domingo, 25 de junho de 2017

Príncipe Valente (1954): De Henry Hathaway, Uma Clássica Adaptação Cinematográfica Oriunda dos Quadrinhos.


O cinema moderno frequentemente tem levado adaptações dos quadrinhos para o cinema, onde temos como exemplo mais recente a Mulher Maravilha, com Gal Gadot no papel principal. Aliás, tamanho sucesso nos remete a lembrança do primeiro Superman, de 1978, estrelado pelo saudoso Christopher Reeve, que se tornou um estrondoso êxito de crítica e bilheteria, e desde então, cineastas dos mais variados estilos tem feito com frequência, até aqui, filmes baseados em muitos dos personagens que fascinaram crianças e adultos nas mais variadas épocas. Logo, não é de hoje este casamento (algumas vezes desencontrado) entre a Sétima Arte e as Histórias em Quadrinhos. Aliás, isso já era levado, de certa forma, para o cinema antigo, através dos seriados das matinês, onde se viu personagens como Flash Gordon, Fantasma, Super-Homem, Mandrake, entre outros.


Hal Foster, o criador de PRÍNCIPE VALENTE.
Mas o que dizer de um personagem criado em 1937 por um desenhista muito conceituado com a finalidade de leva-lo para as tiras de jornais aos domingos? O desenhista em questão é o magistral Hal Foster (1892-1982), o mesmo que desenhou também para as tiras dominicais as histórias de Tarzan, e o personagem é PRÍNCIPE VALENTE. Foster elaborou uma novela tendo um jovem príncipe como protagonista, com enredo contínuo e destaque para o realismo dos panoramas, com narrativa mais sofisticada que o habitual no universo dos quadrinhos, sendo muitas vezes também bem humorada. Até hoje, as tiras de PRÍNCIPE VALENTE são publicadas semanalmente em mais de 300 jornais americanos, de acordo com sua distribuidora, a King Features Syndicate. Foster, ao não usar os "balões" para os textos, retomou o estilo dos primeiros quadrinhos ao mantê-los na parte de baixo de cada quadro. Os acontecimentos mostrados são historicamente precisos, mas de períodos históricos bem distintos que vão desde o antigo Império Romano à Alta Idade Média, com algumas poucas ambientações em tempos mais recentes.


Os traços de Príncipe Valente, por Hal Foster. Acima, reprodução de uma das tiras dominicais, e os demais personagens que cercam em suas aventuras nos quadrinhos.
Príncipe Valente nos tempos do Rei Arthur (Prince Valiant in the Days of King Arthur) foi sucesso nos grandes jornais pela parte do mundo, chegando a imprimir 4000 tiras em quadrinhos, publicadas aos domingos. Até o Duque de Windsor considerava Príncipe Valente como uma grande contribuição para a literatura inglesa. E também pudera: o trabalho de Hal Foster no mundo das Histórias em Quadrinhos é considerado como uma das melhores no ramo, seja pela narrativa, pela arte, ou pelo enorme rigor e fidelidade à verdade dos ambientes (humanos, culturais e naturais) mostrados. 


PRÍNCIPE VALENTE (1954): Um dos primeiros filmes rodados em CinemaScope. Foto durante sua premiere no Chinese Theatre, em 1954.
Entretanto, somente dezessete anos depois, em 1954, que o personagem criado por Hal Foster assumiria vida no cinema. Nesta época, o revolucionário CinemaScope procurava filmar grandes produções para justificar este novo formato, e viram que PRÍNCIPE VALENTE (Prince Valiant) seria o espetáculo perfeito para se aproveitar o bom uso da tela e suas qualidades panorâmicas, como já havia sido feito em O Manto Sagrado em 1953, o primeiro filme lançado por esta inovação cinematográfica.

Darryl F. Zanuck, Chefe da 20th Century Fox e um dos idealizadores do filme.
Jeffrey Hunter, o primeiro ator apontado para o papel de Príncipe Valente
O magnata chefão da 20th Century Fox, Darryl F. Zanuck (1902-1979) investiu neste novo épico extraído dos quadrinhos de Hal Foster junto ao produtor Robert L. Jacks (1927-1987), e acreditou que pudesse conseguir o mesmo êxito de The Robe no ano anterior. O papel do herói de Foster já estava destinado para o então galã do estúdio, Jeffrey Hunter, mas este tinha um “rival” na mesma empresa, o jovem Robert Wagner, que tinha na época 23 anos. Hunter acabou perdendo o papel e Wagner assumiu o personagem Príncipe Valente.

