É tempo de Natal. Época
em que as pessoas costumam presentear aquelas que estimam, decoramos nossas
casas com árvores de natal e presépios, e não dispensamos uma ceia. Parece uma
época em que as pessoas esquecem um pouco do digladio do dia a dia. Entretanto,
o cinema e a TV hoje produzem filmes em maior escala sobre o tema nos últimos
vinte anos. Mas há 70 anos, tempo em que foi realizado A Felicidade Não se Compra (It's a Wonderful Life), produzido em 1946 e obra prima de Frank Capra
(1897-1991), havia poucas produções a respeito nas telas de cinema. As salas de
exibição neste período do ano exibiam produções bíblicas ou histórias ligadas
ao cristianismo, algo que também perdurou na televisão por algum tempo.
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| O Diretor Frank Capra, o "autor" de A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946) |
Frank Capra foi um
cineasta singelo, que abordou o espírito de boa fé e a integridade do ser
humano em suas obras. Basta vermos O Galante Mr Deeds, A
Mulher Faz o Homem, Do Mundo nada se Leva, e Adorável
Vagabundo, alicerces
da cinematografia do grande componente do diretor. Seus heróis creem na bondade
e na honestidade humana, onde se caracteriza a luta do bem contra o mal, e mesmo
que sofram com isso, eles não abandonam suas convicções. Em A Felicidade Não Se Compra não é exceção, pois se eternizou na memória
de muitos apreciadores da Sétima Arte e também daqueles que de forma incessante
buscam uma vida mais feliz. E quem não quer ser feliz? É possível ser feliz?
estas são algumas das interrogações que fazemos em nossas entrelinhas durante
toda a projeção da fita, aliás, a preferida deste grande cineasta.
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| O diretor Capra e seu astro, James Stewart, papeando numa pausa das filmagens. |
Foi produzido
pela firma independente Liberty, de Frank Capra e William Wyler, que faliu
justamente porque A Felicidade não se
Compra não se deu bem nas bilheterias. Como os direitos autorais não foram
renovados, o longa caiu em domínio público em 1974 e, dessa forma, foi exibido
inúmeras vezes na TV americana, especialmente na época de Natal, criando uma
reputação de clássico. A versão oficial que se tem em DVD e Blu-Ray pertence
hoje a Republic (que distribui pelo selo da Paramount). Apesar do fracasso, o
filme chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme, diretor (Capra), ator(James
Stewart) e montagem (William Hornbeck, 1901-1983).
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| James Stewart é George Bailey, um "Boa-Praça" que gosta de ajudar as pessoas. |
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| Donna Reed é Mary Hatch, sua namorada, depois esposa. |
James Stewart
(1908-1997, em seu primeiro filme depois de seu retorno da II Guerra) e Donna Reed (1921-1985) são as estrelas de uma
história que, talvez, muitos de nós gostaríamos de viver. Entretanto, nem tudo são
flores. Há empecilhos, desvios, provações, erros e problemas como na vida de
qualquer mortal. O que fundamenta nesta magnífica obra de Capra é a humanidade
nas relações pessoais e sociais, que podem causar danos por interesses de
alguns mal intencionados, motivados pela individualidade e o egoísmo. A
ambição, que costumeiramente envenenam ambientes, seja na família ou no
trabalho, dá espaço para relações mais fraternas, altruístas, e solidárias a
partir da ação de pessoas comuns, e em gestos comuns.
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| George e Mary dançam na pista, prestes a se abrir e prontos a cair na piscina. |
Não é à toa que Capra
tinha um carinho todo especial por este filme mais do que os demais que
dirigiu. Até quase ao fim de sua vida, em 1991, tinha o costume de convidar amigos
pessoais juntando toda a família para assistir no cinema de sua casa ao seu
original em 35 mm em toda véspera de Natal. Filmado em preto & branco, o
cineasta chegou a enfartar quando viu sua obra sendo colorizada por computador,
um modismo que penetrou nos anos de 1980 e que colorizou outros clássicos das
décadas de 1940/50 (como Casablanca, por
exemplo), e até James Stewart, o astro da película, protestou. De qualquer
forma, A
Felicidade Não Se Compra não envelheceu, capaz até
hoje de fazer com que o espectador se identifique com qualquer um dos
personagens ou mesmo com toda a situação do enredo.
