sexta-feira, 10 de junho de 2016

Doutor Jivago (1965): A Epopeia Romântica e Política em uma Saga Soviética de David Lean.


Doutor Jivago (Doctor Zhivago), produzido em 1965, tem a fama de ser um dos filmes mais suntuosos que a Sétima Arte já produziu, e também não foi para menos.  Precisou-se de quase três anos de preparos ao custo de 11 milhões de dólares. Todavia, o filme arrecadou só no mercado norte-americano 46, 5 milhões de dólares, e ainda arrebatou os Oscars de melhor roteiro adaptado (Robert Bolt, 1924-1995), melhor foto em cores (Freddie Young, 1902-1998), melhor música (Maurice Jarre, 1924-2009 – com o famoso “Tema de Lara”), melhor cenografia em cores, e melhor vestuário em cores.

SAGA PARA UMA REALIZAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Produzido em plena Guerra Fria, Doutor Jivago serviu de propaganda anticomunista por mostrar os horrores da Revolução Bolchevista que promoveu o povo russo à pobreza e a miséria, sujeitando à frieza e o autoritarismo dos líderes revolucionários.


O Cineasta David Lean (1908-1991)
Sob a direção do austero cineasta inglês David Lean (1908-1991), este fez questão de rodar sua superprodução na Espanha (imitando a Russia) e na Finlândia (passando pela Sibéria). Aliás, a Espanha sempre foi o clássico refúgio dos cineastas e produtores cinematográficos, pois era mais lucrativo para a contenção de despesas, assim, a Metro-Goldwyn-Mayer, produtora do filme, escolheu o local para a rodagem desta grande superprodução.


Lean entre Geraldine Chaplin e Julie Christie, as estrelas femininas
de DOUTOR JIVAGO (1965)
Geraldine Chaplin e Julie Christie, em uma foto durante
intervalo de filmagem.
Lean escolheu precisamente a cidade de Sória (Espanha) para o início de seu épico. Daí veio algumas complicações, pois o local é uma das regiões mais frias do país, muito embora não fosse problema em obter caracteristicamente neves “russas”. Entretanto, em fins de janeiro de 1963, frio e inverno como é em toda a Europa, a neve não resolvia aparecer, e o elenco se sentia desanimado. Nisto, uma bela nevada veio a ocorrer, dando início, finalmente, as filmagens.


Omar Sharif durante uma pausa nas filmagens, em Madrid.
O Cast magnífico de DOUTOR JIVAGO (1965), no friorento
inverno europeu.
David Lean se entregou de corpo e alma ao trabalho, justificando cem por cento sua fama de extrema meticulosidade e concentração em sua metodologia de trabalho.  O cineasta fez questão de recriar o caráter exato dos personagens de acordo com o livro de Boris Pasternak, partindo do princípio que os tipos descritos no romance eram gente comum, apanhados dentro da engrenagem da revolução e sofrendo as consequências dos fatos. Assim, para Lean personifica-los nas telas de cinema, os atores tinham que ser bem especiais, para assim confeccionar sua saga soviética com proporções bem épicas a altura de um grande espetáculo.


O LIVRO DE BORIS PASTERNAK

O filme de Lean, em seus 197 minutos de projeção, comprime-se com o volumoso romance (publicado em 1957) do russo Boris Pasternak (1890-1960), um dos primeiros escritores dissidentes da União-Soviética. Pasternak começou a escrever o romance em 1946 e levou dez anos para concluí-lo. Ao terminar, ficou inseguro se devia publicá-lo, pois a obra contrariava as normas ditadas pelo governo soviético para a literatura.


BORIS PASTERNAK, o autor do romance DOUTOR JIVAGO,
iniciado em 1946 e concluído em dez anos depois.
Sem condições de publicar seu romance em terras soviéticas, o livro foi publicado na Itália a 23 de novembro de 1957, conseguindo rápida notoriedade em 1958, quando lhe foi conferido o Premio Nobel de Literatura. Infelizmente, por imposição do Kremlin, Pasternak não pôde aceitar a láurea, pois caso fizesse, isso poderia levá-lo à detenção em um campo de trabalho forçado na Sibéria. 


