sábado, 14 de março de 2020

A Última Esperança da Terra (1971): Charlton Heston como o “Homem Omega” que Tenta Salvar a Terra.



Charlton Heston (1923-2008) mais uma vez é o representante final da espécie humana. Como fora em O Planeta dos Macacos (1968) e depois em No Mundo de 2020 (1973), Heston no papel do cientista militar - Dr. Robert Neville – acredita ser o único sobrevivente de uma guerra bacteriológica entre a União Soviética e a China em 1975. Encontramos o Dr. Neville em 1977 numa Los Angeles deserta, vivendo em seu apartamento de cobertura, cercado de luxo e de um verdadeiro arsenal. As armas tem função de desafiar os mutantes que sobreviveram à fúria nuclear e agem como vampiros, que sofrem de fotofobia e saem pela escuridão da noite para queimar tudo que restou da cultura humana e fazer guerra contra a herança tecnológica representada pela presença de Neville.  Todas as noites, os mutantes reaparecem para queimar livros, destruir pinacotecas e vestígios de progresso, numa verdadeira orgia de encenação medieval contra tudo que significou o apogeu da ciência e do progresso.

Edição especial e americana do livro I Am Legend, de Richard Matheson, com base na produção A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA (1971)

O escritor Richard Matheson. 
Assim é o enredo de A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA (The Omega Man), realizado em 1971 pelo diretor Boris Sagal (1923-1981), cujo argumento foi adaptado da novela I Am Legend (Eu sou a Lenda), de Richard Matheson (1926-2013), com a qual esse celebrado escritor de ficção científica conquistou a medalha de ouro de literatura nos Estados Unidos em 1954.  Em realidade, THE OMEGA MAN é remake do livro de Matheson, pois a mesma trama havia sido levada ao cinema em 1963 por Sidney Salkow, com o título de Mortos que Matam (The Last Man on Earth), com Vincent Price. E mais tarde, em 2007, refilmado como Eu Sou a Lenda (I am Legend), de   Francis Lawrence, com Will Smith.

Charlton Heston como o Dr. Robert Neville, o único sobrevivente de um ataque bacteriológico que dizimou a Terra...
... sozinho em uma Los Angeles deserta...
...mas será que está mesmo só?
Os mutantes/vampiros (conhecidos como “A Família”) desaparecem nas horas do dia, enquanto Neville busca seus meios de subsistência nas lojas semidestruídas de alimentos, nas farmácias e nas butiques de elegância masculina, isto é, o cientista tem tudo a sua disposição quando bem quer, desde as lojas, os hotéis, e até mesmo as salas de cinema, onde ele mesmo próprio projeta os filmes que assiste. São nessas ocasiões em que ele procura descobrir o esconderijo do líder dos mutantes, Matthias (Anthony Zerbe), cujos seguidores reaparecem à noite para tentar atacar Neville e tudo que sobrou da ciência. Para Matthias, todo progresso foi responsável pela ruína da Terra e o único representante ainda vivo da ciência (no caso, Neville) precisa ser exterminado.  O cientista tem tudo registrado em seu gravador portátil e anota em seu diário todos os movimentos dos mutantes.  Na descrição desta atmosfera, A Última Esperança da Terra se aproxima dos clássicos Os Últimos Cinco (1951, de Arch Oboler) e O Diabo, a Carne e o Mundo (1959, de Ranald MacDougall), que estampavam a solidão dos remanescentes da raça humana.
Neville rastreia os mutantes/vampiros, que agem a noite.
Neville em luta constante contra os mutantes.
Matthias (Antony Zerbe), o líder dos mutantes/vampiros (a "Família"). Ao seu lado, Zachary (Lincoln Kilpatrick), seu segundo em comando.
Entretanto, a narrativa logo se perde nos labirintos das aventuras mais padronizadas do gênero Sci-Fi, quando Neville acaba por descobrir outros sobreviventes humanos como ele. São o caso de Lisa (Rosalind Cash, 1938-1995) e Dutch (Paul Koslo, 1944-2019), que se mantinham as escondidas sem o conhecimento de Neville. Uma noite, o cientista é capturado pelos mutantes, e Lisa e Dutch salvam sua vida. Em contribuição, Neville cuida do irmão caçula de Lisa, Richie (Eric Laneuville), afetado pela bactéria e com risco de virar um dos mutantes. O médico e cientista explica a Lisa que pode salvar a vida do irmão, já que ele conserva uma vacina. Sendo imune, seu próprio sangue pode servir de soro para evitar a propagação da bactéria. Breve, Lisa, que é negra, tem um romance com Neville, numa óbvia mensagem antirracista.