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| Thomas Mitchell, de óculos, é o Sr. Billy, tio de George. |
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| O Policial Bert (Ward Bond) e o motorista Ernie (Frank Faylen), amigos de George. |
O verdadeiro "amor
ao próximo" não precisa vir em embalagens vistosas, assim prega a fita.
Através de gestos simples de nosso cotidiano, se pudermos ser apenas mais
cordiais com as pessoas, já forma por si só uma ação poderosa. Adicionar um
pouco de esperança e otimismo no nosso dia a dia pode representar muito para as
pessoas que convivem com as outras, seja na família, no trabalho (principalmente),
ou nas nossas relações sociais.
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| Lionel Barrymore (sentado) é o Sr. Potter, que apesar de estar preso a uma cadeira de rodas, é um homem avarento e individualista. |
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| Henry Travers é Clarence, anjo de guarda de George, prestes a ganhar suas asas. |
A alegria, a capacidade
de superação, a fé e a valorização da vida e de tudo aquilo que somos, e que
representamos para outras pessoas, tem que ser o pilar de nossas vidas. E eis
que vem uma lição poderosa nesta obra de Capra, onde reside a ideia de nossa
importância na vida das pessoas e de nossos amigos, pois ela pode afetar de
modo positivo a vida delas. Naturalmente, jamais agradaremos toda a Humanidade,
afinal, nem Jesus Cristo agradou a todos. Entretanto, sempre poderemos ser
reconhecidos por nossos valores, seja por amigos, parentes e colegas de
trabalho, e sem dúvida, a vida de um indivíduo seria bem diferente se não
pudesse ele existir e fazer do dom de sua vida toda a diferença.
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| Gloria Grahame é Violet, ex-namorada de George. |
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| Todos os amigos de George reunidos na noite de Natal, prontos para ajuda-lo em momento crucial. |
Um sonho acompanha a
trajetória do jovem George Bailey (James Stewart) desde seus anos de infância.
Sua vida foi marcada por inúmeros percalços que tendem de tudo para não
permitir que suas aspirações se concretizem. Desde cedo, quando ainda era
menino, George consolida sua vida como a de uma pessoa que está por perto para
ajudar ao próximo. Não de forma totalmente consciente do valor dessa
participação fraterna e solidária. Desprovido de qualquer busca de valorização
ou reconhecimento em função de suas ações, movido somente pelo belo coração que
possui.
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| Apesar de George ser prestativo com todos, ele tem momentos de incertezas e dúvidas... |
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| dúvidas estas que logo serão descartadas quando ele conhecer o espírito da felicidade. O mundo é maravilhoso. |
Por esse motivo, George
é capaz de ajudar pessoas, como o farmacêutico manipulador de remédios, Sr. Gower (H. B.
Warner, 1875-1958), ou ainda salvando a vida de seu irmão mais novo. Sua
grandeza é realçada na defesa de pessoas pobres que com dificuldade tentam
construir o grande sonho de suas humildes vidas, ter uma casa própria. Nesse
sentido, apesar do desconforto dessa situação, George assume a empresa de seu
pai, e é deste, inclusive, que ele herda as nobres convicções de justiça e compaixão,
abdicando dos lucros em favor de uma vida modesta desde que isso lhe garanta a
paz.
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| Em alguns momentos, George perdeu a fé. |
Suas alegrias, apesar de
alguns contratempos, ou pela deslealdade e individualidade do homem mais rico
da cidade, o senhor Porter (Lionel Barrymore, 1878-1954), são ainda maiores a
partir de seu casamento com a fiel Mary (Donna Reed) e com o nascimento dos
filhos. Nesse momento tudo parece caminhar para um final feliz. É quando o
acaso resolve lhes pregar uma peça e faz com que o dinheiro que garantiria os
saldos e o cumprimento dos contratos de sua empresa simplesmente desaparece.