Boris Pasternak (1890-1960), poeta e romancista russo,
Prêmio Nobel de Literatura em 1958, não pôde
aceitar a premiação.
Na Rússia, Boris é mais conhecido como poeta do que como romancista, em virtude de o livro Doutor Jivago não ter feito sucesso na antiga União Soviética por motivos obviamente políticos. É interessante observar, no entanto, que o personagem principal, homônimo ao livro, é, justamente, um poeta que tem problemas com as autoridades soviéticas, embora simpatizante da causa dos deserdados. Assim, é possível afirmar que Doutor Jovago é o alter-ego do próprio autor do romance, Boris Pasternak.


Exemplar americano de uma edição do romance DOUTOR JIVAGO,
de Boris Pasternak, publicado durante o embalo do filme, em 1966.
A obra literária foi proibida na União Soviética até 1989, quando a política de abertura de Mikhail Gorbachev liberou a publicação do livro. Somente a partir daquele ano, os russos puderam conhecer a saga de Jivago através da literatura. Boris Pasternak morreu a 30 de maio de 1960 de câncer de pulmão, sem poder assistir ao estrondoso sucesso da adaptação cinematográfica de seu famoso e imortal romance. 

DAVID LEAN, O SENHOR DOS ESPETÁCULOS
David Lean, o diretor de DOUTOR JIVAGO (1965)
Robert Bolt, escritor e roteirista, que deu vida ao
script de DOUTOR JIVAGO (1965)
O fotógrafo Freddie Young, que realizou um trabalho
competente de fotografia para DOUTOR JIVAGO (1965)
O produtor Carlo Ponti (1912-2007) adquiriu os direitos do romance de Pasternak para as filmagens deste grandioso espetáculo, contratando o roteirista Robert Bolt para editar o script, que o fez em 224 páginas. David Lean se encarregou de concretizar um grande elenco internacional, sendo Doutor Jivago o terceiro título da última fase de sua carreira marcada de superproduções espetaculares, desde A Ponte do Rio Kwai (1957), passando por Lawrence da Arábia (1962), e culminando com A Filha de Ryan (1970). Ou seja: foram apenas quatro filmes em 13 anos, todos detentores do Oscar, muito embora o período de maior prestígio crítico de David Lean seja seus trabalhos anteriores realizados em sua pátria natal, como Desencanto (1945), Grandes Esperanças (1947), Oliver Twist (1948), e Sem Barreiras no Céu (1952).


O Compositor Maurice Jarre, que escreveu a partitura para
DOUTOR JIVAGO (1965), cuja uma das músicas marcantes
é o seu "Tema de Lara", que ganhou o Oscar.
David Lean comandando a direção durante as filmagens.
Com exceção de A Ponte do Rio Kwai, as outras três superproduções dirigidas por Lean contaram com a colaboração do roteirista Robert Bold para o argumento, além do fotógrafo Freddie Young, e do compositor Maurice Jarre. E como os demais superespetáculos dirigidos por Lean, bem assessorados por uma competente equipe onde estão inclusos um inteligente roteirista, um fotógrafo brilhante, e um compositor magistral, também não poderia deixar de ostentar um elenco All Star para dar vida cinematográfica ao romance de Boris Pasternak. 

O ELENCO
Omar Sharif como o DOUTOR JIVAGO (1965)
Para encarnar o papel-título, caracterizado pelo seu desprendimento das coisas, refinamento e nobreza, a escolha recaiu sobre Omar Sharif (1932-2015), ator de grande força e presença.


Geraldine Chaplin, sensacional como a esposa de Jivago, Tonya.
Geraldine Chaplin foi convocada para viver Tonya, esposa de Jivago, mas não demorou, suscitou imediatamente uma onda de comentários maldosos. Segundo as más línguas (e infelizes), o único mérito da atriz era por ser filha de Charles Chaplin (1889-1977) e que toda sua arte resumia-se nisto. Contudo, estes boatos (por sinal, burros) foram desmentidos violentamente por David Lean, que afirmou tê-la escolhido pela excelente qualidade de seus testes feitos para o papel antes do contrato.


