Mostrando postagens com marcador A.C.Gomes de Mattos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A.C.Gomes de Mattos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Editor do Filmes Antigos Club Artigos Recebe Mensagem do Escritor Saulo Adami por E-Mail. Uma Homenagem à CINEMIN


ARTIGO DE NOTA

Aos amigos e leitores do presente Blog.
É com surpresa, orgulho, e emoção, que domingo último, à noite, recebi uma mensagem via correio eletrônico do jornalista e escritor LUIZ SAULO ADAMI, que colaborou para a saudosa revista CINEMIN, nas décadas de 1980/90.
Para a surpresa deste saudosista editor que vos fala, que nunca escondeu sua admiração pela publicação,que tão bem fez parte da vida de muitos cinéfilos ou amantes da arte cinematográfica, recebi um e-mail de agradecimento pelas referências que costumo dar não somente a revista que deixa hoje imensa saudades em todos os fãs leitores da Sétima Arte, como também aos trabalhos de seus colaboradores (muitos já falecidos), que foram o baluarte de tão grande empresa, com suas matérias magníficas e de tão grande primor.
E o Sr. Luiz Saulo Adami é um destes colaboradores, que deu a Revista Cinemin grande sensação de nostalgia em suas matérias. Abaixo, um Fac-Simile da sua mensagem a mim, na noite de 5 de fevereiro último:

Boa noite, Paulo Telles!
Que satisfação, ao fazer uma "ronda" rotineira por referências ao meu trabalho na internet, encontrar tuas palavras falando da nossa saudosa revista CINEMIN! Realmente, a revista deixou saudades, e sempre me emociono ao tomar conhecimento de alguém que se lembre dela e do nosso trabalho em suas páginas!
Deus te abençoe! Grande abraço, e uma vez mais minha gratidão!
Saulo Adami
Escritor


Enviei-lhe uma resposta, a que passo aqui para conhecimento dos amigos e leitores:

Saudações, Mestre Luis Saulo Adami
Primeiramente, sinto-me honrado com tão ilustre mensagem, vindo de um grande arquiteto das letras, e um profundo conhecedor da Sétima Arte, que tive não somente o privilégio de ler matérias ricamente conceptivas, como também, ao lê-las, me fez viajar prazerosamente ao mundo do conhecimento cinematográfico.
Posso dizer seguramente que fui “alfabetizado” ao ler os artigos compostos por MESTRES como o professor A.C Gomes de Mattos, João Lepiane, Gil Araujo, Salvyano Cavalcanti de Paiva, e claro, vossa senhoria (e entre outros que eu pudesse ter esquecido, me perdoe), que nos brindou com artigos primorosos cheios de encanto e informação, como os que li em dois números sobre O PLANETA DOS MACACOS, de sua autoria. Trabalhos como os vossos tem que ser levados a culto, à memória dos leitores fãs de cinema não somente no Brasil, mas em todo o mundo.
Guardo não somente com muito carinho grande parte destes números, como também são minhas fontes de pesquisa (a “Bíblia” do pesquisador de cinema), e faço questão de divulgar, com intuito de preservar a memória desta saudosa revista, bem como os escritores que contribuíram com suas maravilhosas e prestigiadas matérias ao longo de todos os anos em que circulou.
Eu que agradeço por este contato (que espero que não seja o único entre nós), o qual eu guardarei em meus arquivos com muito carinho, pois sabedor de seu primoroso trabalho e leitor antigo de CINEMIN, tenho o senhor, juntamente com o Prof. AC e os demais, como um verdadeiro mestre na arte de informar e escrever sobre cinema.
Desejando ao senhor uma semana de paz, sob as bênçãos do Grande Arquiteto do Universo, e a gratidão é toda minha.
EM TEMPO: A proposta deste blog foi não somente contar curiosidades sobre filmes antigos, mas também referenciar aqueles que ao longo dos anos nos legou conhecimentos e profundas informações sobre a Sétima Arte, e a revista CINEMIN foi, sem dúvida, através de seus escritores, o patamar de toda a informação em nosso país. Assim enquanto houver quem se lembre do trabalho destes sublimes profissionais, jamais será esquecido ou ignorado por todo grande leitor fã da enorme tela.
Eu que agradeço, Sr. Saulo Adami, por este contato, que será lembrado através dos anos com enorme respeito e carinho.
Deus que te abençoe triplamente!
Paulo Telles- Editor

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

FITAS & FATOS: Wyatt Earp - Ficção e Realidade.

Há poucos dias, comentei um artigo no site “Histórias de Cinema”, do respeitado jornalista e escritor sobre o assunto, Professor A. C Gomes de Mattos, em um de seus posts intitulado” Western: Fantasia e Realidade”, onde expressei as linhas diferenciais que existem entre os filmes que Hollywood, durante muito tempo, promoveu em relação ao mitos do Velho Oeste Americano.

Antes mesmo do surgimento do cinema, tais personagens já eram laureados da legenda romântica de seus feitos por escritores bem parecidos com os nossos, que aqui chamamos de cordéis. Verdade que eles tinham capacidade de aumentar feitos (ou mesmo de inventar), e talvez alguns, deturpar os acontecimentos.

Quem nunca ouviu falar destes personagens reais do Velho Oeste, que se não fosse Hollywood ao longo de seus anos, não fez do que cultivá-los perante as plateias do mundo inteiro? Jesse James, Bat Masterson, Jane Calamity (Jane Calamidade), Wild Bill Hickcok, Buffalo Bill, e tantos outros, cujos os registros de seus feitos verdadeiros somente os historiadores conhecem, distante de toda legenda áurea que o cinema ilusionou. Contudo, sempre por traz dos mitos, há verdades bem distanciadas, e algumas vezes, nada heroicas.

