sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Punhos de campeão, de Robert Wise (1949) – Filme absoluto sobre o Submundo do Boxe


Clássico do Cinema de Boxe, PUNHOS DE CAMPEÃO (The Set-Up, 1949), extraído de poema de Joseph Moncure March (1899-1977), foi a fita que deu consagração a Robert Wise (1914-2005), que se tornaria um dos maiores cineastas de todos os tempos, com currículo de obras como O Dia em que a Terra Parou (1952), Amor Sublime Amor (1960), e A Noviça Rebelde (1965). Também foi o filme que lançou Robert Ryan (1909-1973) como um astro potencial em Hollywood após alguns trabalhos anteriores, e, sobretudo, depois de sua importante e merecida (e também infelizmente única) indicação ao Oscar por Rancor/Crossfire (1947) para melhor ator coadjuvante de 1947 por sua atuação como o assassino anti-semita, mas acabou perdendo para Edmund Gwenn, que concorria para De Ilusão Também se vive naquele mesmo ano.  A ação transcorre em 72 minutos, tempo de duração do filme, processo que se repetiria também em Matar ou Morrer de 1952 e dirigido por Fred Zinnemann, onde a ação também transcorre na mesma duração da fita. 



A trama versa sobre Bill Stocker Thompson (Robert Ryan), um pugilista veterano e decadente que não desiste dos ringues, a contragosto da mulher Julie (Audrey Totter, 1910-2013), que quer vê-lo abandonar o ringue, aceita participar de uma última luta, num estádio de categoria inferior.Depois de várias derrotas consecutivas, sua esposa Julie apela para que ele desista do campeonato, mas ele não atende. Seus promotores foram corrompidos pela Máfia do Boxe, e Thompson ignora ser seu dever perder a luta para um lutador mais jovem , Tiger Nelson (Hal Baylor, 1918-1998), que é patrocinado pelos mafiosos.


Certo de que Stocker perderá a luta, seu empresário Tiny (George Tobias, 1901-1980) fecha um negócio com Danny (Edwin Max, 1909–1980), capanga de Little Boy (Alan Baxter, 1908-1976), um famoso gângster que investiu pesado no seu adversário. Em troca de uma boa soma em dinheiro, Tiny garante aos criminosos que Stocker abandonará a luta no 3º round. Sua certeza em relação às condições físicas de Stoker, faz com que ele nem toque no assunto junto ao boxeur. Até Gus (Wallace Ford, 1897-1966), o treinador de Stoker, se envolve no negócio sujo. Embora tenha uma cadeira reservada no Ginásio, após a saída de Stocker para a luta, Julie deixa o hotel para uma caminhada. Ela não quer ver mais o marido ser nocauteado e ficar inconsciente.



Seguido em sua determinação de vencer, Stocker sobe ao ringue. Ao subir ao ringue, ele vê a cadeira de Julie vazia. A luta começa. Nos primeiros rounds, ele mostra determinação e entusiasmo, sentindo que pode sair vencedor naquela noite. Seu agente preocupa-se com o que vê. Tiger Nelson reage e começa a bater forte em Stocker. No intervalo que antecede ao 4º round, Tiny lhe diz que o melhor é ele desistir, mas o indômito lutador não atende. Num certo ponto da luta, Stocker é derrubado, mas se levanta dentro do tempo. Embora exausto e bem machucado, parte com determinação para cima de Tiger Nelson e o nocauteia, sendo declarado o vencedor.




Na saída, Thompson é cercado pelos mafiosos, e tem suas mãos esmagada. Mesmo ferido e alquebrado, Thompson volta para casa, onde sua esposa o aguarda ansiosa, mas mal conseguindo ele caminhar em direção a porta, e cambaleante, cai em plena calçada. Da janela, Julie o vê, e sai em sua direção, acudindo-o.


No fim, Thompson diz a esposa: Eu venci, Julie...eu venci. E ela responde: Sim, querido, nós vencemos esta noite...nós vencemos. Um dos melhores filmes de Boxe da história do Cinema. Aqui, Bob Ryan usou, sem o recurso de dublê, sua experiência como boxeador, sem precisar de aulas de pugilismo e, de acordo com o diretor Robert Wise, foi um dos filmes que menos deu trabalho a ele, por não exigir aulas de pugilismo ao ator principal, pois este havia sido campeão de boxe amador.


