domingo, 2 de abril de 2017

Queimada (1969): Marlon Brando e o Conflito entre Colonizadores e Colonizados, em Fascinante Épico Didático dirigido por Gillo Pontecorvo.


Dez Anos podem ser suficientes para revelar as contradições de um século inteiro.

Esta frase é de Sir William Walker, protagonista interpretado por Marlon Brando (1924-2004) no alegórico e surpreendente QUEIMADA (Burn!), do cineasta italiano Gillo Pontecorvo (1919-2006). Sir Walker tem suas razões para pensar de tal forma ao longo da exibição deste fascinante épico didático, afinal, ninguém melhor do que o personagem para entender estas mesmas contradições.

O cineasta italiano Gillo Pontecorvo.
O diretor Gillo Pontecorvo e seu astro Marlon Brando, no set de QUEIMADA (1969).


Tudo começa em 1815 quando o agente inglês Sir William Walker (Brando) chega a ilha de Queimada (uma fictícia ilha na costa da Venezuela) como contratado do governo britânico. Na ilha, ele encontra uma população negra de 200.000 habitantes sendo espoliada a um regime de ferro e fogo por uma minoria branca de 5.000 colonizadores portugueses.  Walker foi enviado justamente como interventor com o objetivo de expulsar os portugueses da ilha, e tomar Queimada por meios menos violento quanto possível para satisfazer a Inglaterra. Uma vez enviado pela Coroa Britânica para acabar de vez com o domínio português dentro da ilha, Walker descobre resistência contra os opressores na liderança do negro José Dolores (Evaristo Márquez, 1939-2013). O agente inglês incentiva a capacidade e o talento de liderança de Dolores, e através dele fomenta uma revolta contra os colonizadores. Para derrotar os nativos, os portugueses queimaram a ilha de ponta a ponta, mas por fim, acabam sendo derrotados pelos colonizados.
Marlon Brando é Sir William Walker, um agente a serviço da Coroa Britânica.
Evaristo Márquez é José Dolores, lider da resistência contra os portugueses na ilha de Queimada.
Sir William Walker (Marlon Brando) reconhece o potencial de Dolores (Evaristo Márquez) na liderança para a independência da ilha.
Vitoriosa a revolução, com José Dolores no Poder, Queimada passa a ser independente.  Com o dever cumprido, Walker volta para a Inglaterra. Entretanto, tempos depois, Queimada passa a ser manobrada por uma empresa britânica importadora de cana de açúcar. Dez anos depois, em 1825, Sir William Walker retorna a Queimada, desta vez a serviço de uma companhia açucareira britânica, para liderar a opressão dos colonizadores ingleses contra a luta libertária de Jose Dolores, o mesmo homem que o agente inglês engendrou como herói na revolução da ilha. Walker terá que enfrentar seus antigos companheiros de luta de independência de Queimada, agora empenhados em combater o domínio econômico britânico que Walker agora se dispõe a servir. Para Dolores, a luta agora é contra a política econômica promovida pelos ingleses. Oscilando entre sua própria destruição moral e compulsiva e o arrependimento sufocante, a então força motriz representada até aquele momento por William Walker tem, por fim, sua verdadeira face corrompida e desmascarada.

Sir William Walker e seu amigo Teddy Sanchez (Renato Salvatori)
Sanchez e outros empreendedores interessados em manter o domínio econômico britânico na ilha...
mas para isso, recorrem a Sir William Walker, disposto a combater Jose Dolores e seus aliados. 
Segundo o diretor Pontecorvo, a trama é um processo de contradições, uma dialética irreprimível, tendo Walker um tipo pragmático que coloca sua lógica implacável na causa daqueles que podem renumera-lo bem, onde o outro lado não pode compreender a inevitabilidade desse processo. É José Dolores que resume nas suas ações e nos seus pensamentos o alegórico do jogo colonialista profundamente analisado em toda a fita. Um estudo realizado com análise rigorosa, clareza ideológica e exata comunicabilidade dramática, segundo o crítico brasileiro Paulo Perdigão.
Walker agora combate Dolores, o homem que um dia o engendrou como um herói.

