sábado, 7 de abril de 2018

Moisés, o Legislador (1974): Burt Lancaster Mais Distante de DeMille Como Moisés em "Carne e Osso" Para Rádio e Televisão Italiana (RAI).



Embora produzido para a televisão italiana em formato de minissérie, MOISÉS, O LEGISLADOR (Mosè, la legge del deserto ou em inglês Moses the Lawgiver) foi lançado nos cinemas com grande repercussão. Dirigido por Gianfranco De Bosio, e com roteiro de Anthony Burgess (1917–1993), o filme é uma obra conscienciosa e inteligente para o público telespectador. Entretanto, difere bastante de Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956) de Cecil B. DeMille, em todos os âmbitos, apresentando um Moisés "em carne e osso" como definiu o ator Burt Lancaster (1913-1994),  seu intérprete. Se a fita de DeMille oferecia efeitos visuais monumentais e exageradas citações bíblicas, com um Moisés "acima dos mortais" como o que interpretado por Charlton Heston - o filme de De Bosio fornece um script que eleva o líder dos hebreus a sua intensa humanidade, cheio de calos e consumido pelo deserto árido e infinito. 

O Diretor Gianfranco De Bosio
Burt Lancaster durante entrevista no lançamento da telessérie MOISÉS nos Estados Unidos, em 1974.
Custando um orçamento de aproximadamente 6 milhões de dólares e filmado em verdadeiros cenários bíblicos, que incluem o deserto de Negev, Jerusalém, o Mar Morto, e o Mar Vermelho. Tudo foi minuciosamente pesquisado para o filme, para que fosse demonstrada a maior autenticidade possível com fatos históricos apresentados, o mais distante possível aos velhos épicos de DeMille. Quem pôde explicar isso mais detalhadamente foi o próprio Burt Lancaster, que concedeu entrevista em 1974 durante lançamento de MOISÉS, O LEGISLADOR nos Estados Unidos, pela emissora americana CBS:

- Anthony Burgess escreveu um roteiro magnífico, cheio de gênio e encanto. Teve o talento de saber abordar a religião como algo que brota do povo, de suas necessidades, do povo que sai a procura de Deus para manter-se. Choro quando penso num Moisés dilacerado por todos aqueles atos terríveis ordenados por Deus e que roga ao Senhor que não ponha tanto peso sobre seus ombros. E o diálogo de Burgess é comovedor: “Senhor, não sou um homem como os outros, metido nas mesmas vestes da liberdade de escolher?”.

Anthony Burgess, escritor e roteirista de cinema
Lancaster como um Moisés em "carne e osso" como bem definiu.
Lancaster se preparou definitivamente para o papel lendo atentamente o Velho Testamento, sentindo o peso de cada palavra, e lendo vários livros sobre Moisés, um dos quais apresentava como egípcio. O astro ainda acrescentou:

- A lenda mosaica é anterior a Bíblia. Mas a melhor fonte que encontrei foram as 40 páginas de erudição que a Enciclopédia Britânica dedicou a Moisés.



Lancaster ainda na mesma entrevista, não poupou mencionar Cecil B DeMille:

- Ninguém poderá nos acusar de ter tratado o Velho Testamento em “Moisés, o Legislador”, de forma leviana.  A verdade é que os espetáculos de Cecil B. DeMille nada tinham a ver com a Bíblia. Eram épicos monumentais, mas sem pretensão de ser religiosos, mesmo quando o velho DeMille afirmava o contrário



Lancaster se irritou ao ser comparado a Charlton Heston, o Moisés do clássico Os Dez Mandamentos:


- Escutem, se Charlton ficou encurralado em filmes bíblicos, a culpa é dele, porque foi ele que aceitou a limitação. Afinal de contas, como disse Burgess, nós temos a liberdade de escolha, depende do que nos satisfaz. Ajo por instinto, e se alguma coisa me intriga, eu procuro faze-la logo


O Veterano Anthony Quayle como Aarão, irmão de Móisés (Burt Lancaster). Na presente foto, com Ingrid Thulin, que faz Miriam.

