sexta-feira, 11 de novembro de 2011

FITAS & FATOS: Wyatt Earp - Ficção e Realidade.

Há poucos dias, comentei um artigo no site “Histórias de Cinema”, do respeitado jornalista e escritor sobre o assunto, Professor A. C Gomes de Mattos, em um de seus posts intitulado” Western: Fantasia e Realidade”, onde expressei as linhas diferenciais que existem entre os filmes que Hollywood, durante muito tempo, promoveu em relação ao mitos do Velho Oeste Americano.

Antes mesmo do surgimento do cinema, tais personagens já eram laureados da legenda romântica de seus feitos por escritores bem parecidos com os nossos, que aqui chamamos de cordéis. Verdade que eles tinham capacidade de aumentar feitos (ou mesmo de inventar), e talvez alguns, deturpar os acontecimentos.

Quem nunca ouviu falar destes personagens reais do Velho Oeste, que se não fosse Hollywood ao longo de seus anos, não fez do que cultivá-los perante as plateias do mundo inteiro? Jesse James, Bat Masterson, Jane Calamity (Jane Calamidade), Wild Bill Hickcok, Buffalo Bill, e tantos outros, cujos os registros de seus feitos verdadeiros somente os historiadores conhecem, distante de toda legenda áurea que o cinema ilusionou. Contudo, sempre por traz dos mitos, há verdades bem distanciadas, e algumas vezes, nada heroicas.

Isto me fez refletir em postar alguns artigos que ao longo do tempo, farei. A partir deste momento, estou inaugurando FITAS & FATOS, onde além de comentar determinado filme ou evento histórico, traçarei também algumas comparações com a realidade segundo historiadores.

E nesta primeira sessão de artigos, o primeiro personagem que analisaremos será Wyatt Earp, um dos grandes mitos do Western, levado as telas do cinema inúmeras vezes, e que já foi encarnado por Randolph Scott, Henry Fonda, Burt Lancaster, James Garner, Kurt Russell, e Kevin Costner, e isto sem contar outros coadjuvantes que o interpretaram, como Will Geer em “Winchester 73”, de Anthony Mann.


O VERDADEIRO WYATT EARP

O Nome de Wyatt Earp (1848-1929) tornou-se popular da noite para o dia, no ano de 1931, quando o escritor Stuart Lake (1889-1964) publicou o livro “Wyatt Earp, Frontier Marshall” (Wyatt Earp, o Delegado da Fronteira), narrando as façanhas do então desconhecido Earp, que havia apenas dois anos, morrera de velhice. Diferente de outros mitos do oeste americano, cuja fama já havia alcançado ainda em vida, com Earp não assim se sucedeu.

O livro por ser quase inteiramente escrito na 1ª pessoa, fez crer a todos que se tratava de uma verdadeira autobiografia. Stuart Lake assegurava aos seus leitores ter transcrito para o papel as palavras que ouvira do próprio Wyatt. Sobre si mesmo e sobre os acontecimentos. Mas anos depois, enquanto o livro atingira seu sucesso editorial, Lake declarou que tudo que havia escrito era de sua autoria e de sua inteira responsabilidade. Desmentia sua afirmação anterior, revelando que Wyatt não lhe havia fornecido dado algum e que o livro divulgava apenas boatos. Wyatt Earp morreu em 1929, e obviamente, não pôde se defender.

Mas o que teria provocado tamanha atitude por parte de Stuart Lake? Simples. Alguém lhe havia informado que era falsa aquela narrativa de façanhas, que Wyatt Earp não havia sido o defensor da lei que fulminava os criminosos, implacável com os “Bad Man”, e nem o cavaleiro sem mácula isento dos mínimos defeitos humanos, como o livro levava a crer. E esta pessoa nada mais era que a própria cunhada do biografado, Allie Earp, mulher do irmão de Wyatt, Virgil, Xerife de Tombstone à época do famoso tiroteio (famoso graças aos filmes que Hollywood tanto produziu ao longo dos anos).

Allie Earp confiara a Frank Waters, um escritor que desencadeava velhas histórias do Oeste no início dos anos 30 - a versão fiel da vida dos Earp, de como eles eram em família, longe das luzes do mito. Da sua narrativa, crível como um livro de pequenos contos domésticos, vinha à tona não apenas que Wyatt não era o defensor implacável do livro de Stuart Lake, mas que devia ser o gênio mal da família, a ruína de seus irmãos, meros instrumentos de suas ambições. Muito mais de vilão do que de mocinho.

No entanto, muito poucos acreditaram nessa desmitificação. Na época, o cinema ainda estava a procura de heróis, não de personagens freudianos ( o que viria acontecer tempos depois), e já havia levado à glória a legenda de Wyatt Earp.

O Memorial de Allie Earp, desenterrado após mais de vinte anos dos arquivos do Arizona State Historical Association, estimulou a pesquisa de outros historiadores, dentre os quais deve ser destacado o nome do escritor Ed Bartholomew, que condensou em dois volumes os resultados dos vários anos destinados a essa pesquisa: “Wyatt Earp, The Untold Story” (A História de Wyatt Earp não contada), e Wyatt Earp, the Mann and the Myth (Wyatt Earp, o Homem e o Mito).

Surge então, a esquálida figura de um jogador inveterado, privado de escrúpulos, megalomaníaco, sedento de glória e poder, que tomava para si qualquer sombra de mérito que coubesse a seus irmãos.

Wyatt Earp não seria assim o legendário herói de filmes como Frontier Marshal (estrelado por Randolph Scott), ou Paixão dos fortes, de John Ford (protagonizado por Henry Fonda), ou ainda “Sem Lei e Sem Alma” (talvez aqui a personificação mais romântica de Earp feita por Burt Lancaster), mas o homem derrotado, envenenado pela frustração, capaz de matar quem se metesse em seu caminho, sob a máscara da lei, ou para se livrar de testemunhas perigosas, e quem sabe, para mostrar ao mundo que era alguém.


WYATT EARP E O MITO NO CINEMA

Do Earp mítico baseado na legenda romântica de Stuart Lake a um estudo aprofundado e freudiano que veríamos anos depois, eis alguns dos mais importantes filmes sobre o Marshall, e que o tem tanto como protagonista.

A Lei da Fronteira/ Frontier Marshall / 1939 (Randolph Scott), Horas de Perigo / Tombstone, The Town Too Tough to Die / 1942 (Richard Dix), Paixão dos Fortes / My Darling Clementine / 1946 (Henry Fonda), Winchester 73 / Winchester 73 / 1950 (Will Geer), Duelo de Morte / Law and Order / 1953 (Ronald Reagan), De Homem Para Homem / Gun Belt / 1953 (James Millican), Ases do Gatilho / Masterson of Kansas / 1954 (Bruce Cowling), Sem Lei e Sem Alma / Gunfight at O.K. Corral / 1957 (Burt Lancaster), A Morte a Cada Passo / Badman’s Country / 1958 (Buster Crabbe), Valentão é Apelido / Alias Jesse James / 1959 (Hugh O’Brian), Crepúsculo de uma Raça / Cheyenne Autumn / 1964 (James Stewart), Os Reis do Faroeste / The Outlaw is Coming / 1964 (Bill Canfield), A Hora da Pistola / Hour of the Gun / 1967 (James Garner), Tombstone, A Justiça Está Chegando / Tombstone / 1993 (Kurt Russell), Wyatt Earp / Wyatt Earp / 1994 (Kevin Costner), sem que a verdade completa sobre sua vida fosse abordada, ainda assim, mantendo a áurea romântica do personagem promovida desde o início de suas produções cinematográficas. Listarei aqui os seis principais em que Earp tem o papel definitivo principal.


1- A LEI DA FRONTEIRA (Frontier Marshall) -1939

Na realidade, existem duas versões deste filme realizadas num curto espaço de tempo de cinco anos. A primeira versão data de 1934, e estrelado por George O’ Brien (1899-1985), interpretando Michael Wyatt, e Alan Edwards (1892-1954) como Doc Warren (em vez de Doc Holliday).


