domingo, 26 de setembro de 2010

Hollywood e a Segunda Guerra Mundial


Durante a II Guerra Mundial, o Cinema Americano prestou notável contribuição para o esforço de guerra. Grande parte dos filmes de Hollywood produzidos entre 1942 a 1945 foram filmes de guerra ou com temáticas similares, pois inseriam um tema relacionado com a guerra objetivando estimular o patriotismo da Nação.

Nos anos que transcorreram entre a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler e o ataque japonês a Peal Harbor, Hollywood já vinha combatendo o sentimento isolacionista que predominava na América fazendo filmes com temas anti-nazistas e, em 1940, formou-se o Motion Picture Commitee Cooperating for National Defense (Comitê do Cinema para Cooperação com a Defesa Nacional), com a finalidade de cuidar da distribuição e exibição gratuita dos filmes de propaganda, produzidos por várias agências governamentais.

APÓS o ataque japonês de 7 de dezembro de 1941, este grupo se tornou o War Actives Commitee (Comitê de Atividades de Guerra) e, entre os filmes que circulavam nessa ocasião, estavam os de recrutamento, procurando atrair voluntários para as forças armadas ou braços para a indústria de guerra. No meio de outros, incluíam-se películas como QUEM QUISER TER ASAS/Winning Your Wings, no qual aparecia James Stewart (1908-1997) convocando rapazes para a aviação; e A MULHER E A GUERRA NOS ESTADOS UNIDOS/Women In Defense, com Katharine Hpeburn (1907-2003) narrando um comentário escrito por Eleanor Roosevelt, destinado a encorajar a adesão feminina; FORÇA PARA A DEFESA/Power for Defense, mostrando como a energia do Vale do Tennessee era usada para movimentar as máquinas das fábricas.

Em junho de 1942, o governo institui o Office of War Information (Gabinete de Informação de Guerra) para servir de contato com a Indústria Cinematográfica. Através desta agência, Hollywood e Washington trabalharam juntos. Cópias de todos os filmes de ficção em longa metragem e Shorts foram postos à disposição das forças armadas. Perto do final da guerra, cerca de 43 mil cópias tinham sido embarcadas para que os soldados as vissem a bordo dos navios ou nos acampamentos de além-mar.

APOIADOS pelo Research Council of the Motion Picture Academy (Conselho de Pesquisa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas), presidido pelo chefe da 20ªth Century-Fox, Darryl F. Zanuck (1902-1979), e em cooperação com o U.S.Signal Corps (Corpo de Sinaleiros dos Estados Unidos), os estúdios dedicaram-se aos filmes de treinamento, sem fins lucrativos.

Em 1944, a produção destes filmes tinham alcançado a percentagem de 20 por semana, segundo palavras do General Eisenhower, a fase de treinamento pôde ser abreviada, colocando os soldados prontos para entrarem em combate com maior antecedência. Os oficiais da Divisão Fotográfica do Corpo de Sinaleiros, sob os auspícios do Conselho, adestravam-se nos estúdios e atuavam como consultores a fim de se preservar a correção técnico-militar de cada filme. Os únicos custos para o Departamento de Guerra consistiam no pagamento da mão-de-obra e do filme virgem, e o Conselho ajudava na seleção de gente para trabalhar nas equipes cinematográficas.

OS FILM DALLY YEARBOOKS de 1942 e 1943 dão uma lista imensa do pessoal de cinema que prestava serviço às forças armadas naqueles anos, como Zanuck, Merian C. Cooper, James Stewart, Frank Capra, Lloyd Bacon, Robert Montgomery, Douglas Fairbanks Jr, John Ford, Gene Autry, John Huston, Clark Gable, Anatole Litvak, William Wyler, Tyrone Power, William Holden, George Brent, Robert Taylor, Victor Mature, Melvyn Douglas, John Payne, Robert Ryan, Robert Stack, Henry Fonda, Robert Mitchum, Burgess Meredith, Alan Ladd, George Stevens, Ronald Reagan (futuro Presidente dos EUA), Glenn Ford, entre muitos outros. E SEM CONTAR os artistas que no futuro iriam despontar nas grandes telas e que também deram sua imensa contribuição para a Pátria, como Lee Marvin, Charles Bronson, Rock Hudson, Paul Newman, Kirk Douglas, Charlton Heston, Ernest Borgnine, Telly Savalas, George Kennedy, James Arness, Jack Palance, Jeffrey Hunter, e Audie Murphy (foto), que foi o soldado mais condecorado na II Guerra Mundial, recebendo 24 medalhas, incluindo a Congressional Medal of Honor, a Medalha de Honra do Congresso Americano – e se tornaria um dos maiores cowboys do cinema nas décadas de 1950 e 60 e que iria falecer prematuramente em um desastre aéreo com apenas 46 anos em 1971.
ROBERT TAYLOR (1911-1969, foto), por exemplo, serviu como instrutor de vôo no setor de transporte aeronaval, chegando a dirigir 17 filmes de treinamento e narrou o documentário de longa-metragem Belonave/The Fighting Lady, vencedor do Oscar em 1944.
Clark Gable (1901-1960- foto), na aviação, cumpriu com bravura várias missões sobre a Alemanha e atingiu o posto de Major.




