domingo, 16 de abril de 2017

Rei dos Reis (1961): Nicholas Ray e Seu Evangelho Cênico, Hierático, Político, Grave, e Comovente.


Em 1961, Nicholas Ray (1911-1979) juntamente com o produtor Samuel Bronston (1908-1994) realizou uma das obras mais importantes da Vida de Jesus Cristo, um tributo à iconografia cristã – REI DOS REIS (King Of Kings, 1961). Nestes dias que se sucederam a Semana Santa e a Páscoa, O Cineteatro São Luiz de Fortaleza preparou um programa especial onde foram exibidas películas com temáticas da Vida e Paixão de Cristo, onde a obra de Nicholas Ray esteve entre o centro das atenções, ao lado de O Evangelho Segundo São Mateus (de 1964, de Pier Paolo Pasolini) e A Paixão de Cristo (2004, de Mel Gibson). 


O Produtor Samuel Bronston
Quando o cinema colorido passou a seduzir o público, dois poderosos estúdios queriam filmar a Vida de Cristo. A 20ªth Century Fox, ainda em 1959, esboçou os primeiros planos para The Greatest Story Ever Told (A Maior História de Todos os Tempos), que seria produzido por Spyros Skouras (1893-1971), chefe do estúdio. Mas a Metro Goldwyn Mayer, através de um acordo com o produtor Samuel Bronston, também demonstrou interesse em filmar sua versão sobre a saga de Cristo, Rei dos Reis. Skouras esperava que o rival iniciasse as filmagens de acordo com seu cronograma, contudo Bronston não esperou e deu logo início aos trabalhos, desagradando de tal modo o chefe da Fox, que este acabou se demitindo da Associação Cinematográfica. Em contrapartida, Samuel Bronston declarou:

- Pouco me importa como ele vai rodar o seu filme. Quanto mais filmes sobre a Vida de Jesus houver, melhor será. Mas em modéstia parte, penso que nenhum deles superará o meu. Será um grande espetáculo. Skouras até me ofereceu um milhão de dólares para desistir das filmagens. Nem respondi, só ri apenas. 

A 20ªth Century Fox vendeu os direitos de filmagem para United Artists, e esta lançou A Maior História de Todos os Tempos (The Greatest Story Ever Told) só em 1965, com direção e produção de George Stevens, reunindo um grande elenco de astros e estrelas com base nos textos sagrados e no livro de Fulton Oursler. 


O Diretor Nicholas Ray
O primeiro passo do produtor Samuel Bronston para a realização de sua obra épica e bíblica sobre Cristo era achar um diretor de renome que pudesse levar sua produção com todo requinte de grandeza e majestade, e optou por Nicholas Ray, que muito embora não fosse um cineasta tão aclamado pelo público americano, era ovacionado pelos críticos franceses. Para Mestres como Godard, Truffaut, Rohmer, Rivette e outros, Nicholas Ray era o exemplo definido de um auteur, isto é, um autor e gênio admirável, e primoroso exemplo de um artista, cuja inteligência patente, intensidade de sentimento, e puro amor ao cinema asseguravam que a sua assinatura criativa podia ser viva e facilmente percebida entre toda a tralha constituída pelo cinema comercial norte-americano. E muito embora Sam Bronston quisesse realizar sua película sobre a Vida e a Paixão de Jesus Cristo na Espanha, onde possuía seus monumentais estúdios em Las Rozas, perto de Madrid, ele foi o pioneiro na prática de introduzir em grande escala produções cinematográficas em terras espanholas a fim de reduzir enormes custos.


Samuel Bronston e Nicholas Ray, unidos para realizarem REI DOS REIS (1961)
Ray é conhecido por ser um artista “marginal”, e obras eternas de sua filmografia como Amarga Esperança (1949), Cinzas que Queimam (1951), No Silêncio da Noite (1951), e Juventude Tranviada (1956), retratam protagonistas que sofrem por algo em nome de um ideal qualquer, mas vão até o fim das consequências para impor suas convicções.  Seria o caso de Jesus Cristo a ser retratado na produção de Samuel Bronston, onde se esperaria do renomado diretor a figura de um Redentor a base de “Sangue, Suor, e Lágrimas”. 

Nick Ray dirigindo Frank Thring (Herodes Antipas) e Rita Gam (Herodiades) em REI DOS REIS (1961)
Nick Ray e supervisores de Samuel Bronston coordenando a cena da "Última Ceia" para REI DOS REIS (1961)
Nicholas Ray e Rita Gam durante intervalo das filmagens.
Ray se viu diante de vários desafios: o primeiro deles estava ligado à própria essência do filme: afinal de contas, como retratar a Vida de Jesus Cristo, figura central de toda a cultura ocidental? Em segundo lugar, havia o fato de que muitos de seus primeiros trabalhos eram assumidamente independentes e de baixo orçamento. Pela primeira vez em sua carreira, o cineasta era chamado para dirigir uma produção em escala épica e grandiosa. Sem muito poder de negociação, o diretor encarou o projeto, e ao encarar, Ray talvez nem se desse conta que a figura do Redentor era extremamente coerente com os demais personagens que despontam em sua brilhante filmografia. Tal e qual os protagonistas de Cinzas que Queimam, No Silêncio da Noite e Juventude Transviada, Jesus também não deixava de ser um iconoclasta, uma pessoa inconformada e solitária, e que lutava contra uma sensação de inadequação com a ordem estabelecida e a hipocrisia do meio social.


O Roteirista Philip Yordan
Nicholas Ray, juntamente com o presidente da Metro Joseph Vogel, Samuel Bronston, e uma terceira pessoa não identificada, em conversa com uma autoridade da Igreja Católica para dar sugestões sobre a produção de REI DOS REIS (1961)
Mas para levantar toda a produção, o trabalho deveria ser começado imediatamente. As filmagens tiveram início na Espanha. Não contente apenas de se inspirar nas pesquisas dos maiores estudiosos sobre o tema, Nick Ray e Samuel Bronston partiram para Roma, onde foram recebidos no Vaticano pelo Papa João XXIII (1881-1963), ao qual pediram sugestões a Sua Santidade para a coordenação e distribuição de cenas. Além disso, Ray escalou seu colaborador e amigo de anos, o competente escritor Philip Yordan (1913-2004) para a elaboração do script, que enfileira os principais episódios do Evangelho, segundo uma postura cênica, hierática, e comovedora, como se espera de um filme que retrata a Vida de Jesus. Yordan tratou da encenação ajustando a figura de Cristo ao seu verdadeiro ambiente, tentando respeitar lugares e acontecimentos históricos, e, sobretudo, o cenário político da época. Yordan já havia redigido um roteiro em 1954 para Nicholas Ray, o clássico Johnny Guitar.