Foi em realidade a primeira película a registrar as “façanhas” da dupla Earp/Hollyday, contudo sem fazer menções de seus verdadeiros nomes. Em 1939, usufruindo de seus verdadeiros nomes, Wyatt Earp foi interpretado pelo querido Randolph Scott (1898-1987) e Doc Holliday por Cesar Romero (1908-1994), que anos depois seria o "Coringa" da série de TV Batman (1966-1968).

Realizada justamente no décimo ano de aniversário da morte de Wyatt, o filme celebrou como um dos primeiros westerns a romancear de modos bem exagerados as aventuras dos “heróis” de Tombstone. O filme foi dirigido por Allan Dwan.


2- PAIXÃO DOS FORTES (My Darling Clementine)- 1946.

Obra prima do Mestre John Ford (1895-1973), que segue ipisis literis a sua própria afirmação: Publique-se a lenda, pois é ela mais forte que os fatos.

Aqui, vemos Henry Fonda (1905-1982) personificando Earp como um homem rude, porém dentro da lei e sonhando pela justiça dentro de uma comunidade onde impera a violência e o jogo. Novamente, as figuras centrais se concentram em Doc e Wyatt. O cinema foi propagando a “amizade” entre estes dois ícones, quando na realidade ambos só tinham o gosto pelo jogo, mas eram bem diferentes. Contudo, se tornou um dos grandes westerns do Mestre Ford, devido a sua simplicidade, poesia, e grandes interpretações, com destaque maior para Fonda.

Doc Holliday foi interpretado por Victor Mature (1913-1999), que aqui, em vez de ser um dentista (como era de fato), é um médico. Outra coisa a fugir dos eventos realísticos é o fato de Holliday nesta obra de Ford morrer no confronto de Tombstone, quando na realidade, o verdadeiro Holliday sobreviveu e só veio a falecer seis anos depois, em um sanatório, a 8 de novembro de 1887, de tuberculose.

3-SEM LEI E SEM ALMA (Gunfight the Ok Corral) 1956

Talvez a personificação mais santificável de Wyatt Earp esteja nesta obra de John Sturges (1910-1992), com um desempenho de primeira grandeza por parte de Burt Lancaster (1913-1994) e onde Kirk Douglas interpreta com estilo Doc Holliday. Ao contrário do verdadeiro Wyatt Earp, o Wyatt de Burt odeia jogo e é o “cara mais certinho do mundo”, o típico “Senhor Virtude”, como ironiza Kate Fischer (Jo Van Fleet, 1914–1996) ao seu companheiro Doc Holliday (Douglas). Outra "fantasia" a fugir da verdade sobre Wyatt é o fato dele ser um tremendo solteirão neste filme, para justificar sua relação amorosa com uma jogadora profissional, Laura Denbow, personagem fictícia interpretada pela bela Rhonda Fleming. Wyatt Earp é, aqui, um homem correto da lei, sensível e romântico, sem as rudezas da personificação de Henry Fonda em My Darling Clementine. Um cavaleiro romântico e do bem, que quer as coisas dentro da lei e da ordem do primitivo oeste, o oposto do verdadeiro personagem.

Destaque para a trilha sonora de Dimitri Tiomkin (1894-1979) e a canção “Gunfight of The Ok Corral” cantada pelo fenomenal Frankie Laine (1913-2007), famoso cantor de boas baladas ao estilo do Velho Oeste. Certamente, Sem Lei e Sem Alma é um dos grandes westerns Classe A de todos os tempos.

4-A HORA DA PISTOLA (Hour of Gun) – 1966

Dez anos depois, o cineasta John Sturges resolveu dirigir uma nova versão do célebre tiroteio e da vida de Holliday e Earp, intitulado “A Hora da Pistola”. Dessa vez, Wyatt é interpretado por James Garner (fisicamente o que se aproximou da aparência física real do personagem).

Sturges, diferentemente com que havia feito dez anos antes em sua obra Sem lei e Sem alma, optou em substituir a legenda romântica pelo realismo dos eventos. Wyatt ainda era o correto homem da lei, contudo mais rude e amargo do que Burt Lancaster. Sua amizade com Doc Holliday (Jason Robards, 1922-2000) é evidentemente contrastante neste filme. Doc que na realidade incentiva Wyatt a matar Ike Clanton (Robert Ryan, 1909-1973) e seus asseclas. Ryan desempenha Clanton de maneira refinada e cínica, ao contrário de Walter Brennan de Paixão dos Fortes, rústico selvagem e traiçoeiro.


Wyatt Earp e seu amigo Doc estão dispostos a realizarem a vingança após os conflitos que acabaram com O. K. Corral, já que os familiares de Earp foram assassinados pelos perigosos irmãos Clanton. Porém, seu principal alvo (que é Ike) ainda está vivo e pronto para atacar. Talvez tenha sido a primeira vez no cinema que ousou a apresentar a vida de Wyatt e o célebre tiroteio um pouco mais fidedigno aos fatos. A magnífica Trilha Sonora de Jerry Goldsmith (1929-2004) garantiu também a popularidade deste western.

Há críticos que afirmam que A Hora da Pistola é uma continuação de Sem Lei e Sem Alma por se tratar do mesmo cineasta que realizou ambos os westerns, entretanto isto não é verdade já que as duas versões diferenciam bastante, bem com o as interpretações e a situação dos roteiros, uma vez que na versão estrelada por Burt Lancaster e Kirk Douglas, ao fim, tudo indicava que tinham resolvido a parada de vez, já que Ike e seus homens foram mortos no duelo (e ambos se despedem, para talvez não mais se verem), enquanto que a versão de Garner e Robards parte do ponto inicial do duelo, e ao longo da obra vão atrás de Clanton e seus capangas a todo custo, sedentos de vingança.


Em 1987, 21 anos depois, Garner voltaria a interpretar Earp, no fictício Assassinato em Hollywood, contracenando com Bruce Willis que desempenha o famoso ator de westerns mudos Tom Mix (1880-1940), onde os dois se unem numa história detetivesca de ação e mistério, dirigido por Blake Edwards (1922-2010), que resultou um dos poucos fracassos de bilheteria do renomado diretor.

5- TOMBSTONE, A JUSTIÇA ESTA CHEGANDO (Tombstone) – 1994

Após o lançamento de Os Imperdoáveis de Clint Eastwood, em 1992 que se tornou um grande sucesso de crítica e público (além de ter ganhado o Oscar de melhor filme), houve em Hollywood uma empolgação de se produzir mais westerns, já que o gênero estava praticamente extinto havia alguns anos, desencadeando uma volta triunfal ao velho estilo cinematográfico. Só em 1994, houve duas tremendas superproduções a contar só a vida de Wyatt Earp, e uma delas foi Tombstone, a Justiça esta chegando.

O cinema, em realidade, não tem pretensão de desmistificar, pois antes de tudo é uma máquina de sonhos. Esta regra se seguiu quando mesmo os avanços da História e das informações confirmaram que os míticos eventos não eram, em absoluto, acontecimentos reais. No entanto, a personificação de Earp aqui se seguiu aos mesmos moldes de Fonda em Paixão dos Fortes e de James Garner em Hora da Pistola.

Kurt Russel faz aqui uma interpretação bastante sóbria (ainda que um pouco infidedigna) de Earp, mas o destaque principal esta em Val Kilmer como Doc Holiday, numa narrativa ágil e uma trilha sonora empolgante, além a belíssima narração em off de Robert Mitchum (1917-1997), e com a participação do bom e velho Charlton Heston, como um rancheiro que recebe os irmãos Earp em sua casa. A Direção a cargo de George Pan Cosmatos.

6-WYATT EARP (Idem) – 1994

Um verdadeiro épico em superprodução contando a saga do marshal com quase 4 horas de duração (talvez o western mais longo do cinema), desde sua adolescência do Missouri, até suas atividades como delegado federal no Arizona. Produção de 50 milhões de dólares, fracassou na bilheteria nos EUA, e foi o início da bancarrota para Kevin Costner, que no ano seguinte declinaria de vez com o absurdo Waterworld - O segredo das águas.

