terça-feira, 8 de abril de 2014

Cecil B. DeMille e a Lux Radio Theatre


Prezados leitores.
Este artigo é dedicado a todos os locutores e profissionais da rádio em geral, bem como também é dedicado à ESCOLA DE RÁDIO DO RIO DE JANEIRO, ao seu diretor, Ruy Jobim, funcionários, e aos alunos que serão os futuros profissionais deste imortal veículo de comunicação.


Por quase dez anos, o cineasta Cecil B. DeMille (1881-1959) foi o produtor, anfitrião, e diretor de um dos maiores e mais populares programas semanais da história do Rádio americano: O LUX RADIO THEATRE.


O programa, criado em Nova Iorque por Anthony Stanford, com uma hora de duração, apresentava grandes nomes da Broadway em versões radiofonizadas de famosas peças teatrais.
Contudo, em 1936, os patrocinadores do programa, os Irmãos Lever, decidiram modificar o esquema da programação, e passaram a transmiti-lo diretamente de Hollywood, pela Columbia Broadway System, a CBS, com adaptações para o Rádio de filmes de sucesso, às vezes mesmo com o mesmo elenco que neles apareceram nas telas de cinema, e outras vezes com artistas diferentes nos papéis principais.

CECIL B DEMILLE supervisiona GARY COOPER no LUX RADIO THEATRE

JACK BENNY e MARY LINVISGTONE com DEMILLE
CECIL B DE MILLE entre ROBERT TAYLOR e JEAN HARLOW durante uma das transmissões

Foi assim, por exemplo, que Clark Gable substituiu Gary Cooper e Marlene Dietrich repetiu seu papel em Marrocos/Moroco/1930 (Paramount), direção de Joseph Von Sterberg;  Barbara Stanwyck, Errol Flynn e Mary Astor fizeram os papéis vividos por Merle Oberon, Joel McCrea e Miriam Hopkins em Infâmia/These Three/1936 (Goldwyn-United Artist), direção de William Wyler; Edward G Robinson, Gail Patrick e Laird Cregar tomaram os lugares de de Humphrey Bogart, Mary Astor e Sidney Greenstreet em Relíquia Macabra/The Maltese Falcon/1941 (Warner) direção de John Huston; Roy Rogers, Martha Scott e Albert Decker fizeram os mesmos papéis respectivos de James Cagney, Rosemary Lane e Humphrey Bogart em A Lei do Mais Forte/The Oklahoma Kid/1939 (Warner), direção de Lloyd Bacon; Gary Cooper e Fay Wray ficaram com as partes feitas respectivamente nas telas de cinema por Warner Baxter e Gloria Stuart em O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões/The Prisioner of Shark Island/1936, direção de John Ford; e Hedy Lamarr, John Loder e Alan Ladd fizeram no rádio o que Ingrid Bergman, Humphrey Bogart e Paul Henreid haviam feito no cinema em Casablanca/ Casablanca/1943, direção de Michael Curtiz.

KATE SMITH cumprimenta o notável EDWARD G. ROBINSON
FREDRIC MARCH e FLORENCE ELDRIDGE em ação!
DEMILLE supervisionando SPENCER TRACY e FAY WRAY
DE MILLE dando instruções a CHARLES BOYER, e ao lado do cineasta, de preto, ALEXIS SMITH

George Marion fez o mais importante papel secundário em ambas as versões de Anna Christie/Anna Christie/1929 (MGM), direção de Clarence Brown, enquanto Joan Crawford e Marjoire Rambeau ficaram com os papéis de Greta Garbo e Marie Dressler no cinema, e Spencer Tracy substituiu Charles Bickford.

ERROL FLYNN e BARBARA STANWYCK em uma das transmissões.
A NOTÁVEL BETTE DAVIS em Ação!
LAUREN BACALL e HUMPHREY BOGART
Barbara Stanwyck, John Boles e Anne Shirley tiveram no Lux Radio Theatre os mesmos papéis que haviam tido no cinema em Stella Dallas, a Mãe Redentora/Stella Dalas/1937 (Goldwyn/United Artist), o mesmo acontecendo com Irene Dunne e Charles Boyer em Duas Vidas/Love Affair/1939 (RKO Radio) direção de Leo McCarey.