Robert Wagner ficou com o papel do herói criado por Hal Foster, muito embora o desenhista considerou o perfil do jovem ator imaturo para o personagem.
O roteirista Dudley Nichols, que adaptou para o cinema PRÍNCIPE VALENTE (1954), fugindo dos propósitos de Hal Foster.
Hal Foster chegou a declarar, tempos depois, sobre o que achou do filme e da atuação de Wagner: O rosto dele era imaturo. Ele corria pra todo lado com a boca aberta. Mas apesar de tudo, gostei, foi uma boa experiência. “De certo modo”, não tive nada a ver com o filme. Primeiro me enviaram um roteiro e me pediram que eu melhorasse, fazendo sugestões, mas eles devem ter perdido minha carta. Depois me pagaram um salário fabuloso para eu ir até lá (na Inglaterra, onde grande parte do filme foi rodado), mas eu sabia que não tinha nada a dizer, que só me desapontaria, pois nada que eu falasse ou fizesse mudaria o padrão de Hollywood.

O cineasta Henry Hathaway, diretor de PRÍNCIPE VALENTE (1954).
Franz Waxman, músico que compôs a trilha para o filme.
Entretanto, se sabe que cinema e quadrinhos são artes bem distintas, e na maioria das vezes, adaptações cinematográficas saídas de gibis tem tudo para dar mais errado do que certo. Contudo, se considerarmos que Príncipe Valente pudesse ter um argumento que deixasse a desejar, em contrapartida do primoroso elenco que o cerca, entre mortos e feridos, a fita não se sai mal, graças à bela fotografia do competente Lucien Ballard (1904–1988) e da direção clássica de um cineasta renomado como Henry Hathaway (1898-1985). Hathaway tem um currículo que comprova sua versatilidade como um dos grandes artesãos de Hollywood. Em Príncipe Valente, ele testifica isso cabalmente, com uma realização que mesmo tendo suas adversidades técnicas e desencontro de duas mídias distintas (como são os quadrinhos e o cinema), soube guiar com estilo primoroso esta superprodução.

O Príncipe Valente (Robert Wagner) e seu interesse amoroso na aventura, a Princesa Aleta (Janet Leigh).
As filmagens externas foram rodadas na Inglaterra entre a Primavera e o Verão de 1953, enquanto as internas foram realizadas em estúdios na Califórnia, no Outono de 1954. Contudo, mesmo o CinemaScope pode ter suas limitações se o espetáculo não seguir suas particularidades essenciais. O filme limita-se a paisagens e cenários bem decorativos, mas segundo a crítica americana da época, resultou num espetáculo vazio, distanciando-se muito do conceito movies, que era pelo menos tão particular no cinema americano na época, onde se perde o que há de história e anedótico. Dudley Nichols (1895–1960), costumeiramente um excelente roteirista (No Tempo das Diligências), se perde no argumento, querendo elevar Valente como um príncipe cristão em defesa da fé, o que foge dos conceitos originais propostos por Hal Foster, que em suas histórias originais utiliza muito da mitologia nórdica e de elementos pagãos. Neste quesito, o que era para ser uma aventura adaptada aos moldes dos quadrinhos passa a ser uma aventura épica com divulgação religiosa.  Mas há de se entender dos motivos que levaram Nichols a escrever uma história simples, já que as tiras dominicais de Foster são bem mais densas. Entretanto, uma qualidade a se acrescentar é a trilha sonora de Franz Waxman (1906-1967), que já abre o espetáculo com a arte de Hal Foster estampada em sua apresentação. 

A Camelot de PRÍNCIPE VALENTE (1954).
Valente, perante a corte do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda.
Sir Kay (Tom Conway) e Rei Arthur (Brian Aherne)
Da esquerda para a direita: Ilene (Debra Paget), Princesa Aleta (Janet Leigh) e seu pai, o Rei Luke (Barry Jones), Rei Arthur (Brian Aherne) e sua Rainha Guinevere (Jarma Lewis).