Julie Christie como Lara, o verdadeiro amor do protagonista.
O terceiro papel importante, o de Lara, outro amor de Jivago, coube a Julie Christie, então nesta época uma atriz muito promissora, com experiência em teatro, e que não tardaria a ganhar o Oscar como melhor atriz, em 1965, pela sua atuação em Darling, a que Amou Demais/Darling, de John Schlesinger (1926-2003), onde posteriormente revelou ser uma artista de grande talento através dos anos.

Alec Guinness, um dos grandes nomes da película, como o
irmão de Jivago.
Sir Ralph Richardson, como o pai adotivo de Jivago.
Rod Steiger como o nojento e inescrupuloso negociante
Victor Komarovsky
Assim, contratando um elenco de primeira grandeza liderado por um ator de grande porte como Omar Sharif (falecido no ano passado aos 84 anos, seu filho, Tarek Sharif, faz ponta no filme como Jivago aos 8 anos de idade), dando uma fabulosa oportunidade a uma atriz como Julie Christie, então quase uma novata – e ainda, chamando uma artista sem nenhuma experiência prévia no cinema como Geraldine Chaplin, o diretor David Lean desmentiu por vez o antigo e arraigado conceito de que só se emprega “rios de dinheiro” num filme que disponha de grandes nomes, verdadeiros chamarizes de bilheteria. Além de Sharif, Chaplin, e Christie, Tom Courtenay, Alec Guinness (1914-2000), Ralph Richardson (1902-1983), Rod Steiger (1925-2002), Siobhan McKenna (1923-1986), Rita Tushingham, e Klaus Kinski (1926-1991), são alguns outros nomes não menos importantes que despontam nesta obra prima da Sétima Arte.

 A TRAMA
Em suas 3 horas e 17 minutos de duração, Lean descreve a saga de Yuri Jivago (Omar Sharif), médico que se casa com uma amiga de infância, Tonya (Geraldine Chaplin), na Moscou do início do século XX, e com ela, vem a ter um filho. Contudo, Jivago se aproxima de Lara (Julie Christie), jovem estudante ligada a um revolucionário idealista, Pavel Antipov (Tom Courtenay), apelidado de Pasha. Mas vem o médico, a saber, que ela é protegida por Victor Komarovsky (Rod Steiger), um nojento e inescrupuloso negociante.  


Jivago e Tonya no meio das dificuldades.
Omar Sharif como o poeta, aristocrata, e médico, Yuri Jivago.
Yuri Jivago, um homem idealista.
Quando Lara decide se casar com Pasha, ela é humilhada e brutalizada por Komarovsky. Quando eclode a Primeira Guerra Mundial, Jivago reencontra Lara, que havia se tornado uma enfermeira voluntária a fim de localizar o marido perdido no front. Com a Revolução de 1917, Jivago se muda com sua família para o vilarejo de Varykino nos Montes Urais, onde tem um encontro com Pasha, agora um oficial desumano e fanático.


O negociante Komarovsky, "protegendo" Lara e sua mãe.
Cansada dos abusos, Lara resolve se vingar de Komavosky.
Julie Christie, em um grande desempenho como a sofrida Lara.
Ainda mais tarde, o médico reencontrará Lara, e se tornam amantes. Compulsoriamente convocados pelos partisans, o médico é liberado, mas descobre que sua esposa Tonya e seu filho voltaram a Moscou. Novamente o destino colocará Jivago junto a Lara, em Varykino.


OS BOLCHEVIQUES - Ao ataque!
A amarga e dura Revolução.
A Guerra Civil entre os exércitos.
Através da saga de Yuri Jivago, a plateia viaja pela transição revolucionária. Inicia-se ainda na Rússia dos Czares, as manifestações populares promovidas pelos bolcheviques, a repressão feroz aos movimentos, a revolução, e o pós-revolução com a guerra civil entre exércitos vermelhos e brancos.


