sábado, 3 de março de 2018

As Sete Cidades do Ouro (1955): Um dos Primeiros Espetáculos Em CinemaScope Que Adocica a Saga dos Conquistadores Espanhóis, e Sua Expedição a Costa da Califórnia.



AS SETE CIDADES DO OURO (Seven Cities of Gold), produzido em 1955 e dirigido por Robert D. Webb (1903-1990) foi um dos primeiros grandes espetáculos que a 20th Century Fox realizou no formato CinemaScope, processo de tela que revolucionou esteticamente todo o cinema, cujo trunfo começara em 1953 com O Manto Sagrado.


O Cineasta Robert D. Webb
Anthony Quinn como o Capitão Gaspar de Portola.


Richard Egan como o Tenente Jose Mendoza
Quando os espanhóis desembarcaram no México, onde a ferro e fogo escravizaram um povo livre, pilhando seus templos e tesouros para a “maior glória da Espanha”, ouviam sempre falar de sete fabulosas cidades, muito ao norte, cujas ruas e casas eram cobertas de ouro. Desde então, várias tentativas foram feitas para achar o caminho daquela área, quase todas malogradas. Um dia, o Capitão Gaspar de Portola (Anthony Quinn, 1915-2001), que chefiava uma expedição em nome do Rei da Espanha, teve informações seguras sobre a localização das “Sete Cidades do Ouro”.  Portola organizou sua expedição, sob o ostensivo pretexto de reconhecer as terras de El-Rey, mas com o objetivo de saquear os nativos, e assim, abastecer as insaciáveis arca da metrópole, e, naturalmente, reservando uma gorda fatia. 

Os homens de Portola, conquistadores espanhóis
O Capitão Portola e seu auxiliar, Tenente Mendoza.

Ula (Rita Moreno) e Jose (Richard Egan): Um romance trágico.
Esse fato, um dos muitos que envergonham a história do domínio dos europeus nas Américas, serviu de base para o romance Os Nove Dias do Padre Serra (The Nine Days of Father Serra) de Isabelle Gibson Ziegler, que serviu de adaptação para As Sete Cidades do Ouro, escrito por Richard L. Breen (1918–1967) e John C. Higgins (1908–1995). Mas naturalmente, a crueza dos fatos foi adoçada na sua transposição para as telas. Nele, foi incluído um romance entre o Tenente Jose Mendoza (Richard Egan, 1921-1987), auxiliar de Portola, e a princesa nativa Ula (Rita Moreno). Entretanto, o que poderia ser uma relação de amor com final feliz, tem um fim trágico, graças a imposição do “Código de Produtores”, no capítulo que versa sobre miscigenação. De fato, seria preciso um diretor e produtor ousados para fazer um branco e uma índia se casarem num filme em plena década de 1950. Se o cineasta Webb (que também foi o produtor) impusesse tal ousadia, certamente que sua obra seria censurada em muitos estados americanos, sobretudo em lugares onde ainda era reinante a discriminação racial.  Mas, felizmente, a habilidade dos roteiristas faz com que, pelo desenrolar da trama, o desfecho entre Jose e Ula se torne lógico e funcional.

Michael Rennie como o Padre Junipero Serra.
Muitas vezes, o Padre Serra bate de frente com os oficiais espanhóis...


...para poder levar sua missão com fé e otimismo.
Robert D. Webb, embora um diretor dos menos famosos, mas de grande categoria, nos dá uma obra de grande qualidade artística e fundo sentimento humano. O cineasta adota uma franca posição crítica contra os métodos dos “brancos” de impor a civilização, fazendo do Padre Junipero Serra (Michael Rennie, 1909-1971) o porta voz de seu protesto. Michael Rennie desempenha magnificamente um personagem que, de fato, existiu.  Serra foi um frade franciscano que fundou cadeia de missões na Alta Califórnia, parte da província de Las Californias na Nova Espanha, atual Califórnia. Entre as missões fundadas encontram-se os núcleos que deram origem a Los Angeles, San Francisco, Sacramento e San Diego. O Padre Serra foi beatificado pelo Papa João Paulo II (1920-2005) em 25 de setembro de 1988. Foi canonizado pelo Papa Francisco em 23 de setembro de 2015, por ocasião da sua viagem apostólica a Cuba e Estados Unidos.

