sábado, 2 de outubro de 2010

"O Último Hurrah"- Obra política do Mestre John Ford

John Ford (1895-1973) é considerado por grande parte do público cinéfilo como o mestre dos Westerns e de sua parceria com seu compadre John Wayne (1907-1979), com quem se associou em diversas produções da História da Sétima Arte, como sua trilogia da Cavalaria americana: Sangue de Heróis (Fort Apache, 1948); Legião Invencível(She Wore a Yellow Ribbon, 1949); Rio Bravo(Rio Grande, 1950), e o hiper clássico Rastros de Ódio (The Searchers, 1956), considerado não somente um dos dez maiores westerns de todos os tempos como também um dos 50 filmes mais badalados de acordo com os críticos americanos.



Entretanto, este grande mestre da cinematografia mundial não realizou apenas westerns. Ao longo de sua carreira, que se iniciou desde os primórdios quando o cinema ainda era mudo, ele realizou também comédias, épicos, aventuras, e dramas. É sobre um destes dramas que este artigo vai abordar, um drama político (as vezes com pontas de humor) pelo qual considero, de certa forma, superior a Cidadão Kane de Orson Welles, não menosprezando evidentemente este grande alicerce do cinema.


Trata-se de O ÚLTIMO HURRAH (The Last Hurrah), produzido em 1958. O romance, publicado em 1956 e escrito por Edwin O'Connor (1918-1968) é considerado a mais popular das obras de O'Connor, em parte devido a produção do filme homônimo. A novela foi de imediato um best-seller nos Estados Unidos por 20 semanas, e também nas listas de mais vendidos daquele ano. The Last Hurrah ganhou o Prêmio Atlântico, e foi destacado pelo Book-of-the- Month Club e Reader's Digest, além de receber resenhas críticas muito positivas, incluindo um “êxtase”do New York Times Book Review. Não demorou muito para o lendário cineasta Ford, que leu o romance, projetá-lo para as telas. Para isto, a Colúmbia Pictures comprou os direitos do livro.

De origem irlandesa e fiel ao espírito dos imigrantes pioneiros, Ford se identificou com a figura do protagonista da trama, tanto que propôs a Colúmbia dirigir este filme mesmo sem receber salário.


A trama centra-se numa eleição para prefeito em uma pequena cidade de Bostom, EUA. O veterano político irlandês do Partido Democrata Frank Skeffington, interpretado pelo magistral Spencer Tracy (1900-1967), amigo de Ford, é um dos candidatos a prefeito desta cidade. Como um ex-governador, ele é normalmente chamado pelo título honorífico "Governador".



Skeffington é o personagem central de uma astuciosa e refinada crônica sobre os bastidores eleitorais da provinciana Nova Inglaterra. De truculento sangue irlandês, controla a máquina eleitoral â base de golpes baixos de suborno e "caridade".



Cercado por fiéis partidários que estão com ele por mais de 30 anos, Skeffington tenta se reeleger em um mundo que anda em transições. Para começar, a televisão que estava dando seus primeiros passos, começa desempenhar um papel maior na política. Os ideais de Skeffingnton, como a igualdade e o auxílio para os menos favorecidos e oprimidos, parecem pensamentos pueris por grande parte da Sociedade Americana. E isto sem contar a idade do personagem central, que de acordo com o romance de O’ Connor tem 72 anos (Tracy quando fez o papel tinha 58, mas parecia bem mais velho), isto é, sua idade seria um empecilho para sua reeleição, sem que a hipocrisia da sociedade visse nele um homem com idealizações e experiências adquiridas.



Entretanto, nosso maduro herói não esta só. Ele conta com a ajuda de um inteligente jornalista que também é seu sobrinho, Adam Caulfield (Jeffrey Hunter, 1925-1969). Caulfield é de um pensamento tão liberal e humanista quanto o tio. Outrora um jornalista esportivo, se dedica ao jornalismo político quando entra em atrito com seu chefe de redação, o corrupto Amos Force (John Carradine, 1906-1988), inimigo declarado de Skeffignton e republicano fanático.



Ao visitar seu tio, Adam fica sabendo dos sérios motivos que levam Amos a odiar Skeffignton, quando o pai de Amos, um burguês autoritário, na verdade humilhou publicamente a mãe de Skeffignton, que era sua empregada doméstica, pelo fato dela pegar sobras de comida, acusando-a de ladra. Deste encontro entre tio e sobrinho, nasceria daí um ideal em comum, e Caulfield se dedicaria a ajudar Frank em sua empresa.

