domingo, 26 de novembro de 2017

Meu Ódio Será Sua Herança (1969): A Obra de Sam Peckinpah Que Revitalizou o Western Americano.




MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (The Wild Bunch), produzido em 1969 e dirigido por Sam Peckinpah (1925-1984) é considerado um divisor de águas no cinema, em especial para o Western, visto que o gênero genuinamente americano precisou evoluir por conta do sucesso dos faroestes europeus que eram a popularidade da época. Com argumento do próprio cineasta, The Wild Bunch marcou por estilizar a violência (coreografada ritualisticamente em câmera lenta), desglamurizando “mocinhos”, e por mostrar um Velho Oeste verdadeiramente sujo e cruel, com personagens anacrônicos e decadentes, corrompendo todas as legendas românticas apresentadas desde então pelos cineastas John Ford e Howard Hawks. Entretanto, seu lançamento provocou polêmicas, pois o produtor Phil Feldman (1922-1991) cortou a revelia do cineasta 16 minutos da metragem original, provocando protestos de Peckinpah e da crítica. As versões lançadas no mercado de Vídeo Home System (VHS) nos Estados Unidos na década de 1980 tinham 145 minutos de projeção (a mesma lançada, atualmente, em DVD e Blu-Ray pela Warner), enquanto as que foram lançadas exclusivamente para a televisão tinham apenas 134 minutos. 


O cineasta Sam Peckinpah.
O faroeste americano começou a declinar nos Estados Unidos no começo da década de 1960, sendo superados pelos faroestes italianos dirigidos por Sergio Corbucci (Django, 1966) e Sergio Leone, que realizou uma trilogia inesgotável (Por um Punhado de Dólares, 1964; Por Uns Dólares a Mais, 1965; Três Homens em Conflito, 1966). Diretores e produtores em Hollywood precisaram se reinventar se não quisessem ver o gênero cinematográfico americano por excelência perder concorrência. E eis que surge o ousado Sam Peckinpah para salvar e dar sobrevida ao gênero, que em realidade, nunca foi extinto, mas ficou adormecido por alguns anos entre os finais da década de 1970 até a primeira metade da década seguinte. Sam trazia em seu sangue uma mistura de irlandeses e índios paiute. Nasceu e cresceu numa fazenda no Norte da Califórnia aos pés de um monte que leva o nome de seus antepassados pioneiros. Era herdeiro de uma longa linhagem de criadores de gado, advogados e aventureiros, mas acabou se tornando a Ovelha Negra da família, pois não demorou e o jovem Peckinpah se rebelou contra o estilo de corte marcial que o pai implantou em casa. Foi para a Escola Militar, tornou-se fuzileiro naval, e serviu durante alguns anos na China.


Sam Peckinpah analisando o panorama para uma das cenas de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969).
Justamente por possuir uma personalidade estourada e agressiva que Peckinpah foi despedido pela produção da Columbia Pictures depois do mal sucedido Juramento de Vingança (Major Dundee, 1965), seu trabalho anterior. Ficou três anos desempregado, até que em 1967, recebeu o projeto de um western que a Warner Brothers estava desenvolvendo, sobre a história de dois amigos bandoleiros que se traem na fronteira do Texas com o México na virada do século XX. Peckinpah se interessou pelo pré-argumento e achou que poderia transforma-lo numa saga de violentas proporções. O cineasta não queria realizar um Western de cowboys durões recheada de velhos clichês, mas levar a trama a um teor psicológico e denso através de seus principais personagens, que almejam realizar a última missão em suas vidas: assaltar um importante banco de uma cidade, e com todo dinheiro reunido, cada um partiria para seu caminho. O roteiro para The Wild Bunch mudou a vida de Sam Peckinpah e revitalizou para sempre o Western americano, que com seu apelo para a violência, reinventou o gênero. 


Peckinpah posando ao lado de seu astro William Holden, Ernest Borgnine, um ator mexicano, e Ben Johnson (atrás).

