domingo, 26 de março de 2017

Os Imperdoáveis (1992): A Volta Triunfal do Gênero Western sob os auspícios do “Bom, Mal, e Feio” Clint Eastwood.


Em 1992, ano em que foi realizado OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven), produzido, dirigido, e estrelado por Clint Eastwood, o gênero Western já estava praticamente extinto. O estilo declinava desde o fim da década de 1970, e muito embora na metade da década de 1980 viessem sucessos como Silverado (Silverado, 1985) de Lawrence Kasdan, e O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, 1985), também de Clint Eastwood, ainda assim o gênero não conseguia mais atrair o público como foi em outros tempos. 

Clint Eastwood - Ator e Cineasta.
Entretanto, é curioso como deu origem à produção de Os Imperdoáveis, que parecia em 1992 um projeto altamente arriscado, mesmo para um ator e cineasta experiente como Clint Eastwood. Tudo começou na realidade em 1980, quando Clint comprou o roteiro de David Webb Peoples das mãos de Francis Ford Coppola. Coppola estava seduzido pelo script de Webb Peoples, mas desistiu de filmar, acabando por vender a Clint Eastwood. Entretanto, Clint viu que algo poderia não dar certo. Aos 53 anos, em 1983, já detentor dos direitos de filmagem, Clint se achou “jovem e imaturo demais” para prosseguir com o projeto. Por isso, o ator-cineasta arquivou o texto na gaveta por quase dez anos.


O saudoso Richard Harris, com Saul Rubinek,
conversando com Clint Eastwood.
Em 1992, Clint, aos 62 anos, achou que já era hora de rodar Os Imperdoáveis, acreditando que havia amadurecido o suficiente para seguir adiante com a produção. O diretor escolheu as vizinhanças de Calgary, na província de Alberta, no Canadá, para rodar seu Western. Clint sabia que a região de terreno íngreme e desigual se assemelhava ao seu “Oeste Americano dos fins do século XIX”.  Contudo, mais do que um faroeste, o filme representou uma volta, em grande estilo, ao gênero.  Vale lembrar que a trajetória deste carismático artista se deveu a uma grande transição de fatores, pois foi conquistando respeitabilidade à base de pólvora e músculos, mas na medida em que foi envelhecendo, também pelo cérebro e sensibilidade. 


Clint Eastwood, nos tempos da série COURO CRU.

Clint, o "Bom, Mal, e Feio" no cinema.
Clint na direção de OS IMPERDOÁVEIS (1992)


Revelado pelo grande público durante os oito anos em que atuou na TV na série Couro Cru (Rawhide, 1958-1965), Clint carregou desde então a imagem do Cowboy por excelência. Seja na trilogia de Sergio Leone (Três Homens em Conflito, Por Um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais), seja no clássico Josey Wales, o Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales, 1976) em que ele se autodirigiu, ou mesmo como o policial Dirty Harry em cinco produções da série, o ator e diretor nunca se afastou da imagem de bruto, porém justo, ou ainda, O Bom, o Mal, e o Feio, fazendo alusão a um dos grandes westerns italianos que atuou sob a direção de Leone. Entretanto, ao provar somente atrás das câmeras seu talento como diretor na biografia do célebre músico Charlie Parker (1920-1955) em Bird, de 1988, é que o durão Clint também provou lidar com temas sensíveis. 
Clint Eastwood é William Munny...
viúvo, e com dois filhos. A miséria faz
Munny voltar a empunhar armas.
Ned Logan (Morgan Freeman): O melhor amigo de William Munny.
Assim que estreou no Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 1992, Os Imperdoáveis veio enxurrado de críticas positivas, tal como foi nos Estados Unidos, onde o lançamento foi dois meses antes. Cerca de dez milhões de espectadores deixaram mais de US$ 74. Milhões de dólares nas bilheterias (só no mercado americano), e no Brasil, não foi exceção.  Mas pudera, afinal, foi mais um trabalho revisionista no gênero realizado por um grande cineasta, Clint Eastwood, que ainda assinou obras ao estilo, como o polêmico O Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, 1973), um trabalho desmistificador que foi censurado até mesmo por John Wayne, um ídolo de Clint.



