sábado, 19 de dezembro de 2015

O Céu Mandou Alguém (1948) – Ford & Wayne, e os Três Reis Magos do Velho Oeste.


Soberbo poeta, como ninguém soube contar a trajetória da civilização americana. John Ford (1895-1973), muitas vezes taciturno e mal humorado, também era capaz de ser sensível, tanto que tinha um carinho enorme pelo livro de Peter B. Kyne (1880-1957), Three Godfathers,  cuja história se passava no Oeste bravio, reunindo em seu bojo todos os ingredientes caros ao cineasta – o elogio a camaradagem, a saga se unindo ao humor, a bravura se conciliando com a nostalgia, e a ação de indivíduos inóspitos em um meio circundante e ameaçador. Principalmente, a perfeita união da violência e da singeleza que Ford sempre tratou com sua infinita candura, onde ilustrou soberbamente viris aventuras, epopeias em imagens épicas de fulgurante plasticidade, nas sábias palavras do saudoso crítico de cinema carioca Paulo Perdigão (1939-2006).

O Diretor John Ford
John Wayne, Harry Carey Jr, e Pedro Armendariz - Os Três Reis Magos do Velho Oeste.
O romance de Kyne tanto se ajusta na veia homérica e romântica do cineasta que ele filmou duas vezes. A primeira versão em 1919, estrelada por Harry Carey, intitulada Homens Marcados/Marked Men. Trinta anos depois, Ford dirige um remake com John Wayne (1907-1979), que tem a honra de repetir o papel que foi de seu próprio ídolo, Harry Carey – O CÉU MANDOU ALGUÉM/3 Godfathers – e Wayne, juntamente com Pedro Armendariz (1912-1963) e Harry Carey Jr (1921-2012),  formam um triangulo de aventuras, onde lhe são impostos grandes desafios.

Poster de 'Homens Marcados", primeira adaptação cinematográfica que Ford dirigiu do romance de Peter B. Kyne, estrelado por Harry Carey. OBS - John Ford ainda assinava pelo nome de Jack Ford.
Harry Carey, o astro da primeira versão fordiana e astro principal nos primeiros westerns de John Ford, ainda na fase silents do cinema.
O Prólogo do filme O CÉU MANDOU ALGUÉM, com a justa e merecida homenagem a Harry Carey
Rodado em apenas 32 dias, em dezembro de 1948, esta obra fordiana (quase que ignorada injustamente pelos críticos) foi um exemplo impar na história de Hollywood. A começar que o diretor dedicou a fita a memória de Harry Carey (1878-1947), astro da primeira versão e astro principal dos primeiros filmes do cineasta em seus westerns iniciais, apresentando em seu prólogo como “a estrela brilhante do velho céu do Oeste”. Em outro gesto de amizade, Ford ainda ofereceu um dos papéis principais ao filho do homenageado, Harry Carey Jr. E como não podia deixar de ser, o lendário diretor ainda se cercou de velhos companheiros, a sua Ford’s Stock Company, entre os quais se destacam Ward Bond (1905-1960), Mildred Natwick (1905-1994), Jane Darwell (1880-1967), Jack Pennick (1895-1964), Mae Marsh (1895-1968),Hank Worden (1901-1992), e o irmão do cineasta, Francis Ford (1880-1953), e ainda dando a primeira chance ao iniciante Ben Johnson (1918-1996), que tempos depois brigaria com o ator, expulsando-o de suas produções, quase chegando ao ponto de  persegui-lo em Hollywood com intuito de boicota-lo.

Pedro Armendariz e John Wayne
Hank Worden e Ward Bond, companheiros de Ford na sua companhia.
O Céu Mandou Alguém foi a segunda experiência de Ford com a Cor (a primeira havia sido em 1939, com Ao Rufar dos Tambores), se revestindo de esplendorosa beleza romântica, cuja responsabilidade em parte se deve ao competente fotógrafo Winton C. Hoch (1909-1979), que Ford voltaria a escala-lo para fotografar em Legião Invencível (1949), Depois do Vendaval (1952), e Rastros de Ódio (1956).

