domingo, 5 de agosto de 2018

Assim Caminha a Humanidade (1956): Um Retrato da Contradição Social e aos Costumes Americanos, em Saga do Perfeccionista George Stevens.


O cineasta George Stevens (1904-1975) realizou uma trilogia com finalidade de analisar os fundamentos e contrastes sociais dos Estados Unidos. Juntamente com Um Lugar ao Sol (1951) e Os Brutos Também Amam (1953), ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (Giant, 1956) integra esta trilogia de modo a retratar claramente estas mesmas contradições através de uma América prestes a evoluir com o surgimento do petróleo, mas mergulhada na desigualdade e no preconceito racial.


O Cineasta George Stevens
Diretor George Stevens e o ator James Dean

GIANT
foi sucesso absoluto nos Estados Unidos. Entretanto, isto talvez se devesse mais pela morte de um dos astros principais, o ator James Dean (1931-1955), que morreu a 30 de setembro de 1955, aos 24 anos de idade, apenas três dias depois de terminadas as filmagens de Giant, ao bater com seu Porsche Spyder contra um pesado Ford Tudor.

Escritora Edna Ferber, autora do romance GIANT, publicado em 1952.

Edna Ferber visita o set de filmagem, e se descontraí com o elenco, principalmente com James Dean.
GIANT é baseado no romance de Edna Ferber (1887-1968)publicado em 1952. Edna é a mesma autora de Cimarron (1929), que também foi levada para as telas de cinema em duas ocasiões (com Richard Dix em 1930, direção de Wesley Ruggles, e com Glenn Ford em 1960, direção de Anthony Mann). Edna teve ideia de escrever um livro que contasse a história do Texas por meio da saga de uma família.

O diretor Stevens e seus dois astros principais:
Elizabeth Taylor e Rock Hudson.
George Stevens era tido como um perfeccionista. Os dois anos que ele levou para montar Um Lugar ao Sol, por exemplo, ficam patentes no brilhante resultado. O cineasta estava no auge do sucesso e prestígio quando aceitou produzir e dirigir ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE para a Warner, e sem receber salário, o que não interferiu no resultado final. Ele teve liberdade total de ação e na escolha do elenco, preferindo colocar jovens e envelhecê-los. Assim, além de James Dean, que tinha 24 anos, Stevens escolheu Elizabeth Taylor (1932-2011), então com 23, e Rock Hudson (1925-1985), com 29.


James Dean e George Stevens.
O diretor resolveu apostar em Dean, que havia rodado dois filmes para o mesmo estúdio (Vidas Amargas, 1953, direção de Elia Kazan, e Juventude Transviada, 1955, direção de Nicholas Ray), ambos então inéditos e não lançados ainda pelos produtores. Ninguém poderia então prever que James Dean se tornaria um astro. E o risco era maior porque o ator seria envelhecido com maquiagem, o que podia não dar certo. Stevens arriscou e deu certo. Mas a morte de Dean além de alavancar o estrondoso sucesso de ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE, fez do finado astro um eterno ídolo do cinema. 


Rock Hudson é Bick Benedict, apaixonado por Leslie, vivida por Elizabeth Taylor
Elizabeth Taylor, Rock Hudson, e James Dean:
ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (1956).
GIANT conta a epopeia do Texas, recapitulando com extraordinário esplendor visual, fulgurante romantismo, e poderoso libelo anti-racista, 25 anos na vida de Jordan “Bick” Benedict Jr. (Rock Hudson), poderoso barão de Gado, e de sua dedicada esposa, Leslie (Elizabeth Taylor), que são protagonistas de uma série de abruptas mudanças ao longo desses anos. A trama vai do latifúndio da criação de gado ao surto industrial motivado pelo surgimento do petróleo como riqueza nova e decisiva. Além disso, traça paralelamente um tipo novo de texano para a década de 1950, época que foi filmado Giant, que é consequência ou continuação do fenômeno de progresso encarnado na figura de Jett Rink, personagem de James Dean.


