Realizado
há mais de 70 anos, PACTO DE SANGUE (Double Indemnity), do diretor Billy Wilder
(1906-2002) se consagra entre os maiores filmes de todos os tempos. Em 1940, a
Paramount comprou para o cineasta o romance original de James M. Cain
(1892-1977) por 15 mil dólares, entretanto, Wilder não pôde contar com seu
colaborador habitual Charles Brackett para redigir o roteiro. Wilder tentou com
o próprio Cain, mas este estava de contrato com a Fox, fazendo argumento para o
western Os Conquistadores (Western Union, 1941) de Fritz Lang. Três anos depois, o produtor Joseph Sistron (1912-1966) sugeriu a Wilder um escritor de histórias de detetive relativamente
desconhecido até então, Raymond Chandler (1888-1959).
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| O cineasta Billy Wilder. |
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| O escritor Raymond Chandler |
Wilder
nunca tinha ouvido falar de Chandler, mas Sistrom lhe deu um exemplar do
romance The Big Sleep, publicado
quatro anos antes. O cineasta gostou do que leu e se surpreendeu quando
descobriu que o escritor morava próximo a ele em West Hollywood. Mas Chandler
era um homem estranho e cheio de manias, que havia abandonado o álcool. Quando
chamado a Paramount para uma conferência sobre a trama, confessou que nem sabia
onde era o estúdio. Depois veio o desastroso encontro entre ele e o diretor. Os
dois não se simpatizaram. Wilder avisou ao escritor, de forma truculenta, que
ele teria que ganhar 150 dólares por semana para fazer o roteiro. Joe Sistrom
disse a Chandler que a Paramount tinha pensado em lhe pagar 750 dólares
semanais.
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| Raymond Chandler e Billy Wilder: tensão entre o escritor e o cineasta ao longo de quatro meses que escreveram juntos o roteiro para PACTO DE SANGUE (1944). |
Chandler avisou que nunca havia escrito nada para cinema e
que pudesse precisar de três a quatro semanas para terminar o roteiro. Wilder
estava habituado a gastar meses nesses projetos, e ofereceu ao escritor um
modelo de seus scripts, esperando que
Chandler pudesse se basear para fazer o roteiro de PACTO DE SANGUE. O escritor voltou um mês depois cheio de
impressionantes instruções técnicas, com enquadramentos
para close-ups. Wilder não gostou
nem um pouco, mas convidou Chandler a escrever a trama junto com ele em seu
escritório. Ao longo de quatro meses em
que foi feito o script para PACTO DE
SANGUE, foi torturante para o cineasta ter que trabalhar com Raymond Chandler,
que fazia pouco caso dele. Wilder respeitava seu talento, mas exigia respeito
em troca, e era o diretor que entendia sobre escrever de cinema. Se Chandler
reclamava com amigos que trabalhar com o cineasta encurtou sua vida, da mesma
forma Wilder dizia que trabalhar com o escritor o fez envelhecer cinco anos. A
tensão entre os dois fez com que o antes abstinente ao
álcool Chandler retornasse ao uísque.
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| Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, e Edward G. Robinson, os astros de PACTO DE SANGUE (1944). |
Fora as desavenças entre o cineasta e Chandler, o fato que as
plateias foram beneficiadas com uma excitante obra prima absoluta da
quintessência cinematográfica. PACTO DE
SANGUE consegue impactar, prender, arrepiar, e intrigar até os dias atuais.
Afinal, não é de hoje que a florada de
crimes pode ser liderada por femme
fatales ou sex appeals, cuja força
e poder de manipulação são imensamente investidos. A maneira mais ou menos
original de contar a história, cujo criminoso é conhecido nas primeiras cenas,
e o incontestável valor cinematográfico de seu diretor e de seus intérpretes
principais – Fred MacMurray (1908-1991), Barbara Stanwyck (1907-1990), e Edward
G. Robinson (1893-1973) – fazem deste thriller,
um dos mais populares filmes criminais de toda a história.
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| Fred MacMurray é Walter Neff, um simpático vendedor de seguros, seduzido por uma bela cliente... |
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| Phyllis Dietrichson, vivida por Barbara Stanwyck. |
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| Walter e Phyllis se unem para concretizar um plano macabro. |
Melodrama, sim, ou talvez uma história de amor misturada com o crime,
porém algo menos superficial, já que a trama se baseia em um crime ocorrido em
março de 1927, em Nova York, cometido pela dona-de-casa Ruth Snyder e por seu
amante, Judd Gray, um vendedor de 32 anos. Além do excelente roteiro de Wilder
e Chandler, o elenco fez a diferença, com uma história de pessoas comuns, nem
intelectuais, nem sofisticados, e nem granfinizantes. O filme se aproxima mais
do espectador, com uma linguagem de fácil acesso ao público.
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| Edward G. Robinson é Barton Keyes, um astuto investigador de seguros. |
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| Keyes é chefe de Walter, e gosta do rapaz. Mas nem desconfia que por trás do então bom moço, tem um assassino... |
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| seduzido e manipulado por uma bela mulher. |
A trama versa sobre um simpático vendedor de
seguros de Los Angeles, Walter Neff (MacMurray), que se envolve com a sedutora
Phyllis Dietrichson (Stanwyck), que quer se livrar do marido milionário, Sr.
Dietrichson (Tom Powers, 1890-1955) para poder receber apólice de seu seguro de
vida. Não demora para que ambos tramem o assassinato do marido, no entanto,
Neff se sente acuado pelo seu chefe e colega de trabalho Barton Keyes (G.
Robinson), um veterano investigador de seguros capaz de farejar qualquer tipo
de fraude dos clientes.