Costner, além de desempenhar o próprio Earp, também produziu o filme. Na época do lançamento, ouviu-se dizer que ele empenhou-se muito em pesquisas em várias bibliotecas do Oeste e em outros registros históricos sobre Wyatt. Imaginamos, então, que ele tenha também tido acesso aos documentos da cunhada de Wyatt, Allie Earp.

O que aconteceu que Costner, amante de filmes clássicos e admirador de outras versões sobre a vida do famoso delegado, tentou unir a característica quase imaculada de Earp das antigas produções hollywoodianas com os eventos reais conforme sua real biografia. Infelizmente, resultou um filme pesado, lento, e cansativo, e se tornou bem inferior a Tombstone, a Justiça esta chegando, lançado no mesmo ano de 1994. No destaque, Dennis Quaid no papel de Doc Holliday. Direção de Lawrence Kasdan (de Silverado, outro faroeste com Costner, bem melhor sucedido).


WYATT EARP: A SÉRIE DE TV COM HUGH O’ BRIAN


Estreando em 6 de setembro de 1955, The Life and Legend of Wyatt Earp (no Brasil, Wyatt Earp) foi a primeira série de western adulta na história da televisão americana (lembremos anteriormente das infantis, como Rin Tin Tin, The Lone Ranger, e Cisco Kid, devidamente destinado para o público infantil). Chegou a bater na audiência de Gunsmoke, estrelado por James Arness (1923-2011) por quatro dias.

A série, como não podia deixar de mostrar, tinha o célebre delegado de Dodge City e de Tombstone que foi aqui vivido por Hugh O’ Brian (ainda vivo, hoje com 86 anos), domando os desordeiros e implantando a lei e a ordem. A produção esforçou-se para recriar vestuários e cenários iguais aos autênticos, chegando a minúcias como a de fabricar uma arma idêntica à que Wyatt usava: a Buntiline Special. A série durou seis temporadas (1955 a 1961) num total de 226 episódios, todos em preto & branco.

Hugh O`Brian, nasceu em 19 de abril de 1925, em Rochester, Nova York. Foi descoberto para a televisão pela atriz e diretora Ida Lupino (1918-1995), que lhe abriu as portas para um contrato com a Universal Studios, mas ficando restrito a papéis secundários em filmes como Red Ball Express”, Son of Ali Baba e “Seminole. Ao término do contrato com a Universal, em 1955, estabeleceu um grande sucesso na televisão com a série de TV Wyatt Earp por um período de seis anos. Direcionou seus talentos como cantor e atuou em espetáculos da Broadway. Permaneceu como astro nas décadas de 1960 a 1970, com muitos trabalhos no teatro e na televisão. Um solteiro convicto, casou-se em 2006, aos 81 anos, com Virginia Barber, companheira de um relacionamento de 18 anos.

Mas em 1994 (mesmo ano das duas produções mais recentes do personagem lançados no cinema, com Kurt Russell e Kevin Costner), O’ Brian retornou ao papel na Tv que o tanto afamou num longa especial chamado Wyatt Earp, retorno a Tombstone, onde já velho e aposentado retorna para enfrentar um antigo inimigo, e recorda fatos do passado, em flashbacks dos episódios antigos da série.


OUTROS FATOS REAIS E A “AMIZADE” ENTRE DOC E WYATT.

Wyatt Earp não foi o destemido Henry Fonda, e tampouco o galante e correto Burt Lancaster nos filmes como já foi aqui falado. Ate mesmo “amizade” entre Wyatt Earp e Doc Holliday é discutida, pois ambos eram muito diferentes, em diversos aspectos, sobretudo de berço que cada um teve: Wyatt era filho de rudes camponeses pioneiros e John Holliday provinha de uma conhecida família de elite da Georgia.


Dentista diplomado, mas tuberculoso, Doc partiu para Dallas, em 1872, para mudar de ares. Todavia as pessoas temiam ser tratadas por mãos de quem tossia e cuspia sangue e, assim, John perdeu seus clientes e acabou entregando-se no jogo.

Naquele mundo de violência, onde a troca de tiros era a regra e quem fossem o mais rápido no gatilho imperava, Doc, débil como uma criança e atormentado pelo medo mórbido de ser espancado, pôde contar somente, com o seu revólver para se defender.

Considerando-se já um homem morto, agia friamente diante do perigo. Não respeitava a própria vida e bebia muito. Estranhamente, embora o destruindo mais depressa, o álcool lhe infundia energia e confiança, e isso era a mais absoluta verdade.

Wyatt o conheceu em Fort Griffin, talvez numa mesa de jogo, não se sabe ao certo. Depois disso, Doc foi preso por homicídio. Wyatt o reencontrou em Dodge e se uniram graças à paixão que ambos sentiam pelo jogo.

Na única vez em que tentaram conversar, em 1882, descobriram tantas divergências entre si, que preferiram não se falar mais. Logo, o que os dois tinham, de fato em comum, era o amor ao jogo e a bebida.

OS ÚLTIMOS ANOS DE WYATT, SEUS IRMÃOS & FAMÍLIA

A realidade dos fatos, é que não houve, sem dúvida, nenhum evento heroico quanto ao tiroteio/massacre do “duelo” de OK Corral, ocorrido em 26 de outubro de 1881. Wyatt Earp e Doc Holliday foram presos, e os irmãos de Wyatt, Virgil e Morgan foram feridos, e ficaram sob os cuidados de Allie Earp, esposa de Virgil.

De Tombstone, Wyatt e sua família terminaram a suas aventuras no Arizona. Solto, Wyatt atravessou a fronteira do colorado. A vida de Wyatt se reduziu a vagabundagem dos jogadores profissionais. Certa vez, um homem chamado Bob Paul chegou de Denver com o pedido de extradição de Wyatt, Warren (irmão de Wyatt) e Doc Holliday, que foram acusados de triplo homicídio. Entretanto, o Governador Pitkin, talvez influenciado por altos expoentes da maçonaria que protegiam Wyatt (que aliás, Wyatt fazia parte), não quis aceita-lo.

Em novembro de 1887, Doc Holliday morreu de tuberculose num sanatório de Glenwood Spiring, no Colorado. E os Earp prosseguiram longe de Wyatt. Virgil reconstruiu uma vida respeitável ao lado de Allie, vindo a falecer de pneumonia em 1905, em Goldfield (Nevada). A pequena e fiel Allie ainda lhe sobreviveu até o ano de 1947.

Jim Earp, o irmão mais velho de Wyatt, morreu em Los Angeles, em 1926. Warren, por sua vez, voltou para o Arizona e entregou-se à bebida, vindo a morrer em 1900, assassinado por um cowboy chamado Johnny Boyet, que costumava procura-lo sempre que estava bêbado.


E WYATT?

Em 1882, ao chegar em São Francisco, se casou com sua ex-amante de Tombstone, Sadie, cujo verdadeiro nome era Josephine Sarah Marcus. Após três anos de vagabundagem, publicou a sua fantasiosa autobiografia no jornal Weekly Examiner, de São Francisco, que lhe proporcionou, por algum tempo, aquela popularidade que sempre buscou em vida. Detalhe: Wyatt se casou com Sadie sem obter o divórcio de sua primeira esposa.

Em 2 de dezembro de 1896, em São Francisco, deu-se o famoso encontro entre os boxeadores Tom Sharkey e Bob Fitzsimmons. O árbitro foi Wyatt Earp, que foi multado em 50 dólares por ter conduzido a luta com sua Buntline especial no coldre. Os dois lutadores trocaram golpes irregulares, sem que Wyatt intervisse.

No oitavo round, quando Sharkey foi derrubado, Wyatt interrompeu a luta, desqualificando Fitzsimmons por desfechar um suposto golpe baixo. Obviamente, foi o fim-do-mundo. Dizem que Wyatt apostara uma boa soma em Sharkey e fizera com que seus amigos também apostassem nele. A verdade é que os 10.000 dólares do prêmio não foram entregues ao vencedor, e o caso foi parar no Tribunal.

Dizia a notícia do jornal Chronicler de 9 de dezembro do corrente ano: “Crescem as dificuldades do Terror de Tombstone”. As dificuldades em questão eram duas denúncias por dívidas não pagas. Wyatt sempre se declarava assim em sua defesa: “Possuo apenas a roupa que estou usando”.



