEIGHLEY

Como o cineasta não poderia mais trabalhar nas funções outrora encarregadas por ele no Lux Radio Theatre, os Irmãos Lever levaram quase um ano para substituírem DeMille, contratando finalmente William Keighley (1889-1984), um dos diretores de As Aventuras de Robin Hood (1938), junto a Michael Curtiz, este o maior creditado.




O LUX RADIO THEATRE continuou por mais um ano sob a direção de Keighley, e quando a Federação se tornou Federação Americana de Artistas de Televisão e Rádio, o impedimento contra DeMille foi mantido, e este jamais pôde trabalhar na Televisão. Tivesse o cineasta pago o dólar, valor tão irrisório, ele provavelmente teria continuado como diretor do Lux até o final dos seus dez anos de existência. Sua irredutibilidade em efetuar o pagamento lhe custou, sem sombra de dúvida, pelo menos US$ 1.000.000!


Foram-se os dólares, mas os seus princípios e a sua personalidade permaneceram intocados. Como um verdadeiro Homem, DeMille acreditava que, quando estava certo, teria que se manter 100% em sua convicção, custasse o que custasse.  Entretanto, muito possível que estes dólares perdidos fossem recuperados triplamente em seu último filme, Os Dez Mandamentos, em 1956, pois se tornou o maior êxito comercial de sua carreira, não enchendo somente os cofres da Paramount, mas também o espólio deste lendário diretor, um dos maiores de todos os tempos.

PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES
COM BASE EM ARTIGO DE JOÃO LEPIANE

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EM TEMPO
IN MEMORIAN


JOSÉ WILKER (1947-2014)

Notável ator de cinema, teatro e televisão, além de diretor e produtor, e nascido em Juazeiro do Norte, deixa uma marca indelével para a cultura nacional, onde contribuiu incessantemente. No cinema, um de seus papéis mais marcantes foi no filme Dona Flor e Seus dois Maridos, de 1976 (dirigido Bruno Barreto), e em Bye Bye Brasil, de 1980 (dirigido por Carlos Diegues). Os fãs, admiradores de seu trabalho, amigos, e o povo brasileiro, sempre agradecerão o seu imenso legado, onde a Sétima Arte também agradece. José Wilker morreu no dia 5 de abril último.


MICKEY ROONEY (1920-2014)

Com uma carreira admirável de mais de 70 anos, Mickey começou como ator infantil e foi um dos poucos que na fase adulta conseguiu um podium, mesmo com apenas 1m57 de altura. Atuou com Judy Garland e juntos fizeram alguns musicais juvenis para Metro, e foi o primeiro marido de Ava Gardner. Participou de mais de 250 filmes e foi Indicado quatro vezes Oscars, ganhando apenas um prêmio honorário da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood pelo conjunto de sua obra. Outro legado deixado pela Sétima Arte. Mickey Rooney faleceu no último dia 6 de abril.

sábado, 6 de agosto de 2011

Nicholas Ray - Vida e Obra de um Cineasta.


Nicholas Ray tornou-se um cineasta de grande repercussão quando tratou da rebeldia dos adolescentes da década de 1950. Afinal, o rock and roll estava no auge, e grandes mitos dos jovens estavam começando a surgir, como Marlon Brando, James Dean, e Elvis Presley, que eram os referênciais de rebeldia, e num tempo em que isso era considerado um tabu no cinema norte-americano. Se por um lado não era tão admirado pela crítica hollywoodiana, pelo outro os europeus, sobretudo os franceses, o admiravam. Transparente e polêmico, seus trabalhos são reconhecidos graças a sua temática sobre os desajustados e os incompreendidos da Sociedade.