Adam é casado com Mave (Dianne Foster), filha de Roger Sugrue (Willis Bouchey, 1907-1977, outro ator proeminente nos filmes de John Ford), que também detesta Skeffignton, e começa a ter diversos atritos com o genro, sem contudo abalar a relação em seu casamento, já que Mave também simpatiza com as idéias de Frank.


Frank Skeffignton tem um dom surpreendente. O único político que é verdadeiramente capaz de manipular os poderosos para defender os oprimidos. Ele é o líder indiscutível da cidade, ele controla a cidade com punho de ferro, mas ele sabe que seu show está quase no fim. O dia de compromissos em almoços e comícios políticos está dando lugar à televisão, que quase faz a máquina política do outrora tempo de Frank obsoleta.


Frank Skeffington é o tipo de político que realmente se preocupa com seus eleitores, mesmo que seus métodos sejam um tanto ilícitos. Ele muitas vezes ajuda-os pessoalmente (como na cena de um enterro, em que uma de suas eleitoras não tinha dinheiro para enterrar seu marido, e Frank pressiona o dono da funerária, ligado ao Partido Republicano,a fazer o enterro de graça). Mas há alguns problemas com a regra de Skeffington. Primeiro de tudo, ele muitas vezes muda vários negócios, obrigando mesmo aqueles que trabalham para ele a ter salários reduzidos para ajudar os eleitores. Skeffington e seus aliados, muitas vezes, transformam os funerais em reuniões políticas. Analisemos que Skeffington não é nenhum santo, mas em nome de seus ideais vale quase tudo, mesmo mexer com os alicerces da Igreja Católica.



Durante sua última e tétrica campanha para prefeito, representantes dos meios financeiros da Igreja e da imprensa aliam forças para enfrentar seus métodos, que já lhe valeram várias reeleições. 


Apesar de o próprio Skeffignton ser um católico, ele mesmo entra em atrito com a ideologia da Igreja, muito embora o Arcebispo da cidade, Cardeal Burke Martin (Donald Crisp, 1882-1974) simpatize com Frank.Na vida particular, Skeffignton tem problemas de relacionamento com seu filho único, Frank Skeffington Jr (Arthur Walsh, 1923-1995). Este é um imaturo e irresponsável, que só pensa em mulheres e badalações, ignorando por completo as idealizações do pai.

Frank surpreende a todos ao anunciar o que ele sempre pretendeu, concorrer para outro mandato para prefeito. O corpo principal do filme dá uma visão detalhada e criteriosa da política urbana, e o controle de Skeffington e de seu sobrinho Adam através de rodadas de aparições nas campanhas e eventos. Kevin McCluskey (Charles B. Fitzsimons,1924-2001), um jovem candidato com um rosto bonito e os “bons costumes norte-americanos”, com uma excelente ficha e registro da II Guerra Mundial, mas sem experiência política e nenhuma habilidade real para a política ou governo, acaba derrotando Skeffington nas eleições. É Importante aqui analisar uma situação que anda sempre em voga em qualquer eleição ou em qualquer situação política: que não importa sua experiência, suas propostas sérias, ou suas intenções sinceras e idealistas em prol da sociedade, pois esta sempre vai pender para a imagem de um candidato, afinal as aparências e os feitos de um “herói” ou celebridade é o que mais contam, e o que somente contam para uma sociedade falida e hipócrita.



Um dos amigos de Adam, John Gorman (Pat O’ Brian, 1899-1983) explica que a eleição foi "um último hurrah" para o estilo de máquina política de Skeffington. Mudanças na vida pública americana, incluindo as consequências do New Deal, mudou tanto a face da política norte-americana que Skeffington já não pode sobreviver. Imediatamente após sua derrota, Skeffington sofre um ataque cardíaco. Quando ele morre, ele deixa para trás uma cidade de luto por uma figura crucial na sua história, mas uma cidade que não tem mais espaço para ele ou o seu tipo.



Não obstante a todos os paradoxos do protagonista, Frank Skeffignton é um personagem interessante, que leva o espectador do filme a refletir se seria bom que tal personagem saísse das telas da ficção ou de um livro para transitar na vida real, ou se mesmo seria possível resgatar alguns sonhos e ideais há muito esquecidos. Por falar nisso, o personagem foi de fato baseado em um político real, chamado James Michael Curley (1874-1958), que foi Governador de Massachusetts, e era um político democrata.