O tribunal dos mutantes, também conhecido como "A Família".
Solitário, não resta a Neville "conversar" e "jogar xadrez" com um busto...
...até conhecer Lisa (Rosalind Cash) uma forte aliada de Neville contra os mutantes.
Paul Koslo é Dutch, um dos sobreviventes e aliados de Neville
A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA tem uma fascinante história, e o script de John William Corrington (1932-1988) e Joyce Hooper Corrington, apesar das concessões ou facilidades com o romântico e o suspense – indecisas entre a defesa de Neville, a relação entre este e Lisa, e a posição dos mutantes contra os perigos do passado, mesmo cometendo várias incoerências ou imprecisões, The Omega Man é um filme atraente, envolvida pela futurística trilha sonora do australiano Ron Grainer (1922-1981) e a fotografia de Russell Metty (1906–1978). Produção de Walter Seltzer (1914-2011).
Neville e Lisa enfrentarão os terrores do fim do mundo...
... e se apaixonarão.

A direção do renomado Boris Sagal , embora eficiente e segura, jamais consegue elevar o nível do romance de Richard Matheson, cuja técnica narrativa obtém nos seus melhores livros uma coerência entre mentes críveis e aceitáveis os argumentos fantasia e realidade torna-os perfeitamente fantásticos e metafóricos em suas histórias. O cineasta e os roteiristas não se aprofundaram bem no comportamento de Neville – o Homem Ômega do título original, começo e fim, que ao se fazer uma alusão a Jesus, acaba “crucificado” doando seu sangue não contaminado para a salvação da humanidade. 

Neville dominado pelos inimigos.

Seu sacrifício não foi em vão.

O diretor Boris Sagal
Talvez tenha interessado ao diretor mais a aventura (que não deixa de ser eletrizante) do que a reflexão, enquanto que no livro de Matheson a aventura serve a reflexão e é esta que dá sentido a aventura. O resultado é um filme com elementos atrativos, mas não muito convincente, apesar dos esforços do diretor e dos cuidados da produção. Charlton Heston, desempenhando mais uma vez o herói que se sacrifica pela humanidade, está ótimo como o Dr. Robert Neville, o Omega Man. A talentosa atriz Rosalind Cash perfeita como Lisa, mas quem mesmo rouba as cenas é o fantástico Anthony Zerbe como Matthias, o fanático mutante convencido de sua missão carismática. Sem dúvida, A ÚLTIMA ESPERANÇA DA TERRA é um verdadeiro clássico da década de 1970. 

Divulgação do filme no Brasil
FICHA TÉCNICA
A ULTIMA
ESPERANCA DA TERRA

(THE OMEGA MAN)
País – Estados Unidos
Ano de Produção – 1971
Gênero – Ficção Científica
Produção - Walter Seltzer, para a Warner Bros (em distribuição)
Roteiro - John William Corrington e Joyce Hooper Corrington, com base no livro I Am Legend, de Richard Matheson.
Música – Ron Grainer
Fotografia - Russell Metty (em cores)
Metragem – 98 minutos

ELENCO
Charlton Heston – Dr. Robert Neville
Rosalind Cash – Lisa
Anthony Zerbe – Matthias
Paul Koslo – Dutch
Eric Laneuville – Richie
Lincoln Kilpatrick – Zachary
Jill Giraldi – Pequena menina
Brian Tochi – Tommy
DeVeren Bookwalter – mutante
John Dierkes – mutante
Monika Henreid – mutante
Linda Redfearn – mutante
Forrest Wood – mutante
PAULO TELLES
Produção e Pesquisa


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sábado, 25 de janeiro de 2020

Uma Aventura na África (1951): John Huston e sua Exaltação aos Valores Humanos, em uma História de Amor e Aventura.



Em 1950, o cineasta John Huston (1906-1988) planejou a adaptação do livro The African Queen, do escritor C.S Forester (1899-1966). Para isso, o diretor teve a brilhante e oportuna ideia de chamar o romancista e crítico James Agee (1909-1955). Agee havia comentado sobre um trabalho de Huston, o documentário The Battle of San Pietro para a revista Time. Huston mandou-lhe um bilhete de agradecimento, e, mais tarde, Agee dedicou ao diretor um penetrante artigo na revista Life.


