Em 1951, o renomado escritor sueco Par Lagerkvist (1891-1974)
foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura pela publicação de seu
Best-Seller Barrabás, lançado no ano
anterior. A primeira vista, Lagerkvist não quis apresentar uma história
bíblica, mas demonstrar como a fé e o ceticismo podem muito bem andarem em
lados paralelos da sociedade.
O romance de Par Largkevist já havia tido uma adaptação
cinematográfica em 1953, na Suécia, sob direção de Alf Sjöberg, com Ulf Palmer
no papel principal. Mas oito anos depois, o cineasta Richard Fleischer
(1916-2006), juntamente com o produtor Dino De Laurentiis (1919-2010)
realizaram basicamente a versão cinematográfica definitiva do livro, BARRABÁS
(Barabbas), em 1961. Ainda haveria uma terceira versão, em 2012, desta vez para a
televisão, dirigida por Roger Young e em formato de minissérie produzida na
Itália, com Billy Zane no papel do condenado liberto no lugar de Jesus.
Entretanto, esta adaptação é esquecível, não superando em hipótese alguma o
trabalho realizado em 1961 por Fleischer e tendo o lendário Anthony Quinn
(1915-2001) interpretando de modo soberbo e com muita propriedade e realismo um dos mais
famigerados personagens bíblicos de que se tem notícia.
Quinn dá um show de interpretação como Barrabás, e seu
desempenho ajuda intensamente na elaboração da história e de sua mensagem, onde
o personagem expressa suas dúvidas diante dos mistérios da vida, dos
ensinamentos de Jesus, e da morte. Um épico bíblico que acaba escapando do
desleixo e das superficialidades muito costumeiras nas fitas do gênero. Quando foi lançada, a crítica estrangeira chegou a malhar “tão certo como a Judas”, acusando-o de sonolento e monótono. No entanto, mesmo passados mais de cinquenta
anos de seu lançamento, a obra estrelada por Quinn continua de pé, devido à seriedade
com que foi realizado e, sobretudo, ao envolvimento reflexivo e aventuresco que
leva o espectador.
A procura, a ânsia de Barrabás, que se demora em Jerusalém,
quando após a crucificação de Jesus “nada mais tinha que fazer” e tudo lhe era
indiferente, é bem característica. O protagonista passa por várias situações
críticas. Acaba perdendo a mulher que amava, Rachel (Silvana Mangano,
1930-1989), que se converte ao cristianismo e acaba martirizada pelos
sacerdotes do Sinédrio. Como vingança, Barrabás organiza um grupo de ladrões para
roubar o tesouro dos sacerdotes, mas acaba preso e enviado para as minas da
Sardenha pelo Procurador Pôncio Pilatos (Arthur Kennedy, 1914-1990), o mesmo juiz
que o havia libertado no lugar de Cristo pela vontade popular.
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| O escritor sueco Par Largkevist, o autor do romance BARRABÁS (1950), livro que o consagrou e lhe outorgou o Prêmio Nobel de Literatura em 1951. |
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| Ilustração "Dá-nos Barrabás", de autor desconhecido - 1910
Barrabás é um personagem citado breve e exclusivamente no
Novo Testamento, no contexto do julgamento de Jesus Cristo. Ele seria um
criminoso condenado à morte pela justiça romana, que acaba libertado por
vontade do povo judeu, posto a escolher entre ele e o Cristo, no célebre
julgamento promovido por Pilatos. Historicamente, nada se sabe a seu respeito e
mesmo se supõe que talvez nem tenha existido. Alguns historiadores o associam
como um um integrante do partido judeu que lutava contra a dominação romana, nascido
em Jopa, ao sul da Judeia. Entretanto, seja um personagem imaginário,
simbólico, ou autêntico, o fato que Barrabás concebeu muitas interpretações ao
longo do cinema.
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| Anthony Quinn, magistral e perfeito como BARRABÁS (1961) |
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| O Cineasta Richard Fleischer |
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| Graças a um julgamento popular promovido pelo Procurador romano Pôncio Pilatos (Arthur Kennedy), Barrabás é libertado, e Jesus condenado. |
Adaptado por Christopher Fry (1907-2005), conforme o espírito
do romance de Largkevist, o roteirista eleva Barrabás como um homem marcado pela
figura de Cristo. O protagonista é submetido a um julgamento popular ao lado de
Jesus. A plebe preferiu o desordeiro e criminoso sem escrúpulos para ser salvo
da pena de morte na cruz, aliás, um dos grandes motivos a se suspeitar da ação
popular, que tende sempre a julgar e condenar os justos e inocentes, e vangloriar os
culpados e criminosos. Aquele que lhes
trazia mensagem de amor e fraternidade, e a certeza de uma vida sem
sofrimentos, guerras, e infelicidades, é condenado.