A Ocupação Romana pelo General Pompeu (Conrado San Martin)
Herodes, o Grande (Gregoire Aslan), Rei da Judeia, que tentará impedir a vinda de outro Rei.
Assim, ao contrário do que geralmente ocorre em outras versões da Paixão, Rei dos Reis inicia sua narrativa 63 anos antes do nascimento de Jesus, quando os romanos sob as ordens do General Pompeu (Conrado San Martin) invadem Jerusalém e conquistam o território. Por meio de um prólogo, narrado brilhantemente por Orson Welles (1915-1985), vemos a tomada da Judéia pelo exército romano e a nomeação do Rei Herodes (Gregoire Aslan) como uma espécie de interventor local. Inicia-se a perseguição ao povo judeu, que resiste com a crença de que a salvação está na vinda do Messias.




I-           ICONOGRAFIA CRISTÃ- A ESCOLHA DE JEFFREY HUNTER.

Outro grande avanço para o seguimento da produção foi a busca do ator para personificar Jesus de Nazaré. Samuel Bronston não tinha a mínima ideia quem poderia ser o ator capaz de conseguir aura de bondade e energia necessária para interpretar Cristo. Nicholas Ray considerou Keith Mitchell, Peter Cushing, ou Christopher Plummer, este mais em cota devido a sua excelente atuação em Jornada Tétrica, filme que Ray dirigiu em 1958. Nenhum dos três chegou a um acordo com o cineasta e o produtor. Ray também manifestou interesse de contratar o sueco Max Von Sydow, mas o jovem ator já havia assumido compromisso com George Stevens para desempenhar o mesmo papel em A Maior História de Todos os Tempos, a ser lançado em 1965.



O diretor John Ford recomendou a Nicholas Ray um ator de 34 anos, que havia dirigido em três de seus grandes clássicos: Rastros de Ódio (1956), O Último Hurrah (1957), e Audazes e Malditos (1960). Ray o conhecia bem porque também dirigiu o mesmo ator em Quem Foi Jesse James, western que realizou em 1957. Era Jeffrey Hunter (1926-1969). Ray e Bronston aceitaram a ideia e Hunter, que tinha uma vida pessoal sem manchas, prontamente aceitou encarnar o grande líder da cristandade.  Dificilmente, algum perito em maquiagem faria com outro o mesmo que foi feito com Jeffrey Hunter, decerto o mais belo Cristo idealizado no cinema de acordo com a iconografia cristã – a apolínea beleza do astro de olhos azuis, mas com triste destino - Hunter morreu aos 43 anos, em 1969, ao cair de uma escada em sua casa. 


Jeffrey Hunter: A beleza do ator de olhos azuis e triste destino. Morreu aos 43 anos em 1969, ao cair de uma escada em sua casa.

Jeffrey Hunter: escolhido para ser o "Cristo" de Nicholas Ray em
REI DOS REIS (1961)
Entretanto, mesmo depois do ator personificar outros estilos de papéis, seja no cinema ou na televisão, Hunter ficou estigmatizado como Cristo, graças ao carisma inigualável a altura do personagem – sereno, humilde, mas, ao mesmo tempo, colocado acima dos mortais. Ele deu esta declaração a uma revista americana em março de 1962 a respeito de seu papel em Rei Dos Reis:

- Não compreendi totalmente minha responsabilidade até achar-me nas vestes de Jesus, subindo a montanha para a cena do sermão das bem-aventuranças. Para minha surpresa, muitos habitantes do vilarejo caíram de joelhos enquanto eu passava. Eles sabiam muito bem que eu era um mero ator, porém sentiram que, de alguma forma, eu era uma representação viva de uma figura que lhes era sagrada desde a infância. Eu não sabia o que fazer... foi aí que me conscientizei do que aceitara representar.



Jeff Hunter e suas declarações sobre seu sacro papel em REI DOS REIS (1961)
Senti minha responsabilidade crescer à medida que o filme prosseguia, e sinto-a ainda mesmo que o filme tenha terminado. Não creio, entretanto, que sou maior conhecedor de Cristo do que qualquer outra pessoa. Minha educação religiosa foi como a de qualquer criança americana. Conhecia a Bíblia, é claro, a história de Jesus era sagrada, mas nunca havia pensado muito sobre ele como Pessoa, de carne e sangue, como um homem que viveu neste mundo como nós vivemos, entre pessoas e em um tempo não diferente dos atuais. Ao estudar o script, e enquanto prosseguia minha pesquisa, comecei a compreender pela primeira vez o significado de Sua vida e o que os Seus ensinamentos trouxeram ao mundo.


Robert Ryan, o ator mais famoso do elenco, no papel de João Batista

II-            A BUSCA POR NOMES IMPORTANTES. 

Rei dos Reis era uma superprodução que Samuel Bronston queria nomes importantes no elenco. Nicholas Ray escalou um de seus atores prediletos, Robert Ryan (1909-1973) para interpretar João Batista. Ryan aceitou o papel e partiu para a Espanha, mesmo prestes a estrear nos Estados Unidos a peça Anthony & Cleopatra, onde contracenaria com Katharine Hepburn. Ryan chegou a comentar que ficou surpreso em receber o papel do profeta e santo que batizou Jesus no Rio Jordão, pois contava ganhar a parte de Judas Iscariotes pelo fato de desempenhar no cinema, em grande parte, figuras vilanescas.  


Nicholas Ray orientando Robert Ryan e Ron Randell durante as filmagens
Robert Ryan, ator para ninguém botar defeito, na pele de João Batista, arauto de Jesus. Ao fundo, o ator Antonio Mayans, como o jovem discípulo João.
Salomé (Brigid Bazlen) tenta seduzir São João Batista (Robert Ryan)
João Batista, batizando os penitentes para a vinda do Cristo.
Como homem íntegro, não podia recusar a oferta e o gentil convite do amigo e grande diretor. O ator recebeu cinquenta mil dólares por uma semana de trabalho e voltou novamente para os states para iniciar seus trabalhos na peça com Katie. Contudo, sua veneranda atuação deixou uma marca indelével no clássico de Ray, e suas cenas como João Batista ao lado de Herodes Antipas (Frank Thring), Herodiades (Rita Gam), e Salomé (Brigid Bazlen), se basearam na peça Salomé, de Oscar Wilde (1854-1900), visto que o comportamento da jovem princesa que pediu a cabeça de Batista numa bandeja de prata não é descrito nos Evangelhos.


No encalço do Batista, seu terrível inimigo, Herodes Antipas (Frank Thring), que mandará prende-lo.
No ergástulo do palácio de Antipas, o Batista ganha a amizade do centurião Lucius (Ron Randell).
Herodes Antipas (Frank Thring) e sua sobrinha e enteada, a princesa Salomé (Brigid Bazlen), em um envolvimento promíscuo.
O Procurador romano Pilatos (Hurd Hatfield) e sua esposa Cláudia Prócula (Viveca Lindfors).
Nick Ray ofereceu a James Mason o papel de Pôncio Pilatos. Mason havia atuado em um filme de Ray, Delírio de Loucura, em 1956. Entretanto, o sofisticado ator inglês recusou, e a parte foi para Hurd Hatfield (1917-1998). Hatfield era um ator nova-iorquino mais especializado no teatro no que no cinema, onde atuou como ator principal no clássico cinematográfico O Retrato de Dorian Gray, em 1945.