A Crítica Eileen Bowser realçou notas do filme Punhos de Campeão (“The Set-Up’’). Estas notas estão hoje preservadas no Museu de Arte Moderna de Los Angeles:

O filme “The Set-Up” é poupado de qualquer lirismo, sobre o submundo e a humanidade tão baixa, revelada no soberbo desempenho de Robert Ryan. Tenho pouco a dizer. Thompson é tão ignorante e ignóbil quanto os outros boxeadores. Olhem seu rosto golpeado. É derrotado. Contudo, remanesce uma sensibilidade poética em seus olhos e em seu sorriso ocasional. Seus olhos estão sempre prestando atenção em volta do ringue, e o vemos constantemente fazendo isso enquanto espera o próximo assalto. Thompson tem bastante dignidade humana para recusar a corrupção, por isso ele sofreu uma brutal agressão, não mais importando com sua carreira medíocre no Boxe. Na extremidade, ele tem muito orgulho de si mesmo pela vitória ganha naquela luta, e não faz nenhuma avaliação da consequência dela.


Robert Ryan está maravilhoso no papel principal, e não se pode imaginar outro ator na pele de Stocker. De origem irlandesa, Ryan dividiu sua juventude entre suas duas paixões: o teatro e o boxe, e embora que ao longo de sua carreira nunca agisse como um astro no sentido literal da palavra, talvez em parte devido ao seu ativismo político (ele era democrata e membro ativo dos direitos civis americanos), que muitas vezes se contrastava com alguns papéis de vilões que o consagrou, Ryan ainda assim brilhou em Hollywood e nas telas de cinema, vindo a falecer em 1973.  Audrey Totter também apresenta uma ótima atuação. Algumas de suas cenas são inesquecíveis, como aquela em que, com receio de ver seu marido massacrado pelo adversário, vai até um viaduto onde, depois de muito pensar, rasga e joga fora o bilhete que lhe permitiria entrar no Ginásio.

Embora Punhos de Campeão tenha sido produzido com baixo orçamento, o trabalho de Wise o eleva à qualidade de um filme Classe A. A fotografia de Milton R. Krasner (1904-1988) é um outro ponto alto desse notável e surpreendente noir, com clima expressionista em tensão dramática exasperante. Esta brilhante obra esta disponível em DVD no Brasil. 


PUNHOS DE CAMPEÃO

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Set-Up
Ano: 1949
Pais: Estados Unidos
Gênero: Drama
Direção: Robert Wise
Roteiro: Art Cohn
Produção: Richard Goldstone
Direção Musical: C. Bakaleinikoff
Fotografia: Milton R. Krasner
Edição: Roland Gross
Direção de Arte: Albert S. D'Agostino, Jack Okey
Guarda-Roupa: C. Bakaleinikoff
Maquiagem: Gordon Baul

ELENCO

Robert Ryan- Bill 'Stocker' Thompson

Audrey Totter- Julie Thompsom

George Tobias- Tiny

Alan Baxter- Little Boy

Wallace Ford- Gus

Percy Helton- Red

Darryl Hickman- Shanley

Hal Baylor- Tiger Nelson

Produção e Pesquisa: Paulo Telles

12 comentários:

  1. "Um dos melhores filmes de Boxe da história do Cinema. e eu que sou fã do gênero desde Touro Indomável ainda não assisti. Bela viagem histórica.

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    1. Muito obrigado Renato. O Touro Indomável, de Scorsese, tem algumas reminiscências deste clássico de Wise. Bem lembrado.

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  2. PARABENS MEU NOBRE AMIGO, POR MAIS ESTE TRIBUTO. DESTA VEZ PARA O GRANDE ROBERT RYAN, UM EXCELENTE ATOR, MAS POUCO VALORIZADO...
    PUNHOS DE CAMPEÃO, NA MINHA OPINIÃO, É O MELHOR FILME DE BOX!

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    1. O Grande Robert Ryan já foi aqui relembrado neste espaço, em homenagem aos seus 100 anos. Infelizmente, hoje é um ator pouco lembrado, porque foi mais atuante como ativista dos direitos humanos. Mas sem dúvida, um ator que sabia interpretar como nenhum outro.