Isto me fez refletir em postar alguns artigos que ao longo do tempo, farei. A partir deste momento, estou inaugurando FITAS & FATOS, onde além de comentar determinado filme ou evento histórico, traçarei também algumas comparações com a realidade segundo historiadores.

E nesta primeira sessão de artigos, o primeiro personagem que analisaremos será Wyatt Earp, um dos grandes mitos do Western, levado as telas do cinema inúmeras vezes, e que já foi encarnado por Randolph Scott, Henry Fonda, Burt Lancaster, James Garner, Kurt Russell, e Kevin Costner, e isto sem contar outros coadjuvantes que o interpretaram, como Will Geer em “Winchester 73”, de Anthony Mann.


O VERDADEIRO WYATT EARP

O Nome de Wyatt Earp (1848-1929) tornou-se popular da noite para o dia, no ano de 1931, quando o escritor Stuart Lake (1889-1964) publicou o livro “Wyatt Earp, Frontier Marshall” (Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira), narrando as façanhas do então desconhecido Earp, que havia apenas dois anos, morrera de velhice. Diferente de outros mitos do oeste americano, cuja fama já havia alcançado ainda em vida, com Earp não assim se sucedeu.

O livro por ser quase inteiramente escrito na 1ª pessoa, fez crer a todos que se tratava de uma verdadeira autobiografia. Stuart Lake assegurava aos seus leitores ter transcrito para o papel as palavras que ouvira do próprio Wyatt. Sobre si mesmo e sobre os acontecimentos. Mas anos depois, enquanto o livro atingira seu sucesso editorial, Lake declarou que tudo que havia escrito era de sua autoria e de sua inteira responsabilidade. Desmentia sua afirmação anterior, revelando que Wyatt não lhe havia fornecido dado algum e que o livro divulgava apenas boatos. Wyatt Earp morreu em 1929, e obviamente, não pôde se defender.

Mas o que teria provocado tamanha atitude por parte de Stuart Lake? Simples. Alguém lhe havia informado que era falsa aquela narrativa de façanhas, que Wyatt Earp não havia sido o defensor da lei que fulminava os criminosos, implacável com os “Bad Man”, e nem o cavaleiro sem mácula isento dos mínimos defeitos humanos, como o livro levava a crer. E esta pessoa nada mais era que a própria cunhada do biografado, Allie Earp, mulher do irmão de Wyatt, Virgil, Xerife de Tombstone à época do famoso tiroteio (famoso graças aos filmes que Hollywood tanto produziu ao longo dos anos).

Allie Earp confiara a Frank Waters, um escritor que desencadeava velhas histórias do Oeste no início dos anos 30 - a versão fiel da vida dos Earp, de como eles eram em família, longe das luzes do mito. Da sua narrativa, crível como um livro de pequenos contos domésticos, vinha à tona não apenas que Wyatt não era o defensor implacável do livro de Stuart Lake, mas que devia ser o gênio mal da família, a ruína de seus irmãos, meros instrumentos de suas ambições. Muito mais de vilão do que de mocinho.

No entanto, muito poucos acreditaram nessa desmitificação. Na época, o cinema ainda estava a procura de heróis, não de personagens freudianos ( o que viria acontecer tempos depois), e já havia levado à glória a legenda de Wyatt Earp.

O Memorial de Allie Earp, desenterrado após mais de vinte anos dos arquivos do Arizona State Historical Association, estimulou a pesquisa de outros historiadores, dentre os quais deve ser destacado o nome do escritor Ed Bartholomew, que condensou em dois volumes os resultados dos vários anos destinados a essa pesquisa: “Wyatt Earp, The Untold Story” (A História de Wyatt Earp não contada), e Wyatt Earp, the Mann and the Myth (Wyatt Earp, o Homem e o Mito).

Surge então, a esquálida figura de um jogador inveterado, privado de escrúpulos, megalomaníaco, sedento de glória e poder, que tomava para si qualquer sombra de mérito que coubesse a seus irmãos.

Wyatt Earp não seria assim o legendário herói de filmes como Frontier Marshal (estrelado por Randolph Scott), ou Paixão dos fortes, de John Ford (protagonizado por Henry Fonda), ou ainda “Sem Lei e Sem Alma” (talvez aqui a personificação mais romântica de Earp feita por Burt Lancaster), mas o homem derrotado, envenenado pela frustração, capaz de matar quem se metesse em seu caminho, sob a máscara da lei, ou para se livrar de testemunhas perigosas, e quem sabe, para mostrar ao mundo que era alguém.


WYATT EARP E O MITO NO CINEMA

Do Earp mítico baseado na legenda romântica de Stuart Lake a um estudo aprofundado e freudiano que veríamos anos depois, eis alguns dos mais importantes filmes sobre o Marshall, e que o tem tanto como protagonista.

