sábado, 13 de novembro de 2010

O Western Americano e o Western Europeu- Conclusão

Terminando esta série de artigos sobre as diferenças entre o gênero estritamente feito nos EUA, mas que os europeus (italianos e espanhóis) moldaram que um pouco mais que realisticamente, vou falar sobre como os americanos reagiram ao sucesso dos europeus, o fim dos “faroestes spaghetti”, e a decadência do gênero nos EUA, embora com um “leve retorno” ao gênero no início dos anos de 1990.

Todo aquele sucesso dos westerns europeus acabou de fato provocando uma nova onda de faroestes americanos, pois aparentemente enciumados, Hollywood voltou a dar atenção ao gênero, mas desta vez, todos os clichês e moldes mitológicos do tema, e a legenda áurea de seus cowboys, eram substituídos por assuntos mais sérios e polêmicos dentro do Velho Oeste.
Nos Estados Unidos, a partir de 1964, foi feito faroestes quase que similares aos europeus, pois seus “mocinhos” já não eram os mocinhos dos áureos tempos, mas sim personagens perturbados, sofridos, e muitas vezes traumatizados, ou como outras vezes, pessoas frias que impunham o medo dentro de comunidades, como foi o caso de Yul Brynner (1915-1985) em Convite a um Pistoleiro (Invitation to a Gunfighter), que foi uma produção de Stanley Kramer. Já o diretor Martin Ritt resolveu seguir os passos de Sergio Leone, em Quatro Confissões (The Outrage), um western violento abordando estupro e assassinato, algo nada visto anteriormente nos faroestes americanos. No elenco, Paul Newman, Claire Bloom, Laurence Harvey e Edward G. Robinson.

O outro, dos bons mas ignorado Rio Conchos (idem), dirigido por Gordon Douglas, de estrelado por Stuart Whitman e Richard Boone; e Crepúsculo de uma Raça (Cheyenne Autumm), último western dirigido pelo Mestre John Ford (1895-1973), onde ele defendeu a causa dos índios e procurava se redimir pela matança deles durante toda sua carreira. Como ele mesmo disse: “Matei mais índios no cinema do que o General Custer nos campos de batalha!”. O filme, com locações no Monument Valley – como grande parte dos westerns do diretor que faleceu em 1973- resultou lento e cansativo em seus quase 160 minutos de projeção, e nem o elenco all-star, como Richard Widmark (grande mocinho dos faroestes americanos da década de 1950), Carroll Baker, Ricardo Montalban, Gilbert Roland, Edward G. Robinson, Dolores Del Rio, e numa participação, James Stewart.


Mas nem todos em Hollywood queriam aceitar estas mudanças. Os heróis dos faroestes Classe B americanos (conforme explicado na parte 1), ainda representados por Rory Calhoun, Audie Murphy, e Dale Robertson (este ainda vivo), ainda preferiram ser os mocinhos “limpinhos e barbeados”, muito embora Murphy (que morreu em maio de 1971 num acidente aéreo) foi o mais assíduo e aproveitou o embalo dos westerns spaghetti e protagonizou Bandoleiro Temerário (The Texican), dirigido por Sidney Salkow e rodado na Espanha, onde ainda tinha no elenco (e como vilão) um ator ganhador do Oscar (e com a carreira em declínio) – Broderick Crawford (1911-1986).


Em 1969, Elvis Presley (1935-1977) também estrelou um western americano com moldes “Spaghetti”, Charro (idem). Elvis, cujo seu primeiro filme era um western (Ama-me com Ternura/Love-me Tender, 1956) e em 1960 foi o astro de Estrela de Fogo (Flaming Star), em papel reservado para Marlon Brando, não ficou nada mal como um pistoleiro a lá Django, com barba por fazer e tudo mais.

