quinta-feira, 5 de maio de 2016

“Pânico na Multidão” (1976) – Heston & Cassavetes na Mira da Morte em um Thriller com Dois Formatos.


O cenário, o estádio Coliseum Memorial de Los Angeles, palco das olimpíadas de 1932. Abrigado na torre do placar eletrônico, um franco-atirador ameaça disparar seu fuzil de mira telescópica sobre um alvo de gigantescas e trágicas proporções: 91 mil espectadores, onde são inclusos políticos e demais autoridades dos Estados Unidos, que estão assistindo uma acalorada partida de futebol americano numa tarde ensolarada de Domingo. Imperceptível para a câmera, o matador tanto pode se tratar de um psicopata, como na obra de Peter Bogdanovich em Na Mira da Morte, de 1968, ou mesmo um estudante como o que retratado pelo jovem Kurt Russell no telefilme A Torre da Morte, em 1975, baseada em fatos reais. Ou ainda, será que o franco-atirador pode ser um terrorista a ponto de tentar assassinar o Presidente dos Estados Unidos como fez o personagem de Frank Sinatra em Meu Ofício é Matar, de 1954? Tal enigma nunca era desvendado em sua versão lançada originalmente nos cinemas. A obra aqui retratada sofreria algumas mudanças como veremos a seguir.


Pânico na Multidão (Two-Minute Warning), cuja meta almejada por este Thriller que se tornou um dos campeões de bilheteria de Hollywood em 1976 é eriçar o potencial de angustia e tensão que penetra em cada um dos personagens, espectadores da partida ou não. Os que assistem ao aguardado jogo formam um turbilhão de hecatombes que fez moda no cinema nos anos de 1970. Dirigido por Larry Pearce, o mesmo cineasta que em 1967 filmou O Incidente, onde contava a história de 14 passageiros de um metrô nova-iorquino que eram espezinhados por dois delinquentes furiosos. Em Pânico na Multidão, Pearce volta a invocar sua vocação para intimidar o populacho.

Charlton Heston é o Capitão Peter Holly, da Polícia de Los Angeles.
Holly entre o Sargento Chris Button (John Cassavetes) da SWAT, e o Inspetor Sam McKeever (Martin Balsam)
Mas a direção de Pearce e a temática terrorista não são as únicas surpresas. Algo então inédito, PÂNICO NA MULTIDÃO se tornou o primeiro caso nas relações entre duas mídias conflituosas, o Cinema e a TV. Pela primeira vez, um filme mudou ao passar de um para outro veículo. Exibido nos cinemas cariocas em abril de 1977, tal como foi lançado em grande circuito nos EUA, tinha no elenco Charlton Heston, Martin Balsam, John Cassavetes, Beau Bridges, David Janssen, Gena Rowlands, Jack Klugman, e Walter Pidgeon. 

Charlton Heston, o "derradeiro guardião da espécie humana", dessa vez não pode agir sozinho.
Capitão Holly conta com a ajuda do Sargento Button da SWAT para dominar o franco-atirador.
Mas em 1980, ao adquirir da CIC (Cinema International Corporation) os direitos de transmissão, a cadeia de TV NBC tomou uma iniciativa inédita: aparentemente insatisfeita com o rendimento da fita nas bilheterias (ainda que fosse um dos grandes êxitos de 1976, mais de cinco milhões de dólares arrecadados), a rede televisiva suprimiu boa parte da obra original, e gastou ela própria 500 mil dólares para filmar novas cenas, inserindo novos personagens e novos atores, para dar poder paralela a trama. Mas a emissora julgou que o conteúdo era muito violento e pesado para a televisão: os executivos da NBC não só ficaram chocados com a morte de vários personagens simpáticos, mas também pelo fato das ações do atirador nunca serem justificados. Por isso, eles negociaram com o estúdio responsável pela produção, a Universal, uma reedição completa, eliminando muitas cenas e incluindo outras que justificariam a ação do sniper.