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| Walter e Phyllis sempre se encontram as escondidas para melhor execução do plano, seja em um supermercado ou no apartamento de Neff. |
Assim como faria em Crepúsculo dos Deuses (Sunset
Boullevard, 1950), Wilder conta a história a partir do fim. Depois de desiludido com Phyllis, esta é morta por Neff, que registra no gravador de Keyes uma confissão que
servirá a partir daí como narração em off,
no melhor estilo noir da Sétima Arte,
caracterizado na arte sombria com temáticas direcionadas ao submundo.Teremos aqui o anti-herói endurecido e cínico
atraído por uma mulher fatal para um terreno moralmente movediço. A
predominância das cenas noturnas, em que as sombras são usadas de modo
dramático e estilizadas, e o dinheiro e a libido como motores da ação, são
pontos marcantes em PACTO DE SANGUE,
onde há o contraste entre a ensolarada costa californiana e a caracterização
sombria dos ambientes fechados, quase sempre com uma contraluz filtrada por
persianas.
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| A caracterização sombria dos ambientes fechados com uma contraluz filtrada por persianas, como se vê nesta cena. |
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| Após matarem o marido de Phyllis, ela e Neff precisar criar um álibi. Mas... |
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| Keyes desconfia que a morte do Sr. Dietrichson não foi um acidente. |
Fred MacMurray sem dúvida pegou o melhor papel de sua carreira e quase
recusou depois que soube que George Raft e Alan Ladd não queriam desempenhar Walter Neff. Barbara Stanwyck também
quase recusou sua parte como a loura e fatal Phyllis, pois ao ler o roteiro
ficou aterrorizada com o enredo. O final da trama chegou a ser alterada. Neff
era condenado à câmera de gás numa prisão de Folson. Wilder voltou atrás e
achou que este fim era bruto demais e sem sutileza, fora os 150.000 dólares
investidos só para recriar a câmera de gás. Novamente, o diretor bateu de frente com
Chandler, que não queria reescrever o final, mas a Paramount negociou com o
escritor fora dos estúdios.
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| Finalmente, Keyes descobre que o assassino do Sr. Dietrichson era seu amigo Neff. |
Vale transcrever que a cena final é antológica, quando se vê MacMurray ferido e
sangrando muito, pedindo a Edward G. Robinson, o investigador da companhia de
seguros que ao mesmo tempo também representava uma figura de autoridade paternal, que desse 24 horas
a ele para atravessar a fronteira do México:
- Vc
não vai chegar nem no elevador – diz Robinson, acendendo o último cigarro para
MacMurray.
MacMurray diz que Robinson não tinha conseguido
desvendar o crime porque o assassino “estava muito perto, do outro lado da sua
mesa”. Robinson replicou: “mais perto que isso”.
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| Barbara Stanwyck, em estilo de erotismo. |
O erotismo também chega a ser ousado, quase
opressivo (pelo menos, para a época), quando Phyllis, em sua primeira aparição,
chega com uma toalha envolta do corpo. Barbara
Stanwyck, loura, esta mais linda, atraente, e fatal. Grande intérprete que era,
conseguiu fazer muito bem uma personagem dúbia e perigosa, do tipo
manipuladora, que todo homem odeia, mas não consegue se livrar. Pode-se dizer
que com Stanwyck em PACTO DE SANGUE,
a era das grandes fascinadoras e damas
fatais chegou a seu auge, depois de Theda Bara e Marlene Dietrich, sendo
ainda Barbara precursora de outras femme
fatale do cinema moderno, como Sharon Stone e Angelina Jolie.
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| Porter Hall no papel de uma testemunha que alega ter conversado com o Sr. Dietrichson antes de morrer. |
Embora não tenha sido agraciado com nenhum Oscar, Pacto de Sangue recebeu sete indicações da Academia de
Hollywood. Perdeu os principais para o
sentimental O Bom Pastor, de Leo
McCarey. Na cerimônia de premiação, quando McCarey se encaminhava ao palco para
receber a estatueta de Melhor Diretor, Wilder estendeu o pé à sua frente,
fazendo o rival se estatelar de cara no chão.
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| Presença do Corpo Policial, acompanhando as filmagens de PACTO DE SANGUE (1944). |
FICHA TÉCNICA
PACTO DE SANGUE
(DOUBLE INDEMNITY)
País – Estados Unidos
Ano – 1944
Gênero - Criminal
Direção - Billy Wilder
Produção - Buddy G. DeSylva e Joseph Sistrom, para a PARAMOUNT
Roteiro –
Billy Wilder e Raymond Chandler.
Fotografia - John F. Seitz,
em Preto & Branco
Figurino – Edith Head
Música – Miklos Rozsa
Metragem – 107 minutos
ELENCO
Barbara
Stanwyck - Phyllis Dietrichson
Fred
MacMurray - Walter Neff
Edward G.
Robinson - Barton Keyes
Porter Hall
- Sr. Jackson
Jean
Heather - Lola Dietrichson
Tom Powers - Sr. Dietrichson
Byron Barr -
Nino Zachetti
Richard
Gaines - Edward S. Norton Jr.
Fortunio
Bonanova - Sam Garlopis
John
Philliber - Joe Peters
Douglas
Spencer - Lou Schwartz
Edmund Cobb
- Condutor do trem
Betty
Farrington - Nettie, empregada dos Dietrichson
Bess Flowers - Secretária de
Norton
Miriam Franklin - Secretária de Keyes
Sam McDaniel - Charlie
PAULO TELLES
Produção e Pesquisa.
PAULO TELLES
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