DeMille manteve o programa no ar de 19 de junho de 1936 a 22 de janeiro de 1945, com uma única interrupção a 17 de janeiro de 1945, quando o show radiofônico foi transferido para segunda feira seguinte por ter sido a emissora requisitada pelo Governo naquela data.


Cecil Blount DeMille, conhecido como o “Pai das Superproduções”, tem sua trajetória a se confundir com a própria origem do cinema americano. Filho de um sacerdote dramaturgo e de uma atriz de companhia itinerante, ainda jovem, estudou na Academia de Artes dramáticas de Nova York, e com 19 anos, estreou na Broadway como ator, ofício que exerceu por muitos anos, enquanto gerenciava a companhia teatral da mãe.


Em 1913, o empresário de musicais da Broadway Jesse Lasky (1880-1958)  lhe ofereceu sociedade, juntamente com Samuel Goldfich, um outrora vendedor de luvas (conhecido, mais tarde, como Samuel Goldwyn, 1879-1974), numa nova companhia cinematográfica, que mais tarde, com a junção da empresa de Adolph Zuckor(1883-1976), seria formada a Paramount Pictures, estúdio que DeMille trabalharia por toda vida.



Foi o primeiro cineasta a utilizar a Sétima Arte como um Mega Espetáculo de grandes proporções, podendo mesmo dizer que foi o “fundador” das superproduções. Muito embora que para os padrões de hoje DeMille seja um cineasta artificial conforme críticos modernos, ele tinha um talento bem peculiar que muitos diretores depois dele não tiveram: Cecil sabia conduzir como ninguém cenas de multidão, e foram poucas as vezes que o cineasta precisasse de um diretor de segunda unidade para assessora-lo, e tudo sem artifício (a não ser com um tiro de pistola de festim, que o cineasta de vez em quando usava para comandar tais cenas). Entre as superproduções deste notável diretor estão clássicos como O Rei dos Reis (1927), O Sinal da Cruz (1932), As Cruzadas (1935), Sansão e Dalila (1949), e Os Dez Mandamentos (1956), que foi seu último filme, um Remake do tema que o próprio cineasta dirigira em 1923. Jamais ganhou um Oscar de melhor diretor, mas em 1949, recebeu o Oscar especial pelos 37 anos de dedicação ao Cinema, e em 1952, o prêmio Irving Thalberg. Seu penúltimo trabalho como diretor, O Maior Espetáculo da Terra, ganhou o Oscar de melhor filme em 1952. 



BASIL RATHBONE em ação!

DeMille ficou ao leme do Lux Radio Theatre, e nas noites de segunda feira tinha uma audiência fantástica – 40.000.000 de ouvintes! Em 1945, como o produtor-anfitrião-diretor, o seu salário anual chegava a US$ 100.000. Ocasionalmente, o programa tinha um diretor convidado que conduzia o trabalho sob supervisão direta de DeMille.

Contudo, DeMille deixou a direção do Lux Radio Theatre por se recusar a pagar a soma de US$ 1,00 (sim, um dólar!), conforme fora aprovado pela diretoria da seção de Los Angeles da Federação Americana de Artistas de Rádio, com a finalidade de acumular fundo de oposição à Proposição 12, nas eleições gerais de novembro de 1944, que aboliria as entidades fechadas na Califórnia e daria a cada californiano, sem considerar sua filiação ou não com qualquer sindicato, o direito de obter e de se manter em qualquer emprego. Sendo uma unidade fechada, a Federação exigiu a contribuição de um dólar de cada um de seus associados, a ser pago até o dia 1º de setembro de 1944. Se esta quantia um tanto irrisória não fosse paga, isso significaria automaticamente suspensão, proibindo de fazer qualquer trabalho no Rádio.

