sábado, 14 de julho de 2018

Peregrino da Esperança (1960): Uma Saborosa Crônica Familiar nas mãos de Fred Zinnemann.



PEREGRINO DA ESPERANÇA (The Sundowners, 1960), dirigido em 1960 por Fred Zinnemann (1907-1997) é uma obra do cineasta de Matar ou Morrer (1952) e A Um Passo da Eternidade (1953) cuja grande força repousa na humanidade de seus personagens. Na verdade, o drama, a comicidade, e o toque um tanto poético contidos em seu enredo possuem tamanha veracidade humana, que nenhum espectador com o mínimo de sensibilidade deixará de notar, acabando mesmo por apreciar o filme. Pode até ser que a beleza e singeleza da trama não impressione o público mais “sofisticado”, mas a deficiência não será da produção.

Diretor Fred Zinnemann
O fotógrafo Jack Hildyard
O compositor Dimitri Tiomkin
Tecnicamente, o trabalho de Zinnemann é marcante, funcionando a câmera com perfeição, ainda mais realçada pela excelência de sua fotografia (Jack Hildyard, 1908-1990) e do tema musical (Dimitri Tiomkin, 1894-1979). Contudo, o que há de mais expressivo na direção é seu conteúdo intrínseco. Zinnemann compreendeu e afeiçoou-se aos personagens e acontecimentos, tratando-os e desenvolvendo-os com a sensibilidade de um verdadeiro artesão, e isso nos mais mínimos detalhes. Não é a toa que a paisagem natural da Austrália (onde se passa a trama e foi filmada) e seus animais parecem integrar com perfeição a narrativa da obra. 

Deborah Kerr e Robert Mitchum - Ida e Paddy Carmody.
Robert Mitchum e Deborah Kerr: Ela em busca de um sonho que o marido não compartilha.
Desde 1957 anunciado para Gary Cooper e Deborah Kerr (1921-2007), PEREGRINO DA ESPERANÇA é uma saborosa crônica familiar ambientada na Austrália na década de 1920, baseado no romance publicado em 1952 pelo escritor australiano Jon Cleary (1917-2010). Problemas de saúde impediram Cooper de um reencontro com Zinnemann depois de Matar ou Morrer, e em seu lugar assumiu Robert Mitchum (1917-1997), que concordou em interpretar o condutor de ovelhas Paddy Carmody, em andanças pela região com a mulher Ida (Deborah Kerr) e o filho Sean (Michael Anderson Jr.). Carmody figura muito bem na alta linhagem de personagens do diretor, embora a película carregue uma carga bem leve de “problemas”. Assim declarou Zinnemann a respeito do filme:

- O Conflito da história é bem simples. Tem apenas a ver com o fato de Mitchum estar inteiramente satisfeito com sua vida de cigano. Sua esposa esta cansada e gostaria de se estabelecer, assim como o filho. E é este todo o conflito”.


A família Carmody: Ida, Paddy, e o filho Sean
(Michael Anderson Jr)
Talvez o momento de maior inspiração poética de PEREGRINO DA ESPERANÇA seja uma passagem incidental da trama, mas que serve para demonstrar o quão sensível é a direção de Zinnemann, um instante antológico o momento em que Deborah Kerr, feminina sob aquela capa de mulher pioneira, corajosa e desalinhada, vê na janela de trem uma jovem bem cuidada e vaidosa, e chora por breve instante o sacrifício de sua feminilidade para acompanhar o marido itinerante, que ama a liberdade de mover-se por todo território australiano.

Deborah Kerr se afeiçoando a um canguru nos intervalos de filmagem.
Deborah Kerr, a grande estrela de
PEREGRINO DA ESPERANÇA (1960).

Deborah Kerr é a verdadeira estrela de PEREGRINO DA ESPERANÇA. Sempre magistral atriz, mais uma vez demonstrou versatilidade em seu talento cênico, comovendo e fazendo rir nas cenas dramáticas ou nas passagens humorísticas. Robert Mitchum rendeu-se expressivamente dentro de suas limitações dramáticas. Seu Paddy Carmody é um homem durão, mas sem as agressividades e durezas excessivas de outros personagens do ator, como podemos perceber em muitos de seus westerns ou policiais, o que torna Carmody ainda mais humano. Um homem de temperamento nômade que sabe que sua esposa e filho sonham com a estabilidade de uma casa, que ele acaba concordando com relutância. Economias para o empreendimento são perdidas pela irresponsabilidade de Paddy, e toda família precisa retomar a caminhada.

Robert Mitchum como Paddy Carmody tem uma atuação expressiva dentro de suas limitações. 
O casal Carmody e seu ajudante, Ruppert Venneker (Peter Ustinov).
PEREGRINO DA ESPERANÇA ainda é habitado por um elenco caloroso. Peter Ustinov (1921-2004) como o simpático e engraçado Ruppert Venneker, autonomeado ajudante de Carmody, e onde o ator pôde reencontrar a amiga Kerr desde que contracenaram juntos no monumental épico de Mervyn LeRoy Quo Vadis? (1951), quando Ustinov fez o imperador Nero e Deborah a cristã Lygia. Também destacando Glynis Johns como a dona de um pub, amiga e generosa com todos, enamorada de Ruppert.

