sexta-feira, 11 de março de 2016

“As Sandálias do Pescador” (1968): Anthony Quinn, Um Papa Russo em defesa da Paz Mundial, em uma Obra Profética e Datada.



As Sandálias do Pescador (The Shoes of a Fisherman), superprodução da Metro- Goldwyn- Mayer realizada em 1968, oriunda do famoso Best Seller (publicado em 1963) de Morris West (1916-1999), é de certa forma um filme profético. O fato curioso é que o escritor West não fazia vaga ideia de que sua historia, de certa forma, se tornaria realidade, pois praticamente previu 15 anos antes a eleição de um Papa vindo de um país comunista em 1978, com a eleição do polonês Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II (1920-2005), o primeiro Papa não italiano depois de muitos anos e vindo de um regime comunista como era a Polônia. Depois do Papa polonês, ainda vieram um alemão (Bento XVI) e o atual é um argentino, Papa Francisco.


Kiril Lakota (Anthony Quinn) e seu encontro com o Premier Kamenev (Laurence Olivier). Uma proposta para a paz mundial.
Lakota recebe a incumbência de ser cardeal, com relutância.
Lakota no meio do concílio dos cardeais, e entre eles, o Cardeal Rinaldi, vivido por Vittorio De Sica
Rodado nos famosos estúdios italianos de Cinecitta, em Roma (onde a mesma Metro também filmou os espetaculares épicos Quo Vadis, em 1950, e Ben-Hur, em 1959), em As Sandálias do Pescador, o Papa em questão na obra de West, protagonizado brilhantemente por Anthony Quinn (1915-2001) não é polonês e sim ucraniano, Kiril Lakota, outrora um prisioneiro político da antiga União Soviética, sendo enviado a Roma pelo premier soviético Piotr Ilyich Kamenev (Laurence Olivier, 1907-1989), cujo o objetivo é influenciar o Vaticano a seu favor, em caso de um conflito com a China. Kiril é nomeado cardeal, e mais tarde, eleito Papa, sucedendo o seu predecessor, o Papa Elder (John Gielgud, 1904-2000). Assim, Kiril Lakota se torna o primeiro Papa não italiano da História da Igreja. Desde o começo, Kiril demonstra ter consciência do seu papel de pastor e da grande responsabilidade que tem sobre os ombros, já que o Vaticano também é um Estado, mas ao mesmo tempo, tendo conhecido o sofrimento, ele luta para minimizar os sofrimentos de seus fiéis.

O Concílio dos Cardeais, para o conclave do novo Papa.
A surpresa de Kiril Lakota, quando eleito para ser o novo Papa.
O Cardeal Leone (Leo McKern) pergunta ao Cardeal Lakota como será seu nome pontifício. Papa Kiril.
Ocupando-se com a paz mundial, o novo papa consegue evitar um conflito nuclear entre russos e chineses e decide distribuir as riquezas do Vaticano como índole de seus ideais (outra “profecia”. Em 1978, o Papa italiano João Paulo I havia declarado que também distribuiria as riquezas da Igreja entre os países pobres e que investigaria o Banco do Vaticano, após suspeitas de desvios de dinheiro. Seu papado durou apenas 33 dias, sendo encontrado morto em seu quarto a 16 de outubro de 1978. Oficialmente, sua morte constou como ataque cardíaco enquanto dormia, mas há indícios e suspeitas de assassinato por envenenamento. A teoria de conspiração sobre este caso já foi abordada disfarçadamente no filme O Poderoso Chefão, Parte 3, com Raf Vallone no papel de um Papa que faz reminiscência a João Paulo I).