C. S. Forester: O autor do romance que originou o filme 
UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951)
James Agee, um dos roteiristas de UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951).
De início, o livro de Forester fora adquirido pela Columbia Pictures, que pretendia filma-lo com Charles Laughton e Elsa Lanchester. Depois a Warner comprou o material de veículo para Bette Davis e Humphrey Bogart. Finalmente, Huston e Sam Spiegel (1901-1985) pagaram 50.000 dólares, obtendo os direitos para a Horizon. Assim, UMA AVENTURA NA ÁFRICA (The African Queen, 1951) reverteu numa obra deliciosa cheia de espírito sardônico, mas, ao mesmo tempo, de contagiante alegria, fé, e otimismo.

Humphrey Bogart, um dos astros principais, e o diretor John Huston.
A saúde precária de Agee o impediu de ir a África e Huston solicitou Peter Viertel (1920-2007) ajuda para o roteiro final. Tempos depois, o cineasta declarou:

- C.S Forester disse-me que nunca ficou satisfeito com o final de sua novela. Ele escreveu dois finais: um sudado na edição americana; o outro, na inglesa. Nenhum dos dois lhe agradou plenamente. Achei que o filme deveria ter um final feliz. Viertel e eu escrevemos juntos o meu final, que acabamos filmando.

Viertel escreveu um livro sobre os bastidores de UMA AVENTURA NA ÁFRICA, que inspirou Clint Eastwood a dirigir e estrelar em 1990 o filme CORAÇÃO DE CAÇADOR (White Hunter Black Heart), interpretando o cineasta John Huston, intitulado na fita como John Wilson.

A história começa quando Rose (Katharine Hepburn) perde seu irmão, o missionário Samuel Sayer (Robert Morley), morto pelos alemães durante a I Guerra Mundial.
Com a morte do irmão, Rose une-se ao aventureiro Charlie Allnut (Humphrey Bogart). Mas os dois descobrem entre si muitas diferenças.
Em Setembro de 1914, no raiar da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), alemães dizimam uma aldeia africana e matam o missionário inglês protestante Samuel Sayer (Robert Morley, 1908-1992), cuja irmã, a solteirona Rose (Katharine Hepburn, 1907-2003), foge com o aventureiro canadense Charlie Allnut (Humphrey Bogart, 1899-1957) em seu barco, The African Queen. 

Charlie e Rose precisarão superar suas diferenças, se quiserem sobreviver a perigosa África.
O casal de heróis, apesar de suas inúmeras diferenças de opinião sobre os valores, enfrentam corajosamente o sol e a chuva, a fadiga, mosquitos, cascatas, corredeiras, o perigo de jacarés, e claro, o ataque do famigerado exército alemão. É nessa convivência tumultuada que os dois descobrem o significado da amizade e do amor. De formação autoritária e puritana, Rose manifesta, inicialmente, certa discriminação pelos modos rústicos e vulgares do canadense Charlie. Indiferente aos seus problemas e sentimentos, procura impor seus projetos e pontos de vista ao companheiro de viagem. Este, por sua vez, se sente cada vez mais deprimido e solitário, o que faz com que ele recorra a bebida com intuito de afogar suas frustrações.

E a aventura só está apenas começando!
Enquanto Rose, com um comportamento insensível e recatado, controla de forma rígida suas manifestações de feminilidade, Charlie por sua vez mostra pouco apreço por sua dignidade pessoal. A inglesa almeja uma conduta angelicalmente superior; o canadense, por sua vez, deprecia seus valores humanos. Entretanto, na convivência do dia a dia, Rose vai aprendendo a respeitar o homem que se empenhara em auxiliá-la, dispondo-se a dividir com ele todas as tarefas, mesmo as mais rudes. Por seu turno, a constante presença feminina funciona como um estímulo para que Charlie recupere progressivamente a autoestima e passe a ter um comportamento mais digno.

Mas mesmo com as dificuldades, os dois superam suas diferenças.
Estimulado pela companheira Rose, ele enfrenta com coragem os riscos e encontra os meios adequados para vencer todas as dificuldades. Os dois acabam sendo beneficiados por esta convivência diária. O encontro acidental, resultantes de circunstâncias adversas, vai transformando a viagem numa experiência e compreensão cada vez mais profunda para ambos.

Por fim, Charlie e Rose se apaixonam, e pelo amor, os dois conseguem sobrepujar todos os obstáculos.
Ao longo de toda a odisseia, os dois vão se sentindo estimulados a lutarem juntos pela sobrevivência, confiantes no amparo recíproco e confortados pelos laços de amizade plena e mútua. Por isso, UMA AVENTURA NA ÁFRICA faz um convite à reflexão, através de uma exaltação aos valores humanos de solidariedade, apreço, respeito, e amor recíproco.

