quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ecce Homo: O Evangelho Segundo o Cinema. 10 Filmes Sobre a Vida e Paixão de Cristo.




São incontáveis as montagens cinematográficas sobre a vida e paixão de Jesus Cristo. Sabemos que desde os primórdios da Sétima Arte, os pioneiros investiram em diversas adaptações dos Evangelhos. Acredita-se que mais de duas mil versões foram realizadas sobre a vida do homem que dividiu o tempo antes e depois dele, seja no cinema e na televisão. Logo, seria impossível enumerar todas as películas feitas sobre a vida do Redentor. No presente artigo inspirado na passagem da Semana Santa e da Páscoa, ilustraremos os mais importantes no hagiográfico tema religioso no cinema. São estes:

1-A Vida e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (1905) – de Ferdinand Zecca.
2-Da Manjedoura à Cruz (1912)– de Sidney Olcott
3-O Rei dos Reis (1927) – de Cecil B. DeMille
4- Golghota (1934) de Julien Duvivier
5-Rei dos Reis (1961) de Nicholas Ray
6-O Evangelho Segundo São Mateus (1964) de Pier Paolo Pasolini
7-A Maior História de Todos os Tempos (1965) – de George Stevens
8-Jesus de Nazaré (1977) – de Franco Zeffirelli
9-A Última Tentação de Cristo (1988) – de Martin Scorsese
10- A Paixão de Cristo (2004) – de Mel Gibson

Mas para elaboração e análise aprofundada de cada uma destas obras, teremos que fazer uma breve retrospectiva sobre este personagem enigmático, que ao longo de 2.000 anos vem atraindo artistas de todos os gêneros, escritores, teólogos, e estudiosos, e que fora do Novo Testamento poucas referências ainda temos sobre sua vida pública.







QUEM FOI O HOMEM JESUS?

O que todos sabemos sobre a vida de Jesus Cristo, o Messias, nos é contada nas páginas da Bíblia Sagrada. O filho de Deus nascido de uma mulher virgem por intercessão do Espírito Santo. Sua vida é a mais bela história de amor ao próximo. O calvário, a cruz, a crucificação do Messias. Aquele que veio para salvar a humanidade através de sua paixão, morte e ressurreição.




Pesquisas atuais mostram que Jesus foi um revolucionário em seu tempo, sua inteligência e visão futurista eram avançadas demais para a época em que viveu. Um rebelde pregador, que incomodava a elite de Jerusalém e os governantes. Em apenas trezentos após sua morte, a igreja Católica já detinha o poder no mundo Ocidental, graças aos feitos do Imperador Constantino, O Grande.




O que intriga os pesquisadores dos escritos do novo evangelho é saber como uma pessoa vinda simples conseguiu em tão pouco tempo converter tanta gente. Os milagres feitos em vida seria um dos motivos. A expansão rápida do cristianismo nos aponta para os milagres realizados por Cristo. Coisas fantásticas devem ter ocorrido diante dos olhos da população da época e mudado a mente daqueles cidadãos que foram convertidos ao cristianismo. Os milagres aconteceram, mas é impossível se provar algo a esse respeito, visto a precariedade dos relatos deixados desde então.




A principal fonte sobre Jesus são os quatro evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) a que se somam outras fontes cristãs, como os evangelhos apócrifos, e um número escasso de fontes não cristãs. Estas fontes providenciam poucas informações sobre o Jesus histórico.



Três dos evangelhos canônicos (Mateus, Marcos e Lucas) são conhecidos como sinópticos devido às suas semelhanças. Embora Mateus apareça em primeiro lugar no Novo testamento, acredita-se atualmente que Marcos foi o primeiro a ser escrito. Enquanto que Mateus dirige-se a uma audiência judaica, e Lucas aos gentios, ambos parecem ter usado Marcos como fonte, possivelmente numa versão inicial de João, por seu lado, "é uma produção independente, apresentando os dizeres de Jesus Cristo na forma de discursos que difere do que contam os outros três.





De acordo com alguns historiadores, estes textos foram escritos entre setenta a cem anos após a morte de Cristo. Eles recontam em pormenores a vida pública de Jesus, ou seja, o período de pregações nos últimos anos da sua vida. No entanto, há limitadas informações sobre sua vida privada. Representam os principais documentos em que convergem os trabalhos hermenêuticos dos historiadores. Na atualidade, diversas escolas com diferentes pontos de vista sobre a confiabilidade dos evangelhos e a historicidade de Jesus têm se desenvolvido.

Em algumas obras de autores antigos não cristãos estão algumas referências esparsas sobre Jesus ou seus seguidores. A mais antiga destas obras é o Testimonium Flavianum. Alguns historiadores consideram tais referências como interpolações posteriores de copistas cristãos.



Jesus foi um profeta e, como todos eles, desmascarou as hipocrisias e a falta de fé dos homens de sua época. E foi mais longe: Desafiou as autoridades religiosas de seu tempo, rompendo com tradições e costumes de sua época, trazendo novos ensinamentos.




Foi assim quando expulsou os vendedores do templo, foi assim quando conversava, se alimentava, e convivia com os gentios (ou mesmo pagãos, considerados impuros), e foi assim quando chamava os fariseus (poderosa facção política/religiosa da época) de hipócritas e aproveitadores. Foi assim quando se aproximava das mulheres samaritanas (um tabu para a época), quando curava judeus e pagãos. Tudo isto chocava e escandalizava naqueles dias.




E foi contrariando interesses econômicos por parte do Sinédrio, que servia a seu modo ao Império Romano, que Jesus de Nazaré foi morto.

O poder religioso, percebendo a sabedoria de Jesus, percebendo que a doutrina Dele convertia muitas pessoas, percebendo que ele era contrário ao sistema religioso vigente, decidiu matá-lo. A liberdade de expressão sempre incomodou quem esteve no poder. Armaram uma cilada para Jesus, prenderam-no à surdina, de madrugada, aproveitando a festa da Páscoa.