Ron Randell é o centurião Lucius, homem justo e de tendência humanitária.
Lucius e Pôncio Pilatos
Para viver o centurião Lucius, um personagem que faz alusão à figura bíblica conforme transcrita no Evangelho de Mateus (8-8), Nick Ray imaginou Richard Burton. Burton, que fez para Ray Amargo Triunfo (1957), declinou do convite pelo fato do papel se assemelhar muito com seu personagem de O Manto Sagrado (1953), fita de Henry Koster e que o ator galês não guardava boas lembranças, não sendo em nenhum momento um de seus filmes prediletos. O papel foi para o australiano Ron Randell (1918-2005), que chegou a fazer Cole Porter no musical Dá-me um Beijo, de George Sidney, em 1953. 


Siobhan Mckenna como a Virgem Maria
O ator alemão Gerard Tichy como José
Rita Gam é Herodiades, que pede a morte de João Batista.
Viveca Lindfors é Cláudia Prócula, esposa do Procurador Pôncio Pilatos...

que adere aos ensinamentos de Jesus em segredo.
Embora carecesse ainda de grandes nomes, Rei dos Reis foi laureado com grandes interpretações que merecem seus destaques: a Dama irlandesa do teatro Siobhán McKenna (1923-1986) como a Virgem Maria; o ator alemão muito conceituado na Europa Gerard Tichy (1920-1992) como José; O promissor Rip Torn esta entre seus grandes momentos, como Judas Iscariotes; A bela Rita Gam (1927-2016) no papel da Rainha Herodíades, esposa de Herodes Antipas e mãe de Salomé; o ator espanhol Antonio Mayans em início de carreira (creditado como Jose Antonio) no papel do discípulo João; Royal Dano (1922-1994), excelente ator, no papel do discípulo Pedro; a sueca Viveca Lindfors (1920-1995) no papel de Claudia Prócula, esposa de Pilatos, que ocultamente abraça os ensinamentos de Jesus.


Rip Torn em um show de interpretação, como Judas Iscariotes.
Royal Dano como Simão Pedro,  ao lado de Siobhan Mackenna e Carmen Sevilla.
Harry Guardino como Barrabás, elevado aqui como um líder da resistência contra a ocupação romana.
O brilhante Harry Guardino (1925-1995) no papel de Barrabás, aqui elevado pelo escritor Philip Yordan como um líder revolucionário pela libertação da Judeia; Brigid Bazlen (1944-1989), então celebrando seus 16 anos, interpreta Salomé, sendo a atriz mais jovem a desempenhar este papel; O australiano Frank Thring (1926-1994), que fizera Pilatos no clássico Ben-Hur (1959) de William Wyler, aqui desempenha Herodes Antipas; Guy Rolfe (1911-2003), ator costumeiramente vilanesco, como o Sumo Sacerdote Caifás; e a Estrela da Espanha, a atriz e cantora Carmen Sevilla, no papel de Maria Madalena (no filme, a personagem é alternada com a "mulher adúltera", embora sejam partes distintas nos evangelhos).


A dança de Salomé.
A coreógrafa Betty Utey, esposa de Nicholas Ray, orientando Brigid Bazlen para a cena da dança que determinará o martírio de João Batista. A atriz Brigid Bazlen (1944-1989) completava 16 anos quando fez o papel de Salomé.

A atriz e cantora espanhola Carmen Sevilla, no papel da pecadora Maria Madalena, personagem que alterna...
com a da "Mulher Adúltera" dos evangelhos
Outros nomes que merecem despontar são: Edric Connor (1913-1968) como o Mago Balthazar; Maurice Marsac (1915-2007) como Nicodemus;  Gregoire Aslan (1908-1982) como Herodes, O Grande; Conrado San Martin como o General Pompeu; Luiz Prendes (1913-1998) como Dimas, o bom ladrão; José Nieto (1903-1982) como o Mago Gaspar; Ruben Rojo (1922-1993) como o discípulo Mateus; e em pequenas mas importantes pontas, os espanhóis – Fernando Sancho (1916-1990) como o homem possuído pelo demônio, Félix de Pomés (1889-1969) como José de Arimatéia,  Aldo Sambrell (1931-2010) como um guarda do Sinédrio, e Frank Braña (1934–2012) como um soldado romano. 





Iii-            SIOBHAN MCKENNA E SUA "VIRGEM MARIA". 


Durante a produção e edição do filme, a atriz irlandesa Siobhan Mckenna chegou a declarar para a imprensa seu importante papel no filme bíblico de Nicholas Ray. Muito se comentou do fato dela investir sua carreira e seu tempo em um papel que pouquíssimas atrizes de seu tempo aceitariam em fazer, bem como o fato do ator principal, Jeffrey Hunter, ser escalado para Jesus Cristo, um ator costumeiramente a interpretar Cowboys nas telas, como pôde muito bem ser visto em Rastros de ódio (1956), Arma Para um Covarde (1957), e Quem Foi Jesse James? (1957), este último do próprio Nick Ray, onde Jeffrey interpreta o irmão mais velho de Jesse James (Robert Wagner), Frank James.


A Sagrada Família em fuga para o Egito.
Católica assumida e devota, Siobhan era desinteressada em estrelatos cinematográficos, e era considerada uma atriz de categoria e sensibilidade, contudo, ninguém esperou que ela pudesse se manifestar a respeito da sua ligação com o filme em andamento. Para ela, não seria possível que uma produção como Rei dos Reis, com cerca de oito milhões de dólares investidos, tenha sido inspirada por alguma coisa mais elevada e nobre do que simples lucros. Entretanto, depois Mckenna se demonstrou entusiasmada com o filme e com o papel da mãe de Jesus, e declarou:


-Quando me fizeram a proposta para interpretar a Virgem Maria, achei que era um papel perigoso pra qualquer atriz. Com efeito, achei mesmo que não era papel para ser interpretada. Mas li o roteiro e me senti completamente conquistada.


Maria encontrando seu filho Jesus depois do batismo no Rio Jordão (cena excluída no filme)
Mckenna falou sobre a polêmica provocada por grande parte da crítica de ter um Cowboy vivendo Cristo: 

- Muitas críticas têm sido feitas a esse filme pelo fato de que o ator que viverá Jesus Cristo é conhecido por suas “proezas de cowboy” em westerns. Acho, porém, que Jeffrey Hunter tem olhos que impressionam por sua sinceridade e estou certa de que todos vão se admirar com seu desempenho. Não creio, sem dúvida, que ele volte a aceitar papéis de “cowboy”.

Jeffrey Hunter e Siobhan Mckenna: boa interatividade durante a produção.
Mas a simpática atriz irlandesa estaria enganada, pois Hunter ainda faria filmes ao estilo. Com a carreira em declínio em Hollywood, Jeffrey ainda embarcaria para a Europa para estrelar alguns westerns spaghetti, como A Morte de Um Pistoleiro/Joaquim Murieta (1965), Face a Face com o Diabo (1967), Condenado a Forca (1967), e Super Colt 38 (1968). 