No ano seguinte, em 1897, Wyatt e sua segunda mulher, Sadie, se transferiram para Nome, no Alaska, onde abriram o Dexter Saloon. Certa noite, depois de ter bebido além da conta, Wyatt resolveu mostrar aos clientes por que ficara famoso no Arizona, com sua Buntline Especial. O Marshal Federal Albert Lowe arrancou-lhe a arma e o esbofeteou. O “Terror de Tombstone” não reagiu.

Em 1900, o jornal Arizona Daily Citizen noticiou o fato de que Wyatt, no hipódromo de San Francisco, chegou às vias de fato com um famoso dono de cavalos, Tom Mulqueen, e como foi logo derrubado, voltando Wyatt, assim, para casa com os dois olhos roxos.

Em 26 de julho de 1911, o Arizona Star noticiou de Los Angeles que, Wyatt Earp, o famoso pistoleiro, e outros dois, Walter Scott e Edward Dean, haviam sido presoso por uma tentativa de fraude de 25.000 dólares contra J. W. Patterson. Contra ele pesava ainda acusação de vagabundagem. Não se sabe como terminou o caso.


E QUANTO A MATTIE EARP, A PRIMEIRA ESPOSA???

Mattie, a primeira e abandonada esposa de Wyatt (cujo verdadeiro nome era Celia Ann "Mattie" Earp), nunca mais tornou a vê-lo. De Colton, para onde Wyatt a “despachou” sem meios, após a morte de Morgan, Mattie voltou para o Arizona mais precisamente para Globe, onde Kate “nariguda”, a “viúva” de Doc Holliday, dirigia uma pensão.

Mattie parecia um fantasma...Wyatt a havia destruído.


Depois disso, Kate fechou a pensão e se mudou para o pequeno centro de minério de Pinal, onde começou a descer, um por um, todos os degraus da degradação humana.
Atingindo o auge do desespero, Mattie se suicidou em 7 de julho de 1888, ingerindo uma dose forte de láudano. Talvez de todos os crimes cometidos por Wyatt Earp, este seja, sem dúvida, o mais cruel.

Wyatt Earp morreu de morte natural em 1929, pouco antes que Stuart Lake, o escritor, publicasse a falsa biografia que o celebrizaria e que faria de Wyatt o protótipo do herói do Oeste, que o cinema promoveu através de inúmeros westerns. Tanto a Sétima Arte quanto a televisão lhe ergueram um monumento que o mundo admira. Mas, lamentavelmente, a História registrou no seu pedestal as palavras que um certo juiz escreveu ao fim do inquérito sobre a morte de Mattie Earp aos pais desta, ao lhes informar do ocorrido: WYATT EARP...BÍGAMO, TRAPACEIRO E VELHACO.

CONCLUSÃO: Apesar de todas estas desmistificações, é imperativo dizer que o cinema, antes de tudo, é uma máquina de sonhos. Os westerns foram avançando, evoluindo de acordo com o tempo e com o grau de desenvolvimento do público, que vinha exigindo mais realismo no Gênero. Mas ainda assim, os faroestes a moda de John Wayne, Randolph Scott, Audie Murphy, Joel McCrea, entre tantos outros, continuam a ser os mais badalados por todos os fãs do Western.

PRODUÇÃO E PESQUISA DE PAULO TELLES


Fontes de Referência e Pesquisa- Bibliografia
“O Homem do O.K Corral”, de Rino Albertarelli- Editora Ebal (1974)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Estudo Acurado Sobre os Westerns de Anthony Mann.




Difícil comentar quem seria o maior de todos os diretores do gênero Western: John Ford ou Anthony Mann? Contudo, como estamos a falar na categoria genuinamente norte-americana, nos concentramos em fazer uma breve comparação entre os cineastas.



John Ford (1895-1973) era um artesão, um mestre contador de histórias, que iniciou sua carreira ainda na fase muda do cinema, e todas suas obras contém uma mensagem de heroísmo, honra, coleguismo, amizade, e patriotismo, que futuramente seria representado por ninguém mais e ninguém menos do que Marion Michael Morrison, o “The Duke” John Wayne.



Através de Ford, Wayne personificou o herói americano por excelência. Entretanto, os heróis de Ford tendem a ser em alguns filmes personagens firmes e decididos, intocáveis e indestrutíveis, nada parece abalá-los, o que vem a diferenciar dos mocinhos apresentados nos westerns de Anthony Mann (1906-1967). É dele e de seus westerns que faremos uma análise acurada. Críticos atribuem a Mann o papel de renovador do gênero, por construir personagens mais realistas do que os compostos por John Ford e Howard Hawks, dois cineastas que servem de referência para o que há de melhor do gênero.



Anthony Mann, cujo nome verdadeiro era Emil Anton Bundmann, nasceu em 30 de junho de 1906. Após terminar o colegial em 1925, juntou-se uma trupe Off-Broadway como gerente de palco e ator, direcionando para o estágio no início dos anos de 1930. Em 1938 ele deixou Broadway para trabalhar para David O. Selznicks como diretor de elenco e supervisor dos testes de tela, depois de se mudar para a Paramount como diretor assistente. A partir de 1942, agora conhecido como Anthony Mann, começou a dirigir filmes de baixo orçamento para a RKO e República.



Faleceu em Berlim, em 29 de abril de 1967, de um ataque do coração fulminante, enquanto dirigia “O Espião de Dois Mundos”, que foi terminado por seu astro principal, Laurence Harvey (1928-1973).


É sabido que, além de faroestes, Mann também dirigiu outras obras, inclusive grandes espetáculos épicos, como “El-Cid” e “A Queda do Império Romano” (também chegou a dirigir algumas cenas de “Quo Vadis” em 1951, mas sem créditos, que ficou a cargo de Mervyn Le Roy). Estava escalado para dirigir “Spartacus” e chegou a iniciar os trabalhos, mas se desentendeu com o astro Kirk Douglas (que era o produtor), que o substituiu pelo jovem Stanley Kubrick (1928-1999) na direção.


Sua segunda esposa foi a atriz e cantora espanhola Sara Montiel (também conhecida como Sarita Montiel), com quem ficou casado entre 1957-1963 e que a dirigiu no drama musical “Serenata” estrelado por Mario Lanza (1921-1959).


Se de uma maneira John Wayne (1907-1979) representou através de John Ford o estereotipo do herói americano em suas produções, James Stewart (1908-1997) representou para Anthony Mann o herói de natureza simples, com uma fortaleza que poderia ser abalável, e mesmo desajustado sob as regras da sociedade ou vítimas de preconceito, como no caso do índio interpretado por Robert Taylor em “O Caminho do Diabo”. 


Mann declarava ser fã de John Ford : “O diretor que mais tenho estudado – meu diretor favorito – é John Ford. Em um só plano ele apresenta, mais rápido do que qualquer outro, o ambiente, o conteúdo, o personagem; Ford tem a maior concepção visual das coisas e eu acredito nisso. O choque de um só pequeno plano que possa fazer-nos entrever toda uma vida, todo um mundo, é muito mais importante do que o mais brilhante dos diálogos”. Podemos entender não somente a admiração de um diretor para com outro, mas como Mann, além de entender Ford como seu modelo, acrescentou algo inexistente nas obras fordianas: o teor psicológico dos personagens, motivando o espectador a estuda-lo e analisa-lo. Mann, com isso, veio a renovar o gênero, ao construir seus protagonistas menos heroicos do que os fordianos. Os heróis de Mann foram bem desempenhados e cada um dos atores mereceu sem sombra de dúvida méritos por suas atuações. James Stewart, Gary Cooper, Henry Fonda, Robert Taylor, Victor Mature , e a destemida Barbara Stanwick destacaram-se pelo empenho que deram em suas dignas performances.



OS CINCO WESTERNS ESTRELADOS POR

JAMES STEWART


Só com James Stewart, Mann realizou cinco westerns, todos excelentes e obras CLASSE A no gênero:: Winchester 73 / Winchester 73 / 1950, E o Sangue Semeou a Terra / Bend of the River / 1952, O Preço de um Homem / The Naked Spur / 1953, Região do Ódio / The Far Country / 1954, Um Certo Capitão Lockhart / The Man from Laramie / 1955. Todos eles tinham em Stewart o herói simples e sofrido, justo, mas ao mesmo tempo, com sede de vingança e vontade implacável de mudar todo o sistema.