Jesus não foi morto nem pelo povo judeu e nem pelos romanos. Jesus foi morto pela elite do sistema religioso, pelos chefes dos sacerdotes, pelos doutores da lei, pelos hipócritas, pelos verdadeiros sepulcros caiados e guias cegos, pela raça de víboras, pelos que gostam dos lugares de honras nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Foram essas pessoas, que eram em número elevado, que o acusaram de blasfêmia, e gritaram: Crucifiquem-no! Crucifiquem-no!



Este foi o Homem Jesus e seu tempo.







-SOBRE AS REPRESENTAÇÕES DE JESUS.
VERITAS? QUID EST VERITAS?

“Perguntou-lhe Pilatos: Verdade? Que é a Verdade?”

(João 18.38)

As narrativas bíblicas sempre inspiraram representações visuais. No passado, essas aconteciam através de quadros, vitrais e retábulos. Numa época em que a leitura era privilégio de elites, a Igreja encontrou uma forma de contar as estórias da salvação e gravá-las no imaginário popular por meio da pintura ou de outras técnicas de arte visual. As representações visuais da anunciação, do batismo de Cristo, de eventos de seu ministério e, principalmente da crucificação fazem parte da herança.





ARTE E INTERPRETAÇÃO

Desde o início, o cinema partiu para a hagiografia, evocando interpretações que vieram a marcar épocas, e deixando na emulsão imagens tão significativas e diversas de Cristo, assim como é na pintura. Muito embora a figura pictórica do personagem não seja a verdadeira, foi a imaginação dos pintores que vieram a influenciar muitos dos cineastas que ousaram a filmar a vida de Jesus. Entretanto, para corporificar Jesus nas telas de cinema, o cinema adotou, na maior parte dos casos, o conceito europocêntrico: Jesus seria alto ou ruivo, louro e de olhos azuis. Difícil, uma vez que nasceu na Ásia Menor, o que certamente gera a impossibilidade de ter nascido com a pele dos escandinavos. Se ele nasceu e viveu as margens do Mediterrâneo, teria a pele caracteristicamente bronzeada.




OS PASSOS DOS PIONEIROS

No início, era a fotografia animada e o silêncio dos claustros. Com um olho no capital empatado e com o outro nos lucros de retorno, a Casa Lumiere, ao que se tem registro, foi a primeira a lançar, em 1897, a Paixão de Cristo, rodada em Horitz, na Boêmia, com atores amadores interpretando o drama tal como é, até hoje, encenado em Oberammergau, na Baviera, nos alpes germânicos, a cada dez anos (na verdade, desde 1634, mais de três séculos).




O filme repetia, em 14 quadros, os passos do martírio de Cristo a caminho do Gólgotha, com 250 metros de filme com duração de 15 minutos, que constituíram um marco até então. Não era exatamente um filme, mas uma história em quadrinhos transposta para a tela, um Teatro filmado, reproduzindo os “mistérios da paixão” de maneira medieval que continuava no Iluminismo renascentista e se estende até hoje em muitas dramatizações.

O filme de Lumiere custou U$$ 500 dólares, mas foi vendido por 10 mil para os Estados Unidos, onde rendeu muitos, milhares mais. Hoje, não se sabe sobre sua ficha técnica.




Evidente que havia certos concorrentes que endoidaram de ambição. A Pathé produziu e lançou, ainda em 1897, a sua Paixão , feita pelo cinegrafista Lear e interpretada pelos alunos do Colégio São Nicolau, de Paris, que costumava encena-la na Feira dos Inválidos.



Os americanos, no entanto, não dormiram no ponto. Um certo dono de um museu de cera, filmou, no mesmo ano, sua Paixão de Cristo, no alto de um hotel nova-iorquino; o diretor foi o primeiro a dar um tratamento gramaticalmente condizente ao novo meio de expressão: Um precursor, David W. Griffith (1875-1948), o primeiro grande cineasta de todos os tempos




O intérprete de Cristo neste drama de Griffith, como da produção da Pathé anterior e o da que se segue foram esquecidos. A quarta Paixão, de 1897 foi produzida por Sigmund Labin, de Filadélfia, que era em verdade um plagiário e um inescrupuloso, que produziu um filme no qual apareciam curiosos assistindo as filmagens de uma janela próxima do palco de filmagem.



OS FILMES SOBRE JESUS

1-  VIDA E PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO (1905)- FRANÇA.

DIREÇÃO: FERDINAND ZECCA


A primeira versão colorida da Pathé (com pintura a mão quadro a quadro, fotograma a fotograma) se tornou uma das mais célebres, e dirigida pelo pioneiro francês Ferdinand Zecca (1864-1947), e fotografada por Lucien Nounguet (1868-1920?), intitulada La Passion de Notre Seigneur Jésus Christ (A Vida e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo), muito exibido nos nossos feriados de Semana Santa nos cinemas brasileiros durante muitos anos.



A produção, em verdade, foi iniciada em 1902, mas terminada em 1905. A estética desta obra é a mesma dos presépios de natal e dos quadros da paixão em igrejas, todos de inspiração na arte sacra medieval – com pouca e tosca, ou nenhuma perspectiva (pois o que mais importa aqui é a mensagem do conteúdo; é uma arte exclusivamente pragmática e didática a arte devota).

A contribuição especificamente cinematográfica do filme de Zecca, este promove a movimentação da câmera em desajeitadas panorâmicas que procuram mostrar a totalidade e grandeza dos cenários.





A Paixão de Zecca fez um estrondoso sucesso, ganhando uma nova versão em 1907 e abrindo caminho para uma nova etapa no nascimento e no desenvolvimento da Sétima Arte: o Filme de Arte. É Considerado, no tributo religioso, um dos cem melhores filmes de acordo com a Santa Sé, na lista realizada em 1995 pelo Vaticano, na categoria religião.