Contudo, Raymond Nicholas Kienzle, seu verdadeiro nome, nasceu a 7 de agosto de 1911, em Galesville, Wisconsin, e de início seu interessou em arquitetura e seu mestre foi o renomado Frank Lloyd Wright (1867 - 1959). Mas logo foi se interessar pelo teatro, atuando como ator em várias peças dirigidas por futuros cineastas que fariam história, como Elia Kazan (1909-2003) e John Houseman(1902-1988).

Começou a fazer cinema depois do término da Segunda Grande Guerra e seu primeiro filme data de 1948. Tornou-se rapidanmente um diretor com marcas distintivas fortes: heróis frágeis, palpáveis, que tentam sobreviver num mundo cuja chave de decifração eles não detêm. Nesse mundo, a onipresente violência física e mental convive com a possibilidade de uma paixão arrebatadora e irrestrita.


Seus primeiros filmes frequëntemente focalizavam tipos marginalizados como heróis. Em seu primeiro filme como diretor, o lírico Amarga Esperança, de 1948, Farley Granger (1925-2011) fazia o papel de uma asaltante de bancos indeciso em sua fuga com a namorada. Em No Silêncio da Noite, de 1950, Humphrey Bogart (1899-1957- foto) era um roterista auto-destrutivo acusado de assassinato. Em Cinzas que Queimam, de 1951, Robert Ryan (1909-1973) era um policial amargo, e Johnny Guitar, de 1954, trazia Joan Crawford (1905-1977) como uma conivente dona de saloon.


Em Cinzas que Queimam, a estrutura básica de Juventude Transviada estava montada: um policial (Robert Ryan), nitidamente afetado pelo desencanto e pelo ambiente em que vive, passa a agredir violentamente os criminosos que persegue. Depois do enésimo caso de violência acima do aceitável, ele é conduzido a uma investigação no campo onde encontrará uma mulher cega (Ida Lupino), por quem se apaixonará, mesmo que isso implique reconsiderar sua relação com a violência e seu poder auto-destrutivo. O talento e a fluência de Nicholas Ray para filmar essas cenas extremas, tanto os arroubos de violência quanto os delicados momentos da paixão nascente, não fascinou de primeira a crítica norte-americana, mas encantou os então jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma, que trataram de classificá-lo como o mais importante cineasta do pós-guerra (Éric Rohmer, em sua crítica sobre Juventude Transviada, que em Portugal se chamou Fúria de Viver, Cahiers nº59). Jean-Luc Godard acreditava ser Ray a expressão pura do cinema.


Johnny Guittar foi outro ápice do grande cineasta. Não tendo boa receptividade nos EUA na época do lançamento (e foi lançado por um estúdio classe B em Hollywood, a Republic, responsável por muitos seriados de Cinema e pelos primeiros filmes B estrelados por John Wayne), mas aplaudido na França, o conflito central é em cima de duas mulheres fortes, que se odeiam. Joan Crawford e Mercedes McCambridge (1916-2004, premiada com o Oscar de Coadjuvante por "A Grande Ilusão", em 1949).

Ray sempre declarou que o sub-texto era lésbico, que elas haviam sido amantes e agora se enfrentam como inimigas. Somente o espectador poderá conferir e tirar suas próprias conclusões para julgar esta declaração.

Nicholas Ray vivia dentro de uma aparente contradição. Sob as poderosas e milionárias asas de Howard Hugues (1905-1976), ele passava ileso pela perseguição do Senado Americano aos comunistas (muito embora todos em Hollywood soubessem de suas tendências esquerdistas). Em contrapartida, o preço da liberdade era alto: Ray era obrigado a realizar trabalhos sob encomenda, de temáticas que pouco ou nada lhe diziam. Pertencem a essa fase filmes como Alma Sem Pudor (1950), estrelado por Joan Fontaine, amante da vez de Howard Hugues, e Horizonte de Glória (1951), veículo para John Wayne e cuja abordagem de extrema direita era diametralmente oposta às convicções políticas de Ray e de Robert Ryan, também astro do filme. Como uma espécie de funcionário de confiança da chefia, Ray também dirigiu vários trabalhos sem crédito para cineastas como Irving Reis, Chester Erskine, John Cromwell e Josef Von Stenberg.

