sábado, 29 de outubro de 2016

Amarga Esperança (1948): Nicholas Ray estreia em sua quintessência cinematográfica.



Amarga Esperança (They Live be Night), produzido em 1948, se resumiu para muitos críticos como a quintessência da arte de Nicholas Ray (1911-1979), o cineasta das paixões crepusculares e da juventude desajustada e incompreendida, que fez aqui sua estreia como diretor, onde a fita em tópico prefigura com sua obra mais famosa, Juventude Transviada, de 1956.

O Cineasta Nicholas Ray (1911-1979) - Diretor de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Farley Granger e Cathy O' Donnell, o par romântico e dramático
de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Em 1947, o produtor Dory Schary (1905-1980), então na chefia dos estúdios da RKO, decidiu dar chance a novos diretores com filmes de baixo orçamento, e por sugestão de outro produtor, John Houseman (1902-1988), que era amigo de Nicholas Ray, convidou este para levar a tela o romance escrito em 1943 por Edward Anderson (1905-1969), intitulado Thieves Like Us. Ray dirigiu Amarga Esperança em apenas sete semanas.

Lobby Card de AMARGA ESPERANÇA (1948)
Entretanto, em 1948, o magnata Howard Hughes (1905-1976) comprou a RKO e engavetou o filme de Ray por dois anos depois de pronto, lançando somente a 5 de novembro de 1949, quando já haviam sido exibidos nos cinemas duas outras obras do cineasta: A Vida íntima de uma Mulher, de 1948, e O Crime Não Compensa, de 1949. 

Bowie (Farley Granger) e Keechie (Cathy O' Donnell). O
desespero de dois jovens que se amam.
Como geralmente acontece com algumas obras primas da Sétima Arte, Amarga Esperança teve seu mérito reconhecido como tal anos depois. Quando lançado em sua época, era considerado um filme policial Classe B. Mas com análise aprofundada, o primeiro filme de Nicholas Ray teve seu reconhecimento como clássico filme noir hollywoodiano, com síntese depurada de toda obra cinematográfica do diretor.

Bowie e Keechie
Um jovem casal que tem um mundo a enfrentar.
Amarga Esperança tem seu prólogo com uma inusitada cena, bem incomum, mas que funciona bem como forma de situar a trama. Ray abre o filme com um rápido plano dos dois amantes, onde aparece a seguinte legenda: “Este rapaz e esta garota ainda não foram realmente apresentados ao mundo”. O clima lúdico da cena e a frase que a acompanha deixam claro que Ray tem o objetivo de mostrar como o mundo pode ser um lugar cruel e opressivo, capaz de destruir sonhos e esperanças de felicidade, sobretudo quando se trata de dois jovens namorados. A partir daí, toda a desenvoltura da história esta prestes a ser apresentada. 

T-Dub (Jay C. Flippen), Bowie (Farley Granger) e Chickamaw
(Howard Da Silva). Três fugitivos da penitenciária do Mississipi.
Os três fugitivos já rendem uma vítima.


Com uma narração chiaroscuro  e clima de fatalismo, estampa a caçada policial de três fugitivos de uma penitenciária do Mississipi, e são eles: Bowie (Farley Granger, 1925-2011), Chickamaw (Howard Da Silva, 1909-1986), e T-Dub (Jay C. Flippen, 1899-1971). Bowie reencontra a namorada Keechie (Cathy O’ Donnell, 1923-1970), e o jovem casal se opõe a uma sociedade hostil em um amor sem ilusões. E é exatamente nesse sentido que o filme tem seus méritos. Ray é extremamente hábil na construção da atmosfera de desespero na qual o casal se encontra. A utilização da noite como prisão e, ao mesmo tempo, única condição na qual os personagens se sentem confortáveis é de uma eficácia inegável.

Keechie e Bowie: a utilização da noite como prisão, sendo 
a única condição na qual os personagens se sentem em liberdade.
Keechie e o trio de fugitivos.


