sábado, 11 de fevereiro de 2017

A Um Passo da Eternidade (1953): Consciência e Integridade na Obra Ousada de Fred Zinnemann



No final de 1952, o cineasta Fred Zinnemann (1907-1997) estava enfrentando problemas com o fracasso de seu último filme, Cruel Desengano (The Member of The Wedding ), sob produção de Stanley Kramer. Zinnemann, apesar da falta de êxito quanto a este trabalho, ainda angariava os louros por Matar ou Morrer (High Noon), realizado também em 1952, entretanto, o insucesso por Cruel Desengano quase impediu o diretor de realizar uma de suas obras mais geniais, que se tonou uma das marcas registradas em toda sua filmografia: A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity), produzido em 1953. Entretanto, adaptar para as telas o volumoso Best-Seller de James Jones (1921-1977), publicado em 1951, não foi tarefa fácil. O livro From Here to Eternity tem uma linguagem pesada (cercada de palavrões) e situações fortes, mas isso não desmotivou o chefão da Colúmbia Pictures, o famoso Harry Cohn (1891-1958) de levar a frente o projeto, mesmo sendo considerado um homem polido dentro da esfera cinematográfica.


O Chefão da Columbia Harry Cohn.
O Cineasta Fred Zinnemann
O Astro Montgomery Clift


Cohn detestou Cruel Desengano e relutou muito para atender o apelo do roteirista Daniel Taradash (1913-2003) pela convocação de Zinnemann. E não demorou muito logo começaram as discussões pela escolha de elenco. Zinnemann insistiu muito para que seu ator preferido, Montgomery Clift (1920-1966), ganhasse o papel do atormentado soldado Prewitt, que Cohn pretendia entregar para Aldo Ray. E o diretor conseguiu. Monty havia atuado no ano anterior para um filme de Alfred Hitchcock, A Tortura da Suspeita (I Confess), onde interpretou um papel semelhante, e durante quase toda sua carreira haveria de interpretar o mesmo tipo: o do homem que luta pela sua integridade e consciência. Entretanto, Zinnemann não conseguiu que Julie Harris interpretasse a prostituta Lorene, por quem Prewitt é apaixonado, e Cohn optou por Donna Reed (1921-1986). 

Donna Reed e Montgomery Clift
Deborah Kerr é Karen Holmes.


Karen (Deborah Kerr) e Warden (Burt Lancaster)
Joan Crawford seria Karen Holmes, mas desentendimentos com seu guarda roupas (devido aos ombros largos, Joan sempre teve problemas com os figurinos) a afastaram da produção. Nisso entra o agente de Deborah Kerr (1921-2007), que ofereceu a atriz para viver a personagem, aceitos por insistência de Zinnemann, Taradash, e do produtor encarregado Buddy Adler (1909-1960). Mais uma vez, Cohn bateu de frente com os três, pois acreditava que uma atriz com perfil aristocrático inglês como Deborah Kerr não daria conta para um papel que exigia sensualidade e um toque de erotismo. Robert Mitchum e Edmond O’ Brien eram os reservas do favorito Burt Lancaster (1913-1994). Lancaster só conseguiu o papel do humanitário sargento Warden porque como ator contratado da Paramount, um dos chefões deste estúdio, Hal Wallis, permitiu que o ator aderisse à produção dirigida por Zinnemann.

O Sargento Milton Warden (Lancaster) e
o soldado Robert Lee Prewitt (Monty)
Montgomery Clift, Burt Lancaster, Frank Sinatra


Frank Sinatra no papel do desafortunado
soldado Maggio.
Mas certamente um dos fatos mais comentados sobre a produção de A Um Passo da Eternidade foi à integração de Frank Sinatra (1915-1998) no elenco, e cuja carreira estava em declínio. O cantor/ator estava numa verdadeira fase de ostracismo em sua carreira, e antevia antecipadamente uma possibilidade de reabilitação. Mas para isso, Sinatra teve que se submeter a um teste para o papel do soldado ítalo-americano Angelo Maggio, o melhor amigo de Prewitt. Na verdade, o papel já estava destinado a Eli Wallach, mas este ficou impossibilitado devido a um compromisso com a Broadway. De jeito nenhum Cohn queria Sinatra, mas Wallach estava obrigado a atuar na peça El Camino Real, de Tennesse Williams. Por um salário bem inferior ao que costumava receber, Sinatra, enfim, incorporou o infortunado Maggio e de quebra ainda arrebataria um Oscar como melhor ator coadjuvante pelo papel.