Durante a partida, na arquibancada, o vigarista (Jack Klugman) confidencia seus problemas a um padre, vivido por Mitchell Ryan.
Steve (David Janssen) e Janet (Gena Rowlands), um casal em crise que não percebe o eminente perigo.
Mike Ramsey (Beau Bridges) e sua mulher Pamela (Pamela Belwood), indo para o estádio.
Daí integrou Joanna Pettet, Rossano Brazzi, James Olson, e Paul Shenar, em um subenredo que corre paralelo ao roteiro original, contudo sem muita harmonia, onde sofreu também drásticas alterações, inclusive em sua metragem, que de seus 115 minutos originais para o cinema se converteram em 147 minutos para a televisão. Francesca Turner foi a responsável pela remontagem televisiva, tirando 45 minutos do filme original e acrescentando meia hora de novas cenas, numa versão reprovada pelo diretor Peerce (que usou o pseudônimo "Gene Palmer" nessa reedição).  Alguns anos depois, a mesma Francesca Turner foi responsável pelos remendos e pela remontagem da versão para a TV de Duna, de David Lynch, bem mais longa que o original e também reprovada pelo seu diretor.

O Sniper, fazendo mira do alto do placar eletrônico.
e consegue seu intento.
O Capitão Holly e o Sargento Button da SWAT, na mira da morte.
Em primeiro plano, Charlton Heston, o “derradeiro guardião da espécie humana”, como o foi em Planeta dos Macacos e A Última Esperança da Terra, novamente reluz como o mais abnegado herói do cinema de catástrofe, título este conferido ao ator desde seu desempenho em Voo 502 em Perigo, No Mundo de 2020, e Terremoto. Heston interpreta um chefe de Polícia, Capitão Peter Holly, da Polícia de Los Angeles. Mas ao contrário dos personagens anteriores,que encaravam o perigo solitariamente, aqui ele não pode agir só. Quando sua guarnição esta sem efetivo de homens o suficiente para encarar a missão, Holly recorre à SWAT, o celebrado esquadrão tão afamado graças a uma memorável série de TV produzida na mesma época que esta produção. Sob o comando do Sargento Chris Button (John Cassavetes, 1929-1989), sua SWAT ostenta sua tão contumaz tática de abordar cidadãos ainda que sejam inocentes.

Steve e Janet sendo importunados por um curioso.
91 mil espectadores, imperceptíveis ao perigo.
O Sargento Button, da SWAT, traçando planos com o Capitão Holly, para capturar o atirador.
Talvez um dos piores problemas com o filme seja sua edição, com uma montagem tão crispada que não permite a cada imagem mais do que cinco segundos de permanência na tela. Mesmo assim, seus editores, Emil Newman e Walter Hannemann, concorreram ao Oscar de 1976 para melhor montagem, por estafante e estonteante trabalho.  Em seus 115 minutos de projeção para o cinema, ficam difíceis para a plateia respirar ou refletir de tão estrondoso espetáculo de atropelos e tiroteios. Como em todo flagelo cinematográfico que se preze, a câmera arvorada como “Deus”, distribui a guisa de uma demiúrgica ordem divina de castigos de variável intensidade conforme os pecados de cada um. No corre –corre, são punidos com a pena capital os vigaristas endividados, como Jack Klugman (1922-2012), os modestos batedores de carteira como Walter Pidegon (1897-1984), ou mesmo os casais avessos ao sagrado e santo matrimônio, aqui vividos por David Janssen (1930-1980) e Gena Rowlands (esposa do ator John Cassavetes). Contudo, todos estes permanecem alheio ao perigo que os cerca, menos o jovem Mike Ramsey (Beau Bridges), que percebe a presença do atirador e tenta advertir aos policiais.

Divulgação da NBC do filme, em seu formato televisivo.
Por ironia, cabe ao próprio assassino aplicar com seus tiros certeiros a justiça emanada dos céus, o que pode ser considerado uma heresia, ainda mais se considerando a SWAT, panteão de implacáveis arcanjos da lei, o filme dedica as graças do paraíso. A audiência, todavia, não se dá conta das mensagens subjacentes ao arsenal de truques de suspense disparado com inegável competência do diretor Pearce.


Na versão para a TV, o thriller tem outro formato: uma quadrilha planeja o roubo de uma coleção de quadros em exposição, tendo por cumplice a secretária (Joanna Pettet) do proprietário da galeria (Rossano Brazzi, 1916-1994), amante de um dos assaltantes – e apenas para desviar a atenção da policia , contrata um atirador para postar-se na torre do estádio vizinho, com ordens de não matar. Ao contrário do que aconteceu com a versão lançada nos cinemas, ele dispara seu fuzil em “spots” de iluminação e cadeiras desocupadas.