MOISÉS, O LEGISLADOR,
abrange toda a história do líder dos hebreus, desde seu nascimento até sua primeira visão da Terra Prometida. A realização da série foi possível graças ao apoio que uma cadeia de organizações – a RAI, Radio Televisione Italiana (Roma) e a Independent Television Corporation (Londres) – deu a um grupo de talentos formado pelo produtor Vincenzo Labbela, o diretor De Bosio, e os atores  de variadas nacionalidades, como Lancaster dos Estados Unidos, Anthony Quayle (1913-1989) da Inglaterra, Ingrid Thulin (1926–2004) da Suécia, e Irene Papas da Grécia. 


Lancaster com Irene Papas, que faz Zippora, sua esposa (foto acima). Na foto presente, Burt recebendo instruções do diretor italiano De Bosio (de costas). 
O roteirista Anthony Burgess optou em não seguir o texto bíblico pela sua falta de unidade, pois pretendeu dar um dialogo moderno, dinâmico, e atual ao seu “Moisés”. A maioria dos livros de Burgess é escrita num clima de suspense que prende o leitor desde a primeira página até o fim. O escritor declarou:


- De fato! A adaptação de “Moisés” tem a mesma atração. Não que eu vá transformar a história do Êxodo num Thriller, mas quero dar a mesma carga elétrica dos meus livros e contos, com certa violência, determinação, e decisão. Forças são absolutamente necessárias deste gênero. Não posso colocar nos diálogos versos bíblicos, senão todos iriam dormir diante da televisão e meu objetivo é exatamente o contrário: quero acordar o público e mostrar que Moisés foi um homem como nós. Moisés é o deserto árido, contínuo, forte, misterioso, fascinante, infinito


Aarão e Moisés encontram o Faraó Mernephta (Laurent Tarzieff)

As filmagens de MOISÉS, O LEGISLADOR (TV - 1974)

MOISÉS, O LEGISLADOR, foi apresentado na televisão italiana com grande sucesso, com 8 episódios perfazendo sete horas de apresentação sem comerciais. Foi feita uma versão para os circuitos comuns de cinema, com duração de 141 minutos de projeção. 

A TRAMA
A Princesa Bithia (Mariangela Melato) adota o bebê Moisés, salvo do decreto de morte aos hebreus recém nascidos.
Preocupados com a expansão das tribos de Israel, o Faraó egípcio Mernephta (Laurent Terzieff, 1935-2010) decreta que toda criança hebreia do sexo masculino deve morrer. Entretanto, Moisés é salvo e criado na corte egípcia. 

Criado na côrte egípcia, o jovem Príncipe Moisés (vivido por Bill Lancaster, filho de Burt) descobre sua origem hebreia. 
Anos depois, seguindo as ordens de Deus, Moisés une-se a seu irmão Aarão (Anthony Quayle) para iniciar a libertação dos hebreus.
Moisés, sua esposa Zippora (Irene Papas) e seu filho.
Anos depois, já Príncipe do Egito, o jovem Moisés (Bill Lancaster, 1947-1997 – filho de Burt), acaba matando um guarda do faraó para proteger um hebreu, e foge da corte. Acaba pairando no deserto, onde conhece Zippora (Irene Papas), filha do pastor Jethro (Shmuel Rodensky, 1904-1989), e acabam se casando. Mais tarde, Moisés (Burt Lancaster) ouve a voz de Deus e este ordena a libertação dos hebreus, e seu encaminhamento a Canaã. 


Obtendo uma relutante permissão do faraó, Moisés divide o Mar Vermelho e sobe ao Sinai para receber os Dez Mandamentos. 