James Jones, o autor do romance A UM PASSO DA ETERNIDADE,
publicado em 1951.

Daniel Taradash, o roteirista que adaptou
o livro para o cinema.
Apesar do teor antimilitarista do relato (suavizado no preciso script de Taradash), A Um Passo da Eternidade contou com a colaboração das Forças Armadas, que acabaram franqueando suas instalações no Havai para as locações. Fred Zinnemann tempos depois recordou:

- Isto se deveu aos esforços de Buddy Adler, que havia sido oficial. Eles apenas fixaram duas condições: Uma, que não mostrássemos o ambiente de prisão onde Frank Sinatra é aprisionado. A outra, que o capitão culpado pelo abuso de autoridade, no livro de James Jones promovido a Major, que no filme fosse forçado a abandonar o Exército. Achei necessário aceitar estas condições, que as achei razoáveis. Chamem de concessão se quiserem, mas se eu não as aceitasse seria obrigado a usar um monte de civis no lugar dos soldados, e todo sentido do filme seria jogado pela janela. 

O Beijo Clássico entre Karen e Warden
Os preparativos para a cena, gastos
ao longo de um dia inteiro de filmagem.


A obra foi filmada durante 41 dias, sendo que um deles foi dedicado inteiramente a ardente cena do beijo (clássico) de Kerr e Lancaster na praia. A Um Passo da Eternidade é uma das fitas mais coerentes com o pensamento do seu diretor. Junto com o roteirista Taradash, teve que suar para mandar para as telas uma história que fosse aceitável para os padrões americanos da época. Se no livro de James Jones tem soldados irreverentes, sexo e violência bem acentuados, esses ingredientes na obra cinematográfica teriam que ser atenuados, muito embora a sequência de amor entre Burt Lancaster e Deborah Kerr na praia seja de tirar o fôlego até os dias de hoje. 

Sensualidade e erotismo, ousado para a época.
Em marcha, os soldados Prewitt e Maggio.
O soldado Prewitt não cede as pressões
de oficiais para que ele participe do
campeonato de Boxe.


O filme tem o seguinte enredo: Numa base americana em Pearl Harbor, pouco antes do ataque japonês (ocorrido em 7 dezembro de 1941), ocorre os dramas pessoais vividos por esses personagens: O soldado Robert Lee Prewitt (Montgomery Clift), recém transferido, não cede as pressões do capitão Dana Holmes (Philip Ober, 1902-1982) para que o soldado integre a equipe de Boxe do quartel para o campeonato anual. Prewiit , um exímio boxeador, prometeu não mais lutar após deixar cego um oponente, mas logo é hostilizado pelo capitão Holmes e os demais oficiais e soldados. Contudo, o soldado não cede as pressões dos companheiros, mantendo sua consciência e integridade para seguir em diante, lutando contra tudo e contra todos sem se importar com o bullyng

Prewitt encontra no Sargento Warden a
solidariedade e o apoio que precisa.
Ernest Borgnine interpreta o sádico
Sargento "Fatson" Judson.

"Fatso" Judson e Angelo Maggio, inimigos
mortais.
A esposa do Capitão Holmes, a promíscua Karen (Deborah Kerr), tem um caso tórrido com o Sargento Milton Warden (Burt Lancaster), subordinado do marido. Warden, sendo um soldado de linha dura, tem características humanitárias. Solidariza-se com o soldado Prewitt quando este é vitimado pela hostilidade de seus colegas de farda e ainda intervém quando um sargento truculento de outro pelotão, o sádico “Fatso” (Gordo) Judson (Ernest Borgnine, 1917-2012), tenta agredir o soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra), um ítalo-americano que integra o pelotão de Warden e melhor amigo de Prewitt.  Não demora e Maggio se mete em confusões, acaba preso, e na cadeia é morto pelo Sargento Judson.

