Em fins de
1954, John Wayne (1907-1979) queria interpretar um personagem histórico, para
dar um ar de variedade em sua carreira, afinal, o grande Duke não pretendia ter seu bom nome apenas nos Westerns, muito embora este tenha sido seu verdadeiro e costumeiro habitat. Por isso, resolveu pedir ao
produtor, diretor, e ator Dick Powell (1904-1963) que deixasse interpretar o
guerreiro mongol Genghis Khan (1167-1227), em Sangue de Bárbaros (The
Conqueror), em megaprodução do bilionário e polêmico Howard Hughes (1905-1976)
para a RKO. Powell não achou que Wayne era o ator adequado para interpretar um
mongol, mas atendeu assim mesmo o pedido de Duke.
Mas como diria o próprio Powell pouco depois: “quem sou eu para recusar um pedido de John Wayne!”.
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| A esquerda, John Wayne, e no meio, o diretor Dick Powell. |
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| John Wayne é Temujim, mais tarde consagrado como GENGHIS KHAN. |
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| Wayne durante o intervalo das filmagens, sem o bigode postiço |
Considerada
talvez uma das produções mais extravagantes do cinema, digna de um produtor tão
extravagante como era Howard Hughes, esta aventura épica produzida por seis
milhões de dólares para a extinta RKO, foi o segundo filme dirigido pelo ator
Dick Powell. O elenco contou com as participações de Susan Hayward (1918-1975),
Pedro Armendariz (1912-1963), Lee Van Cleef (1925-1989), Leo Gordon
(1922-2000), William Conrad (1920-1994), Agnes Moorehead (1900-1974) e Thomas
Gomez (1905-1971), isto é, um “bando” de norte-americanos e mexicanos
“transformados” em mongóis.
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| Temujin e a Princesa Bortai (Susan Haward) |
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| Temujin e seu irmão de sangue Jamuga, vivido pelo excelente Pedro Armendariz. |
O filme, roteirizado
por Oscar Millard (1908-1990), trata da história de Temujim (John Wayne), que
mais tarde seria conhecido como Genghis Khan, líder dos mongóis, que juntamente com seu irmão de
sangue Jamuga (Pedro Armendariz) e seus mongóis, ataca uma caravana tártara e
captura a Princesa Bortai (Susan Hayward), filha do chefe tártaro Kumleck (Ted
De Corsia, 1905-1973), assassino do pai de Temujim. Mas o líder dos mongóis
esta disposto a fazer da princesa tártara sua esposa. Em seguida, vai buscar
aliança do chefe chinês Wang Khan (Thomas Gomez) para dizimar os tártaros.
Contudo, Temujim é traído pelo seu irmão Jamuga e feito prisioneiro dos
tártaros. A partir deste momento é que a princesa tártara descobre que esta
apaixonada por Temujim, ajudando-o a escapar e a perseguir Kumleck e,
finalmente, vencer os tártaros.
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| Bortai e Temujin com Wang Khan (Thomas Gomez) -o início de uma trama |
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| Wang Khan e seu Shamam, vivido por John Hoyt. |
A Pré-estreia
havia sido planejada para Moscou, mas um filme estrelado por John Wayne, o
Herói americano por excelência, estava fora de questão em terras soviéticas (e em plena Guerra Fria), pelo menos enquanto Nikita
Khrushchov (1894-1971) ocupasse a cadeira de primeiro ministro. Logo, o
lançamento foi realizado nos Estados Unidos a 25 de março de 1956. Entretanto,
The Conqueror é considerado um dos
maiores fiascos da carreira de Duke.
Wayne tentou justificar seu papel e o filme em uma entrevista: “Quando li o roteiro, tive a nítida impressão
de estar lendo o roteiro de um western. Aquilo despertou o meu interesse e eu
resolvi interpretar Genghis Khan como um pistoleiro”. Por tais palavras, a
afirmação de Wayne poder ser considerada por sincera e honesta.