Ainda na década de 60, e em seus meados, a disputa continuava cada vez mais acirrada entre os americanos e europeus, e por isto, alguns diretores hollywoodianos deixaram o orgulho de lado e passaram a imitar os Spaghetti, como é o caso de A Marca do Vingador (Ride Beyond), estrelado pelo astro da série de TV O Homem do Rifle, Chuck Connors (1921-1992), e contando ainda com Michael Rennie, Bill Bixby (da série O Incrível Hulk), e Claude Akins, com quem tem com Connors uma sensacional cena de luta num saloon, onde é explícito a violência e o tema da vingança, muito comum nos faroestes italianos.


OS PROFISSIONAIS (The Professionals), de Richard Brooks, situou esta obra no México como a maioria dos concorrentes latinos, e estrelado por um elenco de primeira grandeza: Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Jack Palance, e não por coincidência, uma atriz italiana, se não mais que a bella Claudia Cardinale.
SANGUE EM SONORA (Appaloosa), em 1966, dirigido por Sidney J. Furie, também utilizou locações mexicanas. Western racista e muito violento, estrelado por Marlon Brando e John Saxon.


E quem diria, o MAIS SPAGHETTI WESTERN AMERICANO DE TODOS: A MARCA DA FORCA (Hang em High), em 1968, produzido e estrelado por Clint Eastwood, já consagrado, que tão logo voltou ao Estados Unidos resolveu projetar uma película aos moldes de seu grande Mestre, Sergio Leone. Para dirigi-lo, Clint chamou Ted Post, um velho conhecido dos tempos em que ele estrelava a série de TV Couro Cru (Rawhide). A boa acolhida da maioria desses filmes deixou claro que o público agora dava preferência a faroestes mais realistas, e que aqueles “cowboys imaculados” portando revólveres reluzentes de coronha de marfim, estavam com seus dias contados.

Apesar daquela nova tendência, John Wayne (1907-1979), com seus faroestes tradicionais, ainda continuava sendo sinônimo de bilheteria. Com o sucesso estrondoso de Meu ódio será sua Herança (The Wild Bunch), em 1969, de Sam Peckimpah (1928-1983), os produtores acharam que era o momento oportuno para o veterano ator de 62 anos voltar ao seu habitat e experimentar o novo estilo. Wayne concordou, mas com uma condição: teria que ser a sua maneira.





O resultado foi Bravura Indômita (True Grit), dirigido por Henry Hathaway, não era propriamente um western desmistificador e nem muito violento, mas certamente, era diferente dos filmes que o velho Duke vinha fazendo por quase 40 anos. Seja como for, Wayne ficou perfeito no papel do delegado gordo, bêbado e falastrão, usando um tapa-olho, tão perfeito que acabou ganhando o Oscar de melhor ator do ano (que mereceria muito mais por Rastros de ódio/The Searchers, 1956 caso fosse indicado). Uma nova versão de Bravura Indômita em breve chegará aos nossos cinemas, com Jeff Bridges no papel que foi de Wayne.


A PARTIR DA DÉCADA DE 1970, Hollywood mergulhou de cabeça no Western violento e desmistificador (algo que não agradava John Wayne, este um tradicional e devoto admirador da legenda áurea do gênero), para competir com os europeus. Um bom exemplo disso é um western dirigido por Michael Winner (o mesmo de “Desejo de Matar”, com Charles Bronson), que escolheu a dedo dois dos maiores atores que o cinema já teve: Burt Lancaster (1913-1994) e Robert Ryan (1909-1973), amigos na vida real e que pela segunda vez voltavam a trabalhar juntos (a primeira foi também no Western “Os Profissionais” (1966), e a terceira e última no drama político “O assassinato de um Presidente” (1973), que foi o último filme de Ryan, que morreu em julho de 1973), em MATO EM NOME DA LEI/Lawman , em 1970. Lancaster ainda participaria em Quando os Bravos se encontram e A Vingança de Ulzana, que abusaram da violência ao extremo, temperando o filme com psicologia e racismo.

E OS FAROESTES ITALIANOS?