O elenco em grande parte tem seu primor. Bob Wagner, galã com talentos limitados, que muito embora começasse no cinema, é bem melhor aproveitado na TV, se tornando futuramente astro das séries O Rei dos Ladrões (1968-1970) e Casal 20 (1979-1984). O próprio ator reconheceu em seu livro de memórias que a escolha para ele viver Príncipe Valente foi inadequada. O resto do cast parece se entreter melhor do que o próprio âncora da fita, afinal, temos que admitir que a história foi bem escolhida, onde se tem um conto de fadas a moda americana da década de 1950, com o heroísmo, o mocinho, o vilão, a virtude castigada, muitas lutas, e finalmente, o bem triunfando sobre o mal.  Temos Janet Leigh (1927-2004) como a Princesa Aleta, interesse amoroso de Valente. Um notável vilão como James Mason (1909-1984), que rouba a fita de cena a cena. Um gigante como Sterling Hayden (1916-1986) perfeito no papel de Sir Gawain. E ainda, Donald Crisp (1882-1974) como o Rei Aguar, pai do herói, e Victor McLaglen (1886-1959) como um poderoso Viking. E não se pode esquecer de Debra Paget, que mesmo em sua estonteante beleza, pouco faz no filme a não ser se apaixonar pelo personagem de Hayden. 
James Mason (como o vilão Sir Brack) rouba o filme de cena a cena com sua magistral atuação. 
Sterling Hayden, ótimo como Sir Gawain.
Debra Paget, que quase não aparece na fita, como Ilene. 


A Trama

O Rei Aguar (Donald Crisp) e sua família viking se tornaram cristãos, e por isso são vítimas de traição e fogem para o exílio, ficando sob a proteção do Rei Arthur (Brian Aherne, 1902-1986) e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Quando atinge a maioridade, o filho de Aguar, Príncipe Valente (Robert Wagner), é enviado pelo seu pai à corte do Rei Arthur, para se tornar cavaleiro. Ao chegar à praia, ele é atacado por um misterioso Cavaleiro Negro. Consegue fugir e chegar até Camelot, onde se apresenta ao Rei Arthur. Pedindo para ser cavaleiro, o rei lhe põe aos cuidados do Cavaleiro Sir Gawain (Sterling Hayden), para treina-lo como escudeiro.


Valente se encontra com Sir Gawain (Sterling Hayden), que o treina para escudeiro.
O misterioso Cavaleiro Negro.
Valente e Sir Brack (James Mason).
Valente se apaixona pela Princesa Aleta (Janet Leigh), mas terá que enfrentar as artimanhas de outro Cavaleiro da Távola Redonda, Sir Brack (James Mason), que mais tarde, Valente descobre que é o misterioso Cavaleiro Negro. Este manda os pais e a amada de Valente para uma prisão viking, onde o herói consegue resgata-los com a ajuda de um aliado da família, o também viking Boltar (Victor McLaglen). Valente então volta a Camelot para acertar as contas com Sir Brack, em um duelo decisivo, perante o Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda.


Valente e sua amada Aleta.
Aleta e Valente, capturado pelos vikings
O viking Boltar (Victor McLaglen) é amigo de Valente, que o ajudará a libertar seus pais e Aleta da prisão.
Enfim, o duelo decisivo entre Valente e Sir Brack.
Certamente, Príncipe Valente, produzido há mais de 60 anos, é digno do espetáculo, sendo um cinema para adultos por seu aspecto de nostalgia recompondo a História em Quadrinhos (mesmo com algumas imperfeições, porém mantendo as características), mas que tem capacidade de agradar também ao público juvenil, que talvez nunca tenha lido as tiras dominicais do personagem. Seja como for, é um filme importante por ser um dos primeiros a serem produzidos pelo CinemaScope, e por também se tratar de uma das primeiras adaptações extraídas dos Quadrinhos para o cinema contemporâneo, algo raro nas produções da década de 1950. PRÍNCIPE VALENTE estreou nas salas do Cinema Palácio, Centro do Rio de Janeiro, nas férias escolares de Julho de 1954. 