As filmagens de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA foram feitas integralmente no México, nas cidades de Torréan, El Rincon de Montero, e El Romeral. Em março de 1968, a equipe de filmagem chegou a Parras para iniciar os primeiros trabalhos. Parras foi escolhida a dedo por Peckinpah por ser um local de vários combates e batalhas durante a Revolução Mexicana, período em que enreda o filme. A produção foi orçada em U$S 3, 5 milhões de dólares, com cronograma para ser realizado em 70 dias. Um regimento de cavalaria foi contratado pela Warner, que pagou também a prefeitura da cidade para que atrasasse as instalações de energia elétrica no local por seis meses (na época, um lugar pequeno onde o poder econômico do local era a produção de vinhos, por ser uma área cercada de vinhedos).


O diretor vendo se esta tudo nos conformes para uma grande cena em MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969).
O elenco principal é impecável, fazendo jus ao espetáculo - William Holden (1918-1981), Ernest Borgnine (1917-2012), Robert Ryan (1909-1973), Ben Johnson (1918-1996), Warren Oates (1928-1982), e Edmond O’ Brien (1915-1985). Tudo começa na fronteira mexicana em 1913, quando Pike Bishop (Holden) e sua horda selvagem – Dutch Engstrom(Borgnine), Lyle Gorch (Oates), Tector Gorch (Johnson), e o jovem mexicano Angel (Jaime Sanchez), após assaltar a cidade de San Rafael, são perseguidos pelos caçadores de recompensa de Deke Thorton (Ryan), outrora amigo e parceiro de Pike. A horda foge para o México, onde outro comparsa, o velho Sykes (O'Brien), os espera com cavalos e suprimentos, mas logo descobrem que foram logrados, pois os sacos que haviam roubado do banco continham apenas arruelas sem valor. O fracasso em San Rafael faz logo o grupo refletir se não estariam decadentes e ultrapassados. 


A quadrilha selvagem de Pike Bishop (William Holden), perseguida pelos...

...caçadores de recompensas liderados por Deke Thorton (Robert Ryan), outrora seu amigo e ex-companheiro de crimes.

Pike e seus homens vão para Água Verde, a vila de Angel, onde ficam alguns dias. Pike fica sabendo que a vila fora saqueada pelo General Mapache (Emilio Fernandez, 1904-1986), um bandido protegido pelo governo de Victoriano Huerta e que o pai de Angel fora morto. A horda de Bishop então vai para o quartel-general de Mapache, para negociar seus cavalos. Angel vê Teresa (Sonia Amelio), sua ex-namorada, com o general mexicano e atira nela. Ela cai nos braços de Mapache que, bêbado, não se importa e apenas ri de Angel. Pike e Dutch negociam um roubo de armas do exército com o líder mexicano e seu conselheiro militar alemão, mas deixam que Angel leve uma parte da munição para os rebeldes. Mapache fica sabendo do roubo e o captura e tortura. Pike e seus homens resolvem enfrentar Mapache e resgatar Angel e com isso selam seu destino.
 


William Holden é Pike Bishop, o líder da horda de veteranos e decadentes bandoleiros. 
Ernest Borgnine como Dutch, o braço direito de Pike.

Robert Ryan como o ressentido Deke Thorton. De bandido a caçador de recompensas.
Considerações importantes devem ser destacadas. Para Sam Peckinpah, a selvageria era a defesa da vida e da vitalidade. Ele definia os personagens não como um grupo de meros ladrões e assassinos, mas um grupo que também sabia exercer seu lado humano. No começo da trama, são cruéis com suas vítimas, mas ao mesmo tempo são humanos uns com os outros. É o caso da sequencia de Pike (William Holden) intervendo em ajudar o velho Sykes (Edmond O’ Brien), prestes a ser agredido por Tector (Ben Johnson), que não tolera o ancião. Pike dá uma lição a todos sobre companheirismo e tolerância: “Se você não pode estar com um amigo, você é pior que um animal. Esta acabado. Todos estão acabados!”. O realismo desta e outras cenas imortalizaram definitivamente a obra, como é o caso do divertido banho de Ben Johnson e Warren Oates com três prostitutas dentro de um gigantesco barril. Peckinpah ousou dar conhaques pela manhã para Johnson e Oates cerca de quatro ou cinco horas antes de filmar a sequencia, que foi realizada pela tarde. É percebível notar os dois atores ligeiramente embriagados, mas conscientes em suas interpretações. 