No meio de tanta dor...
existe o momento do amor, e dos reencontros.
Podemos notar também o discurso de crítica ao sistema socialista nas cenas anteriores e posteriores à revolução. Antes da revolução é mostrada uma Rússia com uma aristocracia rica, belos salões, culta e, até mesmo, despreocupada.


Yuri Jivago e sua amada Lara
O casal Yuri e Tonya
Jivago ainda como estudante de Medicina.
O próprio Jivago é um médico e poeta aristocrata de sucesso. Após a revolução, todo o cenário e a sociedade até então elitista, se empobrecem. Inclusive Jivago, que perde as propriedades e acaba pobre e doente. Este percurso da trama descreve o senso comum de que o socialismo divide a pobreza e a miséria, corroborando ser um método político promotor da desgraça.


Yevgraf (Alec Guinness), a procura da filha de seu irmão,
que pode ser esta garota (Rita Tushingham)
Lara e sua filha com Jivago, depois desaparecida.
Em meio a dor e ao sofrimento das guerras, uma imortal
história de amor.
Mas Doutor Jivago, além de ser uma epopeia política, denunciando os horrores do socialismo, também se concentra na história de amor entre o médico e sua amada Lara, um amor que nunca os une em definitivo, mas sempre em dose de reencontros.  


Doutor Jivago operando um soldado ferido, tendo Lara como sua ajudante.
DOUTOR JIVAGO, de 1965. Direção de David Lean. Uma das obras primas mais suntuosas de toda a História da Sétima Arte.
Assim, a superprodução dirigida majestosamente por David Lean, se propôs com um tremendo clima dramático recriar um épico em que se expôs ao mundo uma visão ciclópica de um caos deliberadamente armado.Uma obra cinematográfica pletórica de tempestades de guerra, de revoluções, de paixões humanas, e da natureza em fúria. Enfim, um grande sucesso do cinema mundial.


Propaganda de um jornal carioca, a 13 de junho de 1966,
com intuito de promover o lançamento do filme nas
salas de cinema do Rio de Janeiro, com
pompas merecidamente devidas.

FICHA TÉCNICA
DOUTOR JIVAGO
(Doctor Zhivago)
Pais: Estados Unidos/Inglaterra
Ano: 1965
Gênero: Drama, Romance, Épico
Direção: David Lean
Roteiro:  Robert Bolt
Produção: Carlo Ponti, para a Metro Goldwyn Mayer
Trilha Sonora: Maurice Jarre
Fotografia: Frederick A. Young
Edição:    Norman Savage
Direção de Arte: Terence Marsh, Dario Simoni
Figurino: Phyllis Dalton
Maquiagem: Mario Van Riel, Grazia De Rossi, Anna Cristofani
Efeitos Sonoros: A.W. Watkins, Franklin Milton, Paddy Cunningham
Efeitos Especiais: Eddie Fowlie
Tempo de Duração: 197 minutos 



ELENCO
Omar Sharif - Dr. Yuri Jivago
Julie Christie - Lara Antipova
Geraldine Chaplin- Tonya
Rod Steiger     - Victor Komarovsky
Alec Guinness - General Yevgraf Jivago
Tom Courtenay       - Pasha Antipova
Siobhan McKenna - Anna
Ralph Richardson - Alexander Gromeko
Rita Tushingham - Tonya Komarova
Jeffrey Rockland - Sasha
Tarek Sharif - Yuri, aos 8 anos
Bernard Kay - Bolshevik
Klaus Kinski - Kostoyed Amourski
Gérard Tichy - Liberius
Noel Willman - Razin
Geoffrey Keen - Boris Kurt
Adrienne Corri - Amelia, mãe de Lara




PRÊMIOS

Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood, EUA
Oscar de Melhor Fotografia a Cores (Freddie Young )
Oscar de Melhor Trilha Sonora (Maurice Jarre )
Oscar de Melhor Figurino (Phyllis Dalton )
Oscar de Melhor Direção de Arte - Decoração de Cenários (John Box, Dario Simoni, Terence Marsh)
Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (Robert Bolt)