Habemos Papam!!!
O triangulo amoroso do repórter George Faber (David Janssen) entre sua esposa médica (Barbara Jefford) e uma garota italiana, Chiara (Rosemarie Dexter), uma das tramas subjacentes da fita.
George Faber entrevista Kiril Lakota
Mas As Sandálias do Pescador não deixa de ter suas tramas subjacentes. Numa delas, um triangulo amoroso formado por um repórter de TV, George Faber (David Janssen, 1930-1980), sua esposa médica Ruth (Barbara Jefford), e uma garota italiana, Chiara (Rosemarie Dexter, 1944-2010). É Faber que faz a cobertura jornalística que fica de guarda na Praça de São Pedro para a eleição do novo Papa, sendo Kiril o eleito. George Faber, através da narração brilhante de David Janssen, prende o espectador ao dar detalhes de cada item do conclave, incluindo as menções das chaminés e as cores das fumaças que definem a eleição ou não de um Papa. Já Ruth tem ao longo do filme um breve contado com o Papa Kiril  quando este consegue fugir por um momento da Basílica de São Pedro para escapar do protocolo papal e  percorrer as ruas do Vaticano, onde encontra a médica e acabam tratando juntos de um judeu idoso e enfermo.


O Papa Kiril e seu amigo, o padre progressista David Telemond,vivido por Oskar Werner.
Telemond é um padre polêmico, sob investigação do Vaticano. O personagem foi inspirado por Morris West no Padre Teilhard de Chardin.
O Papa Kiril e o enciumado Cardeal Leone, pelo fato de Sua Santidade preferir mais a amizade de Telemond.
Outra linha de argumento trata sobre um padre progressista, David Telemond, vivido por Oskar Werner (1922-1984), que Morris West se inspirou em Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo, e paleontólogo francês que tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. O Padre Telemond, cujas avançadas posições teológicas são investigadas pelo Tribunal Pontifício (a Congregação da Doutrina da Fé), tem seus livros proibidos de serem publicados pela Santa Sé. Kiril protege Telemond , ao mesmo tempo em que lida com um cardeal ciumento, Leone (Leo McKern, 1920-2002), que se frustra quando percebe a afinidade do Papa pelo padre progressista e condenado, já que Telemond sofre de uma doença incurável e pode morrer a qualquer momento.


Kiril tenta acudir o Padre Telemond, que sofre um mal súbito.
O Roteirista John Patrick
Morris West, o autor do romance As Sandálias do Pescador, um dos Best-Sellers mais vendidos de todos os tempos.
O adaptador do romance para o cinema, John Patrick (1905-1995), o mesmo roteirista de Casa de Chá ao Luar de Agosto, atualizou o enredo original de Morris West, principalmente quando se trata ao conteúdo das tensões internacionais, diferentes entre 1962 a 1968, o tempo em que o livro foi escrito e o filme produzido. O filme foi realizado em 1968 durante o papado de Paulo VI (1897-1978), e o livro de West publicado durante o de João XXIII (1881-1963), sendo que este abriu o Concílio Vaticano II em 1962, que deu novas diretrizes para a Igreja, mas concluída durante a gestão de seu sucessor, Paulo VI. Em face deste momento de transição para a História da Igreja Católica, Patrick precisou mexer na obra original de West.


O Papa Kiril em uma reunião com seus cardeais.
Papa Kiril, vivido por Anthony Quinn, em uma magistral interpretação.
O australiano Morris West, falecido em 1999, foi um escritor prolífero que escreveu mais de 25 livros, além de peças de teatro e programas de rádio, e ele mesmo se encarregou de retocar suas investidas nos bastidores da Cúria Romana em obras subsequentes, como o famoso Advogado do Diabo (publicado em 1959), além de Os Fantoches de Deus (publicado em 1981), e seu último romance, A Última Confissão (publicado após sua morte, em 2000). Na verdade, West revela seus interesses no catolicismo romano, falando inclusive de muitos papas, e revela também um interesse na política internacional. Afinal, o próprio escritor foi um ex-seminarista, passando 12 anos de sua vida em um mosteiro, mas não chegou a se ordenar padre. Como jornalista, foi correspondente do jornal “London Daily Mail” durante alguns meses, testemunhando o suficiente para aguçar suas preocupações com o poder político e a Igreja, e o papel de ambos na segurança de um mundo mais organizado e pacifista, ameaçado pelo Apocalipse nuclear.