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| Barrabás volta para casa, desejando atenção de sua mulher Rachel, vivida por Silvana Mangano. |
Porém, foi justamente esse o estigma do criminoso que foi
posto em liberdade no lugar de Jesus de Nazaré.
É exatamente o conflito interior de Barrabás que o diretor Richard
Fleischer retrata em sua obra, já que o personagem começa a sofrer crise de consciência. É inegável que o perfil psicológico de
Barrabás traçado na fita possui um sentido muito peculiar, coisa muito rara
neste estilo de filme. Por outro lado, o cineasta soube dosar (e muito bem) os
elementos de competição e aventura que compõem o entrecho, que inexiste no
romance original, o que facilitou a aceitação de grande parte dos espectadores (as cenas de combate entre gladiadores no Coliseu são das mais bem realizadas no cinema, capaz de atrair a atenção até hoje).
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| que adere aos ensinamentos de Jesus Cristo... |
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| e por conta disso, acaba perdendo a vida nas mãos do Poder do Sinédrio. |
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| Barrabás nas minas da Sardenha. |
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| Nas minas, Barrabás acaba conhecendo um cristão grego, Sahak (Vittorio Gassman), e acabam se tornando amigos. |
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| Barrabás e Sahak, que sobrevivem aos serviços das minas para se tornarem escravos de um nobre romano. |
Seja
como escravo-mineiro, ou como gladiador em plena capital do Império Romano, em
todas elas, a lembrança de Jesus Cristo (interpretado por Roy Mangano, irmão de
Silvana Mangano) parece persegui-lo através de outros personagens, como o seu
companheiro de infortúnio, o cristão grego Sahak (Vittorio Gassman, 1922-2000),
que se torna seu melhor amigo e o ensina sobre os princípios da fé cristã - e um servo, Lucius (Ernest Borgnine, 1917-2012), em realidade, um
pseudo líder cristão mais preocupado em julgar suas atitudes do que em ajuda-lo
e instruí-lo na fé do Redentor.
Entretanto, Barrabás e Sahak são enviados ao Coliseu para serem
gladiadores e lutarem por suas vidas.
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| Já como gladiadores na Capital do Império Romano, Barrabás e Sahak conhecem Lúcius (Ernest Borgnine), um líder cristão que serve como ajudante no Coliseu. |
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| A crença de Sahak é descoberta, e logo será enviado para a morte pelas mãos de... |
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| Torvald (Jack Palance), o campeão da arena, capitão dos gladiadores. |
Após a morte de Sahak pelas mãos de Torvald (Jack Palance,
1919-2006), campeão dos gladiadores, Barrabás resolve vingar, mesmo sabendo que tal atitude seria contrária ao pensamento de seu finado amigo cristão. Tendo matado Torvald na arena,
Barrabás consegue sua liberdade depois de muitos anos, e sendo um homem livre,
ele acaba assistindo o famoso incêndio de Roma, provocado pelo imperador Nero (Ivan
Triesault, 1898-1980), e acaba interpretando isso como um prenúncio do advento
de uma nova era, prometida pelo Cristo. Até no fim, ele se mantem atado a
Jesus, posto que também morre no suplício da cruz. Mas se o Nazareno expira
dizendo: "Pai, em Tuas mãos entrego
o meu espírito!", Barrabás, que apesar de tudo não conseguiu
converter-se a nenhum deus, encerra sua vida murmurando para a noite: "Escuridão, entrego-me à tua guarda! Eu...BARRABÁS!".
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| Sahak (Vittorio Gassman) e Lúcius (Ernest Borgnine) - dois cristãos a seguirem a mesma doutrina, mas com atitudes bem diferentes de amor e tolerância pelo próximo. |
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| Sahak (Vittorio Gassman) pronto para liquidar seu oponente na arena. Mas mesmo ovacionado pelo clamor popular dos espectadores do Coliseu, ele se recusa a tirar a vida de seu semelhante, conforme suas convicções. |
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| Sahak, um dos primeiros mártires da Igreja |
BARRABÁS vale ainda como testemunho de um homem que
transformou sua vida a partir do momento que sua consciência se esclareceu. Seu
gesto final tem evidentemente dois sentidos que se complementam. De um lado a
opressão dos romanos, e de outro a divulgação de um mundo novo anunciado pelo
Salvador.