Prêmios Globo de Ouro, EUA
Prêmio de Melhor Filme - Drama
Prêmio de Melhor Trilha Sonora Original (Maurice Jarre)
Prêmio de Melhor Roteiro (Robert Bolt)
Prêmio de Melhor Direção (David Lean)
Prêmio de Melhor Ator em um Drama (Omar Sharif)

Prêmios David di Donatello, Itália
Prêmio de Melhor Direção de um Filme Estrangeiro (David Lean )
David de Melhor Produção Estrangeira (Carlo Ponti)
David de Melhor Atriz Estrangeira (Julie Christie)

Prêmios Grammy, EUA
Grammy de Melhor Trilha Sonora (Maurice Jarre)

Prêmios Laurel, USA
Prêmio Laurel de Ouro de Melhor Drama

PRODUÇÃO E PESQUISA: 
PAULO TELLES

9 comentários:

  1. O artigo aguçou ainda mais minha curiosidade em ver o filme. Ontem mesmo fazia uma lista de clássicos pra assistir e DR. Jivago está entre os escolhidos. O livro eu não conhecia, vou procura-lo, sempre gosto de ler o livro antes de ver filme. Ótimo artigo, parabéns.
    Cíntia Gto.

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    1. Saudações Cintia, seja bem vinda mais uma vez!

      Agradeço de imenso sua participação. É sempre bom contar com pessoas que, como eu, amam a Sétima Arte e suas obras primas, entre os quais, DOUTOR JIVAGO, de David Lean, faz parte. O livro li há anos, mas não há como fazer comparações. Ambos (filme e a obra literária) são ótimos e recomendo a leitura do livro de Pasternak. Livro é livro, filme... é filme. Abraços do editor e uma ótima semana.

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  2. Telles,

    Sabe, companheiro? Conforme lhe havia informado, preferiria rever antes esta Nobreza de Fita para uma melhor fala sobre ela.

    Porém, catando-o nos meus arquivos, não o encontrei. Sinal de que a emprestei a alguem (que acho ter sido a uma filha minha, que nega isso) e nunca me devolveram.

    Estou providenciando uma copia com um amigo para reve-lo. No entanto, não posso deixar isto aqui em aberto até o dia em que retorne a ter a fita para reve-la e falar melhor sobre este extraordinário trabalho do Lean.

    Aliás, não sou assíduo apreciador do Lean, achando-o um tanto esnobe, superior e extravagante. Nunca faz uma fita simples, sendo tudo seu com grandiosidade extrema em todos os patamares.

    Não é tanto defeito assim, porém não me simpatizo muito com seu ego, que acho o mesmo coloca-lo forte demais e vejo-o sentir-se acima de tudo. Sou mais dado a tudo muito simples, natural, normal, sem alardes e com muito respeito a tudo e a todos. Recorda-se do que sentia pelo J Ford, não? Pois é.

    O Grande Cineasta David Lean não está mais entre nós, verdade. Mas, estes sentimentos meus são para sua fase produtora, criadora de filmes como Lawrence da Arávia, A Ponte do Rio Kway, Dr. Jivago, Passagem Para a India e A Filha de Ryan, fita do diretor que mais elogio, apesar de reconhecer que foi um cineasta de grandeza 1 em tudo o que fez.

    Assisti a Dr. Jivago há mais de 50 anos e dele somente recordo de sua beleza plástica, seu elenco, a enormidade de sua historia e a musica, que até hoje ainda se ouve com todo o calor de antes.

    Recordo também que foi o primeiro filme que vi com o Omar e com a Julia. Fiquei encantado com a beleza angelical da Christie e mais ainda com a grandiosidade do filme na época em que vi, da mesma forma de como é enormemente poderosa esta postagem que tu destila aqui. Uma beleza de um trabalho, que sei, foi fruto de uma pesquisa vasta e penosa, mas que os frutos estão à mostra e totalmente saudáveis.

    Como também gosto de escrever e já passei mais de 25 anos para completar um livro, não me espantei com muito com o Pastenak ter levado 10 anos para concluir esta obra. Mas, afirmo: é uma barra, mesmo tempo inferior a 5 anos.