Bill Munny (Clint Eastwood), pronto para voltar
a ativa.
O fato é que Clint sempre foi um modelo de cowboy sem os antigos mitos do gênero, sem a legenda romântica tão costumeiramente vista nos filmes de John Ford ou Howard Hawks. Seu conceito do Velho Oeste é sem qualquer vestígio de mitologia romanesca, e é isso exatamente que ocorre com Os Imperdoáveis.  A história é penosa para o “herói”, William “Bill” Munny (Clint Eastwood), um ex-pistoleiro e assaltante de trens. Regenerado por sua mulher – que morreu prematuramente, deixando ele com dois filhos – Munny vive da criação de porcos, ocultando seu passado.


Munny e seu jovem parceiro Schofield Kid
(
Jaimz Woolvett)
Morgan Freeman é Ned Logan.

Ned e Munny partindo para a ação.
A princípio, recusa a proposta de um jovem que se apresenta como Kid  Schofield (Jaimz Woolvett), que procura um parceiro para compartilhar um prêmio para a eliminação de dois homens. Mas sob a pressão da miséria, Munny acaba aceitando a oferta, mas dentro de uma condição: levar consigo um velho amigo necessitado, o negro Ned Logan (Morgan Freeman).
O trio composto por Kid, Ned, e Munny, chegam ao pequeno vilarejo...
cujo xerife é o hipócrita Little Bill Daggett
(Gene Hackman)

Deliah (Anna Levine), a prostituta mutilada.
O trio parte para a sombria cidadezinha de Big Whiskey, onde as mulheres do bordel trabalham em dobro para reunir dinheiro do prêmio. Isto porque uma das prostitutas (Anna Levine), vítima dos dois cowboys procurados pelo trio, ficou marginalizada por cicatrizes no rosto e no corpo. Elas repudiam a cínica indiferença do xerife local, Little Bill Daggett (Gene Hackman), também um ex-pistoleiro, para qual basta impor como punição aos bandidos a “multa” de cinco cavalos.


Richard Harris é Bob English...
que chega a Big Whiskey com seu "biógrafo"...

e se recusa a entregar suas armas.
Little Bill proíbe o porte de armas a todos que se aproximem de Big Whiskey. Ele escorraça na base de socos, chutes, e pontapés um orgulhoso inglês, conhecido como Bob English (Richard Harris, 1930-2002) por se recusar a entregar suas pistolas. Bob é um matador de aluguel que chega a cidade com seu “biógrafo” W.W. Beauchamp (Saul Rubinek), na verdade um escritor de folhetins (os mesmos que criaram as lendas e os mitos do Velho Oeste).


O Xerife Little Bill e seus capangas.
Little Bill, o xerife de ferro, mas sem lei e
sem ordem, motivado pelos seus interesses brutais.
As mulheres do prostíbulo que querem justiça,
lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher). 
Mas contra os cowboys e a bem armada equipe do xerife, Munny conta apenas com a ajuda de seus dois parceiros e das mulheres do prostíbulo, lideradas por Strawberry Alice (Frances Fisher, na época, esposa de Clint Eastwood). Perto do confronto sangrento, os companheiros de Munny hesitam. Violentando sua nova concepção de vida, William Munny precisa enfrentar seus adversários como um verdadeiro “anjo exterminador” como fora no passado. Os Imperdoáveis é uma história onde não há inocentes à vista, nem heróis ou mocinhos, mas sim onde os mitos não conseguem resistir ao clima da realidade, e muito menos, a ausência da legenda romântica. 




Ned Logan (Morgan Freeman), torturado e
morto por Little Bill (Gene Hackman)
A obra foi dedicada pelo diretor a seus dois grandes mentores, Sergio Leone e Don Siegel, "professores" do ator na arte da direção. Clint Eastwood deixou declarado:

- Se tivesse que ser meu último Western, acho que seria uma despedida muito apropriada.




Munny, em um dialogo com Deliah.
Falar de Os Imperdoáveis é também falar da atuação de Gene Hackman, que aos 62 anos e ter participado de centenas de filmes e peças teatrais, recebeu do amigo Clint Eastwood um papel que lhe deu o Oscar de melhor ator coadjuvante de 1993. Sua atuação como o xerife psicótico Little Bill Daggett, um pretenso guardião da moral e dos bons costumes do pequeno vilarejo de Big Whiskey, que defende mais seus propósitos brutais do que a lei que deveria servir. 