Karen (Deborah Kerr) e Warden (Burt
Lancaster): Um amor proibido.
Robert Prewitt (Montgomery Clift) e Alma
(Donna Reed): Um amor fora das convenções
de sua época.


Prewitt (Clift) acode Maggio (Frank Sinatra),
prestes a morrer vítima da brutalidade de
Judson.
Lorene (Donna Reed) é uma prostituta que trabalha num estabelecimento de diversão para homens, mas seu verdadeiro nome é Alma. Uma mulher do interior com sonhos e ambições que sonha em ser dama da sociedade. Apesar da profissão, ela se apaixona por Prewitt ao seu modo. Ele a pede em casamento, mas ela não aceita, embora os dois venham a morar juntos numa casa próximos a Pearl Harbor. William Bayer, um crítico americano autor do livro The Great Movies, publicado em 1973, classificou  A Um Passo da Eternidade como um dos 60 (sessenta) melhores filmes de todos os tempos, assim ele descreve:

- A Obra de Zinnemann provoca impacto por seu apelo antimilitar e densidade humana de seus personagens centrais, sendo uma das raras obras do cinema cujos heróis parecem existir mesmo na vida real e não apenas nos limites da tela de projeção. 

Prewitt (Monty) encontra Judson (Borgnine)
para um definitivo acerto de contas pela
morte de Maggio.
7 de Dezembro de 1941, os japoneses atacam
Pearl Harbor, e o Sargento Warden (Lancaster)
e seu pelotão entram em ação para defender
a base militar.


Zinnemann sem dúvida pelejou para que seu filme saísse como ele queria, comendo o pão que o diabo amassou como o personagem Prewitt para fazer valer suas ideias em Hollywood. As desavenças entre ele e o chefão Harry Cohn se estenderam do Havaí, aos sets de filmagem, até a sala de montagem. O chefão estipulou a metragem em duas horas, obrigando o cineasta a eliminar cenas importantes, e chegou a reeditar uma cena sem o conhecimento do diretor. Em compactos 118 minutos, as situações paralelas, desnudadas com toda maestria pela câmera de Zinnemann, foram devidamente defendidas por elenco de primeira grandeza, exercendo instantâneo fascínio sobre as plateias. Só no mercado norte-americano, o filme faturou nas bilheterias 2,5 milhões de dólares, a maior renda da Columbia até o então momento.

Prewitt também era corneteiro.
George Reeves, o Super-Homem da TV nos
anos de 1950, como o Sargento Stark, ao
lado de Frank Sinatra.


E ainda de quebra, sem contar todo o faturamento nas bilheterias, From Here to Eternity foi bombardeado de prêmios. Fred Zinnemann ganhou seu primeiro Oscar (um dos oito dados ao filme), e conquistou ainda os lauréis da Crítica de Nova Iorque e do Directors Guild of America.


 OS OSCARS
A UM PASSO DA ETERNIDADE ganhou oito
Oscars. Frank Sinatra e Donna Reed foram premiados como os melhores atores coadjuvantes do ano.

O Diretor Fred Zinnemann, o produtor Buddy Adler, e o roteirista Daniel Taradash, também
foram premiados, juntamente com Donna Reed
Uma pausa para descontração das filmagens,
onde vemos Zinnemann em agradável conversa com Reed, Monty, e Sinatra.
A Um Passo da Eternidade foi a grande barbada do Oscar de 1953. Na noite de 25 de março de 1954, a obra de Zinnemann levou nada menos do que 8 (oito) Oscars. Melhor Filme de 1953 (sobrepujou os outros filmes indicados para categoria do ano, que foram Julio César/Julius Caesar, de Joseph L. Mankiewicz;  O Manto Sagrado/The Robe, de Henry Koster; A Princesa e o Plebeu/Roman Holliday, de William Wyler; e Os Brutos Também Amam/Shane, de George Stevens.), Melhor Diretor (Fred Zinnemann), Melhor Ator Coadjuvante (Frank Sinatra, que com o Oscar conquistado reabilitou consideravelmente sua carreira), Melhor Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Melhor Fotografia em Preto & Branco (Burnett Guffey, 1905-1983), Melhor Trilha Sonora (George Duning, 1908-2000), Melhor Montagem (William A. Lyon, 1903-1974), e Melhor Roteiro Adaptado (Daniel Taradash, 1913-2003). Em 1979, houve um remake da obra literária de James Jones para a televisão, em forma de minissérie exibida em três partes sob direção de Buzz Kulik, onde estrelaram Natalie Wood, William Devane, Steve Railsback, Joe Pantoliano, Kim Basinger, e Peter Boyle, nos papéis respectivamente vividos por Deborah Kerr, Burt Lancaster, Montgomery Clift, Frank Sinatra, Donna Reed, e Ernest Borgnine no clássico absoluto de 1953. A Um Passo da Eternidade, segundo fontes do site IMDB, estreou no Brasil a 19 de outubro de 1953. 