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  3. PARABENS MEU NOBRE AMIGO, POR MAIS ESTE TRIBUTO. DESTA VEZ PARA O GRANDE ROBERT RYAN, UM EXCELENTE ATOR, MAS POUCO VALORIZADO...
    PUNHOS DE CAMPEÃO, NA MINHA OPINIÃO, É O MELHOR FILME DE BOX!

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  4. Ótimo meu caro, ótimo. Não sou fã do esporte, mas gosto dele abordado em alguns filmes como no excelente Day of the Fight, documentário do Kubrick e o primeiro Rocky, com Stallone (uma pena que virou uma longa e cansativa série).

    Robert Wise foi um dos grandes cineastas, concordo, era capaz de dirigir qualquer projeto como William Wyler e Sidney Lumet.

    Vou procurar assistir.

    Abraço.

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    1. Rodrigo, este filme é um MUST no tema. Ao lado de O INVENCÍVEL, de Mark Robson. O TOURO INDOMÁVEL, de Martin Scorsese, e MARCADO PELA SARJETA, também de Robert Wise, figura entre os melhores filmes sobre o submundo do boxe no Cinema.. Procure assistir, já tem em DVD no Brasil.

      Abraços!

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  5. Perfeitamente. Perfeitamente.

    Uma fita de boxe para se ter a dignidade de sair do cinema dizendo; acabo de ver uma fita de boxe, e mostrar no seu semblante a lisura de suas palavras.

    De fato: o Wise, com sua maestria indiscutivel, realizou um dos maiores filmes do genero, com uma trama perfeita e com desempenhos magistrais.

    Aliás, sem qualquer modéstia, se algum diretor tinha um bom filme para ser feito e que necessitava de uma interpretação gigante de seu astro, poderia sem receio entregar este papel para o soberbo Robert Ryan. Homem que pareceu nascer para esta arte e que até fez alguns papéis que, normalmente, constesto sua desnecessária presença neles, como; Mato em Nome da Lei, Capitão Nemo e a Cidade Flutuante, assim como em Conspiração do Silencio/55, fita muito elogiada, e tida até como um western, mas que não é captada pelo meu agrado, assim como não a considero um faroeste de forma alguma.

    No entanto vê-se com o maior agrado e até prazer exaltado, suas interpretações nos modestos faroestes Quadrilha Maldita, Imperio do Pavor e no mais bem criado O Preço de Um Covarde, do Mann.

    No entanto, para minha preferencia, o Ryan nunca esteve tão bem como em Só a Mulher Peca. Um drama perfeito para seu tipo de ator e onde tem um desempenho invejável. Andou muito bem em Horizontes de Gloria, do Ray e esbanjou talento em Meu Ódio Será tua Herança e em Os Profissionais.

    Não vai dar para enumerar muito mais de sua longa lista de fitas maravilhosas, porém fica o registro de que fomos privilegiados em demasia em assistir trabalhos deste ator inqualificável.

    Novamente parabenizo o editor pela elaboração deste precioso serviço em prol da plena satisfação dos muitos que amam esta arte sem igual, assim como nos trazer à baila lembranças daqueles que fizeram parte dela como este baluarte quase que imortal.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir, Robert Ryan fez de tudo no cinema americano, sempre com competência e estilos únicos, e concordo, ele nasceu mesmo para atuar. Infelizmente, a não ser por nós saudosistas e amantes do cinema antigo, ele anda lamentavelmente esquecido injustamente, Só teve uma indicação ao Oscar (como coadjuvante, em CROSFIRE/RANCOR, de Edward Dmytryk), mas ao contrário de outros astros e estrelas, era um homem simples, que se preocupava unicamente com os direitos humanos, do qual era assíduo ativista.

      Também, pela minha ótica, não considero CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO um faroeste (e que me perdoe nosso querido Eddie). Muito embora seja uma história passada no Oeste Americano no Pós-Guerra, ele não parece ter tantos elementos característicos no gênero. O vejo mais como um criminal detetivesco e de suspense, que tem até mesmo como pano de fundo as reminiscencias da II Guerra, já que o protagonista interpretado por Spencer Tracy era um soldado que havia perdido seu braço, e como teve a vida salva por um japonês (inimigo dos americanos), foi a uma cidadezinha do Oeste Americano para lhe dar uma retribuição. Breve vou compor um artigo sobre este grandioso filme (apesar de sua curta duração, de 82 minutos) que faz parte da boa safra de 1955.