A tentativa de conversão de Barrabás não esta, portanto, desligada na nossa realidade. A aceitação das doutrinas de Jesus se faz as duras penas e na
própria experiência de homem marginalizado e marcado pelo episódio que lhe fez
um homem liberto pelo populacho. É justamente este enfoque que dá ao filme
estrelado por Anthony Quinn uma categoria que raramente se encontra em outros
filmes épicos religiosos. Aliás, o astro principal soube como ninguém entender
com perfeição a figura que seu personagem foi idealizado na imaginação de
Richard Fleischer. Todos os demais intérpretes se sobressaem bem em suas
partes, como a mexicana Katy Jurado (1924-2002), como Sara, a prostituta amante
de Barrabás, e o inglês Harry Andrews (1911-1989), como São Pedro. Um épico com
um elenco internacional para nenhum cinéfilo botar defeito. Entre os
espectadores do anfiteatro, encontra-se a novata Sharon Tate (1943-1969), em
figuração. O espetáculo teve locações em
Roma, Lazio, e Itália, e também nos famosos estúdios de Cinecittà.
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| Torvald (Jack Palance), prestes a receber as palmas da vingança... |
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| pelas mãos de Barrabás, decidido vingar a morte de Sahak. |
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| Derrotado por Barrabás, Torvald pede clemência do povo para que o deixem viver. O povo não atende a seus apelos, e Barrabás executa, por fim, sua vingança. |
| O cenário do Coliseu (na verdade, o circo de Nero) segundo o filme BARRABÁS (1961), de Richard Fleischer - entre animais e gladiadores lutando por suas vidas. |
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| O filme ainda conta com a participação de Katy Jurado, como Sara, uma amante de Barrabás. |
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| Harry Andrews é Pedro, o líder dos apóstolos. |
A trilha sonora de Mario Nascimbene (1913 - 2002) foi notada
pela sua originalidade à frente de seu tempo, com o uso de sons eletrônicos provenientes
da gravação de notas em velocidades diferentes nas fitas de áudio. Um dos
efeitos especiais mais interessantes acontece na cena de crucificação de
Cristo, filmada durante um verdadeiro eclipse solar. A primorosa fotografia de Aldo Tonti (1910-1988) é um dos grandes destaques da superprodução.
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| A liberdade de Barrabás não durará muito... |
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| acusado de incendiar Roma com outros cristãos, Barrabás sofre pela fé...sem ter fé. |
O evangelho do amor não tinha nenhum significado para este
ladrão e assassino liberto, pois apesar de suas dúvidas, considerava ignóbil,
servil, e fabulosa a fé dos seguidores de Cristo. Não obstante, se sente
perseguido pela lembrança da Cruz e daquele que morreu em seu lugar nela. O
filme Barrabás é um extraordinário estudo de crença, ceticismo, e fé,
centralizado num personagem de interesse universal – o criminoso que assistiu
ao nascimento do Cristianismo, e sem saber, deu testemunho do poder do Cristo
sobre o seu próprio espírito rebelde. Barrabás estreou nos cinemas cariocas em
agosto de 1963, sendo reprisada nas mesmas salas em outubro de 1969. Pela TV
brasileira, estreou em 23 de setembro de 1973, pela sessão "Domingo
Maior", pela Rede Globo.
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| Divulgação do filme nos cinemas do Rio de Janeiro. |
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| Programação de estreia do filme pela televisão, em 1973. |
Ficha
técnica
BARRABÁS
(BARABBAS)
ANO
DE PRODUÇÃO: 1961
PAÍS:
ITÁLIA
gênero: épico religioso/aventura
gênero: épico religioso/aventura
DIREÇÃO:
RICHARD FLEISCHER
PRODUÇÃO:
DINO DE LAURENTIIS, para a COLUMBIA PICTURES
ROTEIRO:
CHRISTOPHER FRY, baseado no romance de PAR LARGKEVIST
FOTOGRAFIA:
ALDO TONTI, EM CORES
MÚSICA:
MARIO NASCIMBENE
METRAGEM:
135 MINUTOS
ELENCO
ANTHONY
QUINN – BARRABÁS
SILVANA
MANGANO – RACHEL
Arthur
kennedy – pôncio Pilatos
Katy
jurado – sara
Harry
Andrews – Pedro, o apóstolo
Vittorio
gassman – sahak
Valentina
cortese – julia
Morgan wooland – rufio
Jack palance – torvald
Ernest borgnine – Lucius
Arnold
foá – josé de arimatéia
Michael
gwynn – lázaro
Douglas
fowley – vasasio
Joe
Robinson – gladiador
Salvatore
borghese – gladiador
Roger
Browne – gladiador
Sharon
tate – patrícia romana na PLATEIA
Paola
pitagora – maria Madalena
Piero
pastore – nicodemus
Burt
nelson – escravo nas minas
Vanoye
aikens – escravo nas minas
Harold
bradley – gladiador
Alfio
Caltabiano – treinados dos gladiadores
Roy
mangano – jesus cristo
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