A Lei da Fronteira/ Frontier Marshall / 1939 (Randolph Scott), Horas de Perigo / Tombstone, The Town Too Tough to Die / 1942 (Richard Dix), Paixão dos Fortes / My Darling Clementine / 1946 (Henry Fonda), Winchester 73 / Winchester 73 / 1950 (Will Geer), Duelo de Morte / Law and Order / 1953 (Ronald Reagan), De Homem Para Homem / Gun Belt / 1953 (James Millican), Ases do Gatilho / Masterson of Kansas / 1954 (Bruce Cowling), Sem Lei e Sem Alma / Gunfight at O.K. Corral / 1957 (Burt Lancaster), A Morte a Cada Passo / Badman’s Country / 1958 (Buster Crabbe), Valentão é Apelido / Alias Jesse James / 1959 (Hugh O’Brian), Crepúsculo de uma Raça / Cheyenne Autumn / 1964 (James Stewart), Os Reis do Faroeste / The Outlaw is Coming / 1964 (Bill Canfield), A Hora da Pistola / Hour of the Gun / 1967 (James Garner), Tombstone, A Justiça Está Chegando / Tombstone / 1993 (Kurt Russell), Wyatt Earp / Wyatt Earp / 1994 (Kevin Costner), sem que a verdade completa sobre sua vida fosse abordada, ainda assim, mantendo a áurea romântica do personagem promovida desde o início de suas produções cinematográficas. Listarei aqui os seis principais em que Earp tem o papel definitivo principal.


1- A LEI DA FRONTEIRA (Frontier Marshall) -1939

Na realidade, existem duas versões deste filme realizadas num curto espaço de tempo de cinco anos. A primeira versão data de 1934, e estrelado por George O’ Brien (1899-1985), interpretando Michael Wyatt, e Alan Edwards (1892-1954) como Doc Warren (em vez de Doc Holliday).


Foi em realidade a primeira película a registrar as “façanhas” da dupla Earp/Hollyday, contudo sem fazer menções de seus verdadeiros nomes. Em 1939, usufruindo de seus verdadeiros nomes, Wyatt Earp foi interpretado pelo querido Randolph Scott (1898-1987) e Doc Holliday por Cesar Romero (1908-1994), que anos depois seria o "Coringa" da série de TV Batman (1966-1968).

Realizada justamente no décimo ano de aniversário da morte de Wyatt, o filme celebrou como um dos primeiros westerns a romancear de modos bem exagerados as aventuras dos “heróis” de Tombstone. O filme foi dirigido por Allan Dwan.


2- PAIXÃO DOS FORTES (My Darling Clementine)- 1946.

Obra prima do Mestre John Ford (1895-1973), que segue ipisis literis a sua própria afirmação: Publique-se a lenda, pois é ela mais forte que os fatos.

Aqui, vemos Henry Fonda (1905-1982) personificando Earp como um homem rude, porém dentro da lei e sonhando pela justiça dentro de uma comunidade onde impera a violência e o jogo. Novamente, as figuras centrais se concentram em Doc e Wyatt. O cinema foi propagando a “amizade” entre estes dois ícones, quando na realidade ambos só tinham o gosto pelo jogo, mas eram bem diferentes. Contudo, se tornou um dos grandes westerns do Mestre Ford, devido a sua simplicidade, poesia, e grandes interpretações, com destaque maior para Fonda.

Doc Holliday foi interpretado por Victor Mature (1913-1999), que aqui, em vez de ser um dentista (como era de fato), é um médico. Outra coisa a fugir dos eventos realísticos é o fato de Holliday nesta obra de Ford morrer no confronto de Tombstone, quando na realidade, o verdadeiro Holliday sobreviveu e só veio a falecer seis anos depois, em um sanatório, a 8 de novembro de 1887, de tuberculose.

3-SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight the Ok Corral) 1956

Talvez a personificação mais santificável de Wyatt Earp esteja nesta obra de John Sturges (1910-1992), com um desempenho de primeira grandeza por parte de Burt Lancaster (1913-1994) e onde Kirk Douglas interpreta com estilo Doc Holliday. Ao contrário do verdadeiro Wyatt Earp, o Wyatt de Burt odeia jogo e é o “cara mais certinho do mundo”, o típico “Senhor Virtude”, como ironiza Kate Fischer (Jo Van Fleet, 1914–1996) ao seu companheiro Doc Holliday (Douglas). Outra "fantasia" a fugir da verdade sobre Wyatt é o fato dele ser um tremendo solteirão neste filme, para justificar sua relação amorosa com uma jogadora profissional, Laura Denbow, personagem fictícia interpretada pela bela Rhonda Fleming. Wyatt Earp é, aqui, um homem correto da lei, sensível e romântico, sem as rudezas da personificação de Henry Fonda em My Darling Clementine. Um cavaleiro romântico e do bem, que quer as coisas dentro da lei e da ordem do primitivo oeste, o oposto do verdadeiro personagem.

Destaque para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin (1894-1979) e a canção “Gunfight of The Ok Corral” cantada pelo fenomenal Frankie Laine (1913-2007), famoso cantor de boas baladas ao estilo do Velho Oeste. Certamente, Sem Lei e Sem Alma é um dos grandes westerns Classe A de todos os tempos.

4-A HORA DA PISTOLA (Hour of Gun) – 1966

Dez anos depois, o cineasta John Sturges resolveu dirigir uma nova versão do célebre tiroteio e da vida de Holliday e Earp, intitulado “A Hora da Pistola”. Dessa vez, Wyatt é interpretado por James Garner (fisicamente o que se aproximou da aparência física real do personagem).

Sturges, diferentemente com que havia feito dez anos antes em sua obra Sem lei e Sem alma, optou em substituir a legenda romântica pelo realismo dos eventos. Wyatt ainda era o correto homem da lei, contudo mais rude e amargo do que Burt Lancaster. Sua amizade com Doc Holliday (Jason Robards, 1922-2000) é evidentemente contrastante neste filme. Doc que na realidade incentiva Wyatt a matar Ike Clanton (Robert Ryan, 1909-1973) e seus asseclas. Ryan desempenha Clanton de maneira refinada e cínica, ao contrário de Walter Brennan de Paixão dos Fortes, rústico selvagem e traiçoeiro.