Marlon Brando visitou os amigos Montgomery Clift e Fred Zinnemann durante as filmagens.
Fred Zinnemann orienta Ernest Borgnine para
uma das cenas.

FICHA TÉCNICA
A UM PASSO DA ETERNIDADE
(FROM HERE TO ETERNITY)

País: Estados Unidos
Ano de Produção: 1953.
Direção: Fred Zinnemann
Produção: Buddy Adler, para a Columbia Pictures
Roteiro: Daniel Taradash, com base no livro de James Jones.
Fotografia: Burnett Guffey – Em Preto & Branco.
Música: George Duning
Metragem: 118 minutos.



ELENCO
Burt Lancaster – Sargento Milton Warden
Montgomery Clift – Soldado Robert Lee Prewitt
Deborah Kerr – Karen Holmes
Donna Reed – Alma, vulga Lorene.
Frank Sinatra – Soldado Angelo Maggio
Philip Ober – Capitão Dana Holmes
Mickey Shaughnessy – Sargento Leva
Harry Bellaver – Soldado Mazzioli
Ernest Borgnine – Sargento “Fatso Gordo” Judson
Jack Warden – Cabo Buckley
John Dennis – Sargento Ike Galovitch
Claude Akins – Sargento “Baldy” Dhom
George Reeves – Sargento Maylon Stark
Robert  J. Wilke - Sargento Henderson
Kristine Miller – Georgete

Produção e Pesquisa de
PAULO TELLES

13 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo, Paulo ... A luta de Zinnermann, apesar de intensa, foi extremamente recompensada, não só pela obra em si, mas pela reunião de um elenco formidável e pelos Oscars que levou ... Merecida homenagem a um dos maiores filmes de todos os tempos. A cena na praia entre Burt Lancaster e Deborah Kerr se tornou antológica .....

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    1. Com certeza Ovídio! Se não fosse a persistência do diretor por todo um conjunto de fatores, todos nós estaríamos órfãos de um grande espetáculo. Contudo no fim, todo esse esforço do cineasta e do elenco que fez a diferença. Abraços do editor.

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  2. Olá, Paulo. Parafraseando Castro Alves, Paulo! ó Paulo! Onde estava que não manda mais posts? Em que mundo, em que bairro do Rio tu te escondes? Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde, desde então, corre o infinito. Voltando para o filme: A um passo da eternidade é um grande filme. Cheguei a ler o roteiro do filme de tanto que gostei de ver o filme pela primeira vez. E aquela dublagem magnífica da AIC. Grandes interpretações. Não posso falar de nenhuma, pois posso desmerecer alguma. Fred Zinnemann era muito talentoso. Nunca vi filme ruim de sua autoria. Realmente torci para que Prewitt (Clift) e Warden (Burt) tivessem melhor sorte no final. Quem poderia deixar de gostar de Donna Reed e Debora Kerr? Se não me engano, a cena (mais ao final do filme e que vc mostra acima) em que Burt e Clif conversam, Burt estava mesmo bêbado. Confirma?

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    1. Hehehe...Saudações Valdemir!

      Tive problemas durante todo mês de janeiro por conta da energia elétrica, por isso a impossibilidade de publicar novos posts, que começa com força total a partir de aqui e agora para este ano de 2017.

      Realmente, Zinnemann nunca fez um filme que fosse ruim.

