sábado, 7 de outubro de 2017

Pacto de Sangue (1944): O Envolvente Poder de Manipular da “Femme Fatale” Barbara Stanwyck, em Absoluto Clássico de Billy Wilder.


Realizado há mais de 70 anos, PACTO DE SANGUE (Double Indemnity), do diretor Billy Wilder (1906-2002) se consagra entre os maiores filmes de todos os tempos. Em 1940, a Paramount comprou para o cineasta o romance original de James M. Cain (1892-1977) por 15 mil dólares, entretanto, Wilder não pôde contar com seu colaborador habitual Charles Brackett para redigir o roteiro. Wilder tentou com o próprio Cain, mas este estava de contrato com a Fox, fazendo argumento para o western Os Conquistadores (Western Union, 1941) de Fritz Lang.  Três anos depois, o produtor Joseph Sistron (1912-1966) sugeriu a Wilder um escritor de histórias de detetive relativamente desconhecido até então, Raymond Chandler (1888-1959).

O cineasta Billy Wilder.
O escritor Raymond Chandler
Wilder nunca tinha ouvido falar de Chandler, mas Sistrom lhe deu um exemplar do romance The Big Sleep, publicado quatro anos antes. O cineasta gostou do que leu e se surpreendeu quando descobriu que o escritor morava próximo a ele em West Hollywood. Mas Chandler era um homem estranho e cheio de manias, que havia abandonado o álcool. Quando chamado a Paramount para uma conferência sobre a trama, confessou que nem sabia onde era o estúdio. Depois veio o desastroso encontro entre ele e o diretor. Os dois não se simpatizaram. Wilder avisou ao escritor, de forma truculenta, que ele teria que ganhar 150 dólares por semana para fazer o roteiro. Joe Sistrom disse a Chandler que a Paramount tinha pensado em lhe pagar 750 dólares semanais.

Raymond Chandler e Billy Wilder: tensão entre o escritor e o cineasta ao longo de quatro meses que escreveram juntos o roteiro para PACTO DE SANGUE (1944).
Chandler avisou que nunca havia escrito nada para cinema e que pudesse precisar de três a quatro semanas para terminar o roteiro. Wilder estava habituado a gastar meses nesses projetos, e ofereceu ao escritor um modelo de seus scripts, esperando que Chandler pudesse se basear para fazer o roteiro de PACTO DE SANGUE. O escritor voltou um mês depois cheio de impressionantes instruções técnicas, com enquadramentos para close-ups.  Wilder não gostou nem um pouco, mas convidou Chandler a escrever a trama junto com ele em seu escritório.  Ao longo de quatro meses em que foi feito o script para PACTO DE SANGUE, foi torturante para o cineasta ter que trabalhar com Raymond Chandler, que fazia pouco caso dele. Wilder respeitava seu talento, mas exigia respeito em troca, e era o diretor que entendia sobre escrever de cinema. Se Chandler reclamava com amigos que trabalhar com o cineasta encurtou sua vida, da mesma forma Wilder dizia que trabalhar com o escritor o fez envelhecer cinco anos. A tensão entre os dois  fez com que o antes abstinente ao álcool Chandler retornasse ao uísque. 

Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, e Edward G. Robinson, os astros de PACTO DE SANGUE (1944).
Fora as desavenças entre o cineasta e Chandler, o fato que as plateias foram beneficiadas com uma excitante obra prima absoluta da quintessência cinematográfica. PACTO DE SANGUE consegue impactar, prender, arrepiar, e intrigar até os dias atuais. Afinal, não é de hoje que a florada de crimes pode ser liderada por femme fatales ou sex appeals, cuja força e poder de manipulação são imensamente investidos. A maneira mais ou menos original de contar a história, cujo criminoso é conhecido nas primeiras cenas, e o incontestável valor cinematográfico de seu diretor e de seus intérpretes principais – Fred MacMurray (1908-1991), Barbara Stanwyck (1907-1990), e Edward G. Robinson (1893-1973) – fazem deste thriller, um dos mais populares filmes criminais de toda a história. 

Fred MacMurray é Walter Neff, um simpático vendedor de seguros, seduzido por uma bela cliente...
Phyllis Dietrichson, vivida por Barbara Stanwyck.
Walter e Phyllis se unem para concretizar um plano macabro.
Melodrama, sim, ou talvez uma história de amor misturada com o crime, porém algo menos superficial, já que a trama se baseia em um crime ocorrido em março de 1927, em Nova York, cometido pela dona-de-casa Ruth Snyder e por seu amante, Judd Gray, um vendedor de 32 anos. Além do excelente roteiro de Wilder e Chandler, o elenco fez a diferença, com uma história de pessoas comuns, nem intelectuais, nem sofisticados, e nem granfinizantes. O filme se aproxima mais do espectador, com uma linguagem de fácil acesso ao público. 

Edward G. Robinson é Barton Keyes, um astuto investigador de seguros.
Keyes é chefe de Walter, e gosta do rapaz. Mas nem desconfia que por trás do então bom moço, tem um assassino...
seduzido e manipulado por uma bela mulher.
A trama versa sobre um simpático vendedor de seguros de Los Angeles, Walter Neff (MacMurray), que se envolve com a sedutora Phyllis Dietrichson (Stanwyck), que quer se livrar do marido milionário, Sr. Dietrichson (Tom Powers, 1890-1955) para poder receber apólice de seu seguro de vida. Não demora para que ambos tramem o assassinato do marido, no entanto, Neff se sente acuado pelo seu chefe e colega de trabalho Barton Keyes (G. Robinson), um veterano investigador de seguros capaz de farejar qualquer tipo de fraude dos clientes.