O tema é constantemente arquitetado, tanto pela câmera de Ray quanto pelos diálogos, fazendo com que o próprio espectador sinta-se inseguro quando o casal está em plena luz do dia. A sensação é a de que o mundo construiu para Bowie e Keechie uma emboscada da qual eles não conseguem sair. As tomadas aéreas de helicópteros (uma inovação para o cinema até então) ainda colaboram para a criação desse clima, reforçando a ideia de que se trata de uma história de fuga, não de amor. O toque fotográfico de George E. Diskant (1907–1965) e a trilha sonora de Leigh Harline (1907-1969) dão mais brilho ao espetáculo. 

Bowie e Keechie, em um momento de paz.
Keechie e Bowie: um jovem casal que se ama
Nesse sentido, é possível notar o tom autoral que desenrola toda a fita. Nick Ray apresenta em Amarga Esperança o ponto de partida para alguns temas que seriam bem característicos em sua filmografia: além do clima noir, destaca-se um olhar de ternura para os personagens centrais que vivem à margem da sociedade. Bowie, em sua essência, não é uma pessoa ruim, ainda que seja visto assim pelas pessoas. Ray trata-o exatamente dessa forma, como se Bowie tentasse se encaixar no ambiente que o cerca para viver uma vida normal, mas sendo constantemente repelido por seus esforços, e o mesmo acontece com sua amada Keechie.

A ação é violenta por parte do trio de fugitivos.
Bowie, na esperança de se unir a mulher que ama.
A partir daí, nasceu à preferência do diretor por personagens amargurados, perdidos, que não conseguem encontrar seu lugar na sociedade. Ele fez isso com protagonistas vividos por grandes atores em outras obras por ele assinado. Basta vermos o policial amargo e estressado vivido por Robert Ryan em Cinzas que Queimam (1951), que não aceitava ser marginalizado em sua profissão pela sociedade; ou ainda o roteirista iconoclasta e violento vivido por Humphrey Bogart que prezava mais seu ego artístico do que viver sob as regras sociais em No Silêncio da Noite (1950). 

Mas o jovem casal anda sempre em fuga.
Bowie sendo ameaçado por Chickamaw
Deste modo, Nicholas Ray situa seus personagens em um mundo a parte, comunicando na pureza dessa relação amorosa de dois seres perdidos nas trevas da noite – Bowie um fugitivo da lei, e Keechie, a filha de um alcoólatra – uma romântica indignação social. E se coloca ao lado da poética solidão e da dignidade de seus sentimentos, que o meio circundante ameaçador quer destruir com suas regras petrificadas e desumanas.

O trio de fugitivos tem como aliada Mattie, vivida por Helen Craig
Keechie e Bowie, tentando fugir da lei
Amarga Esperança, apesar de um bom filme, sobrevive até hoje graças à curiosidade de ser o trabalho de estreia de Nicholas Ray. É uma obra bem construída e com diversos valores, ainda que a trama em si tenha sido prejudicada pela ação do tempo. Mas aqui é o momento no qual o cineasta coloca em celuloide, pela primeira vez, sua visão de mundo que se faria presente em toda a filmografia e o faria entrar para o rol dos maiores cineastas de todos os tempos. Um ponto de partida curioso para uma das carreiras mais prolíferas não somente em Hollywood como também em todo o cinema internacional.

AMARGA ESPERANÇA de 1948. Um clássico de Nicholas Ray 
Sem deixar pontos de similaridade com Vive-se só Uma Vez (1937), dirigido por Fritz Lang, onde outro inocente (vivido por Henry Fonda) parecia vencido por um trágico destino e uma sociedade injusta – Amarga Esperança é uma criação fundamental de Nicholas Ray, que segue aqui suas mais absolutas características compostas por grande parte de seu trabalho. A defesa da juventude desajustada, a convicção que nesta vida o amor e o lirismo são impossíveis, e finalmente um desesperado cântico para dois amantes que não pertencem a este mundo, existente no silêncio da noite, símbolo da morte inelutável. Assim é o cinema de Nicholas Ray. Assim é Amarga Esperança

Matéria dedicada em memória do Irmão
DANTE MONTEIRO PEREIRA


FICHA TÉCNICA

AMARGA ESPERANÇA
(They Live by Night)
Ano de Produção: 1948

Gênero: Policial

País: Estados Unidos

Direção: Nicholas Ray

Produção: John Houseman e Dory Schary – para a RKO

Roteiro: Charles Schnee, Nicholas Ray (adaptação) e Edward Anderson (romance original).