Enquanto isso, na Europa, os últimos cineastas a explorarem o estilo “tradicional” (que eles já consideravam violento), davam uma releitura em um estilo cômico (como nas séries de “Trinity”, com Terence Hill e Bud Spencer), mas depois de uma dúzia de filmes como estes, já mostravam sinais de extremo desgaste, e o tradicional Bang Bang à Italiana, apesar de ter durado bem, estava com seus dias contados como o gênero em geral (mesmo os americanos). Mas mesmo assim, os faroestes spaghetti poderiam contar com diretores como Sergio Corbucci, Sergio Leone, Duccio Tessari, entre outros, e mocinhos europeus como Franco Nero (que para quem não sabe, recentemente participou de uma minisérie sobre a vida de Santo Agostinho, interpretando o religioso na fase da velhice), Giuliano Gemma, Tomas Milian, Terence Hill, entre outros.
Entre 1963 a 1978, foram produzidos cerca de 600 westerns europeus. E foi nesse ano de 1978 que veio a acabar definitivamente a munição do Bang Bang à Italiana. Sella D’ Argento (Sela de Prata- 1978), dirigido por Lucio Fulci, e estrelado por Giuliano Gemma e Ettore Manni, é considerado oficialmente o último faroeste europeu do cinema.

Odiado pelos puristas e considerado trash pela crítica, mas queira ou não, os westerns spaghettis foram responsáveis pelo revigoramento dos faroestes de Hollywood, que não saíam dos mitos, e deram uma retomada. Se não fosse pelos europeus, teríamos sido privados de obras como “Meu ódio Será sua Herança”, “Josey Wales”, e “O Pequeno Grande Homem”.

CONTUDO, a retirada dos Westerns europeus não significou a vitória dos americanos. O premiado diretor Michael Cimino (5 Oscars por Franco-Atirador, incluindo melhor diretor) tinha a plena convicção que o western em estilo épico que estava prestes a dirigir para a United Artist seria um dos grandes ápices de sua carreira. O Portal do Paraíso, entretanto, não conseguiu repercussão nos Estados Unidos, embora os franceses tenham gostado. Isto motivou a expulsão de Cimino em Hollywood e o início da falência da United Artist. A maioria dos estúdios evitavam o gênero, e com isto, o Western, gênero americano por excelência, parecia estar com seus dias contados.


Em 1985, Clint Eastwood produziu e dirigiu O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), onde estrelou como um “Pistoleiro sem nome e sobrenatural”, mas um pistoleiro do bem. O roteiro escolhido por Eastwood era uma mistura de Shane e Matar ou Morrer, dois clássicos por excelência do gênero, mas nem por isso, fez tanto sucesso. Eastwood voltaria novamente ao gênero em 1992, dessa vez em um tema psicológico e desmistificador, em Os Imperdoáveis (Unforgiven), onde estrelou e dirigiu. No elenco, Gene Hackman como um bom vilão, Morgan Freeman, e o talentoso Richard Harris.


Aqui, Eastwood fazia o papel de um ex-pistoleiro frio e sanguinário perseguido pelos fantasmas do passado, que embora regenerado, volta a empregar em armas para ajudar uma prostituta que foi estraçalhada. O filme foi um grande sucesso de crítica e público, e possibilitou uma pequena volta ao gênero na década de 1990 aos cinemas (Wyatt Earp, Tombstone- A Justiça esta Chegando, Quatro Mulheres e um Destino, Rápida e Mortal, este estrelado por Sharon Stone), principalmente, graças aos 4 (quatro) Oscars conquistados, onde Clint Eastwood, então com mais de 30 anos em Hollywood, subiu ao palco para receber a estatueta de melhor diretor; Gene Hackman foi o melhor ator coadjuvante; OS IMPERDOÁVEIS ganhou o Oscar de melhor filme de 1992, além de quebra, ter ganho também um Oscar de melhor edição.



ARTIGOS ANTERIORES SOBRE O TEMA, ACESSEM:










BIBLIOGRAFIA: 100 ANOS DE WESTERN- Autor: Primaggio Mantovi- Editora Opera Graphica.