Ben Johnson e Warren Oates são os irmãos Tector e Lyle Gorch.
Jaime Sanchez é Angel, o membro mais novo da quadrilha de Pike. 
Emilio Fernandez como o cínico e cruento General Mapache.
Peckinpah era um diretor imprevisível. De temperamento agitado, ansioso, e às vezes até violento, ele recorreu ao álcool e a cocaína como meio de fuga depois de 1965. Poderia falar bem ou mal de seus atores, mas quando falava mal, nem sempre era no cara a cara. Teria tido um desentendimento com Robert Ryan (que na época já estava doente) e pensou em chama-lo para brigar. Mas ao informarem o cineasta que o veterano astro (morto em 1973) havia sido pugilista e campeão de boxe amador na faculdade, Peckinpah teria se esquivado e passado a tratar melhor o ator. Vale lembrar que Ryan é notório justamente por seu desempenho ligado ao esporte em Punhos de Campeão (The Set-Up, 1949), de Robert Wise, onde sem recursos de dublês utilizou suas experiências no ringue. 


Pike (Holden) intervém para ajudar o velho Sykes (Edmond O' Brien) das agressões de Tector (Ben Johnson).
Peckinpah, de costas e em sua cadeira de diretor, dirigindo Robert Ryan e Albert Dekker em uma das cenas.
Albert Dekker é Harrigan, o dono de uma firma de caçadores de recompensas. Foi o último trabalho do ator no cinema, que morreu em 1969.

MEU ÓDIO SÉRÁ SUA HERANÇA apresenta a virada do século XX. O velho Oeste já não era mais o mesmo e estava mudando de acordo com o avanço do progresso. Os cavalos davam lugar aos automóveis e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) se aproximava. A última cena rodada foi a explosão da ponte, onde todo o bando de Thorton (Robert Ryan) que perseguia Pike e seus homens foi jogado ao rio. A sequencia era altamente arriscada e não havia na época efeitos especiais por computação. As dinamites tiveram que ser explodidas de baixo das plataformas da ponte. Peckinpah estava preocupado que algo saísse errado e houvesse feridos, pois no dia havia ventos fortes e a correnteza do rio estava agitada. Havia botes salva-vidas para todos os cantos e os dublês prontos para ação. Mas ao fim, tudo saiu perfeito e a ponte foi explodida no domingo, 30 de junho de 1968, as 13h55m. Cinco dublês e cavalos foram resgatados com segurança.


Os homens de Thorton partem em busca de Pike e sua gangue.
O destino selado para Pike e seus homens...

...que revidam traição e morte com massacre.

A cena mais violenta, a Batalha do Pátio Ensanguentado, onde Pike e seus homens massacram o bando de Mapache e seu líder (e também são mortos), levou 12 dias para ser concluída. Quando questionado do porque dos bandidos serem os “heróis”, o diretor explicava sua fascinação pelos criminosos do Velho Oeste. Ele mesmo acreditava ser um deles. Em MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA, para todos os pecados existe uma penitência, e para cada ato de traição, a redenção. A relação de Pike Bishop e Deke Thorton é sentida ao longo da obra, onde se nota que mesmo perseguindo o ex-companheiro, Thorton demonstra respeito por Bishop.