Música: Leigh Harline.

Fotografia: George E. Diskant (em Preto & Branco)

Metragem: 95 minutos.

ELENCO
Cathy O’ Donnel – Keech
Farley Granger – Bowie
Howard Da Silva – Chickamaw
Jay C. Flippen – T-Dub
Helen Craig – Mattie
Will Wright – Mobley
Ian Wolfe – Hawkins
William Phipps – Jovem Farmer
Harry Harver – Hagenheimer
James Nolan – Schreiber

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES
As Maiores Trilhas Sonoras da Sétima Arte, e em todos os tempos!
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domingo, 9 de outubro de 2016

As Sete Caras do Dr. Lao (1964): Fantasia com Mistura de Faroeste, e Tony Randall em Sete Papéis.


Em celebração pela passagem do dia das crianças, que ocorrerá na próxima quarta feira, dia 12 de outubro, nada me deu mais lembrança que um filme que assisti tantas vezes desde meus oito ou nove anos de idade. A princípio, não pude compreender com exatidão muito dos significados que a fita queria expressar, mas com as devidas reprises ao longo dos anos poderia compreender o quanto que As Sete Caras do Dr. Lao (7 Faces of Dr. Lao, 1964) era uma obra simplicista, mas de entendimento individual (mais filosófico do que moral), de como o ser humano poderia conhecer a si próprio apesar de todas as dificuldades de se discernir. Afinal, em vez de milagres, que exigem fé e sentimento, algo tão escasso nos nossos dias, na resenha aqui em apresentação se observa a humanidade e seus erros clamando por um benfeitor homem de circo. Como? Sim, e pelo visto não é qualquer homem de circo. O circo nada mais é do que a vida e o mundo em que vivemos, sendo todos nós artistas, trapezistas, malabaristas, palhaços, num show de obstáculos que estão sempre a nos desafiar no cotidiano da existência.


O Diretor George Pal (1908-1980)
George Pal ao lado do "Abominável Homem das Neves"
Este Homem de Circo precisa ser indispensavelmente, um sábio, filósofo, e de preferência, chinês. E mais ainda: ele precisa ser um mágico capaz do impossível. Entretanto, se deduz que o mundo prosseguirá do mesmo curso, mesmo tendo um mágico com todas estas qualificações, porque não existem mágicos capazes de transformar “temíveis tubarões em angelicais sardinhas”.  Mas a magia do cinema é capaz desta façanha, e somente a Sétima Arte para ter este poder de execução. As Sete Caras do Dr. Lao (nos cinemas brasileiros foi exibido em fevereiro de 1965 com o título As Sete Faces do Dr. Lao – “caras” é título em exibição na TV) foi o último filme dirigido por George Pal (1908-1980), produtor de diversos espetáculos sustentados por recursos de animação e trucagem. Pal ainda recebeu o Oscar de melhores efeitos especiais por Destino à lua/1950, O Fim do Mundo/1951, Guerra dos Mundos/1953, O Pequeno Polegar/1958, e A Maquina do Tempo/1960.