Wyatt Earp e seu amigo Doc estão dispostos a realizarem a vingança após os conflitos que acabaram com O. K. Corral, já que os familiares de Earp foram assassinados pelos perigosos irmãos Clanton. Porém, seu principal alvo (que é Ike) ainda está vivo e pronto para atacar. Talvez tenha sido a primeira vez no cinema que ousou a apresentar a vida de Wyatt e o célebre tiroteio um pouco mais fidedigno aos fatos. A magnífica Trilha Sonora de Jerry Goldsmith (1929-2004) garantiu também a popularidade deste western.

Há críticos que afirmam que A Hora da Pistola é uma continuação de Sem Lei e Sem Alma por se tratar do mesmo cineasta que realizou ambos os westerns, entretanto isto não é verdade já que as duas versões diferenciam bastante, bem com o as interpretações e a situação dos roteiros, uma vez que na versão estrelada por Burt Lancaster e Kirk Douglas, ao fim, tudo indicava que tinham resolvido a parada de vez, já que Ike e seus homens foram mortos no duelo (e ambos se despedem, para talvez não mais se verem), enquanto que a versão de Garner e Robards parte do ponto inicial do duelo, e ao longo da obra vão atrás de Clanton e seus capangas a todo custo, sedentos de vingança.


Em 1987, 21 anos depois, Garner voltaria a interpretar Earp, no fictício Assassinato em Hollywood, contracenando com Bruce Willis que desempenha o famoso ator de westerns mudos Tom Mix (1880-1940), onde os dois se unem numa história detetivesca de ação e mistério, dirigido por Blake Edwards (1922-2010), que resultou um dos poucos fracassos de bilheteria do renomado diretor.

5- TOMBSTONE, A JUSTIÇA ESTA CHEGANDO (Tombstone) – 1994

Após o lançamento de Os Imperdoáveis de Clint Eastwood, em 1992 que se tornou um grande sucesso de crítica e público (além de ter ganhado o Oscar de melhor filme), houve em Hollywood uma empolgação de se produzir mais westerns, já que o gênero estava praticamente extinto havia alguns anos, desencadeando uma volta triunfal ao velho estilo cinematográfico. Só em 1994, houve duas tremendas superproduções a contar só a vida de Wyatt Earp, e uma delas foi Tombstone, a Justiça esta chegando.

O cinema, em realidade, não tem pretensão de desmistificar, pois antes de tudo é uma máquina de sonhos. Esta regra se seguiu quando mesmo os avanços da História e das informações confirmaram que os míticos eventos não eram, em absoluto, acontecimentos reais. No entanto, a personificação de Earp aqui se seguiu aos mesmos moldes de Fonda em Paixão dos Fortes e de James Garner em Hora da Pistola.

Kurt Russel faz aqui uma interpretação bastante sóbria (ainda que um pouco infidedigna) de Earp, mas o destaque principal esta em Val Kilmer como Doc Holiday, numa narrativa ágil e uma trilha sonora empolgante, além a belíssima narração em off de Robert Mitchum (1917-1997), e com a participação do bom e velho Charlton Heston, como um rancheiro que recebe os irmãos Earp em sua casa. A Direção a cargo de George Pan Cosmatos.

6-WYATT EARP (Idem) – 1994

Um verdadeiro épico em superprodução contando a saga do marshal com quase 4 horas de duração (talvez o western mais longo do cinema), desde sua adolescência do Missouri, até suas atividades como delegado federal no Arizona. Produção de 50 milhões de dólares, fracassou na bilheteria nos EUA, e foi o início da bancarrota para Kevin Costner, que no ano seguinte declinaria de vez com o absurdo Waterworld - O segredo das águas.

Costner, além de desempenhar o próprio Earp, também produziu o filme. Na época do lançamento, ouviu-se dizer que ele empenhou-se muito em pesquisas em várias bibliotecas do Oeste e em outros registros históricos sobre Wyatt. Imaginamos, então, que ele tenha também tido acesso aos documentos da cunhada de Wyatt, Allie Earp.

O que aconteceu que Costner, amante de filmes clássicos e admirador de outras versões sobre a vida do famoso delegado, tentou unir a característica quase imaculada de Earp das antigas produções hollywoodianas com os eventos reais conforme sua real biografia. Infelizmente, resultou um filme pesado, lento, e cansativo, e se tornou bem inferior a Tombstone, a Justiça esta chegando, lançado no mesmo ano de 1994. No destaque, Dennis Quaid no papel de Doc Holliday. Direção de Lawrence Kasdan (de Silverado, outro faroeste com Costner, bem melhor sucedido).


WYATT EARP: A SÉRIE DE TV COM HUGH O’ BRIAN


Estreando em 6 de setembro de 1955, The Life and Legend of Wyatt Earp (no Brasil, Wyatt Earp) foi a primeira série de western adulta na história da televisão americana (lembremos anteriormente das infantis, como Rin Tin Tin, The Lone Ranger, e Cisco Kid, devidamente destinado para o público infantil). Chegou a bater na audiência de Gunsmoke, estrelado por James Arness (1923-2011) por quatro dias.