A TRISTE FILOSOFIA DO VELHO OESTE SEGUNDO 
OS IMPERDOAVEIS : 
CRITICAS BRASILEIRAS A OBRA DE EASTWOOD 



Inocente de que? Indaga o xerife vivido por Gene Hackman a uma das prostitutas quando reclama do espancamento de um “homem inocente” (Clint Eastwood). Segundo o crítico Arthur Dapieve, que deu uma brilhante nota ao seu comentário no jornal O Globo, de 27 de novembro de 1992, ninguém é inocente em Os Imperdoáveis

- Todos são culpados e estão condenados, mais cedo ou mais tarde, a pena de morte.  Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Sem dúvida, Clint Eastwood deu ao faroeste filosófico um de seus melhores exemplares.



Um fim merecido para Little Bill.
Há alguma virtude no bem? Os fins justificam os meios? Há alguma nobreza na morte? São questões como estas que ricocheteiam através do filme, atingindo o espectador em cheio.  

Ely Azeredo, na mesma coluna e no mesmo jornal, deixou seu parecer:

- Este filme poderia ser a “chave de ouro” de muitas filmografias ilustres. Sem deixar de encantar como espetáculo, é uma reflexão sobre o Western e sua moral. Ultrapassa os limites da “trama”, instigando reflexões de ordem existencial. A dor moral de sua volta às armas é apenas atenuada pela “meia razão” de resgatar a humilhação do amigo torturado (Morgan Freeman). O final só é “feliz” na aparência. Se o amor redimiu Munny, a compaixão e a amizade o levaram de novo para o inferno. Crítica e autocrítica: a mídia (reprsentada pelo escritor mambembe) não enxergou o grande artista por trás da máscara circunstancial de Dirty Harry.



A crítica Miriam Alencar no mesmo tabloide nacional, comentou sobre Os Imperdoáveis:

- Em OS IMPERDOÁVEIS, Clint Eastwood conseguiu juntar um tema com as características clássicas que deram ao Western um lugar de honra na história do cinema. Defende a mulher, pela justiça que deve ser feita à prostituta, cujo rosto foi deformado, e rejeita violentamente o racismo na defesa de seu velho companheiro na luta, Ned Loogan (Morgan Freeman). Não contente com isso, relembra através do duelo final, no bar, um também derradeiro  e brilhante duelo dirigido por Don Siegel, O ÚLTIMO PISTOLEIRO, despedida do maior dos cowboys, seu ídolo confesso, John Wayne.


QUATRO PRÊMIOS DA ACADEMIA 


Clint Eastwood, com seus dois Oscars: Melhor filme e melhor direção.
Há quem dissesse que a 65ª entrega do Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, na noite de 29 de março de 1993, em Los Angeles, teve barbadas, mas nenhuma goleada.  O veterano Gene Hackman já havia subido ao pódio para receber o prêmio como melhor ator coadjuvante, e dedicou o prêmio a um tio, Orin Hackman, jornalista que havia falecido horas antes da cerimônia.  Hackman declarou:

- Mas eu não vou continuar fazendo tantos filmes assim daqui pra frente. Vou dar uma freada.  – emendou Hackman, fazendo um paralelo entre a morte de seu tio e sua própria saúde, que na época de Os Imperdoáveis, estava fragilizada por problemas cardíacos. O ator hoje conta com 87 anos e desde 2004 está aposentado.

Clint e Gene Hackman: Campeões da Noite.
Clint Eastwood provou ser realmente um gigante na noite do Oscar. Na saída da sala de imprensa foi cumprimentado por Al Pacino, que ofereceu um belo contraste à Clint, já que de tão baixinho, Pacino nem chega aos ombros do ator e diretor que vinha com seus dois prêmios , e cedeu-lhe a vez no pódio. Clint, ao verificar que a altura do pedestal do microfone ainda estava ajustado para Al Pacino, fez uma brincadeira, abaixando desajeitado para falar.

Clint Eastwood, entre Jack Nicholson e
Barbra Streisand, na entrega do Oscar de 1993.
Um repórter perguntou a Clint se não havia um “gostinho de vingança” na vitória de Os Imperdoáveis, já que a Academia de Cinema sempre o esnobara. Eastwood respondeu:

- É muito fácil considerar menores os filmes que fiz no início de minha carreira. Talvez porque eles fossem de fato menores. Eu era jovem e estava aprendendo, buscando. Acho que mudei através dos anos.


Clint ainda explicou que foi melhor receber o Oscar naquele momento:

- Se tivesse ganhado antes, talvez não fosse maduro o bastante para apreciar o prêmio.