IV-            RESTRIÇÕES PARA O ELENCO:
PROIBIDA ENTREVISTAS COM O “CRISTO”.


A cautela para a publicidade de Rei dos Reis de Nick Ray se assemelhou muito ao estilo de Cecil B. DeMille, quando este ao dirigir o seu Rei dos Reis em 1927 , fez de tudo para proteger a imagem de seus atores principais, impondo clima de retiro religioso no set e até missas antes das filmagens. Chegou a incluir uma cláusula de contrato para seus astros onde proibia que se exibissem em público fumando, bebendo, ou dirigindo carros luxuosos. Além disso, DeMille fez questão de rodar a Paixão de Cristo na noite de Natal. Com Samuel Bronston e seu agente de publicidade, tais extremos não sucederam com tanta intensidade, mas havia determinação de que Jeffrey Hunter não concedesse entrevistas durante a produção. Assim foi dada uma nota através dos publicitários:

-Como se trata de um tema sagrado, proibimos entrevistas com Jeffrey Hunter. Não seria razoável fazer publicidade em torno dele. O papel que encarna não permite irreverências. Mas há muito assunto importante para explorar aqui para um jornalista. Maria Madalena, Pilatos, São João Batista – todos estarão a disposição para os repórteres, e também a atriz que desempenha a Virgem Maria. 


Jesus Cristo salvando a Mulher Adúltera (ou Madalena): Quem entre vós não tiverdes pecado, que atirai a primeira pedra - João, 8, 1-11
Para assegurar ainda mais a reputação do astro principal, o departamento de publicidade garantiu que Hunter, nas horas de folga das filmagens, se divertia com pesca submarina, golfe, tênis, judô, e equitação:

-Fizemos investigações sobre sua vida pregressa – informou Samuel Bronston – é um bom rapaz, de vida calma e feliz no casamento. Não permitimos que pessoas indesejáveis lhe falem mal. Nunca se sabe se é alguém do outro lado da Cortina-de-Ferro. Isto seria horrível!

Mas não somente Hunter recebeu ordens para que se comportasse bem fora das filmagens. Todo o elenco recebeu recomendações de maneira conveniente sob os mesmos padrões. Os divertimentos habituais de Hollywood não seriam bem vistos pelo público. Contudo, nem todos do elenco concordaram a esse respeito.


Carmen Sevilla se preparando para entrar em cena como Madalena
Siobhan Mckenna, a intérprete de Maria, disse:

- É claro que não sairei bêbada pelas ruas, eu nunca fiz isso! Mas creio que ninguém tem a ver com o que faço ou deixo de fazer depois de um dia de trabalho. Entretanto, não fumarei nos intervalos de filmagem, enquanto estiver com o figurino do meu personagem. 

Ron Randell, o intérprete do centurião romano Lucius, também foi da mesma opinião:

- Nos recomendaram que não nos mostrássemos em público com um copo de bebida na mão. Não creio que se deve viver como um monge só pelo fato de estarmos trabalhando em um filme religioso. 


Ron Randell como Lucius.
Por opção, Jeffrey Hunter decidiu ser mais cordato. Decidiu não dar entrevistas nem se deixar fotografar enquanto durasse o filme. O ator declarou:

- Aceitei este papel consciente do que ele representa com absoluta humildade e desejoso de acatar a orientação emocional e espiritual de meu diretor e dos conselheiros religiosos da produção. 


Publicidade para REI DOS REIS (1961)
As filmagens de Rei dos Reis, se iniciaram em fins de abril de 1960, com o investimento inicial de seis milhões de dólares, e desde então, a Metro Goldwyn Mayer resolveu fazer a distribuição do filme. Até o último mês de filmagem, ocorrido em outubro do mesmo ano, o orçamento atingiu oito milhões de dólares. A Metro exigiu que se desse um cunho mais espetacular ao filme, bem ao estilo Ben-Hur (1959), uma das gloriosas conquistas do estúdio da “Marca do Leão”, acrescentando novas cenas, o que pode ter motivado ainda mais o aumento do orçamento.




V-            O SERMÃO DA MONTANHA. 

Para a produção de Rei dos Reis, as paisagens desérticas da Espanha foram escolhidas não somente porque os estúdios de Samuel Bronston são vizinhos a elas, mas porque muitos dos locais, entre pequenas aldeias e montanhas, lembravam a Palestina de 2000 anos, e pareciam reproduzir cenários adequados para o filme.  Cerca de 326 cenários foram construídos nos estúdios e ao ar livre. O conjunto do set e dos vestuários ficou a cargo de Georges Wakhévitch (1907–1984). 


Jeffrey Hunter como Jesus Cristo, ancorando o climax maximus do espetáculo sacro de Nicholas Ray: O SERMÃO DA MONTANHA.
Se Quiserdes me seguir, vá, vendas tudo que tem e dê o dinheiro aos pobres. Depois vens e me sigas. - Passagem de Mateus, 19-21 inclusa no "Sermão da Montanha", que acabou sendo excluída pela Metro.

O Jesus doce e terno na oração do Pai Nosso.
O Jesus severo que recrimina a hipocrisia e as injustiças.
Figurantes locais, na maioria, humildes devotos católicos, que fizeram muita diferença para a rodagem da sequencia...
onde Jeffrey Hunter soube dar vida ao papel de Jesus Cristo.
A cidade de Nazaré foi reconstituída em Manzanares, e um rio próximo de Andrea Del Fresno serviu para representar o Rio Jordão, onde João Batista batizou Jesus. Mas para a cena ao ar livre considerada o Climax Maximus do filme, "O Sermão da Montanha", foram utilizados 7.000 figurantes, a grande maioria, moradores e trabalhadores locais, muitos deles, católicos humildes e praticantes, que acompanharam Jeffrey Hunter na descida da montanha. Para a realização desta sublime sequencia, foram construídos cerca de 60 metros de trilhos ao longo das encostas. A cena, talvez o “sermão” mais espetacular de todas as fitas que tem como tema a Vida de Jesus, foi rodada em três dias. Ao longo da projeção, o "Sermão da Montanha" de Rei dos Reis leva apenas quinze minutos.