A série, como não podia deixar de mostrar, tinha o célebre delegado de Dodge City e de Tombstone que foi aqui vivido por Hugh O’ Brian (ainda vivo, hoje com 86 anos), domando os desordeiros e implantando a lei e a ordem. A produção esforçou-se para recriar vestuários e cenários iguais aos autênticos, chegando a minúcias como a de fabricar uma arma idêntica à que Wyatt usava: a Buntiline Special. A série durou seis temporadas (1955 a 1961) num total de 226 episódios, todos em preto & branco.

Hugh O`Brian, nasceu em 19 de abril de 1925, em Rochester, Nova York. Foi descoberto para a televisão pela atriz e diretora Ida Lupino (1918-1995), que lhe abriu as portas para um contrato com a Universal Studios, mas ficando restrito a papéis secundários em filmes como Red Ball Express”, Son of Ali Baba e “Seminole. Ao término do contrato com a Universal, em 1955, estabeleceu um grande sucesso na televisão com a série de TV Wyatt Earp por um período de seis anos. Direcionou seus talentos como cantor e atuou em espetáculos da Broadway. Permaneceu como astro nas décadas de 1960 a 1970, com muitos trabalhos no teatro e na televisão. Um solteiro convicto, casou-se em 2006, aos 81 anos, com Virginia Barber, companheira de um relacionamento de 18 anos.

Mas em 1994 (mesmo ano das duas produções mais recentes do personagem lançados no cinema, com Kurt Russell e Kevin Costner), O’ Brian retornou ao papel na Tv que o tanto afamou num longa especial chamado Wyatt Earp, retorno a Tombstone, onde já velho e aposentado retorna para enfrentar um antigo inimigo, e recorda fatos do passado, em flashbacks dos episódios antigos da série.


OUTROS FATOS REAIS E A “AMIZADE” ENTRE DOC E WYATT.

Wyatt Earp não foi o destemido Henry Fonda, e tampouco o galante e correto Burt Lancaster nos filmes como já foi aqui falado. Ate mesmo “amizade” entre Wyatt Earp e Doc Holliday é discutida, pois ambos eram muito diferentes, em diversos aspectos, sobretudo de berço que cada um teve: Wyatt era filho de rudes camponeses pioneiros e John Holliday provinha de uma conhecida família de elite da Georgia.


Dentista diplomado, mas tuberculoso, Doc partiu para Dallas, em 1872, para mudar de ares. Todavia as pessoas temiam ser tratadas por mãos de quem tossia e cuspia sangue e, assim, John perdeu seus clientes e acabou entregando-se no jogo.

Naquele mundo de violência, onde a troca de tiros era a regra e quem fossem o mais rápido no gatilho imperava, Doc, débil como uma criança e atormentado pelo medo mórbido de ser espancado, pôde contar somente, com o seu revólver para se defender.

Considerando-se já um homem morto, agia friamente diante do perigo. Não respeitava a própria vida e bebia muito. Estranhamente, embora o destruindo mais depressa, o álcool lhe infundia energia e confiança, e isso era a mais absoluta verdade.

Wyatt o conheceu em Fort Griffin, talvez numa mesa de jogo, não se sabe ao certo. Depois disso, Doc foi preso por homicídio. Wyatt o reencontrou em Dodge e se uniram graças à paixão que ambos sentiam pelo jogo.

Na única vez em que tentaram conversar, em 1882, descobriram tantas divergências entre si, que preferiram não se falar mais. Logo, o que os dois tinham, de fato em comum, era o amor ao jogo e a bebida.

OS ÚLTIMOS ANOS DE WYATT, SEUS IRMÃOS & FAMÍLIA

A realidade dos fatos, é que não houve, sem dúvida, nenhum evento heroico quanto ao tiroteio/massacre do “duelo” de OK Corral, ocorrido em 26 de outubro de 1881. Wyatt Earp e Doc Holliday foram presos, e os irmãos de Wyatt, Virgil e Morgan foram feridos, e ficaram sob os cuidados de Allie Earp, esposa de Virgil.

De Tombstone, Wyatt e sua família terminaram a suas aventuras no Arizona. Solto, Wyatt atravessou a fronteira do colorado. A vida de Wyatt se reduziu a vagabundagem dos jogadores profissionais. Certa vez, um homem chamado Bob Paul chegou de Denver com o pedido de extradição de Wyatt, Warren (irmão de Wyatt) e Doc Holliday, que foram acusados de triplo homicídio. Entretanto, o Governador Pitkin, talvez influenciado por altos expoentes da maçonaria que protegiam Wyatt (que aliás, Wyatt fazia parte), não quis aceita-lo.

Em novembro de 1887, Doc Holliday morreu de tuberculose num sanatório de Glenwood Spiring, no Colorado. E os Earp prosseguiram longe de Wyatt. Virgil reconstruiu uma vida respeitável ao lado de Allie, vindo a falecer de pneumonia em 1905, em Goldfield (Nevada). A pequena e fiel Allie ainda lhe sobreviveu até o ano de 1947.

Jim Earp, o irmão mais velho de Wyatt, morreu em Los Angeles, em 1926. Warren, por sua vez, voltou para o Arizona e entregou-se à bebida, vindo a morrer em 1900, assassinado por um cowboy chamado Johnny Boyet, que costumava procura-lo sempre que estava bêbado.


E WYATT?

Em 1882, ao chegar em São Francisco, se casou com sua ex-amante de Tombstone, Sadie, cujo verdadeiro nome era Josephine Sarah Marcus. Após três anos de vagabundagem, publicou a sua fantasiosa autobiografia no jornal Weekly Examiner, de São Francisco, que lhe proporcionou, por algum tempo, aquela popularidade que sempre buscou em vida. Detalhe: Wyatt se casou com Sadie sem obter o divórcio de sua primeira esposa.