      CRUEL DESENGANO, eu realmente nunca assisti, sobre o filme ter sido um fracasso peguei esta informação no livro do Professor A.C Gomes de Mattos referente ao cineasta e a mais dois diretores, John Huston e Ernst Lubitsch. Mas como todo filme que tempos depois é revisitado, o espectador de hoje pode vê-lo com outros olhos, até mais aguçada.

      A UM PASSO DA ETERNIDADE é um filme perfeito, inteligentemente adaptado, e Zinnemann realizou uma obra inextinguível para a posteridade. Sem dúvida, um marco no cinema mundial, e em todas as épocas.

      Grande abraço do editor!

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    2. Valdemir, sobre Burt estar realmente bêbado na cena em que conversa com Monty, eu desconheço o fato. Mas não duvido, porque era quase normal atores se embebedarem de verdade para parecerem que estão realmente ébrios. Existem casos na Velha Hollywood.

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  3. Telles,

    Vou falar 2 vezes, porem tudo relacionado com o filme.

    É que não posso esquecer o que me aconteceu quando com fui ver o filme. Não tinha idade para entrar ( filme era impróprio até 14) e eu ainda não o fizera. Isso não foi no lançamento em 1953, mas numa reprise dos bons filmes, atitude muito utilizada pelos donos de uma rede de cinemas de Salvador.

    Bem; cinema super vazio, coisa de 3 da tarde, não se ligava muito para isso de idade num cinema de bairro. Entrei e a fita já começara. Fui para a galeria, meu lugar sempre preferido para ver filmes.

    Comprei pipoca e me estabeleci numa acolchoada poltrona com as pernas sobre o costado da fila na frente, já que somente dois ou tres gatos pingado estava ali em cima.

    Não demorou quase tres minutos e um sujeito magro e sem simpatia, me reclamou e tirei a pernas de onde elas não deviam estar. Porém, no afã do filme, voltei, sem querer, a por as duas pernas no mesmo lugar.

    Desta vez recebi um tapa forte nas costas e o aviso de enlouquecer; "ULTIMA VEZ QUE RECLAMO. TIRE AS PERNAS DAÍ". Falou grosso e com forte ameaça o cara para mim. Tirei as pernas correndo de onde estavam e sentei normalmente.

    Mas o capeta parecia estar solto. Entretido no bom filme, voltei a colocar as pernas no mesmo lugar, ou seja, sobre a poltrona da carreira de cadeiras da frente.

    Menino Telles, menino Telles! De repente eu me senti voando, solto no ar e ora arrastado como um animal pelas mãos do perverso sujeito por cima de cadeiras ou o que estivesse na frente.

    Ele me arrancou da cadeira com uma violencia tão brutal que eu quase nada vi, senão eu sendo levado como um passarinho nas garras de uma águia.

    Como para ir para a galeria tinha que subir coisa de dez ou doze metros de escadas, que subi andando calmamente para ver o filme, a descida foi voando, voando mesmo! O cara me arremessou lá de cima como se joga um pacote imprestável no lixo.

    Jovem, com muito molejo no corpo, não me machuquei muito, pois tentava segurar os corrimões e tentando me aprumar. Mas nada deu certo e, apesar de tudo o que fiz para não me quebrar todo, bati com força no chão ao fim da escada.

    Parei, sacudi as roupas com as mãos e ainda olhei para sua imagem ereta no topo da escada com um ar de quem não gostara do que ele fizera. Quando ia dizendo algo para ele, não tive tempo. Já ele esbravejava para o guarda que ficava na borboleta na entrada. "Hei, fulano. Coloque este vagabundo na rua aí debaixo de porrada".

    O guarda foi aré gentil e abriu um vão por onde, antes de sair, fui falar com ele como se reclamando do cara;

    --Mas seu guarda? Eu não fiz nada!

    Rapaz! O guarda meteu a mão no cacetete que tinha na cintura e o atarracou em mim. Ligeiro e cheio de jovialidade, me abaixei e a porrada bateu na borboleta. Comecei a correr para fora quando o vi se preparando para correr e me pegar para me meter o cacete.

    Isso ele não conseguiu, porque não me fiz de rogado. Comecei a correr feito um cão sem nunca olhar para trás. Desci uma ladeira correndo e só fui parar no terminal de ônibus.