JAMES STEWART
BARBARA STANWYCK
ALAN LADD
VINCENT PRICE
Cecil B DeMille que havia apoiado a tal Proposição 12 e votado por ela, endureceu e recusou-se a pagar a contribuição exigida, sob o fundamento de que isso seria o mesmo que anular-lhe o voto, além de não acreditar que nenhum sindicato ou organização tivesse o direito de impor aos seus sócios uma contribuição compulsória política. Complementando a recusa, DeMille declarou terminantemente que não permitiria que qualquer outra pessoa ou organização, incluindo os Irmãos Lever (antigos patrocinadores do Lux Radio Theatre) pagasse aquele dólar por ele.

WILLIAM KEIGHLEY

Como o cineasta não poderia mais trabalhar nas funções outrora encarregadas por ele no Lux Radio Theatre, os Irmãos Lever levaram quase um ano para substituírem DeMille, contratando finalmente William Keighley (1889-1984), um dos diretores de As Aventuras de Robin Hood (1938), junto a Michael Curtiz, este o maior creditado.




O LUX RADIO THEATRE continuou por mais um ano sob a direção de Keighley, e quando a Federação se tornou Federação Americana de Artistas de Televisão e Rádio, o impedimento contra DeMille foi mantido, e este jamais pôde trabalhar na Televisão. Tivesse o cineasta pago o dólar, valor tão irrisório, ele provavelmente teria continuado como diretor do Lux até o final dos seus dez anos de existência. Sua irredutibilidade em efetuar o pagamento lhe custou, sem sombra de dúvida, pelo menos US$ 1.000.000!


Foram-se os dólares, mas os seus princípios e a sua personalidade permaneceram intocados. Como um verdadeiro Homem, DeMille acreditava que, quando estava certo, teria que se manter 100% em sua convicção, custasse o que custasse.  Entretanto, muito possível que estes dólares perdidos fossem recuperados triplamente em seu último filme, Os Dez Mandamentos, em 1956, pois se tornou o maior êxito comercial de sua carreira, não enchendo somente os cofres da Paramount, mas também o espólio deste lendário diretor, um dos maiores de todos os tempos.

PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES
COM BASE EM ARTIGO DE JOÃO LEPIANE

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EM TEMPO
IN MEMORIAN


JOSÉ WILKER (1947-2014)

Notável ator de cinema, teatro e televisão, além de diretor e produtor, e nascido em Juazeiro do Norte, deixa uma marca indelével para a cultura nacional, onde contribuiu incessantemente. No cinema, um de seus papéis mais marcantes foi no filme Dona Flor e Seus dois Maridos, de 1976 (dirigido Bruno Barreto), e em Bye Bye Brasil, de 1980 (dirigido por Carlos Diegues). Os fãs, admiradores de seu trabalho, amigos, e o povo brasileiro, sempre agradecerão o seu imenso legado, onde a Sétima Arte também agradece. José Wilker morreu no dia 5 de abril último.


MICKEY ROONEY (1920-2014)

Com uma carreira admirável de mais de 70 anos, Mickey começou como ator infantil e foi um dos poucos que na fase adulta conseguiu um podium, mesmo com apenas 1m57 de altura. Atuou com Judy Garland e juntos fizeram alguns musicais juvenis para Metro, e foi o primeiro marido de Ava Gardner. Participou de mais de 250 filmes e foi Indicado quatro vezes Oscars, ganhando apenas um prêmio honorário da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood pelo conjunto de sua obra. Outro legado deixado pela Sétima Arte. Mickey Rooney faleceu no último dia 6 de abril.

5 comentários:

  1. UM BELO TRABALHO, NO QUAL NÃO PUDE DAR NENHUMA COLABORAÇÃO. HAJA VISTA QUE NÃO SABIA QUE O GRANDE CECIL B. DEMILLE, TINHA ESTA GRANDE PARTICIPAÇÃO NO RÁDIO. SOMENTE PUDE APRENDER, E COMO APRENDI. PARABÉNS, NOBRE AMIGO POR MAIS ESTE GRANDE TRABALHO!