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  6. Telles,

    Acabo de por meu comentário e concordei com o amigo que o filme do Wise foi, de fato, um formidável e vigoroso drama de boxe.

    No entanto, gostaria de acrescentar que nos idos de 50/60 eu vi uma fita deste genero feito pelo cinema japones com o titulo de Punhos de Vitoria.

    Confesso que ainda não havia visto nem o filme do Ryan nem o do Douglas, e que aquele filme japones me deixou por anos a fio impresionado pela qualidade técnica, pelo enredo, pelo drama criado e pelo desenrolar de tão perfeito filme.

    Tenho convicção de que muitos cinéfilos amantes deste genero de filmes não conhece esta fita, mas que posso afirmar que ele não fica a dever nada ao filme do Wise ou mesmo ao do Douglas, assim como ao outro do Wise, Marcado pela Sarjeta, muito menos ao do Scorcese com o De Niro.

    Desnecessário observar que todas peliculas citadas se tratam de filmes com qualidades excepcionais, valendo-se apenas pelo critério de apreciação individual, puramente pessoal deste comentarista dando mais qualidade ao filme japones Punhos de Vitoria.

    Espero que um dia muitos dos que estão lendo este tópico tenham a oportunidade de ver esta fita, para então porem em paralelo sua preferencia à minha.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Pois é amigo Ju!

      O Eddie me deu a sugestão mesmo de compor um artigo sobre filmes de boxe e esta no stand by, pode sair para o próximo ano. É claro que PUNHOS DE CAMPEÃO, com Bob Ryan, e O INVENCÍVEL, com Kirk Douglas, não são fitas únicas no gênero, ainda há muitas outras ao estilo que merecem destaque (até mesmo Audie Murphy atuou numa delas, mas isto é outra história!!!)

      Este PUNHOS DE VITÓRIA eu de fato não conheço amigo baiano! Preciso pesquisar e se souber de detalhes sobre este filme me mande um email.

      Muito obrigado amigo baiano!

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  7. Olha, caro amigo Telles,

    Não sei se vais conseguir informação sobre esta fita, pois eu já virei a Internet de cabeça para baixo e até achei uma relação dos bons filmes japoneses feitos, colocados por ano, e Punhos de Vitoria não consta dele.

    Não entendo isso, porque sei, que se tu ver este filme não irá ter opinião diferente da minha pois, o cinema japones, ainda hoje, é um cinema de qualidade rara em 95% de suas produções, podendo o amigo fazer por aí uma comparação.

    Recordas que falaste por estes dias em resposta a uma postagem? Falaste que na década de 50 o cinema mexicano (ah! lembrei. Foi falando com nossa amiga a Pantaleão na postagem do Price), Bem; disseste que na decada de 50 o cinema mexicano era atuante em nosso mercado.

    Mas, faço ligeiro reparo na fala do companheiro Telles, acrescentando que nesta década não apenas o cinema Mexicano (quando vi lindissimos filmes como; Diana, a Caçadora, A Flecha Envenenada e etc) outros centros, como a Russia, a Italia, A França, dentre mais algumas, atuavam fortemente no Brasil com grandes filmes.

    Estou sendo um pouco longo novamente, mas veja; outro dia eu indaguei ao Lancaster sobre um filme russo que vi, intitulado O Quadragésimo Primeiro. Ele disse nunca o ter visto ou ouvido falar.

    E como este muitos outros de outras praças como Rocco e seus Irmãos (Italiano), O Salário do Medo (Frances) dentre mais outros.

    E hoje você muitissimo pouco ouve se falar daqueles grandes filmes, como é o caso deste Punhos de Vitória, que sei encontraras dificuldades demais para encontra, Mas faço votos que ache alguma coisa, assim voltarei a ele para catar detalhes que me faltam.

    Desculpe tanto, mas achei que era preciso me expandir um pouco.

    Grande abraço

    jurandir_lima@bol.com;br

    Ps: caso a Pantaleão não veja minha fala para ela, fineza fazer um contato com a mesmo, já que amaria ter sua resposta.

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