O estranho e místico chinês Dr. Lao (Tony Randall) chega a um vilarejo do Velho Oeste.
Dr. Lao e seu circo de atrações.
O misterioso Dr. Lao pede a um jornal para divulgar seu circo
Nossa história começa no fim do século XIX, num vilarejo do Velho Oeste, Abalone, no Arizona, dominado por um poderoso latifundiário, Clint Stark (Arthur O’ Connell, 1908-1981). Chega a este vilarejo um estranho oriental, o misterioso e místico Dr. Lao (Tony Randall, 1920-2004), que ali passa a apresentar seu circo ambulante – um bizarro espetáculo com criaturas mitológicas, como o mago Merlin, a Medusa, o cego vidente Apolônio de Tiana, Pan- o Deus da Alegria, uma Serpente Gigante que visa refletir as imperfeições das pessoas, e claro, o Abominável Homem das Neves (todos eles interpretados de modo magnífico por Randall, sendo que o ator impressiona mais como Apolônio).


O inescrupuloso latifundiário Clint Stark (Arthur O' Connell)
O editor do jornal do vilarejo, Ed Cunninghan (John Ericson),
inimigo de Clint Stark.
Clint Stark (Arthur O' Connell) em "caloroso" debate com
Ed Cunningham (John Ericson)
Dr. Lao acaba usando seus personagens para mudar a vida das pessoas, fazendo com que vejam a verdade e com que enxerguem melhor seus problemas, induzindo cada morador do vilarejo a melhor conhecer a si mesmo. Pan e sua flauta mágica hipnotizam a bibliotecária viúva Angela Benedict (Barbara Eden) fazendo com que ela descubra o valor do amor e desperte seus desejos escondidos pelo homem que ama, o jornalista Ed Cunningham (John Ericson, que também personifica Pan no momento da transformação). Aliás, é Cunningham, editor de um pequeno jornal local, o único com coragem para desafiar a prepotência de Stark e de seus ridículos capangas, Carey (Royal Dano, 1922-1994) e Lucas (John Doucette, 1921-1994), porque o latifundiário, por modos escusos, quer vender a pequena Abalone para instalar uma estrada de ferro, enquanto a terra é barata. 


A bibliotecária Angela (Barbara Eden) seduzida pelo deus Pan (na
caracterização de John Ericson).
Angela Benedict (Barbara Eden) deixando soltar seus desejos reprimidos.
O Deus da Alegria Pan, uma das "Sete faces do Dr. Lao", na
caracterização de Tony Randall
A Medusa testa a incredulidade da Senhora Kate Lindquist (Minerva Urecal, 1894-1966) que insiste em não olhá-la pelo espelho e acaba se transformando em pedra; com a Serpente, Dr. Lao toca em verdades secretas demais para o vilão Clint Stark , que se acha poderoso e intocável.  O adivinho Apolônio toca na parte mais triste da solteirona fútil Howard Cassin (Lee Patrick, 1902-1981). Entretanto, nada mais é impressionante do que a amizade que nutre entre o menino Mike Benedict (Kevin Tate), filho de Angela, e o misterioso sábio oriental, que confessa a ele que tem 7.322 anos. 


Dr. Lao (Tony Randall) faz amizade com o menino Mike (Kevin Tate)
Dr. Lao começa a espalhar cartazes pela pequena cidade
anunciando o seu circo.
Tony Randall como Apolônio de Tiana, uma das "Sete caras do Dr. Lao", e uma das mais expressivas das sete caracterizações do ator.
Mike se deixa fascinar pelas mágicas de Merlin, o famoso mago da côrte do Rei Arthur, mesmo que ele algumas vezes falhe em seus números.Não demora e o menino quer também fazer parte do espetáculo. Chega até mesmo a fazer perante o misterioso chinês alguns truques e malabarismos, mas em vez de aceitar Mike, Dr. Lao oferece conselhos e observações sobre o mundo. O garoto não entende as palavras de sabedoria do mágico chinês, e este acaba afirmando que também não.  É daí que parte uma das citações mais memoráveis da fita, quando Dr. Lao explica para Mike que o mundo já é um circo:

"O mundo todo é um circo. Quando olhamos para um punhado de areia e vemos mais do que areia, vemos um mistério, o circo do Dr. Lao estará lá."