Mesmo doente, o Padre Serra não desiste de prosseguir com sua missão, e conta com a ajuda de...
...Jose Mendoza, de quem se torna amigo.
Além da habilidade de se desenvolver uma história que ainda fuja dos verdadeiros acontecimentos, Webb ainda envolve a ação de AS SETE CIDADES DO OURO num clima de surda violência, surpreendendo a plateia com impacto brutal de certas cenas, como o massacre de índios indefesos e pacíficos, apenas para mostrar o poderio dos conquistadores. Por outro lado, no romance entre o tenente e a nativa, um misto de pureza e sensualismo dosados com grande delicadeza, tão certo como um raio luminoso na sombria atmosfera da história.

Jeffrey Hunter como Matuwir, líder dos índios e grande guerreiro...
...que é capturado por Mendoza. Com o tempo...


...Matuwir se torna amigo do Padre Serra, que lhe tenta ensinar os princípios básicos do Cristianismo.
Webb ainda confirma a confiança que tem em Jeffrey Hunter (1926-1969), novamente no papel de pele-vermelha, como fizera em outro trabalho do diretor, A Lei do Bravo (White Feather, 1955). Hunter se desincumbe muito bem como um guerreiro e chefe índio que se opõe a conquista dos espanhóis e a missão do Padre Serra, com qual depois passa a ser amigo. Rita Moreno como Ula, e o magnífico Anthony Quinn como Portola, tem bons desempenhos. Richard Egan, embora não bom ator, mas carismático, não chega nenhum momento a comprometer a produção.  A Trilha sonora é de Hugo Friedhofer (1901–1981), e fotografia do competente Lucien Ballard (1904–1988). 


A trama

Em 1769, o Padre Junipero Serra (Michael Rennie) promove uma expedição do México até a costa da Califórnia a fim de estabelecer missões nas novas terras (as baias de San Diego, Monterrey, e San Francisco).  A caravana é liderada pelo Capitão Gaspar de Portola (Anthony Quinn) e seu Tenente José Mendoza (Richard Egan).



Com o tempo, Matuwir e os demais nativos se adequam a missão do Padre Serra.
Diversos contratempos dramatizam a viagem, incluindo ataques sistemáticos dos índios. O líder deles, Matuwir (Jeffrey Hunter) cai prisioneiro da expedição, mas torna-se amigo do Padre Serra. E a irmã do jovem guerreiro, Ula (Rita Moreno) deixa Jose fascinado. Tudo se complica quando Ula morre acidentalmente e os índios declaram guerra à caravana.


Com a morte de Ula, irmã de Matuwir, o destino da expedição fica em jogo, bem como o trabalho missionário do Padre Serra.
A acrescentar
AS SETE CIDADES DO OURO é, na realidade, um canto nobre de amor a terra e de reconhecimento dos erros cometidos no passado pelos colonialistas para com os povos das Américas, sob a forma de uma aventura indianista, e muito embora haja irregularidades históricas, é um épico de grandes proporções. A película chegou as salas cariocas em novembro de 1956. 


FICHA TECNICA



AS SETE CIDADES DO OURO

(Seven Cities Of Gold)

PAÍS – ESTADOS UNIDOS
ANO – 1955
GÊNERO – AVENTURA/ÉPICO
DIREÇÃO - ROBERT D. WEBB
PRODUÇÃO – ROBERT D. WEBB, BARBARA McLEAN, DARRYL ZANUCK, para a 20th Century Fox.
MÚSICA – HUGO FRIEDHOFER
FOTOGRAFIA – LUCIEN BALLARD/EM CORES
METRAGEM – 105 MINUTOS


ELENCO
RICHARD EGAN – TENENTE JOSE MENDOZA
ANTHONY QUINN – CAPITÃO GASPAR DE PORTOLA
MICHAEL RENNIE – PADRE JUNIPERO SERRA
JEFFREY HUNTER – MATUWIR
RITA MORENO – ULA
EDUARDO NORIEGA – SARGENTO
LESLEY BRADLEY – GALVES
JOHN DOUCETTE – JUAN
VICTOR JUNCO – TENENTE FACES
JULIO VILLAREAL- VILA
KATHELEEN CROWLEY – A MÃE
PEDRO GALVAN – O PAI


PAULO TELLES
PRODUÇÃO E PESQUISA

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