Durante as filmagens, John Huston explica como usar um rifle, observado por Humphrey Bogart e sua esposa Lauren Bacall.
Luz, Câmera, Ação! Bogart e Katie Hepburn prontos para mais um Take.
UMA AVENTURA NA ÁFRICA foi rodado em árduas condições no rio Ruky, no Congo Belga, e na Uganda Inglesa, descrevendo com cativante senso de humor a acidentada jornada dos dois protagonistas por rios perigosos, enfrentando malárias, corredeiras, insetos e sanguessugas até o objetivo final, que é por a pique um navio alemão com dois torpedos improvisados.  Essa apaixonante história de aventura e amor conta com a belíssima fotografia de Jack Cardiff (1914-2009), que tão bem consegue captar as belezas naturais do continente africano, tanto fauna quanto flora.  A música de Allan Gray (1904-1973) é outro ponto alto do filme.

Bogart e Huston
Bogart, Huston, Bacall, e o restante da equipe técnica: UMA AVENTURA NA ÁFRICA (1951).

Vale ainda destacar que UMA AVENTURA NA ÁFRICA foi o primeiro filme a cores de Katharine Hepburn. Este grande clássico do cinema de aventura, já imortalizado em listas e antologias como “um dos melhores de todos os tempos”, proporcionou ao mito Bogart o seu único Oscar como Melhor Ator. Até seu falecimento em 1988, o cineasta John Huston costumava declarar que de todos os filmes que realizou, UMA AVENTURA NA ÁFRICA era seu favorito, embora tenha realizado obras de mesmo porte, como O Tesouro de Sierra Madre (1948), Relíquia Macabra (1941), e O Segredo das Joias (1950).


FICHA TÉCNICA
Uma Aventura Na África

(The African Queen)

País Estados Unidos/Inglaterra
Ano de Produção – 1951
Gênero – Aventura
Direção – John Huston
Produção – Sam Spiegel, para a Horizon Pictures, e distribuição pela United Artists (mais tarde para Columbia Pictures)
Música – Alan Gray
Fotografia – Jack Cardiff, em Cores
Metragem – 105 minutos.

ELENCO
Humphrey Bogart – Charlie Allnut
Katharine Hepburn – Rose Sayer
Robert Morley – Reverendo Samuel Sayer
Peter Bull – Capitão do “Louise”
Theodore Bikel – Primeiro Ofical
Walter Gottel – Segundo Oficial
Peter Swanwick – Primeiro oficial do “Shona”
Richard Marner – Segundo oficial do “Shona”

Produção e Pesquisa
Paulo Telles


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EM MARÇO, 3ª TEMPORADA! AGUARDEM!!!

domingo, 22 de dezembro de 2019

Rei David (1985) – Richard Gere como o Rei Bíblico, Em Adaptação Do Diretor Bruce Beresford.



Que o cinema desde os primórdios explorou ao máximo a Bíblia Sagrada e os Textos Sacros não é nenhuma novidade. Os primeiros cineastas sempre encontraram nas histórias do Antigo e Novo Testamento farta matéria prima de alto teor de empatia para realização de grandes espetáculos épicos com milhares de figurantes, locações imponentes, cenários e vestuários suntuosos, que foram elementos atrativos para as bilheterias.  O diretor e produtor Cecil B.DeMille (1881-1959), cuja história se confunde até mesmo com a própria origem do cinema americano, é considerado o Pai das superproduções ao estilo. DeMille gostava de filmar dramas religiosos porque via na Bíblia abundante conteúdo que poderia originar bons roteiros. Um dia, o cineasta declarou:

- Por que eu gosto de filmar dramas bíblicos? Ora a Bíblia sempre foi um Best Seller. Por que iria eu desperdiçar dois mil anos de publicidade gratuita?


Richard Gere como o REI DAVID (1985), do diretor Bruce Beresford.
Dito e feito. No gênero, o lendário diretor realizou O Rei dos Reis (1927), O Sinal da Cruz (1932), Cleópatra (1934), Sansão e Dalila (1949) e Os Dez Mandamentos (1923 e 1956).  Outros cineastas também exploraram a temática religiosa e bíblica, como Mervyn LeRoy (Quo Vadis, 1951), William Wyler (Ben-Hur, 1959), Nicholas Ray (Rei dos Reis, 1961), e George Stevens (A Maior História de Todos os Tempos, 1965), mas estes diretores ainda compuseram suas obras de forma espetacular a maneira de DeMille, algo rompido por Pier Paolo Pasolini ao realizar em 1964 na Itália O Evangelho Segundo São Mateus, que sem os faustos e pompas bem caracterizados dos épicos de Hollywood, apresentava a figura de Cristo mais terrena do que celeste, emoldurado por realismo de cenas e conteúdos sociais.