O Dr. Lao abre o seu circo para o público.
Dr. Lao, apesar de simpático, também conquista inimigos, como
os capangas de Clint Stark: Carey (Royal Dano) e Lucas (John Doucette)
Tony Randall, no meio da plateia, como ele mesmo.
Todas as “sete caras” são empregadas de acordo com o desarranjo moral de cada habitante do vilarejo.  Abalone é uma cidade pequena, mas capaz de comportar todos os tipos de “males espirituais” representativos do lado cínico e hipócrita da humanidade. Com seus dedos mágicos, o fascinante Dr. Lao, talvez numa alusão a Cristo, de maneira que sobrenatural vai colocando amor onde faz falta, altruísmo onde existem ganância, e esperança onde não existe fé. Seria sem dúvida um santo a maneira como bem entendemos, se não fosse um velho mágico chinês de sete milênios. 


A MEDUSA - Uma das atrações do circo, na caracterização de Tony Randall
A SERPENTE GIGANTE: Nas feições de Arthur O' Connel, mas dublada
por Tony Randall.
O MAGO MERLIN - Uma das grandes  atrações do circo direto da
Côrte do Rei Arthur, na interpretação de Tony Randall).
Baseado no romance O Circo do Dr. Lao (The Circus of Dr. Lao), de autoria de Charles G. Finney (1905-1984) e publicado em 1935, As Sete Caras do Dr. Lao tem o roteiro de Charles Beaumont (1929-1967), tendo ainda a colaboração (não creditada) de Ben Hecht (1894-1964). A trilha foi composta por Leigh Harline (1907–1969). As Sete Caras do Dr. Lao ainda conquistou um Oscar especial pelo primoroso trabalho de maquiagem de William Tuttle (1912-2007). Vale ainda destacar a fotografia de Robert J. Bronner (1907–1969).


O maquiador William Tuttle trabalhando na maquiagem de Randall,
postos a entrar em cena para ser Pan.
As Sete Faces de Tony Randall
O Fabuloso e mágico Dr. Lao.
A preocupação da historia é mostrar que o ser humano às vezes pode ter suas percepções meio distorcidas, podendo estar preparados para acreditar em criaturas bizarras, mas são incapazes de ver e sentir os bons valores que fazem de uma sociedade ordeira e equilibrada, seja pelos costumes e cultura, o que nenhum dinheiro paga. Afinal, um enredo onde predominam poesia, puerilidade, mitologia, filosofia, fantasia, e até pitada de faroeste, se levar em conta que a trama se passa em um vilarejo do Velho Oeste e todos estão caracterizados ao estilo. Este é o fantástico circo do Dr. Lao.  


O Circo do Dr. Lao é a própria vida, e tudo nele é uma maravilha”.


Divulgação da estreia do filme em um jornal carioca, em
fevereiro de 1965.
FICHA TÉCNICA

AS SETE CARAS DO DR. LAO
(7 Faces of Dr. Lao)

PAÍS – ESTADOS UNIDOS
ANO -  1964
GÊNERO - FANTASIA/INFANTIL
DIREÇÃO - GEORGE PAL
PRODUÇÃO - GEORGE PAL
ROTEIRO- CHARLES BEAUMONT, com base no livro de CHARLES G. FINNEY
MÚSICA – LEIGH HARLINE
FOTOGRAFIA – ROBERT J. BRONNER - EM CORES
METRAGEM: 100 MINUTOS
“O Circo do Dr. Lao é a própria vida, e tudo nele é uma maravilha”.
ELENCO

TONY RANDALL – DR. LAO/ MEDUSA/ ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES/MERLIN O MÁGICO/APOLÔNIO DE TIANA/ PAN/ A SERPENTE GIGANTE (VOZ)