John Ford, ele mesmo um irlandês-americano, leu e gostou do livro de O’Connor e resolveu adaptá-lo para o cinema. Muito do sucesso do filme deveu-se ao respeitável e bom desempenho do elenco que incluiu muitos veteranos que geralmente eram amigos do diretor (só Jeffrey Hunter, Dianne Foster, e Arthur Walsh compunham o cast mais jovem), como o próprio Tracy, Pat O'Brien, John Carradine, Wallace Ford, Basil Rathbone (quem diria, o Sherlock Holmes!), Jane Darwell, Anna Lee, e Willis Bouchey. A Columbia Pictures comprou os direitos para fazer este filme de O ' Connor por US $ 150.000. E decerto que cada centavo valeu à pena, numa história narrada segundo o estilo do diretor: intimista, lírica, bem humorada, sentimental e generoso, e apresenta Spencer Tracy numa de suas mais memoráveis performances da carreira.


O ÚLTIMO HURRAH

Título Original: The Last Hurrah
Gênero:Drama/Político
Direção: John Ford

Elenco: Spencer Tracy, Jeffrey Hunter, Pat O’ Brien, Basil Rathbone, Dianne Foster, John Carradine, Donald Crisp, Edward Brophy, Frank McHugh, James Gleason, Jane Darwell, Wallace Ford, Carleton Young, Ken Curtis.
Duração: 111 min.
Ano: 1958
País: Estados Unidos
Fotografia: Preto & Branco


Texto revisado em 2/10/2014
Produção e pesquisa:Paulo Telles

12 comentários:

  1. A carreira de Ford é fantástica e conhecida principalmente pelos Westerns.

    Ele também fez grandes filmes em outros gêneros, como este que você cita e "As Vinhas da Ira".

    Abraço

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  2. As Vinhas da Ira é inesquecível...

    Obrigado Hugo, grande abraço

    Paulo

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  3. REALMENTE UM GRANDE FILME POLÍTICO, ONDE O MESTRE JOHN FORD PÔDE PROVAR QUE PODERIA LIDAR COM QUALQUER TEMA...
    A CANADENSE DIANNE FOSTER PARTICIPOU DOS SEGUINTES WESTERNS: UM PECADO EM CADA ALMA;TRÊS HORAS PARA MATAR, A PASSAGEM DA NOITE,E HOMEM ATÉ O FIM...

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    1. Ford tinha talento para diversos gêneros, o que prova que ele era sem dúvida um dos maiores cineastas de todos os tempos.

      Agradeço por maiores informações sobre Dianne Foster, um ícone das produções dos anos 50.

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  4. Caro Paulo,

    Eu e você temos em comum a recorrência às nossas figuras paternas. Pois é! Mais uma vez, vamos nós. Spencer Tracy é um desses atores que me traz o VELHO de volta, seja nos trejeitos ou na maneira de olhar. O personagem que representa em O ÚLTIMO HURRAH é, então, o sr. Altamyr Guimarães esculpido em Carrará, ainda que meu pai não tivesse pretensão política alguma. Mas estamos diante de um tipo que respira autenticidade e verdade, apesar de todos os seus defeitos. Está de no olho na carreira, mas é generoso. E seus dias estão contados. Ford, mais que nunca, já havia entrado neste tempo em que seus personagens estão com os dias contados. Ele também, já começava a sua prestação de contas como homem e cineasta. Sempre adorei esses personagens que vão se colocando à margem e, mesmo assim, não abem mão de seus valores e de suas convicções. Ford era um deles! O personagem de Spencer Tracy é outro. Assim também será o Tom Doniphon de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA. Ford, quando não se dedicava a esses personagens de tragédia na última parte de sua carreira, procurava algo parecido a um exílio na terra sem males que ele tão bem descortinou na Irlanda de DEPOIS DO VENDAVAL e a prolongou naquela paradisíaca ilha dos Mares do Sul em O AVENTUREIRO DO PACÍFICO. Parecia um cineasta que já tinha visto de tudo e se apresentava a nós como se estivesse cansado da realidade. Mas em qualquer ocasião, sempre mirava o homem comum, estes que fazem a história de modo quase invisível. O personagem de Spencer Tracy é um desses. O final desse filme é de chorar. É inesquecível. É como se morresse o último homem. Depois desse, teríamos os artifícios dos arremedos e simulacros. Não para menos, Ford é um dos primeiros que, em O ÚLTIMO HURRAH, põe a televisão em cena, a discutir política. Que capacidade de antecipação! Mas também fica em mim uma das últimas imagens do documentário DIRECTED BY JOHN FORD, de Peter Bogdanovich, com a voz de Orson Welles na narração, dizendo, como se resumisse o essencial da Fordiana: "Dignidade na derrota". E a imagem de Spencer Tracy caminhando solitária em sentido contrário ao fluxo do NOVO desfile político que avançava.