OS IMPERDOÁVEIS ganhou quatro Oscars: Melhor Filme, Melhor Direção (Clint Eastwood), Melhor ator Coadjuvante (Gene Hackman) e Melhor Montagem (Joel Cox). 

Divulgação do filme nos jornais cariocas, em 1992.
FICHA TECNICA
OS IMPERDOAVEIS
Ano de Produção: 1992
País: Estados Unidos
Gênero: Western
Direção: Clint Eastwood
Produção: Clint Eastwood - Julian Ludwig - David Valdes
Roteiro: David Webb Peoples
Música: Lennie Niehaus
Fotografia: Jack N. Green (em cores)
Montagem: Joel Cox
Metragem: 131 minutos.


ELENCO
CLINT EASTWOOD – WILLIAM “BILL” MUNNY
GENE HACKMAN – LITTLE BILL DAGGETT
MORGAN FREEMAN – NED LOOGAN
RICHARD HARRIS – BOB ENGLISH
JAIMZ WOOLVELT – SCHOFIELD KID
SAUL RUBINEK – W.W BEUCHAMP
FRANCES FISHER – STRAWBERRY  ALICE
ANNA LEVINE – DELIAH FITZGERALD, A MULHER MUTILADA
ROB CAMPBELL – DAVEY BUTTING
BEVERLEY ELLIOT – SILKY
E
Walter Marsh- Barber
Frank C. Turner – Fuzzy
Lochlyn Munro - Texas Slim
Philip Maurice Hayes - Lippy MacGregor
Anthony James - Skinny Dubois

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES

domingo, 19 de março de 2017

A Lendária e Realística Rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford.


Uma das mais célebres rivalidades do cinema voltou a ser notícia nos últimos dias. Recentemente, a rivalidade entre as atrizes Bette Davis (1908-1989) e Joan Crawford (1906-1977) virou tema de uma série de TV, Feud: Bette and Joan, antologia dirigida por Ryan Murphy, e que conta com as excelentes Susan Sarandon (como Bette Davis) e Jessica Lange (como Joan Crawford) nos papéis principais. A trama conta, com muito bom humor, a rivalidade que existia entre estas lendárias estrelas do passado. O foco é os bastidores do filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?), do diretor Robert Aldrich (na série vivido pelo competente Alfred Molina), no qual as duas trabalharam juntas. Mas tal conflito durou anos, muito antes da realização do filme de Aldrich. Feud promete, em oito episódios, levar para o canal FX toda a rixa e complexidade dessas duas grandes atrizes, campeãs do Oscar.


Susan Sarandon e Jessica Lange são respectivamente Bette Davis e Joan Crawford no seriado FEUD, levado ao ar pelo Canal FX.
Betty e Joan ficaram imortalizadas tanto por suas atuações nas telas quanto por suas brigas e desentendimentos fora dos bastidores. Ambas tinham suas similaridades e também suas diferenças. Em comum, as duas enfrentaram problemas com suas filhas (as filhas de Bette e Joan publicaram livros falando mal de suas mães) e o quase declínio de suas carreiras ao atingirem a meia idade.  É sabido que a Meca do cinema sempre procurou manter segredos de seus astros, mas a briga dessas duas deusas da tela, ambas de personalidade muito forte, não foi um deles. Contudo, para tentarmos entender melhor a personalidade de cada uma destas estrelas e os motivos que pudessem levar a esta rivalidade, vamos fazer uma mini-retrospectiva da vida e trajetória delas. 


BETTE DAVIS nasceu Ruth Elizabeth Davis em 5 de abril de 1908, em Massachusetts. Decidida a ser estrela de cinema, demorou em conquistar o tão sonhado lugar ao sol em Hollywood. Em um episódio icônico, o motorista que deveria buscá-la no aeroporto saiu de lá sem ela porque não encontrou “ninguém que parecesse uma atriz”.Davis sempre foi muito mais reconhecida pela qualidade das atuações do que pela beleza (muito embora fosse realmente muito atraente quando mais jovem). Zombaram da aparência fora dos padrões hollywoodianos, mas ela nunca deu confiança, pois como mulher inteligente e a frente do seu tempo, ela reconhecia seu próprio talento.