Em Juventude Transviada, Nicholas Ray encontrou um ator perfeito para designar todos os estados de espírito com os quais mais gostava de trabalhar; James Dean (1931-1955) é ao mesmo tempo um rosto de criança abandonado pela vida e, inversamente, a possibilidade de uma explosão de violência quando menos se espera. Mal ou bem, os protagonistas mais importantes de Nicholas Ray, de 1949 a 1955, são adultos abandonados, como Sterling Hayden, Humphrey Bogart ou Robert Ryan, aliás, estes dois últimos eram os atores prediletos do diretor. Ray era um dos poucos cineastas que se dava bem em trabalhar com jovens e adolescentes, e tão poucos eram os diretores que tentaram conpreendê-los. Desde seu primeiro filme, Amarga Esperança" /They Live by Night, com Farley Granger e Cathy O’Donnell (1923-1970), não exatamente adolescentes, mas já se defrontando com a inadequação em um mundo adulto. E veio Juventude Transviada, em que Nicholas Ray tentou tão inteiramente compreender os jovens que até manteve um tórrido relacionamento amoroso com Natalie Wood, não respeitando nem a berrante diferença de 27 anos entre suas idades. Ele tinha 43 e ela 16. Dennis Hopper (1936-2010) queria matá-lo pois Natalie era, então, sua namorada, e ela tinha um temperamento volúvel.


O mais curioso e estranho nesse affair, é que Ray não procurou compreender o jovem e já incompreendido e violento Dennis Hopper, mas se entendeu bastante bem com James Dean e com Sal Mineo (1939-1976), dos quais se tornou grande amigo e mentor e Juventude Transviada/Rebel Without a Cause, deu o que falar e praticamente abriu as portas do cinema para analisar o comportamento dos jovens.


Por falar em análises, um ponto curioso é que o renomado cineasta quis fazer um close-up em cima de uma lenda do Velho Oeste, nada mais e nada menos do que Jesse James (1847-1882), tema que já havia levado às telas por Henry King em Jesse James, tempos de uma era sem Lei, de 1939, estrelado por Tyrone Power e Henry Fonda.


Quem foi Jesse James?/The True Story of Jesse James, filmado em 1956 e lançado em 1957. Ray pretendia que James Dean interpretasse Jesse James, uma vez que o diretor queria dar um tom de rebeldia à vida do lendário fora-da-lei. Contudo, Dean morreu tragicamente em 30 de setembro de 1955 com apenas 24 anos de idade num acidente automobilístico fatal, logo, Robert Wagner, sem o carisma de Dean acabou protagonizando Jesse James, enquanto seu irmão Frank foi vivido por Jeffrey Hunter (1925-1969).

Na versão de Jesse James de 1939, estrelada por Tyrone Power (Jesse) e Henry Fonda (Frank), os irmãos James tornaram-se malfeitores devido aos acontecimentos sócio-econômicos que ocorriam nos estados do Sul derrotados pelas forças nortistas americanas na Guerra Civil. Em Quem foi Jesse James?, Ray tentou mostrar que os irmãos foram atraídos para a criminalidade por não conseguirem se enquadrar num mundo em que os jovens não tinham vez, restando a eles apenas obedecer. Portanto Ray descobriu uma causa para os irmãos sulistas jovens e rebeldes.


A 20th Century-Fox, que produzira a versão de 1939 dirigida por Henry King, também produziu esta nova versão da vida do bandoleiro apresentada por Ray, que antes de Juventude Transviada já havia chamado bastante a atenção da crítica, especialmente com western Johnny Guitar. Mas a Fox não ficou satisfeita com o trabalho de Nicholas Ray nesta nova releitura sobre Jesse James, e drasticamente editou o filme, tirando do mesmo a interpretação psicológica que Ray havia dado ao filme sobre os personagens interpretados por Wagner e Hunter. A Fox reduziu esse western de 105 minutos originais para 92, o que fez com que o diretor nunca aceitasse The True of Story Jesse James como um filme seu e o relegasse a um plano inferior na sua cinematografia. Uma pena.