Jesus conversando com sua mãe e Madalena (e os discípulos em descanso) antes de partirem para Jerusalém (cena excluída)

vI-            A CENTELHA DA POLÊMICA

Grandes superproduções que recontam a Vida de Cristo sempre geram polêmicas, e com Rei dos Reis não foi exceção. Alguns críticos malharam o filme, bem como alguns fundamentalistas religiosos que acusaram Nicholas Ray de dar maior destaque ao enfoque político do que mostrar o Messias em sua missão na Terra, onde deveria contar mais sobre seus milagres e de seus ensinamentos. Philip Yordan, o roteirista, sempre foi um intelectual politizado, e viu necessidade de fazer compreender os dias agitados da Judeia aos tempos de Jesus sob o jugo romano. Para Yordan e Ray, havia dois poderes paralelos: o de Jesus, que significava o bem, o amor, a tolerância, o perdão, e a paz - que veio ao mundo para ensinar a todos o caminho da felicidade através de Deus e romper os grilhões do egoísmo e do ódio; do outro, estava Barrabás, uma espécie de Messias da Guerra, que acreditava que só com o poder da força e das armas, do ódio e da matança, era possível conseguir a liberdade e liquidar de vez com os opressores. No entanto, os romanos sabem que o convencimento e a persuasão de Jesus parecem ser muito mais devastadores do que as rebeliões promovidas por Barrabás. Não é à toa, portanto, que, ao final, eles não se importam muito em soltar o líder da resistência contra Roma em troca da prisão de Jesus. Nessa sequencia, Rei dos Reis se aproxima mais de um filme político do que religioso.


Herodes Antipas, e ao fundo sua esposa Herodiades e Prócula, esposa de Pilatos.
Barrabás (Harry Guardino) e Judas Iscariotes (Rip Torn), durante o "Sermão da Montanha".
Judas entrega seu Mestre, não por 30 moedas de prata, mas para colocar o Filho de Deus a prova,  para que seu mestre, com o "aceno de um braço",  derrube o Poder de Roma.
O Ósculo da Traição.
Tais paralelos são vistas sob a ótica de Judas Iscariotes (atuação soberba de Rip Torn), um discípulo alucinado pela figura do Redentor, que compara Jesus e Barrabás como as mãos direita e esquerda de um mesmo corpo, ou seja, de um mesmo objetivo. Para Iscariotes, que fora parceiro de Barrabás na luta contra a opressão romana (segundo roteiro de Yordan), tanto ele quanto Jesus poderia derrubar o Poder de César. Aliás, a imagem de Judas Iscariotes retratada por Nicholas Ray também é das mais analisadas. Ao invés das encenações pictóricas costumeiras de um Judas movido pela ganância, um ser inescrupuloso que só pensava em dinheiro e que vendeu seu mestre por 30 moedas de prata por avidez e cobiça - no trabalho de Yordan e Ray o traidor de Cristo é visto como um sonhador além dos limites e que vê em Jesus grandes expectativas da Judeia se ver livre de Roma, já que ele tinha o “poder de fazer milagres”. Entretanto, o que o Judas de Nicholas Ray não entendeu, é que o Homem de Nazaré queria promover não um exército para destruir os romanos, mas uma reforma espiritual no homem. Sem sequer mencionar as famosas 30 moedas de prata, assim mesmo Judas entrega Jesus para os sumos sacerdotes e para romanos, acreditando que testaria e provaria para sempre a força divina do Cristo, que derrubaria todo o império dos Césares (representado por Pilatos) e de Herodes Antipas com o “aceno de um braço”. Vendo que as coisas não aconteciam do jeito que previu, ao assistir Jesus sendo açoitado e carregando a cruz a caminho do Gólghota, não foi apenas o remorso que o abateu, mas a decepção para o traidor foi ainda maior. Motivado pela desilusão de um Messias Libertador, Judas se enforcou.


Ecce Homo!

O desespero de Judas, quando vê "seu mundo cair". Arrependimento seguido de desilusão.


Barrabás lidera o ataque a Fortaleza Antonia em plena vinda de Jesus à Jerusalém.
O retrato de Barrabás (Harry Guardino em grande estilo) traçado em Rei dos Reis é de um líder nacionalista que luta contra a ocupação romana, astuto, inteligente, e rebelde. Ele é mais entendedor do que Judas quanto ao objetivo da missão de Jesus, e sabe muito bem que seus métodos e os do Nazareno não combinam. Um grande estrategista que escolhe o Domingo de Ramos, a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, para ele e seus homens atacarem a Fortaleza Antonia, quartel general dos romanos. Enquanto Jesus prega a paz no templo, Barrabás promove a guerra, acabando por pagar um preço muito alto pela ousadia. Um momento concebível de forma criativa por Philip Yordan.


Os romanos, em maior número, massacram os rebeldes judeus. Barrabás é capturado e preso.
Pilatos manda açoitar Jesus
O Sumo Sacerdore Caifás (Guy Rolfe), também interessado em prender Jesus.
Cláudia Prócula questiona Pilatos quais os crimes que o Homem de Nazaré pudesse ter cometido para merecer ser açoitado.
A figura de Pôncio Pilatos também é tratada de forma diferenciada, porém autêntica conforme os registros históricos de Tácito e Flávio Josefo. Não veremos em Rei dos Reis um procurador romano bobo a lavar as mãos para se desvencilhar da culpa pela morte de Jesus. O Pilatos vivido de modo soberbo por Hurd Hatfield se aproxima muito mais da realidade histórica do que a versão promovida pelos próprios evangelistas. Segundo Flavio Josefo, Pilatos teria entrado em Jerusalém portando a efigie do imperador, chegando até mesmo a colocar nas pilastras de cada sinagoga a imagem de César, causando grande escândalo e tumulto entre os judeus que eram contrários a exposição de imagens, fato este reproduzido fielmente na obra de Nicholas Ray.


Lucius e Pilatos durante o julgamento de Jesus
A Efígie de César.
João Batista protesta contra as efigies de César penduradas nos templos dos judeus.
O julgamento de Jesus por Pilatos também é algo incomum. De acordo com os Evangelhos, Jesus é conduzido perante Pilatos pelos sacerdotes judeus depois de uma audiência na casa do Sumo Sacerdote Caifás. O julgamento por Caifás é apenas mencionado e não se vê os líderes religiosos judeus tentando colocar Jesus contra a parede como habitualmente se encontra nos textos sagrados, um artifício que, provavelmente, Nicholas Ray evitou reproduzir em seu filme, talvez para evitar confrontos com a comunidade judaica. Na opinião de Philip Yordan, a culpabilidade pela condenação e morte de Cristo seria do Império Romano. O julgamento em praça pública que condenou Jesus e deu liberdade a Barrabás também é algo apenas mencionado por Lucius para o líder rebelde, quando o visita na cela para comunicar que foi libertado pelo povo, que condenou Jesus a crucificação.


Lucius comunica a Barrabás que foi solto no lugar de Jesus.
A Virgem Maria de Nicholas Ray.
A Natividade.
A agonia da mãe de Jesus, ao assistir seu filho morrer na cruz
A imagem de Maria na obra de Ray parece se dirigir ao espectador católico em particular.  Embora no filme não haja sequer a menção dos acontecimentos que antecederam ao nascimento de Jesus Cristo, como o anúncio do anjo Gabriel, ou a visita à sua prima Isabel (mãe de João Batista), ainda assim o filme direciona algumas importantes sequencias voltada para a Igreja Católica, visto que a mãe de Jesus esta bem presente ao longo de toda projeção - inclusive como mediadora, onde na sequencia em que Maria Madalena (Carmen Sevilla) vai à casa da Virgem Maria a procura de seu filho para que ele a perdoasse de seus pecados. Como Madalena não o encontrou, pede a mãe de Jesus que interceda por ela a seu favor. Com ternura, a Virgem Maria convida Madalena, a "Filha do Pecado", para entrar na casa e cear com ela, fazendo-a lembrar de uma das grandes parábolas do Redentor, conforme o Evangelho de São Lucas, 15: 3-7: Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente sobre os ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida. É onde o filme de Nicholas Ray se torna, indubitavelmente, uma obra hierática dentro de um contexto político e histórico.