Em 2 de dezembro de 1896, em São Francisco, deu-se o famoso encontro entre os boxeadores Tom Sharkey e Bob Fitzsimmons. O árbitro foi Wyatt Earp, que foi multado em 50 dólares por ter conduzido a luta com sua Buntline especial no coldre. Os dois lutadores trocaram golpes irregulares, sem que Wyatt intervisse.

No oitavo round, quando Sharkey foi derrubado, Wyatt interrompeu a luta, desqualificando Fitzsimmons por desfechar um suposto golpe baixo. Obviamente, foi o fim-do-mundo. Dizem que Wyatt apostara uma boa soma em Sharkey e fizera com que seus amigos também apostassem nele. A verdade é que os 10.000 dólares do prêmio não foram entregues ao vencedor, e o caso foi parar no Tribunal.

Dizia a notícia do jornal Chronicler de 9 de dezembro do corrente ano: “Crescem as dificuldades do Terror de Tombstone”. As dificuldades em questão eram duas denúncias por dívidas não pagas. Wyatt sempre se declarava assim em sua defesa: “Possuo apenas a roupa que estou usando”.



No ano seguinte, em 1897, Wyatt e sua segunda mulher, Sadie, se transferiram para Nome, no Alaska, onde abriram o Dexter Saloon. Certa noite, depois de ter bebido além da conta, Wyatt resolveu mostrar aos clientes por que ficara famoso no Arizona, com sua Buntline Especial. O Marshal Federal Albert Lowe arrancou-lhe a arma e o esbofeteou. O “Terror de Tombstone” não reagiu.

Em 1900, o jornal Arizona Daily Citizen noticiou o fato de que Wyatt, no hipódromo de San Francisco, chegou às vias de fato com um famoso dono de cavalos, Tom Mulqueen, e como foi logo derrubado, voltando Wyatt, assim, para casa com os dois olhos roxos.

Em 26 de julho de 1911, o Arizona Star noticiou de Los Angeles que, Wyatt Earp, o famoso pistoleiro, e outros dois, Walter Scott e Edward Dean, haviam sido presoso por uma tentativa de fraude de 25.000 dólares contra J. W. Patterson. Contra ele pesava ainda acusação de vagabundagem. Não se sabe como terminou o caso.


E QUANTO A MATTIE EARP, A PRIMEIRA ESPOSA???

Mattie, a primeira e abandonada esposa de Wyatt (cujo verdadeiro nome era Celia Ann "Mattie" Earp), nunca mais tornou a vê-lo. De Colton, para onde Wyatt a “despachou” sem meios, após a morte de Morgan, Mattie voltou para o Arizona mais precisamente para Globe, onde Kate “nariguda”, a “viúva” de Doc Holliday, dirigia uma pensão.

Mattie parecia um fantasma...Wyatt a havia destruído.


Depois disso, Kate fechou a pensão e se mudou para o pequeno centro de minério de Pinal, onde começou a descer, um por um, todos os degraus da degradação humana.
Atingindo o auge do desespero, Mattie se suicidou em 7 de julho de 1888, ingerindo uma dose forte de láudano. Talvez de todos os crimes cometidos por Wyatt Earp, este seja, sem dúvida, o mais cruel.

Wyatt Earp morreu de morte natural em 1929, pouco antes que Stuart Lake, o escritor, publicasse a falsa biografia que o celebrizaria e que faria de Wyatt o protótipo do herói do Oeste, que o cinema promoveu através de inúmeros westerns. Tanto a Sétima Arte quanto a televisão lhe ergueram um monumento que o mundo admira. Mas, lamentavelmente, a História registrou no seu pedestal as palavras que um certo juiz escreveu ao fim do inquérito sobre a morte de Mattie Earp aos pais desta, ao lhes informar do ocorrido: WYATT EARP...BÍGAMO, TRAPACEIRO E VELHACO.

CONCLUSÃO: Apesar de todas estas desmistificações, é imperativo dizer que o cinema, antes de tudo, é uma máquina de sonhos. Os westerns foram avançando, evoluindo de acordo com o tempo e com o grau de desenvolvimento do público, que vinha exigindo mais realismo no Gênero. Mas ainda assim, os faroestes a moda de John Wayne, Randolph Scott, Audie Murphy, Joel McCrea, entre tantos outros, continuam a ser os mais badalados por todos os fãs do Western.

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES


Fontes de Referência e Pesquisa- Bibliografia
“O Homem do O.K Corral”, de Rino Albertarelli- Editora Ebal (1974)

domingo, 26 de setembro de 2010

Hollywood e a Segunda Guerra Mundial


Durante a II Guerra Mundial, o Cinema Americano prestou notável contribuição para o esforço de guerra. Grande parte dos filmes de Hollywood produzidos entre 1942 a 1945 foram filmes de guerra ou com temáticas similares, pois inseriam um tema relacionado com a guerra objetivando estimular o patriotismo da Nação.


Nos anos que transcorreram entre a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler e o ataque japonês a Peal Harbor, Hollywood já vinha combatendo o sentimento isolacionista que predominava na América fazendo filmes com temas anti-nazistas e, em 1940, formou-se o Motion Picture Commitee Cooperating for National Defense (Comitê do Cinema para Cooperação com a Defesa Nacional), com a finalidade de cuidar da distribuição e exibição gratuita dos filmes de propaganda, produzidos por várias agências governamentais.