1)WINCHESTER 73- Idem (1950)


Raramente é lembrado pelos fãs de faroestes como um grande clássico do estilo. Talvez esse desprezo aconteça porque Mann jamais logrou alcançar a fama de John Ford, e na verdade nem tinha tal pretensão, uma vez que era admirador do grande mestre. Mas os verdadeiros especialistas têm consciência da importância crucial da produção e na renovação de um gênero que, após a II Guerra Mundial (1939-1945), já estava entrando em franca decadência. Esta obra de Mann flerta com a mitologia do Velho Oeste sem romper com ela, mas delineia um novo tipo de personagem que se tornaria fundamental nos faroestes dos vinte anos seguintes.


Lin McAdams (James Stewart, 1908-1997), um caubói sem casa, acostumado a viajar sem parar pelas grandes pradarias, junto com o parceiro Spade Frankie Wilson (Millard Micthell, 1900-1953)). Lin é um homem remoído pelo ódio e pelo desejo de vingança. Ele aporta em Dodge City, em 1876, à procura de um inimigo, que reconhece na figura de Dutch Henry Brown (Stephen McNally, 1913-1994). O nome do vilão é falso, mas o resto é conhecido; os dois quase se esmurram ao ver-se pela primeira vez, em um bar. Logo ambos estão disputando o lendário e caríssimo rifle do título, em um concurso de tiro ao alvo.



Lin vence a disputa, após uma contagiante briga com o inimigo, mas não fica com a arma durante muito tempo. Ele é emboscado no hotel por Dutch, que foge da cidade carregando o rifle que onze entre dez pistoleiros dariam um braço para ter. Passa, então, a ser perseguido por Lin, muito mais por um motivo que permanece um enigma para o espectador, e pertence ao passado em comum de ambos, do que pela arma. O filme não acompanha exatamente a trajetória de Lin, mas sim a do rifle, que troca de mãos várias vezes durante uma jornada imprevisível e excitante.



ESTUDO ACURADO

Um ponto que chama a atenção de imediato é a maneira como Anthony Mann trata a mitologia do Velho Oeste. A mítica Dodge City, por exemplo, não é uma cidade segura tal como reza a lenda senão, como um bandido como Dutch teria conseguido roubar Lin e fugir ileso? Da mesma forma, o xerife da cidade, o lendário Wyatt Earp (Will Geer, 1902-1978), é retratado pelo filme como um homem distraído, que se apóia mais na aura mítica de que desfruta para se impor aos pistoleiros do que pela habilidade no gatilho, uma fama que jamais tem a oportunidade de comprovar (o Earp verdadeiro esta  longe de ser um herói laureado de virtudes, como que retratado nos filmes como Paixão dos Fortes de John Ford, e Sem Lei e Sem Alma, de John Sturges, mas isto é  outra história).


Em outras palavras, Anthony Mann foi o primeiro cineasta a questionar, ainda que de forma sutil, os mitos do Velho Oeste. Além disso, foi o primeiro western na história a introduzir o chamado western psicológico, filão do gênero caracterizado pela composição de personagens mais densos e profundos do que o comum. Reparem na fisionomia de James Stewart acima, é de assustar o mais temível dos facínoras.


2)O PRECO DE UM HOMEM (The Naked Spur) - 1953

Um clássico tido por muitos críticos como o melhor western de Mann da série de cinco estrelados por James Stewart. Com apenas cinco atores no elenco (Stewart, Janet Leigh, Robert Ryan, Millard Mitchell e Ralph Merker), e engendrando a trama na geografia dramática do Colorado, o relato do filme é inexorável tenacidade.


Stewart é Howard Kemp, um homem que perdeu tudo na Guerra Civil Americana (1861-1865) e que vai atrás do fugitivo da lei Ben Vandergroat (Robert Ryan, 1909-1973) como meio de receber recompensa por sua captura (cujo prêmio é de 5 mil dólares) e assim recuperar suas perdas e reaver seu rancho. Ben escapa em companhia da filha de um pistoleiro, Lina Patch (Janet Leigh, 1927-2004). Consegue encurralar Ben nas montanhas, mas Howard se vê na contigência de aceitar dois novos caçadores de prêmio: Jesse Tate (Millard Mitchell, 1900-1953) e Roy Anderson (Ralph Merker, 1920-1988). Logo, desentendimentos e ambições desenfreadas não faltam nesta trama, que somente o toque de Midas de Mann saberia conduzir com maestria.



Durante a viagem até a cidade, semeada de incidentes, o malfeitor incita uma guerra de nervos entre seus guardiães, servindo-se de Lina para distrair a atenção de Kemp. Após uma tentativa frustrada de fuga, Ben convence Tate a soltá-lo, com a promessa de indicar-lhe o local de uma mina de ouro, mas, assim que se vê livre, mata-o sem piedade. Em seguida, Ben arma uma cilada para Kemp e Roy; porém, graças a Lina, que por fim compreende o verdadeiro mau caráter de Ben, o plano fracassa. Abatido por Kemp, o corpo de Ben cai nas correntezas de um rio e, pensando na recompensa, Roy tenta resgatar o cadáver, sendo tragado pelas águas turbulentas. Kemp resgata o corpo, mas, diante das súplicas de Lina, o abandona. Com o apoio e o amor da jovem, constituirá uma nova vida, sem recorrer àquele dinheiro, causa de tantos crimes.

ESTUDO ACURADO 

É notada a fragilidade do protagonista, Howard Kemp. No decorrer de toda fita percebe-se que ele não esta atrás do vilão (por sinal, interpretado pelo sempre competente Robert Ryan) objetivando justiça, mas um resgate de tudo que ele perdeu durante os anos de guerra civil. Para ele, é uma questão de honra, já que o futuro é incerto para ele. Ele não pensa de início em dividir com ninguém a recompensa pela captura de Ben, e suas intenções são escusas. Mas se vê necessitado, e reflete que não poderia capturar o bandido sozinho se são fosse a ajuda de Tate e Roy, e estes vem a saber do verdadeiro motivo de Kemp, que se apresenta a eles como um homem da lei.


Kemp carregava um cartaz de procurado com o rosto impresso de Ben, entretanto ele havia rasgado parte do material, que mencionava o valor da recompensa, e para seu azar, o próprio Ben tinha uma cópia fidedigna com a recompensa exposta, sob os olhares espantados de Roy e Tate. Kemp de início se recusa a dividir a recompensa e quer agir por conta própria, mas não vê solução. Nosso herói foi, inicialmente, um mau caráter? Só o ponto de vista do espectador para fazer ele mesmo uma análise bem aprofundada, já que a interpretação é pessoal. Contudo, podemos ver que houve a redenção do protagonista. O tempo todo, apesar de toda esta fortaleza que aparentava ter, Kemp é frágil. Em um momento que é ferido e contraí febre, ele tem delírios e sonhos com a esposa que morrera. Lina, que tinha tudo para não entender a fragilidade do personagem de Stewart, aos poucos vem a entendê-lo, como também vai perceber quem é, de fato, seu companheiro Ben Vandergroat.


É verdade, Kemp tem sua redenção, graças a ajuda de sua amada Lina, e ele vem a perceber que não seria o dinheiro da recompensa que traria novamente sua felicidade, mas a paz consigo mesmo e uma nova vida ao lado da mulher que, por fim, lhe abriu os olhos. Talvez o mais pungente de todas as obras de Mann nesta fase seja “O Preço de um Homem”, que prova ser um acurado estudo sobre a ambição humana, que repete o tema já levado por John Huston no seu clássico “O Tesouro de Sierra Madre”, de 1948, contudo com a mitologia e os símbolos dramatúrgicos sempre presentes em seus westerns.