    Divagações, caro Paulo. Mas Ford é desses cineastas maiores que sempre me levam a isso. Por mais que eu veja seus filmes mais de cem, mais de duzentas vezes, jamais dá para ficar indiferente. E de forma alguma é possível permanecer indiferente diante de O ÚLTIMO HURRAH.

    E ainda tenho que ter paciência com a molecada de hoje que vê um obra mestra como essa e simplesmente a dispensa com o carimbo de que é um filme velho.

    Grande abraço.
    José Eugenio Guimarães
    http://cineugenio.blogspot.com

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    1. Sabe Eugênio, eu também fico triste quando vejo a molecada dispensar tremendas fitas por não gostarem, ou simplesmente, não entenderem a essência destas obras, pois um filme como O ÚLTIMO HURRAH e um diretor como JOHN FORD é contar a história do ser humano e de seus desafios perante o mundo. Ford era um verdadeiro contador de histórias, e posso até dizer que ele foi para a História do Cinema Americano aquilo que Jorge Amado significa para nossa literatura. Perdoem a comparação, mas eram sem dúvida, dois contadores de história, mas claro, cada um com suas características e diferenças.

      Assisti a este filme pela primeira vez aos 17 anos, uma única vez num canal aberto, e depois nunca mais foi reprisado, exceto nas TVS por assinatura, e posteriormente, lançado em DVD pela Colúmbia. Conheci SPENCER TRACY nele, e embora já tivesse visto um trabalho poucos meses antes deste brilhante ator, O VENTO SERÁ TUA HERANÇA, onde percebi este senhor de aspecto venerando atuar com outro Senhor Ator das telas, FREDRIC MARCH num duelo de interpretação que o cinema pouco repetiu com o avançar dos anos. Mas foi nesta película de Ford que eu pude reparar mais em Spencer, para que eu pudesse ler sua biografia e assisti-lo em outros trabalhos quando pudessem ser exibidos pela TV lá pelo fim nos anos de 1980.

      Neste período, o vi em A LANÇA PARTIDA, CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, SUA ESPOSA E O MUNDO, entre tantos outros, que me surpreendeu bastante que Tracy não era só aquele “velhinho simpático” como o vi em “The Last Hurrah”, mas que ele poderia ser, ao mesmo tempo durão e viril, ou mesmo vilanesca como foi seu Mathew Duveroux em A LANÇA PARTIDA. Foi romântico sem ser galã, aliás, nunca tentou ser isso porque ele sabia perfeitamente que seu tipo não era nenhum Clark Gable ou Gary Cooper, como o vimos com Kate Hepburn nos nove filmes que juntos contracenaram. Kate e Spence aparentemente pareciam não se combinar, mas sem dúvida, havia uma forte sintonia entre os dois, o que fazia com que fosse o casal mais amado e respeitado de Hollywood.

      Mas falando em Frank Skeffington, o personagem interpretado por Tracy em O ÚLTIMO HURRAH, tem o poder da manipulação. É um personagem interessante que pode ser velhaco, mas a velhacaria dele é para ajudar o mais carente e o menos favorecido, e não o oposto como é comumente em muitos dos políticos corruptos, que ajudam a si próprios e a seus interesses. Ele bate de cara com seus inimigos sempre utilizando de ironia e astúcia, mas mesmo assim, ele não sai vitorioso, muito embora seus fãs e admiradores fizessem de tudo para que se reelegesse.

      A Obra é a odisseia de um homem com idade avançada tentando numa força sobre-humana salvar o povo e vencer seus críticos. John Ford foi um cineasta de mão cheia e parece ter vivido tudo que cada um de seus personagens em seus mais diversificados filmes viveu. Ele deve ter sentido na pele a vivência e o sofrimento de Frank Skeffington ao ler o romance original e por isto surgindo o interesse de filmar de graça esta fita.