O cineasta australiano Bruce Beresford.
É exatamente neste contexto que o diretor australiano Bruce Beresford lançou em 1985 a superprodução REI DAVID (King David, 1985). Beresford ficou mundialmente conhecido pelo seu primeiro filme como cineasta, A Força do Carinho/Tender Mercies, recebendo uma indicação ao Oscar como Melhor Diretor em 1983. Beresford ainda trouxe da Austrália uma bagagem expressiva de filmes de publicidade e trabalhos pela televisão. 


Quando resolveu filmar a vida do Rei David, Bruce Beresford não quis simplesmente se basear na história narrada no Antigo Testamento, mas se amparar por pesquisadores e uma excelente equipe técnica para a condução das locações, cenários, e roteiro. Era desejo do diretor de filmar REI DAVID na Terra Santa, local real dos eventos, mas a hipótese foi descartada. Foi na Itália que o cineasta encontrou condições necessárias para os planos que tinha em mente, e a Sardenha foi escolhida para locação (o mesmo lugar que Pasolini dirigiu O Evangelho Segundo São Mateus, na cidade de Matera), onde foram filmadas as cenas de Jerusalém, da cidade de Gath, e as terras de Jessé, o pai de David. Lá, os cenários e equipamentos precisaram ser baixados através de uma garganta, que, a primeira vista, parecia inacessível.


Alice Krige como Bethsabá, um dos amores do REI DAVID (1985).

O maior problema que a produção de REI DAVID enfrentou foi o excesso de chuvas, que além de atrapalhar as filmagens, acabaram por dar a paisagem uma tonalidade demasiadamente esverdeada para o clima semiárido (como é a Palestina) que se desejava transmitir. Em Cesamo, para obter a tonalidade amarronzada que a fotografia requeria, espalhou-se areia sobre relva e arbustos.A grande batalha de Gilboa foi reproduzida nos Montes Abruzzi, que ofereciam uma atmosfera bastante próxima do original, com seus picos nevados e vales pedregosos, onde contou com a participação de milhares de extras, cavalos especialmente treinados para puxar bigas, e mais de 50 stuntmen.


Jack Klaff como Jonathan, o melhor amigo de David.
Ken Adam (1921-2016), desenhista de produção diversas vezes premiado e de grande criatividade (Oscar por Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, 1976) comandou técnicos experientes e também premiados, como John Mollo (1931-2017), responsável pelos vestuários. Molo começou a desenhar os figurinos sete meses antes do início das filmagens, inspirando-se nas pinturas de Tissot, que visitou a Palestina lá pelos idos de 1880. Mollo, considerado um especialista de uniformes militares, também foi detentor de vários Oscars na categoria de vestuário, como Gandhi (1983) e Guerra nas Estrelas (1977).


O casamento de David (Richard Gere) com Michal (Cherie Lunghi), filha do Rei Saul (Edward Woodward).
Saul (Edward Woodward) e seu filho Jonathan (Jack Klaff), que seriam mortos na Batalha de Gilboa.
O roteiro ficou a cargo de Andrew Birkin e James Costigan (1926-2007), que além das pesquisas com renomados peritos e historiadores, utilizaram-se dos sagrados textos de Samuel I e II, Crônicas I, e os Salmos de David para composição da trama. A fotografia, por sinal de primoroso requinte, é do australiano Donald McAlpine. E a trilha sonora do maestro norte-americano Carl Davies.

REI DAVId CONFORME A BÍBLIA E OUTROS TEXTOS HISTÓRICOS.

Conforme o texto sagrado, Davi era filho de Jessé, um pastor. Os livros de Samuel (I Samuel e II Samuel) tratam de sua vida pessoal e monárquica. David é descrito como sendo um homem de valor, chamando à atenção do Rei Saul por sua habilidade como músico, o que lhe rendeu um lugar no circulo real, e posteriormente, com as batalhas contra os filisteus ficou reconhecido como um grande guerreiro. Saul deu sua filha Michal como esposa, e Jonathan, filho do rei, tornou-se amigo íntimo de David.