Robert Ryan foi, possivelmente, gente da pior espécie que “o diabo colocou sobre a terra”, ou se não, empata com o igualmente talentoso Arthur Kennedy (1914-1990). Se Ryan foi o desprezível Ben Vandergroat em “O Preço de um Homem”, Kennedy foi vilão em dose dupla em duas películas do diretor, e antagonizando em ambas com James Stewart: “E O Sangue Semeou a Terra” e “Um Certo Capitão Lockhart”, ambas obras de primeira grandeza do cineasta.


3)E O SANGUE SEMEOU A TERRA (Bend of the River) 1952
Glynn McLintock (James Stewart), guia de uma caravana de pioneiros, salva Emerson Cole (Arthur Kennedy) de ser enforcado como ladrão de cavalos, estabelecendo-se entre os dois uma estima recíproca. Glynn, que já havia sido um fora da lei, já havia passado por situação parecida e, apesar de suas suspeitas, espera que Cole, como ele próprio, se regenere. Contudo, Cole cede à tentação do dinheiro.


ESTUDO ACURADO 

Esta obra incita um questionamento: a de que se um homem pode ou não realmente se regenerar. O personagem de Jay C. Flippen questiona ao próprio Glynn sobre a improvável transformação no ser humano, comparando homens maus e sem caráter a “maçãs podres” que colocando junto com as maçãs boas, colocam risco de contaminar as demais, tal como a sociedade que muitas vezes se deixa enganar por homens corruptos.


Mas segundo o ponto de vista de Glynn, existe uma brutal diferença entre as maçãs e os homens, e quem acaba se convencendo disso é o próprio personagem de Flippen, que até então ignorava o passado do amigo quando este lhe salva a vida. Sem dúvida, um dos melhores westerns de Anthony Mann.


A trama teria, basicamente, um remake num dos episódios da série de TV DANIEL BOONE, estrelada por Fess Parker, em 1964, intitulado “Caravana para Camberland”, em duas partes, onde coloca Boone na mesma situação de James Stewart em E O Sangue Semeou a Terra.


4) UM CERTO CAPITÃO LOCKHART (The Man From Laramie) 1955
Outra obra, talvez com tenacidade bem mais dramática do que os demais westerns de Mann com Stewart, que aqui interpreta Will Lockhart, que vai de Laramie, Wyoming, até Coronado, Novo México, em busca daqueles que venderam armas aos apaches que mataram seu irmão, um militar.


Novamente, Arthur Kennedy é o vilão, dessa vez mais acovardado do que Emerson Cole de “O Sangue Semeou a Terra”, que era mau caráter, porém ousado. Kennedy interpreta Vic Hansbro, capataz da fazenda e filho adotivo do poderoso dono da região, Alec Waggoman (Donald Crisp, 1880-1974), tio de Bárbara (Cathy O’ Donnell, a linda e eterna Tirzah de Ben-Hur, com Charlton Heston, prematuramente falecida aos 47 anos de câncer em 1970), noiva de Vic mas que acaba sendo o interesse romântico de Will – e pai biológico de Dave (Alex Nicol, 1916-2001), um mimado desordeiro que ataca o acampamento de Will. Este lhe dá uma bela surra.


ESTUDO ACURADO


Como menciona o Professor A.C.Gomes de Mattos em seu artigo sobre o grande cineasta numa das edições da saudosa revista Cinemin, sobre Um Certo Capitão Lockhart, a figura trágica do velho é de inspiração shakespereana, pois a analogia com o Rei Lear é evidente. Alec, cego, pensando em repartir o império, não percebe que é o filho adotivo quem mais o ama e pratica atos insensatos, provocando sua própria queda – dá enorme dramaticidade ao filme, que apresenta, sob o plano formal, uma inteligente utilização do CinemaScope.


O grande segredo deste western está em não ter aqueles momentos magníficos e nem um grande herói como costumeiramente esperaríamos ver nos westerns de Ford e Howard Hawks. Apenas homens comuns em busca de alguma coisa, seja por vingança, por conquista ou reconhecimento. Aproveitando a simplicidade e o natural talento de Stewart em fazer homens comuns e do bem, Mann investe na vida dos personagens no presente, sem dar muita ênfase ao passado deles, que apesar de importante, não precisa ser um grande mistério. O que importa é ali, aquele momento e suas decisões sobre as armadilhas que a vida emprega.


5)REGIAO DO ODIO (The Far Country) 1954
O vaqueiro Jeff Webster (Stewart) e o amigo Ben Tatum (Walter Brennan, 1894-1974). Eles chegam com seu gado a Skagway, no Alasca, onde enfrentam a ira do “juiz” Gannon (John McIntire, 1907-1991), que os manda prender e lhes confisca o rebanho. Pela intervenção de uma dona de saloon, Ronda Castle (Ruth Roman, 1922-1999), os dois são libertados e, sem dinheiro, aceitam servir como guia no comboio de Ronda até Dawson, onde ela pretende abrir um novo estabelecimento. No meio do percurso, Jeff e Ben voltam a Skagway, recuperam o gado e, já em Dawson, resolvem explorar uma concessão aurífera para, com o lucro, adquirirem uma fazenda no Utah. Porém Gannon e seus capangas vão atrapalhar os planos dos dois amigos.


                         ESTUDO ACURADO 


Mann expõe nesta obra a dinâmica interação dos conceitos de individualismo e responsabilidade social. Obediente apenas as suas próprias convicções, Jeff a princípio não quer se envolver com os problemas dos outros e só saca do revólver quando se vê ameaçado; porém, no fim, ele vem a compreender valor da amizade sincera e, para o bem de todos e pelo bem da comunidade, elimina Gannon num lance de grande astúcia.

VICTOR MATURE

O HEROI SELVAGEM DE MANN
O TIRANO DA FRONTEIRA
THE LAST FRONTIER - 1955

Esta obra registra uma das raras boas atuações de Victor Mature (1913-1999). Como Mann conseguiu arrancar dele uma excelente interpretação, talvez jamais saibamos. O que sabemos é que Mann tinha o poder de arrancar boas interpretações em atores limitados, mas é fato que Mature conseguiu um desempenho primoroso na pele do caçador Jed Cooper, que junto com seus dois outros amigos também caçadores, Gus (James Whitmore, 1921-2009), e o índio Mungo (Paul Hogan), chegam a um forte avançado de cavalaria comandado pelo Capitão Riordan (Guy Madison, 1922-1996), que os contrata como batedores.


Jed fica interessado na esposa de um arrogante e racista coronel, Frank Marton (Robert Preston, 1918-1987). A esposa, Corina, é interpretada pela eficiente Anne Bancroft (1931-2005), que neste western esta de cabelos louros. O Coronel Marton usurpa o comando de Riodan e prepara seus soldados para um sanguinário embate contra os peles vermelhas.

ESTUDO ACURADO


Jed é simples e ignorante, e é visível nele inexperiência de vida, desprovido de conhecimento das armadilhas que a civilização pode impor, em suma, um selvagem que age por instintos e não por regras, sem contudo, perder uma certa inocência. Tem como orientador seu amigo Gus, bem mais velho e um pouco mais experiente, que o aconselha sempre e desaprova o interesse de Jed por Corina. O que é interessante na temática deste excelente western é a critica da civilização, muitas vezes hipócrita, feita por um selvagem e inocente.


Outro ponto que podemos destacar é a desmistificação do General Custer (1839-1876), aliás é a primeira vez que o cinema viria por um fim no mito, quando o coronel Marton passa a sublinhar sua obstinação de combater os índios. Jed percebe que Marton não é bem quisto por seus comandados, e quando o deixa para morrer em um bosque, inocentemente ele retorna ao Fort com o que ele poderia achar estar dando boas notícias, mas logo percebe que foi reprovado por tal conduta, e claro que o lado primitivo de Jed não consegue compreender isto. Vale ainda registrar o excelente roteiro de Philip Yordan (1914-2003).
UMA HEROINA DE MANN:-

BARBARA STANWYCK.


Barbara Stanwyck (1908-1990) é considerada a Rainha dos Westerns, título este bem recebido. Ousada, versátil, e dinâmica, Stanwyck conquistou fãs por tais gabaritos. Sabia cavalgar muito bem, atirar, e em algumas ocasiões, dispensava até dublês nas cenas mais perigosas. Entre inúmeros westerns em que ela atuou, Barbara foi a heroína de “Almas em Fúria”.