O colecionador de quadros informa à secretária que passou as obras de arte para seu nome e ela tenta avisar ao seu amante, mas já era tarde, pois o roubo foi executado. Na fuga, os assaltantes acabam se misturando a multidão em pânico. Na versão televisiva, vários personagens da versão cinematográfica surgem e desaparecem sem maiores explicações, mas em contrapartida, são dadas ao atirador uma identidade e um objetivo para sua ação, que anteriormente, permanecia invisível o tempo todo para a câmera, podendo ser um psicopata ou um terrorista político. O que era enigma na versão lançada nos cinemas se dissipou, a tensão original afrouxou, a história ficou arrastada e diferente. Advertidos, aqueles que assistiram ao filme nos cinemas ficaram induzidos a uma brincadeira: apostar no que mudou e não mudou entre a versão original nos cinemas e a versão para a televisão.  Mesmo assim, é um espetáculo inebriante e de efeito hipnótico para os olhos e ouvidos. 

FICHA TÉCNICA
PANICO NA MULTIDAO
ANO DE PRODUÇÃO – 1976
PAÍS – ESTADOS UNIDOS
GÊNERO – SUSPENSE/POLICIAL
DIREÇÃO – LARRY PEARCE
DURAÇÃO – 115 MINUTOS (Para o Cinema)/147 minutos (Para TV)
ESTÚDIO - UNIVERSAL
ELENCO
CHARLTON HESTON – CAPITÃO PETER HOLLY
JOHN CASSAVETES – SARGENTO BUTTON
MARTIN BALSAM – SAM McKEEVER
BEAU BRIDGES – MIKE RAMSEY
DAVID JANSSEN – STEVE
JACK KLUGMAN – O VIGARISTA
GENA ROWLANDS – JANET
WALTER PIDGEON – BATEDOR DE CARTEIRAS
BROCK PETERS – PAUL
MITCHELL RYAN – PADRE
PAMELA BELLWOOD – PEGGY RAMSEY
E AINDA
JOANNA PETTET – SECRETARIA DA GALERIA DE ARTES (Somente na versão para TV)
ROSSANO BRASSI – DONO DA GALERIA (Somente na versão para TV)
JAMES OLSON – LADRÃO (Somente na versão para TV)
PAUL SHENAR – SEGUNDO LADRÃO (Somente na versão para TV)

Produção e Pesquisa:
PAULO TELLES
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NA PRÓXIMA SEMANA - 
Tributo à
 
GREGORY PECK – 
O GALÃ HUMANITÁRIO
Vida e Obra de um dos maiores astros do cinema do Século XX.

5 comentários:

  1. Eu não conhecia esta história da diferenças nas versões.

    O filme segue a linha do cinema catástrofe e perde muito tempo para apresentar os personagens e seus pequenos dramas. O longa melhora na parte final, principalmente nas surpreendentes sequências das multidão apavorada.

    O elenco recheado de astros é outro destaque.

    Abraço

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    1. É Verdade Hugo! Talvez mais do que o enredo, ainda que diferenciado nos dois formatos, seja seu grandioso elenco. Abraços do editor!

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  2. Telles,

    Eu não li, eu ouvi, diretamente da boca de um afamado diretor, o Rob Reiner, citar o seguinte: "Deus me livre de uma aparição na tela de qualquer filme meu, dele, passar de 3 segundos cada".

    É o tal do crispamento que falas, onde descreves que na versão televisiva os editores não deixavam que cada imagem passassem mais de 5 segundos na tela.

    Eu já não creio que esta ação seja um ato da edição e sim das novas formas de se dirigir um filme, este com dezenas de câmeras filmando apenas uma cena. Verdadeiro absurdo, que faz desaparecer a beleza da magia que o cinema nos transmitia, para tentarem nos mostrar que hoje fazem filmes ágeis, rápidos, movimentados, etc.

    Vejamos e observemos que este tipo de ação já era um fato em 1976, como é o registro da fita em pauta. Imaginemos agora, 40 anos depois, como não estão acabando com os filmes fazendo uso desta "bestialidade", onde o espectador quase nada consegue ver, principalmente em cenas de ação. Um absurdo total. E fator do qual me queixo constantemente e é uma das lamúrias também do nosso grande amigo, o Eugenio.

