domingo, 23 de abril de 2017

A Carga da Brigada Ligeira (1936): Errol Flynn e a Exaltação do Herói Individualista, Militarista e Imperialista, num filme de Michael Curtiz.


No cinema de outrora (antes da década de 1940), se um executivo quisesse chamar a atenção das plateias para cenas espetaculares de ação, os produtores provocavam quedas de cavalos, principalmente no gênero Western e Épico. Com esse “efeito”, os técnicos de Hollywood praticamente eram obrigados a mata-los. O cruel método tinha até um nome, Running W, que consistia em amarrar arames nas patas dianteiras dos animais que galopavam frente às câmeras até o ponto em que, ligados às estacas fixas, os arames se distendiam, ocasionando tombos violentos. Justamente por abusar desse truque em A CARGA DA BRIGADA LIGEIRA (The Charge of The Light Brigade, 1936) que a Warner foi processada pela Sociedade Americana Protetora dos Animais e reconheceu ter sacrificado diversos cavalos, principalmente na famosa sequencia final, que mesmo com todos estes fatos nada agradáveis, ainda assim foi prodígio de montagem e efeitos especiais, onde reconstituiu a histórica Batalha de Balaklava, durante a Guerra da Crimeia (1854-1856). Por essa razão, como pelo fato também da temática ser militarista e conservadora, o filme - que em 1936 deu impulso definitivo a carreira de Errol Flynn (1909-1959) depois da revelação em Capitão Blood no ano anterior - nunca mais foi reapresentado nos cinemas depois da II Guerra Mundial, indo parar somente na televisão a partir dos meados da década de 1960.

O Produtor Hal B. Wallis
O Cineasta Michael Curtiz
Errol Flynn, o astro que interpreta um herói militarista e imperialista, aos moldes da antiga Hollywood.
Inspirado num poema do inglês Lord Alfred Tennyson (1809-1892), publicado em 1855, o jornalista nova-iorquino Michael Jacoby (1898-1970) redigiu um argumento que, a princípio, não interessou ao produtor Hal B. Wallis (1899-1986). Contudo, foi o êxito comercial de Lanceiros da Índia, realizado em 1935 por Henry Hathaway e estrelado por Gary Cooper que convenceu a Warner a filmar o roteiro de Jacoby mediante substanciais alterações, dando assim sequencia a um pequeno ciclo que Hollywood consagrou, na época, à colonização da Inglaterra vitoriana na África e na Índia, através de outras obras como As Quatro Penas Brancas e Gunga Din, ambos realizados em 1939. 

Errol Flynn é o Major Geoffrey Vickers, do 27º Regimento de Lanceiros da índia.
O Major Vickers (Errol Flynn) e seus oficiais comandados, entre eles, David Niven.
O 27º Regimento chegando ao  Forte Chukoti
Anteriormente, o tema sobre a Guerra da Crimeia já havia sido abordado num curta de 1912 e também no filme inglês Balaklava, em 1930. Somente anos mais tarde, em 1968, é que o evento ganharia uma versão real e desmistificadora colocando o imperialismo inglês contra a parede, no remake de A Carga da Brigada Ligeira, dirigido por Tony Richardson. Aqui, no entanto, a versão estrelada por Errol Flynn é o da exaltação do heroísmo individualista, do militarismo vingador, e do prepotente imperialismo. Quase toda a ação transcorre na Índia, e somente nos seus quinze minutos finais de projeção é que vem a descrever o combate de Balaklava, e ainda assim em desobediência aos verdadeiros eventos e a submissão à total falsificação histórica. Personagens que historicamente são importantes, como os lordes Raglan e Cardigan, não tem papéis importantes na ocorrência da fita, e a carga dos Hussardos (em realidade militarmente desastrosa), é atribuída a um gesto do herói, o Major Geoffrey Vickers (interpretado por Flynn),  em represália ao massacre de mulheres e crianças pelos hindus.  Tal chacina, nunca aconteceu.

O Vilão Surat Khan (C. Henry Gordon), líder hindu, que rompe ligações diplomáticas com os ingleses, aliando-se aos inimigos.
O Major Vickers e sua noiva, Elsa Campbell (Olivia De Havilland).
Elsa e Geoffrey: Uma relação conflituosa, tudo porque na realidade...
Dentro desse pano de fundo narrado de forma artificial, encontramos o líder hindu Surat Khan (C. Henry Gordon, 1884-1940), que rompe relações comerciais com os ingleses e alia-se secretamente aos russos. Estabelecido um conflito nos Balcãs entre russos de um lado, turcos, franceses e ingleses de outro, o Major Geoffrey Vickers (Flynn), do 27º Regimento de Lanceiros da Índia, é enviado à Arábia para comprar cavalos. Em Calcutá, reencontra a noiva, Elsa Campbell (Olivia De Havilland) que se apaixona por seu irmão, Capitão Perry (Patric Knowles, 1911-1995). Surat Khan destrói e massacra o forte Chukoti, mas Geoffrey – a quem o próprio Surat deve a vida – escapa com a noiva. O 27º é transferido para a Crimeia e Geoffrey, ciente que Surat se uniu aos russos, prepara sua vingança ao massacre, ordenando a carga de 700 cavaleiros ingleses contra 25 mil inimigos.