ALMAS EM FURIA (The Furies )- 1950
É um western freudiano sobre as relações entre a heroína, Vance Jeffords (Stanwyck) e seu pai, T.C. Jeffords (Walter Huston, 1884-1950), latifundiário do Novo México. Ela é expulsa de casa, após ter desfigurado com uma tesoura o rosto da madrasta (Judith Anderson, 1897-1992), que viera usurpar o lugar de Vance na imensa propriedade. Logo, o desejo de vingança impera em sua alma contra a madrasta.


Vance procura refúgio junto a um amigo de infância mexicano, Juan Herrera, (Gilbert Roland, 1905-1994); porém o pai cerca o reduto onde ele vive com a mãe e os irmãos e manda enforcar o rapaz. A filha jura então tomar a fazenda do velho, o que consegue, com a ajuda de um antigo pretendente, Rip Darrow (Wendell Corey, 1914-1968), também interessado na vingança, por outros motivos. Reconhecendo a derrota, o pai faz as pazes com a filha, mas vem a ser morto pela mãe (Blanche Yurka, 1887-1974), cuja morte havia ordenado.


ESTUDO ACURADO


Mann mantém a atmosfera dramática durante todo o desenrolar da narrativa. A tensão é realçada nos momentos de agressão à madrasta e do tiroteio no cerco à família dos mexicanos no alto do morro, fotografada com perfeitos contrastes de claro-escuro e efeitos de silhueta. O cineasta teve um grande apoio do elenco, todo ele irrepreensível, destacando-se naturalmente Walter Huston (pai de John Huston) e Bárbara Stanwyck . Produção de Hal Wallis para a Paramount Pictures, com roteiro de Charles Schnee do livro de Niven Busch. Foi o último filme de Walter Huston. O título em inglês se refere ao mito grego das Fúrias e é o nome da fazenda onde se passa a história. Na citada mitologia as Fúrias eram a personificação da vingança, o principal tema do filme.
O HEROI INDIO E TRAGICO DE MANN COM ROBERT TAYLOR


O CAMINHO DO DIABO (Devil's Doorway)- 1950
Considerado um dos filmes que iniciou a fase de defesa dos índios no cinema americano. Aqui Mann, com sua sensibilidade inteligente, conduziu de maneira solene a trajetória de Lance Poole (Robert Taylor, 1911-1969), pele-vermelha da tribo soshone, condecorado por bravura durante a Guerra Civil, retorna à terra natal no Wyoming, onde enfrenta o ódio e a discriminação. Instigados por um oportunista, Verne Coolan (Louis Calhern, 1895-1956), criadores de ovelhas pretendem desalojá-lo do seu rancho de criação de gado, travando-se uma luta feroz, ao fim da qual o índio, mortalmente ferido, se entrega às forças da cavalaria, convocadas para impor a ordem.


ESTUDO ACURADO


Além da denúncia à injustiça social e ao preconceito, evidente inclusive no relacionamento do protagonista com uma advogada, Orrie Masters (Paula Raymond, 1924-2003), há o conflito de identidade refletido nos trajes híbridos que ele usa. A possibilidade da união entre as duas raças também é apresentada ao fim do filme, quando Lance, que de certa forma se interessa romanticamente por Orrie, diz a ela quando esta se declara: “Para nós, é impossível. Quem sabe daria certo entre nós daqui a cem anos, quando todos pudessem nos entender".


Tudo que há para ser dito sobre esta obra de Mann é dito pela câmera, que como indicado inicialmente, atravessa a superfície de cada situação e penetra a um nível de onisciência, compartilhando com o espectador a sensação pura e genuína de ler mentes. É assim que Mann vai construindo o ódio e preconceito, através daquela velha habilidade sobre-humana pra compor planos. Trazendo o público para a ótica do índio em oposição ao homem branco (o que por si só já é um verdadeiro evento no gênero), Mann capta todos os sinais de atrito racial e falhas de caráter (possivelmente invisíveis aos olhos de um branco) como manifestações físicas em cena.


Robert Taylor consegue aqui uma interpretação sóbria. Uma das características de Anthony Mann para com atores era arrancar deles, o máximo de potencialidade em suas interpretações, e ele poderia conseguir isso mesmo com atores limitados, como o próprio Taylor e Victor Mature.

HEROIS EM DOSE DUPLA HENRY FONDA & ANTHONY PERKINS


O HOMEM DOS OLHOS FRIOS (The Tin Star) 1957
Morg Hickmann (Henry Fonda, 1905-1982), ex-homem da lei que, ressentido contra a sociedade por causa de um acontecimento no passado, se torna caçador de recompensas, trazendo para o xerife Ben Owens (Anthony Perkins, 1932-1992) o corpo de um bandido e cobrando a recompensa. Ben é novato e um tanto inexperiente no ofício e, depois que Hickmann o tira de encrencas, os dois ficam amigos. O homem mais velho e experiente passa então a atuar como professor e conselheiro do jovem xerife, até que este adquire a confiança necessária para exercitar seu trabalho, dominando sozinho Bart Bogardus (Neville Brand, 1920-1992- na vida real herói americano condecorado na II Guerra e também uma cara conhecida como vilão em westerns), o maior desordeiro da cidade. Ao orientar o Xerife principiante, Hickmann se reeduca e a sua lassidão se transforma em ardor. 
ESTUDO ACURADO
Novamente aqui temos um herói idealista (todos os cowboys-heróis de Mann são, e todos eles tem um passado comprometedor). Mas ao contrário dos demais personagens, que precisavam provar sua regeneração, este apenas se preocupa em passar sua experiência de vida a um jovem homem da lei, que exerce sua função bem timidamente. O que incomoda em Hickmann é o fato de não ser correspondido pela sociedade, afinal como homem da lei que fora, o mínimo que poderia receber é o reconhecimento pelo seu trabalho. Achou mais fácil ser um Caçador de Recompensas. Estes, não eram necessariamente bandidos, mas era um meio de sobrevivência no Velho Oeste. Se o herói protagonizado por Fonda fosse um individualista por completo, não se incomodaria em ensinar a Ben (Perkins) os segredos do ofício (e muitas vezes, ingrato) de Homem da Lei. Ao menos, Ben não se demonstra ingrato.


GARY COOPER, O HEROI AMARGURADO DE MANN


Anthony Mann já havia retratado a questão da regeneração humana em O Sangue Semeou a Terra. Dessa vez, o cineasta optou por colocar o herói não como alguém que confia na regeneração do ser humano seguido de sua própria experiência, mas também era preciso o protagonista tentar viver em paz e esquecer a qualquer custo o seu passado. No entanto, seus fantasmas voltam, e isto faz que ele não se sinta redimido por inteiro. Precisa, de alguma maneira, encontrar sua redenção.


O HOMEM DO OESTE (Man of The West) - 1958
Link Jones (Gary Cooper, 1901-1961) abandonou seu passado criminoso para ter uma vida mais cômoda e honesta com sua esposa; anos depois, por uma fatalidade de destino, reencontra seu antigo tutor (que o tratava como filho) com outra gangue, mais jovem, contudo, menos interessante; dadas às circunstâncias, Link Jones é forçado a acompanhar a gangue em um crime mais ambicioso – terá que encarar de maneira mais intensa do que nunca, porque agora ele tem consciência de quem realmente era em seu passado sujo e violento e, talvez, expugná-lo de uma vez por todas em sua última missão.


Nos westerns anteriores, Mann já vinha se dedicando a desconstruir os mitos do Velho Oeste, como o xerife Wyatt Earp (em “Winchester 73”). Aqui, ele vai além e ataca a mitologia da época. Os bandidos são os mais reais que se aproximam dos westerns contemporâneos desde “Os Imperdoáveis” de Clint Eastwood, em 1992.


O perfil da gangue de malfeitores é construído como um triste comentário: Eles são homens proscritos, que vivem à margem da civilização, isolados em um rancho a 150 quilômetros de distância da cidade mais próxima.Largado por engano na vastidão do deserto junto a uma cantora de cabaré, Billie Ellis (Julie London, 1926-2000) e um trapaceiro, Sam Beasley (Arthur O’Connell, 1908-1981), Link é obrigado a reviver um passado nada agradável de assaltante de bancos e se reunir à antiga quadrilha do tio.