BARBARA EDEN – ANGELA BENEDICT
ARTHUR O’ CONNELL – CLINT STARK
JOHN ERICSON – ED CUNNINGHAM/ PAN TRANSFORMADO
NOAH BEERY JR – TIM MITCHELL
LEE PATRICK – SENHORA HOWARD CASSIN
MINERVA URECAL – KATE LINDQUIST
JOHN QUALEN – LUTHER LINDQUIST
ROYAL DANO – CAREY
JOHN DOUCETTE – LUCAS
PEGGY REA – SENHORA PETER RAMSEY
FRANK KREIG – PETER HAMSEY
ARGENTINA BRUNETTI – SARAH BENEDICT
EDDIE LITLE SKY – GEORGE C. GEORGE

PRODUÇÃO E PESQUISA
PAULO TELLES
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sábado, 1 de outubro de 2016

Os Últimos Durões (1986): Lancaster & Douglas pela Última Vez nas Telas, em Humorada Crítica Social.



Hoje, sabe-se que a relação entre estes dois titãs da cinematografia mundial, Burt Lancaster (1913-1994) e Kirk Douglas fora das telas não era das melhores. Embora tivessem atuado juntos em sete filmes (I Walk Alone,1948; Sem Lei e Sem Alma, 1956; O Discípulo do Diabo, 1959; A Lista de Adrian Messenger,1963; Sete Dias de Maio, 1964; Vitória em Entebbe, 1976, para TV; e Os Últimos Durões, 1986), os dois astros pareciam grandes amigos para as plateias, e mesmo em condições onde os dois concedessem entrevistas as vistas perante o público. Entretanto, o elo entre os dois não passava apenas de uma grande fachada de publicidade promovida pelo agente de Kirk Douglas, pois Lancaster tinha na realidade uma personalidade arrogante. Muitas vezes, Burt tratava Kirk com ironia, crueldade, e indiferença.


Burt Lancaster e Kirk Douglas: Foto publicitária, 1956. 
Lancaster & Douglas no maior clássico da dupla: SEM LEI E SEM ALMA,
de John Sturges, realizado em 1956.
Lancaster sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) em novembro de 1990 enquanto visitava seu amigo Dana Andrews (que sofria de doença de Alzheimer e faleceria pouco tempo depois), e desde então, ficou internado até fevereiro do ano seguinte, incapacitado de falar e de se mover até seu falecimento, a 28 de outubro de 1994, aos 80 anos. Kirk Douglas, apesar de uma série de problemas de saúde e até mesmo de um grave acidente aéreo em fevereiro de 1991 (mesma época em que Burt obteve alta do hospital), e que acabou matando dois dos ocupantes do helicóptero sendo o ator o único sobrevivente (acidente este que lhe provocou uma lesão nas costas debilitante), ainda vive e esta prestes a completar 100 anos no próximo mês de dezembro. 


Burt Lancaster é Harry Doyle, e Kirk Douglas é Archie Long, que
saem do presídio após cumprir pena de 30 anos.
Os Últimos Durões (Tough Guys, 1986) marcou o último encontro destas duas lendas, registrando o retorno às telas de Lancaster e Douglas, numa intriga de muita ação e comicidade, dirigida por Jeff Kanew, que três anos antes (1983) havia dirigido Kirk no excelente policial Caçada Impiedosa/Eddie Macon's Run, realizado para televisão. Lancaster então com 73 anos, e Douglas com 70, esbanjam na Terceira Idade charme, simpatia, e até mesmo disposição para algumas eletrizantes cenas de ação.


Após saírem da prisão, a vida não será fácil para os já idosos
Archie (Kirk Douglas) e Harry (Burt Lancaster).
Harry Doyle (Lancaster) rendendo um assaltante, que tentou
assaltar um banco.
Dois veteranos assaltantes de trens, Harry Doyle (Lancaster) e Archie Long (Douglas), ganham a liberdade condicional após passarem exatos 30 anos na cadeia. Motivo da pena: os dois cometeram o último assalto de trem registrado nos Estados Unidos, em 1956. Ao saírem do presídio, anacronismos vivos, se deparam com uma Los Angeles completamente diferente da que conheceram. Acabam nas mãos do jovem assistente social Richie Evans (Dana Carvey), que os admira e tem conhecimento das façanhas dos dois ex-detentos. Mas movido pelas regras da lei, os dois amigos tem que se separar. Harry vai para uma casa de repouso para idosos e lá reencontra Belle (Alexis Smith, 1921- 1993), sua ex-namorada e uma ex-vedete. Archie, após experimentar diversos empregos (numa sorveteria e num restaurante) e ser discriminado pela sociedade por sua condição de ex-presidiário, vai trabalhar numa academia de ginástica e conhece a administradora, Syke Foster (Darlanne Fluegel), com quem inicia uma relação amorosa, e para surpresa de Archie, com maratona de muito sexo.


