domingo, 11 de junho de 2017

Juventude Transviada (1955): Nicholas Ray e Sua Preocupação com a Delinquência Juvenil, em Uma das Trilogias do Mito James Dean.


Desde que estreou como diretor em 1949, com o clássico Amarga Esperança (They Live be Night) o cineasta Nicholas Ray (1911-1979) vinha se preocupando cada vez mais com a delinquência juvenil nos Estados Unidos.   Nessa fita, Ray analisou o assunto tendo como base um fato real, onde são analisados as reações de um jovem casal (vividos por Cathy O’ Donnell e Farley Granger). Em O Crime Não Compensa (Knock on Any Door), mostra a luta de um advogado (Humphrey Bogart) de origem pobre das periferias que tenta afastar alguns rapazes da influência de bandidos que são como “ídolos” para esses jovens.


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel Without a Cause), fita dirigida por Ray em 1955, numa demonstrada tensão e gravidade quanto ao problema da juventude, retrata a trajetória de jovens pertencentes às elites dirigentes dos Estados Unidos. Formou assim uma espécie de tríptico do que considera as causas desse perigo que já afligia professores, psicólogos, sociólogos, e educadores na época de sua realização, isto é, há 62 anos. Um perigo que com o passar das gerações, se torna cada vez mais atual, seja nos Estados Unidos, no Brasil, ou em qualquer parte do mundo. 

O cineasta Nicholas Ray e o ator James Dean, passando o roteiro para JUVENTUDE TRANSVIADA (1955)
James Dean e Nicholas Ray
Nicholas Ray parece deixar bem claro que a “cura” para a doença da delinquência juvenil não esta nas “taras constitucionais” como o diretor bem definiu, mas com uma melhor distribuição social, e principalmente, a responsabilidade dos pais. Em Juventude Transviada, a culpabilidade dos pais é explicada por terem suas vidas voltadas para seus compromissos sociais e absorvida com trabalhos, deixando os filhos entregues ao próprio destino, e o que é mais grave, sem lhes dar ao menos uma demonstração de carinho, afeto, e a atenção de que tanto necessita a fase da adolescência, mostrando que a delinquência juvenil não é privilégio exclusivo apenas de pessoas oriundas de classes menos abastadas.

James Dean, o mito que se tornou uma lenda
A obra de Ray, que lhe deu a maior notoriedade de sua carreira como cineasta, foi estrelada justamente por um mito que se tornou símbolo da juventude rebelde da década de 1950, e sua mitologia ainda se tornou mais forte quando veio a morrer num trágico acidente automobilístico, a 30 de setembro de 1955: James Dean (1931-1955).Junto com Vidas Amargas (East of Eden), 1954, de Elia Kazan – e Assim Caminha a Humanidade (Giant), 1956, de George Stevens – JUVENTUDE TRANSVIADA forma a trilogia de filmes mais conhecidos, lembrados, e estrelados por este ícone da rebeldia. Antes mesmo de marcar ponto nestas três fitas, Dean já tinha passado outras experiências como ator. Foi inicialmente um dos alunos do Actor’s Studio, a conhecida escola de atores de Nova York, de onde saiu nomes famosos, como Marlon Brando. Em seguida, participou de produções menos faladas, como os filmes Baionetas Caladas, de Samuel Fuller, O Marujo foi na Onda, de Hal Walker, e Sinfonia Prateada, de Douglas Sirk – todas elas de 1951. 

James Dean, ícone da rebeldia nos anos de 1950.
Dean ainda apareceu em comerciais feitos para a TV (para fregueses tão diferentes quanto a Pepsi Cola e o Governo Americano), peças teatrais, e até para telefilmes, mas foi com Rebell Without a Cause que James Dean se tornou um ícone para a juventude na primeira metade da década de 1950, trazendo uma das cenas mais antológicas da história da Sétima Arte : o “pega” de carros próximos a um desfiladeiro. Foi assim que o precocemente falecido Dean se tornou a imagem do garoto rebelde, que Elvis Presley (que tanto o idolatrava) tentou imitar, mas nunca conseguiu.Muito embora hoje tenha o status de grande clássico do cinema, o filme nunca chegou a ser unanime entre os críticos. A crítica Pauline Kael (1919-2001) classificou Juventude Transviada no seu famoso livro, 5001 nights at the movies como uma “novela”, para em seguida lembrar contrariada que ela teve “mais impacto nos adolescentes da época do que muitos outros filmes melhores”. Certamente, o próprio argumento do cineasta Nicholas Ray, retocado pelos escritores Stewart Stern (1922-2015) e Irving Shulman (1913-1995) não chega a ser um dos mais primorosos, mas a atuação de James Dean contorna a trama, salvando com tranquilidade os pontos fracos do filme, e fazendo toda a diferença. A atuação de Dean sempre foi marcante, tendo peso nas produções de que participou, ao passo que fica difícil imaginar Carl Trask e Jim Stark, personagens respectivos de Vidas Amargas e Juventude Transviada interpretado por um mesmo ator que não seja James Dean.  Ele traduzia com perfeição e de maneira bastante particular os conflitos internos desses personagens, ao mesmo tempo em que conseguia desenha-los com toda uma riqueza de detalhes e aspectos. 