ESTUDO ACURADO

Anthony Mann recicla mais uma vez seu herói predileto do gênero, o homem amargurado que tenta fugir de um passado condenável, em uma trama que enfoca mais uma vez os embates entre ex-amigos que agora se encontram em lados distintos da lei. Vale para registro a presença de outros talentos que muito contribuíram em outros filmes do gênero e que são caras conhecidas de muitos bons cinéfilos apreciadores dos westerns, como John Dehner (1915-1992), Royal Dano (1922-1994), e Robert J. Wilke (1922-1989), notáveis vilões que mereceram todo crédito pelo grande desempenho que cada um exerceu em suas performances. E na companhia desses “famigerados” está Jack Lord (1920-1998) que seria mais conhecido como o Detetive Steve McGarrett na famosa série de TV HAVAI 5-0 (1968-1980).


O papel de Lord é de extrema importância no filme, onde interpreta Coaley, um dos bandidos de Dock Tobin, também criado como filho por ele. Podemos também analisar a cena em que Coaley humilha Billie (Julie London), forçando-a a tirar a roupa, sob o olhar de Link (Cooper), que impotente e sem defesa naquele momento, tem uma faca encostada na sua garganta por Coaley
.

Mas Link não deixa barato, e é ai que entra o senso de justiça (e vingança) muitas vezes retratado nos westerns de Mann, quando o protagonista resolve dar o troco durante uma briga com Coaley. Além de sair vencedor, Link resolve humilhar Coaley da maneira igual com quem ele havia feito com Billie, tirando-o toda sua roupa perante Dock e seus comparsas, que acham graça.


Link esta disposto a matar Coaley, estrangulando-o (e já alquebrado pela surra que levou de Link), mas depois, Link percebe o quanto havia se transformado, deixando se igualar a Dock e seus capangas. Apesar desta momentânea mudança, Link mantém seus ideais. Coaley, humilhado por Link perante os demais, resolve mata-lo, mas é impedido por Dock, que o liquida.



MANN E O HEROI IDEALISTA DE EDNA FERBER

CIMARRON (idem) - 1960
Mais para uma saga épica do que um western, Cimarron na verdade é um remake de um clássico dirigido em 1931 por Wesley Ruggles (1889-1972), baseada no famoso Best-Seller escrito por Edna Ferber (1885-1968) e publicado em 1929, autora de outra obra literária também já levada às telas, Giant (Assim Caminha a Humanidade), em 1956, com Rock Hudson, Elizabeth Taylor, e James Dean. Anthony Mann utilizou-se de muitas mudanças, tanto em relação ao livro quanto da primeira versão cinematográfica, que foi estrelado por Richard Dix (1883-1949) no papel de Yancey. Com o "Movimento dos Direitos Civis" ganhando corpo na década de 1960, o roteiro de Arnold Schulman introduziu na história o tema da luta pelo reconhecimento dos direitos dos nativos americanos, e não deixando de esquecer também da emancipação feminina em voga e que também estava no seu auge, através da personagem de Sabra Cravat, esposa do protagonista da obra.


Em 1889, o advogado, jornalista, e aventureiro Yancey "Cimarron" Cravat (Glenn Ford, 1916-2006) se casa com uma dama do Sul, Sabra Cravat (Maria Schell, 1926-2005) e resolve retornar ao Oeste, tentando conseguir as terras com as quais sonhara construir um rancho e criar gado, aproveitando a "Corrida pela terra" iniciada com a concessão do governo americano de vários hectares de Oklahoma para a colonização, adquiridos dos índios. Dentre os vários competidores pelas terras, Yancey reencontra antigos amigos, como o dono de jornal Sam Pegler (Robert Keith, 1898-1966 – pai de Brian Keith, também já falecido), a prostituta Dixie Kee (Anne Baxter, 1923-1985), que outrora foi interesse romântico de Yancey, e o filho de um falecido conhecido, que agora se tornara o jovem arruaceiro "Cherokee Kid" (Russ Tamblyn).



E também faz alguns amigos novos, como a família pobre de Tom Wyatt (Arthur O’ Connell, 1908-1981) e o judeu Sol Levy (David Opatoshu, 1918-1996). Dixie, que sabia do desejo de Yancey, o engana e fica com as terras que ele queria, com isso tentando fazer com que o aventureiro abandone a esposa e fique com ela. Yancey desiste da terra, mas permanece com a esposa no território, fundando um jornal no nascente povoado de Osage.


Idealista, Yancey se envolve em várias disputas e tiroteios inclusive por se revoltar contra as injustiças cometidas com os índios. Sua esposa teme pela sua segurança e Yancey acaba deixando-a sob o pretexto de uma nova "corrida de terras", a da "Faixa Cherokee" em 1893. Depois vai para o Alasca e para Cuba, na guerra contra os espanhóis. Sabra aguarda seu retorno junto do filho do casal e cuida do jornal, com a ajuda de Jessie Rickey e do agora financista judeu Sol Levy. Depois das corridas pelas terras, a descoberta de petróleo traz novas mudanças à sociedade de Osage.

ESTUDO ACURADO


Um painel épico da história de Oklahoma a partir de 1889, quando o governo abriu à colonização aquele território em lotes de 160 acres, provocando uma desesperada corrida de pioneiros. Como foi dito aqui, todos os personagens principais nos westerns de Mann são idealistas. Esperam um mundo perfeito e sem corrupções; as atitudes de um ser humano tem que ser incondicionais. Nada escapa para Yancey Cravat. Apesar de não ser fidedigno ao texto original de Ednar Ferber, o espírito do romance é bem caraterizado nesta última obra de Mann no Gênero, ao longo de seus 147 minutos de projeção. Existe uma transformação considerada na esposa de Yancey, Sabra. Ela vem de uma família refinada e da elite social, e se casa com Yancey a contragosto de seus pais. Apaixonada pelo marido, ignora os riscos de explorar uma terra selvagem ao seu lado. Ela aprende tudo sobre a rudeza dos pioneiros, que a princípio fica chocada, mas ao longo do tempo, as próprias divergências entre ela e o marido a fazem crescer. Com a ausência do marido, ela se torna uma mulher independente e, praticamente, cria o filho só enquanto Yancey esta em busca de aventuras. Esta independência faz com que ela anos mais tarde se torne uma conceituada empresária bem sucedida. Da mulher outrora sonhadora com a nova “Terra Prometida” que o marido idealizou, ela se tornou realista e com os pés no chão.


Quanto a Yancey, não houve nenhuma mudança ou regeneração. O idealismo de Yancey chega a ser utópico (e por que não dizer egocêntrica?). Nem o futuro do filho e no bem estar familiar ele poupa quando recebe uma recompensa de agradecimento por ter liquidado o malfeitor da região – um cheque que ele acaba rasgando deixando Sabra enfurecida. Também se recusa a se candidatar a governador. Nesta fase, Yancey e Sabra já estavam bem posicionados e ricos, mas ao contrário de Sabra que é mais ambiciosa e se importa com status, Yancey é mais radical com suas convicções, odeia hipocrisias, e vê na política uma máquina de corrupção moral, onde os ricos também se banqueteiam em suas próprias ilusões. Não está entre os melhores faroestes do diretor, mas se posiciona como um dos mais requintados no estilo das superproduções. 


Anthony Mann nos deixou um legado de obras inteiramente inesquecíveis em todos os gêneros cinematográficos, mas seus westerns são obras obrigatórias não só para os amantes dos westerns, mas também para os amantes da Sétima Arte.

PAULO TELLES

Produção e Pesquisa

REFERENCIAS


Revista Cinemin- nº 85- Ano: 1993- Autor: A. C. Gomes de Mattos.

Jornal O Globo – Filmes de Hoje na TV com Paulo Perdigão

100 Anos de Western - Autor: Primaggio Mantovi.



MATÉRIA REVISTA E ATUALIZADA EM 12 DE AGOSTO DE 2019.