James Dean é Jett Rink, empregado de Bick Benedict, que se apaixona pela esposa do patrão...
... mas Bick e Jett tem contas para acertar...
...até Jett se tornar um magnata no ramo petrolífero. 
Rink é um personagem curioso, merecendo até mesmo uma análise acurada do espectador. Ex-empregado do Rancho Reata, de propriedade de Bick e de sua irmã Luz (Mercedes McCambridge, 1916-2004), esta era a única que parecia ter afeição por ele. No entanto, ela vem a falecer, mas lhe deixa de herança uma soma em dinheiro, que permite a Rink buscar seu sonho de explorar petróleo.


Jett recebe da finada irmã de Bick uma soma de dinheiro como herança...
... e assim poder explorar petróleo, tornar-se rico, e conquistar o amor de Leslie. Mas isso é impossível.
Bick Benedict é um prepotente pecuarista no início de ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE,e não gosta de Rink. Ele acaba indo a Maryland comprar um cavalo premiado e se apaixona por Leslie, filha do proprietário da fazenda (Paul Fix, 1901-1983), uma jovem de índole humana. Eles se casam imediatamente e ele retorna com a mulher para o Rancho Reata, onde Leslie vê apenas uma mansão no deserto no meio de 600 mil acres.

James Dean, em seu último filme, como Jett Rink.
Elizabeth Taylor, sensual para uma foto num intervalo.
Contudo, Jett apaixona-se pela esposa de seu patrão, mas ela o trata com educação e respeito. Rink tem frustrações que não consegue superar mesmo depois de sua ascensão social, pois de um simples peão para Benedict passa a ser um magnata do Petróleo a ponto de desafia-lo, e cuja esposa sempre amou em silêncio. As circunstancias de ordem sentimental que servem a intriga amorosa é a continuação do progresso texano representado pelo próprio Rink, que discute o amor impossível do ex-empregado pela esposa do ex-patrão.

O acerto final de contas ente Bick (Rock Hudson) e Jett (James Dean).
Procurando ainda fazer um retrato ambicioso da história do Texas, ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE aborda de passagem o problema do preconceito racial e da xenofobia. Através da devotada esposa Leslie, o outrora arrogante Bick aos poucos se humaniza, ao contrário de Jett Rink, que mesmo mudado em seu status na sociedade como um poderoso empresário no ramo petrolífero, entra em um processo autodestrutivo por não se sentir valorizado por Leslie. 

Bick (Rock Hudson) testemunha uma atitude de intolerância racial contra uma família de mexicanos em uma lanchonete...

... de propriedade de um grandalhão estúpido chamado Sarge (Mickey Simpson), e Bick lhe desfere o primeiro soco...
... mas perde a luta para Sarge, mais forte e jovem do que o velho barão do gado.
Nos momentos finais, Bick já assume posições humanitárias iguais a da esposa, e viajando de carro, para em uma lanchonete de beira de estrada, junto com a esposa, a filha (Carroll Baker), a nora mexicana (Elsa Cardenas), e seu neto mestiço que o acompanhavam - e logo são abordados pelo dono do estabelecimento, Sarge, um grandalhão interpretado por Mickey Simpson (1913-1985), que questiona Bick ao ver a criança, mas logo os ignora. Em seguida, o dono da lanchonete parte em direção de um casal de idosos mexicanos, e os tenta expulsar do estabelecimento na presença de Bick e de sua família, entretanto, o velho pecuarista não gosta e parte para cima de Sarge. A luta livre entre Bick e Sarge, mais forte e jovem, é uma das sequencias inesquecíveis e mais marcantes de GIANT, e tudo ao som da canção folclórica The Rose of Texas tocada em um Junkbox da lanchonete. Mesmo perdendo a luta para o grandalhão, Bick não perdeu a dignidade aos olhos de sua amada Leslie, que sentiu orgulho do marido.


Os testes de vestuário de Rock Hudson e James Dean.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE termina num generoso apelo de união e fraternidade entre os povos, cuja concretização poderia ser um futuro digno para nossos filhos e netos, seja no Texas ou em qualquer parte do mundo. Este apelo é representado por duas crianças – uma branca e outra mestiça – ambas as netas de Bick e Leslie. Por esse motivo, pela pureza de suas intenções, pelo seu ideal de aproximação e compreensão racial, que GIANT merece respeito e atenção. 