Insatisfeito, Ray se sentia cada vez mais boicotado pelo cinema norte-americano, e possivelmente, como muito de seus heróis jovens ou maduros incompreendidos. Após rodar Jornada Tétrica (1957, com Christopher Plummer, foto) e A Bela dos Bas-Fond (1958), resolver fazer empreendimentos na Europa, e seus dois últimos filmes foram duas superproduções rodadas na Espanha, dos quais não teve o controle total da direção:


Rei dos Reis/King of Kings, de 1961, é um belo filme sobre a vida de Cristo, cujo ponto culminante é a cena do Sermão da Montanha, e que Ray dirigiu com muita competência, locomovendo, além dos atores, sete mil figurantes. O diretor posicionou uma postura cênica hierática e comovedora cuja projeção é de 168 minutos e tendo Jeffrey Hunter (com quem trabalhou em Quem foi Jesse James) no papel de Jesus, e curiosamente Robert Ryan, um de seus atores favoritos, como João Batista. Com um roteiro político (escrito pelo politizado Philip Yordan, amigo de Ray), colocando Jesus e outros personagens bíblicos do Novo Testamento em seu verdadeiro cenário , dando enfâse à dominação romana na Judéia nos tempos de Jesus Cristo. Na película bíblica de Ray, a figura de Cristo é posta de forma solene e até reverêncial, tendo como objetivo exaltar a figura do Filho de Deus. Mas Nicholas Ray, já um veterano na arte da direção e da análise de seus personagens, fazia questão de que estes tivessem uma força rebelde, buscando seu próprio destino. Então poderíamos esperar o Cristo de Ray um rebelde com causa (opostamente ao personagem de James Dean em Juventude Transviada) pela busca do amor ao próximo e pela Redenção, ou digamos, um Jesus com sangue, suor e lágrimas.


Contudo, apesar do cineasta fazer algumas pesquisas em bibliotecas e catedrais de Madrid e Espanha para compor o seu “Cristo”, se deixou levar pelos trâmites do produtor Samuel Bronston (1908-1994), que mais tarde iria falir seus estúdios em terras espanholas, e pelo amigo e roteirista Philip Yordan (1914-2003- que foi seu colaborador em outras obras), com quem se desentendeu durante as filmagens, rompendo definitivamente a amizade. O resultado acabou convencional, e muito embora o público tenha gostado (a trilha sonora de Miklos Rozsa garantiu a popularidade do filme) e algumas entidades católicas também, a crítica americana malhou cruelmente o filme apelidando como eu fui um Jesus adolescente.



55 Dias em Pequim/55 Days at Peking, de 1963, sobre a ocupação dos ingleses e norte-americanos na China, na época dos boxers. A narrativa constrói-se em torno nos três personagens centrais, interpretados por Charlton Heston, David Niven, e Ava Gardner. O soldado (Heston) é, homem de ação; o diplomata (David Niven, 1909-1983), um negociador; e a condessa russa (Ava Gardner, 1922-1990), uma condessa decadente. A condessa se sacrifica e Heston se humaniza ao estender a mão para receber uma menina chinesa. Em suma, esta última película dirigida pelo diretor foi mais uma produção conturbada (também por Samuel Bronston) filmada na Espanha com capital bloqueado pela lei de Remessas de Lucro. Houve problemas com falta de dinheiro, dificuldades para recrutar centenas de figurantes asiáticos por toda a Europa, e pela total falta de afinidade do elenco (causada em especial pelas bebedeiras de Ava Gardner, em papel para o qual Charlton Heston queria Jeanne Moureau).