Angel (Jaime Sanchez) abre mão de sua parte no roubo de armamentos em troca de uma caixa de dinamites, para liquidar Mapache.
Os irmãos Gorch (Ben Johnson e Warren Oates), tomando banho em uma adega com três prostitutas de Mapache. 
Dutch (Borgnine) e Pike (Holden), fazendo planos para um possível assalto.
Quando tudo esta acabado para Pike e sua quadrilha, Thorton não demonstra interesse em voltar com seu bando de caçadores e receber sua recompensa. Fica um longo tempo sentado fora do pátio, acompanhando a saída dos sobreviventes do massacre. É assim que termina THE WILD BUNCH, num reencontro entre velhos amigos - Thorton e o velho Sikes. Tal como o final de O Tesouro de Sierra Madre (1949), o filme de Peckinpah por um momento nos remete a reminiscência do clássico de John Huston. Tudo termina numa transloucada risada entre Robert Ryan e Edmond O’ Brien, do mesmo efeito como ocorreu com Walter Huston e Tim Holt.  Definitivamente, a mensagem que fica que mesmo em tempos de derrotas, sangue e crueldade, é possível olhar para um novo horizonte e ter disposição para se investir em uma nova chance, uma nova cartada, ou numa nova etapa. É preciso ter ânimo diante dos fracassos e insucessos. As situações não são otimistas, mas nem por isso se pode permitir abalar pelo desânimo e pela derrota. Thorton e Sykes optaram em dar uma nova chance a eles, ao organizarem uma nova horda selvagem composta por velhos e veteranos, certamente tentando provar para o mundo que não são obsoletos e, muito menos, decadentes, em um giro estrondoso de mudanças sociais.


Dutch pronto para a ação.
O velho Sykes (O'Brien) e Pike (Holden), prontos para a aventura.

Tector (Ben Johnson) em apuros.
A Warner convocou uma comitiva de imprensa para o lançamento de MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA nos Bahamas. Mais de 400 jornalistas tiveram presentes e assistiram a sua pré-estreia. Opiniões foram divididas. A extrema violência para os padrões da época redundou em protestos da crítica, que achou o filme niilista e depravado. Uma jornalista do conceituado Reader’s Digest perguntou a Sam Peckinpah por que fizeram um filme tão violento. O diretor e William Holden, ambos de ressaca e com óculos escuros, se entreolharam e inclinaram suas cabeças como se quisessem fugir da situação. Mas o crítico Roger Erbert (1942-2013), que estava entre os presentes, pronunciou-se em defesa de Peckinpah, declarando que THE WILD BUNCH era uma OBRA-PRIMA.  E não foi por acaso que com o reconhecimento e sucesso pelo trabalho que o cineasta foi consagrado por grande parte da crítica como o "Poeta da Violência". Até hoje, muitas de suas obras são sentidas pelos cinéfilos e demais críticos e espectadores. 

Vale reproduzir algumas críticas positivas de alguns jornais importantes na época de seu lançamento:


General Mapache (Emilio Fernandez), na realidade, um bandido rebelde protegido por um ditador.
Mapache sela o destino de Angel...
...como vingança, Pike e sua quadrilha resolvem massacrar os inimigos no pátio.
- “The Wild Bunch” é a mais complexa pesquisa de Peckinpah, sobre a metamorfose do homem em mito. Não Incidentalmente, é também uma violenta e poderosa proeza de criação do filme americano. Por diversas razões, o filme é igualmente o triunfo de Sam Peckinpah e é suficiente para confirmar que seu diretor, ao lado de Arthur Penn e Stanley Kubrick, pertence ao que há de melhor entre os cineastas americanos.
(Time)




A violência e a arte se misturam, na visão de Sam Peckinpah. 

- Acima de tudo, o filme é bem interpretado. Holden, Borgnine, Ryan, e os demais personificam o tipo dos heróis obsoletos das fronteiras, guiados por complexos tão automáticos quanto o gatilho de um rifle. Eles sabem que seus destinos já foram cumpridos. Só lhe resta servir de pastos aos animais. Seus revólveres, entretanto, continuam ativos.
(Evening Standard)


Pike e seus homens, todos mortos.
Toda sorte de depravações na "côrte" de Mapache.

Os caçadores de recompensa de Thorton, que como abutres, além de recolher os corpos, procuram ver se os cadáveres tem ouro nos dentes. 

- “The Wild Bunch” é um estudo da violência, do horror, da crueldade e da inutilidade, mas também da ESTRANHA BELEZA DA VIOLÊNCIA. Trata-se de um western que tem uma significação moderna, pelo menos é o que se espera. As pessoas podem ficar chocadas com o filme, porque ele toca deliberadamente qualquer coisa de instintiva que elas tem em seu próprio interior e que tem medo de olhar em frente: “o rosto fascinante da violência”. É assim que o próprio diretor da fita, Sam Peckinpah, explica “The Wild Bunch”.
(La Figaro)


O Grupo Selvagem de Pike Bishop.
A serenidade de Thorton, que não acompanha seus homens para receber a recompensa.