2- DA MANJEDOURA À CRUZ (1912) - ESTADOS UNIDOS.
DIREÇÃO: SIDNEY OLCOTT



O primeiro filme com uma narrativa ininterrupta foi Från krubban till korset –Ou no inglês, From the Manjer to the Cross (1912) – Da Manjedoura à Cruz - produção americana, apesar do título sueco, e que tem o ator inglês Robert Henderson-Bland (1876-1941) como protagonista. Pode-se dizer que este foi o primeiro ator a encarnar Jesus Cristo oficialmente nas telas do cinema (já que na produção francesa anterior, da Pathé, o nome dos atores que fizeram parte do elenco se perdeu no tempo).




Dirigido por Sidney Olcott (1873-1949), cineasta que dirigiu a primeira versão de Ben-Hur, de 1907, e filmado na Terra Santa ao custo de 35 mil dólares, obtendo o lucro de um milhão.Olcott também faz uma ponta como ator, desempenhando o homem cego curado por Jesus.




Outro ator pioneiro a interpretar Cristo foi o francês Jacques Gulhène, numa versão da Paixão, de 1911.

Em 1913, o Papa Pio XI proibiu o uso de filmes religiosos e a representação de cenas do Evangelho. No entanto, isto não intimidou os produtores, que continuariam a explorar o assunto, pois a economia de mercado exigia, segundo o saudoso escritor Salvyano Cavalcanti de Paiva, exigia até mesmo de abusar da explicitude.




3-O REI DOS REIS (1927) - EUA
DIREÇÃO: CECIL B.DEMILLE

Detentor da Comenda do Santo Sepulcro, o produtor e diretor Cecil B. DeMille (1881-1959) ousou corajosamente romper a proibição do Papa, em 1927, realizando uma das obras mais sérias e importantes da hagiografia cristã: O Rei dos Reis – The King Of Kings, da Pathé americana (mais tarde formada pela Paramount, que iria não somente distribuir esta obra, mas as demais produções do diretor).


Espetáculo de grandiosidade cênica, colocou no elenco 156 atores e atrizes notórios, e milhares de figurantes. O intérprete de Jesus nesta sacra fita é um ator de envergadura: H. B. Warner (1876-1958), que cumpriu a missão com habilidade.



De Mille obrigava os atores e toda a equipe técnica a participarem de cultos religiosos antes das filmagens, e rodou a crucificação de Cristo em plena noite de Natal. Apresentava contratos para que seus atores não fumassem ou bebessem em público, ou dirigissem carros caríssimos, para que não comprometessem com suas "sagradas imagens" no filme.





H.B.Warner, durante a produção do filme, se envolveu num sério escândalo com uma mulher que ameaçou arruinar sua carreira e a própria reputação do trabalho de DeMille caso Warner não a assumisse. Acredita-se que para evitar maiores problemas, DeMille teria pago a esta mulher para que ela deixasse Warner em paz e saísse dos Estados Unidos, e assim, não atrapalhar o andamento das filmagens.





DeMille usou outros grandes nomes para compor sua obra sacra, como Dorothy Cummings (1899-1983), como Maria; Ernest Torrence (1878-1933) como Pedro; Victor Varconi (1891-1976) como Pilatos; William Boyd (1895-1972), o futuro cowboy Hoppalong Cassidy das nostálgicas matinês, como Simão Cireneu; o futuro ganhador do Oscar Joseph Schildkraut (1896-1964) como Judas, e seu pai, Rudolph Schildkraut (1862–1930), como Caifás.



DeMille inicia sua obra com a vida pública de Jesus. Não se cita seu nascimento ou batismo por João Batista, e tudo começa com o personagem de Maria Madalena (Jacqueline Logan, 1901–1983), a rica cortesã, irada com o sumiço de seu amante Judas Iscariotes (Joseph Schildkraut), que descobre que ele entrou para o grupo de Jesus. Revoltada, ela se dirige a Cristo, que a exorciza dos famosos Sete Pecados Capitais. Uma idéia mirabolante concebida pela genialidade de DeMille junto com sua escritora e colaboradora dos tempos dos silents, Jeanie Macpherson (1887–1946).






Anos mais tarde, um pastor protestante foi conhecer H.B.Warner, e lhe confidenciou: Quando menino, eu vi o senhor no filme The King Of Kings. Hoje, toda vez que penso no meu mestre, é o seu rosto que encontro.




4- GOLGHOTA (1935) - FRANÇA
DIREÇÃO: JULIEN DUVIVIER

Estreado no Brasil com o subtítulo de “O Grande Drama da Humanidade”, e baseado no romance “O Mártir do Gólgota”, de Enrique Perez Escrich (1829- 1897), Golghota foi produzido na França em 1935 e dirigido por Julien Duvivier (1896-1967).





Além de obter aplausos de grandes críticos da época, foi rotulado pelo jornal francês Le Salut Public, como “a melhor construção da Antiguidade até agora conseguida”. Esta obra de Duvivier foi reprisada nos cinemas do Rio de janeiro na década de 1950, sob o título original do romance de Escrich.






A fita comprova a qualidade do intérprete de Cristo, Robert Le Vigan (1900-1972), sério, veemente, distanciado da linha do Cristo apostólico romano. Um Cristo quase hierárquico, cujo o roteiro tem um diálogo fiel ao espírito do Evangelho, dito por astros como Harry Baur (1880-1943) como Herodes Antipas; Jean Gabin (1904-1976), como Pilatos; Edwige Feuillère (1907–1998), como Prócula, esposa de Pilatos; e Lucas Gridoux (1896–1952), como Judas.







Robert Le Vigan, o intérprete de Cristo, após a conclusão desta magnífica obra de Duvivier (uma das melhores sobre a vida de Jesus), se tornou popular e bastante requisitado por muitos diretores franceses, mas quando a França foi invadida pelos alemães durante a II Guerra, tornou-se um membro radical do “Parti Populiste Français", um direitista partido pró-fascista , e não escondeu seu apoio ao anti-semitismo, além de colaborar com as autoridades nazistas.