APÓS o ataque japonês de 7 de dezembro de 1941, este grupo se tornou o War Actives Commitee (Comitê de Atividades de Guerra) e, entre os filmes que circulavam nessa ocasião, estavam os de recrutamento, procurando atrair voluntários para as forças armadas ou braços para a indústria de guerra. No meio de outros, incluíam-se películas como QUEM QUISER TER ASAS/Winning Your Wings, no qual aparecia James Stewart (1908-1997) convocando rapazes para a aviação; e A MULHER E A GUERRA NOS ESTADOS UNIDOS/Women In Defense, com Katharine Hpeburn (1907-2003) narrando um comentário escrito por Eleanor Roosevelt, destinado a encorajar a adesão feminina; FORÇA PARA A DEFESA/Power for Defense, mostrando como a energia do Vale do Tennessee era usada para movimentar as máquinas das fábricas.



Em junho de 1942, o governo institui o Office of War Information (Gabinete de Informação de Guerra) para servir de contato com a Indústria Cinematográfica. Através desta agência, Hollywood e Washington trabalharam juntos. Cópias de todos os filmes de ficção em longa metragem e Shorts foram postos à disposição das forças armadas. Perto do final da guerra, cerca de 43 mil cópias tinham sido embarcadas para que os soldados as vissem a bordo dos navios ou nos acampamentos de além-mar.



APOIADOS pelo Research Council of the Motion Picture Academy (Conselho de Pesquisa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas), presidido pelo chefe da 20ªth Century-Fox, Darryl F. Zanuck (1902-1979), e em cooperação com o U.S.Signal Corps (Corpo de Sinaleiros dos Estados Unidos), os estúdios dedicaram-se aos filmes de treinamento, sem fins lucrativos.

Em 1944, a produção destes filmes tinham alcançado a percentagem de 20 por semana, segundo palavras do General Eisenhower, a fase de treinamento pôde ser abreviada, colocando os soldados prontos para entrarem em combate com maior antecedência. Os oficiais da Divisão Fotográfica do Corpo de Sinaleiros, sob os auspícios do Conselho, adestravam-se nos estúdios e atuavam como consultores a fim de se preservar a correção técnico-militar de cada filme. Os únicos custos para o Departamento de Guerra consistiam no pagamento da mão-de-obra e do filme virgem, e o Conselho ajudava na seleção de gente para trabalhar nas equipes cinematográficas.

OS FILM DALLY YEARBOOKS de 1942 e 1943 dão uma lista imensa do pessoal de cinema que prestava serviço às forças armadas naqueles anos, como Zanuck, Merian C. Cooper, James Stewart, Frank Capra, Lloyd Bacon, Robert Montgomery, Douglas Fairbanks Jr, John Ford, Gene Autry, John Huston, Clark Gable, Anatole Litvak, William Wyler, Tyrone Power, William Holden, George Brent, Robert Taylor, Victor Mature, Melvyn Douglas, John Payne, Robert Ryan, Robert Stack, Henry Fonda, Robert Mitchum, Burgess Meredith, Alan Ladd, George Stevens, Ronald Reagan (futuro Presidente dos EUA), Glenn Ford, entre muitos outros. E SEM CONTAR os artistas que no futuro iriam despontar nas grandes telas e que também deram sua imensa contribuição para a Pátria, como Lee Marvin, Charles Bronson, Rock Hudson, Paul Newman, Kirk Douglas, Charlton Heston, Ernest Borgnine, Telly Savalas, George Kennedy, James Arness, Jack Palance, Jeffrey Hunter, e Audie Murphy (foto), que foi o soldado mais condecorado na II Guerra Mundial, recebendo 24 medalhas, incluindo a Congressional Medal of Honor, a Medalha de Honra do Congresso Americano – e se tornaria um dos maiores cowboys do cinema nas décadas de 1950 e 60 e que iria falecer prematuramente em um desastre aéreo com apenas 46 anos em 1971.


ROBERT TAYLOR (1911-1969, foto), por exemplo, serviu como instrutor de vôo no setor de transporte aeronaval, chegando a dirigir 17 filmes de treinamento e narrou o documentário de longa-metragem Belonave/The Fighting Lady, vencedor do Oscar em 1944.

Clark Gable (1901-1960- foto), na aviação, cumpriu com bravura várias missões sobre a Alemanha e atingiu o posto de Major.



James Stewart, comandante de bombardeios, fez muitos vôos arrojados contra o inimigo e se reformou em 1968 como general-brigadeiro da Air Force Reserve (Reserva da Força Aérea).


Das 240 mil pessoas empregadas na produção, distribuição e exibição de filmes, mais de 40 mil ingressaram nas fileiras das forças armadas, incluindo Hollywood, 48 executivos e produtores, 230 membros do Sindicato de Roteiristas, 40 cameraman, 75 eletricistas e sonoplastas, 80 maquinistas, 453 técnicos em geral e cerca de dois mil músicos.