    Sobre filmar na Espanha, parece ser ali o El Dorado dos produtores e diretores. Até os westerns spaguethi eram filmados ali. Sinal de que a terra é generosa em termos de belos cenários e de impostos caridosos também.

    Para fechar estes dizeres aqui, posso afirmar de que quase tudo o que um escritor põe no papel tem muito a ver com sua própria pessoa. É como ele se visse no seu livro fazendo o que seus personagens fazem. Este contorno normalmente é o que dá vigor à caneta do escritor para ele administrar com força e segurança sua obra.

    Abração do bahiano

    jurandir_lama@bol.com.br

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    1. Saudações amigo Ju!

      Acredito que de todos os cineastas que tivemos, David Lean tenha sido o mais concentrado, mais metódico, com uma disciplina que eu diria bem franciscana. Quando filmou A PONTE DO RIO KWAI, que lhe rendeu um Oscar pela direção, Lean, de tão envolvido no seu trabalho não tinha tempo para sua família. A esposa depois pediu a separação e ainda processou o diretor por falta de atenção. Pensa aí, Baiano! De tão concentrado e, unicamente, pensando no próprio trabalho, acabou ignorando a esposa, em nome da arte.

      Ford é algo quase que parecido, muito embora não saiba se Lean já chegou a destratar algum de seus atores. Ford também era metódico e unicamente direcionado a sua função, e acredito que a esposa dele só não fez o mesmo que a esposa de Lean por motivos de religião, já que Ford e a mulher eram católicos.

      Vc bem sabe, Ju, que o filme foi uma febre ao ser lançado nos nossos cinemas, e é bom vc testemunhar isso, pois vc vivenciou essa época e tem propriedade para falar a respeito. Como sou um pesquisador, apenas vasculho e acabo encontrando um período fértil para a propagação de grandes filmes em nossas salas de exibição, muitas delas já extintas, espalhadas por todo o Brasil. E é este período fértil na vida de muitos saudosistas que precisa ser resgatada e lembrada, em prol da nossa memória cultural.

      Escrever um livro não é fácil, e atualmente, estou na confecção de um em parceria com o amigo Saulo Adami, que deverá ser publicada em junho ou julho do próximo ano, se assim Deus permitir. Com certeza, por ser um livro com um tema bem delicado, Boris Pasternak precisou de uma vida para escrever sua obra literária. Mas como vc pôde ler no tópico, não foi fácil, já que em sua terra natal não tinha meios de publicar. De qualquer forma, ele conseguiu imortalizar seu romance, que hoje pode ser lido na Rússia livremente.

      Certamente Pasternak escreveu com toda sua alma e com todo o seu coração, lembrando mesmo de suas experiências em um país nominado pela verdadeira ditadura e sem poder ter sua livre expressão cultural. Pasternak é o próprio Doutor Jivago.

      E filmar na Espanha sem dúvida foi uma grande opção para muitos cineastas e produtores. Não foi para menos que SAMUEL BRONSTON (sim, aquele baixinho com manias de grandeza, que foi dedicado até um artigo neste blog, que vc pode relê-lo) construiu seus estúdios na Espanha e através de cineastas marcantes como Nicholas Ray e Anthony Mann, realizou obras homéricas para deleite dos fãs como nós: EL CID, REI DOS REIS, 55 DIAS EM PEQUIM, A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO, e O MUNDO DO CIRCO, foram produções máximas do requinte deste mega produtor, mas que infelizmente, graças as suas exageradas extravagâncias em produzir estas películas, acabou perdendo o controle de todas elas. Contudo, o exemplo de Bronston em se filmar na Espanha não abalou outros produtores, já que nenhum deles poderia ser uma réplica do produtor falido. E nem poderia, não é mesmo, amigo?

      Abraços do editor carioca!


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  3. Telles,

    Recordo sim da publicação do criador de grandes épicos na Espanha, assim como o que lhe aconteceu.

    Não sabia do problema do Lean com a familia, assim como idem do Ford. Ótimo ficar conhecendo mais dados de historia do cinema e seus coadjuvantes. Lembra o tópico do Thomaz sobre Estigma da Crueldade?