CURIOSIDADES
Foi Sir Lew Grade (1906-1998) que produziu esta minissérie épica, e tentou fazer com que Lancaster também aparecesse em seu mais ambicioso projeto para televisão, a obra Jesus de Nazaré, dirigido por Franco Zeffirelli em 1977, com roteiro de Anthony Burgess. Mas Burt recusou.

Vale destacar a maravilhosa trilha sonora do Maestro Ennio Morricone e o belo trabalho de fotografia de Marcello Gatti (1924-2013). No Brasil, o filme chegou as nossas salas de exibição com o título de Moisés, o Profeta, com a metragem de 140 minutos de projeção. 

Divulgação do filme pelos jornais do Brasil.
FICHA TECNICA
MOISÉS

O LEGISLADOR
(Mosè, la legge del deserto)
PAÍS – ITÁLIA
ANO – 1974
GÊNERO – DRAMA BÍBLICO
DIREÇÃO – GIANFRANCO DE BOSIO
PRODUÇÃO – SIR LEW GRADE e VINCENZO LABELLA, para a RAI
(Radio e Televisão Italiana)
ROTEIRO – ANTHONY BURGESS
FOTOGRAFIA – MARCELLO GATTI
MÚSICA – ENNIO MORRICONE
METRAGEM – 370 MINUTOS (TV) -  
141 MINUTOS EM EXIBIÇÕES PARA CINEMA


ELENCO
BURT LANCASTER – MOISÉS
ANTHONY QUAYLE – AARÃO
IRENE PAPAS – ZIPPORA
INGRID THULIN – MIRIAM
MOSKO ALKALAI – AMRAM
AHARON IPALÉ – JOSUÉ
JOSEPH SHILOACH – DATHAN
MARINA BERTI – ELISEBA
MARIANGELA MELATO – PRINCESA BITHIA
LAURENT TERZIEFF – FARAÓ MERNEFTHA
BILL LANCASTER – JOVEM MOISÉS
JACQUES HERLIN – MÁGICO
DINA DORON – YOKABED

SHMUEL RODENSKY – JETRO
MARIO FERRARI – FARAÓ RAMSÉS II
SIMONETTA STEFANELLI – COTBI

ANTONIO PIOVANELLI - KORÁ


PAULO TELLES

PRODUÇÃO E PESQUISA 

sábado, 24 de março de 2018

Moby Dick (1956): John Huston Abusa dos Efeitos Cromáticos Em Sua Magnífica Adaptação do Livro de Herman Melville.



Em 1851, o escritor e dramaturgo Herman Melville (1819-1891) publicou um dos romances mais famosos de todos os tempos, Moby Dick. Em 1926, surgiu a primeira versão cinematográfica do livro, com o título de A Fera do Mar (The Sea Beast), dirigido por Millard Webb (1893-1935) e com John Barrymore (1882-1942) como o atormentado Capitão Ahab, ainda na fase do cinema mudo.  Quatro anos depois, em 1930, o mesmo Barrymore repetiria o papel em outra versão da história, agora com o título fiel ao romance, Moby Dick (Moby Dick), dirigido por Lloyd Bacon (1889-1955). 


Herman Melville, autor do romance Moby Dick.
A segunda adaptação cinematográfica em 1930, com John Barrymore.

Em 1943, a Warner, produtora das duas adaptações com Barrymore, queria produzir uma nova versão, com direção de Lewis Millestone, e com Errol Flynn como Ahab, mas o projeto não andou. Entretanto, o gigantesco cetáceo albino foi o “pesadelo” de muito tempo para o cineasta John Huston (1908-1987) desde que leu o livro na juventude. A obsessão de Ahab em capturar a baleia parece encontrar paralelo com a do diretor, que sonhou em levar sua versão cinematográfica e colocar seu pai, o ator Walter Huston, no papel do insensato capitão dos mares.  Em 1953, Huston convenceu a mesma Warner a bancar sua superprodução. Como Walter Huston já havia falecido, o cineasta pensou em seu velho amigo e colaborador Humphrey Bogart para interpretar Ahab, mas Boggie estava sob contrato com a Paramount e não poderia estrelar o filme.  Desta forma, o escolhido foi o galã Gregory Peck (1916-2003) para desempenhar uma figura atormentada, amargurada, e psicótica, e Huston aprovou esta escolha por conta própria.