      JOHN FORD, mesmo sendo turrão, às vezes um tanto que “sacana” para com alguns de seus atores (que faziam uma companhia, a JOHN FORD’S STOCK COMPANY), era “um destes artistas que jamais utilizam a palavra Arte, e um destes poetas que jamais falam de poesia” – assim definiu brilhantemente François Truffaut sobre este grande cineasta do cinema mundial.

      Ah eu falei que Ford era “sacana” para com alguns membros de sua trupe? Rsrsrs...ah isto é outra história!

      Breve, perto de nossas eleições, pretendo reeditar este tópico.

      Abraços do editor!



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    2. Sim, Paulo, John Ford não era fácil! Vez ou outra, por alguma implicância, condenava alguns de seus atores preferidos à geladeira. Fez isso com Andy Devine e Ben Johnson. Sem falar daquela história do "barril", no qual John Wayne teve que se sentar não sei quantas vezes. O fantástico documentário de Peter Bogdanovich, DIRECTED BY JOHN FORD, mostra John Wayne e James Stewart comentando sobre isso, inclusive das situações constrangedoras em que Ford costumava envolvê-los. Uma das vítimas preferenciais do MESTRE era justamente o irmão, Francis Ford.

      Abraços.

      José Eugenio Guimarães
      http://cineugenio.blogspot.com

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    3. Nobre Eugenio
      Temos um amigo em comum que, toda vez que falamos de John Ford e de seus rompantes com alguns de seus atores, fica deveras indignado, e o Jurandir baiano sabe que falo dele. Não tiro a razão dele, mas claro, vista a sua obra cinematográfica composta por primorosa filmografia, não podemos, todavia, deixar que seus defeitos pessoais possam deixar clamar mais alto.

      Estou ciente o que ele fez com Andy Devine, Ben Johnson, e Ward Bond, que era motivo de chacota do diretor pelos seus glúteos. Não sei se lembra numa cena de RASTROS DE ÓDIO que não estava nem no script original em que Ward Bond, ou melhor, o Reverendo e capitão Clayton, disse para a mãe de Vera Miles, que era a viúva do ator Harry Carey (um dos primeiros astros de Ford), Olive Carey, de que não haveria nenhum casamento, depois da briga entre Martin Pawley (Jeffrey Hunter) e Charlie (Ken Curtis).

      Olive, como Ford e o restante da trupe do cineasta, gostavam de gozar de Bond, que tinha apesar do porte físico avantajado, algumas limitações, entre elas, a epilepsia. Olive Carey naquela cena em THE SEARCHES estava de leque na mão e deu uma palmada nos glúteos de Bond, a mando de John Ford, sem que o ator soubesse que seria apanhado de surpresa.

      Durante o funeral de Ward Bond, Ford chegou perto de Andy Devine e disse para ele que, como Ward morrera, naquele momento ele passava a ser o maior idiota que ele conhecia.

      Com Ben Johnson a coisa foi ainda mais séria, pois Johnson teria agredido ou tentado agredir Ford depois que este lhe dirigiu um desaforo, depois das filmagens de CARAVANA DE BRAVOS. Ford tentou de todas as maneiras boicotar Johnson em Hollywood, mas John Wayne, que era amigo de Ford, também era amigo de Ben, e há rumores que o Duke muitas vezes o ajudou sem conhecimento do seu compadre John Ford, tanto que no fim da década de 1960, Johnson atuou ao lado de Wayne em diversos filmes, como JAMAIS FORAM VENCIDOS E CHISUM.

      Eu tenho este documentário de Peter Bogadanovich que gravei no TCM, aliás, confesso que fui as lágrimas, e mesmo sendo John Ford uma pessoa difícil e um tanto desequilibrado as vezes, não podemos deixar de nos emocionar com suas obras imortais, afinal, seus bons sentimentos eram mostrados na tela, ou quem sabe, só poderia demonstra-los mesmo em seus filmes, já que fora do set, mesmo com a própria família, ele não era um ser cordial e, muito menos, meigo.

      Abraços!

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  5. Já a vi há tempos, ficando na memória apenas as ocorrencias mais relevantes do filme.

    Mas se trata de um outro bom filme do Ford, fora sua linha de westerns, onde posso enumerar mais outras joias como Mogambo/53, Como Era Verde Meu Vale/52, Vinhas da Ira/40 e Depois do Vendaval/52, apenas para citar alguns.