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| Mas a fé no amor e nas pessoas reacendeu no espírito de George Bailey nesta noite de Natal. |
Acuado pelas dívidas e
pela possibilidade de ser preso, George fica desesperado e pensa em tirar sua
vida para resgatar um seguro de vida que poderia assegurar a sobrevivência de
sua empresa e a reputação de sua família É aí que entram os questionamentos. O
que fazer quando sua vida parece não ter valido a pena? E se eu não tivesse nem
ao menos existido, tudo seria muito melhor, não seria? Será que a minha vida
foi de alguma forma importante para alguém?
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| A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (1946): Obra de Frank Capra. |
Com toda essa inocência
terna e sincera, A Felicidade Não Se Compra é
até hoje um dos mais belos filmes de todos os tempos, sendo despontado numa
lista entre os melhores 45 filmes na categoria "valores humanos" de
acordo com o Vaticano (que realizou uma lista de 100 melhores filmes em 1995,
ano do Centenário da Sétima Arte), pois trata de temas importantes com
simplicidade e de maneira tocante sem nunca parecer piegas ou pueril. Seus
personagens perfeitos não caem na chatice ou na antipatia, e sim funcionam como
o perfeito exemplo de como uma pessoa altruísta pode ser. Em um mundo
capitalista de como era o de 1946 (ano de sua produção), pós-crise de 1929 e o
início da reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, e num mundo hoje todo que
individualista, devíamos refletir em pleno século XXI sobre o que Capra (um
verdadeiro visionário) queria nos dizer naquele tempo, sobre os verdadeiros
valores da vida e das boas relações com o próximo.
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| Thomas Mitchell, Dona Reed, Jimmy Stewart, Beulah Bondi: A FELICIDADE NÃO SE COMPRA. |
Partindo
dessa ideia, a de que nossa existência é fundamental para o equilíbrio e para a
felicidade de muitas outras vidas, que Frank Capra consolida um dos mais
celebrados clássicos do cinema mundial. No elenco, destaques para Thomas
Mitchell (1899-1961), Ward Bond (1903-1960), e Gloria Grahame (1923-1981).No
Brasil, o filme estreou a 14 de fevereiro de 1947, fez tanto sucesso em nossas salas que ficou quase 20 anos seguidos em cartaz. Um filme para curtir e apreciar, que consegue sobrepujar as ações do tempo. Afinal, como condiz seu título original, a vida é maravilhosa, apenas depende de nós e de nossas atitudes para com o semelhante. Assim prega o inesquecível diretor Frank Capra.
FICHA TÉCNICA
A FELICIDADE NÃO
SE COMPRA
(It's a Wonderful
Life)
Ano de Produção: 1946
Direção: Frank Capra
Gênero: Comédia dramática
Gênero: Comédia dramática
Roteiro: Frances Goodrich, Albert
Hackett, Frank Capra, Jo Swerling, baseado em história de Philip Van Doren
Stern.
Produção: Frank Capra, para a RKO
Música: Dimitri Tiomkin
Fotografia: Joseph F. Biroc, Joseph
Walker, Victor Milner. Em Preto & Branco.
ELENCO PRINCIPAL:
James Stewart – George Bailey
Donna Reed – Mary Hatch
Lionel Barrymore – Sr. Porter
Thomas Mitchell – Tio Billy
Henry Travers – Clarence, o anjo
Beulah Bondi – Senhora Bailey, mãe
Frank Faylen – Ernie
Ward Bond – Bert
Gloria Grahame – Violet
H. B. Warner – Sr. Gower
Samuel S. Hinds – Sr. Bailey, pai
PRODUÇÃO E PESQUISA DE
PAULO TELLES
FELIZ NATAL!!!
FELIZ 2017 PARA OS AMIGOS
E LEITORES
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