Peter Ustinov acalora o elenco como o simpático e engraçado Ruppert Venneker.
Michael Anderson Jr é Sean, filho de Ida e Paddy.
PEREGRINO DA ESPERANÇA celebra a vida singela e descompromissada, ao demonstrar o clima de fraternidade entre todos os personagens. Curiosamente, o mesmo clima também perpassou as filmagens e, ao fim delas, os atores haviam incorporado o modo de falar e várias expressões típicas do lugar. Uma delas, o próprio título original. O Sundowner, jargão característico da Austrália, significa “aquele que dorme onde o sol se põe”, isto é, aquele que não tem morada fixa.

Paddy exausto após competir em um concurso de tosquiar ovelhas.
Divulgação do filme nas salas cariocas, em fevereiro de 1962.
Estreando como produtor, Zinnemann lançou-se na aventuresca busca pelas locações. Por três meses escolheu as paisagens ideais para a produção, e de dezembro de 1959 a março de 1960 filmou as externas. Uma equipe de 125 pessoas se dividiu entre a Austrália e os estúdios Elstree, em Londres (onde foram construídos os interiores). Em suma, PEREGRINO DA ESPERANÇA é uma narrativa esplendorosa e poética em seus 133 minutos de projeção, merecendo ser visto pelo espectador de sensibilidade e inteligência emocional. 


FICHA TÉCNICA


O PEREGRINO DA ESPERANCA

(THE SUNDOWNERS)

PAÍS – Estados Unidos/Inglaterra
ANO -  1960
GÊNERO - Drama
DIREÇÃO -  Fred Zinnemann
PRODUÇÃO - Fred Zinnemann e Gerry Blattner, para a Warner Brothers.
ROTEIRO -  Isobel Lennart, baseado no livro “The Sundowners” de Jon Cleary
FOTOGRAFIA – Jack Hildyard, em Cores
MÚSICA – Dimitri Tiomkin
METRAGEM – 133 minutos


ELENCO
DEBORAH KERR – Ida Carmody
ROBERT MITCHUM – Paddy Carmody
PETER USTINOV – Ruppert Venneker
GLYNIS JOHNS – Senhora Firth
DINA MERRILL – Jean Halstead
CHIPS RAFFERTY – Quinlan
MICHAEL ANDERSON JR – Sean Carmody
LOLA BROOKS – Liz Brown
WYLIE WATSON – Herb Johnson
JOHN MEILLON – Bluey Brown
RONALD FRASER – Ocker
GERRY DUGGAN – Shearer
DICK BENTLEY – Short
MERVYN JOHNS - Jack Patchogue – Prefeito de Cawndilla


Por PAULO TELLES
Pesquisa e Produção

2 comentários:

  1. Ótimo post, Paula. Não posso comentar muito, pois é um dos raros filmes de Fred Zinnemann que eu não assisti. Filmes dirigidos por ele é garantia de ótimo filme. Debora Kerr volta a trabalha com ele, depois de "A Um Passo da Eternidade". E com as presença de grandes atores, como Robert Mitchum e Peter Ustinov, depois de Batiatus em "Spartacus".

    ResponderExcluir
  2. Olá, Paulo.
    Obrigado pelo retorno muito bem vindo no meu blogue. E agradeço o comentário no post "A Montanha dos 7 Abutres" filme espetacular do Billy Wilder e uma das atuações mais ressonantes do Kirk Douglas.

    Parabéns pelo trabalho de pesquisa minucioso deste clássico. Aprendi muito!
    Do Fred Zinnemann, sim um grande diretor, apenas conheço A Um Passo da Eternidade (1953), Matar ou Morrer (1952) - meu predileto, Uma Cruz à Beira do Abismo (1959) e O Dia do Chacal (1973), que definitivamente são obras-primas do cinema. Ele tem muitos curtas metragens como diretor, enfim, é uma filmografia extensa e bem interessante que ainda preciso conferir todos!!! Ele sabia passear entre os gêneros com muita folga. Para quem já fez romance, musical, drama, Film-Noir, guerra, Thriller, faroeste, este me parece uma aventura dramática extremamente bem vinda à minha coleção de Filmes de Cabeceira. Na lista para conferir...

    Grande abraço.

    ResponderExcluir

NOTAS DE OBSERVAÇÃO PARA PUBLICAÇÃO DE COMENTÁRIOS.

1)Os Comentários postados serão analisados para sua devida publicação. Não é permitido ofensas ou palavras de baixo teor. É Importante que o comentarista se identifique para fins de interação entre o leitor e o editor. Comentários postados por "Anônimos" NÃO SERÃO PUBLICADOS.

2)Anúncios e propagandas não são tolerados neste setor de comentários, pois o mesmo é reservado apenas para falar e discutir as matérias publicadas no espaço. Caso queira fazer uma divulgação, mande um email para filmesantigosclub@hotmail.com. Grato.

O EDITOR


“Posso não Concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dize-la”

VOLTAIRE