Cansado das pressões do excêntrico Bronston, Ray abandonou a direção da fita após sofrer um ataque cardíaco durante as filmagens, deixando a finalização para os não-creditados Andrew Morton, o diretor de segunda unidade, e o fotógrafo Guy Green. O Resultado foi pior do que com o Rei dos Reis, não agradando nem crítica e nem público, e não demoraria muito tempo o excêntrico e dispendioso Samuel Bronston fecharia seus estúdios em Madrid (mesmo com sucessos como El-Cid e A Queda do Império Romano, que apesar de boas arrecadações nas bilheterias, não fez Bronston recuperar a perda com 55 dias em Pequim) e voltaria para o Estados Unidos, onde viveu em seus últimos anos de vida em Sacramento, na Califórnia, e sem as excentricidades de outrora, onde faleceu em 12 de janeiro de 1994, aos 86 anos.


NA VIDA PESSOAL, Nicholas Ray se casou 4 vezes. A primeira com Jean Evans, entre 1930 a 1940, de quem se divorciou.jovem escritora com quem já vivia desde o início da década. No ano seguinte, nasceu Anthony, o primeiro filho do casal. Ray, no entanto, não conseguia ser o protótipo do marido fiel. Durante o casamento, Evans se habituou a ver seu marido envolvido em inúmeros casos amorosos (e nem sempre com o sexo feminino). O casamento durou até 1940. Segundo Casamento foi com a atriz Gloria Grahame (1923-1981, na foto), sua estrela de O Silêncio da Noite, entre 1948 a 1952, de quem também se divorciou.


Vale a pena contar para registro a relação entre Ray e Grahame.Tanto e tão imensamente Ray entendia os adolescentes que, quando encontrou seu filho do primeiro casamento, Anthony Ray (que se tornaria produtor), então com 13 anos, na cama com Gloria Grahame, Nicholas Ray não tomou nenhuma atitude passional, como teria tomado o personagem de Lee Marvin em Os Corruptos/The Big Heat que jogou café fervendo no rosto de Glória e deteriorou todo seu rosto.


Ray separou-se da inquieta atriz, e por felicidade ninguém saiu mortalmente ferido do escândalo. Contudo, podemos imaginar o quanto foi difícil para Ray ser trocado pelo filho já que Anthony Ray casou-se com Gloria Grahame em 1960 e com ela viveu por 14 anos, enquanto Gloria e Nick Ray ficaram casados apenas quatro anos. Gloria era uma madura mulher de 37 anos e o filho de Nicholas Ray mal tinha completado 20 anos quando se casaram. A única atitude de Nicholas foi pedir a guarda do filho Timothy que ele tivera com Gloria, para garantir sua segurança.

Terceira núpcias com a dançarina e coreógrafa Betty Utey, com quem se casou em 1958 e foi sua colaboradora também para alguns trabalhos do diretor que requeriam a dança, como A Bela do Bas Fond, de 1958, em que também atuou como atriz, e Rei dos Reis (1961) que coreografou a dança de Salomé, interpretada por Brigid Bazlen (1944-1989). Mais um casamento que acabou em divórcio. Sua última esposa foi Susan Ray, com quem se casou em 1969 e com quem viveu até o seu falecimento.

Abandonando a direção e Hollywood, Ray dedicou-se ao ensino universitário, lecionando Cinema e Direção até meados dos anos 70, quando descobriu que tinha câncer.

O antigo desafeto Dennis Hopper foi quem ajudou Nicholas Ray conseguindo que ele passasse a ministrar aulas na Universidade de Nova York. O homem que deu espaço para os jovens e seus problemas nas telas, era agora professor de cinema de alunos como Jim Jarmusch (diretor do controvertido western Dead Man, com Robert Mitchum). Como professor, Ray pedia aos seus alunos que fumassem maconha durante as aulas para melhor interpretar suas teorias. Aliás, drogas e cigarros foram minando cada vez mais a sua saúde ao longo do tempo.