A violência e a mudança dos padrões do gênero no cinema americano fizeram com que MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA fosse um marco definitivo para consagração, considerado um dos grandes últimos clássicos do Western dos últimos quarenta anos. Em 1999, o U.S National Film Registrary o selecionou para preservação na Biblioteca do Congresso Americano, como sendo de grande relevância histórica, cultural, e estética. A obra ainda foi considerada o 80º melhor filme norte-americano pelo American Film Institute (AFI). Em 2008, o AFI também o classificou como o 6º melhor western de todos os tempos. 

Bo Hopkins como Crazy Lee, um dos homens de Pike, morto em San Rafael.
L.Q.Jones e Strother Martin são T.C e Coffer, dois caçadores de recompensas.
MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA (1969) foi um dos grandes trabalhos de William Holden.
Considerado por muitos críticos americanos até mesmo superior a Rastros de Ódio (The Searchers, 1956), de John Ford, tal observação fez com que a obra de Sam Peckinpah fosse reprisada constantemente nos cinemas a partir de 1976, com seu relançamento mundial. Mais U$S 52 milhões de dólares foram então contabilizados, mas segundo a contabilidade da Warner, MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA continuava no vermelho. Dada à importância do western de Peckinpah, ocorreram outros relançamentos, até a morte do cineasta, em 1984. Somente os herdeiros de Peckinpah é que passaram a receber dividendos referentes aos direitos do diretor, o mesmo acontecendo com o astro William Holden, falecido em novembro de 1981. O produtor Phil Feldman, que faleceu em 1991, teve mais sorte e recebeu alguns milhares de dólares liberados pelos contadores da Warner. Na década de 1990, o cineasta Martin Scorsese encabeçou um movimento pela restauração de The Wild Bunch, com sua metragem original de 145 minutos e 38 segundos, em cópia remasterizada e com som Dolby.


Sam Peckinpah e William Holden.
O cineasta com Edmond O' Brien.
Numa folga das filmagens, Robert Ryan (sem o bigode postiço) mostra uma câmera Super-8 para o amigo e colega Ernest Borgnine.
MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA ainda conta com grandes nomes no seu cast, como L. Q. Jones, Strother Martin (1919-1980), Albert Dekker (1905-1969, em seu último trabalho), Bo Hopkins, Dub Taylor (1907-1994), e Elsa Cardenas. Quando as filmagens terminaram, Peckinpah se afastou da equipe e chorou por alguns minutos em um canto isolado. Isto fez com que o diretor fizesse o seguinte comentário: “O Fim de um Filme é o Fim de Uma Vida”. Sem sombra de dúvidas, The Wild Bunch é um dos melhores trabalhos cinematográficos do "Poeta da Violência" (ou seria, o melhor entre todos?). A trilha sonora foi composta por Jerry Fielding (1922-1980). A fotografia é do experiente Lucien Ballard (1908-1988), e o filme chegou às salas do Rio de janeiro em  1970. 


Com uma garrafa, Peckinpah se despediu de um de seus melhores trabalhos cinematográficos (ou talvez, o maior!): "O Fim de um Filme, é o Fim de uma Vida" (Sam Peckinpah).
O Poeta da Violência: Sam Peckinpah (1925-1984).
Divulgação do filme pelos jornais cariocas em 1970. A obra prima de Peckinpah foi exibido no Cinema Roxy, em Copacabana - uma das raras salas de rua ainda hoje sobreviventes na cidade do Rio de janeiro. 
FICHA TECNICA


MEU ODIO SERA SUA HERANCA
(The Wild Bunch)
PAÍS – Estados Unidos
ANO – 1969
GÊNERO - Western
DIREÇÃO – Sam Peckinpah
PRODUÇÃO – Phil Feldman e Roy N. Sickner, para Warner Brothers e Seven Arts.
ROTEIRO – Sam Peckinpah e Walon Green, baseado em história de Roy N. Sickner
MÚSICA – Jerry Fielding
FOTOGRAFIA – Lucien Ballard, em Cores
EDIÇÃO - Lou Lombardo
VESTUÁRIO - James R. Silke