O diretor John Huston.
O galã Gregory Peck deixou a barba crescer, para interpretar uma figura atormentada.
Além de ser um grande épico de aventuras, a versão de MOBY DICK (Moby Dick, 1956) de John Huston, assim como o romance original, é uma metáfora da luta do homem contra o imponderável, ou como alguns creem e dizem, contra Deus.  Huston se encarregou do próprio roteiro junto ao escritor de ficção-científica Ray Bradbury (1920-2012), onde ao longo da narrativa se abusa de símbolos e monólogos, revelando aos poucos a personalidade obsessiva de Ahab (Gregory Peck), compartilhada por experiências cromáticas do diretor e do fotógrafo Oswald Morris (1915-2014). 

Gregory Peck como Ahab.
Orson Welles como o Reverendo Mapple.
O cineasta e ator Orson Welles (1915-1985) manifestou desejo de interpretar o personagem central para Huston, mas este recusou a ceder o papel que já era de Gregory Peck. Em tom de brincadeira, alegou para Welles, já acima do peso, que não haveria espaço para “duas baleias em seu filme”. Sem querer ser descortês para com o amigo, Huston deu ao cineasta a parte do Reverendo Mapple, com breve participação de Welles. 

Richard Basehart como Ismael, o narrador da história.
Leo Genn como Starbuck, o imediato de Ahab.

A tripulação do "Pequod", com Ahab no comando na captura a baleia.
Toda trama descreve a odisseia do navio “Pequod”, que deixa em 1841 o porto de New Bedford, Massachusetts, sob o comando de Ahab, uma figura titânica que obstinadamente se entrega a busca da baleia branca de nome Moby Dick, que lhe “roubou uma perna”, símbolo metafísico da divindade, força onipresente e escravizante, em que o capitão vê um maligno ser racional a atormentar a raça humana.  O duelo maniqueísta da novela original, redigida em prosa bíblica- Shakespeariana, é transposto para o cinema em todas as suas nuances de blasfêmias e tragédias. Richard Basehart (1914-1984) interpreta Ishmael, o marinheiro do “Pequod” que acabou afundado e único sobrevivente do ataque da baleia a embarcação, sendo ele o narrador dos fatos. Leo Genn (1905-1978) é o imediato Starbuck, que receia pelo comportamento de Ahab e teme pela vida de seus marinheiros.



Capitão Ahab, obcecado em capturar Moby Dick, a baleia que o mutilou.  
MOBY DICK foi rodado durante seis meses em 1954 nas costas irlandesas de Youghal e Fishguard, na Ilha da Madeira e nos Açores, estreando apenas dois anos depois, isto porque Huston e o fotógrafo Oswald Morris (que também colaborou para o diretor em Moulin Rouge, em 1952) pesquisaram um novo estilo cromático de fotografia, mesclando negativos coloridos e em preto & branco, gastando meses nesse trabalho até obter um efeito pictorial então inédito na época. 





MOBY DICK é o relato de uma espantosa caçada a uma fera do mar, mas mais um estudo áspero dos abismos profundos que a mente humana pode abrigar. Cheia de labirintos filosóficos, recordações históricas, arcaísmos e ensinamentos citológicos, trazidos do próprio livro de Melville. A princípio, esta obra prima do Mestre John Huston provoca aquela reação de enfadonho no espectador justamente pele mensagem um tanto filosófica, espectador este que busca apenas aventura e diversão. No entanto, seu impacto pictórico é tremendo e absorvente, quase superando o fator negativo que é o diálogo difícil.