George Stevens, Rock Hudson, e Elizabeth Taylor, durante uma folga das filmagens.
Stevens, Rock e Liz, em um jantar de promoção
para ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (1956)

Infelizmente, a direção notável de George Stevens não conseguiu superar as dificuldades oriundas de um maciço roteiro, que preenche situações dispensáveis. Há quem pudesse dizer que a obsessão do “colosso” contagiasse o diretor, que apesar de suas perfeccionistas investidas em GIANT, imprimiu sua obra um ritmo minucioso e lento. Sem dúvida há momentos (e não são poucos) que nos vemos perante do estilista caprichoso e tomado de precauções, com intuito de tudo sair com perfeição. Entretanto, estes momentos se perdem dentro de um conjunto final, onde os instantes menos inspirados predominam.

Sal Mineo aparece brevemente como um jovem herói de guerra morto, o mexicano Angel Obregon II.
Dennis Hopper e Earl Holliman, e no meio Rock Hudson.
Sobre o “Cast”, as interpretações são marcantes. Elizabeth Taylor esta bem como Leslie, a esposa devotada a Bick Benedict, assim como o intérprete deste, Rock Hudson (em papel antes cogitado para William Holden, mas a Warner não aceitou pagar a quantia pedida pelo ator), que de um prepotente barão de gado passa a ser humanizado sem perder seu jeito rude de texano. GIANT é ainda valorizado pelas presenças de Mercedes McCambridge como a irmã de Bick, Chill Wills (1902–1978), Jane Withers, Paul Fix, e ainda o núcleo jovem composto por Sal Mineo (1939-1976), Carroll Baker, Dennis Hopper (1936–2010), Earl Holliman, e Rod Taylor (1930-2015).

James Dean e Rock Hudson, comemorando no set o niver de Elizabeth Taylor.
Elizabeth Taylor e James Dean.
Elizabeth e Rock Hudson.
O papel de Jett Rink foi antes oferecido para Alan Ladd, amigo de Stevens desde Os Brutos Também Amam, mas o ator recusou. James Dean havia feito dois filmes na Warner ainda para ser lançado e o convite feito pelo cineasta para a parte de Rink veio a calhar. Mas, apesar da notoriedade de Dean em GIANT e da fama que o projetou após sua morte, seu papel é secundário. O filme é focado nos personagens de Elizabeth Taylor e Rock Hudson. Durante as filmagens, Elizabeth ficou muito amiga de Rock, tanto que dessa amizade resultaria, décadas depois, no engajamento da atriz em campanhas contra a AIDS, doença que mataria Hudson em 1985. 

George Stevens e seu Oscar por melhor direção em ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (1956).

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE
foi indicado aos Oscars de melhor filme, ator (Hudson, sua única indicação, e Dean, postumamente), atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), direção de arte, figurino, montagem (William Hornbeck, 1901-1983), trilha musical (Dimitri Tiomkin, 1894-1979) e roteiro (Fred Guiol, 1898–1964, e Ivan Moffat, 1918-2002), mas ganhou apenas o de direção, para George Stevens.

Divulgação do filme nas salas cariocas pelos jornais, em março de 1959.
ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE é uma fita longa fazendo jus ao seu título original em suas quase quatro horas de projeção. Dependendo da disposição do espectador, pode ser cansativa, mas ao mesmo tempo, reflexiva, onde merece respeito pela generosidade na mensagem final, e também por alguns instantes de construção cinematográfica, que a situa entre as mais respeitadas obras primas de um cineasta perfeccionista e um dos mais notáveis de todos os tempos: o inesgotável George Stevens.