James Stewart, comandante de bombardeios, fez muitos vôos arrojados contra o inimigo e se reformou em 1968 como general-brigadeiro da Air Force Reserve (Reserva da Força Aérea).

Das 240 mil pessoas empregadas na produção, distribuição e exibição de filmes, mais de 40 mil ingressaram nas fileiras das forças armadas, incluindo Hollywood, 48 executivos e produtores, 230 membros do Sindicato de Roteiristas, 40 cameraman, 75 eletricistas e sonoplastas, 80 maquinistas, 453 técnicos em geral e cerca de dois mil músicos.

EM ACRÉSCIMO aos filmes de treinamento, um certo número de filmes não comerciais de propaganda patrocinados pelo governo americano, foi produzido pelo Corpo de Sinaleiros sob o Comandante Frank Capra (1897-1991), um dos 132 diretores membros do Screen Directors Guild (Sindicato dos Diretores). Aproximadamente 447 pessoas de Hollywood funcionaram como oficiais do Corpo de Sinaleiros, e entre eles estavam o lendário John Huston (1906-1987-foto), Anatole Litvak (1902-1974), e Darryl F. Zanuck (1902-1979). Incumbido de fazer AT THE FRONT, um documentário sobre a campanha do Norte da África, Darryl Zanuck arriscou a vida filmando sob intenso fogo no front, escreveu um diário, TUNIS EXPEDITION (onde relatou a expedição, e foi agraciado com a Legião de Honra por “bravura excepcional em combate”. Os pormenores das façanhas de John Huston e Anatole Litvak, salientando-se a trilogia Report from the Aleutians, The Battle of San Pietro, e o semi “fabricado” Tunísia Victory.




Dois outros brilhantes cineastas, William Wyler (1902-1981) e John Ford (1895-1973- Foto), também se consagraram ao esforço de guerra, resultando duas obras significativas: POR CÉUS INIMIGOS/Memphis Belle e A BATALHA DE MIDWAY/The Battle of Midway. Wyler, incorporado na aviação, se responsabilizou pela primeira e perdeu a audição de um ouvido por causa dos vôos em grande altitude, desligando-se como Tenente-Coronel. Ford, por sua vez, foi ferido no braço quando filmava a segunda produção, mas foi avante até o término. Além de A BATALHA DE MIDWAY, premiado com o Oscar de melhor documentário de 1942, Ford realizou Sex Hygiene, sobre os perigos e a prevenção das doenças venéreas, reduzindo para 8mm o material fotográfico por um dos cinegrafistas de sua equipe sobre a rotina num PT Boat, resultando daí Torpedo Squadron e mexeu um pouco em December 7th, documentário de curta-metragem feito por Gregg Toland a respeito do ataque a Pearl Harbor.

Outros profissionais da Sétima Arte de Hollywood que ficaram impossibilitados de ir ao front e de usar farda, contribuíram de outras maneiras para destruir o Nazismo e levantar o ânimo de seus compatriotas através do USO-United Organization Camp Shows (Serviços Unidos de Organização de Shows em acampamentos) e do Treasury Department Bond Sales Drives (Esforço para a venda de Bônus do Departamento do Tesouro). O primeiro se formou em 1941 para produzir recreação para os soldados- e vários atores, cantores, e outros profissionais do Show Business imediatamente se colocaram a disposição para cooperação. Mais tarde foi criado o Hollywood Victory Commitee (Comitê de Hollywood para a Vitória) com a finalidade de coordenar as atividades das personalidades do rádio, do teatro e do cinema nos diversos espetáculos.