Em 1944, ele foi escolhido para aparecer em O Boulevard do Crime (1945) filmado nos estúdios de Victorine, perto de Nice, mas abandonou o trabalho quando os Aliados desembarcaram na Sicília, e acabou sendo substituído por Pierre Renoir.

De volta a Paris, ele foi forçado a fugir mais uma vez, já que a capital francesa estava prestes a ser libertado em agosto de 1944. Juntamente com seu amigo, o autor fascista Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), ele se refugiou na Alemanha, onde ele se encontrou com o jornalista colaboracionista e político francês Jean Luchaire (1901-1946) e sua filha, a atriz Corinne Luchaire (1921-1950).



Ele foi preso quando estava tentando atravessar a fronteira com a Suíça e enviado de volta para a França onde ele foi preso em Fresnes (perto de Paris). No seu julgamento, em 12 de novembro de 1946, seus ex-colegas Jean-Louis Barrault , Madeleine Renaud, e o próprio diretor Julien Duvivier , entre outros, deram provas para a defesa e tentaram provar que Le Vigan era apenas uma criatura fraca desencaminhado por Céline.

Apesar destes apelos de clemência, Le Vigan foi condenado a dez anos de trabalhos forçados. Ele também perdeu seus direitos civis como cidadão francês, e todos os seus bens foram confiscados. Depois de três anos em um campo de trabalho, ele foi posto em liberdade condicional e fugiu para a Espanha, depois para a Argentina, onde viveu na pobreza (e louco) até sua morte, em 1972.



5- REI DOS REIS (1961) - EUA
DIREÇÃO: NICHOLAS RAY.



Em 1961, Nicholas Ray (1911-1979) juntamente com o produtor Samuel Bronston (1908-1994) realizou uma das obras mais importantes da vida de Jesus Cristo, um tributo à iconografia cristã, estabelecida desde que Lumiere realizou sua La Passion em 1897:Rei dos Reis.


A obra sacra de Ray, a penúltima em sua primorosa filmografia, foi rodada na Espanha, acarretando divisão de opiniões, tanto por parte da crítica, do público, e de líderes religiosos cristãos. Não contente de apenas se inspirar nas pesquisas dos maiores estudiosos sobre o tema, Ray, juntamente com o produtor Bronston, teve uma audiência com o Papa João XXIII (1881-1963), ao qual pediram sugestões para a coordenação e distribuição de cenas. Ray escalou seu colaborador e amigo de anos, o competente e ganhador do Oscar pelo roteiro de A Lança Partida, Philip Yordan (1913-2004), para confeccionar o script, que enfileira os principais episódios do Evangelho em seus 168 minutos de projeção, segundo uma postura cênica, hierática, e comovedora.



Dificilmente, algum maquiador faria o mesmo com o rosto de Jeffrey Hunter (1925-1969), o intérprete de Cristo. A apolínea beleza do ator de olhos azuis e um triste destino (Hunter morreu aos 43 anos, em 1969, ao cair de uma escada em sua casa).  Com a escolha de Hunter, decerto o mais belo Cristo idealizado nas telas, e o roteiro inteligente de Yordan, que ajustou com perfeição a imagem de Jesus Cristo ao seu verdadeiro ambiente, respeitando acontecimentos históricos daqueles tempos agitados, Rei dos Reis se tornou um espetáculo tradicional e um dos preferidos em reprises da Semana Santa pela TV por assinatura hoje. A fita, motivada pelo script de Yordan, alivia até mesmo a culpabilidade pela morte de Jesus pelos judeus, dando a entender que foi uma conspiração do Império Romano, que durante três anos vinha investigando os passos do Nazareno e de seus discípulos.



Jeffrey Hunter atua como Jesus com inigualável carisma a altura do personagem. Sereno, sublime, humano, mas, ao mesmo tempo, colocado acima dos mortais. Ele declarou a uma revista americana, em março de 1962, um ano depois do lançamento do filme, a respeito de seu desempenho como Cristo:

 Não compreendi totalmente minha responsabilidade até achar-me nas vestes de Jesus, subindo a montanha para a cena do sermão das bem-aventuranças. Para minha surpresa, muitos habitantes do vilarejo caíram de joelhos enquanto eu passava. Eles sabiam muito bem que eu era um mero ator, porém sentiram que, de alguma forma, eu era uma representação viva de uma figura que lhes era sagrada desde a infância. Eu não sabia o que fazer... foi aí que me conscientizei do que aceitara representar.




Senti minha responsabilidade crescer à medida que o filme prosseguia, e sinto-a ainda mesmo que o filme tenha terminado. Não creio, entretanto, que sou maior conhecedor de Cristo do que qualquer outra pessoa. Minha educação religiosa foi como a de qualquer criança americana. Conhecia a Bíblia, é claro, a história de Jesus era sagrada, mas nunca havia pensado muito sobre ele como Pessoa, de carne e sangue, como um Homem que viveu neste mundo como nós vivemos, entre pessoas e em um tempo não diferente dos atuais. Ao estudar o script, e enquanto prosseguia minha pesquisa, comecei a compreender pela primeira vez o significado de Sua vida e o que os Seus ensinamentos trouxeram ao mundo.





No elenco, grande maioria de atores não muito notórios, mas que dão grande suporte à trama bíblica: a irlandesa Siobhán McKenna (1923-1986) como Maria; o ator alemão muito conceituado na Europa Gerard Tichy (1920-1992) como José;  Hurd Hatfield (1917-1998) como Pôncio Pilatos;  Rip Torn é Judas; Rita Gam é Herodiades; Carmen Sevilla como Maria Madalena; Antonio Mayans como o jovem discípulo João; Ron Randell (1918-2005) é o Centurião Lucios; Royal Dano (1922-1994) é Simão Pedro; Viveca Lindfors (1920-1995) é Prócula, esposa de Pilatos; Harry Guardino (1925-1995) como Barrabás; Brigid Bazlen (1944-1989) é Salomé; e Robert Ryan (1909-1973) o mais famoso do cast cujo nome era sinônimo de talento, é João Batista.