    Pois é, jovem carioca. Estas benfeitoras criações de blogs, onde pode-se falar de cinema à vontade e destilar conhecimentos que outros desconhecem, terminam por se tornar quase que um serviço de "Utilidade Publica", a partir do momento em que neles aprendemos um rosário de coisas que desconheciamos e que adoramos ficar conhecendo.

    Uma beleza, uma escola sem ser escola.
    Quantas coisas eu passei a ficar sabendo por estar unido contigo aqui neste espaço? Tudo isto soma demais para quem ama a Sétima Arte como NÓS.

    Ponto portanto a mais para este espaço do amigo que, além de nos fornecer matérias verdadeiramentes lindas, ainda é um espaço para se conhecer novidades.

    Escrever um livro não é fácil, jovem companheiro. E eu que o diga, pois já o fiz mais de 25 vezes.
    Ainda há coisa de pouco mais de um ano recomecei a escrever outro, com o titulo de "O Destino me Persegue", na linha de faroeste e aproveitando o belo titulo do western com o Heston no papel do Andrew Jackson, acho que foi este o presidente que ele interpreta. Belissima fita, bela demais!

    Mas tive que para-lo depois de mais de cem páginas, pois havia um personagem que me perdi nele e não sabia o que fazer com o cara. Como era uma historia de faroeste, seria fácil arrumar um bom tiro para ele e acabar com sua vida. Mas então parei e nunca mais retomei.

    O livro que o amigo escreve que tema tem? Os meus são somente de Westerns.

    Não comentei sobre a morte de Pasternack. Morreu jovem demais! E não deu nem para ver sua bela obra transcrita para o cinema. Lamentável como a tuberculose interrompeu vidas e vidas muito cedo!

    Seu amigo aqui somente não consta desta estatistica porque haviam descoberto a Estreptomicina há pouco tempo. Foi uma barra! Tomei 365 injeções. Mas sarei completamente e aqui estou falando do assunto com o querido amigo enquanto o diálogo sobre cinema rola.

    Abração, amigo

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Salve Ju!!!

      Em sinceridade, prefiro mesmo acreditar que seja um "serviço de utilidade pública" pela internet. Enquanto existem sites ou blogs de conteúdo que não edificam nenhuma índole de elevação cultural onde se postam sobre bobagens, eu prefiro me entreter em resgatar a Sétima Arte e o cinema áureo. Assim, como estamos fazendo no momento, baiano, promover uma interatividade entre o editor e o leitor, através desta seção de comentários.

      Sobre o meu livro, ainda pretendo deixar um pouco em segredo, meu amigo. O que posso divulgar é que será parte de uma coleção que já esta a disposição pela Editora Estronho, sobre séries de TV. O amigo Saulo Adami me convidou a escrever mais um item, e por incrível que pareça, o tema será de western sim, mas não é romance.

      Como vc citou um belo filme com o imortal Charlton Heston, O DESTINO ME PERSEGUE, de 1953, onde ele contracenou com minha diva Susan Hayward, posso dizer que foi uma bela interpretação do ator como Andrew Jackson, segundo presidente dos EUA. Não há como vc entrar na pele do personagem e sentir sua agonia e raiva perante os obstáculos que ele e a esposa sofrem. Dá vontade mesmo de matar os inimigos, rsrs.

      Obrigado amigo, sua participação sempre é muito salutar e importante.
      Abraços do editor.

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  4. Telles,

    Desculpe, amigo mas, envolvido com os assuntos que soltei no comentário anterior, me passei de falar da época do lançamento do espetacular Dr. Jivago.

    Aqui em Salvador tem um cinema chamado Tupy. Era ele a fonte dos grandes lançamentos, dos espetaculares Épicos e outros mais grandiosos filmes a partir da segunda metade da década de 1950.

    No Tupy eu vi de Os 10 Mandamantos/56 a não recordo o derradeiro espetáculo que ali presenciei.

    Dr. Jivago não foi o filme que revolucionou a Bahia, com filas e mais filas, com ingressos vendidos aos milhares e com inúmeras semanas de projeções continuas. Não, não foi ele e sim TODOS estes sensacionais filmes, todos com suas marcantes e espetaculares propagandas e, aqui para nós, maravilhosos.