Wim Wenders, que o admirava, o colocou em seu filme O Amigo Americano, de 1977, como ator, e co-dirigiu com ele o documentário Lightning Over Water, editado em 1980, e que reflete os últimos momentos de Nicholas Ray e sua luta contra o câncer, que finalmente o sucumbiu, em 16 de junho de 1979, aos 67 anos.Foi sepultado perto de sua mãe, em Wisconsin, Estados Unidos.

FRASES DO DIRETOR

Acredito que isso vem do sentimento segundo o qual nenhum ser humano, homem ou mulher, é sempre bom ou mal. O essencial em toda representação da vida é que o espectador, quando assiste, tenha o sentimento de que, nas mesmas circunstâncias, faria a mesma coisa que o personagem faz se estivesse na pele dele, sejam esses atos bons ou maus. As fraquezas do personagem devem ser humanas, pois se elas o são, os espectadores podem reconhecer nelas suas próprias fraquezas.

- sobre o mal existir em cada ser humano, em entrevista concedida a Charles Bitsch, Cahiers du Cinéma 89, novembro de 1958.

Existe violência em todos os meus personagens. Em todos nós, ela existe em potência. É por isso que eu prefiro os não-conformistas: o não-conformista é muito mais sadio do que aquele que por toda sua vida regula seu cotidiano, pois é aquele mais apto, no momento menos previsível, a explodir e matar o primeiro que aparecer.

- falando sobre a violência de seus personagens, em entrevista concedida a Charles Bitsch, Cahiers du Cinéma 89, novembro de 1958.



"O cinema é a melodia do olhar".
Nicholas Ray




FILMOGRAFIA
Segundo Wikipedia

1948 - They Live by Night (br: "Amarga esperança" / pt: "Filhos da noite")
1948 - A Woman’s Secret (br: "A vida íntima de uma mulher" / pt: "O íntimo segredo de uma mulher")
1949 - Knock on Any Door (br / pt: "O crime não compensa")
1950 - In a Lonely Place (br: "No silêncio da noite" / pt: "Matar ou não matar")
1950 - Born to Be Bad (br: "Alma sem pudor / pt: "A deusa do mal")
1951 - Flying Leathernecks (br: "Horizonte de Glórias" / pt: "Inferno nas alturas")
1951 - On Dangerous Ground (br: "Cinzas que queimam" / pt: "Cega paixão")
1952 - The Lusty Men (br: "Paixão de bravo" / pt: "Idílio selvagem")
1954 - Johnny Guitar (br / pt: "Johnny Guitar")
1955 - Run for Cover (br: "Fora das grades" / pt: "O fugitivo")
1955 - Rebel Without a Cause (br: "Juventude transviada" / pt: "Fúria de viver")
1955 - Hot Blood (br: "Sangue ardente" / pt: "Sangue cigano")
1956 - Bigger Than Life (br: "Delírio de loucura" / pt: "Atrás do espelho")
1956 - The True Story of Jesse James (br: "Quem foi Jesse James?" / pt: "A justiça de Jesse James")
1956 - Amère victoire (br: "Amargo triunfo" / pt: "Cruel vitória")
1958 - Wind Across the Everglades (br: "Jornada tétrica" / pt: "A floresta interdita")
1958 - Party Girl (br: "A bela do bas-fond" / pt: "A rapariga daquela noite")
1960 - The Savage Innocents (br: "Sangue sobre a neve" / pt: "Sombras brancas")
1961 - King of Kings (br: "O rei dos reis")
1963 - 55 Days at Peking (br / pt: "55 dias em Pequim)



Bibliografia: Revistas sobre cinema, site Cineplayers, Cinema de Hoje na TV com Paulo Perdigão, Site Wikipédia


Produção e pesquisa de Paulo Telles.