    Estão acabando com o cinema, com a beleza plástica dele, com as longas cenas que o Leone costumava colocar em seus westerns, onde as câmeras deslizam sem pressa sobre a historia e conseguiam, desta forma, nos mostrar uma historia bem contada e sem inventices.

    Não conheço o filme do Pearce e nem a remontagem feita para a TV. Acho até estranho este fato meu, já que sou um fã da filmografia do Heston.

    Outro fato que não entendo é como a Francesca Turner sacou 45 min. de uma fita de 115, acrescentou mais 30 min. e o filme ficou para a TV com 147 min.

    O Larry Perarce não me é conhecido, pois também não vi O Incidente/67, onde o diretor apresenta uma linha de ação que o deveria seguir em outras criações suas como neste Pânico na Multidão.

    Outro ponto que me intriga é o rendimento nas bilheterias do filme original, onde é citado que ele rendeu bem, dando lucros e que arrecadou 5 milhões de dólares.

    Se em 1976 um filme ganhou dinheiro arrecadando 5 milhoes de dólares, não tenho tal dado como bom informe, de como um filme que deu lucro ou que rendeu bastante nas bilheterias.
    Se formos comparar estes 5 mi. ganhos em 1976 com os mais de 15 mi. que se gastou para fazer Ben Hur/59, portanto quase 20 anos atrás, no meu ver o filme do Heston deu foi enorme prejuizo.

    Porém, existe coesão no roteiro e o atirador desejava apenas extirpar do mundo apenas pessoas que não tinham qualquer serventia para a sociedade.

    A titulo de observação dizer como era linda a Gena Rowlands! A tinha visto jovem e belissima em 1962 no filme do Miller, Sua Ultima Façanha, onde o Douglas tem uma interpretação fabulosa.
    E aqui, 14 anos depois pode-se observar que sua radiante beleza ainda permanecia vivaz.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Saudações baiano!

      Ao fazer a análise deste filme, mesmo com base em aprofundadas pesquisas, ficou ainda difícil de entender como que um filme que foi bem nas bilheterias na metade dos anos de 1970 ainda assim sofrer intervenções, isto é, fazer uma versão para a TV, um formato diferenciado do cinema. Hoje, com o advento das TVS led e plasma, e de outras linhas que virão, a TV fica mais parecida com o cinema. Mas não era assim em 1976.

      Eu assisti a PANICO NA MULTIDÃO pela TV ainda como inédito na telinha pela Rede Globo em 1982. Na época, já era a versão realizada pela NBC, com a trama paralela do roubo a galeria de artes. Já era de se notar o contraste da trama sob os dois angulos: de um lado, o policial feito por Heston, com dificuldades de capturar o Sniper e ele a recorrer as forças da SWAT, sob supervisão de Cassavetes; de outro, os ladões de artes no momento da partida de futebol, que não liga nunca aos personagens centrais. Isto é, o enredo fica desarmonioso. Mas não por isso, não deixa de ser um ótimo entretenimento.

      Quanto a Gena Rowlands, atriz ainda viva, ela foi esposa de John Cassavetes. Este a dirigiu em GLORIA, em 1980, um dos trabalhos mais renomados desta talentosa artista.

      Abraços do editor!

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  3. Telles,

    Conheci muito bem o Cassavetes (vide Os Doze Condenados) e conhecia sua união com a Gena.
    Sei também que dirigiu bons filmes independentes e vi Gloria/80, onde a Gena é a dona da fita.
    Porém, o rapaz faleceu jovem. Não se pode morrer aos 59 anos e deixar a vida aí ainda para ser vivida e com a carreira de diretor indo bem, mas interrompida.

    Enfim, é deste modo a vida, ingrata, cruel, traiçoeira e até perversa.

    Perdemos um bom ator e diretor, mas o Nick, seu filho, parece ter seguido a carreira do pai e andei até vendo ele na direção de Um Ato de Coragem. Não sei se tem o talento que o pai tinha e nem as idéias revolucionárias dele, mas de qualquer forma ele deixou sua semente.

    Da Gena pouco tenho noticias. Disseste que ainda vive. Graças ao bom Cristo, porque chega de tantas viagens de nossos idolos queridos.

    Abração

    jurandir_lima@bol.com.br

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