    Me escondi atrá de uma pilastra e, resfolegando muito, olhei para ver se ele ainda estava no meu rastro. Mas não o vi e então respirei aliviado.

    O que narro ocorreu de fato e eu somente vim a ver o filme em outra ocasião, no mesmo cinema e mesmo assim escondendo o rosto do guarda e do sujeito perverso.

    Desculpem, mas tinha que contar isso para alguém porque isso vive engasgado em minha garganta e hoje me liberei. Sinto-me melhor.

    Pois é, amigo. São as peraltices da idade e a irresponsabilidade que vemos hoje nos jovens e que agora entendemos o porque deles fazerem tantas estripulias.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Olá Ju!

      Hoje, a nova geração, acostumada a ver o lançamento de um filme na TV ou no NETFLIX cinco meses depois do lançamento nos cinemas, não faz ideia como isso era impossível, de maneira que a nossa telinha ainda estava engatinhando, e locadoras de vídeo sequer existiam. Por isso, as reprises nas salas de exibição, espalhadas pelas ruas e pelos vários bairros em todo o Brasil.

      Bom, quanto ao imbecil que lhe chamou a atenção, devo dizer que hoje ele não poderia mais fazer isso, visto que sempre um funcionário ou gerente de cinema, mesmo que não goste da atitude de quem esta chamando a atenção, deve tratar com educação e polidez. Te dar tapa nas costas??? Meu velho, se fizesse isso pra cima de mim, ia ter encrenca, pode acreditar!

      Mas acredito que vc fosse ainda muito jovem? Talvez por causa disso os cinemas foram tudo para os shopping centers, onde a segurança (segundo dizem) é ainda mais aprimorada. Mas seja como for, tanto esse gerente imbecil quanto o guarda agiram errado. É a mesma coisa quando um meliante rouba alguma coisa no supermercado, e chega os seguranças trogloditas querendo enfiar a porrada num corredor aos fundos do estabelecimento em vez de entregar polícia. Não aprecio tal comportamento de seres covardes, Jurandir!

      Peraltices, todos podemos cometer um dia. Mas saiba, o jovem de hoje são diferentes dos jovens de nossa geração. Acredito que eu e vc viemos de famílias que imputam a máxima da educação e respeito. Nunca fui santo, mas sempre procurei ver os meus limites, e agora aos 46 para 47 do segundo tempo, é que reflito e meço as consequências. O que eu vejo hoje nos jovens são as irresponsabilidades sem limites, desconhecem respeito e, na maioria das vezes, não tem referenciais de educação e respeito na própria família.

      No seu caso , meu amigo, foi apenas falta de atenção no calor da projeção do filme. Se vc ainda insistisse no erro, não era o caso do gerente te bater nas costas, mas chama-lo e pedir para vc se retirar, o que seria muito mais correto. Seja como for, isso ficou na lembrança, e não tem como vc pensar em A UM PASSO DA ETERNIDADE sem lembrar-se desse seu fato. De qualquer forma, valeu por dividir esta sua experiência de vida comigo e com todos aqui que lerem a matéria e os comentários.

      Um grande abraço!


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  4. Telles,

    Não sei se já assisti algum filme neste estilo que conseguisse superar toda a construção desta obra.
    Valeu a pena o Zinnemann bater pe firme e trabalhar com o elenco que ele achava que faria o que tinha em mente. E conseguiu. Conseguiu arrumar um filme (que dizem ser de guerra, mas que na verdade ele é um Drama), um drama e daqueles bem arregimentado pelo roteirista que entregou um material de primeira a ser apenas filmado.

    O que dá ainda mais sustentação à pelicula do bom diretor é ele te-la criado num ambiente real, num local perfeito onde o drama deveria se desenrolar com paz e tranquilidade.

    Algo que deveríamos atentar e anotar para não deixar tal cena passar como se uma cena normal, é o olhar e a cara de Barriga (assim era chamado o Borgnine na versão que vi) quando ele olha para o insubordinado Sinatra e o ameaça dizendo que um dia ele seria preso com toda aquela valentia e iria ser cuidado por ele.