Estreou na Broadway em 1929 e em 1932 assinou um contrato com a Warner. Teve uma próspera carreira na década de 1930, ganhando dois prêmios Oscar, um em 1935 por Perigosa (Dangerous), dirigido por Alfred E. Green (1889-1960) e outro em 1938 por Jezebel (Jezebel), sob direção de William Wyler (1902-1981). Durante a década de 1940 atuou em inúmeros filmes, incluindo A estranha passageira (Now, Voyager,1942), dirigido por Irving Rapper (1898-1999), onde contém uma de suas frases mais famosas, ditas para o personagem vivido por Paul Henreid (1908-1992): Jerry, don’t let’s ask for the moon. We have the stars (Jerry, não pediremos a lua. Nós temos as Estrelas). 




O contrato de Bette com a Warner terminou em 1949, mas no ano seguinte ela ressurgiu no papel que lhe deu mais uma indicação ao Oscar, Margo Channing, no aclamado A Malvada (All About Eve, 1950), dirigido por Joseph L. Mankiewicz (1909-1993). Sua carreira continuou próspera até o fim da década. No início da década de 1960 voltou em O que terá acontecido a Baby Jane, um clássico que impulsionou a carreira da atriz, que sem preconceitos, também estava fazendo alguns trabalhos na TV. Bette Davis conseguiu solidar sua carreira até o fim da vida, e um de seus últimos filmes foi As Baleias de Agosto (The Whales of August), realizado em 1987, sob direção de Lindsay Anderson.  Davis foi a primeira recordista de indicações ao Oscar. Bette Davis morreu em 6 de outubro de 1989, aos 81 anos.


JOAN CRAWFORD nasceu Lucille Le Seur em 23 de março de 1906, em San Antonio, Texas. Sua infância foi dramaticamente difícil. Filha de uma mãe solteira, ela penou para conseguir uma boa educação e sair de vez da cidade natal. Seu sonho, de início, era ser dançarina, e era boa no que fazia. 




Em 1925 chegou à Hollywood e foi forçada por Louis B Mayer (1884-1957), o Chefão da MGM, a trocar seu nome por um de maior apelo ao público, tornando- se Joan Crawford. Com a Metro, atuou em inúmeros filmes ao longo dos 18 anos de contrato. Assinou com a Warner em 1943 e, dois anos depois, ganhou um Oscar por Almas em suplício (Mildred Pierce, 1945), do diretor Michael Curtiz (1886-1962), e continuou a fazer filmes de sucesso no estúdio, como Precipícios D´alma (Sudden Fear, 1952), de David Miller. Em 1954, realiza para Nicholas Ray (1911-1979) o clássico Johnny Guitar (Johnny Guitar), um faroeste cujo ponto culminante é o duelo dela contra Mercedes McCambridge (1916-2004).



Sua carreira ganhou uma guinada em 1962 com o sucesso de O que terá acontecido a Baby Jane e continuou atuando até 1972. Não teve filhos biológicos, mas adotou quatro, dois dos quais foram excluídos de seu testamento, Christina e Christopher Crawford. Após a morte da atriz, em 10 de maio de 1977, aos 71 anos, Christina publicou Mommie Dearest (Mamãezinha Querida)livro que se tornou best-seller e que descreve o comportamento abusivo de Joan como mãe. O livro deu origem ao filme homônimo com Faye Dunaway no papel de Joan, em 1982.

O CONFLITO ENTRE AS ESTRELAS

Não se sabe ao certo como deu início essa famosa e lendária rixa, mas uma suposição seria que ambas, sendo grandes estrelas nos anos de 1930 e 1940, competiam por papéis principais. Bette era a estrela da Warner, enquanto Joan era a menina dos olhos da MGM. As duas nunca se gostaram, e apesar de terem muito em comum, viviam dando declarações de mau gosto sobre a outra. Bette, com anos de experiência no teatro, costumava dizer que Joan, que tinha sido dançarina antes de atuar, não tinha talento e baseava sua carreira na beleza. É verdade que Bette não era de uma beleza glamourosa, dando a entender que isso poderia ser uma dor de cotovelo da atriz. O certo que tanto Joan quanto Bette eram excelentes atrizes, cada uma com seu método de interpretação.

Bette Davis e Joan Crawford. Uma rivalidade existente de longa data.

Eu sou tão boa em interpretar malvadas porque eu realmente não sou uma… é por isso que a Srta. Crawford sempre interpreta as boazinhas

Clark Gable: um dos muitos lovers de Joan Crawford.

Bette continuou alfinetando Joan, e dessa vez com mais peso:
Ela já dormiu com todos os astros da MGM, exceto a Lassie”.

