domingo, 22 de dezembro de 2019

Rei David (1985) – Richard Gere como o Rei Bíblico, Em Adaptação Do Diretor Bruce Beresford.



Que o cinema desde os primórdios explorou ao máximo a Bíblia Sagrada e os Textos Sacros não é nenhuma novidade. Os primeiros cineastas sempre encontraram nas histórias do Antigo e Novo Testamento farta matéria prima de alto teor de empatia para realização de grandes espetáculos épicos com milhares de figurantes, locações imponentes, cenários e vestuários suntuosos, que foram elementos atrativos para as bilheterias.  O diretor e produtor Cecil B.DeMille (1881-1959), cuja história se confunde até mesmo com a própria origem do cinema americano, é considerado o Pai das superproduções ao estilo. DeMille gostava de filmar dramas religiosos porque via na Bíblia abundante conteúdo que poderia originar bons roteiros. Um dia, o cineasta declarou:

- Por que eu gosto de filmar dramas bíblicos? Ora a Bíblia sempre foi um Best Seller. Por que iria eu desperdiçar dois mil anos de publicidade gratuita?


Richard Gere como o REI DAVID (1985), do diretor Bruce Beresford.
Dito e feito. No gênero, o lendário diretor realizou O Rei dos Reis (1927), O Sinal da Cruz (1932), Cleópatra (1934), Sansão e Dalila (1949) e Os Dez Mandamentos (1923 e 1956).  Outros cineastas também exploraram a temática religiosa e bíblica, como Mervyn LeRoy (Quo Vadis, 1951), William Wyler (Ben-Hur, 1959), Nicholas Ray (Rei dos Reis, 1961), e George Stevens (A Maior História de Todos os Tempos, 1965), mas estes diretores ainda compuseram suas obras de forma espetacular a maneira de DeMille, algo rompido por Pier Paolo Pasolini ao realizar em 1964 na Itália O Evangelho Segundo São Mateus, que sem os faustos e pompas bem caracterizados dos épicos de Hollywood, apresentava a figura de Cristo mais terrena do que celeste, emoldurado por realismo de cenas e conteúdos sociais.

O cineasta australiano Bruce Beresford.
É exatamente neste contexto que o diretor australiano Bruce Beresford lançou em 1985 a superprodução REI DAVID (King David, 1985). Beresford ficou mundialmente conhecido pelo seu primeiro filme como cineasta, A Força do Carinho/Tender Mercies, recebendo uma indicação ao Oscar como Melhor Diretor em 1983. Beresford ainda trouxe da Austrália uma bagagem expressiva de filmes de publicidade e trabalhos pela televisão. 


Quando resolveu filmar a vida do Rei David, Bruce Beresford não quis simplesmente se basear na história narrada no Antigo Testamento, mas se amparar por pesquisadores e uma excelente equipe técnica para a condução das locações, cenários, e roteiro. Era desejo do diretor de filmar REI DAVID na Terra Santa, local real dos eventos, mas a hipótese foi descartada. Foi na Itália que o cineasta encontrou condições necessárias para os planos que tinha em mente, e a Sardenha foi escolhida para locação (o mesmo lugar que Pasolini dirigiu O Evangelho Segundo São Mateus, na cidade de Matera), onde foram filmadas as cenas de Jerusalém, da cidade de Gath, e as terras de Jessé, o pai de David. Lá, os cenários e equipamentos precisaram ser baixados através de uma garganta, que, a primeira vista, parecia inacessível.


Alice Krige como Bethsabá, um dos amores do REI DAVID (1985).

O maior problema que a produção de REI DAVID enfrentou foi o excesso de chuvas, que além de atrapalhar as filmagens, acabaram por dar a paisagem uma tonalidade demasiadamente esverdeada para o clima semiárido (como é a Palestina) que se desejava transmitir. Em Cesamo, para obter a tonalidade amarronzada que a fotografia requeria, espalhou-se areia sobre relva e arbustos.A grande batalha de Gilboa foi reproduzida nos Montes Abruzzi, que ofereciam uma atmosfera bastante próxima do original, com seus picos nevados e vales pedregosos, onde contou com a participação de milhares de extras, cavalos especialmente treinados para puxar bigas, e mais de 50 stuntmen.


Jack Klaff como Jonathan, o melhor amigo de David.
Ken Adam (1921-2016), desenhista de produção diversas vezes premiado e de grande criatividade (Oscar por Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, 1976) comandou técnicos experientes e também premiados, como John Mollo (1931-2017), responsável pelos vestuários. Molo começou a desenhar os figurinos sete meses antes do início das filmagens, inspirando-se nas pinturas de Tissot, que visitou a Palestina lá pelos idos de 1880. Mollo, considerado um especialista de uniformes militares, também foi detentor de vários Oscars na categoria de vestuário, como Gandhi (1983) e Guerra nas Estrelas (1977).


O casamento de David (Richard Gere) com Michal (Cherie Lunghi), filha do Rei Saul (Edward Woodward).
Saul (Edward Woodward) e seu filho Jonathan (Jack Klaff), que seriam mortos na Batalha de Gilboa.
O roteiro ficou a cargo de Andrew Birkin e James Costigan (1926-2007), que além das pesquisas com renomados peritos e historiadores, utilizaram-se dos sagrados textos de Samuel I e II, Crônicas I, e os Salmos de David para composição da trama. A fotografia, por sinal de primoroso requinte, é do australiano Donald McAlpine. E a trilha sonora do maestro norte-americano Carl Davies.