O jovem príncipe, agora sagrado Cavaleiro da Távola Redonda como Sir Valente.
Seja como for, é um filme importante por ser um dos primeiros a serem produzidos pelo CinemaScope, formato de tela que acabou revolucionando toda a estética da Sétima Arte - e por também se tratar de uma das primeiras adaptações extraídas dos Quadrinhos para o cinema contemporâneo, algo raro nas produções da década de 1950. PRÍNCIPE VALENTE estreou nas salas do Cine-Palácio, Centro do Rio de Janeiro, nas férias escolares de Julho de 1954.





PRÍNCIPE VALENTE foi exibido nos cinemas de todo o Brasil em 1954. No Rio de Janeiro, conforme as divulgações da época, estreou no Cine-Palácio, Centro da cidade, em julho do mesmo ano.

FICHA TÉCNICA
PRÍNCIPE VALENTE
(Prince Valiant)
País – Estados Unidos
Ano – 1954
Direção – Henry Hathaway
Produção – Robert L. Jacks, para a 20th Century Fox
Roteiro – Dudley Nichols, baseado nas Histórias em Quadrinhos de Hal Foster.
Música – Franz Waxman
Fotografia – Lucien Ballard, em Tecnicolor.
Metragem – 100 minutos.


Elenco
Robert Wagner – Príncipe Valente
James Mason – Sir Brack
Janet Leigh – Princesa Aleta
Sterling Hayden – Sir Gawain
Debra Paget – Ilene
Victor McLaglen – Boltar
Donald Crisp – Rei Aguar
Brian Aherne – Rei Arthur
Barry Jones – Rei Luke
Mary Philips – Rainha de Thule
Tom Conway – Sir Kay
Hal Baylor – Guarda da Prisão
Primo Carnera – Rei Sligon
John Dierkes – Sir Tristam
Don Megowan – Sir Lancelot
Michael Rennie – Narrador

Por
PAULO TELLES



domingo, 11 de junho de 2017

Juventude Transviada (1955): Nicholas Ray e Sua Preocupação com a Delinquência Juvenil, em Uma das Trilogias do Mito James Dean.


Desde que estreou como diretor em 1949, com o clássico Amarga Esperança (They Live be Night) o cineasta Nicholas Ray (1911-1979) vinha se preocupando cada vez mais com a delinquência juvenil nos Estados Unidos.   Nessa fita, Ray analisou o assunto tendo como base um fato real, onde são analisados as reações de um jovem casal (vividos por Cathy O’ Donnell e Farley Granger). Em O Crime Não Compensa (Knock on Any Door), mostra a luta de um advogado (Humphrey Bogart) de origem pobre das periferias que tenta afastar alguns rapazes da influência de bandidos que são como “ídolos” para esses jovens.


JUVENTUDE TRANSVIADA (Rebel Without a Cause), fita dirigida por Ray em 1955, numa demonstrada tensão e gravidade quanto ao problema da juventude, retrata a trajetória de jovens pertencentes às elites dirigentes dos Estados Unidos. Formou assim uma espécie de tríptico do que considera as causas desse perigo que já afligia professores, psicólogos, sociólogos, e educadores na época de sua realização, isto é, há 62 anos. Um perigo que com o passar das gerações, se torna cada vez mais atual, seja nos Estados Unidos, no Brasil, ou em qualquer parte do mundo. 

O cineasta Nicholas Ray e o ator James Dean, passando o roteiro para JUVENTUDE TRANSVIADA (1955)
James Dean e Nicholas Ray
Nicholas Ray parece deixar bem claro que a “cura” para a doença da delinquência juvenil não esta nas “taras constitucionais” como o diretor bem definiu, mas com uma melhor distribuição social, e principalmente, a responsabilidade dos pais. Em Juventude Transviada, a culpabilidade dos pais é explicada por terem suas vidas voltadas para seus compromissos sociais e absorvida com trabalhos, deixando os filhos entregues ao próprio destino, e o que é mais grave, sem lhes dar ao menos uma demonstração de carinho, afeto, e a atenção de que tanto necessita a fase da adolescência, mostrando que a delinquência juvenil não é privilégio exclusivo apenas de pessoas oriundas de classes menos abastadas.