O Diretor Nicholas Ray e seus jovens astros Natalie Wood e James Dean.
O diretor Ray repassando o script para Sal Mineo, Natalie Wood, e James Dean

Ray e Dean em momento de intervalo das filmagens. O diretor lamentou muito em não poder mais trabalhar com o ator.
Já Nick Ray, através de sua obra em parceria com Dean (o cineasta lamentou não poder trabalhar novamente com o ator, pois Dean estava escalado para viver Jesse James em Quem Foi Jesse James, western dirigido por Ray em 1956 – com a morte de Dean o papel foi para Robert Wagner) ficou entre o reconhecimento e a negação do seu talento. O culto de sua pessoa data da época do Nouvelle Vague. Foram Godard e Truffaut, a princípio, dois cineastas a reverencia-lo, usando para tanto respaldo o famoso Chahiers du Cinema. Pouco antes de sua morte por câncer, em 1979, Ray ainda foi objeto de um documentário dirigido pelo alemão Wim Wanders, Um Filme para Nick (Lightning Over Water), onde é focalizada a agonia de Ray em relação à doença, e suas reflexões sobre a vida. Em Juventude Transviada, talvez o maior erro no trabalho de Nicholas Ray seja, provavelmente, se deixar envolver exageradamente pelos três jovens sofredores (principalmente com Jim Stark, que Ray considerava seu “alter ego” juvenil), fazendo com que o impacto da denúncia social se dilua numa torrente de psicologismo duvidoso. No entanto, este enfoque oferece ao diretor algumas vantagens, como por exemplo, do diretor poder obter dos intérpretes o máximo de rendimento dramático, e de quebra, um envolvente acabamento visual, já que é justamente a ação que deriva das emoções dos personagens. 



A TRAMA
Jim Stark (Dean), saindo da delegacia acompanhado pelos pais (Jim Backus e Ann Doran) na presença do inspetor Fremick (Edward Platt)
Incompreendido, Jim discute muitas vezes com sua mãe... 
...e seu pai, que deveria ser o pulso forte da família.
Toda a narrativa transcorre em 24 horas, com poucos cenários, sendo acionada com extrema funcionalidade (raramente Ray aproveitou tão bem o uso do Cinemascope), sobre a trajetória de três jovens delinquentes. O primeiro é Jim Stark (Dean), um adolescente complicado, um verdadeiro rebelde sem causa como condiz no título original da fita. Mas seria sua rebeldia mesmo sem causa? Os pais vivem em festas condizentes com o status social a que pertencem. Aparentemente, Jim tem tudo no quesito material – casa, carro, dinheiro, mas mesmo assim ele se sente solitário e procura esquecer na embriaguez seu pai, Frank (Jim Backus, 1913-1989), que deveria ser seu ídolo e que, no entanto, se revela um ser pusilânime, quando percebe que é manobrado pela mãe (Ann Doran, 1911-2000). 

Judy (Natalie Wood), outra desajustada que não consegue o amor de seu pai...
...e por isso, se envolve em péssimas companhias, com a gangue de Buzz (Corey Allen)
Judy (Natalie Wood) chocada com o acidente que matou Buzz, e Jim (Dean) lhe estende a mão.

Com Judy (Natalie Wood, 1938-1981) as coisas não são diferentes. Ela não consegue encontrar em casa a compreensão dos seus, principalmente do pai (William Hopper, 1915-1970), cujos negócios lhe tomam todo o tempo e que só lhe fala para repreendê-la ou castiga-la, fazendo com que a jovem se perca procurando divertimentos fáceis.

Na delegacia, Jim empresta seu paletó para Plato (Sal Mineo), amedrontado e com frio. 
Plato (Sal Mineo), em busca desesperada por um pai, tem na figura do ator Alan Ladd um modelo paterno. 
Plato, possivelmente o mais emocionalmente perigoso de todos os transviados.
Finalmente, Plato (Sal Mineo, 1939-1976), filho de uma divorciada que anda sempre fora de casa e que lhe envia dinheiro, sendo entregue aos cuidados de uma empregada. Ele procura desesperadamente um pai (que no imaginário do menino, seria o ator Alan Ladd, cuja foto ele guarda no armário da escola). Os problemas ligados aos três jovens são elementos básicos para um estudo extremamente cortante de transgressões e desvios de conduta moral, onde Nicholas Ray fustiga, de modo impiedoso, a inconsciência e a negligência dos pais. 

Dean, Mineo, e Natalie: mortes trágicas.
O trio perfeito de delinquentes para JUVENTUDE TRANSVIADA (1955)
James Dean e Corey Allen
O que dizer dos três jovens atores principais? James Dean, admirável no papel principal (muito embora tivesse 23 anos na época, “velho” para um adolescente), seguido de Natalie Wood na flor de sua juventude (aos 17 anos e perfeita no papel), e Sal Mineo (então com 16), este um jovem ator de qualidades excepcionais. Reunir um elenco jovem como Dean, Natalie, e Mineo, só veio ajudar a valorizar mais a obra de Ray, sendo talvez a mais significativa a utilizar como tema o chamado “conflito de gerações”. 