FICHA TÉCNICA


ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE
(GIANT)
PAÍS – Estados Unidos
ANO DE PRODUÇÃO – 1956
GÊNERO – Drama
DIREÇÃO – George Stevens
PRODUÇÃO – George Stevens e Henry Ginsberg, para a Warner Brothers.
ROTEIRO - Ivan Moffat e Fred Guiol, com base no romance Giant, de Edna Ferber.
FOTOGRAFIA - William C. Mellor, em cores.
MÚSICA – Dimitri Tiomkin

METRAGEM – 201 minutos.


elenco
ELIZABETH TAYLOR – Leslie Benedict Lynnton
ROCK HUDSON – Jordan “Bick” Benedict
JAMES DEAN - Jett Rink
CARROLL BAKER – Luz Benedict II
JANE WITHERS - Vashti Snythe
CHILL WILLS – Uncle Bawley
MERCEDES McCAMBRIDGE – Luz Benedict
DENNIS HOPPER – Jordan Benedict III
SAL MINEO – Angel Obregon II
ROD TAYLOR – Sir David Karfrey
JUDITH EVELYN – Nancy Lynnton
EARL HOLLIMAN – Bob Dace
PAUL FIX – Dr. Horace Lynnton
ALEXANDER SCOURBY – Old Polo
FRAN BENNETT – Judy Benedict
ELSA CARDENAS – Juana Guerra Benedict
CAROLYN CRAIG – Lacey Lynnton
MONTE HALE – Bale Clinch
SHEB WOOLEY – Gabe Target
MICKEY SIMPSON – Sarge
MAURICE JARA – Dr. Guerra
NOREEN NASH – Lona Lane
PRODUÇÃO E PESQUISA:
Paulo Telles

6 comentários:

  1. Assisti aos 9 anos de idade no Cine Coliseu, em Madureira. Deixaram entrar pq eu estava acompanhado de um adulto--o filme era proibido para menores de 10 anos. Depois disso, vi umas duas reprises e o filme entrou para sempre em uma lista especial de melhores filmes. Continuo apreciando esse filme, agora em bluray, e admirando, sempre, seu elenco principal, com um trio dos mais bonitos de todo o cinema!

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    1. Um filme longo e "gigante", mas certamente uma obra prima, assinado por um competente cineasta, George Stevens. Obrigado pelo comentário.

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  2. Olá, Paulo. "Assim Caminha a Humanidade" é um clássico que me impressionou mais que "Um Lugar ao Sol", do mesmo diretor, mas ambos ótimos.Na juventude, sempre fui um fã de Rock Hudson, aquele tipo de ator que 'toma o espaço' , da mesma forma que John Wayne. Sempre fui fã dele mais pelos filmes que fez com o mestre Douglas Sirk. Na época em que vi o "Assim Caminha..." eu achei estranha a atuação de James Dean e 'fora do normal' das atuações de Rock e Liz. Mas fazia parte da sua característica a la Brando.
    Parabéns, Paulo, pelo post. Quem sabe ainda poderei ver um videoblog de cinema seu.

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    1. Olá Valdemir!
      Só vim a conhecer GIANT em 1991 ou 92, quando aluguei um VHS naquelas queridas e saudosas locadoras de vídeo (no caso aqui foi na Video & Cia, que terminou suas atividades mesmo antes de 2000). Eram duas fitas com o selo da Brenno Rossi e WB e assisti num sábado a noite, e confesso que esperava que James Dean fosse o mocinho da fita, a Liz a mocinha, e o Rock o vilão, mas estava enganado. Revendo desde então, talvez a única parte heroica do filme seja a própria Leslie, personagem de Liz, que com sua humanidade e sensatez conseguiu moldar o marido Bick. Quanto a Jett/James Dean, nunca deixou de ser um pobre coitado, por mais que pudesse mudar seus status. Isso prova que não adianta mudar por fora se não puder mudar por dentro. Toda trilogia de George Stevens sobre os contrastes sociais dos americanos é válida e faz jus a sua arte, cada um com seus méritos e particularidades.

      Quanto ao videoblog, não me esqueci da ideia não, mas me falta é tempo amigo, e o lançamento de meus dois primeiros livros, ainda em aguardo em suas respectivas editoras. Grande abraço!

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