METRAGEM – 145 minutos (versão do diretor)/134 minutos (em exibições na TV)



ELENCO
William Holden – Pike Bishop
Ernest Borgnine -   Dutch Engstrom
Robert Ryan - Deke Thornton
Edmond O’ Brien - Freddie Sykes
Warren Oates - Lyle Gorch
Ben Johnson – Tector Gorch
Jaime Sanchez – Angel
Emilio Fernandez – Mapache
Strother Martin – Coffer
L. Q. Jones – T.C
Albert Dekker – Harrigan
Bill Hart - Jess
Bo Hopkins – Crazy Lee
Dub Taylor – Wainscoat
Jorge Russek – Zamorra
Alfonso Arau – Herrera
Elsa Cárdenas – Elsa
Fernando Wagner – Mohr
Enrique Lucero – Ignacio
Sonia Amelio – Teresa
Elizabeth Dupeyrón – Rocio

Graciela Doring - Emma



Produção e Pesquisa de

PAULO TELLES

sábado, 7 de outubro de 2017

Pacto de Sangue (1944): O Envolvente Poder de Manipular da “Femme Fatale” Barbara Stanwyck, em Absoluto Clássico de Billy Wilder.


Realizado há mais de 70 anos, PACTO DE SANGUE (Double Indemnity), do diretor Billy Wilder (1906-2002) se consagra entre os maiores filmes de todos os tempos. Em 1940, a Paramount comprou para o cineasta o romance original de James M. Cain (1892-1977) por 15 mil dólares, entretanto, Wilder não pôde contar com seu colaborador habitual Charles Brackett para redigir o roteiro. Wilder tentou com o próprio Cain, mas este estava de contrato com a Fox, fazendo argumento para o western Os Conquistadores (Western Union, 1941) de Fritz Lang.  Três anos depois, o produtor Joseph Sistron (1912-1966) sugeriu a Wilder um escritor de histórias de detetive relativamente desconhecido até então, Raymond Chandler (1888-1959).

O cineasta Billy Wilder.
O escritor Raymond Chandler
Wilder nunca tinha ouvido falar de Chandler, mas Sistrom lhe deu um exemplar do romance The Big Sleep, publicado quatro anos antes. O cineasta gostou do que leu e se surpreendeu quando descobriu que o escritor morava próximo a ele em West Hollywood. Mas Chandler era um homem estranho e cheio de manias, que havia abandonado o álcool. Quando chamado a Paramount para uma conferência sobre a trama, confessou que nem sabia onde era o estúdio. Depois veio o desastroso encontro entre ele e o diretor. Os dois não se simpatizaram. Wilder avisou ao escritor, de forma truculenta, que ele teria que ganhar 150 dólares por semana para fazer o roteiro. Joe Sistrom disse a Chandler que a Paramount tinha pensado em lhe pagar 750 dólares semanais.

Raymond Chandler e Billy Wilder: tensão entre o escritor e o cineasta ao longo de quatro meses que escreveram juntos o roteiro para PACTO DE SANGUE (1944).
Chandler avisou que nunca havia escrito nada para cinema e que pudesse precisar de três a quatro semanas para terminar o roteiro. Wilder estava habituado a gastar meses nesses projetos, e ofereceu ao escritor um modelo de seus scripts, esperando que Chandler pudesse se basear para fazer o roteiro de PACTO DE SANGUE. O escritor voltou um mês depois cheio de impressionantes instruções técnicas, com enquadramentos para close-ups.  Wilder não gostou nem um pouco, mas convidou Chandler a escrever a trama junto com ele em seu escritório.  Ao longo de quatro meses em que foi feito o script para PACTO DE SANGUE, foi torturante para o cineasta ter que trabalhar com Raymond Chandler, que fazia pouco caso dele. Wilder respeitava seu talento, mas exigia respeito em troca, e era o diretor que entendia sobre escrever de cinema. Se Chandler reclamava com amigos que trabalhar com o cineasta encurtou sua vida, da mesma forma Wilder dizia que trabalhar com o escritor o fez envelhecer cinco anos. A tensão entre os dois  fez com que o antes abstinente ao álcool Chandler retornasse ao uísque. 