O ator Jose Ferrer visitando Huston e Peck durante as filmagens.
Peck, Leo Genn, e Huston, em momento de descontração num intervalo de filmagem.
Mas MOBY DICK tem passagens antológicas que devem ser destacadas, entre elas a morte de Ahab, emaranhado nas costas dos arpões que penetravam nas carnes do gigantesco cetáceo.  Apesar de bem sucedido nas bilheterias, a atuação de Gregory Peck foi criticada. Mas John Huston defendeu o ator, e ao longo de sua vida o cineasta sempre considerou um de seus melhores filmes e um de seus prediletos, considerando uma injustiça as criticas a atuação de Peck como Ahab.  Huston declarou:



Pessoalmente, acho que Greg Peck deu dignidade ao papel de forma soberba. Ele revelou a obsessão de Ahab através das palavras ditas suavemente, numa perturbadora, controlada intensidade de pensamento e ação, como se sua alma tivesse sido trespassada por um relâmpago. Fora do bombástico e desvairado psicótico do romance original e nem como foi retratado por John Barrymore, como os fãs costumam lembrar”.







A coragem de Gregory Peck em desempenhar uma cena de risco, sem dublê.
Além do elogio do cineasta, Peck ainda demonstrou grande coragem durante as filmagens, pois as sequencias finais tiveram que ser feitas sem dublês, por causa dos Close-Ups. A baleia era, na verdade, um enorme cilindro, ajustado para girar numa marcha continua e havia o perigo da engrenagem parar enquanto o ator tivesse submerso.


O Cast de Moby Dick (1956), e seu diretor.

MOBY DICK É uma realização cinematográfica extraordinária, que o espectador comum possa achar cansativa, mas que é imperativo para uma elite cultural que vê no cinema além de ação e magia a pura arte do entretenimento. 


Peck no remake para TV de Moby Dick, minissérie de 1998, no papel do Reverendo Mapple.
A Título de curiosidade, o livro de Melville teve uma adaptação para a TV em forma de minissérie em 1998, dirigido por Franc Roddam, tendo participação de Gregory Peck como o Reverendo Mapple, papel de Orson Welles na versão cinematográfica de John Huston.


Divulgação do filme pelos jornais nas salas cariocas por volta de 1957.


FICHA TECNICA

MOBY DICK

(Moby Dick)

País – Inglaterra/Irlanda
Ano – 1956
Gênero – Drama/Aventura
Direção – John Huston
Produção – John Huston e  Vaughan N. Dean para a Warner Brothers
Roteiro – John Huston e Ray Bradbury
Música - Philip Sainton
Fotografia – John Huston e Oswald Morris, em Cores
Metragem – 116 minutos.

ELENCO
Gregory Peck – Capitão Ahab
Richard Basehart – Ishmael
Leo Genn – Starbuck, o imediato
James Robertson Justice – Capitão Boomer
Orson Welles – Reverendo Mapple
Harry Andrews – Stubb
Bernard Milles – Manxman
Royal Dano - Elias
Noel Purcell – Carpinteiro
Edric Connor – Dubb
Melvyn Johns – Peleg
Friedrich Ledebur – Queequeg
        Joseph Tomelty - Peter Coffin
Francis De Wolff - Capitão Gardiner
        Seamus Kelly – Flask

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES

sábado, 3 de março de 2018

As Sete Cidades do Ouro (1955): Um dos Primeiros Espetáculos Em CinemaScope Que Adocica a Saga dos Conquistadores Espanhóis, e Sua Expedição a Costa da Califórnia.



AS SETE CIDADES DO OURO (Seven Cities of Gold), produzido em 1955 e dirigido por Robert D. Webb (1903-1990) foi um dos primeiros grandes espetáculos que a 20th Century Fox realizou no formato CinemaScope, processo de tela que revolucionou esteticamente todo o cinema, cujo trunfo começara em 1953 com O Manto Sagrado.


O Cineasta Robert D. Webb
Anthony Quinn como o Capitão Gaspar de Portola.