Archie e Harry são auxiliados pelo jovem assistente social Richie
(Dana Carvey), que assume ser fã da velha dupla. 
Archie (Kirk Douglas) não perdeu a boa forma e tenta provar
para a sociedade que não é um inválido.
Entretanto, sentindo que estão sendo tratados como inválidos pela sociedade, os dois voltam a se reunir e logo voltam a por em prática a velha ação. Contudo, fracassam em reunir a antiga quadrilha, e também em tentar assaltar um carro-forte. Até que a dupla tem em mente de repetir o assalto de trinta anos antes e que o fizeram ser presos, apoderando-se do trem Gold Coast Flyer, prestes a se aposentar após meio século de serviços. Mas para piorar a situação, os dois velhos fora da lei estão sendo perseguidos por um detetive aposentado que foi o mesmo policial que os prendera trinta anos atrás, e que não acredita na regeneração da dupla, Dake Yablonski (Charles Durning, 1923-2012).


Leon B. Litle (Eli Wallach) quer levar a incumbência que recebeu 30
anos atrás: matar Archie e Harry, mas são impedidos por Richie
(Dana Carvey) e pela namorada de Harry, a ex-vedete Belle (Alexis Smith)
Archie Long (Kirk Douglas) em ação.
No encalço de Harry e Archie, ainda esta o esquisito Leon B.Litle (Eli Wallach, 1916-2015), um pistoleiro que recebera a incumbência de mata-los na mesma época em que haviam sido presos, e que mesmo passado tantos anos, ainda esta obstinado a dar cabo da missão, conforme acordo feito com um gangster há três décadas.  Entre todos estes obstáculos e perigos, os dois veteranos resolvem dar a empreitada, para mostrar a sociedade que são tão bons como antigamente.


A dupla de veteranos são verdadeiros mestres na arte da
malandragem.
Tanto que colocam pra fora do caminho uma gang de adolescentes
Os Últimos Durões é uma comédia dramática em tom policial, mas feita como uma resposta para a sociedade e como que eles podem maltratar seus idosos. A história é bem urdida, mesmo a despeito de algumas implausibilidades  a que se deixa levar o roteiro de James Orr e Jim Chuickshank, onde a direção de Jeff Kanew soube acionar com charme em proveito de cinco grandes veteranos do cinema, que são os ótimos Burt Lancaster, Kirk Douglas, Eli Wallach, Charles Durning, e Alexis Smith. 


O machão Archie vai parar sem querer num bar gay.
Archie cai no embalo com Syke, vivida por Darlanne Fluegel
As críticas à sociedade são ministradas logo na primeira metade do filme, onde as peripécias dos “idosos heróis” são imensamente hilárias, como num banco onde evitam um assalto, num bar gay onde Archie vai parar acidentalmente, e quando a dupla encontra uma gang de adolescentes e os tira do caminho.  Kirk Douglas esbanja boa forma física aos 70 anos, na cena em que entra para uma academia de ginástica e malha pegando em pesos e pulando na corda, como já fizera no clássico O Invencível, em 1949, um dos grandes filmes sobre o boxe. Aliás, entre a dupla de veteranos, Douglas é que tem as partes mais engraçadas e carrega sua graça ao longo do filme, enquanto Lancaster tem um desempenho mais dramático, sem perder o teor do humor. 