Walter e Phyllis sempre se encontram as escondidas para melhor execução do plano, seja em um supermercado ou no apartamento de Neff.
Assim como faria em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boullevard, 1950), Wilder conta a história a partir do fim. Depois de desiludido com Phyllis, esta é morta por Neff, que registra no gravador de Keyes uma confissão que servirá a partir daí como narração em off, no melhor estilo noir da Sétima Arte, caracterizado na arte sombria com temáticas direcionadas ao submundo.Teremos aqui o anti-herói endurecido e cínico atraído por uma mulher fatal para um terreno moralmente movediço. A predominância das cenas noturnas, em que as sombras são usadas de modo dramático e estilizadas, e o dinheiro e a libido como motores da ação, são pontos marcantes em PACTO DE SANGUE, onde há o contraste entre a ensolarada costa californiana e a caracterização sombria dos ambientes fechados, quase sempre com uma contraluz filtrada por persianas.

A caracterização sombria dos ambientes fechados com uma contraluz filtrada por persianas, como se vê nesta cena.
Após matarem o marido de Phyllis, ela e Neff precisar criar um álibi. Mas...
Keyes desconfia que a morte do Sr. Dietrichson não foi um acidente.
Fred MacMurray sem dúvida pegou o melhor papel de sua carreira e quase recusou depois que soube que George Raft e Alan Ladd não queriam desempenhar Walter Neff.  Barbara Stanwyck também quase recusou sua parte como a loura e fatal Phyllis, pois ao ler o roteiro ficou aterrorizada com o enredo. O final da trama chegou a ser alterada. Neff era condenado à câmera de gás numa prisão de Folson. Wilder voltou atrás e achou que este fim era bruto demais e sem sutileza, fora os 150.000 dólares investidos só para recriar a câmera de gás. Novamente, o diretor bateu de frente com Chandler, que não queria reescrever o final, mas a Paramount negociou com o escritor fora dos estúdios.

Finalmente, Keyes descobre que o assassino do Sr. Dietrichson era seu amigo Neff.
Vale transcrever que a cena final é antológica, quando se vê MacMurray ferido e sangrando muito, pedindo a Edward G. Robinson, o investigador da companhia de seguros que ao mesmo tempo também representava uma figura de autoridade paternal, que desse 24 horas a ele para atravessar a fronteira do México:

    - Vc não vai chegar nem no elevador – diz Robinson, acendendo o último cigarro para MacMurray.

MacMurray diz que Robinson não tinha conseguido desvendar o crime porque o assassino “estava muito perto, do outro lado da sua mesa”. Robinson replicou: “mais perto que isso”.

Barbara Stanwyck, em estilo de erotismo.
O erotismo também chega a ser ousado, quase opressivo (pelo menos, para a época), quando Phyllis, em sua primeira aparição, chega com uma toalha envolta do corpo.  Barbara Stanwyck, loura, esta mais linda, atraente, e fatal. Grande intérprete que era, conseguiu fazer muito bem uma personagem dúbia e perigosa, do tipo manipuladora, que todo homem odeia, mas não consegue se livrar. Pode-se dizer que com Stanwyck em PACTO DE SANGUE, a era das grandes fascinadoras e damas fatais chegou a seu auge, depois de Theda Bara e Marlene Dietrich, sendo ainda Barbara precursora de outras femme fatale do cinema moderno, como Sharon Stone e Angelina Jolie. 

Porter Hall no papel de uma testemunha que alega ter conversado com o Sr. Dietrichson antes de morrer.
Embora não tenha sido agraciado com nenhum Oscar, Pacto de Sangue recebeu sete indicações da Academia de Hollywood.  Perdeu os principais para o sentimental O Bom Pastor, de Leo McCarey. Na cerimônia de premiação, quando McCarey se encaminhava ao palco para receber a estatueta de Melhor Diretor, Wilder estendeu o pé à sua frente, fazendo o rival se estatelar de cara no chão. 

Presença do Corpo Policial, acompanhando as filmagens de PACTO DE SANGUE (1944).



FICHA TÉCNICA
PACTO DE SANGUE
(DOUBLE INDEMNITY)
País – Estados Unidos
Ano – 1944
Gênero - Criminal
Direção - Billy Wilder
Produção - Buddy G. DeSylva e  Joseph Sistrom,  para a PARAMOUNT
Roteiro – Billy Wilder e Raymond Chandler.
Fotografia -   John F. Seitz, em Preto & Branco
Figurino – Edith Head
Música – Miklos Rozsa

Metragem – 107 minutos


ELENCO
Barbara Stanwyck - Phyllis Dietrichson
Fred MacMurray  - Walter Neff
Edward G. Robinson  - Barton Keyes
Porter Hall - Sr. Jackson
Jean Heather - Lola Dietrichson
Tom Powers - Sr. Dietrichson
Byron Barr - Nino Zachetti
Richard Gaines - Edward S. Norton Jr.
Fortunio Bonanova - Sam Garlopis
John Philliber - Joe Peters
Douglas Spencer - Lou Schwartz
Edmund Cobb - Condutor do trem
Betty Farrington - Nettie, empregada dos Dietrichson
Bess Flowers - Secretária de Norton
Miriam Franklin - Secretária de Keyes
Sam McDaniel -  Charlie

PAULO TELLES
Produção e Pesquisa.

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