James Dean, o mito que se tornou uma lenda
A obra de Ray, que lhe deu a maior notoriedade de sua carreira como cineasta, foi estrelada justamente por um mito que se tornou símbolo da juventude rebelde da década de 1950, e sua mitologia ainda se tornou mais forte quando veio a morrer num trágico acidente automobilístico, a 30 de setembro de 1955: James Dean (1931-1955).Junto com Vidas Amargas (East of Eden), 1954, de Elia Kazan – e Assim Caminha a Humanidade (Giant), 1956, de George Stevens – JUVENTUDE TRANSVIADA forma a trilogia de filmes mais conhecidos, lembrados, e estrelados por este ícone da rebeldia. Antes mesmo de marcar ponto nestas três fitas, Dean já tinha passado outras experiências como ator. Foi inicialmente um dos alunos do Actor’s Studio, a conhecida escola de atores de Nova York, de onde saiu nomes famosos, como Marlon Brando. Em seguida, participou de produções menos faladas, como os filmes Baionetas Caladas, de Samuel Fuller, O Marujo foi na Onda, de Hal Walker, e Sinfonia Prateada, de Douglas Sirk – todas elas de 1951. 

James Dean, ícone da rebeldia nos anos de 1950.
Dean ainda apareceu em comerciais feitos para a TV (para fregueses tão diferentes quanto a Pepsi Cola e o Governo Americano), peças teatrais, e até para telefilmes, mas foi com Rebell Without a Cause que James Dean se tornou um ícone para a juventude na primeira metade da década de 1950, trazendo uma das cenas mais antológicas da história da Sétima Arte : o “pega” de carros próximos a um desfiladeiro. Foi assim que o precocemente falecido Dean se tornou a imagem do garoto rebelde, que Elvis Presley (que tanto o idolatrava) tentou imitar, mas nunca conseguiu.Muito embora hoje tenha o status de grande clássico do cinema, o filme nunca chegou a ser unanime entre os críticos. A crítica Pauline Kael (1919-2001) classificou Juventude Transviada no seu famoso livro, 5001 nights at the movies como uma “novela”, para em seguida lembrar contrariada que ela teve “mais impacto nos adolescentes da época do que muitos outros filmes melhores”. Certamente, o próprio argumento do cineasta Nicholas Ray, retocado pelos escritores Stewart Stern (1922-2015) e Irving Shulman (1913-1995) não chega a ser um dos mais primorosos, mas a atuação de James Dean contorna a trama, salvando com tranquilidade os pontos fracos do filme, e fazendo toda a diferença. A atuação de Dean sempre foi marcante, tendo peso nas produções de que participou, ao passo que fica difícil imaginar Carl Trask e Jim Stark, personagens respectivos de Vidas Amargas e Juventude Transviada interpretado por um mesmo ator que não seja James Dean.  Ele traduzia com perfeição e de maneira bastante particular os conflitos internos desses personagens, ao mesmo tempo em que conseguia desenha-los com toda uma riqueza de detalhes e aspectos. 

O Diretor Nicholas Ray e seus jovens astros Natalie Wood e James Dean.
O diretor Ray repassando o script para Sal Mineo, Natalie Wood, e James Dean

Ray e Dean em momento de intervalo das filmagens. O diretor lamentou muito em não poder mais trabalhar com o ator.
Já Nick Ray, através de sua obra em parceria com Dean (o cineasta lamentou não poder trabalhar novamente com o ator, pois Dean estava escalado para viver Jesse James em Quem Foi Jesse James, western dirigido por Ray em 1956 – com a morte de Dean o papel foi para Robert Wagner) ficou entre o reconhecimento e a negação do seu talento. O culto de sua pessoa data da época do Nouvelle Vague. Foram Godard e Truffaut, a princípio, dois cineastas a reverencia-lo, usando para tanto respaldo o famoso Chahiers du Cinema. Pouco antes de sua morte por câncer, em 1979, Ray ainda foi objeto de um documentário dirigido pelo alemão Wim Wanders, Um Filme para Nick (Lightning Over Water), onde é focalizada a agonia de Ray em relação à doença, e suas reflexões sobre a vida. Em Juventude Transviada, talvez o maior erro no trabalho de Nicholas Ray seja, provavelmente, se deixar envolver exageradamente pelos três jovens sofredores (principalmente com Jim Stark, que Ray considerava seu “alter ego” juvenil), fazendo com que o impacto da denúncia social se dilua numa torrente de psicologismo duvidoso. No entanto, este enfoque oferece ao diretor algumas vantagens, como por exemplo, do diretor poder obter dos intérpretes o máximo de rendimento dramático, e de quebra, um envolvente acabamento visual, já que é justamente a ação que deriva das emoções dos personagens. 