Richard Egan como o Tenente Jose Mendoza
Quando os espanhóis desembarcaram no México, onde a ferro e fogo escravizaram um povo livre, pilhando seus templos e tesouros para a “maior glória da Espanha”, ouviam sempre falar de sete fabulosas cidades, muito ao norte, cujas ruas e casas eram cobertas de ouro. Desde então, várias tentativas foram feitas para achar o caminho daquela área, quase todas malogradas. Um dia, o Capitão Gaspar de Portola (Anthony Quinn, 1915-2001), que chefiava uma expedição em nome do Rei da Espanha, teve informações seguras sobre a localização das “Sete Cidades do Ouro”.  Portola organizou sua expedição, sob o ostensivo pretexto de reconhecer as terras de El-Rey, mas com o objetivo de saquear os nativos, e assim, abastecer as insaciáveis arca da metrópole, e, naturalmente, reservando uma gorda fatia. 

Os homens de Portola, conquistadores espanhóis
O Capitão Portola e seu auxiliar, Tenente Mendoza.

Ula (Rita Moreno) e Jose (Richard Egan): Um romance trágico.
Esse fato, um dos muitos que envergonham a história do domínio dos europeus nas Américas, serviu de base para o romance Os Nove Dias do Padre Serra (The Nine Days of Father Serra) de Isabelle Gibson Ziegler, que serviu de adaptação para As Sete Cidades do Ouro, escrito por Richard L. Breen (1918–1967) e John C. Higgins (1908–1995). Mas naturalmente, a crueza dos fatos foi adoçada na sua transposição para as telas. Nele, foi incluído um romance entre o Tenente Jose Mendoza (Richard Egan, 1921-1987), auxiliar de Portola, e a princesa nativa Ula (Rita Moreno). Entretanto, o que poderia ser uma relação de amor com final feliz, tem um fim trágico, graças a imposição do “Código de Produtores”, no capítulo que versa sobre miscigenação. De fato, seria preciso um diretor e produtor ousados para fazer um branco e uma índia se casarem num filme em plena década de 1950. Se o cineasta Webb (que também foi o produtor) impusesse tal ousadia, certamente que sua obra seria censurada em muitos estados americanos, sobretudo em lugares onde ainda era reinante a discriminação racial.  Mas, felizmente, a habilidade dos roteiristas faz com que, pelo desenrolar da trama, o desfecho entre Jose e Ula se torne lógico e funcional.

Michael Rennie como o Padre Junipero Serra.
Muitas vezes, o Padre Serra bate de frente com os oficiais espanhóis...


...para poder levar sua missão com fé e otimismo.
Robert D. Webb, embora um diretor dos menos famosos, mas de grande categoria, nos dá uma obra de grande qualidade artística e fundo sentimento humano. O cineasta adota uma franca posição crítica contra os métodos dos “brancos” de impor a civilização, fazendo do Padre Junipero Serra (Michael Rennie, 1909-1971) o porta voz de seu protesto. Michael Rennie desempenha magnificamente um personagem que, de fato, existiu.  Serra foi um frade franciscano que fundou cadeia de missões na Alta Califórnia, parte da província de Las Californias na Nova Espanha, atual Califórnia. Entre as missões fundadas encontram-se os núcleos que deram origem a Los Angeles, San Francisco, Sacramento e San Diego. O Padre Serra foi beatificado pelo Papa João Paulo II (1920-2005) em 25 de setembro de 1988. Foi canonizado pelo Papa Francisco em 23 de setembro de 2015, por ocasião da sua viagem apostólica a Cuba e Estados Unidos.

Mesmo doente, o Padre Serra não desiste de prosseguir com sua missão, e conta com a ajuda de...
...Jose Mendoza, de quem se torna amigo.
Além da habilidade de se desenvolver uma história que ainda fuja dos verdadeiros acontecimentos, Webb ainda envolve a ação de AS SETE CIDADES DO OURO num clima de surda violência, surpreendendo a plateia com impacto brutal de certas cenas, como o massacre de índios indefesos e pacíficos, apenas para mostrar o poderio dos conquistadores. Por outro lado, no romance entre o tenente e a nativa, um misto de pureza e sensualismo dosados com grande delicadeza, tão certo como um raio luminoso na sombria atmosfera da história.