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| Bortai e seu cruel pai, o líder dos tártaros Kumleck |
Mas tal justificativa nem convenceu a ele
próprio, pois fazer uma simples menção deste filme em entrevistas posteriores,
Wayne mudava de tom, dando a entender que mais tarde se arrependeu de ter feito
a película. E não foi sem motivos, pois o filme fracassou comercialmente, fracasso de crítica e público apesar de toda a excelência de um elenco primoroso, sendo considerada uma das piores fitas da década de 1950. Mas não demorou, e Duke
conseguiu superar este fiasco, e nos brindou com seu melhor e mais digno
desempenho em seu grande sucesso, Rastros
de ódio (The Searchers), sob a direção de seu compadre John Ford, que
dirigia assim seu primeiro western filmado em Vistavision, um formato próprio para projeção em tela panorâmica. Acredita-se
que Howard Hughes tenha se sentido culpado acerca de suas decisões quanto à
produção do filme, mantendo-o arquivado até 1974, ano em que foi exibido pela
primeira vez na televisão americana (na brasileira, dez anos depois, em 1984). Aliás,
Hughes, vivendo em seu “casulo” e com suas manias nos momentos finais
de sua vida, assistia ininterruptamente ao filme. Vale ainda destacar a trilha
sonora de Victor Young (1899-1956),
em uma de suas últimas composições para o cinema.
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| O Magnata Produtor Howard Hughes. |
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| John Wayne como Genghis Khan. |
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| O diretor Dick Powell num momento de descontração com os atores John Wayne, Thomas Gomez, e Susan Hayward, numa pausa das rodagens. |
Mas se o
filme, por sua vez, para alguns críticos ou apreciadores do cinema antigo não é
grande coisa, mesmo demonstrando outra faceta de John Wayne nas telas, há
outros, entretanto que parecem ver coisas além da própria fita. Há tempos que correm boatos de que atores e
técnicos do filme vieram a morrer de câncer por ficarem expostos, durante a
rodagem, a radiações atômicas na área nuclear de Los Alamos, Novo México.
Contudo, tais boatos poderiam ser infundados se o filme não tivesse sido rodado
no deserto de Utha (que se passou pelo deserto asiático de Gobi), próximo a
cidade de St.George, a 220 km a favor do vento das áreas onde estavam se
realizando os testes de nucleares . Os boatos até hoje persistem, mais de 60
anos após o lançamento de Sangue de Bárbaros.
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| Concentração antes de continuarem as filmagens. |
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| Agnes Moorehead vive a mãe de Genghis Khan. |
As filmagens
das cenas externas começaram em 1954. As locações em St. George não foram
concluídas no tempo determinado, e por isso, Howard Hughes teria tido uma ideia
interessante: retirar 60 toneladas de terra desse local e enviar para
Hollywood, onde as filmagens deveriam ser concluídas em estúdio, mantendo a
semelhança com o local da locação. Sim, existia entre a produção conhecimento
dos testes nucleares realizados em Los Alamos, mas o governo norte-americano
teria assegurado que não haveria nenhum risco de contaminação. O fato é que
existem sérias suspeitas de que, uma boa parte do elenco e da equipe teriam
sido vítimas da radiação das explosões. Para alguns, parece não se tratar de
simples coincidência, ou de fatos infundados. Até hoje, o filme Sangue de Bárbaros é mais lembrado por
esta “lenda urbana” hollywoodiana do que propriamente pelo seu espetáculo extravagantemente
cinematográfico e épico.
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| O diretor e ator Dick Powell |
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| Pedro Armendariz e John Wayne |
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| Susan Hayward, Agnes Moorehead, e John Wayne |
Entre boatos
e especulações, o fato é que muitos dos que trabalharam neste filme faleceram
por conta da doença. Dick Powel, o diretor do filme, foi diagnosticado com
linfoma e morreu em 1963, sete anos após o lançamento do filme. Pedro
Armendariz descobriu um câncer nos rins e se suicidou em 1963 com um tiro no
hospital onde estava internado (levou a arma escondida sem despertar qualquer
suspeita), após perceber que não haveria possibilidade de cura. Susan Hayward
morreu em 1975 de um tumor cerebral, depois de uma luta titânica de dez anos
contra a doença em outras partes do corpo. Agnes Moorehead faleceu um ano antes
de Susan, também vítima de câncer, em 1974. No filme, ela faz o papel da mãe de
Temujim. Moorehead era apenas sete anos mais velha do que John Wayne. Thomas Gomez, também sofreu com a doença. Outro ator, John Hoyt, também faleceu de
câncer em 1991.