O Papa Kiril, com uma grande carga sobre os ombros.
Resolver pacificamente o conflito entre a União Soviética e a China.
O Cardeal Rinaldi (Vittorio De Sica) e o Papa Kiril (Anthony Quinn)
Entretanto, a superprodução, bem requintada e caprichada, fica datada quando Kiril se envolve em negociação política com a União Soviética e a China para propor a paz, algo que fazia de fato muito sentido na década de 1960, mas hoje parece soar ridícula e ultrapassada. Apesar de todo o primor e requinte da produção, As Sandálias do Pescador não fez tanto sucesso quanto o romance homônimo de West, mas ainda assim vale como curiosidade e pela atuação de grandes atores no elenco, liderado pelo notável Anthony Quinn.


Divulgação de um jornal carioca, em 1968, com o filme em exibição no extinto Metro Boavista, na Rua do Passeio, centro do RJ.
Dirigido por Michael Anderson (A Volta ao Mundo em 80 Dias), ainda despontam no elenco, Vittorio de Sica (1901-1974), Arnoldo Foà (1916-2014), e o recém-falecido Frank Finlay (1926-2016). As Sandálias do Pescador ainda teve duas indicações ao Oscar, para a direção de arte, e para a trilha sonora, de autoria de Alex North (1910-1991), um dos grandes nomes das grandes trilhas de cinema, que compôs para Spartacus(1960), e Agonia e Êxtase (1965).



FICHA TÉCNICA
AS SANDÁLIAS DO PESCADOR
(The Shoes of Fisherman)
ANO DE PRODUÇÃO : 1968
PAÍS – Estados Unidos e Itália
DIREÇÃO: Michael Anderson
DISTRIBUIÇÃO: Metro-Goldwyn-Mayer
ROTEIRO: John Patrick e James Kennaway,
Baseado no romance homônimo de Morris West.
FOTOGRAFIA: Erwin Hillier (Em cores)
MÚSICA: Alex North
TEMPO DE DURAÇÃO: 162 minutos
ELENCO
Anthony Quinn (Kiril Lakota)
Laurence Olivier (Piotr Ilyich Kamenev)
Oskar Werner (Padre David Telemond)
David Janssen (George Faber)
Vittorio De Sica (Cardeal Rinaldi)
Leo McKern (Cardeal Leone)
John Gielgud (Papa Elder)
Barbara Jefford (Drª Ruth Faber)
Rosemary Dexter (Chiara)
Arnoldo Foà (Gelásio)
Frank Finlay (Igor Bounin)

Clive Revill (Tovarich Vucovich)

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES
***********
ATENÇÃO
Na Próxima Semana
A Primeira Biografia de 2016
  JERRY LEWIS, O MITO VIVO DA COMÉDIA.
Em celebração de seus 90 anos.

NÃO PERCA!!!

10 comentários:

  1. Que honra poder vir aqui e me deliciar com postagens sempre tão ricas de informações...
    Vou ver se pego em algum lugar para assistir...
    O cinema é realmente mágico e rico em arte!

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    1. Cara Malu, a honra é toda minha e do espaço, seja bem vinda! Obrigado pelo comentário, saudações do editor!

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  2. Outra bela matéria Paulo, parabéns. Ainda quero ver esse filme, história interessante elenco idem!
    Cleber

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  3. Telles,

    De todos os Grandes Filmes feitos, destes épicos, considero este o que me impôs menor interesse. Talvez pelo tema que não é muito chamativo, embora não deixe de reconhecer a grandeza da produção e o luxo que envolve todas aquelas vestes e tudo o mais.

    Eu vi no seu lançamento, mas não recordo de muito do mesmo, além de Quinn jogado para trabalhos forçados, passando penuria, e depois sua vida mudando completamente. Porém, não mu9ito mais além daí.

    Porém, ainda por cima de tudo isto ainda deram mais sorte por terem convocado um ator como o Quinn, que tem a capacidade de fazer qualquer papel e sempre com a mesma perfeição.

    Confesso que gostei muito mais de Barrabás, onde tivemos a presença do Gassmam, ator com o qual não tinha visto um filme sequer, e constatar na pelicula de que ele merecia mesmo todos os elogios ao seu talento que sempre deram.