    Jamais marginalizei os trabalhos deste cineasta de mão cheia.
    Tinha sim birra com ele, o Ford, por seu modo meio desumano de tratar àqueles que com ele trabalhavam.
    Porém, quanto à sua condição de um ótimo criador de excelentes fitas, disto não tenho a menor duvida. Bom criador de fitas e dono de uma sensibilidade super afinada para fazer dramas muito fortes e densos.

    Mas o exito deste filme tem outros nomes como responsáveis, no meu ver, como;
    a) o perfeito roteiro adaptado
    b) A sempre segura direção do Ford e
    c) A presença sempre marcante do formidável Spencer Tracy.

    A desenvoltura deste ator se mostra muito presente em mim no seu papel em A Lança Partida, como Matt Devereaux, onde ensina a todo o demais elenco daquela fita como fazer o papel de um fazendeiro rustico, ranzinza, mandão, indobrável. PERFEITO o Spencer ali.

    E é o que quase repete neste filme, que vi há algum tempo, mas o tenho na memória como outra grande interpretação deste magistral ator.

    Recordo ainda do J Hunter no filme, desta vez todo arrumadinho de paletó e gravata. Estava muito bem. Mas não recordo dos demais atores.

    O que não entendi direito na materia foi o porque de Ford se apresentar para fazer o filme sem que a Columbia nada lhe pagasse. Porque ele agiu assim? Apenas por seu sangue Irlandes lhe falar mais alto?

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Ju
      Pelo que entendi, Ford leu o romance e se encantou logo de cara com o personagem, cujas origens irlandesas batem com a personalidade do próprio cineasta, e tanto foi esta paixão que ele não fez questão de ganhar por isso, pois segundo se sabe Ford que sugeriu a Columbia comprar os direitos do filme, e em troca, fez questão de dirigir de graça para o estúdio.

      Ford era Ford. Tinha seus “vacilos”, mas naturalmente não podemos condena-lo por isto, tendo em vista seu legado e sua respeitosa filmografia. Quanto ao filme, vc disse bem quanto ao três fatores que levaram para o seu êxito, a contar com a primorosa interpretação de Spencer, um dos maiores atores de todos os tempos.

      Abraços do editor.

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  6. Eugenio,

    Como já citei mais de uma vez, sempre leio os comentários postos depois de postar o meu.

    E acabo de ler o seu primeiro, este logo respondido por Telles, onde faz mensões a cenas, a momentos, a passagens dos filmes do Ford que ficam sempre marcadas como um achado seu, uma idéia sua, como algo marcante, valioso e de valor lirico incomensurável.

    Pois em mim o que mais me marca como a presença tipica do Ford, é a abertura de Rastros de Ódio, onde desponta ao longe o cavaleiro que volta da guerra.

    Ele vem em passos desapressados, cavalgando elegante e maneiramente.

    Enquanto isso, com aquela musica alucinante que a fita tem agindo, vamos observando todos da residencia se postando na varanda depois que seu irmão indaga à esposa:
    -- E o Ethan? - e segue olhando para o homem que vinha agora mais perto e mais perto.

    Logo toda a varanda fica tomada por sobrinhos, sobrinhas e até um cãozinho, que começa a latir com a figura nova que chegava.

    Magnifica abertura para uma fita daquele porte, ainda mais se observarmos que é do lado de dentro da casa, pelo limiar da porta escancarada, que sua presença é notada.

    Uma coisa de arrepiar, de ser preciso se dar créditos, de se ver com muito e muito orgulho e sentir-se acima de orgulhose de ser fã de westerns e mais ainda deste western.

    Não esquecer de por em obsevação que a cena final se dá quase que da mesma forma que a abertura da fita. Só que agora com o Ethan deixando o portal iluminado pelo sol, depois de entregar a pequena Wood aos seus pais.

    Magnifico, magnifico. Tanto a abertura quanto o fechamento desta pelicula.

    jurandir_lima@bol.com.br

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  7. Telles,

    Que transmissão de pensamentos.

    Eu falo de um assunto quase que exatamente como falas dele se referindo a mim, e isto sem que eu tenha lido sua resposta ao Eugenio.

    E é verdade o que citas.
    Mas, como dizes; podemos até por criticas no seu comportamento como ser humano diante dos seus subordinados.
    Mas não podemos, de forma alguma, arrancar qualquer mérito dos quais ele é dono absoluto como o grande cineasta que era.

    Grande abraço do companheiro bahiano

    jurandir_lima@bol.com.br

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