Archie tem um relacionamento romântico com uma moça trinta
anos mais jovem, Syke, regada a maratona de muito sexo.
Eli Wallach, responsável pela maior parte das cenas engraçadas.
O assalto ao carro-forte também merece destaque entre as cenas mais engraçadas, contudo, nenhum dos momentos mais hilários se compara ao personagem vivido por Wallach, um alopradíssimo pistoleiro que quer executar sua missão a todo custo e matar a dupla. Também não deixa de ser interessante a abordagem amorosa, onde vemos o reencontro de Doyle (Lancaster) e Belle (Alexis Smith, ainda bela e em boa forma), prestes a um encontro romântico num dos quartos do asilo, quando são impedidos pela proprietária, que acha ridículo duas pessoas idosas fazerem sexo. Mais bem aventurado é Archie (Douglas), que mesmo não sendo aceito pela sociedade pela sua condição de ex-detento e não conseguir parar em emprego, cede as aventuras amorosas com uma jovem de 20 anos, a dona de uma academia de ginástica vivida por Darlanne Fluegel.

Harry (Burt Lancaster) rende o maquinista.
Harry (Lancaster) e Archie (Douglas), planejando um novo assalto.
A partir das cenas do assalto ao Gold Coast Flyer, Os Últimos Durões comete algumas falhas, resvalando até mesmo em situações além dos surreais. Apesar dos momentos engraçados e um roteiro curioso, o filme fecha sem grandes repercussões, onde fica evidente a simpática homenagem a duas grandes lendas da Sétima Arte, Burt Lancaster e Kirk Douglas, mas mais do que isso representou uma crítica ao sistema, que se recusa a aceitar ex-presidiários no mercado de trabalho após cumprir seu débito para com a sociedade e lhes são negadas uma segunda chance, além do maltrato para com os idosos. Contudo, fica difícil imaginar que dois veteranos assaltantes que passem 30 anos atrás das grades não tenham acompanhado as mudanças socioculturais ao longo desse tempo. Talvez seja o maior deslize da fita.

Enfim, Harry e Archie conseguem a empreitada.
Os astros Burt Lancaster e Kirk Douglas, concedendo uma
entrevista nos bastidores
Divulgação do filme em um jornal carioca, em 1987.
Algumas citações no filme poderão ser reparadas pelos cinéfilos mais observadores, como a de Sem Lei e Sem Alma, grande clássico com Lancaster & Douglas, dirigido por John Sturges. A película ainda conta com um punhado de clássicos da música popular americana, que despontam Glenn Miller, Bing Crosby, Kenny Rogers e Janet Jackson. Pode não ser um dos melhores filmes com a dupla Lancaster & Douglas, mas na certa se tornou uma lembrança que registrou o último encontro dessas duas “feras” do cinema internacional, provando que a velhice não é empecilho para entreter plateias e até mesmo cativar novos fãs e admiradores no mundo da Sétima Arte. 

FICHA TÉCNICA
OS ÚLTIMOS DURÕES
(THE TOUGH GUYS)

País: Estados Unidos

Ano: 1986

Direção: Jeff Kanew

Produção: Joe Wizan, Richard Hashimoto
Kirk Douglas (produtor associado)

Estúdio: Touchstone Picture, Buena Vista, e Bryna Productions

Música: James Newton Howard

Fotografia: King Baggot

Roteiro: James Orr e Jim Cruickshank

Metragem: 99 minutos


O ELENCO PRINCIPAL: Acima, Eli Wallach, Dana Carvey, e Charles Durning.
Sentados, Alexis Smith, Burt Lancaster, Kirk Douglas, e Darlanne Fluegel.

ELENCO
Burt Lancaster – Harry Doyle

Kirk Douglas – Archie Long

Charles Durning – Dake Yablonski

Alexis Smith – Belle

Dana Carvey – Richie Evans

Darlanne Fluegel – Syke

Eli Wallach - Leon B. Little

Monty Ash – Vince

Billy Barty – Philly

Simmy Bow – Schultz

Darlene Conley - Gladys Ripps

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