    Porém, Dr. Jivago ficou mais no alvo por um motivo especial: "O Tema de Lara". Esta musica era tocada nos quatro cantos da cidade e o que chamava publico e mais publico para o cinema.

    Era tudo lindo, tudo inocente demais, tudo uma diversão de alta classe.

    Nas salas de espera, principalmente à noite, via-se pessoas super alinhadas, casais vestidos a rigor, diálogos entre os que esperavam as sessões terminar quase inaudíveis e um clima de alta sociedade no ambiente, este regado a poltronas luxuosas e com um ar condicionado não deixando ninguém se enfadar ou utilizar leques, que era praxe na época.
    Era tudo quase que silencioso, não se ouvia ruido de vozes, embora vissemos muita gente dialogando regado a classe, muita educação e respeito ao ambiente.

    Coisa amigo que não se vê hoje.
    O ambiente na sala de espera era como se estivessem todos esperando para participar de um instante único e marcante em suas vidas.
    Me expresso desta forma pois viamos suas fisionomias todas leves, tranquilas e com ares de prazer intendo. Nenhuma ansiedade, palavrão ou qualquer ato de insubordinação ou desagrado.

    Ali estavam todos felizes porque iriam ver um espetáculo que somente aquele Belo e Luxuoso Cinema nos oferecia. E aquele espaço era lugar para a pre-degustação destas maravilhas.

    Poderia ficar aqui descrevendo mais e mais como era o ambiente naquela época, porém iria fazer todos lerem muito e muito, tal tenho tanto ainda a citar.

    Mas aqueles momentos naquelas salas de espera, que podiam durar mais de hora, eram instantes de um pre prazer tão significativo, que parecia que todos tinham ingressos adquiridos para viajarem ao ceu.

    Isso mesmo.
    Mais que isso até, enquanto do lado de fora filas e filas seguiam formadas aguardando os da sala de espera adentrarem ao cinema para ocuparem aquele espaço. E tudo sem desordem, sem gritos, sem balburdia e tudo na mais coesa paz, prazer, pura educação e visiveis mostra de serenidade ao aguardo do lazer, que até poderia demorar, mas que viria por certo.

    Abraço grande do bahiano

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Olá Ju!

      Vejo mesmo o quanta propriedade vc fala a respeito do lançamento não só desse filme nas salas de cinema de sua cidade, como também a de outras superproduções. E mais ainda, o quão era sagrado um templo de entretenimento que era o cinema. Falo isso porque como uma "igreja", o certo é mesmo imperar o silêncio e a atenção no "ato litúrgico da tela".

      Antigamente, podía-se ir ao cinema sem vc se preocupar onde queria se sentar, pois não precisava escolher na compra do bilhete. Por incrível que possa parecer, todas estas mudanças ocorreram quando os cinemas de rua foram se exterminando para dar lugar as salas dentros dos shoppings. Mesmo o respeito e a educação também foram exauridos.

      Não faz muito tempo, fui assistir com minha namorada em Três Rios A LIGA DA JUSTIÇA. Havíamos comprado os bilhetes com nossas poltronas numeradas. O que aconteceu? um casal resolveu se assentar em nossas poltronas. Felizmente, eles não insistiram, pois os fiz ver que erraram em seus lugares, tendo eu que acender a lanterna do meu celular para lhes mostrar o número de suas poltronas antes que me desse a ideia de chamar um administrador. Logo, amigo baiano, como vc pode ver, tremenda falta de educação em todos os sentidos, pois sei que eles não se enganaram, mas trataram de sentar em qualquer lugar que lhes fosse conveniente, sem pensar que pudessemos reclamar.

      De resto, meu querido, só podemos nos lembrar de grandes momentos, onde podíamos ir ao cinema com todo o requinte. Quem viveu esta época, sente saudades.

      Abraços mais uma vez, amigo. Próximo tópico:
      O DESAFIO DAS ÁGUIAS!

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    2. PS - O Cinema a que me refiro foi no Shopping de Três Rios.

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