O Climax Maximus do filme é o Sermão da Montanha, onde foi utilizado 7.000 figurantes, mais do que na cena da crucificação, possivelmente, uma grande falha da produção, entretanto, não deixa de ser um espetáculo religioso dos mais belos vistos na Sétima Arte. Na descida da montanha, a equipe de operadores teve de construir cerca de 60 metros de trilhos ao longo das encostas. Na trilha sonora, a música marcante de Miklos Rozsa (1907-1995).



Rei dos Reis é um monumento esplendoroso, incapaz de arranhar o fervor das grandes plateias a santificada imagem de Cristo. Mesmo que, na época de seu lançamento, críticos arredios ao cinema de Nicholas Ray - um dos mais competentes cineastas do Século XX que foi um caloroso defensor da juventude desajustada- tivessem maldosamente crismado o filme como I Was a Teenage Jesus (Eu fui um Jesus adolescente), comparando talvez Jeffrey Hunter ao rebelde sem causa de James Dean, em Juventude Transviada (1955), outra obra do diretor. A narração, em off, é de Orson Welles, que não foi creditado.


6- O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (1964) - ITÁLIA
DIREÇÃO: PIER PAOLO PASOLINI.

Mas nem todas as visões de Cristo no cinema ofereceram uma iconografia santificada aos moldes do imaginário cristão. Em 1964, Pier Paolo Pasolini (1922-1975), marxista e ateu, lança O Evangelho Segundo São Mateus, a versão mais polêmica (ao lado de A Última Tentação de Cristo, de 1988, de Martin Scorsese) da vida de Cristo. Sem a aura de santidade expressa em Rei dos Reis (1961) de Nicholas Ray, A Maior História de Todos os Tempos (1965) de George Stevens, e Jesus de Nazaré (1977) de Franco Zeffirelli, mas também sem recair no exotismo das óperas rock contidas em Jesus Cristo Superstar e Godspell, a esperança, o Cristo vivido pelo estudante espanhol Enrique Irazoque é um Messias bárbaro, um agitador das massas que usa seus sermões em defesa dos oprimidos, com o intuito de transformar um mundo socialmente injusto. Segundo cineasta, ele encontrou em Irazoqui um rosto belo e fero, humano e destacado dos Cristos pintados por El Greco. “Eu vim trazer a espada e não a paz”, declarou Pasolini e Mateus em seu Evangelho.


No entanto, o leitor poderá perguntar do por que um ateu se interessar em filmar a vida de Jesus Cristo. Muito simples: a figura de Cristo exercia nele uma fascinação não religiosa, mas poética e política. E em Cristo ele admirava sua poesia, força, e carisma. Apenas não aceitava Jesus conforme a Igreja Católica e a teologia, mas acreditava que a mensagem de Jesus conforme o Evangelho de Mateus era revolucionária, ao passo que, para o cineasta italiano, Cristo era uma personalidade corajosa, rebelde, e revolucionária tal qual sua mensagem. Era o Cristo que ia salvar o povo não das penas do inferno, mas da própria ignorância do ser humano.


A Igreja e os fiéis censuraram Pasolini pela falta de doçura do intérprete de Jesus, no entanto era um Cristo destinado a ser um nativo rebelde à prepotência colonialista profeta apocalíptico da riqueza ilícita, de açoite em punho fazendo a reforma agrária para perplexidade e horror dos falsos pregadores e beatos apegados à propriedade privada, que certamente, não leram a encíclica Populorum Progressio, e vieram a combater o Concílio Vaticano II, iniciado por João XXIII e só terminado na gestão de Paulo VI.


Como não deixara de ser, houve protestos violentos contra o filme, e a extrema direita jogou ovos podres no Palácio do Festival de Veneza durante seu lançamento, que, paradoxalmente, acabou ganhando o prêmio do Escritório Católico Internacional de Cinema, e cuja obra foi dedicada à memória de João XXIII, por Pasolini considera-lo o papa mais próximo das ideias progressistas do evangelista Mateus, que procurou mostrar Jesus Cristo para os judeus como o Messias esperado, o Messias das profecias, enfim, o Messias do povo. O filme foi rodado em austeros cenários da Calábria e obedece o tom sublimis et humilis do texto bíblico, numa linguagem despojada e naturalista que a muitos críticos recordou o estilo ascético de Dreyer (A Paixão de Joana D’Arc) e Rossellini (Francisco, arauto de Deus), sublinhando a longa narrativa de 138 minutos de projeção, e uma partitura musical com temas de Bach, Mozart, Prokofiev, “negro spiritual” e música sacra congolesa.


Em 1995, quando o cinema completou 100 anos de existência, esta obra de Pasolini foi inclusa entre os 100 melhores filmes de acordo com o Vaticano, que elaborou uma intensa lista, na categoria de Religião, ao lado de obras como A Vida e paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (1905) de Ferdinand Zecca, Nazarin (1959) de Luis Buñuel, e Ben-Hur (1959) de William Wyler.


7- A MAIOR HISTÓRIA DE TODOS OS TEMPOS (1965) - EUA
DIREÇÃO: GEORGE STEVENS

Após o lançamento de Rei dos Reis, em 1961, de Nicholas Ray, George Stevens (1904-1975), responsável por clássicos como Gunga Din, Os Brutos Também Amam, e Assim Caminha a Humanidade- manifestou interesse em filmar a vida de Jesus Cristo de forma que pudesse ser a versão definitiva. Para isso, o cineasta consumiu seis anos de produção e fez reunir um grande elenco, com 117 papéis dialogados, com atores famosos, muitos destes em pequenas pontas.