Em realidade, Joan teve relacionamentos independentes, entre os quais, com Clark Gable (1901-1960), que para ela, foi "um verdadeiro macho" na concepção da palavra, e “consolou” o ator depois que ele perdeu a esposa, Carole Lombard (1908-1942), num trágico desastre aéreo. 

Franchot Tone e Bette Davis em PERIGOSA (1935)
Mas se antes o conflito era velado e se restringia aos bastidores, o negócio ficava ainda mais sério em público, e isto porque surgiu... um homem. Em 1935, enquanto filmava Perigosa, filme pelo qual ganhou o primeiro Oscar, Bette se apaixonou por seu parceiro de cena, Franchot Tone (1905-1968). Na época, Davis ainda estava casada com o namorado da adolescência Harmon Oscar “Ham” Nelson, um músico insatisfeito com a carreira. Como era de se esperar, o matrimônio não estava dando mais certo e estava bem próximo do fim, e Bette enxergou em Tone a paixão pela qual ansiava. “Eu me apaixonei por ele, profissionalmente e intimamente. Tudo sobre ele é elegante, do nome ao comportamento”, afirmou certa vez a atriz.

Franchot Tone e Joan Crawford.
Porém, no meio do caminho existia Joan Crawford, a grande sex symbol da MGM, que, recém-divorciada de Douglas Fairbanks Jr, rapidamente se interessou por Tone. Reza a lenda que ela teria convidado o ator para a casa dela e o recebido completamente nua. Pouco tempo depois, estavam casados. “Ele estava loucamente apaixonado por ela. Eles se encontravam todos os dias para o almoço e, quando ele voltava para o set, estava coberto pelo batom dela. Eu estava morrendo de inveja, claro”, afirmou Bette. Mas se Joan sorriu no amor, Davis gargalhou na vida profissional: Perigosa foi um sucesso de crítica e ela ganhou o primeiro Oscar da carreira. Por ser relativamente novata, não pensou na possibilidade de uma vitória e escolheu um simples vestido azul para a grande noite. Quando Bette foi anunciada como a grande vencedora, Tone foi o primeiro a levantar e deu um caloroso abraço na colega de filme. A mulher do ator, nada mais e nada menos do que Joan Crawford, permaneceu sentada até ele dizer para ela: Amor! Na ocasião, Joan estava com um vestido deslumbrante e coberta de joias. Crawford se levantou, se dirigiu ao marido que estava ao lado de Bette, e olhou altivamente para ela, de baixo para cima, e exclamou em tom bem natural: Querida Bette! Que linda camisola. Também não demorou muito e em 1939, Joan e Franchot estavam divorciados. 



O caminho da fama é um dos mais incertos e, na metade dos anos 1940, a popularidade de Bette Davis estava começando a balançar. Exatamente nesse período, uma cansada Joan Crawford resolveu pedir demissão da MGM e, acabando por assinar contrato com a Warner. Se até então elas trabalhavam em estúdios diferentes e não precisavam entrar em confrontos diretos por causa de certos papéis, agora a rivalidade era real. E se tinha uma coisa que ambas prezavam na vida era a carreira.

Joan e seu Oscar por ALMAS EM SUPLICIO (1945)
O primeiro pedido de Joan no novo estúdio foi um camarim ao lado da rival. Não para provoca-la, mas na realidade, conseguir a afeição dela e até se tornar sua amiga.  Seja por sinceridade ou não, o fato que Joan mandou para Bette presentes e flores para a “colega de trabalho”. Davis nunca aceitou a “cortesia” de Joan e lhe devolvia todos os presentinhos que a rival lhe mandava. Bette considerava esses gestos de Joan como “cantadas”, pois havia a história dentro dos bastidores que Joan fosse bissexual.  E o pior veio por acontecer: Joan topou ser a estrela de Almas em suplício, papel oferecido a Bette, que recusou. Além de se beneficiar com o papel, Joan ganhou seu primeiro Oscar, para espanto e raiva de Bette, que se arrependeu amargamente por ter se recusado a viver Mildred Pierce.