A Eucaristia.
A "Última Ceia". Jesus revela o traidor.
O Cristo a caminho do Gólghota.
Estas e outras observações acerca da obra de Nicholas Ray foram malhadas por críticos e por entidades cristãs acostumadas a versões adocicadas dos Evangelhos. Críticos maldosos e arredios ao trabalho do diretor – caloroso defensor da juventude desajustada – crismaram o filme com o título “I Was a teenage Jesus” (“Eu fui um Jesus adolescente”), possivelmente comparando Jeffrey Hunter ao Rebelde Sem Causa de James Dean em Juventude Transviada, trabalho do cineasta de 1956. Outros afirmam que o “apelido” ao filme se deveu ao fato de por um ator com “cara de menino” para o papel de Cristo. De fato, Jeffrey Hunter tinha 34 anos quando começaram as filmagens (um ano a menos a presumível idade que se acredita quando Jesus morreu), mas parecia mais jovial, tendo em vista que as plateias de cinema se acostumaram a ver atores mais maduros retratando Jesus. 


Pôncio Pilatos e sua esposa Cláudia Prócula.
Lucius acalmando Cláudia que se desespera ao ver pela Fortaleza Antonia os corpos massacrados dos rebeldes judeus (cena excluída)


Cláudia Prócula e Lúcius: afinidade entre os personagens, que parecem aderir aos princípios de Jesus de Nazaré.
A Metro mexeu na edição final do filme. Os 190 minutos previstos para o espetáculo foram reduzidos para 168, cortando inclusive trechos adicionais do Sermão da Montanhae a possível relação amorosa de Lucius com Claudia Prócula, mulher de Pilatos. Mesmo na metragem apresentada, esta situação é bem perceptível devido a afinidade entre os dois personagens, contudo, sem maiores evidências. 




VII-            Solene mensagem de amor e fraternidade

Apesar da temática política do filme, e das interferências de Samuel Bronston ao trabalho de Nicholas Ray - Rei dos Reis nos oferece belos momentos de amor e fé através das mensagens solenes de Cristo. Do ponto de vista cinematográfico, o filme tem vários achados visuais. Ray se mostra um mestre no uso do Super-Technirama 70mm.  A tela larga dá condições ao diretor de dispor seus atores dentro do quadro de uma forma que funciona tanto de forma plástica quanto dramática. Em várias passagens, Ray filma determinado personagem em primeiro plano enquanto transmite outras informações no plano do fundo, ambos em foco. Como, por exemplo, a cena da prisão de Jesus, quando depois de orar no Horto das Oliveiras, no Jardim do Getsêmani, o Redentor avista Judas chegar com os guardas do Sumo Sacerdote. Num único plano, Ray enquadra o rosto do Nazareno, prestes a receber o ósculo da traição, ficando em primeiro plano. Os discípulos – em segundo plano - ficam atrás do Mestre, desesperados e prontos para fugir. Outro plano a observar é a morte do Rei Herodes, O Grande, que se inicia com o personagem tentando se agarrar nos véus brancos e se encerra com a câmera situada acima do trono, no qual já se vê a figura do seu filho Antipas.

Os Três Reis Magos: Gaspar (José Nieto), Melchior (Adriano Rimoldi), e Balthazar (Edric Connor)
A morte de Herodes, O Grande (Gregoire Aslan), pelo filho usurpador, Herodes Antipas (Frank Thiring)
A Crucificação


As cenas do calvário e da crucificação são discretas e curtas, mas Nick Ray dá um toque de originalidade ao posicionar suas lentes acima da cruz quando esta é erguida (numa referência a pintura O Cristo de São João da Cruz, de Salvador Dali). Em Rei dos Reis, há o registro de dois milagres de Jesus (cura de um jovem paralítico e de um cego). Outras passagens famosas dos Evangelhos não são encenadas, mas apenas mencionadas pelo centurião Lucius num relatório lido para Pilatos, o que se faz crer que o Império Romano mantinha os passos de Jesus sob investigação. No relatório, é apontado o milagre da multiplicação dos pães, o caminhar de Jesus sobre as águas, e a ressurreição de Lázaro.


Uma das famosas estações da Via Crucis é reproduzida em REI DOS REIS: Verônica enxuga o rosto de Jesus.
As comparações do enquadramento da câmera acima da cruz com o quadro de Salvador Dali O Cristo de São João da Cruz, pintado pelo artista em 1951.
A Entrada Triunfal do REI DOS REIS em Jerusalém.
A fotografia foi realizada por Franz Planer (1894-1963), entretanto, durante as filmagens, ele sofreu insolação ao filmar o “Sermão da Montanha”, e não pôde prosseguir. Manuel Berenguer (1913-1999), e Milton R. Krasner (1904–1988) terminaram a tarefa. Planer faleceu dois anos depois e Rei dos Reis foi seu último trabalho. O filme faturou 8 milhões de dólares nas bilheterias, e certamente Samuel Bronston ainda confiava nos bons fados de sua megalomania e nem esperava que em três anos teve que fechar seus estúdios em Madrid, totalmente falido, ao cabo de diversas produções desastrosas no mercado. 


Como última mensagem aos discípulos, estes partirão em missão pelos confins do mundo para espalharem o Evangelho.
O Compositor Miklos Rozsa.

A trilha sonora, uma das grandes essências do filme, foi composta pelo Mestre Miklos Rozsa (1907-1995) e chegou a ser indicada para o Globo de Ouro de 1961.
Rei dos Reis sem dúvida, é um esplendoroso monumento épico bíblico em seus 168 minutos de projeção, e mesmo passados mais de cinquenta anos de seu lançamento (no Rio de Janeiro, estreou nos cinemas em 12 de abril de 1962) ainda é incapaz de arranhar o fervor das plateias a santificada imagem de Cristo. Nicholas Ray confeccionou um Evangelho Cinematográfico para nenhuma religião botar defeito. Sua obra sacra promoveu um reverencioso tributo e maior respeito a Iconografia Cristã na Sétima Arte, estabelecida pela mesma desde que o pioneiro francês Lumiére realizou sua La Passion, em 1897.







As várias divulgações do filme em cartaz entre 1962 a 1964 pelos cinemas do Grande Rio em seus jornais.
FICHA TÉCNICA


REI DOS REIS
(KING OF KINGS)
País – Estados Unidos

Ano de Produção: 1961.