A TRAMA
Jim Stark (Dean), saindo da delegacia acompanhado pelos pais (Jim Backus e Ann Doran) na presença do inspetor Fremick (Edward Platt)
Incompreendido, Jim discute muitas vezes com sua mãe... 
...e seu pai, que deveria ser o pulso forte da família.
Toda a narrativa transcorre em 24 horas, com poucos cenários, sendo acionada com extrema funcionalidade (raramente Ray aproveitou tão bem o uso do Cinemascope), sobre a trajetória de três jovens delinquentes. O primeiro é Jim Stark (Dean), um adolescente complicado, um verdadeiro rebelde sem causa como condiz no título original da fita. Mas seria sua rebeldia mesmo sem causa? Os pais vivem em festas condizentes com o status social a que pertencem. Aparentemente, Jim tem tudo no quesito material – casa, carro, dinheiro, mas mesmo assim ele se sente solitário e procura esquecer na embriaguez seu pai, Frank (Jim Backus, 1913-1989), que deveria ser seu ídolo e que, no entanto, se revela um ser pusilânime, quando percebe que é manobrado pela mãe (Ann Doran, 1911-2000). 

Judy (Natalie Wood), outra desajustada que não consegue o amor de seu pai...
...e por isso, se envolve em péssimas companhias, com a gangue de Buzz (Corey Allen)
Judy (Natalie Wood) chocada com o acidente que matou Buzz, e Jim (Dean) lhe estende a mão.

Com Judy (Natalie Wood, 1938-1981) as coisas não são diferentes. Ela não consegue encontrar em casa a compreensão dos seus, principalmente do pai (William Hopper, 1915-1970), cujos negócios lhe tomam todo o tempo e que só lhe fala para repreendê-la ou castiga-la, fazendo com que a jovem se perca procurando divertimentos fáceis.

Na delegacia, Jim empresta seu paletó para Plato (Sal Mineo), amedrontado e com frio. 
Plato (Sal Mineo), em busca desesperada por um pai, tem na figura do ator Alan Ladd um modelo paterno. 
Plato, possivelmente o mais emocionalmente perigoso de todos os transviados.
Finalmente, Plato (Sal Mineo, 1939-1976), filho de uma divorciada que anda sempre fora de casa e que lhe envia dinheiro, sendo entregue aos cuidados de uma empregada. Ele procura desesperadamente um pai (que no imaginário do menino, seria o ator Alan Ladd, cuja foto ele guarda no armário da escola). Os problemas ligados aos três jovens são elementos básicos para um estudo extremamente cortante de transgressões e desvios de conduta moral, onde Nicholas Ray fustiga, de modo impiedoso, a inconsciência e a negligência dos pais. 

Dean, Mineo, e Natalie: mortes trágicas.
O trio perfeito de delinquentes para JUVENTUDE TRANSVIADA (1955)
James Dean e Corey Allen
O que dizer dos três jovens atores principais? James Dean, admirável no papel principal (muito embora tivesse 23 anos na época, “velho” para um adolescente), seguido de Natalie Wood na flor de sua juventude (aos 17 anos e perfeita no papel), e Sal Mineo (então com 16), este um jovem ator de qualidades excepcionais. Reunir um elenco jovem como Dean, Natalie, e Mineo, só veio ajudar a valorizar mais a obra de Ray, sendo talvez a mais significativa a utilizar como tema o chamado “conflito de gerações”. 


Jim Stark (Dean) em luta de canivetes com Buzz (Corey Allen)
Ray supervisionando Natalie e Dean durante as filmagens 
Entretanto, apesar das qualidades, Juventude Transviada apresenta uma grande falta: o malsucedido processo WarnerColor, que dá um tom estranho a bela fotografia do competente Ernest Haller (1896-1970), um dos mesmos fotógrafos de E O Vento Levou (1939). Entretanto, além dos mitos que cercam esta produção, uma curiosidade se faz pertinente observar: James Dean, Sal Mineo, e Natalie Wood, tiveram mortes trágicas. Dean morreu de acidente de carro em setembro de 1955. Mineo foi assassinado durante um assalto em 1976. E Natalie Wood morreu afogada em 1981, morte que ainda se cerca de muito mistério. 