    Parece que o diretor soprou nos ouvidos de Ernest como ele queria sua expressão e seus olhos para que o bom ator fizesse aquela cena daquela forma genial.

    Outro ponto que destaco no filme são os apanhados de cena do alto e dos lados quando os fuzileiros estão em treinamento. Um visual deslumbrante e de realidade.

    Montgomery Cliff se vinga em Barriga a morte de Sinatra. Porém, ninguém vê como a coisa ocorre depois que caem por detras daquelas caixas. Outro ponto positivo para o diretor e os atores que encenaram com perfeição o momento.

    Gosto de falar de cenas que me chamam a atanção por suas qualidades especiais, de cenas bem feitas, de momentos que me despertaram, principalmente porque deste filme já não há muito o que dizer, pois quase tudo já foi dito. Os premios e o reconhecimento de todos por si só já o apresente para o mundo. Tão bom que superar a obra do Mankiewicz com o Brando, Julius Cesar, que é um filme extraordinário, dentre outros de qualidade invejáveis, somente um filme como este, com um elenco como este, com um roteiro bem adaptado, um diretor fantastico, com locais de filmagem exatamente dentro da trama e com a beleza ainda da Reed para acabar de por mais luz na já iluminada obra.

    Tudo isso sem falar na coragem da Kerr de fazer naquela época uma cena de amor com o Lancaster tão fulgurante.

    Capta-se o anseio dela em despir o homem. Seus olhos correm pelo corpo do Lancaster de cima abaixo enquanto seu peito arfa de uma inquietude de arder, e então sai correndo para o mar, que deve ter posto um pouco de frieza na ardencia que lhe consumia.

    Forte cena para a época, forte mesmo e feita sem grosseria. E tudo na classe do menear de movimentos faciais e com muita qualidade em se pegar os angulos que dariam a sugestão do momento que os dois passavam naquela praia deserta.

    Um grande filme e um grande trabalho de busca e pesquisas para nos colocar à disposição de ler e dizer o que sentimos de tudo o que lemos.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Olá Ju!

      De fato, nos grandes dicionários de cinema, A UM PASSO DA ETERNIDADE esta sistematizado como drama, já que o filme apresenta dramas pessoais, e não uma aventura bélica, mesmo que ao final haja o confronto da base militar do Sargento Warden (Lancaster) em Pearl Harbor contra os aviões dos japoneses.

      Vc então viu a foto de Ernie com Zinnemann. Parece mesmo que o diretor esta dando orientação de como ele queria esta cena, e deu muito certo. Quanto a cena de treinamento dos fuzileiros, realmente é de um teor realista.

      Vc expressou muito bem dos motivos de A UM PASSO DA ETERNIDADE superar outras fitas que concorreram no mesmo ano ao Oscar de melhor filme. Um cineasta como Zinnemann, um elenco de primeira grandeza, e um roteiro inteligentemente ousado (para a época) sem ser “direto demais”, com certeza contribuiu para as láureas deste espetáculo.

      E O QUE DIZER DE DEBORAH KERR, MINHA MUSA?

      Cá entre nós, mas o chefão da Colúmbia, Harry Cohn, foi muito ingênuo em achar que Deborah era “fria”. Em nenhum momento se constata que Kerr seja “fria”. Em todo momento no filme, e não somente na cena de amor na praia, se nota o desejo de Deborah só pelo olhar de Karen Holmes. Ainda bem que Joan Crawford não pegou esse papel, e Rita Hayworth, que era a estrela da Columbia e estava contada para pegar a parte, havia brigado com Harry Cohn desde as filmagens de SALOMÉ, em 1953.

      A cena de amor ente Lancaster e Kerr na praia, até hoje provoca vibrações. Verdade seja dita!

      O editor.

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  5. Telles,

    Verdade o que dizes da Kerr, caro amigo, quando eu somente falei dela na praia. Realmente ela despeja desejos e uma sensualidade altissima em cada momento em que está com Lancaster, que exibia também muito amor por ela.

    Fez seu papel com classe. Lembra quando Lancaster vai à casa dela cheio de "Papéis URGENTES para o Marido dela assinar?".