EM ACRÉSCIMO aos filmes de treinamento, um certo número de filmes não comerciais de propaganda patrocinados pelo governo americano, foi produzido pelo Corpo de Sinaleiros sob o Comandante Frank Capra (1897-1991), um dos 132 diretores membros do Screen Directors Guild (Sindicato dos Diretores). Aproximadamente 447 pessoas de Hollywood funcionaram como oficiais do Corpo de Sinaleiros, e entre eles estavam o lendário John Huston (1906-1987-foto), Anatole Litvak (1902-1974), e Darryl F. Zanuck (1902-1979). Incumbido de fazer AT THE FRONT, um documentário sobre a campanha do Norte da África, Darryl Zanuck arriscou a vida filmando sob intenso fogo no front, escreveu um diário, TUNIS EXPEDITION (onde relatou a expedição, e foi agraciado com a Legião de Honra por “bravura excepcional em combate”. Os pormenores das façanhas de John Huston e Anatole Litvak, salientando-se a trilogia Report from the Aleutians, The Battle of San Pietro, e o semi “fabricado” Tunísia Victory.
Dois outros brilhantes cineastas, William Wyler (1902-1981) e John Ford (1895-1973- Foto), também se consagraram ao esforço de guerra, resultando duas obras significativas: POR CÉUS INIMIGOS/Memphis Belle e A BATALHA DE MIDWAY/The Battle of Midway. Wyler, incorporado na aviação, se responsabilizou pela primeira e perdeu a audição de um ouvido por causa dos vôos em grande altitude, desligando-se como Tenente-Coronel. Ford, por sua vez, foi ferido no braço quando filmava a segunda produção, mas foi avante até o término. Além de A BATALHA DE MIDWAY, premiado com o Oscar de melhor documentário de 1942, Ford realizou Sex Hygiene, sobre os perigos e a prevenção das doenças venéreas, reduzindo para 8mm o material fotográfico por um dos cinegrafistas de sua equipe sobre a rotina num PT Boat, resultando daí Torpedo Squadron e mexeu um pouco em December 7th, documentário de curta-metragem feito por Gregg Toland a respeito do ataque a Pearl Harbor.

Outros profissionais da Sétima Arte de Hollywood que ficaram impossibilitados de ir ao front e de usar farda, contribuíram de outras maneiras para destruir o Nazismo e levantar o ânimo de seus compatriotas através do USO-United Organization Camp Shows (Serviços Unidos de Organização de Shows em acampamentos) e do Treasury Department Bond Sales Drives (Esforço para a venda de Bônus do Departamento do Tesouro). O primeiro se formou em 1941 para produzir recreação para os soldados- e vários atores, cantores, e outros profissionais do Show Business imediatamente se colocaram a disposição para cooperação. Mais tarde foi criado o Hollywood Victory Commitee (Comitê de Hollywood para a Vitória) com a finalidade de coordenar as atividades das personalidades do rádio, do teatro e do cinema nos diversos espetáculos.

Os Shows em acampamentos eram organizados em quatro circuitos: O Circuito da Vitória, com salas de primeira classe em cerca de 700 quartéis do Exército e bases navais; O Circuito Azul, com lugares para espetáculos em 1.150 acampamentos; O Circuito dos Hospitais e o Circuito Toca da Raposa (que era o circuito pelo exterior. Antes da guerra terminar, mais de dois mil artistas tinham cruzado os mares para divertir as tropas aliadas. Os dois que mais viajaram foram a atriz Paulette Goddard (1911-1990), que fora esposa de Charles Chaplin, e o comediante Joe E. Brown (1892-1973- foto), alcunhado de o “Boca-Larga”. A popularidade deste era seguida pela de Bob Hope (1904-2004), mas Joe foi o primeiro astro a ir ao Alasca, às Ilhas Aleutas, ao Sudoeste do Pacífico, e aos teatros de operações na China, Birmânia e Índia, e em 1944, o proclamaram de “O Pai de todos os Homens no Além-Mar”.


Frances Langford, Dinah Shore, Bing Crosby, Al Jolson, Laurel & Hardy, Martha Raye, Abbot & Costello, Edie Cantor, Kay Francis, Humphrey Bogart, James Cagney, Spencer Tracy, Randolph Scott, Gary Cooper, Errol Flynn, Ann Sheridan, Adolph Menjou, Jack Benny, Carole Landis, e tantos outros ofereceram algumas horas de alegria e emoção aos soldados. E nos três anos seguintes, cerca de 3.500 artistas fizeram mais de 35 mil apresentações correndo sério perigo perto das linhas inimigas.


Enquanto isso, na frente doméstica, inaugurava-se em outubro de 1942 a Hollywood Canteen (Cantina de Hollywood), concebida por Bette Davis (foto) e John Garfield. A Cantina acolheu mais de dois mil soldados. Toda noite uma grande orquestra tocava, e os homens de uniforme podiam dançar com Bette Davis, Bette Grable, Hedy Lamarr, Olivia de Haviland, Marlene Dietrich, Joan Crawford, e dezenas de outras estrelas glamourosas. As atrizes também serviam as mesas e lavavam pratos, sem receberem qualquer pagamento.


Outras atuavam como enfermeiras (como Jennifer Jones) ou visitavam os feridos nos hospitais, ouviam relatos dos soldados de licença ou que retornavam ao lar, e vendiam bônus de guerra, percorrendo todo país para incentivar os cidadãos a investirem na defesa. Carole Lombard (foto) morreu num desastre de avião numa dessas campanhas. Ela tinha apenas 33 anos de idade e estava casada com Clark Gable.



Em 1943, inúmeros artistas participaram das famosas excursões Stars Over America (Astros pela América), angariando 840 mil dólares, visitando 151 hospitais, 254 acampamentos, e 41 cidades. Milhares de pré-estréias tiveram lugar, com os distribuidores suprindo os filmes sem cobrarem nada e nelas os bônus eram vendidos pelo preço da entrada ou trocados por doação de sangue.



Esta era a Hollywood e seus astros e estrelas nos tempos da II Grande Guerra.



Produção e pesquisa de Paulo Telles


BIBLIOGRAFIA:REVISTA CINEMIN- ANO 1985- Página 23 a 27- de autoria de A.C.Gomes de Mattos.