REI DAVId CONFORME A BÍBLIA E OUTROS TEXTOS HISTÓRICOS.

Conforme o texto sagrado, Davi era filho de Jessé, um pastor. Os livros de Samuel (I Samuel e II Samuel) tratam de sua vida pessoal e monárquica. David é descrito como sendo um homem de valor, chamando à atenção do Rei Saul por sua habilidade como músico, o que lhe rendeu um lugar no circulo real, e posteriormente, com as batalhas contra os filisteus ficou reconhecido como um grande guerreiro. Saul deu sua filha Michal como esposa, e Jonathan, filho do rei, tornou-se amigo íntimo de David.


David e seu pequeno filho Absalão.
A dança de David diante de Deus.


Os sucessos militares de David provocaram a inveja e o cume de Saul, que o obrigou a fugir da corte. Com a morte de Saul, David foi eleito Rei de Judá, e sete anos e meio depois proclamado Rei de Israel. Fez de Jerusalém a capital religiosa e política dos hebreus e para lá transportou a arca sagrada com os Dez Mandamentos. David teve muitas esposas, concubinas, e filhos, e entre estes, queria deixar o trono para Absalão, que contra ele, se revolta. Com a morte de David, seu filho mais novo Salomão assume o trono de Israel. 



RICHARD GERE E O ELENCO

REI DAVID teve, além de milhares de figurantes, cerca de 40 papéis importantes interpretados por grandes nomes, a começar por Richard Gere, que mal havia terminado seu trabalho em Cotton Club (1984, de Francis Ford Coppola) recebeu convite do diretor Beresford para viver o rei bíblico. Gere aceitou o desafio de interpretar o grande Rei dos Hebreus dos 26 até os 70 anos de idade, quando morre. Para o ator, o personagem foi extremamente cativante por seu caráter ambíguo – poeta, guerreiro, pastor, e Rei. Ian Sears vive David na adolescência. 

O ator inglês Denis Quilley como o Profeta Samuel.
Grandes intérpretes ainda compõem o espetáculo, como o inglês Edward Woodward (1930-2009) como o Rei Saul; Alice Krige como Bethsabá, a última esposa de David; Denis Quilley (1927-2003) como o Profeta Samuel, que consagrou David como futuro Rei de Israel; Cherie Lunghi como Michal, filha de Saul e primeira esposa de David; Hurd Hatfield (1917-1998) como o Profeta Abimelech; John Castle como Abner; Jean-Marc Barr como Absalão, filho rebelde de David; Jack Klaff como Jonathan, filho de Saul e melhor amigo de David; e Niall Buggy como o Profeta Nathan.

O veterano Hurd Hatfield como o Profeta Abimelech.
Apesar da produção requintada, o filme não alcançou o sucesso esperado, tornando um grande fracasso nas bilheterias (no Rio de Janeiro, REI DAVID chegou ao Natal de 1985). O diretor Bruce Beresford conseguiu se reabilitar com Crimes do Coração/ Crimes of the Heart, em 1986, e em 1989, um de seus filmes mais famosos, Conduzindo Miss Daisy/Driving Miss Daisy, com Jessica Tandy e Morgan Freeman, foi premiado com o Oscar de Melhor Filme do Ano. Na época do lançamento, especulou-se que REI DAVID de Beresford pudesse representar uma nova onda de filmes épicos, contudo, mesmo com ineficientes resultados, a Paramount empreendeu esse difícil projeto de fazer uma versão integral da vida do Monarca de Israel, explorando seu lado ambíguo, sedutor e político do jovem pastor que se tornou Rei de seu povo.
FICHA TÉCNICA
REI DAVID

(king david)

PAÍS -  Estados Unidos
ANO – 1985
GÊNERO – Épico Religioso/Bíblico
DIREÇÃO – Bruce Beresford
PRODUÇÃO – Martin Elfand e Charles Orme (Produtor associado) para a Paramount Pictures.
ROTEIRO – Andrew Birkin e James Costigan (com base nos livros de Samuel I e II, Cronicas I e Salmos de David)
FOTOGRAFIA - Donald McAlpine (Em Cores)
MÚSICA -  Carl Davis
TEMPO DE PROJEÇÃO – 115 Minutos

ELENCO
RICHARD GERE – Rei David
EDWARD WOODWARD – Rei Saul
ALICE KRIGE – Bethsabá
DENIS QUILLEY – Profeta Samuel
CHERIE LUNGHI – Michal
HURD HATFIELD – Profeta Abimelech
JACK KLAFF – Jonathan
TIM WOODWARD – Joab
IAN SEARS – David como menino
SIMON DUTTON – Eliab
ARTHUR WHYBROW – Jessé, pai de David
CHRISTOPHER MALCOLN – Doeg
MICHAEL MULLER – Abinadab
JAMES COOMBES – Amnon
GINA BELLMAN – Tamar
GEORGE EASTMAN – Golias
GENEVIEVE ALLENBURY – Ahinoan
MASSINO SARCHIELLI – Palastu


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PAULO TELLES

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