Fred MacMurray, Barbara Stanwyck, e Edward G. Robinson, os astros de PACTO DE SANGUE (1944).
Fora as desavenças entre o cineasta e Chandler, o fato que as plateias foram beneficiadas com uma excitante obra prima absoluta da quintessência cinematográfica. PACTO DE SANGUE consegue impactar, prender, arrepiar, e intrigar até os dias atuais. Afinal, não é de hoje que a florada de crimes pode ser liderada por femme fatales ou sex appeals, cuja força e poder de manipulação são imensamente investidos. A maneira mais ou menos original de contar a história, cujo criminoso é conhecido nas primeiras cenas, e o incontestável valor cinematográfico de seu diretor e de seus intérpretes principais – Fred MacMurray (1908-1991), Barbara Stanwyck (1907-1990), e Edward G. Robinson (1893-1973) – fazem deste thriller, um dos mais populares filmes criminais de toda a história. 

Fred MacMurray é Walter Neff, um simpático vendedor de seguros, seduzido por uma bela cliente...
Phyllis Dietrichson, vivida por Barbara Stanwyck.
Walter e Phyllis se unem para concretizar um plano macabro.
Melodrama, sim, ou talvez uma história de amor misturada com o crime, porém algo menos superficial, já que a trama se baseia em um crime ocorrido em março de 1927, em Nova York, cometido pela dona-de-casa Ruth Snyder e por seu amante, Judd Gray, um vendedor de 32 anos. Além do excelente roteiro de Wilder e Chandler, o elenco fez a diferença, com uma história de pessoas comuns, nem intelectuais, nem sofisticados, e nem granfinizantes. O filme se aproxima mais do espectador, com uma linguagem de fácil acesso ao público. 

Edward G. Robinson é Barton Keyes, um astuto investigador de seguros.
Keyes é chefe de Walter, e gosta do rapaz. Mas nem desconfia que por trás do então bom moço, tem um assassino...
seduzido e manipulado por uma bela mulher.
A trama versa sobre um simpático vendedor de seguros de Los Angeles, Walter Neff (MacMurray), que se envolve com a sedutora Phyllis Dietrichson (Stanwyck), que quer se livrar do marido milionário, Sr. Dietrichson (Tom Powers, 1890-1955) para poder receber apólice de seu seguro de vida. Não demora para que ambos tramem o assassinato do marido, no entanto, Neff se sente acuado pelo seu chefe e colega de trabalho Barton Keyes (G. Robinson), um veterano investigador de seguros capaz de farejar qualquer tipo de fraude dos clientes.



Walter e Phyllis sempre se encontram as escondidas para melhor execução do plano, seja em um supermercado ou no apartamento de Neff.
Assim como faria em Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boullevard, 1950), Wilder conta a história a partir do fim. Depois de desiludido com Phyllis, esta é morta por Neff, que registra no gravador de Keyes uma confissão que servirá a partir daí como narração em off, no melhor estilo noir da Sétima Arte, caracterizado na arte sombria com temáticas direcionadas ao submundo.Teremos aqui o anti-herói endurecido e cínico atraído por uma mulher fatal para um terreno moralmente movediço. A predominância das cenas noturnas, em que as sombras são usadas de modo dramático e estilizadas, e o dinheiro e a libido como motores da ação, são pontos marcantes em PACTO DE SANGUE, onde há o contraste entre a ensolarada costa californiana e a caracterização sombria dos ambientes fechados, quase sempre com uma contraluz filtrada por persianas.