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    1. Major, muitos tem este desconhecimento do fato de DeMille ter comandado durante 9 anos este espetáculo da Rádio Americana. Mas o moral desta história não esta nesta ligação, e sim pelo fato de ter exercido, motivado por sua convicção pessoal, ao se recusar a pagar apenas um dólar para permanecer no comando deste programa que se chamava LUX RADIO THEATRE. O motivo dos comentários esta nesta questão. Obrigado Eddie, abraço do editor!

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  2. Fantástica matéria Paulo querido, eu não sabia de nada disso que li hoje. Confesso que me surpreendi por saber de tantos talentos colaborando para este evento no rádio. Uma grande sacada do diretor Cecil B. DeMille . Seria tão bom ter acesso a isso ,não é? Mais feliz fiquei em saber que Gary tomou parte . Obrigada por compartilhar, adorei.
    ...............✿(✿◠‿◠) Beijinhusssssss

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    1. Sibely, esta sacada não foi bem do DeMille, pois a ideia original foi dos Irmãos Lever, em Nova Iorque, com intuito de transmitir versões radiofônicas de grandes peças teatrais da Broadway, contudo foi levado a Hollywood onde DeMille tomou as rédeas e fez a mesma coisa, só que transmitindo versões radiofônicas dos filmes de Hollywood. Gary Cooper, pelo visto, participou de muitas edições deste programa. Abraços do editor!

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  3. Telles,

    Acho uma justa homenagem esta que presta aos radialistas.

    A matéria em pauta é algo que se mostra completamente novo para mim, a partir do momento que somente conhecia o Mille como o grande homem da Paramont e com seus filmes espetaculares.

    Entretanto, uma positiva aula para aprofundamento dos conhecimentos, já que imaginamos sempre que sabemos de tudo, o que não é verdade em vista desta validissima novidade.

    Olha; não acho justo se fazer um comentário HOJE, a respeito de filmes feitos 50, 60 a até 70 anos atrás usando-se critérios apenas atuais.

    Para se fazer algo assim é preciso se usar muitos critérios adicionais como; a época em que a fita foi criada e o que tinham em mãos para nos oferecer. A tecnologia que era ainda aspirante, dentre outros critérios.

    Ficar comentando um filme de 1930 com tudo o que temos no momento, principalmente mais conhecimento da arte, fica desigual.
    O filme é para ser comentado voltando-se no tempo e ponderando muitas e muitas coisas. Este é meu ponto de vista.

    No meu ver o De Mille foi um milagreiro, fazendo tudo aquilo que fazia com aqueles ralos recursos e nos premiando com fitas ainda hoje lindas demais.

    Quem pode por defeitos em um Os Dez Mandamentos/56, uma fita criada há quase 6 décadas? Pois respondo: "muitos". Muitos ainda cometem esta brutalidade.
    Porque? Pela razão de não fazerem ressalvas ou compararem as distancias dos tempos.

    De fato o De Mille foi o inventor das Super Produções. Vejo isto em seu rol de filmes e não o consigo comparar a nenhum outro diretor de sua época ou não.

    Mas ele não fez apenas filmes desta espécie. Ele fez faroestes ( Aliança de Aço/36, Legião de Herois/40, Os Inconquistáveis/47 e mais Jornadas Heroicas/30. Fez dramas como O Maior Espetáculo da Terra/52 e filmes de aventuras como Lafitte)

    Ele foi portanto um diretor completo, perfeito, genio, grandioso até.

    Uma excelente matéria, caro Telles, mas que não tenho muito o que dizer sobre ela e sim muito a captar.

    Mais ainda; inteligentissima e maravilhosa sua idéia de nos fazer ler tudo isto ouvindo trilhas de E O Vento Levou, Giant, The Big Country e etc.

    Olha: acabei de ler, de comentar e deixei o computador ligado a me deliciar com tanta coisa linda.
    Parabens pela idéia e ação, assim como a seleção dos temas.
    Fantástico!

    jurandir_lima@bol.com.br

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