    Quando ao livro do West, o mesmo foi como se um abrir de portas para que Papas de outros centros, senão da Italia, assusmissem o trono.

    A se iniciar pelo Wojtila, que foi um homem amado pelo mundo e que agora tem seus passos seguidos pelo Francisco, que é um grande visionário e que tem enorme aceitação como Papa.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Anthony Quinn era verdadeiramente um ator eclético, Jurandir. O tema pode realmente não ser interessante para muitos, a não ser para pessoas ligadas à Igreja Católica.

      Entretanto, o filme se destaca por estas observações: um filme (e o livro) sem a intenção de ser místico ou profético, mas que acabou sendo de uma forma impressionante, por um fato ocorrer em 1978 com a eleição de um papa não italiano, depois de séculos. Talvez Morris West pudesse ser um visionário, tendo uma visão ampla da Igreja para o futuro, já que como ex- seminarista e forte entendedor do assunto, quem sabe, ele já pudesse prever grandes mudanças dentro da Igreja.

      Abraços do editor.

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  4. Telles,

    Como citaste, o West com seu livro terminou o mesmo sendo profético, dado às mudanças e rumos novos que a Igreja passou a administrar.

    Não desejava me tornar tão explicito como vou ser agora, porém, não consigo ser diferente de como o sou e, por isso, vou me abrir um pouco mais.

    O que ocorre é que eu sou um tanto quanto anverso a tudo isso que acontece no Cristianismo e que fizeram para que o povo acreditassem em muitos fatos e acontecimentos que NUNCA se deram na verdade.

    A fé é bela, necessária e um fator indispensável a qualquer ser humano. Tenho consciencia de que ou se tem fé em algo ou nos fragilizamos em termos de fortificação mental porque, não preciso ser mais claro, a fé cura e cura mesmo.
    E de MUITA cura está necessitado nós e os nossos irmãos.

    Por esta razão eu pontuo esta necessidade ao humano que, absorvendo estas forças espirituais ele adquire esta força, este poder, este quase milagre interior e mental.

    O que não quer dizer que seja necessário se aprofundar em um único seguimento como esta base de fé.
    A fé está em nossas crenças, em nossas absorções mentais e espirituais, seja em que patamar ou religião busquemos esta crença. O que vale é o que sentimos dentro de nós.

    Detesto e abomino ter de crer em coisas que querem nos fazer acreditar. Acreditamos e colocamos nossa fé onde nossos olhos e corações melhor se adeque, onde nós, como pessoas, nos sintamos melhor, mais seguro e mais convicto de nossa verdade.

    Não diria jamais que todos estes filmes que assistimos não nos traz emocões, não nos levam profundamente a eles e até nos enlevam os espíritos.

    Isso não tem nada a ver com crença e sim com os momentos presenciados por nossos olhos e imagens que captamos e que abalam nossos corações, nossos sentimentos. Afinal somos humanos!

    Para findar, estes fatores não são poderes para que alteremos nossa forma de ser, de ver e sentir todas as outras coisas que giram ao nosso redor.
    O que assistimos são instantes ou são apenas são aqueles momentos que somos tomados por alguma ou muita emoção. Afinal nossa caracteristica humana nos moldou deste jeito, desta forma.

    Este é o ponto de vista deste comentarista diante do que se diz fé, religião ou o que seja.
    Sigo apenas as ordens de meus sentimentos e não desejos que outren querem me obrigar a absorver.

    E a Igreja tem culpabilidades fundamentais nas formações religiosas de nosso povo, induzindo o mesmo a ver o que não ocorreu, a conhecer o que não existiu, a crer no que Eles desejam que creiamos.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Parabéns meu amigo. Seu ponto de vista merece meu respeito. Viva a liberdade de expressão.

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  5. Anthony Quinn, grande ator versátil, foi pistoleiro, bandido, Barrabas, aventureiro e papa.

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    Respostas
    1. Sem dúvida, Luiz. Quinn foi um dos atores mais versáteis que o cinema já teve. Obrigado.

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