OS TRÊS PADRINHOS em sua longa jornada no deserto
O Céu Mandou Alguém é um faroeste diferente. Talvez por isso que seja um filme ignorado e quase esquecido por grande parte dos historiadores de cinema, já que Ford sempre foi considerado um dos grandes mentores do gênero. No Brasil, foi lançado em 1949 e nunca foi reprisado nas salas de exibição. Entretanto, não deixa de ser uma das realizações mais magistrais do diretor, ao levar para as plateias uma alegoria sobre os Três Reis Magos e sua viagem a Belém para ver o Menino Jesus, aqui representados por três Foras-da Lei, vividos respectivamente por Wayne, Armendariz, e Carey Jr, que se tornam os Três Padrinhos como condiz o título original.



O enredo começa com Os Três Padrinhos chegando à cidade de Wellcome, no estado do Arizona. São eles Robert Marmaduke(Wayne), William Kearney (Harry Carey Jr.) e Pedro "Peter" Roca Fuerte (Pedro Armendariz). Eles pretendem assaltar o banco local. A princípio, não parecem violentos ou cruéis. O trio logo tenta fazer amizade com alguns moradores da região. O primeiro com quem puxam conversa é Perley ‘Buck’ Sweet (Ward Bond), um homem simpático, bem casado e que gosta de cuidar do jardim de sua casa, mas o que o trio ignorava é que esse homem é o delegado da cidade. Sweet, que é bom de prosa, serve café para os convidados, mas ele tem um sexto sentido. Alguma coisa lhe diz que os forasteiros não vieram com intenções nada boas.

Ward Bond é o delegado Sweet. Um doce de pessoa mas ele não é bobo
No momento que ele reconhece a foto de um deles num arquivo de procurados pela justiça, acontece na rua um tiroteio. É o bando colocando o plano do assalto em prática. Eles fogem para o meio deserto. No percurso, com um deles baleado e todos morrendo de sede, os três padrinhos encontram com uma carroça abandonada.

Robert (John Wayne) atendendo ao último pedido de uma mãe (Mildred Natwick) moribunda...
Que os Três Padrinhos cuidem de seu filhinho.
Uma tarefa nada fácil!
Dentro há uma mulher (Mildred Natwick) que acabou de dar à luz a um menino. Ela está muito fraca e parece que não vai resistir. Antes de morrer, porém, pede que eles cuidem da criança. A partir dali, nada terá mais importância na vida dos Três Padrinhos, a não ser dar conta da missão que lhes foi confiada. Os homens iniciam sua jornada em busca não apenas da salvação do bebê, mas também da própria redenção pessoal (embora só Robert a terá em vida, já que pelo caminho seus dois amigos acabam morrendo pelo deserto), e tamanha redenção acontece aos poucos durante toda a trajetória do filme.

Mesmo com a difícil missão, há tempo para as descontrações.
A parada dura pelo deserto
O Céu Mandou Alguém foi a quarta versão cinematográfica do romance de Kyne, pois além do filme de Ford de 1919, houve uma anterior em 1916, dirigido por Thomas Ince, The Last Chance Saloon, e em 1929 Heróis do Inferno/Hell’s Heroes, dirigido por William Wyler, além de Os Três Padrinhos/Three Godfathers, realizado em 1936 por Richard Boleslawski e com Chester Morris. Em 1974 houve uma quinta versão do livro, desta vez para a televisão, O Afilhado/The Godchild, dirigido por John Badham e estrelado por Jack Palance.



Após a morte de seus dois amigos, Robert passa a cuidar só do rebento, onde não só tentara salvar a vida do bebê, mas vai em busca de sua redenção pessoal.
Enfim, o bebê esta a salvo.
Robert se entrega ao delegado Sweet (Ward Bond), sendo bem tratado por ele e por sua esposa (Mae Marsh)
O Céu Mandou Alguém foi produzido por John Ford pela sua própria firma, a Argosy Picture, de parceria com Merian C. Cooper (1893-1973), o responsável pelo clássico King Kong de 1932.

