sábado, 21 de abril de 2018

Delírio de Loucura (1956): Uma Reflexão que Leva Nicholas Ray a Denunciar os Efeitos Colaterais da Cortisona.



Quando o cineasta Nicholas Ray (1911-1979) realizou DELÍRIO DE LOUCURA (Bigger Than Life) em 1956, a cortisona, uma substância química que tem finalidade de combater inflamações articulares ou alérgicas, estava em sua fase inicial de pesquisa. Ray abriu aqui novas perspectivas no campo cinematográfico ao divulgar o caráter denunciatório dos efeitos colaterais que tais substâncias produzem através da promessa de cura, mas não faz mais do que merecer uma análise acurada da vida cotidiana. Desde que estreou no cinema em 1949, Nick Ray, que nunca acreditou em obra desinteressada e sim na “arte pela arte”, fez de seus trabalhos uma tribuna para suas pregações de ordem moral, sobretudo para a juventude que foi sua ocupação predileta, tal como fez em Amarga Esperança (1949) e Juventude Transviada (1955), este então que ficou nos registros da história como uma das obras mais importantes já realizadas no terreno da contribuição para a Sétima Arte. 


Diretor Nicholas Ray.


Em DELÍRIO DE LOUCURA, a preocupação de Ray ainda é com os jovens. Mesmo querendo mascarar a tragédia da trama com dosagem irônica e humorística fornecida pelo diálogo, o diretor consegue fazer a história gerar em torno de uma droga até então objeto de estudos, e de suas consequências para o comportamento humano. Ray dirige todas as suas atenções para a influência que isso pode causar na formação da juventude, tentando também alertar aos educadores e professores, que tem voz ativa para estes seres. Curiosamente, a trama se situa dentro de uma escola, cujos personagens refletem todos os problemas domésticos dos próprios educadores, os formadores do ensino.

James Mason como o Professor Ed Avery...
...casado com Lou (Barbara Rush) e pai de um menino. Ele sofre de uma inflamação arterial e é submetido a cirurgia.


Após o processo cirúrgico, Ed passa a tomar cortisona.

O personagem central de DELÍRIO DE LOUCURA não é nenhum jovem ou aluno de alguma instituição de ensino, mas sim um professor de quase meia idade, Ed Avery (James Mason, 1909-1984), casado com Lou (Barbara Rush) e pai de um menino, Richie (Christopher Olsen), que cumpre duas jornadas de trabalho no colégio que leciona. Uma inflamação arterial leva Ed a fazer tratamento com cortisona. As dores desaparecem, mas a droga acaba viciando-o. O então equilibrado e prestativo professor muda totalmente seu comportamento, transformando-o num megalomaníaco, com delírios de grandeza e poder, submetendo toda a família a pressão psicológica e violência. Mais do que retratar uma denúncia sobre as drogas, DELÍRIO DE LOUCURA é sobre um homem lidando com sua própria mortalidade. Ed Avery é, antes de qualquer coisa, um homem que descobriu que sua morte está próxima e que tudo que o resta não será suficiente para sua plenitude. Num mundo onde a sociedade da perfeição e do bem-estar são as que mais proclamam, seu crescente narcisismo o infantiliza, e a consciência emergente de sua mortalidade o põe em contraste com o mundo a sua volta, fazendo compartilhar com todos a sua fúria, como meio de imposição. 

O vício pela cortisona altera a personalidade de Ed Avery.
Uma das cenas que refletem a vida cotidiana de uma família, como o homem no banheiro fazendo a barba.
A interpretação de James Mason (que também produziu o filme) esta entre as mais espetaculares, muito embora se estranhe sua escalação para um papel que exigiria um tipo genuinamente americano. Ator inglês com tendências teatrais, seu sotaque parece posicioná-lo em uma esfera diferente daquela em que está inserida na trama, a agradável e segura classe média americana do pós-guerra. Mas isso não impede que Nicholas Ray nos mostre um pouco da vida cotidiana da sociedade americana daqueles tempos, como uma mulher na cozinha preparando o café, o homem no banheiro fazendo a barba, ou uma criança vendo televisão, nada tão diferente como nos nossos dias que são mostradas milhares e milhares de vezes em tantos filmes ou novelas de TV. A diferença é que Ray consegue dar um tom diferente a estes detalhes tão simples da cotidiana vida familiar,transformando o pitoresco num elemento de dramaticidade constitutivo da própria essência da história, fazendo das angustias do amor elemento mais importante que a curiosidade despertada pela situação pouco habitual, dando ao diário sua verdadeira significação no processo interpretativo da alma humana.