Stevens se baseou num romance chamado A Maior História de Todos os Tempos (The Greatest Storie Ever Told), de Fulton Oursler (1893–1952), além dos textos do Novo Testamento, e sua intenção era contar a vida do grande líder da Cristandade com um elenco All-Star, rodada mesmo nos Estados Unidos, em locações do Arizona, Utha, Nevada, e em estúdios da MGM em Culver City- mas que veio a fornecer um panorama ao estilo Cartão Postal, com narrativa hiper- acadêmica, com conceituação medievo-renascentista.


Narrado de forma majestosa e clássico rigor estilístico a Vida de Cristo, a obra sacra de Stevens teve apoio de diversos roteiristas, como o poeta Carl Sandburg (1878-1967), este foi o penúltimo filme do cineasta, rendendo um espetáculo grandioso. A Maior História de Todos os Tempos foi originalmente lançada com 225 minutos de duração (exibida no Brasil com 10 minutos a menos, a versão hoje a disposição em DVD), mas a metragem original seria de 260. Em alguns países, foi lançado com 141 minutos, inclusive na época do Vídeo Home System (VHS), foi esta a duração lançada no mercado de vídeo.


Destaque para a beleza pictórica (consultoria a cores do mestre Eliot Elisofon) e o esplendor lírico e dramático de uma encenação suntuosa. Em especial realce, a sequência da ressurreição de Lázaro (Michael Tolan, 1925-2011) ao som de Aleluia de Handel, que é um dos grandes momentos do filme. Elenco vigoroso: Carroll Baker, como Verônica; Richard Conte (1910-1975), como Barrabás; Jose Ferrer (1912-1992) como Herodes Antipas;  Ina Balin (1937-1990) como Martha de Betânia; Van Heflin (1910-1971) como Bar Armand; Martin Landau, como Caifás; Sal Mineo (1939-1976); Neremiah Persoff;


Telly Savalas (1922-1994) que raspou definitivamente o resto de seu cabelo para viver Pôncio Pilatos; David McCallum como Judas; a carismática e talentosa Dorothy McGuire (1916–2001), como Maria; Angela Lansbury como Prócula; Claude Rains (1889-1967) como Herodes o Grande; Sidney Poitier como Simão de Cireneu;  Pat Boone como o anjo da Ressurreição; Sal Mineo (1939-1976) como Uriah;



Charlton Heston, o ícone do cinema épico bíblico, como João Batista, o maior destaque de todas as interpretações, embora não supere a atuação de Robert Ryan em Rei dos Reis, realizado quatro anos antes; John Wayne (1907-1979) numa curta aparição como o soldado que conduz Cristo até ao Calvário e perante a cruz recita: “este homem era realmente o Filho de Deus”.


E um dos atores favoritos de Bergman, Max Von Sydow, ainda um ator bem ativo e de prestigiado sucesso, como Jesus. Entretanto, não deu ao personagem um ar caloroso e doce, e não comoveu. Apesar de um trabalho primoroso por parte de George Stevens, o filme não teve o retorno tão esperado pelo diretor, prejudicado pela alta metragem e excesso de personagens, além do desgaste das superproduções bíblicas. A Música também é outro ponto culminante, uma das últimas composições de Alfred Newman (1901-1970), o mesmo compositor de A Canção de Bernadette e O Manto Sagrado,  para o cinema.


8- JESUS DE NAZARÉ (1964) - ITÁLIA-INGLATERRA


DIREÇÃO: FRANCO ZEFFIRELLI



Embora uma requintada produção feita para a TV italiana, Jesus de Nazaré, de 1977, dirigido por Franco Zeffirelli, foi exibido nas nossas salas de cinema e em grande parte do mundo em duas partes, totalizando 6 horas de projeção.  Na TV brasileira, estreou na Rede Globo em 1981, como minisérie em capítulos. Jesus Cristo volta aqui a sua moda tradicional, mas o sensível cineasta de Romeu e Julieta (1968) não satisfeito consultou católicos, protestantes, judeus, e até islamitas. Filmado na Tunísia, Itália e na Inglaterra, mesmo com toda reverência excessiva a figura de Jesus, acarretou protestos e o filme acusado de herético por alguns fanáticos católicos, por apresentar Maria (interpretada por Olivia Hussey) gemendo as dores do parto.


Com dramaticidade de uma grande telenovela, José (Yorgo Voyagis) é aconselhado pelo rabino Yehuda (Cyril Cusack, 1910-1993) a continuar com sua mulher grávida por obra do Espírito Santo.


A trilha sonora de Maurice Jarre (1924-2009) é um dos mais marcantes comentários musicais entre todas as trilhas sonoras em filmes do estilo. Zeffirelli eliminou a tentação de Jesus pelo demônio no deserto e o Sermão da Montanha na edição, assim como fizera Pasolini. O inglês Robert Powell, com a fisionomia de judeu pálido e esquálido, conforme as concepções de Lucas Cranach, El Greco, e Andréa del Castagno, é um dos grandes intérpretes de Cristo em todos os tempos.




Elenco All-Star reunindo Anne Bancroft (1931-2005), como Madalena; Ernest Borgnine, o Bom Centurião, James Farentino (1938-2012), como Simão Pedro; Rod Steiger (1925-2002), como Pôncio Pilatos; James Mason (1909-1984) como José de Arimatéia; Sir Laurence Olivier (1907-1989) como Nicodemus; Christopher Plummer como Herodes Antipas;



Stacy Keach como Barrabás; Claudia Cardinale, a Mulher Adúltera; Anthony Quinn (1915-2001) como Caifás; Peter Ustinov (1921-2004) fabuloso como Herodes o Grande; Ian McShane como Judas (ótima interpretação); e Michael York, como João Batista. Um elenco de estrelas internacionais contando a trajetória do fundador do Cristianismo, desde o nascimento até sua ressurreição, com os habituais requintes deste grande cineasta italiano. 




9-A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988) - EUA
DIREÇÃO: MARTIN SCORSESE.