Elsa ama o irmão de Geoffrey, o também militar Capitão Perry Vickers (Patrick Knowles)
A expressão de Elsa (Olivia De Havilland) confessando ao noivo seu amor pelo irmão dele.


O Major Vickers e o mascote do Regimento, Prema, filho de um militar aliado, Major Puran Singh.
O oficial indiano Puran Singh (J. Carrol Naish) chora ao segurar o corpo do filho, Prema, morto no massacre no forte liderado por Surat Khan.
Contudo, é precisamente este sopro de legenda épica e gloriosa, que se assemelha aos clássicos do western, é que veio assegurar à realização do diretor Michael Curtiz (1886-1962) um posto vitalício e de honra na antologia do cinema de aventura. A Warner, que gastou um milhão e 200 mil dólares no projeto, nada poupou para levar sua “carga” de ímpar grandiloquência. Até mesmo um forte inteiro, o de Chukoti, foi construído em Agoura, perto de San Fernando Valley (todos os exteriores foram rodados na Califórnia, em Lake Sherwood, Lone Pine, Sonora e Chatsworth). O impecável tratamento em preto e branco do fotógrafo Sol Polito (1892-1960) e a trilha sonora de Max Steiner (1888-1971) têm grandes destaques na produção. No elenco despontam além de Flynn e De Haviland (em seu terceiro filme juntos) nomes importantes como Donald Crisp (1892-1974), Nigel Bruce (1895-1953), J. Carrol Naish (1896-1973), Spring Byington (1886–1971), e David Niven (1909-1983), que iniciava sua carreira em Hollywood.

O Major Vickers, entre o Capitão Randall (David Niven) e o Coronel Campbell (Donald Crisp), pai de Elsa, para decidir detalhes dos planos para deter Surat Khan.
O confronto final na Batalha de Balaklava.
O Major Vickers em sua luta heroica até suas últimas consequências, sacrificando sua própria vida.

O fim de Surat Khan.
Foi no set de A Carga da Brigada Ligeira que o diretor, o húngaro Michael Curtiz (que ainda mal falava inglês), gritou para um assistente: Traga os cavalos vazios (Bring on the empty horses), querendo dizer os cavalos sem ninguém montado, e que mais tarde David Niven usou como título de sua autobiografia. A Carga da Brigada Ligeira  ainda obteve um Oscar: o de melhor assistente de direção (categoria hoje inexistente), Jack Sullivan (1893-1946). 



O Lançamento do filme em março de 1937. Acima, a divulgação da estreia do filme no jornal O GLOBO. Abaixo, um pequeno cartaz anunciando o clássico no extinto Cine-Plaza (hoje, tristemente em ruínas), que era localizado na Rua do Passeio, próximo ao Automóvel Clube, Centro do Rj. Ambas as imagens de divulgação são da época da premiére 
Visto nos dias de hoje, talvez incomode um pouco a abordagem colonialista e o evidente racismo (os indianos intrinsecamente selvagens e assassinos em oposição aos ingleses, "nobres e heroicos"). Ainda assim, apesar do artifício da trama e da polêmica que o cerca - trata-se de uma obra prima incontestável da Sétima Arte assinada por um dos maiores cineastas do século XX, atravessando as barreiras imutáveis do tempo e do vento, graças ao seu espírito de exuberante aventura. 




FICHA TÉCNICA
A CARGA DA BRIGADA LIGEIRA

(THE CHARGE OF THE LIGHT BRIGADE)

País : Estados Unidos
Ano : 1936
Gênero: Aventura
Direção: Michael Curtiz
Produção: Hal B. Wallis, Jack L. Warner, e Harry M. Warner, para Warner
Roteiro: Michael Jacoby, baseado em poema de Lord Alfred Tennyson
Fotografia: Sol Polito - Em Preto & Branco
Música: Max Steiner
Metragem: 115 minutos
ELENCO:

Errol Flynn – Major Geoffrey Vickers
Olivia De Haviland – Elsa Campbell
Patrick Knowles – Capitão Perry Vickers
Henry Stephenson – Sir Charles Macefield
Nigel Bruce - Sir Benjamin Warrenton
Donald Crisp – Coronel Campbell
David Niven – Capitão Randall
C. Henry Gordon – Surat Khan
     G.P. Huntley -Major Jowett
Robert Barrat – Conde Igor Volonoff
Spring Byington - Lady Octavia Warrenton
E.E. Clive - Sir Humphrey Harcourt
J. Carrol Naish - Subadar-Major Puran Singh
     Princess Baba – Mãe de Prema
Scotty Beckett – Prema Singh
George Regas - Vizir
PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES

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