Ed se torna um ser megalomaníaco, com mania de grandeza e poder, não poupando nem mesmo a esposa e o filho de tortura psicológica.
Entretanto, a crítica americana acolheu com muita hostilidade DELÍRIO DE LOUCURA. Já os franceses entenderam os propósitos do diretor na obra, que nele vislumbraram uma reflexão sobre a revolta contra a mediocridade da vida americana. Cyril Hume (1900–1966), que redigiu muitas das histórias de Tarzan para a MGM e RKO em produções estreladas por Johnny Weissmuller, junto a Richard Maibaum (1909–1991), compôs um script baseado em artigo publicado por Burton Roueche (1909–1971), jornalista que escreveu uma matéria alertando sobre os riscos da então nova droga através de um paciente em crise. Ainda no roteiro, o diretor Ray, o ator Mason, e o renomado Clifford Odets (1906–1963) também deram suas colaborações sem receberem créditos. A equipe técnica é de primeira categoria, como o fotógrafo Joseph MacDonald  (1906–1968) e o compositor David Raksin (1912–2004), que realizou a trilha sonora. 

Barbara Rush é Lou Avery, esposa de Ed.
Richie Avery, filho do casal, vivido por Christopher Olsen.
Ed aplicando uma das muitas torturas psicológicas sobre o filho e a esposa.
Como notado pelo crítico e cineasta francês Jacques Rivette (1928-2016) em seu artigo “De l´envention”, publicado pela Cahiers du Cinéma (edição 27), Ray reflete “a ansiedade sobre a vida, uma perpétua inquietação que é paralela àquela de seus personagens”, onde “a batalha real encontra-se apenas em um dos personagens, contra seu demônio interior da violência, ou de um pecado mais secreto, que parece associado ao homem e sua solidão”.Bigger Than Life é um filme que deve ser visto como um pouco acima de uma realização cinematográfica, feita sob os auspícios e interesses comerciais de um grande estúdio (no caso, a 20th Century Fox), um filme que é o resultado de uma concepção bastante diferente das formas estabelecidas e que exige do espectador não o riso desconcertado, mas um esforço de reflexão e inteligência para compreender a nobre mensagem que Nicholas Ray deseja nos passar. 

Walter Matthau é Wally Gibbs, colega de Ed na escola que leciona...
...que chega a tempo de salvar Lou e o filho...
...antes que o pior aconteça.
Além de James Mason, temos a presença da bela Barbara Rush, que proporciona uma grande interpretação como a esposa de Ed, Lou. Repentinamente, Barbara em DELÍRIO DE LOUCURA adquiriu uma maturidade artística há muito refreada pela incompreensão dos produtores. Walter Matthau (1920–2000) faz o professor de Educação Física Wally Gibbs, que chega a tempo de salvar Lou de ser morta pelo marido. E o veterano Robert F. Simon (1908-1992) interpreta o Dr.Norton.


Apesar dos dramas, nem tudo esta perdido para Ed, que receberá tratamento para se livrar do vício e o apoio familiar.
James Mason e Barbara Rush, o casal de
DELÍRIO DE LOUCURA (1956).


DELÍRIO DE LOUCURA é uma obra de importância capital na história do cinema, a menos que estejamos enganados no que se concerne aos fundamentos e objetivos dessa arte admirável, e que concordemos que o cinema não é apenas diversão digestiva, especialmente depois do jantar. 

Divulgação do filme pelos jornais cariocas. O Cine Roxy ainda continua de pé em Copacabana, e o Palácio hoje é o Teatro Riachuelo, centro do Rio de Janeiro.