Em 1988, uma das obras cinematográficas mais polêmicas de todos os tempos estava por vir das mãos de Martin Scorsese. Tudo começou quando, no dia de seu aniversário, recebeu de presente da atriz Barbara Hershey, uma edição de A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis (1883-1957). Scorsese, que durante sua juventude chegou a ser seminarista, leu com muito interesse a obra do escritor grego, que ao morrer, não pôde ser enterrado em solo sagrado pela Igreja Ortodoxa Grega. E após concluir a leitura, não demorou para que Scorsese pudesse em fazer um filme saído do romance de Kazantzakis (que como todos devem saber, também escreveu Zorba, o Grego, levado para o cinema com Anthony Quinn).




O cineasta de Taxi Driver apresentou o projeto para vários estúdios, que não se interessaram. Até pensou que um de seus atores favoritos, Robert DeNiro, pudesse ser Jesus. Até que, por fim, a Universal, que ganhou muitos tributos graças aos bem sucedidos filmes de Scorsese, acabou aceitando, desde que Scorsese assumisse os riscos.

Antes mesmo do seu lançamento em várias partes do mundo, já havia protestos. Tudo porque a obra de Kazantzakis não apresenta a figura de Cristo como um “Rei dos Reis” de acordo com os Evangelhos Oficiais da Igreja, mas sim, como um homem simples que tem a missão de carregar seu destino de semideus, quando manifesta como qualquer outro mortal seus desejos e fraquezas, inclusive o seu desejo de se apaixonar.



Acabou motivando ações por parte de radicais fundamentalistas, que chegaram a incendiar cinemas e a ameaçar a vida de Scorsese e dos executivos da Universal. Acabou recebendo censuras em várias partes do mundo, e no Brasil, não foi diferente. O renomado jurista Sobral Pinto (1893-1991), assíduo defensor dos direitos humanos, mas católico fervoroso, chegou à escrever uma carta ao então Presidente da República, José Sarney, a proibir sua exibição no nosso país, carta esta publicada em 1988 no Jornal O Globo.



As manifestações contra o filme em nosso país não foram também das mais pacíficas. Até mesmo um cronista de cinema (aparentemente ferrenho católico) chegou a ameaçar o gerente e o porteiro do extinto Cine-Metro Boavista aqui do Rio de Janeiro a leva-los à prisão a pão e água caso o estabelecimento exibisse o filme, e ainda, ameaçava-os de excomunhão. É mole ou querem mais???

Mas nenhum protesto veio a adiantar, e a obra de Scorsese foi exibida nos nossos cinemas.




Cristo (o ótimo Willem Dafoe,) é um marceneiro judeu, responsável pela feitura das cruzes com as quais os romanos crucificam aqueles que se opõem ao seu domínio. Atormentado por pesadelos e visões os quais desconhece o real significado, foge para uma espécie de mosteiro onde, através de uma decisiva e reveladora visão, toma consciência do seu papel como o tão aguardado messias.



A partir de então, decide percorrer toda Israel, professando a sua crença em Deus. Acompanhando-o está um grupo de discípulos, dentre os quais Judas (Harvey Keitel), grande amigo de Cristo e seu braço direito.



A partir de então o filme adentra o terreno do que o constitui em sua razão de ser (como o romance no qual se inspirou): a própria última tentação de Cristo. Vemos Cristo se casar com Maria Madalena, ter filhos - e uma amante! - e envelhecer como um homem qualquer. O vemos exultante ante sua nova condição: de fato, jamais ambicionara nada mais do que aquilo que passou a ter desde que, seduzido por um belo anjo, fugiu do sacrifício ao qual estivera destinado.





O filme conta com as participações especialíssimas do rockstar David Bowie, como Pôncio Pilatos, e o excelente Harry Dean Stanton (de Paris Texas, de Win Wenders), como o apóstolo Paulo. Destaque para a direção primorosa de Scorcese, indicada ao Oscar da categoria, Willem Dafoe como o conflituoso e atormentado Cristo e Barbara Hershey como uma ardente e apaixonada Maria Madalena (indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante, a mesma que presenteou Scorsese com o livro que originou este filme).

A espetacular trilha sonora de Peter Gabriel, indicada a um Globo de Ouro da categoria, é um show à parte e contribui enormemente ao conjunto da obra, em um dos poucos casos, em matéria de cinema contemporâneo, onde música e imagem se complementam de forma única e não parecem descoladas uma da outra.




10-A PAIXÃO DE CRISTO (2004) - EUA
DIREÇÃO: MEL GIBSON.




16 anos depois do polêmico filme de Scorsese, outra bomba estava para ser solta, mas dessa vez não seria um suposto ataque aos fiéis cristãos, fossem católicos ou protestantes. A bomba da vez seria supostamente lançada contra a comunidade judaica, que durante muitos séculos, foi acusada pelos católicos por serem os responsáveis pela morte de Jesus, aclamando pela sua crucificação no julgamento no pretório de Pôncio Pilatos, aliás, uma das grandes causas que provocaram o surgimento do antissemitismo.




Mel Gibson, o astro dos filmes de ação como a série Máquina Mortífera, sempre se declarou católico fervoroso, e ainda, um católico à antiga, daqueles que assistem as missas em latim, algo abolido em todas as paróquias após o Concílio Vaticano II, que eliminou muitas crenças que a Igreja vinha alimentando a seus fiéis, inclusive a culpabilidade dos judeus pela morte de Jesus, que a partir deste concílio, estavam isentos de qualquer culpa. Tanto que havia uma oração rezada todas as sextas feiras pelas almas dos “judeus pecadores responsáveis pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, e o Sr. Gibson parece seguir esta mesma cartilha e ignorar o Concílio iniciado por João XXIII e terminado por Paulo VI.