Em artigo dedicado ao amigo Jurandir Bernardes Lima, Salvador/Bahia


FICHA TECNICA
O CEU MANDOU ALGUEM
TÍTULO ORIGINAL – 3 GODFATHERS
PAÍS – ESTADOS UNIDOS
ANO – 1948
DIREÇÃO – JOHN FORD
GÊNERO – WESTERN/DRAMA
ROTEIRO -  LAURENCE STALLINGS, FRANK S NUGENT, DO LIVRO DE PETER B. KYNE.
DURAÇÃO – 106 MINUTOS

ELENCO
• John Wayne  -   Robert Marmaduke Hightower

• Pedro Armendáriz - Pedro 'Pete' Roca Fuerte

• Harry Carey Jr. - William Kearney

• Ward Bond -  Perley 'Buck' Sweet

• Mae Marsh  -  Sra. Perley Sweet

• Mildred Natwick  -  A mãe

• Jane Darwell  - Srta. Florie

• Guy Kibbe - Juiz

• Ben Johnson - Homem #1

• Dorothy Ford - Ruby Latham

• Charles Halton - Oliver Latham

• Michael Dugan - Homem #2

• Don Summers - Homem #3

• Francis Ford  - Veterano bêbado no bar

ProduCAO E PESQUISA DE
PAULO TELLES
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Em Tempo.
Esta foi a última matéria do ano de 2015. O espaço voltará as atividades, com novas matérias, em março do próximo ano. O Editor deseja a todos os leitores e seguidores votos de um Feliz Natal e um ano novo repleto de saúde e alegrias. Que venha 2016!!!
Saudações cinéfilas de
PAULO TELLES
Editor do blog Filmes Antigos Club

6 comentários:

  1. Sou fã e viciado em cinema, o meu encontro com esse blog foi uma felicidade.

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    1. Muito Obrigado pelo comentário, Luiz! seja bem vindo. Abraços do editor - Paulo Telles.

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  2. Telles,

    O Ford tem uma extensa corrente de criações e da qual o filme em tópico não é uma das melhores coisas que fez.
    Tenho quase convicção de que ele, o diretor, depois de ver seu filme pronto andou se contestando por ali faltar algo.

    O que poderia ter dado errado? Tenho também convicção que ele desconfiava o que ocorrera pois, tinha uma boa historia nas mãos, escavacara cenários perfeitos para a realização de sua nova produção e era assessorado por uma boa equipe técnica.

    Então o que derrapou por ali? Claro que ele sabia.

    Sabia mas não podia fazer nada ou expor sua sabedoria, afinal o Duke, que é um interprete fraco por demais, e ele sabia disso, arrebentou seu filme exatamente no ápice da mesma quando cambaleava naquele espaço árido, com o Robert William Pedro nos braços, despejando terriveis caretas e caminhando trôpega e grosseiramente em busca de salvação para o pequeno.

    Jamais vi cena tão deselegante, mal feita, má interpretada em todos os filmes do Duke que, diga-se de passagem, não deveria tentar fazer o que não sabe, além de não ser esta sua primeira vez em derrapagem semelhante.

    Esteve bem em O Ultimo Pistoleiro, mas tinha muito pouco a fazer quanto a interpretar. Balançou muito em Rastros de Ódio/56, (podem atinar para isto). Caminhou sob a sombra do magnifico Holden no formidável Marcha de Herois/58, um dos melhores feitos do mestre Ford.

    E esteve muito pior em maõs de A.V. McLaglen em Jamais Foram Vencidos e Quando Um Homem é Homem. Ali, bem...nem vou por comentários.

    Talvez o Ford o deixasse muito à vontade, porque o Mark Rydell soube tirar dele o que não tinha em Os Cawboys, assim como o Hawks em Rio Vermelho naquele mesmo ano.

    O Ridell criou uma fita de alta qualidade em todos os aspectos, embora ela tenha muita correlação com Rio Vermelho/48, do formidável Hawks.

    Marcha de Herois, fita que considero uma das obras primas de Ford, é uma fita de qualidade alta demais, com uma densidade extraordinária, um espetáculo de realização do bom artesão. Mas com o Holden segurando o desequilibrio interpretativo do Duke e, enfim, proporcionando ao diretor criar um filme muito bom e que amaria ver numa postagem.

    Lamento expor de forma tão explicita para os leitores deste blog a minha percepção sobre a qualidade interpretativa de um Heroi do Cinema, um nome amado por tantos e onde aí estou incluso.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. John Wayne! John Wayne! John Wayne!

      Todos nós sabemos, amigo baiano, que Wayne (ou Duke) era um ator limitado, com pouquíssimos recursos interpretativos. Entretanto, era popular pelo seu carisma e vigor em tela. Claro que a interpretação de Wayne foi de péssimo gosto, mas não tirou a beleza de uma história singela, digna de época de Natal.