    Pelo comportamento do Lancaster, que foi logo dando pequenos ataques na loira, ela captou logo que ele fora ali para ve-la e algo mais, claro, já que ninguém mais que o malandro sargento, que antes já lhe dera uma palavra insinuante, lembran-se?, o patife mais que ninguém sabia onde o esposo dela estava e que aqueles papéis não valiam nada. BANDIDO!

    E percebe-se de imediato seus movimentos visuais para cima da mulher.
    Esta, uma fêmea de classe, falava e se mexia pelo recinto para que o ATACANTE a visse melhor, lhe mostrando aquelas lindas pernas sob aquele short branco e folgado.

    Nenhuma boba, ela, vez em quando olhava ou uma falava alguma coisa solta e lhe ofereceu uma bebida, que tambem o acompanhou, enquanto o sargento, já sentindo-se o predador, começo a elogia-la e lamentando o seu esposo não reconhecer a mulher que tinha.

    Percebemos, sem dificuldades, e a mulher também, que o momento do ataque final estava a segundos. E era pura verdade. O homem a pegou de jeito e a beijou ardentemente, e sem qualquer recusas, em mais uma cena elogiável desta pelicula, da qual nunca vi ou ouvi alguém dizer qualquer coisa de negativo.

    É isto aí, meu jovem e querido escritor.

    E, se desejar, eu descrevo mais umas dez ou mais cenas de qualidade, em detalhes, desta fita digna de todos os elogios possíveis.

    Jurandir_lima@bol.com.br



    Mas sua classe ficou predominada, nunca atacando o homem que fora ali para estar com ela com qualquer tipo de fala sobre o assunto. Isso é classe, e classe com aquele short que os olhos de Lancaster não saiam daquelas belissimas pernas.

    Filme perfeito, cenas perfeitas, atores magnificos e premios merecidissimos.

    O maior e melhor filme da carreira de Zinnermann, que fez, 1m 1960, um filme com o Mitchum e própria Kerr, chamado Peregrinos da Esperança, fita que poucos valorizam, mas que é uma fita excepcional. Sugiro assistir esta bela e bem feita pelicula. Sugiro a todos, não apenas a ti e sim a quem ler esta matéria.

    jurandir_lima@bo.com.br

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    1. Meu Velho, acho melhor parar por aí sobre a Kerr, pois se ela já despertava meus desejos, vc se expressando assim me fará despertar mais desejo ainda por ela, rsrsrs.

      Mas é isso mesmo, amigo! Vc expressou muito bem sobre a situação entre os dois, o Warden e a Karen. Foi isso mesmo. Ela já era promíscua e não tinha nada a perder, e Warden, só a ganhar, entende?

      Lembro que Zinnemann realizou O PEREGRINO DA ESPERANÇA, com Bob Mitchum e Deborah. Ainda tinha Peter Ustinov, que havia atuado com Kerr em QUO VADIS (1951), como Nero e ela como a frágil e virginal cristã Ligia, muito diferente da Karen, não acha? Rs

      Abraços do amigo carioca!

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  6. Telles,

    Sabe que nome se dá a esta qualidade da bela e grande Kerr? Talento, qualidade interpretativa acima de algumas, além de ser uma mulher de corpo infernal, pois já a vi com menos roupa. Se estiveres aguçado lhe informo onde. Mas, mas...infelizmente ela já deve ter nos deixado.

    Viste Bom dia Tristeza? Ela e o Niven? O Céu é Testemunha? O Rei e Eu? Chá e Simpatia? Ela sempre está linda, mas em O Prisioneiro de Zenda e Quo Vadis sua beleza chega a dar um brilho especial à tela.

    Também sou seu fã, Carioca, também o sou.

    Abração

    jurandir_lima@bol.com.br

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    Respostas
    1. Olá Ju!!!
      Deborah com menos roupa? Sei sim! OS PARAQIEDISTAS ESTÃO CHEGANDO, onde ela madura junto com o mais maduro Burt Lancaster, ousaram fazer o que não puderam em A UM PASSO DA ETERNIDADE. Cenas quentes de amor, isso sim!

      Já assistir quase tudo com ela meu amigo. Era grande atriz, e uma verdadeira mulher.

      Abraços do editor carioca!

      Excluir

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