William Walker, oscilando entre sua própria destruição moral e compulsiva e o arrependimento sufocante
Gillo Pontecorvo pensou em filmar seu épico político na Espanha com o título de Quemada (sem o “i”), pois a ação se desenrolava originalmente numa possessão espanhola. Durante sua montagem, ocorreram alguns problemas na Angola portuguesa e o cineasta alterou os títulos e os diálogos nativos, entretanto, as circunstâncias não alteraram o sentido político da trama. As filmagens foram feitas na Colômbia, Venezuela, e no Marrocos. Tal qual como fizera em um de seus mais prestigiados trabalhos, A Batalha da Argélia (La battaglia di Algeri, 1966), Pontecorvo como bem dizia, combinava aventuras românticas somadas ao cinema de ideias, na certeza que a política não implicava necessariamente em aversão ao glamour do espetáculo e nem excluía a necessidade de uma linguagem dramática mais convencional. 



William Walker na caça a Jose Dolores
Capturado, Dolores, seguindo sua integridade, não aceita as gentilezas de Walker.
Pode-se objetar em nossos dias ao revisitar hoje esta obra prima quanto à esquematização dos elementos em conflito – os brancos excessivamente vilanescos e os negros sempre simpáticos – mas Pontecorvo sabia que para estampar uma tese política sem subterfúgios e nem exclamações panfletárias, os argumentos devem ser revestidos de definição didática.  A menos que se queira endereçar a uma minoria de indiciados uma película que, na verdade, eles nem teriam necessidade de assistir, Queimada é modelo de cinema político. Durante as filmagens, Brando e Pontecorvo se desentenderam por diversas vezes, atrasando por meses a produção.  O ator (em seu 25º filme), se queixava do calor da Venezuela, da incomodidade, e por duas vezes abandonou o set sem deixar endereço. Precisou do pessoal da equipe técnica para ir até o aeroporto de Maiquetia brandindo cartazes com dizeres Volte, Marlon, para que o ator terminasse as filmagens.


Brando e Evaristo Márquez: duelo no campo das interpretações.
QUEIMADA demonstra de forma objetiva e brilhante que é possível se fazer cinema político sem que se apele para o panfleto inócuo, evitando improvisações ingênuas e inconsequentes. Com clareza ideológica, sentido do espetáculo épico e comunicativo, Gillo Pontecorvo fez um inventário alegórico do jogo colonialista através da História. Alguns críticos podem classificar um dos pontos altos do filme como um grave defeito: o esquematismo de uma estrutura altamente informativa, mas às vezes, simplista, como se o conflito entre os colonizadores e os colonizados fosse uma luta entre o bem e o mal. Brando e o ator colombiano (já falecido) Evaristo Márquez, respectivamente colonizador e colonizado, se enfrentam também no campo das interpretações, sendo que o último, mesmo sem experiência cinematográfica (só fez mais quatro filmes no início dos anos 1970) consegue por vezes uma dimensão muito mais trágica que a do próprio experiente intérprete de O Selvagem (The Wild One, 1953) e O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972). Destaque para a trilha sonora de Ennio Morricone, e pela fotografia de Giuseppe Ruzzolini e Marcello Gatti (1924-2013). 

Gillo Pontecorvo e Marlon Brando: discussões durante as filmagens.



Queimada foi exibido nos cinemas brasileiros em maio de 1971, depois foi proibido pela censura durante dez anos. Em 1983 foi exibido pela primeira vez na TV.


Divulgação do filme nos jornais cariocas.
FICHA TÉCNICA

QUEIMADA
(BURN!)

Ano de Produção: 1969
Direção: Gillo Pontecorvo
País: Itália – França
Gênero: Épico Político/Revolução
Roteiro: Franco Solinas, e Giorgio Arlorio, baseado em história de Gillo Pontecorvo.
Produção: Alberto Grimaldi, para United Artists
Música: Ennio Morricone
Fotografia: Marcello Gatti e Giuseppe Ruzzolini, em Cores.
Metragem: 108 minutos (edição em DVD) – 132 minutos (versão restaurada).

 
Elenco

Marlon Brando – Sir William Walker
Evaristo Márquez – Jose Dolores
Renato Salvatori – Teddy Sanchez
Dana Ghia – Francesca
Valeria Ferran Wanani – Guarina
Giampiero Albertini – Henry Thompson
Carlo Palmucci – Jack
    Norman Hill- Shelton
Turam Quibo- Juanito
Álvaro Medrano – Soldie
Alejandro Obregón – Major
Produção e Pesquisa
PAULO TELLES

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