Produção e pesquisa de Paulo Telles

14 comentários:

  1. Paulo, sensacional retrospectiva, vou ler as anteriores em seguida.

    Sou fã do gênero e assisti muitos dos filmes citados, sendo curioso que apesar dos críticos não gostarem dos westerns italianos, foi dele que apareceu um dos maiores diretores do gênero, o grande Sergio Leone. Suas obras estão no mesmo nível dos clássicos de John Ford.

    Abraço

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  2. Quatro mulheres e um destino,perdi a conta de quanta vezes já olhei,muito bom,os clássicos italianos eu acho que assisti todos,John Wayne muito bom os filmes dele.Mas tem novidades vindo por aí o lançamento do filme 'Jonah Hex'que nasceu dos gibs,um pouco sobrenatural mas,é um faroeste com a participação da atriz Megan Fox.
    valeuuu...
    ótimo post!!!!
    abs!!

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  3. Olá Hugo

    Sergio Leone era um grande admirador do Mestre Ford, ele não escondia isso.

    Apesar das diferentes leituras dos dois diretores quando ao gênero, é bem notado também certos resquícios de Ford nos filmes de Leone (não é a toa que ele escolheu Henry Fonda, por exemplo, para ser um vilão no clássico "Era uma Vez no Oeste", já que este astro despontou em grandes obras do cineasta americano.

    Abraço Hugo, obrigado pelo comentário.

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  4. Olá Mundo Virtual

    JONAH HEX acompanhei os gibis da EBAL (Editora Brasil-América). Vamos acompanhar a chegada do filme e ver se faz jus aos quadrinhos.

    Grande abraço, valeu também

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  5. Parabéns pelo belo trabalho! Sou sua fã.

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  6. Oi Jenifer.

    Valeu amiga. Grande abraço.

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  7. Parabéns pela bela retrospectiva dos faroestes.

    Abraços

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  8. Ola paz para todos - sou fa de faroeste, e este blog me encanta, porem gostaria de ter unformações como posso adquirir o filme com Jeffrey Hunter - A morte de um pistoleiro. Se alguem puder me ajudar fico muito grato e feliz por rever o filme. mei e-mail - maiabatista@yahoo.com.br.

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  9. Prezado Maia, boa noite

    Agradeço de imenso seus comentários a respeito do meu blog de artigos e conto vc como um dos meus seguidores.

    Quanto ao filme que vc procura, conheço o Sr. ARRUDA, da Família Arruda que tem um vasto acervo de filmes westerns europeus, incluindo este título com Jeffrey Hunter. O Site é: http://www.sospaghettiwestern.com/

    Conto com seus comentários sempre que puder, boa sorte e tudo de bom. Abraços

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  10. Ainda não tinha visto esta série. Vou retornar pra ler ela completa. Essa discussão é sempre muito interessante.

    Abraço!

    Lemarc

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    1. Esta série de três partes são um dos primeiros posts do blog, Lemarc, de 2010. Espero que goste. Grande abraço

      Paulo

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  11. Paulo,
    Gostei da série. Você deixa claro que cada um dos gêneros tem espaço e características específicas, sem entrar na difícil discussão sobre qual é melhor dos dois. A seleção de filmes e nomes para ilustrar o texto é muito boa. Dá uma boa visão sobre os dois modelos.
    Abraço!
    Lemarc

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    Respostas
    1. Lemarc, fico feliz que tenha entendido, pois os dois estilos são muito importantes.Os faroestes italianos, a meu ver, foram os responsáveis pela radical mudança dos westerns americanos, que precisaram urgentemente improvisar e acompanhar o ritmo do então momento.

      Forte abraço, e obrigado.

      Paulo Néry

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  12. Paulo,
    Gostei da série. Você deixa claro que cada um dos gêneros tem espaço e características específicas, sem entrar na difícil discussão sobre qual é melhor dos dois. A seleção de filmes e nomes para ilustrar o texto é muito boa. Dá uma boa visão sobre os dois modelos.
    Abraço!
    Lemarc

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