Gênero: Épico Religioso

Direção: Nicholas Ray

Produção: Samuel Bronston, para Metro Goldwyn Mayer

Roteiro: Philip Yordan

Coreografia para Salomé: Betty Utey

Fotografia: Franz Planer, Milton R. Krasner, Manuel Berenguer - Em Cores

Figurinos e Cenários: Georges Wakhévitch

Música: Miklos Rozsa

Metragem: 168 minutos



ELENCO:

   Jeffrey Hunter - Jesus de Nazaré

      Siobhan McKenna - Maria, mãe de Jesus

     Hurd Hatfield - Pôncio Pilatos

      Ron Randell – Lucius, O Centurião

       Viveca Lindfors - Cláudia Prócula

Rita Gam – Herodiades

    Carmen Sevilla- Maria Madalena

  Brigid Bazlen – Salomé

   Harry Guardino – Barrabás

   Rip Torn – Judas

    Frank Thring - Herodes Antipas

      Guy Rolfe – Sumo Sacerdote Caifás

  Royal Dano – Simão Pedro

    Robert Ryan - João Batista

     Edric Connor – Baltazar

       Maurice Marsac- Nicodemos

      Conrado San Martín - General Pompeu

    Gérard Tichy – José

     Rubén Rojo – Mateus

       Félix de Pomés - José de Arimatéia

         Rafael Luis Calvo - Simão de Cirene

         Barry Keegan – Gestas, O Mau ladrão

         Luis Prendes – Dimas, O Bom ladrão

        Antonio Mayans (Jose Antonio) - João, o jovem discípulo.

    Tino Barrero – André

     José Nieto – Gaspar

     Michael Wager – Tomás

     Adriano Rimoldi – Melquior

     Orson Welles - Narrador



Paulo telles
Produção e Pesquisa

4 comentários:

  1. Telles,

    Depois que assisti a O REI DOS REIS do Ray, todos os demais feitos dentro do gênero se desintegraram ante minhas preferencia e visão.

    Um dos grandes e principais méritos do filme é ele ser narrado quase que exatamente como a historia de Cristo que todos conhecemos. Isso foi o ponto fundamental, sem acrescentar grandes coisas mais porém, feito com classe, com profissionalismo e qualidades acima das médias.

    O Ray já começa impactando sua pelicula apresentando as fileiras romanas chegando para conoquistar Jesuralem, sob o comando do frio Pompei. Só ali já sentimos o impacto de em que meio Cisto viveria, afinal Roma sempre foi conquistadora.
    A politicagem que tanto bradam é que Roma sempre foi Roma e ali era tudo politica. O que não se podia de forma alguma ser excluido do melhor, mais belo e mais perfeito filme que o Ray, Nicholas Ray, criou. Ele o filmou exatamente como seus olhos e mente viam que tudo deveria ser do jeito que O REI DOS REIS foi feito. E o resultado de tudo ainda está aí, mesmo depois de 56 anos passados.

    O filme do Ray tem tantos pros sobre tantas coisas que se eu for enumerar 1 por 1 tomarei o mesmo espaço da postagem. Porém, o Ray com bom volume de dinheiro para fazer seu trabalho e sob quase alguma pressão, mostrou ao mundo e aos que ainda o criticavam, que ele tinha capacidade suficiente para realizareste O REI DOS REIS do qual falamos ora.

    No mais tudo ajudou o formidável diretor a fazer um filme como ele imaginava. Além do mais o Yordan fez um roteiro mais que perfeito. Todos os atores estiveram sem mácula.

    A fantástica musica do Rozca (ainda hoje ela é sempre posta no ar sempre em qualquer assunto biblico) que, inteligentemente, segue o filme do inicio ao fim, com enfase mais profundo nos momentos mais belos da pelicula. E não esquecer que ele havia feito aquela beleza de trilha para Ben Hur/59, O Rei Dos Reis/61 e ainda fez a bela trilha de El Cid/61.

    Não deixar de enlevar o papel do Lucius (Ron Randell) que segue a vida inteirinha de Jesus e o tira de apertos mais de uma vez, até sendo seu advogado anti Pilatos. Excelente performance deste ator meio desconhecido para mim. Sobre o Ryan nem precisamos dizer mais nada nem de mais qualquer outro ator.

    Mas, a beleza e a inteligencia utilizada no Sermão da Montanha é algo que se pode citar como uma das mais p´lindas e perfeiras cenas do cinema. E o Hunter está o Cristo mais bem caracterizado como o Jesus que vive em nossas mentes. Olhar morno e ao mesmo tempo cheio de expressões. Movimentos precisamente estudado para o Homem, falas, gestos e imposições acima da média de perfeito.

    No entanto, outra cena que nunca saiu de minha mente é quando Jesus vai ver João na prisão e o guarda vai até Lucius e dá o recado.
    --Mais um querendo ver João Batista.
    E lucios, que almoçava, olhou o guara e disse.
    -- Mande-o embora -- e o guarda responde:
    -- Ele não irá, quero dizer, não sei como mandar este embora.

    E a seguir ocorre outra das mais belas cenas do cinema encenada por Hunter e Ryan, com a musica do Rozca forte, em cima, valorizando o momento.

    O Ray pode ter tido sua grande oportunidade pelos poderosos o aceitarem na direção de tão
    grandioso projeto. Entretanto, este O REI DOS REIS jamais perderá este sabor, esta grandeza de cor, de tomadas, de mostrar um Judas como ninguém jamais imaginou, pois seus pensamentos era trair o Cristo mesmo, achando que Ele, preso, reagisse às suas idéias com as de Barrabás. Perdeu e se arrepenceu do que fez se matando.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir!

      Acho que o ponto que mais chama a atenção sobre REI DOS REIS é justamente a fita iniciar antes mesmo do nascimento de Jesus, algo que difere de outras versões da história sagrada, isto é, ao momento em que se sucedeu a conquista dos romanos na Palestina pelo General Pompeu quando estes invadem a Judeia.
      Realmente foi um trabalho desafiador para Ray, acostumado a fazer filmes de baixos orçamentos (contudo, todos eles clássicos reconhecidos pelos críticos), muito embora o tema religioso não era o estilo do diretor. Mas quem disse que William Wyler o tinha? Contudo conseguiu realizar o mais magistral de todos, que vc sabe qual é: BEN-HUR, em 1959. Se vc quiser, volte lá na matéria sobre o filme posto no blog ano passado (em 2 partes), que vc verá até mesmo uma declaração de Wyler, que admite a dificuldade de levar um estilo que era, em verdade, a cara de Cecil B. DeMille. Isto só prova que tanto Wyler quanto Ray conseguiram realizar um bom serviço com suas temáticas religiosas, cada um com sua obra.

      O roteiro é inteligente e bem articulado, mas infelizmente algo não deu certo, pois foi o corte de sua metragem. Por trás dos bastidores, o clima não foi dos melhores entre diretor, produtor, e roteirista. Evitei ao máximo de levar isso na matéria, mas vc já deve saber, visto que vc leu minha matéria sobre Samuel Bronston. Um homenzinho com manias de grandeza capaz mesmo de passar por cima até de seus colegas. Ray passou mal quando rodou seu último filme, 55 DIAS EM PEKING, e o cineasta ainda perdeu a amizade de Yordan, por conta das atrapalhadas de Bronston. O marcante comentário musical realmente até hoje é tocada em eventos religiosos ou mesmo como aberturas de programas de rádio ou fundos de mesmo tema. Nas Igrejas também tem o costume, em coros, de tocarem HOSANA, tema do filme REI DOS REIS, composto por um grande mestre das trilhas sonoras, Miklos Rozsa, que foi um grande alicerce dos “soundtracks” para o mundo da Sétima Arte.