Jeffrey Hunter como Matuwir, líder dos índios e grande guerreiro...
...que é capturado por Mendoza. Com o tempo...


...Matuwir se torna amigo do Padre Serra, que lhe tenta ensinar os princípios básicos do Cristianismo.
Webb ainda confirma a confiança que tem em Jeffrey Hunter (1926-1969), novamente no papel de pele-vermelha, como fizera em outro trabalho do diretor, A Lei do Bravo (White Feather, 1955). Hunter se desincumbe muito bem como um guerreiro e chefe índio que se opõe a conquista dos espanhóis e a missão do Padre Serra, com qual depois passa a ser amigo. Rita Moreno como Ula, e o magnífico Anthony Quinn como Portola, tem bons desempenhos. Richard Egan, embora não bom ator, mas carismático, não chega nenhum momento a comprometer a produção.  A Trilha sonora é de Hugo Friedhofer (1901–1981), e fotografia do competente Lucien Ballard (1904–1988). 


A trama

Em 1769, o Padre Junipero Serra (Michael Rennie) promove uma expedição do México até a costa da Califórnia a fim de estabelecer missões nas novas terras (as baias de San Diego, Monterrey, e San Francisco).  A caravana é liderada pelo Capitão Gaspar de Portola (Anthony Quinn) e seu Tenente José Mendoza (Richard Egan).



Com o tempo, Matuwir e os demais nativos se adequam a missão do Padre Serra.
Diversos contratempos dramatizam a viagem, incluindo ataques sistemáticos dos índios. O líder deles, Matuwir (Jeffrey Hunter) cai prisioneiro da expedição, mas torna-se amigo do Padre Serra. E a irmã do jovem guerreiro, Ula (Rita Moreno) deixa Jose fascinado. Tudo se complica quando Ula morre acidentalmente e os índios declaram guerra à caravana.


Com a morte de Ula, irmã de Matuwir, o destino da expedição fica em jogo, bem como o trabalho missionário do Padre Serra.
A acrescentar
AS SETE CIDADES DO OURO é, na realidade, um canto nobre de amor a terra e de reconhecimento dos erros cometidos no passado pelos colonialistas para com os povos das Américas, sob a forma de uma aventura indianista, e muito embora haja irregularidades históricas, é um épico de grandes proporções. A película chegou as salas cariocas em novembro de 1956. 


FICHA TECNICA



AS SETE CIDADES DO OURO

(Seven Cities Of Gold)

PAÍS – ESTADOS UNIDOS
ANO – 1955
GÊNERO – AVENTURA/ÉPICO
DIREÇÃO - ROBERT D. WEBB
PRODUÇÃO – ROBERT D. WEBB, BARBARA McLEAN, DARRYL ZANUCK, para a 20th Century Fox.
MÚSICA – HUGO FRIEDHOFER
FOTOGRAFIA – LUCIEN BALLARD/EM CORES
METRAGEM – 105 MINUTOS


ELENCO
RICHARD EGAN – TENENTE JOSE MENDOZA
ANTHONY QUINN – CAPITÃO GASPAR DE PORTOLA
MICHAEL RENNIE – PADRE JUNIPERO SERRA
JEFFREY HUNTER – MATUWIR
RITA MORENO – ULA
EDUARDO NORIEGA – SARGENTO
LESLEY BRADLEY – GALVES
JOHN DOUCETTE – JUAN
VICTOR JUNCO – TENENTE FACES
JULIO VILLAREAL- VILA
KATHELEEN CROWLEY – A MÃE
PEDRO GALVAN – O PAI


PAULO TELLES
PRODUÇÃO E PESQUISA