Gibson iniciou a obra como um “projeto pessoal de fé”, e pouco parecia se importar com a sua importância comercial. Para comprovar o que dizia, ele bancou, sozinho, os 25 milhões de dólares de orçamento, e declarou que o seu longa seria todo falado em aramaico e latim, e não teria legendas, ele queria que as imagens falassem pelo conjunto da obra. Ainda durante as filmagens, um grupo judeu teve acesso a um dos primeiros roteiros da produção e doravante começou o boato de que o filme era antissemita e poderia engatilhar uma perseguição contra os judeus. Ironicamente, foi esta a comoção que fez Gibson mudar de idéia, introduzindo em sua obra as legendas para mostrar que havia judeus ao lado de Jesus, e ele mesmo, um judeu. A decisão de usar diálogos em latim e aramaico, sem dúvida, dá a obra uma veracidade então inédita.



Mel Gibson não poderia ter escolhido um ator, dos últimos tempos, mais adequado para interpretar Jesus Cristo. Assim como o próprio diretor, Jim Caviezel é um católico fervoroso e não teme colocar sua fé antes de tomar qualquer decisão. Tanto que durante as filmagens de Olhar de Anjo, com Jennifer Lopez, recusou a filmar com ela numa cena em que ela estaria com os seios desnudos. Também atuou na última versão de Conde de Monte Cristo, em 2001, no papel principal de Edmond Dantès.




Mas a vida de Jim também não foi fácil quando escolhido para interpretar Jesus. Além das complicações técnicas comuns de um filme falado em uma língua morta, o ator foi pressionado ao extremo por Gibson, que ficava o tempo todo “tentando” para desistir do projeto. Evidente que o diretor não queria perder seu protagonista, mas ele queria fazer questão de deixar bem claro que aquele papel “mudaria para sempre sua vida”.

Quando reafirmou sua vontade de encarnar Jesus, Caviezel ainda precisou enfrentar a “ira divina”, pois quando filmava a cena do Sermão da Montanha, o ator foi atingido por um raio. Ele assim declarou na época: “Quatro segundos antes de acontecer, tudo ficou quieto. Então foi como se alguém tivesse me dado um tapa nas orelhas. Foram uns sete ou oito segundos de cores misturadas e as pessoas começaram a gritar. Eles falaram que estava pegando fogo no lado esquerdo da minha cabeça e que havia luz ao redor do meu corpo”- disse Caviezel à revista Newsweek. Até a cena da crucificação não foi moleza, já que precisou ser erguido numa montanha em pleno inverno italiano. O filme foi rodado em Roma.




A obra de Gibson conta apenas as 12 últimas horas da vida de Jesus na Terra, isto é, desde a traição de Judas até sua ressurreição (esta muito passageira). Curiosamente, o filme também foi baseado nas visões (?) de uma freira alemã chamada Anna Katharina Emmerick (1774-1824), que descreveu de acordo com estas visões como foi a verdadeira Paixão de Cristo, e tais relatos originaram um famoso livro intitulado, A Dolorosa Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo, publicado pela primeira vez em 1833, nove anos depois da morte da freira alemã.



O filme inicia-se no monte das Oliveiras onde Jesus é tentado pelo Diabo. Depois de ser traído por Judas (Luca Lionello), é preso e acusado de blasfémia pelos líderes dos Fariseus. Condenado à morte, é levado até Pôncio Pilatos (Hristo Shopov), o governador da Palestina, que escuta as acusações de que ele é alvo. Tentando acalmar o povo e a província, que detesta, Pilatos vai cedendo sob os olhares incriminadores de Claudia Prócula (Claudia Gerini), sua mulher, que considera Jesus um santo.



Pilatos dá o poder de escolha à multidão entre a morte do criminoso Barrabás ou de Jesus. Eles escolhem a morte de Jesus e a libertação de Barrabás. Jesus é então entregue aos soldados romanos que o flagelam intensamente. Depois, recebe uma cruz e é-lhe ordenado que a carregue pelas ruas de Jerusalém até ao monte de Gólgota, onde irá ser crucificado. A tortuosa viagem até ao calvário é acompanhada pela mãe Maria (Maia Morgenstern) e por Maria Madalena (Monica Bellucci), sendo entremeada por alguns breves flashbacks.




A Paixão de Cristo corta radicalmente com as imagens anteriores de Cristo no cinema, figurado aqui como um mártir no limite do suportável pelo corpo humano. Algumas sequências apresentadas são particularmente chocantes pela duração e detalhe na dilaceração da carne para obtenção de um efeito realista.



Gibson inspirou-se em algumas pinturas famosas para encenar alguns dos momentos do filme, que é uma experiência de elevada intensidade emocional, como "A Crucificação" de Matthias Grunewald. James Caviezel, que obtém uma excelente interpretação num papel de elevadas exigências físicas e psíquicas, chegou mesmo a ficar ferido em algumas cenas, com o dito anteriormente.




Recentemente, o produtor da obra, David Wood, pensa em realizar uma sequencia do filme de Gibson, levando dessa vez às telas uma produção que retrate os acontecimentos em torno da ressurreição de Cristo e os 40 dias que se seguiram.


Acreditamos que Mel fez um ótimo trabalho com [A Paixão] recebendo a Igreja unida. Este é o caminho para conseguir globalmente a igreja como uma, porque a igreja é como um gigante adormecido que precisa acordar. Este é um mundo que precisa de esperança e amor, e é isso que Deus e Jesus são”.

David Wood está procurando investidores e cristãos interessados em colaborar com o projeto, e disse que não pretende mostrá-lo somente nos cinemas na semana de exibição, mas também será transmitido ao vivo para igrejas, casas, escolas, e todos os dispositivos móveis e de computador em todo o mundo.
Vamos esperar!

PRODUÇÃO E PESQUISA: PAULO TELLES

Fontes Bibliográficas: Revista Cinemim nº 62- 5º série, 1990: Artigo de Salvyano Cavalcanti de Paiva; O Mito Cristão no Cinema, de Laércio Torres de Góes, Editora EDUSC; Revista História e Cinema Set Especial, o drama de Cristo; Site http://www.portalcab.com, artigo de Bruno Cal.

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