      A Cena em que Jesus vai visitar João Batista no cárcere é mesmo emocionante. O fato do soldado “guara” como vc o bem definiu só demostrou que Jesus tinha a força de persuasão, não aceitando um “não” como resposta. A sequência vem a seguir, quando Jesus chega a cela de Batista, em uma atuação marcante entre Ryan e Hunter, este, com os olhos lacrimejando se notar.

      Rip Torn sem dúvida também fez a diferença. O roteiro de Yordan não foi infiel aos traços que religiosos ou historiadores tem de Judas. Há quem diga que foi por dinheiro, há quem diga que foi para tentar Jesus e mostrar para o mundo que seu Mestre, com o “Poder dos Milagres”, poderia libertar a judeia da opressão romana. “Sonhos de Judas”, como diria aqui o Barrabás de Harry Guardino, aqui elevado até com inteligência, como líder dos revolucionários.

      Abraços do editor!

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  2. Telles,

    Eu jamais me veria encerrado de coragem suficiente para administrar um blog. Não sei se teria a capacidade ou qualidade suficiente para mante-lo de pé pois, um trabalho tal qual o desta postagem, dentre outras que elogiei no momento, seria carga bastante para eu tentar apenas o lançamente de uma única matéria e parar por ali.

    O que vou citar não é força de expressão, mas sou fã incondicional de Nicholas Ray.
    Um trabalho vultuoso como este que lhe foi entregue, depois de outros trabalhos menores feitos por este, foi ponto de algumas reservas sobre o resultado final da criação.

    Ao cabo de tudo, de um memorável, duro e dificil trabalho, este genial diretor entrega para seus produtores e ao mundo esta magnificiencia de pelicula, onde o brilho se mostra presente em cada take, cada fala, cara paisagem, cada momento da maior e melhor fita que fala do tema Cristo. A fotografia e a trilha musical é um ponto a se notar do inicio ao fim de 168 minutos deste trabalho.

    Amealhar um elenco do porte deste, colocando em cada personagem a pessoa mais que perfeita, lhe doou, ao Ray, mais confiança de criar o filme que sua mente geniosa imaginava.
    Carmen Sevilha, que jamais a tinha visto e que aparece muito pouco ao longo da pelicula, deixou sua marca como atriz a tal ponto que, deste que vi esta fita pela vez peimeira em seu lançamento, jamais consegui esquecer seu nome.

    Enfim; do apostolo João à figura de Jesus Cristo, não existe macula, por menor que seja, que se pudesse crivar em quem ajudou a alinhavar esta beleza de fita.

    Teria muito ainda a falar, mas espaço e exaustão dos leitores corre o risco de ocorrer. Então resumo muito o que cito nesta minha 2a. incursão nesta postagem.

    Mas, não posso deixar aqui de ressaltar o papel desempenhado pela figura da Siobhan McKenna, face onde se olha e se vê a ilustração, quase que com clareza, da real Virgem Maria, embora sua face, como a de outros personagens, jamais se conheceu. Ela porém, tem a Virgindade no fitar, no falar, no se comportar como a Imaculada Mãe da figura mais falada no mundo, que foi Jesus Cristo.

    Como para toda a humanidade nem o próprio Jesus Cristo foi perfeito, a sensacional fita do Ray padece do mesmo mal. Entretanto, mal que não atinge as simpatias de cinéfilos de todo o mundo, que toma O Rei dos Reis como mais belo exemplar da cinematografia sobre parte da vida de Cristo.

    Não quero encerrar estas palavras sem dar especial expressão ao desempenho e importancia péssoal que o Lucios deixou graduado neste filme. O Ron Randell esteve acima de perfeito e presente em quase todos os momentos da fita do Ray.

    jurandir_lima@bol.com.br


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    Respostas
    1. Jurandir!

      Nicholas Ray esta entre meus cineastas favoritos, e não escondo isso, e muitas vezes, chego até ser suspeito em lhe traçar tantos elogios. Mas vamos lá! O filme, infelizmente para alguns críticos da época, foi mal recebido em sua época. Mas como em muitas obras primas cinematográficas que são lançadas em sua época, tempos depois viram “cults”, e é o caso deste penúltimo trabalho do diretor Nicholas Ray. Mas aí fica uma pergunta: virou “cult” por ser simplesmente um bom filme ou por que foi um filme de Nick Ray?

      É inegável que estamos falando aqui de uma superprodução, com tempo e dinheiro investidos. Ray se empreitou de assumir a responsabilidade de compor uma obra sacra, estilo que ele precisou se submeter indo em igrejas e museus sacros para ter inspiração em cada sequencia. Infelizmente, Ray teve contratempos e não assumiu todo o controle da fita. Sua primeira experiência com o produtor Samuel Bronston foi desastrosa, e mesmo com tudo isso ainda fez um último filme para o megalomaníaco, 55 DIAS EM PEKING, que lhe custou a saúde e sua saída em Hollywood. Depois disso, Ray passou a lecionar cinema e dirigir curtas universitários, até seu falecimento em 1979.

      Mencionei pra vc em email sobre o trabalho do ator espanhol Jose Mayans, que interpreta o discípulo João. Eu o tenho adicionado ao meu facebook e já conversamos algumas vezes. Mayans, que na época tinha 20 anos (e no filme é creditado como Jose Antonio) reserva boas lembranças de seu trabalho, que ele o considera como o primeiro destaque de sua carreira. O convidei até para fazer um comentário aqui, mas ele anda filmando e esta ativo no esplendor de seus 75 anos. Ele prometeu que quando puder virá aqui fazer suas declarações, e reminiscências de seu trabalho em REI DOS REIS e a convivência com os atores americanos e equipe. Se ele fizer isso, farei a tradução aqui.
      Carmen Sevilla hoje se encontra doente (Mal de Alzheimer), mas foi uma artista ativa até bem pouco tempo, atriz e cantora. Ela é católica praticante.
      Siobhan Mckenna, falecida em 1986, era uma atriz de origem teatral, e muito embora já estivesse um pouco madura para desempenhar Maria, ela é realmente convincente em seu olhar doce e tenro. Achei a atitude dela em relação ao colega Jeffrey Hunter muito cortês. E tais coisas sabemos que não são lá muito habituais quando se trata de cinema e entre atores.

      Sem dúvida, Randall, McKenna, Hunter & Ryan, Hatfield e Lindfors, todos tiveram desempenhando muito bem seus papéis, na gloriosa produção de Sam Bronston e dirigida por um artesão chamado Nicholas Ray.

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