Nick Ray (de costas) dirigindo James Dean para uma das cenas de JUVENTUDE TRANSVIADA (1955)
JUVENTUDE TRANSVIADA é um filme cuja homogeneidade e nobreza transcende ao próprio processo cinematográfico, ganhando uma amplitude humana digna de seu realizador. No Brasil, estreou nos cinemas cariocas, segundo o IMDB, em dezembro de 1955. 

James Dean e Sal Mineo
Divulgação do filme por um jornal carioca, em 1º de outubro de 1956.
FICHA TÉCNICA
JUVENTUDE TRANSVIADA
(REBEL WITHOUT A CAUSE)

ANO DE PRODUÇÃO: 1955
PAÍS: Estados Unidos
DIREÇÃO: Nicholas Ray
PRODUÇÃO: David Weisbart, em distribuição pela Warner Brothers
ROTEIRO: Stewart Stern, Irving Shulman (adaptação), baseado em uma história de Nicholas Ray
FOTOGRAFIA: Ernest Haller, em WarnerColor
MÚSICA: Leonard Rosenman
METRAGEM: 111 Minutos.


ELENCO
JAMES DEAN – JIM STARK
NATALIE WOOD – JUDY
SAL MINEO – JOHN “PLATO” CRAWFORD
JIM BACKUS – SR. FRANK STARK
ANN DORAN – SRª CAROL STARK
COREY ALLEN – BUZZ GUNDERSON
WILLIAM HOPPER – PAI DE JUDY
ROCHELLE RUDSON – MÃE DE JUDY
DENNIS HOPPER – GOON
EDWARD PLATT – RAY FREMICK
MARIETTA CANTY – CUIDADORA DE PLATO
IAN WOLFE – DR. MINTON
ROBERT FOULK – GENE
JACK SIMMONS – COOKLIE
TOM BERNARD – HARRY
NICK ADAMS – CHICK

PAULO TELLES
PESQUISA E PRODUÇÃO
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EM TEMPO

IN MEMORIAN
ADAM WEST
(1928-2017)

Ao final da confecção para a matéria sobre o filme Juventude Transviada, o mundo ficou sabendo na manhã deste último sábado (10 de junho de 2017) do falecimento do ator ADAM WEST, o famoso Batman da Série de TV (1966-1968). West morreu em sua casa na Califórnia vítima de leucemia que ele lutava havia poucos meses. Tinha 88 anos de idade. 

O jovem Adam West em publicidade antes de BATMAN
West personificando o milionário Bruce Wayne, alter ego de Batman.


Astro que fez parte de uma geração (principalmente a minha), West também realizou outros trabalhos, seja na TV e no Cinema, mas Batman o imortalizou, tanto que West participou de várias convenções ao longo de quatro décadas sobre seu personagem na TV e participou de inúmeros programas, onde se revestiu de Batman emprestando sua voz nos desenhos dos SUPERAMIGOS e também em OS SIMPSONS. 

West como Batman, ao lado de Burt Ward (Robin)
West em um evento de 2014
Adam West em seus últimos anos.
Recentemente, em 2015, usou sua voz para dublar o Homem Morcego, ao lado do colega Burt Ward (Robin) e de Julie Newmar (Mulher Gato) no também animado BATMAN E ROBIN: O RETORNO DA DUPLA DINÂMICA, desenho que restituiu com perfeição as características da série de 1966 a 1968, onde atualmente estava fazendo um segundo trabalho. Adam era casado com Marcelle Lear desde 1972. O ator deixa seis filhos (quatro com Marcelle e outros dois de dois casamentos anteriores), quatro netos e dois bisnetos. Em 2012, recebeu uma homenagem em Hollywood, recebendo uma estrela no Calçadão da Fama. Na ocasião, o Blog FILMES ANTIGOS CLUB – A NOSTALGIA DO CINEMA, fez uma matéria, que esta a disposição dos leitores neste link: http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/2012/04/o-bom-e-veterano-batman-nobre-adam-west.html

PAULO TELLES

Outras Matérias

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