A caracterização sombria dos ambientes fechados com uma contraluz filtrada por persianas, como se vê nesta cena.
Após matarem o marido de Phyllis, ela e Neff precisar criar um álibi. Mas...
Keyes desconfia que a morte do Sr. Dietrichson não foi um acidente.
Fred MacMurray sem dúvida pegou o melhor papel de sua carreira e quase recusou depois que soube que George Raft e Alan Ladd não queriam desempenhar Walter Neff.  Barbara Stanwyck também quase recusou sua parte como a loura e fatal Phyllis, pois ao ler o roteiro ficou aterrorizada com o enredo. O final da trama chegou a ser alterada. Neff era condenado à câmera de gás numa prisão de Folson. Wilder voltou atrás e achou que este fim era bruto demais e sem sutileza, fora os 150.000 dólares investidos só para recriar a câmera de gás. Novamente, o diretor bateu de frente com Chandler, que não queria reescrever o final, mas a Paramount negociou com o escritor fora dos estúdios.

Finalmente, Keyes descobre que o assassino do Sr. Dietrichson era seu amigo Neff.
Vale transcrever que a cena final é antológica, quando se vê MacMurray ferido e sangrando muito, pedindo a Edward G. Robinson, o investigador da companhia de seguros que ao mesmo tempo também representava uma figura de autoridade paternal, que desse 24 horas a ele para atravessar a fronteira do México:

    - Vc não vai chegar nem no elevador – diz Robinson, acendendo o último cigarro para MacMurray.

MacMurray diz que Robinson não tinha conseguido desvendar o crime porque o assassino “estava muito perto, do outro lado da sua mesa”. Robinson replicou: “mais perto que isso”.

Barbara Stanwyck, em estilo de erotismo.
O erotismo também chega a ser ousado, quase opressivo (pelo menos, para a época), quando Phyllis, em sua primeira aparição, chega com uma toalha envolta do corpo.  Barbara Stanwyck, loura, esta mais linda, atraente, e fatal. Grande intérprete que era, conseguiu fazer muito bem uma personagem dúbia e perigosa, do tipo manipuladora, que todo homem odeia, mas não consegue se livrar. Pode-se dizer que com Stanwyck em PACTO DE SANGUE, a era das grandes fascinadoras e damas fatais chegou a seu auge, depois de Theda Bara e Marlene Dietrich, sendo ainda Barbara precursora de outras femme fatale do cinema moderno, como Sharon Stone e Angelina Jolie. 

Porter Hall no papel de uma testemunha que alega ter conversado com o Sr. Dietrichson antes de morrer.
Embora não tenha sido agraciado com nenhum Oscar, Pacto de Sangue recebeu sete indicações da Academia de Hollywood.  Perdeu os principais para o sentimental O Bom Pastor, de Leo McCarey. Na cerimônia de premiação, quando McCarey se encaminhava ao palco para receber a estatueta de Melhor Diretor, Wilder estendeu o pé à sua frente, fazendo o rival se estatelar de cara no chão. 

Presença do Corpo Policial, acompanhando as filmagens de PACTO DE SANGUE (1944).



FICHA TÉCNICA
PACTO DE SANGUE
(DOUBLE INDEMNITY)
País – Estados Unidos
Ano – 1944
Gênero - Criminal
Direção - Billy Wilder
Produção - Buddy G. DeSylva e  Joseph Sistrom,  para a PARAMOUNT
Roteiro – Billy Wilder e Raymond Chandler.
Fotografia -   John F. Seitz, em Preto & Branco
Figurino – Edith Head
Música – Miklos Rozsa

Metragem – 107 minutos


ELENCO
Barbara Stanwyck - Phyllis Dietrichson
Fred MacMurray  - Walter Neff
Edward G. Robinson  - Barton Keyes
Porter Hall - Sr. Jackson
Jean Heather - Lola Dietrichson
Tom Powers - Sr. Dietrichson
Byron Barr - Nino Zachetti
Richard Gaines - Edward S. Norton Jr.
Fortunio Bonanova - Sam Garlopis
John Philliber - Joe Peters
Douglas Spencer - Lou Schwartz
Edmund Cobb - Condutor do trem
Betty Farrington - Nettie, empregada dos Dietrichson
Bess Flowers - Secretária de Norton
Miriam Franklin - Secretária de Keyes
Sam McDaniel -  Charlie

PAULO TELLES
Produção e Pesquisa.

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