Jim Stark (Dean) em luta de canivetes com Buzz (Corey Allen)
Ray supervisionando Natalie e Dean durante as filmagens 
Entretanto, apesar das qualidades, Juventude Transviada apresenta uma grande falta: o malsucedido processo WarnerColor, que dá um tom estranho a bela fotografia do competente Ernest Haller (1896-1970), um dos mesmos fotógrafos de E O Vento Levou (1939). Entretanto, além dos mitos que cercam esta produção, uma curiosidade se faz pertinente observar: James Dean, Sal Mineo, e Natalie Wood, tiveram mortes trágicas. Dean morreu de acidente de carro em setembro de 1955. Mineo foi assassinado durante um assalto em 1976. E Natalie Wood morreu afogada em 1981, morte que ainda se cerca de muito mistério. 


Nick Ray (de costas) dirigindo James Dean para uma das cenas de JUVENTUDE TRANSVIADA (1955)
JUVENTUDE TRANSVIADA é um filme cuja homogeneidade e nobreza transcende ao próprio processo cinematográfico, ganhando uma amplitude humana digna de seu realizador. No Brasil, estreou nos cinemas cariocas, segundo o IMDB, em dezembro de 1955. 

James Dean e Sal Mineo
Divulgação do filme por um jornal carioca, em 1º de outubro de 1956.
FICHA TÉCNICA
JUVENTUDE TRANSVIADA
(REBEL WITHOUT A CAUSE)

ANO DE PRODUÇÃO: 1955
PAÍS: Estados Unidos
DIREÇÃO: Nicholas Ray
PRODUÇÃO: David Weisbart, em distribuição pela Warner Brothers
ROTEIRO: Stewart Stern, Irving Shulman (adaptação), baseado em uma história de Nicholas Ray
FOTOGRAFIA: Ernest Haller, em WarnerColor
MÚSICA: Leonard Rosenman
METRAGEM: 111 Minutos.


ELENCO
JAMES DEAN – JIM STARK
NATALIE WOOD – JUDY
SAL MINEO – JOHN “PLATO” CRAWFORD
JIM BACKUS – SR. FRANK STARK
ANN DORAN – SRª CAROL STARK
COREY ALLEN – BUZZ GUNDERSON
WILLIAM HOPPER – PAI DE JUDY
ROCHELLE RUDSON – MÃE DE JUDY
DENNIS HOPPER – GOON
EDWARD PLATT – RAY FREMICK
MARIETTA CANTY – CUIDADORA DE PLATO
IAN WOLFE – DR. MINTON
ROBERT FOULK – GENE
JACK SIMMONS – COOKLIE
TOM BERNARD – HARRY
NICK ADAMS – CHICK

PAULO TELLES
PESQUISA E PRODUÇÃO
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EM TEMPO

IN MEMORIAN
ADAM WEST
(1928-2017)

Ao final da confecção para a matéria sobre o filme Juventude Transviada, o mundo ficou sabendo na manhã deste último sábado (10 de junho de 2017) do falecimento do ator ADAM WEST, o famoso Batman da Série de TV (1966-1968). West morreu em sua casa na Califórnia vítima de leucemia que ele lutava havia poucos meses. Tinha 88 anos de idade. 

O jovem Adam West em publicidade antes de BATMAN
West personificando o milionário Bruce Wayne, alter ego de Batman.


Astro que fez parte de uma geração (principalmente a minha), West também realizou outros trabalhos, seja na TV e no Cinema, mas Batman o imortalizou, tanto que West participou de várias convenções ao longo de quatro décadas sobre seu personagem na TV e participou de inúmeros programas, onde se revestiu de Batman emprestando sua voz nos desenhos dos SUPERAMIGOS e também em OS SIMPSONS. 

West como Batman, ao lado de Burt Ward (Robin)
West em um evento de 2014
Adam West em seus últimos anos.
Recentemente, em 2015, usou sua voz para dublar o Homem Morcego, ao lado do colega Burt Ward (Robin) e de Julie Newmar (Mulher Gato) no também animado BATMAN E ROBIN: O RETORNO DA DUPLA DINÂMICA, desenho que restituiu com perfeição as características da série de 1966 a 1968, onde atualmente estava fazendo um segundo trabalho. Adam era casado com Marcelle Lear desde 1972. O ator deixa seis filhos (quatro com Marcelle e outros dois de dois casamentos anteriores), quatro netos e dois bisnetos. Em 2012, recebeu uma homenagem em Hollywood, recebendo uma estrela no Calçadão da Fama. Na ocasião, o Blog FILMES ANTIGOS CLUB – A NOSTALGIA DO CINEMA, fez uma matéria, que esta a disposição dos leitores neste link: http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/2012/04/o-bom-e-veterano-batman-nobre-adam-west.html

PAULO TELLES

Outras Matérias

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