Bette e Joan estudando e discutindo seus papéis para O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE (1962).
O diretor Robert Aldrich assessorando Bette e Joan em O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE (1962).
Antes donas de prolíficas carreiras, elas envelheceram e as ofertas não apareciam mais com tanta frequência no início da década de 1960. Em 1961, o diretor Robert Aldrich (1918-1983) queria reunir duas atrizes veteranas para seu filme e cogitou Davis e Crawford. Joan imediatamente disse que era impossível, afinal, como iriam estar interessados em duas coroas passadas do ponto? Bette ficou enfurecida e mandou uma nota para a rival pedindo que ela nunca mais se referisse a ela nesses termos. Mas era verdade. Aldrich e a produção estavam interessados nas duas, que foram escaladas para estrelar O que terá acontecido à Baby Jane?.  Bette é a Baby Jane do título, uma ex-estrela infantil em decadência e à beira da loucura. Joan é sua irmã Blanche, presa a uma cadeira de rodas.


O filme deu novo fôlego à carreira das duas e se tornou um clássico, mas as filmagens foram um show à parte, tão bom quanto o produto final. Na primeira rodada, Joan exigiu um camarim maior. Bette retrucou dizendo que camarins grandes não fazem bons filmes. Na segunda rodada, Joan que era viúva do presidente da Pepsi, instalou uma máquina da bebida no estúdio. No dia seguinte, Bette não deixou por menos e mandou instalar uma máquina da concorrente Coca-Cola, bem ao lado.


Numa das cenas em que Jane maltrata sua irmã, contam as más linguas que Davis realmente chutou Crawford, para dar mais realismo, e Joan não deixou por menos. No dia seguinte, Joan colocou pesos em suas roupas para a cena em que Jane tinha de arrastar Blanche pelo chão. Conclusão: Bette deu um jeito na coluna e teve de se ausentar das gravações por três dias.

Joan Crawford, abraçada a Patty Duke, recebendo o Oscar por Anne Bancroft em 1962. Com elas, Gregory Peck e Ed Begley, que também conquistaram o prêmio da Academia.
O filme estreou em 1962, recebendo ótimas críticas. As duas rivais foram indicadas a vários prêmios, mas Bette levou uma indicação ao Oscar de melhor atriz no mesmo ano. Como não havia sido indicada, Joan procurou se informar com as outras indicadas ao prêmio da mesma categoria, e soube que uma delas, a atriz Anne Bancroft (1931-2005) estaria ausente na cerimônia. Joan prontamente se ofereceu para receber o prêmio em nome de Bancroft caso fosse ela a vencedora, e Anne aceitou a oferta. Na grande noite, Bette perdeu o prêmio para Bancroft por O Milagre de Anne Sullivan. Joan aproximou-se de Bette, e apenas disse “Com licença”, e subiu ao palco para aceitar o prêmio em nome de Anne Bancroft. 

Bette e Joan em reunião com Robert Aldrich e Joseph Cotten, para COM A MALDADE NA ALMA (1964). Crawford não prosseguiu no filme e foi substituída por Olivia De Havilland.
Com o sucesso de Baby Jane, Robert Aldrich planejou um novo trabalho novamente com as duas atrizes.  Elas assinaram contratos para o novo filme juntas, Com a Maldade na Alma (Hush...Hush, sweet Charlotte), em 1964,  e após poucos dias de filmagens, Joan Crawford passou mal e teve de ser internada. Quando souberam que ela não poderia voltar ao set, resolveram procurar uma substituta. Bette Davis exigiu outra atriz para ocupar o posto de Joan, e assim a escolha recaiu para Olivia De Havilland, com quem Davis mantinha um bom relacionamento dentro e fora dos bastidores.

Uma das fotos publicitárias, que certamente irritou Joan Crawford. Bette, Robert Aldrich, Joseph Cotten, e Olivia De Havilland, aos brindes com Coca-Cola.
Nas fotos publicitárias, Bette fez questão de aparecer segurando uma Coca-Cola, para irritar Joan Crawford, que estava seriamente enferma. A briga continuou, até o falecimento de Joan. Quando Bette foi procurada para falar da morte da antiga rival, ela declarou: ”Não se deve falar mal de quem já se foi, só se deve falar coisas boas, Como?  Que bom, Joan Crawford morreu!“. A vez de Bette chegaria doze anos depois.




A rivalidade entre estas duas grandes estrelas do passado tem suas realidades, e seus mitos, contudo o que as imortalizou em definitivo foram suas soberbas interpretações nas telas, capaz de deixar o mais jovem entendedor de cinema compenetrado, e até mesmo, seduzido e apaixonado. 

Produção e Pesquisa
PAULO TELLES


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