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| Timothy Barker, filho de Susan Hayward, em visita a mãe no set de filmagem |
Outros 46
participantes da filmagem, bem como figurantes, vieram a falecer de câncer. Ao
fim, 100 participantes, convidados ou familiares que estiveram presentes nas
filmagens foram atingidos pelas partículas radioativas lançadas pelo vento do
local (o Utah é na realidade um deserto e tem ventos fortíssimos), incluindo
Michael e Patrick Wayne, filhos de John Wayne, e Timothy Barker, filho de Susan
Hayward, que visitaram seus pais no deserto. Michael morreu em 2003 aos 68 anos
com o mesmo mal. Patrick ainda vive e superou a doença. Mas nem todos os atores
que atuaram na produção de Sangue de
Bárbaros morreram da mesma doença. Ted De Corsia, Lee Van Cleef, Leo Gordon, e
William Conrad, não tiveram as suas mortes associadas ao câncer.
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| Bortai e Temujim: do ódio ao amor. |
John Wayne
poderia ter contraído a doença durante as filmagens, muito embora fosse um
fumante inveterado desde a juventude (mesmo sendo também um grande atleta na
universidade). A parte, grande maioria dos atores e membros da equipe técnica
também eram fumantes. Wayne foi diagnosticado em 1964 com câncer de pulmão,
passando por uma cirurgia para remoção de todo o pulmão esquerdo e quatro
costelas. Apesar dos esforços de seus agentes em evitar que ele tornasse a
doença pública, o ator anunciou à imprensa que estava com câncer e fez um apelo
para que a população fizesse mais exames preventivos. Cinco anos depois,
determinaram que ele estivesse livre da doença, e apesar da diminuição da
capacidade pulmonar, pouco depois, Wayne voltou a mascar tabaco e a fumar. No
final da década de 1970, Wayne envolveu-se como voluntário nos estudos de uma
vacina para a cura do câncer, vindo a morrer a 11 de junho de 1979 em
decorrência de um câncer de estômago.
A questão da
alta incidência de casos de câncer entre os que participaram das filmagens de The Conqueror nunca foi devidamente
investigada. Contudo, é praticamente possível que muitos dos moradores das
áreas próximas aos testes nucleares desenvolveram a doença devido à
radioatividade liberada dos testes e alguns receberam indenizações do governo
norte-americano muito tempo depois. Suspeita-se também que filhos dessas
pessoas também teriam sido afetados. Após a conclusão de Sangue de Bárbaros, descobriram que alguns meses antes da
filmagem, o governo americano realizou testes nucleares a céu aberto (hoje
proibidos), a 220 km da locação das filmagens, e que a equipe tinha sido
exposta a um nível fatal de radiação.
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| John Wayne e o busto do verdadeiro Genghis Khan. Nada a ver. |
Se forem
fatos fundamentados ou não sobre o que se circulou nos bastidores de Sangue de Bárbaros, nunca saberemos ao
certo, deixando apenas lacunas para que todos possam tirar suas conclusões a
respeito.
FICHA TÉCNICA
SANGUE DE BÁRBAROS
THE CONQUEROR
ANO: 1956
DIREÇÃO: Dick Powell
ROTEIRO: Oscar Millard
FOTOGRAFIA: Em Cores
DURAÇÃO: 111 Minutos
ELENCO
JOHN WAYNE – TEMUJIM/GENGHIS KHAN
SUSAN HAYWARD – PRINCESA BORTAI
PEDRO ARMENDARIZ
– JAMUGA
AGNES MOOREHEAD – HUNLUN
THOMAS GOMEZ – WANG KHAN
JOHN HOYT – SHAMAN
WILLIAM CONRAD – KASAR
TED DE CORSIA – KUMLEK
LESLIE BRADLEY – TARGUTAI
LEE VAN CLEEF – CHEPEI
PETER MAMAKOS –
BOGURCHI
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