FICHA TECNICA


DELIRIO DE LOUCURA
(Bigger Than Life)
País – Estados Unidos
Ano – 1956
Gênero - Drama
Direção – Nicholas Ray
Produção – James Mason, em produção e distribuição pela 20th Century Fox.
Roteiro – Cyril Hume e Richard Maibaum (e não creditados: James Mason, Nicholas Ray, e Clifford Odets)
Fotografia – Joseph MacDonald, em Cores
Edição - Louis R. Loeffler.
Música – David Raksin
Metragem – 95 minutos.
ELENCO
James Mason – Professor Ed Avery
Barbara Rush – Lou Avery
Walter Matthau – Instrutor Wally Gibbs
Robert F. Simon – Dr. Norton
Christopher Olsen – Richie Avery
Roland Winters – Dr. Ruric
Rusty Lane – Bob La Porte
Rachel Stephens – Nurse
Kipp Hamilton – Pat Wade
PAULO TELLES
Produção e Pesquisa

4 comentários:

  1. Este está na lista dos que quero assistir, Paulo. Parece muito bom

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    1. Olá Neu! Todo filme dirigido por este diretor não é bom, é ótimo. Mas este tem uma profunda diferença dos demais do cineasta por conta da temática.
      Abraços do editor.

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  2. Faroeste,

    Ray nasceu para esta arte, e este é um filme que não vi, mas que parece que o estou assistindo, dado ao estilo do mestre que o criou e pelo que acabo de ler.

    O dificil de tudo é ver Mason, um autentico cavalheiro, transformado em um viciado e tornando a vida de todos ao seu redor num inferno.

    É fácil ver isso ocorrer nas fitas dirigidas por este homem que sabia o que fazia e agia como se enxergando um futuro não tão distante, no atinente ao que as drogas iria fazer com a humanidade.

    Não apenas nesta fita mas, dois anos antes ele fizera J Guitar que, de uma forma ou de outra segue muito de perto seu estilo de mostrar cinema grande, cinema onde as vidas do nada se desgraçam por completo.

    Neste seu imortal western ele mostra o desmoronamento total da vida de uma mulher rica, ao ver seu mundo se voltar para baixo, perdendo tudo que tinha e quase também sua vida.

    Uma mulher rica, cheia de poderes, de repente passa a ser uma perseguida e com a vida ameaçada por diversos angulos de sua existencia. Ela que nada fizera de mal a ninguém, passa a ser acusada de parceira de assaltantes e por tentar defender um jovem de um linchamento certo, tem a vida completamente desgraçada muito mais por inveja e ódios cumulativos.

    Porem ela esta estava nas mãos de Ray, que construiria ali mais uma fita que ficaria para sempre no rol dos grandes filmes do genero já feitos, tal qual fez com James Dean um ano antes em Juventude Transviada´/55.

    Recebi deste editor tres fitas do Ray de presente ( Amarga Esperança/48, Cinzas que Queimam/51 e Almas sem Pudor/50) e até hoje não sei dizer qual delas foi a melhor, apesar de R Ryan extravasar seu talento nesta terceira pelicula ao lado da Fontaine, porém tudo por uma contribuição mais que fortuita do Ray, que administrou um filme para ficar.

    Deslizei da linha do filme em pauta por não te-lo visto. No entanto, como um dos meus diretores favoritos era o coordenador da obra, o que não me faltou foram outros momentos marcantes de sua carreira para colocar em vida, uma vida cheia de trabalhos com um brilhantismo que posso intitular de imortal, já que até o momento tudo o que deixou ainda consegue nos despojar de glorias para enaltece-lo.

    jurandir_Lima@bol.com.br




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    1. Caro Ju!

      James Mason era um ator versátil, e sua aparência cavalheiresca engana muito ao personificar papéis vilanescos (como foi no caso com O PRISIONEIRO DE ZENDA, 1953, roubando praticamente todas as cenas do mocinho Stewart Granger). Em DELÍRIO DE LOUCURA ele não interpreta um vilão, mas uma pessoa extremamente doente. Seu personagem se torna a voz aflita dos atormentados que passam por qualquer espécie de dependência química. A temática era bem avançada para os padrões do cinema americano na década de 1950, e por isso, o filme não recebeu boas críticas nos EUA. A crítica francesa adorou o filme e compreendeu bem a mensagem que o cineasta Ray expressou em sua obra.

      Sobre os filmes que orgulhosamente cedi ao amigo, posso garantir que são ótimos e da melhor safra do cineasta. Um filme de Ray que gostaria muito rever é JORNADA TÉTRICA, obra que assisti uma única vez há 30 anos, e queria conseguir uma cópia pra mim, mas é um título raro até para colecionadores. Quem sabe um dia possa rever esta igual obra prima deste grande diretor, um dos maiores de todos os tempos.

      Abraços do Editor!

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