David e seu pequeno filho Absalão.
A dança de David diante de Deus.


Os sucessos militares de David provocaram a inveja e o cume de Saul, que o obrigou a fugir da corte. Com a morte de Saul, David foi eleito Rei de Judá, e sete anos e meio depois proclamado Rei de Israel. Fez de Jerusalém a capital religiosa e política dos hebreus e para lá transportou a arca sagrada com os Dez Mandamentos. David teve muitas esposas, concubinas, e filhos, e entre estes, queria deixar o trono para Absalão, que contra ele, se revolta. Com a morte de David, seu filho mais novo Salomão assume o trono de Israel. 



RICHARD GERE E O ELENCO

REI DAVID teve, além de milhares de figurantes, cerca de 40 papéis importantes interpretados por grandes nomes, a começar por Richard Gere, que mal havia terminado seu trabalho em Cotton Club (1984, de Francis Ford Coppola) recebeu convite do diretor Beresford para viver o rei bíblico. Gere aceitou o desafio de interpretar o grande Rei dos Hebreus dos 26 até os 70 anos de idade, quando morre. Para o ator, o personagem foi extremamente cativante por seu caráter ambíguo – poeta, guerreiro, pastor, e Rei. Ian Sears vive David na adolescência. 

O ator inglês Denis Quilley como o Profeta Samuel.
Grandes intérpretes ainda compõem o espetáculo, como o inglês Edward Woodward (1930-2009) como o Rei Saul; Alice Krige como Bethsabá, a última esposa de David; Denis Quilley (1927-2003) como o Profeta Samuel, que consagrou David como futuro Rei de Israel; Cherie Lunghi como Michal, filha de Saul e primeira esposa de David; Hurd Hatfield (1917-1998) como o Profeta Abimelech; John Castle como Abner; Jean-Marc Barr como Absalão, filho rebelde de David; Jack Klaff como Jonathan, filho de Saul e melhor amigo de David; e Niall Buggy como o Profeta Nathan.

O veterano Hurd Hatfield como o Profeta Abimelech.
Apesar da produção requintada, o filme não alcançou o sucesso esperado, tornando um grande fracasso nas bilheterias (no Rio de Janeiro, REI DAVID chegou ao Natal de 1985). O diretor Bruce Beresford conseguiu se reabilitar com Crimes do Coração/ Crimes of the Heart, em 1986, e em 1989, um de seus filmes mais famosos, Conduzindo Miss Daisy/Driving Miss Daisy, com Jessica Tandy e Morgan Freeman, foi premiado com o Oscar de Melhor Filme do Ano. Na época do lançamento, especulou-se que REI DAVID de Beresford pudesse representar uma nova onda de filmes épicos, contudo, mesmo com ineficientes resultados, a Paramount empreendeu esse difícil projeto de fazer uma versão integral da vida do Monarca de Israel, explorando seu lado ambíguo, sedutor e político do jovem pastor que se tornou Rei de seu povo.
FICHA TÉCNICA
REI DAVID

(king david)

PAÍS -  Estados Unidos
ANO – 1985
GÊNERO – Épico Religioso/Bíblico
DIREÇÃO – Bruce Beresford
PRODUÇÃO – Martin Elfand e Charles Orme (Produtor associado) para a Paramount Pictures.
ROTEIRO – Andrew Birkin e James Costigan (com base nos livros de Samuel I e II, Cronicas I e Salmos de David)
FOTOGRAFIA - Donald McAlpine (Em Cores)
MÚSICA -  Carl Davis
TEMPO DE PROJEÇÃO – 115 Minutos

ELENCO
RICHARD GERE – Rei David
EDWARD WOODWARD – Rei Saul
ALICE KRIGE – Bethsabá
DENIS QUILLEY – Profeta Samuel
CHERIE LUNGHI – Michal
HURD HATFIELD – Profeta Abimelech
JACK KLAFF – Jonathan
TIM WOODWARD – Joab
IAN SEARS – David como menino
SIMON DUTTON – Eliab
ARTHUR WHYBROW – Jessé, pai de David
CHRISTOPHER MALCOLN – Doeg
MICHAEL MULLER – Abinadab
JAMES COOMBES – Amnon
GINA BELLMAN – Tamar
GEORGE EASTMAN – Golias
GENEVIEVE ALLENBURY – Ahinoan
MASSINO SARCHIELLI – Palastu


PRODUÇÃO E PESQUISA
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FELIZ NATAL E FELIZ 2020!