Os Shows em acampamentos eram organizados em quatro circuitos: O Circuito da Vitória, com salas de primeira classe em cerca de 700 quartéis do Exército e bases navais; O Circuito Azul, com lugares para espetáculos em 1.150 acampamentos; O Circuito dos Hospitais e o Circuito Toca da Raposa (que era o circuito pelo exterior. Antes da guerra terminar, mais de dois mil artistas tinham cruzado os mares para divertir as tropas aliadas. Os dois que mais viajaram foram a atriz Paulette Goddard (1911-1990), que fora esposa de Charles Chaplin, e o comediante Joe E. Brown (1892-1973- foto), alcunhado de o “Boca-Larga”. A popularidade deste era seguida pela de Bob Hope (1904-2004), mas Joe foi o primeiro astro a ir ao Alasca, às Ilhas Aleutas, ao Sudoeste do Pacífico, e aos teatros de operações na China, Birmânia e Índia, e em 1944, o proclamaram de “O Pai de todos os Homens no Além-Mar”.


Frances Langford, Dinah Shore, Bing Crosby, Al Jolson, Laurel & Hardy, Martha Raye, Abbot & Costello, Edie Cantor, Kay Francis, Humphrey Bogart, James Cagney, Spencer Tracy, Randolph Scott, Gary Cooper, Errol Flynn, Ann Sheridan, Adolph Menjou, Jack Benny, Carole Landis, e tantos outros ofereceram algumas horas de alegria e emoção aos soldados. E nos três anos seguintes, cerca de 3.500 artistas fizeram mais de 35 mil apresentações correndo sério perigo perto das linhas inimigas.

Enquanto isso, na frente doméstica, inaugurava-se em outubro de 1942 a Hollywood Canteen (Cantina de Hollywood), concebida por Bette Davis (foto) e John Garfield. A Cantina acolheu mais de dois mil soldados. Toda noite uma grande orquestra tocava, e os homens de uniforme podiam dançar com Bette Davis, Bette Grable, Hedy Lamarr, Olivia de Haviland, Marlene Dietrich, Joan Crawford, e dezenas de outras estrelas glamourosas. As atrizes também serviam as mesas e lavavam pratos, sem receberem qualquer pagamento.
Outras atuavam como enfermeiras (como Jennifer Jones) ou visitavam os feridos nos hospitais, ouviam relatos dos soldados de licença ou que retornavam ao lar, e vendiam bônus de guerra, percorrendo todo país para incentivar os cidadãos a investirem na defesa. Carole Lombard (foto) morreu num desastre de avião numa dessas campanhas. Ela tinha apenas 33 anos de idade e estava casada com Clark Gable.

Em 1943, inúmeros artistas participaram das famosas excursões Stars Over America (Astros pela América), angariando 840 mil dólares, visitando 151 hospitais, 254 acampamentos, e 41 cidades. Milhares de pré-estréias tiveram lugar, com os distribuidores suprindo os filmes sem cobrarem nada e nelas os bônus eram vendidos pelo preço da entrada ou trocados por doação de sangue.

Esta era a Hollywood e seus astros e estrelas nos tempos da II Grande Guerra.



Produção e pesquisa de Paulo Telles


BIBLIOGRAFIA:REVISTA CINEMIN- ANO 1985- Página 23 a 27- de autoria de A.C.Gomes de Mattos.

4 comentários:

  1. Paulo, estou curtindo seus artigos e colocando seu blog entre meus favoritos. Muito bom este sobre o período da segunda guerra. A indústria cinematográfica atrelada aos objetivos do governo americano. Muito bom!
    Abraço!

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  2. Saudações Expedito, tudo bem? agradeço por esta participação e agradeço pela sua divulgação. Como também sou um amante da poesia acompanharei sempre seu espaço, que aliás, já sigo com imensa satisfação. Forte Abraço.

    Paulo Néry
    Filmes Antigos Club Artigos

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  3. Considero este artigo como o melhor postado em blogs
    cinematográficos, dado o conteúdo esclarecedor da atuação
    de Hollywwod e seus astros na II Guerra Mundial, e de sua
    importancia histórica do cinema e da humanidade.

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    Respostas
    1. Grato anônimo. Este artigo é baseado em publicação do Professor A. C. Gomes de Mattos na revista cinemin, logo o conteúdo didático do tópico. Passar bem.

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