      Claro que o Duke se deu bem com Ford em outras ocasiões e também com Howard Hawks, e conseguiu atuações bem melhores, principalmente tempos depois em RASTROS DE ÓDIO, onde até mesmo com o olhar ele transmitia todo o ódio de Ethan Edwards. Não creio que balançou meu amigo. Acho que a interpretação do Duke caiu como uma luva. O mesmo não podemos dizer de MARCHA DE HERÓIS, onde realmente Wayne esteve ofuscado por um ator mais talentoso, William Holden.

      Se medirmos todos os filmes de Wayne e suas atuações, veremos um mito que agradou a mim, a vc, e a grande parte de cinéfilos que o idolatrava nas plateias. Não peguei esse tempo, já o conheci quando a televisão aberta servia de cinemateca (hoje, tudo para as TVS por assinatura), e desde muito jovem já o curtia, graças a um festival levado na extinta TV TUPI que levava seu nome.

      De fato, Wayne teve uma ótima interpretação em OS COWBOYS, que há quem diga que foi uma pré-homenagem à legenda de Wayne antes de O ÚLTIMO PISTOLEIRO, sua derradeira fita. Em todos os dois, o Duke teve boas atuações, mas para nosso deleite (e nem sempre a corresponder ao espectador mais exigente), nunca deixou de ser...JOHN WAYNE!

      Abraços do editor!

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  3. Telles,

    Se temos por conhecimento que o Duke sempre foi um ator com doses vultuosas de limitações, esta limitação, no meu observar, ele destilou no filme em pauta.

    Insisto que achei sua cena quase do final muito aquém até mesmo do que ele poderia fazer, como achei que o Ben Johnson no lugar de Armendariz ficaria melhor, como lhe dei toque.

    Não que o Armendariz destoasse ou fizesse algo que não agradasse mas, como gosto mais do Ben do que dele, de quem pouco vi trabalhos, preferiria este no seu lugar. O Ben era um homem acima de preparado para o que desse e viesse. Fiz até uma pequena cronica no Eugenio sobre este rapaz e algumas de suas soberbas atuações. Fator merecidissimo.


    De fato o Duke abusou de estar bem em Os Cawbois. Até mesmo melhor de que em o Ultimo Pistoleiro, sem querer exagerar, pois neste filme ele esteve apoiado pelo Jimmy e a Laureen Bacall, o que lhe apalpou melhor a interpretação. Porém, em Os Cawbois ele tem a grande chance de sua vida em termos de atuar, depois de Rio Vermelho.

    Não apenas neste ele esteve bem, como esteve em Rastros de Ódio, Depois do Vendaval, em Sangue de Herois, em Marcha de Herois (que considero um trabalho do Ford de altissima linha) ele andou bengaleando o talento do Holden, assim como em mais muitos outros.
    Nada de anormal para um ator que nem precisava de tanto talento para trabalhar, pois seu carisma encobria algumas falhas suas passáveis.

    Por tudo o que expus, não posso de forma alguma por elogios à sua quebra alta de atuação ao final do filme do Ford, O Ceu Mandou Alguém. É somente uma questão de observação mais apurada e se verá o Duke fora de foco completamente. O que não o desmerece como o ator que tanto amamos e veneramos a vida inteira.

    Jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Amigo Ju!

      Não precisa insistir porque vc tem razão. Wayne foi triste nesta cena. Mas por tanto amarmos o Duke e seus filmes, acabamos até perdoando tais gafes, não é mesmo?

      O personagem Pete, vivido por Pedro Armendariz, tinha que ser feito por um ator mexicano. Só se o roteiro tivesse que ser mudado o colocasse outro bandido americano, como Ben Johnson. Conheço alguns trabalhos do Armendariz. Recentemente assisti no Canal Futura o filme espanhol O BRUTO, de Luis Buñuel, onde Armendariz contracenou com sua conterrânea Katy Jurado.

      Acho que ele trabalhava muito bem e era natural. Ben Johnson era outro estilo, mas também faz por merecer aplausos.

      Sobre Wayne, em O CÉU MANDOU ALGUÉM não esta entre seus melhores filmes, e nem esta entre suas melhores interpretações, mas temos perante nossas vistas uma película de Ford, diferente de todos os demais trabalhos que temos conhecimento. De fato, apesar de ser um taciturno, durão, e muitas vezes um grosseirão, Ford acaba como que recontar, a seu modo, uma história de natal.

      O EDITOR

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